Biomecânica x Lesões – uma obsessão

Tem vezes que penso em bloquear uns de vocês no Instagram… dias atrás alguém me marcou num post com “perfis essenciais pra se seguir”. Não conhecia ninguém ali e entrei pra ver. Eram basicamente dôtores videntes que descobrem pela biomecânica de corrida quem e como se lesionam. Cobrando, lógico… Quanta bobagem…

O escândalo envolvendo Alberto Salazar me fez lembrar de um artigo clássico sobre ele na The New Yorker. Salazar seria o mago da biomecânica. Os ingênuos compraram essa história feito cachorrinhos.

Ele era obcecado com biomecânica. Queria “consertar” todo mundo. Dathan Ritzenhein é talvez sua vítima mais famosa. Salazar queria fazer Ritzenhein correr parecido com Kenenisa Bekele e Haile Gebrselassie.

 Voltando aos videntes de jaleco que preveem lesão, essa semana entrevistamos no podcast 3 Lados da Corrida o Nélio Moura, um dos maiores nomes da história do nosso atletismo. Sem constrangimento Nélio disse que nunca viu nada de mais na Maurren Maggi ou no Jefferson Sabino ainda jovens.

Na minha carreira como treinador eu NUNCA consegui prever uma lesão em atleta meu. NUNCA. Mesmo estando por mais de 10 horas semanalmente com alguns deles na pista. Mas tem quem acha que consiga olhar gente na esteira correndo e fazer aposta. É na melhor das hipóteses ingenuidade.

Depois de visitar esses perfis, agora no meu Instagram aparecem anúncios patrocinados de consultas para análise prevendo lesão (por isso que de raiva quero bloquear alguns de vocês). Acho que é mais honesto você prever números da Megasena!

Corrida é uma manifestação harmônica de individualidades biológicas! O que parece ser certo a NÓS, ao nosso olhar viciado por uma base de dados de corredores rápidos, nada mais é que NOSSO OLHAR vendo uma harmonia na NOSSA leitura do que é corrida. Mas o certo, para AQUELE individuo correndo, é seu corpo fazendo ajustes para otimizar aquele gesto, muitas vezes o protegendo! Quando você tenta fazer ajustes para protegê-lo VOCÊ acabando o machucando!

Bom treinador não é quem faz ajustes técnicos de corrida, mas quem pouco se mete no corpo que está se expressando na corrida. O corpo É PROGRAMADO para SABER correr. Tire as arestas! Não jogue o atleta naquilo que VOCÊ achar ser o certo!

E pare de prever lesão! Isso é golpe sujo na praça! Por quê? Porque é falso, é ignorância, porque demonstra uma leitura equivocada da mecânica de corrida ma longa distância já que cada um se expressa ao seu jeito. Mesmo que não pareça harmônico aos nossos olhos viciados.

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Leituras de 5a Feira

Na Podium Runner um texto bem didático explicando por que correr mais quilômetros ou mais sessões semanais é o melhor jeito de melhorar seu desempenho, Mas o amador médio ainda acha que é fazendo teste de pisada, comprando palatinose e por aí vai… Um diferencial de todo esporte é saber entender as regras do jogo!

A Canadian Running fez um curto texto falando sobre o impacto do vento no desempenho na corrida.

A Track and Field News fez a lista dos 10 atletas do ensino médio americano na década. Conheço 5 de cara… e você?

O ex-atleta Nick Symmonds é especial! Em seu canal de YouTube ele promove desafios diferentes. Final do ano passado ele oferecia U$100 para quem o derrotasse em uma corrida de 100m vestido de tartaruga. Hilário!

Autojabá: no outro blog eu falo sobre por que todo janeiro é sempre igual quando falamos de Nutrição..

O ex-recordista mundial do 800m Wilson Kipketer foi um dos atletas mais espetaculares de se acompanhar num passado não remoto! Ele era especial. Eu não conhecia alguns detalhes de sua carreira trazidos agora pela Spikes. Leia leia leia!

Um vídeo contando a evolução do recorde mundial da Maratona!

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GASTO ENERGÉTICO: uma entidade pouco compreendida

Fiz 3 anos de Engenharia Civil. Eu achava que seria engenheiro porque sempre gostei de contas. Tanto no colégio quanto no Laboratório de Física, já na POLI-USP, fazíamos experimentos de termodinâmica. Aquecíamos materiais isolados fazendo cálculos pra ver como se comportavam.

A Nutrição, em um reducionismo, num “pensamento por aproximação”, passou a tratar nosso organismo (biológico!) como uma lâmpada incandescente ou uma esteira ergométrica, ou seja, considera tudo pelo lado físico, matemático, ignorando inúmeras DEZENAS de hormônios que regulam nosso organismo, seu peso e funcionamento. Não tinha como dar certo, por isso é um fracasso no controle do peso!

Sábado fui treinar na volta da grade do Ibirapuera com um amigo de longa data. Pelo pensamento por aproximação e reducionista da nutrição, você poderia ADICIONAR o gasto do treino ao total energético de nosso dia. Na faculdade ensinam equações de gasto energético que funcionam PURAMENTE por FÉ. A base dessas equações NÃO passariam em “Laboratório de Física Elementar pra Iniciantes” se existisse. Por quê? Elas se baseiam em PURA e PORCA extrapolação.

Na POLI se você errasse UMA conta o professor de Resistência de Materiais dava zero e dizia “o caminhão derrubou a ponte” (aconteceu COMIGO!). Na Nutrição você faz a conta, a pessoa não emagrece e você dá zero é pra ele.

No mesmo sábado dormi de tarde. Foi a primeira vez em semanas! Motivo? Foi meu treino mais longo no período! Foi o jeito que meu corpo encontrou pra me trazer ao equilíbrio, de COMPENSAR um maior gasto energético matinal! Eu NÃO gastei mais energia no dia, eu CONCENTREI o gasto pela manhã! POR ISSO que aumento de volume de treino NÃO vem com gasto energético ou perda de peso equivalentes! Já disse antes: eu DORMIA TODO sábado (longos) em minhas últimas maratonas. Não CONSEGUIA ficar acordado.

O gráfico do post mostra um modelo compensatório de gasto energético porque ele parte da premissa de que nosso corpo NÃO funciona como uma máquina, mas como um organismo biológico, VIVO. A extrapolação de gasto calórico NÃO faz sentido porque o gasto NÃO é linear.

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Quanto correr antes dos 42km? – parte 3

Em dezembro escrevi 2 posts (aqui e depois aqui) porque os leitores sempre perguntam sobre volume dos maiores Longos no treinamento pra Maratona. Um ENORME erro conceitual de MUITOS corredores (e mesmo entre treinadores!) é considerar que nosso corpo, nossa fisiologia, responde aos estímulos da DISTÂNCIA, quando na verdade na fisiologia o TEMPO é que é soberano.

Escrevi aquilo no vácuo de um estudo BEM legal de Barry Smith e colaboradores que encontrou numa amostragem de 9.000 que quanto mais LENTO o corredor, MENOR precisam ser os longos (em quilômetros, não tempo!). A explicação é BEM simples. A fisiologia de Eliud Kipchoge ou de sua amiga que corre em 5h26 obedecem a regras BEM similares quando falamos em TEMPO, mas MUITO distintas quando falamos em quilômetros.

Como a resistência de longa duração vai de pouco menos de 2h00 até cerca de 6h00 (segundo Valdivielso), o Longo teria que ser calculado por TEMPO, não quilômetros. Kipchoge faz 30km, já os lentos podem ficar com BEM menos (23km segundo o levantamento).

 

QUE ENTREM CAMILLE HERRONS E O RAFA MAIORAL

Herrons é a ultramaratonista americana que vem assombrando o mundo. Em texto da Canadian Running ela reforça a NÃO-linearidade dos longos, ou seja, 30km NÃO é o mesmo que 22+8km. Um grande querido, o Rafael Maioral, que corre como ela, diz que a metade da Maratona é o 30km (impossível não concordar!), OU SEJA, os 12km finais equivalem a 30km! É a NÃO-linearidade!

O que o amador NÃO gosta de admitir é que FISIOLOGICAMENTE seus 42km está mais próximo de Herron nos 100km do que dos 42km de Kipchoge, Mas de quem ele copia o padrão? Pois é… você entendeu meu ponto.

Herron disse que quando migrou para as ultramaratonas ela cometeu o erro de aumentar muito o volume. Não funcionou! 2 anos depois ela viu que a abordagem precisava ser diferente. Ela decidiu voltar então à abordagem que a mantinha… rápida (intervalados e SEM longos longões). E como ela mantém volume alto sem fazer longos longões? Ela faz longos normais, “curtos” e agrega uma outra sessão. Por quê? Porque 22km+8km é diferente de 30km! Quebrando assim ela mantem a qualidade!

É POR ISSO que a base não deveria ter grandes volumes, Mas aí é pra outra hora!

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Os números das Maratonas e do maratonista brasileiro – ANUÁRIO 2019

Publiquei hoje meu relatório anual com os números das MARATONAS brasileiras e o perfil do maratonista médio brasileiro. Como vem sendo, este é um levantamento único e exclusivo no nosso mercado (aqui você tem ele completo) e busca principalmente colocar um pouco de luz dando números na prova mais famosa da corrida de longa distância.

Quando falamos de 42km, Japão e EUA são líderes mais que absolutos em concluintes. Os países somados produzem 1 milhão de concluintes anualmente, nós pouco mais de 30.000. Europeus são também quase tão bons quanto EUA e Japão em completar a distância! Em compensação ficamos à frente dos argentinos, por exemplo.

Dados a destacar:

– Número recorde de maratonistas nas provas brasileiras (quase 34.000), um aumento de 7%!
– Mulheres correndo hoje são cerca de 22% dos concluintes.

Em 2019 foram as provas fora das 7 maiores que empurraram o aumento de concluintes.

O nosso mercado de maratona vem crescendo de forma contínua e sustentada desde 2011. Para ser bem sincero nunca acreditei muito nisso. Até porque organizar um 42km traz bem menos retorno do que organizar 4 provas de 10km, por exemplo.

Mas não é só aqui no Brasil que brasileiros se testam nos 42km! Cada vez mais temos mais conterrâneos completando a distância nas principais provas do mundo. Talvez pelo preço, praticidade, fama e qualidade, a mais “brasileira” seja na América do Sul (Buenos Aires). As majors Berlim e Chicago seguem de perto.

Juntando-se os dados temos que o maratonista médio brasileiro é:
– Homem (78%);
– Idade entre 30 e 49 anos (67%).
– Ele correu no Rio de Janeiro, em São Paulo ou no exterior (57%);
– Corre os 42km em 4h16 (6’04″/km). E se for mulher, em 4h43 (6’42″/km)!

E se você quer correr rápido em solo brasileiro, sabidamente Porto Alegre sempre foi rápida, mas talvez valha dar uma chance para a Internacional de Floripa (a de agosto)!

E fica novamente o convite para acessar os dados completos do Infográfico das Maratonas Brasileiras clicando aqui!

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