Sobre Lindy, Vovós e falsos especialistas. OU ainda: o Tempo como senhor da Razão.

Um dos temas que mais aprecio, mas sobre o qual eu dificilmente decido escrever muito é a latente ineficiência dos atuais tênis de corrida na diminuição das lesões nesse esporte. Se eu precisasse resumir em poucas palavras o recente histórico seria: nos últimos 40 anos os tênis ficaram maiores, mais pesados e (muito) mais caros. Agora os modelos convencionais contam com “tecnologias” que prometem um maior controle de pisada, maior amortecimento e um menor risco de lesões. Mas na realidade conseguiram oferecer com evidências apenas maior conforto, uma falsa de sensação de maior controle (o que não é bom!) e menor resposta sensorial aos pés com suas entressolas mais espessas (o que com certeza é ruim). Ou seja, não há vantagem ou menor índice de lesões, porém dão uma falsa sensação de segurança que é muitas vezes contraproducente.

 A QUEM OUVIR? – O que é um especialista? O que é um falso especialista? Em quem acreditar?

Você não terá problemas em encontrar até treinador dizendo que você deve treinar apenas com quem tem CREF, o que é uma tremenda bobagem; discurso de quem se preocupa mais com o próprio bolso do que com aquele que deseja correr. No campo das ideias quem decide quem é e quem não é especialista é o tempo. E existe uma regra para isso, o Efeito Lindy, uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.

Aplicado aos tênis de corrida, os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde os anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar um corredor (nem tão) iniciante com suas propagandas chamativas, pode convencer o jornalista que só lê release, pode convencer aquele médico que faz lista de “tênis bom para o joelho”. Você apenas não engana duas entidades: Lindy e o Tempo.

É por isso também que não gosto muito de escrever sobre tênis. Não tarda para aparecer quem se encante com release e propaganda, mas quando olhamos no tempo vemos que a fragilidade dos argumentos não sobrevive a ele, uma vez que um dos discursos dos fabricantes diz que “esta versão está ainda melhor que a anterior” ainda que ela não tenha se mostrado em NADA mais segura que um tênis de corrida de 1965! É como o Comunismo/Socialismo, nunca deu certo em lugar nenhum, mas deveríamos continuar tentando. Para estes todos é muito triste quando o seu “mundo dos sonhos possíveis” encontra a vida real.

Fosse um modelo de tênis convencional de hoje superior aos da década de 60, o conceito desses teria morrido, mas continua vivo ainda que sem a força da propaganda. Por quê?

 

“Insanidade em indivíduos é algo raro – mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra”. (Friedrich Nietzsche)

 

Por que tantos de nós correm com tijolos aos pés que NÃO os protegem? Por que comemos 60% das nossas calorias justamente do nutriente que é não-essencial à vida? Por quê?

Vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas. Muitos deles montam suas teorias na segurança de não ter que submeter alguém previamente ao que pregam. E é aí que nossas avós são melhores do que nossos nutricionistas. Se na saúde você tiver que seguir uma recomendação nutricional, marque um encontro com sua avó JAMAIS consulta com um Nutricionista.

Sempre que alguém vem e me chama de polêmico (o que não é verdade), repare que provavelmente estou apenas a dar peso a pesquisas que com rigor contradizem o senso-comum, seja na Nutrição ou sobre com qual tipo de tênis que deveríamos correr. Afirmações essas que eu sei que acarretam danos à reputação dos falsos especialistas, os especialistas em release, ou os ignorantes por conveniência, estes os mais desonestos. As ideias desses não sobrevivem honestamente ao tempo. Veja: são 40 anos para provar que tecnologia ajuda. Sem provas. São 40 anos seguindo cada vez mais as diretrizes nutricionais: nunca tivemos um mundo tão obeso. Esses especialistas (nutricionistas e defensores da tecnologia em calçados) são vulneráveis à prova do tempo e esperam que a realidade mude seu fundionamento, não suas teorias absurdas.

AVÓS vs PESQUISADORES

Por isso insisto com uma heurística: quer ir ao Nutricionista? Converse com sua avó. Com enorme chance de certeza afirmo que 85% das vovós estarão certas. Menos de 15% dos nutricionistas têm essa taxa. Por quê? Porque elas, nossas avós, comiam alimentos que foram a base da nossa dieta por muitos séculos. O Nutricionista não, ele vive de um pensamento mágico de teorias de apenas 40 anos que jamais foram postas à prova. Ele não tinha muito a perder, nossas avós e antepassados tinham.

Com tênis de corrida não é diferente. Por séculos os corredores, que dependiam do sucesso de sua corrida, usavam calçados com pouco suporte. Por que então dar ouvidos a jornalistas, fisioterapeutas e médicos que NÃO estudam DE VERDADE o assunto (pseudo-especialistas) e cuja parte de seu sucesso depende justamente do SEU fracasso (lesão) na corrida? Há uma enorme dissociação de interesses, como em quase todas as áreas da Saúde.

Ou ainda, aplicando à teoria da Avó-Nutricionista, veja o tipo de tênis que os veteranos abaixo, que querem ganhar a prova, calçam e veja o que diz o ~especialista~ da revista/site de corrida de seu veículo favorito que quer vender tênis. Tire você suas próprias conclusões… já sabemos mesmo que ele é um falso expert.

imrs

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Leituras de 4a Feira

Uns dias atrás eu fiz o arquivo abaixo do meme Corredor Raiz versus Corredor Nutella. Nem eu esperava que fosse ser tão compartilhado. Espero que ninguém tenha se ofendido (muito) porque essa geração (Nutella) se ofende com qualquer coisa. Risos.

corredor-raiz-vs-corredor-nutella

E aqui o vídeo do Maicon do Canal Corredores falando sobre Raiz vs Nutella. Vale muito pelos segundos iniciais!

Mais um texto explicando o que já sabíamos: assim como um Garmin (ou genéricos) NÃO te faz correr mais, aqueles gadgets para monitorar a atividade física NÃO te fazem mais condicionado ou mais magro.

Já havia postado no Recorrido sobre o livro de Angela Jimenez com fotos sensacionais de atletas veteraníssimos de atletismo. Lindo demais! Vale rever agora em matéria do Washington Post! *dica da Adriana Piza.

O Flotrack pergunta: deveria o atletismo ter categorias por peso? Obviamente sabem a minha opinião, e ela deve convergir com a da absoluta maioria da área. Mas o legal é olhar aos dados apresentados: a absoluta maioria dos grandes maratonistas pesa até 60kg. Quase a absoluta totalidade dos fundistas com recorde pessoal abaixo dos 27 minutos nos 10km pesavam menos de 70kg. Voltamos àquilo que eu sempre insisto: correr bem é uma questão de baixo peso, de alto volume de treino (de corrida!) e de ensinar/possibilitar ao corpo dissipar calor. O resto (em maior ou menor grau) vem depois. Por fim, a título de curiosidade, foi só ao ler a (espetacular) biografia quádrupla Seabiscuit, que retratava a vida do cavalo Seabiscuit, seu treinador, seu jóquei e seu dono-empresário é que fui descobrir que os conjuntos homem-cavalo ganhavam alguns lastros para aproximar o peso dos competidores. Só ignora a importância do peso corporal na corrida quem desconhece essas informações, parte delas dadas de graça no interessante texto da Flotrack.

Um longo vídeo com imagens incríveis para quem gosta de atletismo indoor. Cenas em câmera lenta com música de bom gosto… não tem como errar! *dica do Helio Shiino.

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Leituras de 2a Feira

O Estadão listou 11 momentos emocionantes do esporte brasileiro. Duas passagens (justas!) do atletismo! Colocar surfe foi forçar a barra…

Correr descalço lesiona menos? Acho que você já imagina a resposta…

E se todos os presidentes americanos competissem lado a lado em uma prova de 5km? Muito bom!

A Outside fez uma lista bacana com algumas passagens de corrida na literatura clássica. *dica do Helio Shiino.

Abaixo mais um bonito vídeo da campanha #MyFutureSelf da New Balance. O Pedro Ayres, que foi quem me mandou a dica, pensa muito como eu, que “o viés de um atleta por excesso de dados pode sabotar a nossa real capacidade”. Aquele monte de gadget que os corredores adoram usar nos faz pensar em números. Muito pior que isso, nos faz acreditar que temos controle e que precisaríamos ter esse controle. Ritmo, frequência de passada, FC… quanto mais prestamos atenção a estes, menos prestamos atenção ao melhor gadget que existe: nossos corpos.

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Quando DUNNING & KRUGER sobem correndo o “Monte da Estupidez”

Um dos maiores desafios que uma pessoa deve ter a seguir escrevendo em um blog é como lidar pacientemente com o Efeito Dunning-Kruger. Para quem não sabe do que se trata, o efeito é sobre uma ilusão descoberta em experimentos realizados pelos pesquisadores Justin Kruger e David Dunning que notaram que justamente os mais ignorantes em um assunto demonstravam possuir uma confiança desproporcional nestes mesmos assuntos nos quais são ignorantes. Resumidamente: a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento.

Muito provavelmente pesa o fato do veículo em questão. Tenho conversas produtivas com quem leu meus livros, mas um blog não gera o mesmo “respeito”. É como se o escrito aqui tivesse menos força do que algo escrito e publicado em papel. O Efeito Dunning-Kruger faz “indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditarem saber mais que outros, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória”.

Dois vídeos recentes em particular me chamaram a atenção. No mais novo deles, meu amigo Ricardo Nishi fala sua opinião sobre um tênis em particular. Desconsideremos que opinião é algo sempre… pessoal. Dizer que o que o Nishi dizia ali era uma – desculpe a redundância – “opinião pessoal dele”, é como dizer que um elevador “sobe para cima” ou “desce para baixo”.

mount-stupidOu seja, ignoremos que as pessoas leem um dicionário em frequência muito menor do que desejam escrever. O que impressiona é como as pessoas falam com segurança e certa agressividade de um assunto do qual não dominam, no caso, o papel dos tênis na redução de lesões na corrida.

Tempo atrás, quando convidei o fisioterapeuta e doutor Alexandre Lopes para escrever o capítulo sobre Tênis e Lesões em meu livro O Treinador Clandestino – o que nunca te contaram sobre corrida, um dos objetivos foi justamente o de dar embasamento às ideias apresentadas. As pessoas sofrem da síndrome do jaleco branco, elas precisam ver alguém vestido de branco quando o assunto é Saúde. É a falácia da autoridade. E não deixa de ser muito maluco isso.

Um dos argumentos mais citados justamente por quem mais demonstra não entender nada do assunto tipo de pisada, controle de movimento e calçados esportivos, é o de que deveríamos crer no que dizem releases de empresas fabricantes, pois elas têm pesquisas e investimentos brilionários em tecnologia.

Deixe de lado jornalistas do setor que parecem escrever sempre com o taxímetro ligado, encoste também ortopedistas e fisioterapeutas que parecem ainda escrever com o que fora produzido nos anos 70 ou 80 falando sobre tênis para diferentes tipos de pisada. Saiba sempre que não há investimento, não há pesquisa, não há evidências que tênis (modernos ou não) tragam maior segurança à nossa corrida. Não sou eu que estou falando isso. Basta procurar.

Mas os mesmos de sempre irão engrossar a voz. Vão argumentar que sou tolo em pensar que uma fabricante não investiria brilhões de dólares em pesquisas (não investem). Ou que os tênis de hoje são iguais (em segurança!) aos dos anos 70 (pois são).

Alguns são ignorantes porque não sabem do que falam. E isto não é crime.

Outros são ignorantes mesmo porque lhes é financeiramente conveniente.

Mas que é preciso paciência com os dois, ah isso é!

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p.s.: se você chegou até aqui, poderia me explicar por favor o que é “suporte” em um tênis de corrida? Corro há mais de 20 anos, trabalhei em marcas esportivas, mas JURO que até hoje não sei o que é isso  rsrsrs Tolo que sou, sempre acho que são minhas pernas quem me dariam suporte rsrs

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Leituras de 2a Feira

Off-topic: Nike faz um vídeo claramente se posicionando sobre algumas medidas prometidas por Donald Trump.

Um vídeo que não é novo, mas me escapou e é muito legal! Usain Bolt desafia pessoas comuns do escritório do BuzzFeed em um percurso de 100m. Dá dó.

O Globo Esporte fez uma matéria explicando quais as principais dificuldades biomecânicas que o velocista paratleta Petrúcio Ferreira tem ao correr 100m abaixo de 11 segundos sem ter parte de um dos braços.

Soube dias atrás de um fato que até então desconhecia completamente: a PUMA teve em 1968 uma sapatilha que foi proibida! Atualmente existem regras um pouco rígidas sobre as especificações de sapatilhas de atletismo e o modelo da PUMA que ajudou a quebrar 2 recordes mundiais era inovadora e mudou as regras do esporte.

Eu conhecia por cima a história e a dura vida de um dos maiores meio-fundistas da história. O acidente e a carreira de Glenn Cunningham tornam tudo digno de filme. Incrível!

Um vídeo de um youtuber famoso contando sobre seu vício com a corrida. Bem legal!

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