Arquivo da categoria: Tênis

Correndo com os Etíopes – parte 8: sobre equipamento.

Em uma sessão de treino lá em Adis Abeba, após terminarmos, enquanto apenas conversávamos um atleta veio e me perguntou o porquê meu tênis tinha pequenas bandeiras do Quênia, sem nunca esconder a rivalidade que possuem, além do enorme respeito. O Fila Kenya Racer 3 é assim. O que eles não conheciam era a marca esportiva Fila. Quando falei que havia trabalhado na ASICS, alguns claramente não sabiam do que se tratava. E quando apareci com um Skechers eles não conheciam a marca, apenas o nome do modelo, em homenagem ao maratonista americano Meb Keflezighi.

Equipamento nunca foi assunto nos treinos. O cara que me ajudava lá usa um relógio Casio dos anos 90. GPS não vi nenhum por lá, apesar deles falarem que às vezes usam nos longos. Frequencímetro cardíaco nunca foi visto pelo agente que vive lá há 7 anos. Smartphones como o meu nos treinos não vi nenhum.

Eu tenho algumas heurísticas. Uma delas diz que: se o corredor amador não trabalha com tênis e entende desse assunto, é porque ele corre MAL. Essa minha tese quase nunca falha. O caminho inverso é verdadeiro: se a pessoa corre bem, ela entende pouco de tênis, marcas e modelos. Até nas empresas para quais trabalhei era assim… geralmente quanto mais sabia de produto, menos corria.

Comprove você mesmo! Só tem tempo e energia para se aprofundar no tema quem não passa muito tempo correndo. Com GPS é parecido. Você acha bons corredores que entendem de GPS na mesma proporção que acha pessoas que entendem de relógios de luxo (Rolex, por exemplo) ou de helicópteros militares ou da geografia Inca. Estou querendo dizer que correr e entender de GPS (ou de helicópteros ou de tênis) são duas variáveis completamente independentes. A intimidade (ou competência) em um não diz absolutamente nada sobre a intimidade em outro.

ESSA é uma das maiores lições que aprendi no meu tempo com os etíopes: eles sabem aquilo que realmente importa na corrida.

Até hoje não sei mexer em GPS. E também não sei mexer em iPhone ou iMac nem jogar Candy Crush nem Gamão. Não é questão de ser contra tecnologia (adoro celular Samsung!), é sobre não haver relação disso com minha corrida.

Tem mais. Estou sendo repetitivo, mas há uma moda de fisioterapia preventiva que nada mais é que uma piada mal contada. Fortalecimento? Durante um treino eu perguntei se o atleta ia à academia e ele me disse “sometimes” (às vezes). 1 vez na semana?, perguntei. Não… uma vez ao mês.

Isso não é sometimes! No que ele me respondeu: a floresta é minha academia (enquanto corríamos mudando de direção em um pasto pesado).

No Brasil seu treinador pede para você correr no asfalto (da USP, do Ibirapuera, de Belvedere…) e depois te passa uma série vagabunda de fortalecimento que nem de longe compensa. Ele quer te fazer resiliente sendo fragilista. Não tem como dar certo!

O meu Fila furado era um dos tênis mais novos do grupo. O equipamento não é tema de conversa porque melhor do que nós eles sabem que não serve para nada. Eu começo a bocejar quando a pessoa começa a falar de tecnologia de calçado. Até porque tendo trabalhado na área sei que não existe baboseira maior. No fundo os etíopes sabem que para correr bem parece que a pessoa precisa entender pouco de tênis. Na verdade, como entender de helicóptero, não há uma relação.

Eu corro de forma orientada faz quase já 30 anos. Em minha primeira sessão lá tive uma sensação que eu jamais tive. Eu sentia a musculatura da minha canela (entre o tornozelo e o joelho, não a panturrilha em si) arder quase inchada. Eu nunca havia na vida mudado tanto de direção e velocidade em um só treino. Por mais que seu treinador e seu fisioterapeuta aleguem: eles nunca conseguirão reproduzir isso na academia. Não há tênis que proteja você como um piso instável e menos agressivo.

No meu penúltimo dia de treino lá, comecei a correr umas 6h30 com um atleta e perguntei se ele iria treinar de tarde. Ele disse que não, que aquela já era a sua segunda sessão do dia. Relembro: eram 6h30! Ele havia antecipado a segunda sessão do dia. E nessa linha, se eu pudesse resumir a maior lição que tive com eles é algo que mesmo os melhores corredores brasileiros já sabem na prática: os melhores fundistas sabem aquilo que realmente importa para fazer você correr bem. Os mais lentos ou não sabem, ou se iludem buscando atalhos fora da corrida, fora do único equipamento que realmente importa: seu corpo.

Etiquetado , , , , , , , ,

Correndo com os Etíopes – parte 7: sobre volume e piso.

Não faltam muito mais posts a falar sobre meus treinos na Etiópia, mas não dá para não passar por 2 dos aspectos que foram dos que mais me impactaram. Eu havia dito que antes do meu primeiro treino uma coisa me chamou atenção: mesmo estando a menos de 2km do local, nós fomos de carro e não trotando. Eu me sentia como aquelas pessoas que pegam elevador para ir à academia ou o carro à padaria. Meio triste, meio irracional.

Os etíopes treinam em média entre 10 e 14 vezes por semana. A minha surpresa chegando lá é que apenas UMA sessão por semana é feita em asfalto. UMA. E ela é feita em asfalto por 2 motivos principais: porque as competições são em asfalto, então este é um jeito de você manter contato com este piso. E também porque nas estradas, assim como na pista, você consegue ter um controle maior da distância, podendo fazer treinos controlados por ritmo, não somente sensação ou tempo.

Uma passagem que me chamou atenção em Running with the Kenyans é quando o autor tenta convencer os quenianos a começar o treino alguns poucos metros antes da estrada de terra. Sem sucesso. Eles caminhariam pela calçada. Concreto e o asfalto machucam, os africanos sabem disso. E nós achamos que um tênis de R$699 compensa essa característica intrínseca do piso. Regra número 1: corredores quenianos e etíopes sabem mais sobre prevenção de lesões do que qualquer fisioterapeuta ou médico. O primeiro grupo vive de não estar machucado, os outros 2 vivem de tratar (bem ou mal) o lesionado. Os interesses são dissociados.

O corpo é o instrumento de trabalho mais importante do atleta. E os etíopes (e agora você sabe que também o queniano) fogem do asfalto como o diabo foge da cruz. Eu não conseguia explicar aos treinadores que aqui no Brasil todo treino dos amadores é feito sempre em asfalto. Eles não conseguiam entender como alguns dos melhores parques da cidade não têm corredores nas trilhas (como a “volta da grade” ou a Pista de Cooper do Parque do Ibirapuera, ou ainda o Alfredo Volpi próximo ao Jóquei Club). Ou ainda: como explicar que 99% das pessoas que pegam o carro para ir à USP treinar não correm nas trilhas das ilhas centrais das avenidas. Eu me sito um E.T. sempre que estou lá, pois tudo aquilo é só meu com o asfalto lotado! O Bosque da Física na mesma USP, inteira de terra batida, está sempre deserta, é um latifúndio que só teria gente se fosse (toc-toc-toc, sai zica) concretado. A própria pista de atletismo da USP é rodeada por uma trilha de 1050m que tem muito menos gente treinando do que a própria pista, um completo non-sense.

O corredor brasileiro é muito estranho. Eu tenho uma tia que faz caminhadas dentro de um shopping center. Dentro. De. Um. Shopping. E em grupo. Orientado. Mas a culpa, sejamos honestos e justos, não é só dos corredores, mas MUITO por culpa dos treinadores.

Você vai sempre encontrar um consultor mal informado dizendo na revista das vantagens de correr na esteira, ou explicando dos perigos e cuidados de correr em trilhas. Os treinadores atuais confundem aquilo que não entendem com aquilo que não existe. Dia desses um coitado de um médico veio mostrar sua ignorância sobre risco no meu Facebook. Ele se mostrou ser do tipo que quando chega bêbado em casa sem as chaves, a procura somente embaixo do poste de luz, que é onde enxerga, ele ignora que pode estar em qualquer lugar escuro. Pois quando você pede ao seu atleta para não correr na trilha para não torcer o pé você demonstra não compreender os riscos de correr no asfalto (ou na esteira). As lesões na corrida são em sua maioria por esforços repetitivos, não torções. E correr em pisos estáveis (asfalto, pista, esteira…) é a garantia que você executa o exato mesmo movimento em todos os treinos. É você pagando alguém para te machucar ao mandá-lo fazer esforços repetitivos não-essenciais. E este alguém, em vez de te fazer correr melhor (aquilo que você realmente quer), tenta não te machucar impedindo que você corra muito melhor. Não faz sentido.

E aí chegamos ao segundo ponto deste texto, o volume. Como eu disse, eu não faço ideia de quantos quilômetros corri na África. Nem o ritmo. Volume alto é fundamental na corrida. Mas você só consegue isso quando ele não te machuca. Corríamos sem controle de velocidade, de quilometragem, de frequência cardíaca, mas também sem dores.

Uma coisa que escondi da equipe para que não me tratassem diferente é que pela manhã tenho muitas dores quando corro. Por isso também só quase corro de noite, quando elas já passaram. Na Etiópia corri sem dores nenhuma às 6h30. Desde que cheguei ao Brasil implementei muito do que vi lá fora e venho treinando sem dor alguma. Eu corro menos nas sessões, mas corro mais e sem dor. O volume final assim é maior.

Por isso também que durante meu período lá não falávamos sobre equipamento. Eles não ligam para isso. E é sobre equipamento que falarei no próximo texto.

Etiquetado , , , , , , , , ,

Maratona de Frankfurt. Ou ainda: nunca seremos.

Vou tentar ser breve nos meus comentários da Maratona de Frankfurt. Isso porque sou suspeito de falar do país, pelo qual tenho paixão e admiração, e por não ser novidade a vocês de que eu acho a forma como os europeus encaram a (organização de) Maratona um primor. Seja porque é tudo muito vertical, direto, pragmático, eficiente, simples….

Antes de mais nada, com apenas 45 brasileiros concluintes ela disputa com Hamburgo o título de a 2ª maior maratona da Alemanha, atrás de Berlim. E é ainda uma das 10 maiores da Europa.

Estamos falando de 10.000-12.000 concluintes (além dos competidores no revezamento). É um monstro de evento. Impecável. Plano, temperatura fria (10⁰C), germanicamente organizado e, como lembrou bem o Marcel Pracidelle para mim ontem, tem tudo o que tem uma major com a vantagem que você pode pagar na 6ª feira e ainda retirar o kit no domingo antes da largada! Sempre que me sugerem correr Berlim eu respondo que não sei onde estará minha vida assim com tamanha antecedência. Como não amar essa possibilidade??

Por fim, vamos à EXPO que diz muito da relação deles com a corrida.

Uma diferença clara nos eventos aqui no exterior é a presença lado a lado das diversas marcas esportivas, ainda que haja patrocinador. Por exemplo, aqui na prova alemã a ASICS era a marca, mas havia loja da adidas e multimarcas com inúmeras concorrentes (Mizuno, Hoka, Nike, Brooks, Altra…).

O corredor brasileiro é um consumidor que tem um comportamento que chega a ser engraçado. Ele parece querer sempre muito mais do que correr achando que não há consequências ao bolso. Nunca há almoço grátis. Nunca. Aqui havia massagem simples para os corredores. Coisa bem simples mesmo. Estava vazio de tão simples. Tente você organizar massagem com maca e veja o custo disso.

Mas o maior exemplo vai nas fotos. Repare no modelo de loja das fotos. Volto depois.

 

 

Lógico que ninguém é obrigado a saber o orçamento de se montar uma loja temporária. É muito mais do que você imagina. Estamos falando de 5 dígitos. Qual a solução alemã? Quase um faça você mesmo. Eles empilharam os tênis (todos em promoção) e você tinha que achar seu tamanho, seu modelo e ir direto ao caixa pagar (apenas em dinheiro). Isso é algo impensável no Brasil por 2 motivos: primeiro porque o Marketing das marcas acha um absurdo (ainda que o Comercial adore!) e segundo porque o consumidor brasileiro quer ser paparicado. O único problema é que ele finge não saber que para essa comodidade ele tenha que pagar os tênis mais caros do mundo. E por que uma marca faria no Brasil algo que torna mais barato se o corredor acha normal pagar pelos tênis mais caros do mundo?

Por fim, a cidade abraça a prova. Não há um lugar (transporte público, restaurantes, hospedagem, cafés…) onde as pessoas não saibam do evento. O seu número de peito vale no transporte público do dia (tirando milhares de carros das ruas) e há ônibus públicos fazendo “transfers”. Fica difícil você exigir que as prefeituras brasileiras façam isso quando você tem 2 maratonas em SP, umas 6 Meias Maratonas no Rio ou mesmo em Brasília, Florianópolis ou BH, que não têm mercado nem para metade disso. É padrão fora do Brasil: uma prova em cada distância por cidade. Ponto.

Se vale correr a Maratona de Frankfurt? Vale 100%!

Etiquetado , , , , , ,

Sobre Tênis, Atenção e Sentir-se especial

Ao postar o vídeo de uma marca que fabrica tênis minimalistas, o Pedro Ayres fez a seguinte observação: se por um lado algumas pessoas parecem depositar muita confiança no tênis como um protetor (de lesões), do outro lado muita gente parece responsabilizar os tênis por todas elas. Nesse cenário um tanto simplista com apenas uma causa de algo complexo como lesões são as lesões na corrida, bastaria tirarmos um pouco de tênis para a coisa melhorar.

Hoje eu quase não faço mais Supino Reto. Tenho uma dor chata no ombro quando faço com mais carga, resultado de muitos anos fazendo. Usando a mesma lógica de fabricantes de tênis e de muitos ortopedistas e fisioterapeutas, um tratamento eficaz seria talvez o uso de uma ombreira. Algo para “aumentar o controle do movimento”, “corrigir” o gesto, “diminuir o impacto”.

Só que nossa primeira abordagem deveria ser sempre tirar o agente estressor, no meu caso, o exercício Supino Reto. Chamamos isso entre outras coisas de “via negativa”. Não faço mais esse exercício, a lesão foi embora e, se eu quiser voltar a fazer esse exercício, tenho que ir devagar. Para compensar faço sem dores inúmeros outros exercícios para a região do peito.

É assim também na corrida.

Nós fomos construídos para corrermos descalços, por mais que alguns profissionais de saúde entortem uma lógica que não existe dizendo que para correr o mais seguro seja fazê-lo calçado. Correr de tênis é não-natural, correr descalço (ou com pouquíssima entressola, pequena intervenção) é natural. Ponto. Só que corredores descalços também se machucam (menos lesões por quilômetro rodado, mas se machucam). E corredores com tênis sabidamente se lesionam, pelo menos na mesma frequência, mostrando o quanto tênis é ineficiente como protetor. O seja, nem toda lesão é resultado de uma intervenção (correr calçado), mas pode ser por causa da corrida. Para esses, tirar o tênis simplesmente não é um remédio eficiente!

Como há uma miríade de causas para coisas complexas como as lesões no movimento, sempre que há algo de errado com o meu corpo eu sempre prefiro esperar pelo tempo. Não alongo, não faço gelo, não tomo nada. O tempo resolve. Já o corredor amador se apressa para pedir ajuda (a médico, fisioterapeuta, nutricionista…) e daí quando o corpo melhora a pessoa atribui isso ao profissional e sua intervenção, ainda que seja como tantas vezes o é inócua. O profissional se sente obrigado a fazer algo. Qualquer coisa, muitas sabidamente inúteis em sua essência.

O amador descobre assim uma causa simples para algo complexo. Uma causa errada.

E se não melhora esse amador troca de profissional (“o primeiro não era bom”). Por isso hoje o profissional da saúde (fora os médicos nos casos de emergência) são muitas vezes apenas pessoas que servem para nos distrair (pena que a maioria nem saiba ou acredite nisso). Esses ficam fazendo firulas, nos distraindo enquanto é o Tempo quem trabalha. Um dia, por exemplo, acredito que vai ficar claro que a fisioterapia não serve para nada em uns 90% dos casos da corrida…

Nem acho que, como disse o Ayres, “gostamos de chamar qualquer dorzinha de lesão”… gostamos, SIM, é de atenção. Esse é, aliás, o maior produto que você compra quando entra em uma assessoria. Você paga por mês a um treinador o que você pagaria a um Psicólogo por sessão. Com o benefício que ele vai te elogiar a cada sessão de tiros, e não apontar alguns problemas a serem lidados. Gostamos ainda é e de sermos especiais, ou de ter alguém que nos trate assim. Repare, o seu amigo amador, ele não perde tempo ao deixar claro que a planilha/palmilha/dieta feita pelo treinador/ortopedista/nutricionista dele foi feita especialmente/especificamente para ele. Acho até divertido quando alguém vem e fala que a abordagem X na Nutrição funciona para todos, mas “no meu caso”… dou risada antes dele terminar.

É sobre atenção e se sentir especial, não sobre o que funciona ou não.

Etiquetado , , , , , ,

Por que vender tênis barato se é melhor vendê-los caros?

Dia desses eu comentava como é inútil o corredor reclamar dos preços dos tênis e serviços (corridas), afinal, a grande maioria PRETENDE pagar caro por tudo. Eis que o Luís Oliveira me mandou o link de um curto podcast com uma história fantástica e improvável que eu não conhecia. Basicamente um garoto que cresceu desejando os caros tênis de basquete que só aumentavam de preço a cada temporada, quando chegou à NBA resolveu lançar um calçado que democratizaria o acesso aos fãs da liga. Afinal, quem não poderia arcar com um tênis de U$15 usado até por profissionais??

O resultado, como mesmo um parco conhecedor da liga pode imaginar, foi longe do que se esperava. O tênis foi um fracasso porque achavam que o tênis era ruim, ainda que a premissa dele era ser IGUAL a um de U$110, apenas mais barato. Basicamente vale mais vender a U$110 do que a U$15 porque isso aumenta as vendas! E consequentemente, o faturamento.

Nós temos essa ideia romântica de que tomamos decisões baseadas sempre e principalmente de forma racional. Ledo engano. Tal qual o texto que falei na 2ª feira e que foi interpretado por alguns como de esquerda (só quem me conhece bem sabe que estou LONGE de ser de esquerda) ou equivocado, o comportamento de quem paga caro por tênis é entre outras coisas uma questão de posicionamento. Você PODE comprar um Nike por ser um fanboy, ou um tênis baixo por ser minimalista, um tênis de marca que não tenha no Brasil apenas para ser diferente (se a marca fosse espetacularmente tão boa talvez vendesse em mais países do que EUA e Canadá)… Queira ou não, admita ou não, saiba ou não, aquilo que você põe no pé diz um pouco sobre o que você é ou quer ser.

Eu estou ficando velho e rabugento para continuar debatendo que “as corridas estão muito caras”, que “os tênis estão em um preço absurdo de caro”, que “tudo virou comércio”… Tudo SEMPRE foi comércio. Ninguém trabalha de graça, a adidas não é uma ONG, aquela medalha da Yescom não cresce em árvore. *maçãs crescem e não são distribuídas gratuitamente!

Diferentemente de outros tempos, o PREÇO de um produto ou serviço não se faz somente pela equação CUSTO + LUCRO. Nessa lógica quanto mais baixo fosse seu custo, maior seria o lucro ou mais baixo poderia ser o preço (P = C + L). Se o consumidor fosse 100% racional, bastaria reduzir um pouco qualquer um dos 3 que a empresa seria a líder de vendas.

Acontece que o preço já foi definido por VOCÊ e pelo Mercado.

Se amanhã você resolver criar a sua marca esportiva e decidir lançar um tênis de corrida, o top de linha de sua marca recém-criada terá que custar R$799. Ou então você terá que atribuir à coincidência que o ASICS Nimbus ou o Mizuno Creation tenham esse preço porque possuem exatamente o mesmo custo, a mesma margem de lucro e o mesmo preço do top de linha das marcas concorrentes. Seria uma coincidência tão grande que o acaso sozinho parece não conseguir explicar. Na verdade é resultado que o Mercado e VOCÊ decidiram que querem e acham esse R$799 “O” valor justo por um tênis.

Um produto não é caro se há quem pague por ele, na mesma medida que ele às vezes pode não ser considerado bom o suficiente se ninguém paga ainda que barato por ele.

Se por competência administrativa você fizer tênis com preço mais barato que seus concorrentes, a diferença não reverterá em liderança de mercado, assim como cobrar mais caro irá prejudicar as vendas ALÉM DE diminuir seu lucro. As próprias marcas inclusive têm modelos mais caros que servem apenas para comparação. Como? Um tênis de R$799 que realmente é um absurdo de caro em um país com média salarial de R$2.100, passa a não ser mais um assombro quando há um sabidamente pior que custa R$1.100. O de R$799 passa a ser assim um bom negócio aos seus olhos.

E aquele modelo de R$225 (*o preço do meu atual modelo)? “Ele deve ser/é ruim”. É isso o que eu ouço de todo mundo que fala do modelo antes de eu falar que corro todos os dias com ele. Assim como na história do podcast, as pessoas têm dúvidas da qualidade. Mais do que isso. Elas querem o que todo mundo quer, ainda que neguem.

No fundo no fundo o que todo mundo quer é pagar barato por aquilo que elas mesmas fizeram ser caro. A qualidade? Pouco importa, isso é o de menos. Diferentemente de carros, onde comparativos existem e são possíveis, aos corredores o que importa mesmo de indicador no tênis é o preço. Por que de diabos vendê-lo então barato?!?

Etiquetado , , , ,