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Cadência serve para algo?

OU AINDA: a cadência é o VO2máx do nosso século.

Uma das novas manias do corredor moderno que tem aparelho GPS é supervisionar sua cadência, ainda que seja sem tentar interferir demais nela. Seria isso de alguma forma útil?

 

Primeiro alinhemos. Cadência é o número de passos que um corredor dá por minuto a uma determinada velocidade. Os aparelhos de GPS oferecem esse valor automaticamente. Do contrário, um jeito simples de você descobrir a sua é contar quantas vezes você toca correndo o solo com um dos pés (direito ou esquerdo) por exatamente 1 minuto e depois basta multiplicar isso por 2.

 

O valor vai ser algo entre mais de 100 e pouco mais de 200. É aí que a coisa começa a ficar interessante!

 

A eficácia da média de cadência é estatisticamente uma fraude.

 

A cadência passou a ganhar certa atenção quando Jack Daniel, um dos maiores treinadores da história, fez um achado interessante. Em 1984 ele encontrou que os finalistas olímpicos dos Jogos Olímpicos de L.A. daquele ano em seu país tinham uma cadência média de 180 (passos por minuto).

 

De lá para cá este valor virou uma espécie de Santo Graal da corrida. Você deveria imitar os profissionais, uma vez que os finalistas, independentemente da distância da prova, mantinham em média 180 de cadência.

 

Porém, até bem pouco tempo atrás era difícil saber nossa cadência instantânea, sendo assim, ninguém ou pouca gente dava muita importância a essa variável. Uma vez que você paga algumas centenas de dólares em um aparelho e ele te dá essa informação, você acha prudente e útil passar a utilizá-la. Afinal, se o GPS/celular informa, deve servir para algo, certo?

 

Pois é…

 

Hoje os defensores de manter registro da cadência alegam 3 coisas basicamente: que ela melhoraria o desempenho, a eficiência e seria mais seguro (reduziria o risco de lesões). Vamos ver por partes.

 

No esporte é fundamental, ou muito bem-vindo, que observemos o que fazem os melhores. Mas para tal, é preciso separar o que é causa do que é consequência. O que é expressão do que é expressor de uma determinada capacidade atlética.

 

Se você quer imitar os 180 da cadência de um profissional, por que não imitar também o ritmo de 3 minutos por quilômetro dele? Por que não consegue, certo?

 

Eu gosto de dizer que a cadência de um atleta é uma expressão de seu condicionamento. Ele é fruto, não causa. E por que acho isso?

 

Wittgenstein’s Ruler

 

“Quando você usa uma régua para medir algo, você também está usando este algo para medir a régua.”

 

Você sabe que a cadência NÃO pode ser um expressor de desempenho (ou mesmo de eficiência, e tampouco do risco de lesões) pelo fato de que uma vez que você tem o valor dela, você não consegue fazer o caminho inverso, ou seja, com o valor de cadência em mãos, eu não consigo dizer se um corredor é rápido, se ele se lesiona mais nem mesmo se ele é eficiente!

 

Sem essa simetria de duas mãos, essa correlação “a elite corre em média a 180” é inútil!

 

Eu fiz uma série de stories em meu Instagram na qual expliquei esse raciocínio. Você me dá o volume semanal (em quilômetros) de um atleta X (do qual sei sexo, peso e idade, por exemplo) e eu consigo dizer com grande confiança de acerto quanto ele corre nos 5.000m, por exemplo.

 

Você me diz o peso de 2 atletas de altura similar e eu digo quem tem mais chances de vitória em um 10km. Porém, você me dando a cadência eu não consigo tirar NENHUMA conclusão com um mínimo que seja de confiança, seja sobre seu desempenho, sua eficiência ou suas chances de lesão.

 

Um tem 155, outro tem 180 e um terceiro tem 205 e eu não tenho IDEIA de quem chega na frente ou atrás! Ou de quem se machuca mais ou menos!

 

A cadência é assim, uma variável de uma mão, sem relação direta e conhecida com desempenho, eficiência ou lesões.

 

Ao contrário do volume de treino ou do peso do atleta, a cadência não prediz um vencedor, nem mesmo um finalista! Ela tem tanta precisão quanto o acaso, quanto o ato de lançar dados! Sabe por quê?

 

 

Um levantamento recente mostrou, por exemplo, que no Campeonato Mundial de 100km os atletas estavam em sua maioria ou muito acima de 180 ou muito abaixo!

 

E antes que você questione se é correto comparar um atleta amador, em função da velocidade (ritmo) e tempo de esforço desse grupo, temos que um corredor amador é fisiologicamente e no padrão motor muito mais próximo de um ultramaratonista veloz do que de Mo Farah.

 

E falando em Mo Farah…

 

O atleta britânico, após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, migrou para a Maratona. E veja que interessante: sua cadência nos 42km é diferente de sua cadência quando compete nos 10km e de quando competia nos 5.000m…

A nossa cadência individual aumenta com a velocidade da corrida! Espera… e onde fica, então, a 180 como ótima??

Como é que é?!?

Houston, we have a problem!

 

Como saber, então, minha cadência ideal se ela varia?!?

 

Uma coisa que nunca nos contaram é que ela varia com a velocidade. Quando corremos em provas mais curtas (e mais rápidas) ela é maior e vai caindo com o aumento da prova (e redução da velocidade)! Como então ter uma cadência ótima se ela é uma para cada prova, piso e tipo de treino?!

 

Os profissionais de corrida que advogam pelo uso e controle da cadência sem má-fé erram em um conceito básico, porém fundamental…

 

A VARIÂNCIA

 

Não só a variância em função da prova! Reforço: já que a cadência muda mais de 10 ou 15 unidades, eu usaria 180 na Maratona, nos treinos ou numa prova de 3km??

 

Sinal vs Ruído

 

Quando olhamos os dados dispersos da cadência dos diferentes atletas vemos… uma enorme variância! Por quê?

 

Porque a cadência e uma expressão de valências físicas distintas, não um expressor! Ela é consequência, não uma causa!

 

(*outro exemplo aqui é que a elite do esporte passa por um filtro natural de seleção… não almejamos ter a altura ou envergadura desses atletas, mas como a cadência é em parte alterável, inventamos que basta “querer” ou tentar ter a cadência “certa”. Atletas de velocidade também têm uma cadência estupidamente alta, o que faz justamente que eles possam ser elite. Nenhum grande treinador sugere que você tente imitar a cadência dos finalistas olímpicos, por exemplo.)

 

Ou seja, ela é fruto (entre outras causas menores):

 

– Dos níveis de forças do quadril e da panturrilha.

– Dos níveis de mobilidade da articulação do quadril e do tornozelo.

– Dos níveis de flexibilidade de toda a cadeia posterior da perna.

– Varia em função da altura do quadril. (*e aqui OUTRO problema… uma simples diferença de 10 a 15cm de altura de um indivíduo pode trazer diferença de entre 10 e 15 na cadência. Quem está certo? Quem está errado? Quem iremos punir com a cadência “certa” por ele ter a altura “errada”?? O atleta mais baixo ou o mais alto? De quem serraremos as pernas para que ele caiba na cama??)

– E, como dito, da intensidade/velocidade da corrida (aumentando com a velocidade).

 

Se a cadência sobe com a velocidade. Então por que os 180 dos mais rápidos do mundo deveriam ser copiados??

Poder variar a cadência na corrida é assim um recurso do atleta! Mantê-la igual ou constante (seja em treinos ou provas mais curtas) é diminuir os recursos de um atleta! E que treinador em suas plenas faculdades mentais gostaria de limitar um atleta tirando um de seus recursos?!?

 

A cadência é inútil?

NÃO!

 

Ela no mínimo deveria ser APENAS um indicativo de que algo vai muito errado quando ela atinge valores muito errados. E quais são eles? Aqueles fora da normalidade! E quais são?

Não sei, mas algo menor que 130, maior que 230.

 

 

Não existe cadência certa, existe cadência MUITO errada. E isso não é a mesma coisa!

Se os melhores do mundo têm enorme variância, por que almejar 180??

 

Ou seja, a cadência não serviria para indicar algo bom (desempenho, eficiência…), mas limitada apenas a indicar algo ruim, que algo está errado e não quando está certo. Ou seja, quando muito distante da norma, abaixo de 130, acima de 230, por exemplo.

 

 

A Falácia do Melhor Mapa.

 

Ou ainda: Dado não é informação.

Ou ainda (2): apenas treinadores sem “skin in the game” usarão a cadência como norte ou guia de treino.

 

Cadência parece ser basicamente ruído. Este é o erro do porquê tentando analisar nossa cadência acabamos por interpretar ruído e dado como se fosse informação.

 

 

Tomemos um exemplo de gerenciamento de riscos de uma maneira– digamos – mais filosófica. Você tem a opção de fazer uma longa viagem em um avião bem chinfrim com tempo ruim. O que você faz? Resolve trocar o transporte por um trem ou ônibus, certo?

 

Ou ainda, o piloto do avião informa que vocês estão indo para Manaus, mas como ele está sem o radar funcionando, ele usará o mapa que ele tem em mãos, que é o mapa da África do Sul, afinal ”é um mapa”.

 

O dado de cadência é o que temos aqui para o seu treinamento! Ele pode ser seu mapa da África do Sul com você tentando voar para Manaus.

 

Porque diabos usar um dado do qual não sabemos sua utilidade em detrimento daquilo que realmente tem correlação conhecida com desempenho e eficiência?!?

 

E mais do que isso. Corrida é o esporte mais simples que existe. Talvez nenhuma modalidade esportiva olímpica tenha sido mais testada, além de ser a de gesto motor mais simples. É sempre mais provável que aquilo que só você vê e que ninguém mais viu ao longo de mais de 100 anos de história desse esporte mostre que você está provavelmente errado e não certo.

 

Quando você encontra padrões nunca antes notados ou levados a sério (olha! 180 é a média dos campeões, venham comigo!) isso faz você ganhar confiança, ainda que seja apenas ruído, fumaça. E o que você faz? Você intervém, ainda que esteja completamente equivocado.

 

Deixar de ver padrões, nesse e outros casos, é uma vantagem, pois diminui a chance de intervenção equivocada! Não é nada fácil transpor um dado estatístico para algo prático e efetivo! E a cadência, sinto informar, não se mostrou ainda efetivo! Para “nada”! Até hoje, em 100 anos de esporte. Mas pode ser que você esteja certo, e todos os que vieram antes, errados. Essa chance existe. Mas eu aposto contra.

 

 

Por isso o título do texto…

Nos anos 60 e 70 o VO2máximo ganhou um destaque porque confundiram dado com informação. A tara foi tamanha que até hoje aparece gente amadora querendo fazer teste de VO2máximo, algo inútil, distante da prática. Faziam testes caros e achavam que ele tinha que servir para algo. Sinto muito, não serve.

 

Por outro lado, se meu pai amanhã inventar que quer correr, sabendo que ele tem zero intenção de correr muito ou rápido, SIM, eu sugeriria para ele correr com cadência “alta” (sem NUNCA citar o número 180), seria o meu jeito de à distância diminuir as cargas em suas articulações sedentárias e septuagenárias. Tirar qualquer outra conclusão disso (mais eficiência, maior desempenho) é um salto de fé que essa informação não me dá. E que eu não tenho coragem de tomar entre meus orientados.

 

Já ao meu outro atleta, aquele que quer correr rápido e bater o PB dele nos 5km, eu NUNCA mexeria em sua cadência se ela estiver entre 130 e 230…

 

E para terminar, vale dizer que o homem que popularizou a cadência, o grande treinador Jack Daniel, jamais argumentou que ela deveria ser usada como vem sendo pregada (buscando melhor desempenho ou como um fim em si). Ele recomenda que ela deve estar próxima (não acima, mas próxima!) do valor de 180 para “reduzir as cargas de impacto da corrida”. E nisso sabemos que demanda um pouco de fé no assunto prevenção de lesões (o que não é um erro por si só), assim como não tem relação com desempenho ou eficiência.

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Os U$250 no Nike Vaporfly são garantia de 4%?

Dias atrás pelo perfil do Correndo por Aí no Instagram cheguei a um vídeo incrível do Run’Ix. Eles basicamente são um perfil (também no YouTube) com imagens de corrida-raiz. No vídeo em questão podemos ver 3 quenianos (??) disputando os 10km Port Gentil no Gabão. No pé de um deles vai o tênis que encanta a amadores e a quem é pago para falar bem do tênis: o Nike Vaporfly 4%. A mais nova sensação da Nike tem esse nome porque poderia aumentar em 4% a eficiência de corrida de quem o usa. Poderia.

Coisa de um mês atrás o The New York Times publicou um estudo fantástico, incrivelmente detalhado que daria razão à propaganda: sim, quem usou o Vaporfly da marca americana realmente correu mais rápido.

Mas…

 

O estudo em questão observou 500.000 marcas em provas de Meia Maratona e ainda 42km. É muita coisa! Mas porque deveria ser visto com reserva? O primeiro motivo é que esse tipo de estudo devido sua metodologia serve mais para levantar hipóteses, porém, sem poder estabelecer com segurança o que é causa ou consequência. Esse tipo de levantamento estabelece, sim, uma correlação. Abaixo vai um gráfico que parece sugerir causa e efeito entre as duas variáveis, mas trata-se apenas da qualidade de música versus a produção de petróleo nos EUA. Há relação entre elas? Sabemos que não.

Apenas ensaios clínicos randomizados e bem controlados poderiam nos responder: sim, o Vaporfly faz os atletas correrem mais rápido os 21km ou 42km (ou mesmo mais lentos). Mesmo meio milhão de corridas, no modo como foram organizadas as análises, NÃO permitem que tiremos conclusões, no máximo especulacões.

O que me incomoda muito no levantamento do The New York Times que, insisto, é um trabalho no mínimo fantástico, é como temos que ser sempre cuidadosos, céticos. Por alguns motivos. O primeiro em função do healthy user bias, o viés do paciente bem comportado. Esse é autoexplicativo. O indivíduo é tão correto que acaba distorcendo nossos dados. O Vaporfly custa cerca de U$250, é um tênis com pegada de desempenho. É um sinal, ao menos para mim, bem claro de que ele é uma espécie de trunfo que só será usado quando os astros se alinharem para aquele corredor dedicado. O próprio veículo meio que se questiona ao final “(e) se os corredores correram em Vaporfly apenas quando pensavam que poderiam ter sua melhor corrida, poderíamos esperar ver menos deles em dias com condições abaixo do ideal.”

Outro motivo é que a informação é fornecida pelo próprio corredor (via Strava). Quem é corredor sabe como filtramos aquilo que queremos que os outros vejam (e aquilo que não queremos que os outros saibam). Apenas questionários sobre comportamento sexual e comportamento dietético devem ser mais imprecisos e seletivos que os de corrida. E por fim, por que não?, o efeito placebo. Por que alguém não correria bem quando falam que com aquele produto de U$250 ele será 4% mais rápido??

Argumentar que a base de dados é grande pouco importa! Base pequena atrapalha, base grande não necessariamente ajuda! E por fim, voltamos ao vídeo inicial.

É desesperador ver um dos quenianos correndo com esse tênis. Se você não viu ainda o vídeo, veja e repare na parte em câmera-lenta, o queniano da esquerda, em 3º, correndo com o modelo da Nike. A minha descrença (e aqui não vai NADA contra a marca, que é provavelmente de longe a minha preferida), é como ESTE corredor tem um padrão não-natural calçando o tênis. Para o texto não virar uma sequência de tecnicismos, temos que saber sempre que cada atleta em diferentes velocidades tem padrões de pisadas diferentes. Como fazer um tênis atender a cadências e velocidades tão distintas? Isso não existe! Veja que o atleta do vídeo parece correr com um travesseiro aos pés que mais tira seu padrão ideal e natural do que qualquer outra coia..

E aí assim chegamos a meu último ponto.

Se você reparar na tabela dada na matéria com os tênis que propiciariam chances de recordes temos que justamente são os tênis mais leves e do tipo competição que lideram o ranking (com o Vaporfly à frente). E tênis “mais estruturados” (aquele nome que a indústria dá para tênis pesados que não oferecem mais do que apenas conforto e peso) são os mais correlacionados com… piores marcas.

Porém, isso todo mundo já sabia! Ninguém calça um tijolo como o ASICS Kayano ou (qualquer) um da Hoka One One se você quer correr rápido. Só se você for um desaviado, um patrocinado, um influencer ou um gerente de produto de uma dessas marcas você opta por eles ou por um Mizuno Wave Inspire! E quando olhamos na parte de cima vemos justamente os modelos mais leves. Lógico!

Bom, acho que a essa altura você já viu que eu sou cético, BEM cético, quanto a essa melhora que o Vaporfly ofereceria. Para mim ainda é mais uma questão de associação. Mas posso estar errado, lógico. Pode haver um benefício que é improvável demais que seja generalizado por causa da individualidade do padrão de corrida. E para isso basta lembrarmos que no projeto mais ambicioso que a marca já fez, o tênis fez pouco, quase nada, ainda que escolhendo os atletas a dedo.

E se é 4% para um e -10% para outro, como chamá-lo?

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TRATAMENTOS DA MODA. Ou ainda “A Natureza sempre dá um jeito”

Uma teoria apresentada em um congresso recente com resultados preliminares encontrou que corredores que pisam com o calcanhar têm economia de corrida similar àqueles que pisam com a parte mais anterior. Basicamente aquele tem uma extensão maior da panturrilha enquanto este teria maior carga. Ou ainda, usando um clássico de Jeff Goldblum em Jurassic Park (1993): a natureza sempre dá um jeito.

A corrida, não podemos nos esquecer nunca disso, é extremamente simples, antiga, facilmente mensurável, acessível e bem disseminada. Tudo que você tentar (e achar revolucionário), é improvável que não tenham tentado antes, então não assuma a priori que nunca alguém tenha pensado e tentado o que você tem mente. É assim que eu vejo alguns especialistas que vivem de enchê-la de espuma.

 

Quando o gelo engana o fisioterapeuta

O mundo dá voltas e a natureza dará sempre um jeito. Parece ter virado praxe a recomendação de aplicar gelo em atletas mesmo em indivíduos não-lesionados. Ignoremos de cara duas verdades do amador: a primeira é que se você paga uma consulta e seu fisioterapeuta/ortopedista fala que você pode voltar para casa sem recomendar nada, você o avaliará como menos competente. Então ele vai mandar você fazer algo que não te prejudique, mas que não o torne um profissional malvisto. A segunda é que todo corredor amador gosta de ser visto como especial, como mais próximo de um atleta profissional (uma mentira) do que alguém sedentário (uma verdade)*. Então ele gosta de ser orientado a fazer algo que seria “para ele” (personalizado) ou próximo do que faz, por exemplo, um LeBron James, que faz gelo ao final do jogo 2 da apertada série de 7 partidas.

*gosto muito da definição da Runner’s World sul-africana que meio que prega que alguém que corra 30 minutos 3 vezes por semana (a maioria absoluta dos corredores) não tenha um estresse fisiológico que impacte e/ou faça qualquer alteração ser necessária.

Não é de se espantar que estudo atrás de estudo encontre que aplicar o gelo após a sessão de treino traria apenas adaptações negativas, contraproducentes ao corredor não lesionado. Eu sempre me pergunto os motivos das pessoas seguirem orientações esportivas de fisioterapeutas, médicos e nutricionistas… sempre acho que é como perguntar sobre hidrodinâmica a pescadores. As coisas se parecem, mas cada um tem seu funcionamento distinto.

Falo isso porque esporte é basicamente gerenciamento de estresse aplicado a um sistema orgânico complexo buscando adaptação. Qualquer prática incidindo em qualquer uma dessas variáveis vai impactar seu resultado. O nutricionista que sugere a ideia estúpida de oferecer uma refeição com proteína e carboidrato (sempre a 4:1!) sem fome impacta o resultado. O fisioterapeuta ou médico que sugere gelo sem lesão impacta a carga. Costumo dizer que essas são ideias tão esdrúxulas, de quem ainda não entendeu o básico, porque seria o mesmo que pedir que a pessoa corra sempre em descida porque as velocidades médias de treino serão maiores, quando no dia da competição a pessoa correrá no plano (ou na subida).

 

O estresse é essencial

O corpo precisa ser submetido ao estresse. Fazer gelo é tirar as condições para que isso ocorra. Isso porque o estresse revela e propicia benefícios que ficam escondidos no conforto. No conforto do gelo para tirar a dor (que não é fruto de lesão), o conforto da palmilha de silicone ou o conforto da refeição a cada 3 horas. Basicamente, podemos dizer que oferecer nutrientes que ele ainda não “pede” é alterar negativamente toda uma rede complexa que é intrinsecamente regulada. O homem parece ser o único animal que vai à mesa sem fome ou que sai dela sem estar satisfeito. E é o único que sofre de algumas doenças crônicas por causa disso. Por isso mesmo…

Não tente enganar a natureza

Por fim, chego a outro estudo interessante, um envolvendo maximalismo e impacto. O resultado de um levantamento é que aqueles que correram com o que é estupidamente apontado como solução por vendedores (mecanismos para reduzir o impacto na corrida) tiveram maiores cargas de impacto em sua corrida. Ou seja, tênis maximalistas geravam maiores cargas de impacto que tênis neutros.

Veja bem, para vender (mais) tênis, vendedores disfarçados de pesquisadores vieram nos dizer que um pedacinho de borracha ao calcanhar melhoraria um trabalho de milhares de anos Do Criador (seja lá quem seja Ele para você). Não tinha como dar certo! A natureza criou e cria o jeito dela de passar por cima disso. Era óbvio que usar tênis grandes mudaria nosso padrão de corrida. Que ao corrermos enfatizando uma parte do pé fariam as lesões apenas migrarem de lugar.

 

O que os profissionais da saúde fazem é mudar para menos a carga de estresse. Só que, ainda que o condicionamento aeróbio seja calibrado pela média da distribuição de cargas, parte deles, os níveis de força, são calibrados pelos extremos (dessas cargas), então, SIM, diminuir essa carga oferendo as intervenções da moda (gelo, crioterapia, meias de compressão, lanche pós-treino, glutamina….) só pode ser contraproducente.

Não caia nessa pegadinha!

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Reflexões – ultramaratona, Paris e “desidratação”…

Foram quase 3 semanas na Europa. Como sempre, fiz questão de achar alguma prova para participar. Quase cometi uma loucura. Uma vez que decidi fazer minha primeira ultramaratona, havendo a Maratona de Paris uma semana depois, pensei em fazer o combo ultra (89km) e 42km na França. Não me arrependo de ter sido racional e encostar a ideia.

ULTRAMARATONA

Falei um pouco no Facebook da minha estreia na ultradistância participando de uma Ultramaratona escocesa realizada há apenas 10 anos correndo 89km em asfalto plano entre Glasgow (a SP) até a capital Edimburgo (o Rio de Janeiro deles).

Meus treinos foram simples. Muito (muito) kettlebell para fortalecimento, treinos (de corrida ou não) praticamente quase todos sempre em jejum. Fiz 4 longos: três de 24km (um deles precedido por um treino de 1h00 de kettlebell) e um de 30km. Corri quase sempre com um Hattori da Saucony, um tênis minimalista no último grau. Em minhas conversas com quem já fez tal distância a dica era sempre a mesma: quanto menos tênis, melhor. Deixem os tênis estruturados para quem acredita em unicórnios.

No dia corri com um Saucony Type-A5. Claramente quem o projetou nunca correu na vida. Você não corre 5km sem pedras entrarem no solado. Imagine por 90km. Princípio Skin in the game: só treine para maratonas com quem já correu (forte) uma. Só corra com tênis feito por quem corre.

Desde quando amadureci a ideia de fazer uma ultra eu já sabia: não faria essas loucuras que vejo os amadores brasileiros fazendo pré-Comrades indo na Bandeirantes (famosa rodovia paulista) fazer 50-60km. Eu decidi não passar dos 30km. Fazer muito mais do que isso seria apenas cansaço, correndo o risco de se machucar. Desnecessário.

No dia acordei, comi uma fruta, peguei meus 4 gels, uma salsicha (queria o sabor salgado) e bebi bem pouca água e isotônico nos 5 postos que a organização oferecia. O frio e o vento eram parecidos (porém não tão fortes) como o da Maratona de Boston de dias atrás. Larguei e fiz força para não ultrapassar ninguém até a metade. Era a tática.

Minha agenda de treino era simples. De 2ª a 6ª feira pela manhã kettlebell (em jejum), almoçava e bem de noite de 1h00 a 1h20 de bicicleta ergométrica ou corrida (tiros ou rodagem). Sábado pela manhã o longo. Só.

MARATONA DE PARIS

A cada vez que presencio uma prova grande no exterior vou ficando sempre com a mesma impressão: passou de 5.000 pessoas e as provas ficam cada vez mais com a cara da nossa São Silvestre. Quando leio as críticas dos especialistas fico pensando que provas eles acompanharam.

A Maratona de Paris é uma dessas que fala com sotaque. A largada é muito organizada e linda, mas depois disso é um caos saudável. Em vários trechos se afunilam os corredores em uma procissão por uma única pista de rolagem. Não me levem a mal, a prova é espetacular. Só acho que somos desnecessariamente rigorosos com as provas brasileiras. É algo a se pensar.

A EXPO deles é incrível em variedade e pelo formato de colocar tudo que é concorrente em um balaio só, mas isso não resolve o problema do preço. Não comprei nada. Não valia. O que eu fiz foi experimentar (correndo na Expo com) o Enko (foto). Ele é mais uma prova de que é cada vez mais fácil enganar o corredor médio. Mais de U$350 por um trambolho. Use a palavra tecnologia, performance (em inglês), recuperação e outros truques que as pessoas gastam e rasgam dinheiro felizes da vida te agradecendo. Não consigo ter pena, desculpe.

COMMONWEALTH GAMES

Dias atrás um ciclista profissional morreu vítima de um ataque cardíaco e neste domingo durante a maratona que fecha o Commonweath Games (uma competição importantíssima feita entre os países do antigo Império Britânico) um escocês que liderava no 40km com mais de 2 minutos de vantagem “fuma” o motor, perde os sentidos e abandona a prova. Falaram de tudo… que o ciclista estaria vivo caso fizessem exames periódicos (como se nesse nível não fossem feitos) e que o maratonista chegou àquele ponto por desidratação, e não pelo calor infernal que faz na Austrália.

Todo problema complexo tem solução simples. E errada.

O escocês “superaqueceu” e a organização, que tinha um médico a cada 500m na parte final da prova, foi incompetente em não intervir. Dar copinhos de água não resolveria. Público não têm que fazer nada. Adversário também não. É amador que adora para depois fazer textão. Já sobre o ciclista belga, que os urubus de plantão esperem o corpo esfriar antes de querer vender a solução.

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A Economia por trás dos preços de tênis – parte 2 (final)

*sigo viajando sem muita internet… comportem-se!

Ontem falei sobre estratagemas para vender tênis, de como a precificação (determinação dos preços) não obedece a uma soma de custo mais lucro, mas de questões sociais ou posicionamento e estratégia.

Eu terminei falando sobre “custo de oportunidade”. Ou seja, por ele ser finito o dinheiro precisa ser alocado como fruto de decisões de onde gastar. R$899 que você gaste em um tênis significa R$899 que você necessariamente deixa de gastar viajando ou se divertindo (a menos que você esteja na lista da Forbes).

Só que como comparar tênis com viagens? É como comparar maçãs com abóboras. A métrica acaba sendo… o dinheiro! Mas é um medidor que é limitado e impreciso. As duas pontas do mercado atribuem valores distintos. Um quer pagar muito, o outro (acha que) quer pagar pouco (*e digo “acha que” porque muitas vezes ele quer pagar caro, ainda que negue). O meu tênis mais caro custou R$260 (um New Balance que nem sei no nome e que me arrependo de ter comprado. Aliás, todos os meus tênis foram comprados por mim, é bom que se diga, porque vez ou outra aparece algum jumento me acusando e dizendo que ganho tênis das marcas). Esses R$260 poderiam ser gastos com outra coisa. Mas um jantar a 2 vale um tênis? Quem decide? E aqui as marcas novamente usam outra tática: nós somos ruins demais para avaliar valores.

Um estudo bem legal de 2 pesquisadores da Universidade do Arizona convidou alguns dos melhores corretores de imóveis da região para avaliar… imóveis. Ou seja, estamos falando de especialistas em suas áreas. Os pesquisadores pediam que eles avaliassem uma propriedade. Para alguns eles disseram que ela valia U$119,900, para outro grupo U$129,900, a um terceiro grupo que valia U$139,900 e para um quarto e último U$149,900.

Os pesquisadores não eram especialistas no assunto imóveis. Então seriam os corretores os profissionais mais indicados para avaliar melhor a propriedade em questão. Pois bem, os resultados foram na ordem para a mesma propriedade: U$111.454, U$123.209, U$124.653 e U$127.318. Fossem os corretores muito aptos a avaliar, os resultados seriam idênticos. Mas não, quem decidiu o valor da propriedade foi o leigo!

*aqui um adendo, os corredores amadores deixam influenciadores digitais determinar o que é ou não uma boa compra… sendo que estes ganham os produtos, ou seja, não têm nenhuma pele em jogo (skin in the game), e correm não mais que o próprio corredor amador. Você enxerga aqui alguma lógica?!?

Resumindo este estudo em questão: foram os leigos quem disseram aos especialistas quanto valia o produto avaliado. Se você tem um mercado com opcionalidade e ainda assim o tênis mais vendido custa R$899, por que o fabricante e lojista reduziriam o preço?

*uma questão interessante do estudo é que 81% dos corretores disseram que não foram influenciados pelo preço original que, reforço, eram referentes todos à mesma propriedade.

Este é resultado de um efeito chamado de ancoragem. Decidimos por um número quando outro nos é apresentado. Se achamos que R$800 é um valor justo por um tênis, baseamos que na categoria tênis, valores aproximados desse número é o que devemos pagar como padrão. Outra conclusão que ainda tiramos disso é que confiamos demais em nós mesmos (nós somos apenas demasiadamente confiantes e acreditamos demasiadamente em uma suposta racionalidade na nossa tomada de decisões).

E assim chegamos a outra tática, uma de minhas preferidas: a magia da linguagem.

Até tempinho atrás (parei de acompanhar essa bobagem) a adidas listava 8 “tecnologias próprias” (seja lá o que isso signifique), a ASICS 25 (!!) e a Mizuno 17. Aqui há 2 efeitos. Primeiro que fica difícil você comparar nomes rebuscados e próprios (lembra do Balloo 7 Air Gel? Pois é… eu teria também inventado várias tecnologias, com nomes em inglês, que nem eu mesmo saberia para o que serve já que tirando influenciadores digitais, ninguém sabe SE servem para algo).

Isso porque a verdade é que a tecnologia encanta. Quer um exemplo?

XXXXX é um sistema de ventilação que fica na entressola e que com orifícios e canoplas especiais remove calor e umidade dos pés proporcionado mais conforto

Outro:

YYYYY é um sistema com tecnologias que trabalham guiando e dando um movimento mais natural do pé na corrida, desde o contato do calcanhar até a finalização, na impulsão

Mais um (peguei uma de cada marca porque tem gente muito sensível nesse mercado que acha que pego no pé de alguma em particular):

ZZZZZ é uma tecnologia de cabedal que funciona ao se flexionar para armazenar e liberar energia, se adaptando assim ao pé do atleta e se expandindo de acordo com a pisada e movimento dos pés

Essas descrições, além de confundir (no duplo sentido da palavra), elas encantam. Isso nos faz aceitar ou querer pagar mais porque apreciamos mais um produto dessa forma. Em ver de dizer que o solado é de borracha, usamos um nome ou uma sigla em inglês com o sinal de marca registrada (do TM em inglês).

E quase por fim, mas não menos importante, na impossibilidade de poder comparar tudo (maçã vs abóbora), acabamos sobrevalorizando o dinheiro no sentido que deixamos ELE decidir o que é melhor. Se o modelo da marca X custa R$599, achamos que o da Y por R$799 só pode ser (muito) melhor. E na vergonha de estarmos errados, nossa cabeça irá nos convencer de que vale o que custa.

Por fim, desculpe minha verborragia. Não há uma vez que não veja influenciador digital argumentar sobre tênis de corrida que ele ganha de graça tentando temperar com uma racionalidade que ele finge existir. Mas antes de você marcar algum deles neste post (não preciso de mais motoboy de treta! rsrsrs), saiba que eles são “apenas mais um” nessa equação. Tênis de corrida no Brasil é caro pelo mesmo jeito que temos maus políticos. Nós não fazemos assim taaanta questão de pagar barato. O produto que nós brasileiros escolhemos colocar no pé para correr talvez seja a maior bandeira que nos identifica que tipo de corredor somos. Em todos os sentidos.

Ainda que você negue isso.

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