Ah o pré-treino…

A pessoa decidiu começar a correr, vem de um longo sedentarismo, geralmente com sobrepeso, ou seja, com excesso de energia endógena. Ela nem começou a treinar e já saca a pergunta:

“O QUE DEVO COMER ANTES?”

Como é que é?!? Você nem se mexeu e já quer comer? Nem começou a trabalhar e já quer o salário?

O pré-treino é um dos maiores equívocos de compreensão da Nutrição e – óbvio – de Nutricionistas.

Ah, Balu, mas treinadores tb falam isso…”

Sim, por uma dessas injustiças da vida temos que ter aula de nutrição na faculdade com nutricionistas. É um erro! Eu sei! É como pegar um monte de engenheiro hidráulico pra ensinar uma comunidade de pescadores ribeirinhos a pescar… ambos mexem com água, mas quando o assunto é pesca só um deles tem ideia mínima do que faz. Com Esporte e nutricionista é igual!

SEMPRE que se busca a resposta para algo, a primeira ação deveria ser olhar o mundo lá fora, não o que dizem vendedores. E o que encontramos? Temos que na natureza NUNCA há prévia alimentação a um grande esforço. MAIS: após um animal conseguir energia exógena (externa, a dos alimentos) ele REPOUSA.

Como querer inverter a lógica NATURAL das coisas? Como querer máximo desempenho quando a energia exógena leva a uma redução de atividade e energia interna (endógena)? Apenas acadêmicos enxergam lógica nisso!

E eu não canso de repetir: o treino não-alimentado proporciona adaptações IRREPRODUTÍVEIS ao se treinar alimentado.

Mas indo treinar sem pré-treino como ficam os vendedores? Como ficam aqueles que vivem ($) de traçar uma “estratégia alimentar” toda rebuscada ao cliente?

Eles PRECISAM, eles TÊM que vender ALGO a alguém. E não-comer não é algo! Eles vivem, pois, da não-compreensão.

A própria e a do cliente.

E você? Até quando você vai acreditar que o desejo do especialista muda a realidade? Que o seu desejo de ser especial de ter um pré-treino não faz nada em prol do seu esforço?

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Leituras de 4a Feira

Uma das histórias mais tristes do atletismo brasileiro é a do vencedor e do incrível João do Pulo. Não só pelo esquecimento de um povo que só idolatra futebol ou os vencedores no auge, mas pelo fato do destino ter sido tão duro com ele. Um acidente que o deixou desgostoso e aposentado de sua prova. E antes disso um fato pouco lembrado, o roubo de sua medalha de ouro, recorde olímpico e provavelmente mundial. Esta matéria (em espanhol) no El País conta detalhes que eu mesmo não conhecia (sobre quem era o árbitro no dia).

Wilma Rudolph é um dos maiores nomes da história! Se você não a conhece 60 anos depois de seu mais conhecido feito, aproveite matéria da World Athletics para saber mais!

A Outside listou 17 (??) mitos da corrida a serem derrubados.

Autojabá: no outro blog explico por que a banha é Lindy e a Nutrição não.

Convido você agora para ser apresentado melhor a Albert Hill como também o fui, um pioneiro que foi ouro nos 800m e 1500m na mesma edição dos Jogos Olímpicos (1920).

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A Cetogênica, o desempenho e a magia…

Eu, como muita gente, gosto DEMAIS de truques de mágica! No filme “Truque de Mestre” (2013) tem uma frase que ensina muito sobre a arte de Houdini: “Quando um mágico acena a mão e diz: ‘Aqui é onde a magia está acontecendo’ é porque o verdadeiro truque está acontecendo em outro lugar”.

O equívoco do preguiçoso é sempre buscar atalhos. O erro do tolo é simplificar o complexo. Tem que ser MUITO ingênuo pra achar que em um mundo que dá literalmente TUDO ao vencedor e é praticamente universal como o esporte, tenha truques simples que somente você e mais ninguém enxergou.

Sou gênio! Vou deixar de comer carne e ganhar tudo porque NINGUÉM pensou nisso antes!

 

Ou ainda… A CETOGÊNICA

Outra frase essencial do mesmo filme: “Sempre há mais do que vemos na superfície“.

Froome carrega incontáveis acusações de doping. Tempinho atrás quando questionado de sua melhora repentina ele atribuiu à dieta cetogênica. Apenas os britânicos e os fãs da dieta acreditam!

Quando você pergunta à Viren sobre seu feito em 72-76 ele atribui a um prato local, mas sempre se cala quando perguntado do doping sanguíneo. Nos anos 90 as chinesas diziam que seus recordes eram frutos de sangue de tartaruga. Quenianos sempre falam do ugali, mas acho que poucos sabem que é o país com o segundo maior número de atletas suspensos por doping (só Rússia à frente).

Há basicamente 3 tipos de pessoas que fazem cetogênica no esporte: os dedicados, os desinformados e os sem talento. Explico.

1. Estar em cetose exige dedicação. MUITA!

2. Quem tem talento (leia-se tolerância ao carboidrato) NÃO precisa da cetogênica para manter o peso baixo! Por que fazer se ela não oferece vantagens competitivas?

3. E por fim, a desinformação. Porque só ela faz o praticante ignorar que não há nem nunca existiu em mais de um século um grupo de atletas cetogênicos com resultados consistentes, expressivos e relevantes fazendo uso dessa estratégia!

Você pode fazer a dieta que quiser, eu não ligo! Ninguém liga! Pode até ser vegetariano! Até tenho amigos que são! Só que tome cuidado quando você acha que é esperto vendo algo que ninguém mais viu.

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Tolerância ao carboidrato

Quantas vezes já escrevi sobre a NÃO-essencialidade do carboidrato?
 
É algo básico, mas você entra e sai da USP, referência acadêmica, sem aprender isso. Basicamente quer dizer que você não precisa de NADA de carboidrato pra ter SAÚDE. E o que pedem? Que ele seja a base da dieta. Delírio? Esquizofrenia? Não sei.
 
Mas por que isso? “Porque Nutrição não é uma ciência, é um sentimento“.
 
Como os professores QUEREM que a base da dieta seja carboidrato, assim o pedem.
 
Vejamos, como pensam por aproximação, acham que ao comer menos gordura, ficamos magros. É como se eu tomando leite virasse caucasiano, ao comer peixe melhoraria meu 200m medley. Ao pedir que se coma mais carboidrato, tratam algo BIOLÓGICO como sendo ARITMÉTICO. Ironia das ironias: você entra e sai do curso sem precisar saber o básico da matemática.
 
E ainda, como não entendem NADA de Esporte acham que o atleta da elite é elite porque come massa e não que ele seja elite porque ele CONSEGUE se entupir de Carboidrato sem os efeitos esperados à maior parte da população. É como se o queniano fosse elite porque corre 200km sem se machucar e não porque CONSEGUE sem se lesionar…
 
Não entendem que o atleta de ponta é a EXCEÇÃO, não a norma. Eles definem o tamanho das nossas calças e tênis assistindo a jogos da NBA. Eu poderia dizer que isso é burrice. Por educação, chamo só de ignorância.
 
O gráfico abaixo é um indivíduo consumindo carboidrato e o excedente – voilà! – vira gordura corporal.
 
Por quê? Porque NÃO temos a tolerância de atletas. Quando o Nutricionista IPI calcula gasto e consumo (spoiler: ele não consegue nem sabe!) ele coloca um estressor na MÉDIA do dia a dia do indivíduo quando sabemos que esporte é sobre tudo ou nada, é sobre… EXTREMOS!
 
O QUE ESTOU QUERENDO DIZER?
 
Esporte NÃO exige carboidrato, ele PERMITE maior consumo (“faça por merecer”) porque ele aumenta UM POUCO nossa tolerância. Já os atletas que estão nos playoffs da NBA podem injetar caramelo na veia porque são geneticamente ESTUPIDAMENTE tolerantes. O IPI acha que é porque eles jogam basquete… acha que é a dieta que deixa alguém com 2,10m de envergadura.
 
Não é sobre DEVER, mas sobre PODER, MERECER e TOLERAR.

Por que corremos – (Why we run)

Corrigi mais uma lacuna de livros de corrida! Em Why we Run o autor e biólogo e (ótimo) corredor Bernd Heinrich faz uma investigação técnica e empírica do que faz homens e animais se deslocarem por longas distâncias.

Fui lendo o livro com uma sensação de alívio. Ele reconta sua aventura para encarar sua primeira ultra (160km). Se passa em 1981, mas eu lia me vendo fazendo as MESMAS coisas que vão ganhando força atualmente!

Há no mercado 2 discursos que tentam te empurrar! O primeiro é de que houve enorme progresso técnico na corrida por ciência e tecnologia. Ambas teorias não se sustentam. O maior avanço do atletismo se deu por causa da profissionalização!

O condicionamento está como em uma gangorra, com os pólos sendo “desgaste” e “recuperação”. O segundo discurso que tentam te vender é que você pode focar em um (recuperação). É a não-compreensão.

Heinrich não é IPI nem nutricionista nem treinador! Ele é 100% pele em jogo (skin in the game). Veja alguns trechos que separei e traduzi:

Eu precisava reduzir meu peso, mas como? Restringir calorias causaria um conflito em meu corpo (…). Meu corpo se defenderia restringindo o gasto (…). A redução calórica pode fazê-lo fraco, letárgico e lento reduzindo pouco o peso.”

Eu não sabia dizer o que meu corpo precisaria, mas estava confiante que meu corpo saberia, do mesmo jeito que o corpo de um animal selvagem sabe(…). Eu decidi que faria como um animal, meu corpo decidiria o alimento e a quantidade, desde que eu optasse por alimentos não-processados ou minimamente processados. Sem pílulas, sem suplementos.”

Normalmente o predador come depois da caça, não antes dela.”

Para aumentar minha zona de tolerância eu treinei para correr sem combustível (on empty), forçando meu corpo a utilizar a gordura como combustível quando meu glicogênio acabasse.”

“Correndo regularmente em estado depletado (sem alimento) eu simulava as condições de prova.”

 

Voltei! O livro é uma bela aula! E talvez a melhor delas seja entendermos que nós não devemos criar teorias por teóricos, mas tentar entender a realidade, pois ela é soberana! Foi isso que ele fez!