Eliud Kipchoge. Mas… Já o melhor a história?

A história é a caixa forte da memória.”

Na aposentadoria de Usain Bolt escrevi que ele momentos antes da sua despedida, na final dos 100m no Mundial em Londres/2017, no qual ele foi bronze, ele já era o maior da história. Sob QUALQUER aspecto ele era já maior que seus maiores rivais anteriores: OwensLewis ou Hayes (*esta é a minha ordem de melhores da história).

O queniano Kipchoge domingo último correu uma Maratona em uma velocidade jamais feita. Alguns fatos chamam ainda mais atenção pelo seu feito. Por exemplo, foi a maior margem de quebra de um recorde mundial em mais de 50 anos (Derek Clayton/1967). Outro dado assustador: suas parciais de 10km foram cada vez mais rápidas. Não é apenas um split negativo (norma desde Ronaldo da Costa/1998). Da largada a chegada, de 10km em 10km ele foi acelerando! Os 10km mais velozes foram do 32km aos 42km! Fantástico!

O MAIOR DA HISTÓRIA?

Não, não é. Kipchoge é fantástico! É bonito e um enorme privilégio poder vê-lo competir. Mas apressadamente passá-lo à frente de outros nomes igualmente fantásticos é quase um desrespeito com ícones desse esporte. O tempo ensina… Ele nos ensina, por exemplo que outros atletas já foram até mais dominantes que Eliud.

O americano Clarence DEMAR, por exemplo, venceu a Maratona de Boston, quase uma espécie de mundial da época, 7 vezes em um intervalo de 19 anos. Tremenda longevidade. Medalhista olímpico (bronze/1924), talvez lhe falte um recorde mundial. O britânico Jim PETERS, outro de enorme domínio em sua época, bateu o WR por 3 vezes em 3 anos!

Em sua busca pelo seu ouro olímpico PETERS em 1952 foi esmagado por outro fora de série. Emil ZATOPEK estreou na distância com ouro e recorde olímpico. Zatopek em suas duas provas não obteve um WR. O australiano Derek Clayton bateu por duas vezes o WR. Ninguém foi mais rápido que ele por 14 anos. É o maior domínio até hoje. Mas antes dele houve aquele que pode não ser o maior da história, mas que também sob qualquer parâmetro analisado não pode nunca ser considerado PIOR que qualquer outro maratonista que já existiu.

Abebe BIKILA, bicampeão olímpico, dois WRs, não pode NUNCA ser colocado atrás em uma lista de os maiores da história. Não pode. Não pode. Ele bateu o WR correndo descalço no verão de Roma correndo em paralelepípedos! E depois o melhorou!

E assim chego ao meu último ponto. O que vimos domingo não podemos SEQUER afirmar que foi o maior desempenho já visto nos 42km! Zatopek em Helsinque/52, Bikila em Roma/60, Salazar em Boston/82, Ronaldo da Costa/1998, Wanjiru em Pequim/2008 ou Meb em Boston/2014… não foram menos espetaculares!

Quando olhamos apenas o cronômetro (um juiz que não envelhece), temos que o WR de Zatopek nos 10.000m é mais LENTO que a média de Kipchoge. Mas a dominância do queniano é de cerca de 1% enquanto ninguém dominou mais a corrida que o tcheco. Não deve existir na história do fundo atleta mais dominante que o tcheco. Até o tempo em Berlim, descontado o quanto ele foi beneficiado no evento #Breaking2 pela barreira de vento, parece mostrar que ele correu o MESMO tempo. Ou seja, no fundo não teria havido uma melhora domingo agora (*e aqui entra que feitos os cálculos, o Vaporfly não daria aquilo que as pessoas acham que dá, mas não quero me estender).

Estou nas páginas finais da leitura de meu 4º livro sobre a trajetória de Lance Armstrong*. Sabe… “A história é a caixa forte da memória”, como disse o poeta. Espanta um pouco que caiamos tão facilmente na pressa de eleger o melhor de todos os tempos. Assim como na Maratona, temos que ir com calma…. O jogo só acaba quando termina. Talvez depois de Tóquio/2020. Até lá Bikila está no topo do pódio. Pode até dividir com Kipchoge, mas não menos que o topo.

p.s.: Nem DE LONGE sugiro que haja desconfiança no que vimos domingo… eu só nunca compro de cara o que tentam me vender…

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Leituras de 2a Feira

Você sabe quais são os tênis usados pelos homens medalhistas nas majors este ano? Abaixo uma tabela! (fonte)

Uma matéria no The New York Times falando por que Eliud Kipchoge seria o maior maratonista de todos os tempos. Escrita antes da Maratona de Berlim (igual esse parágrafo), tenho enorme dificuldade de não colocar no mínimo Abebe Bikila ao seu lado.

O monstro Tommie Smith reflete sobre um dos gestos olímpicos mais célebres da história 50 anos depois. As histórias por trás dele são incríveis.

Um estudo e um debate MUITO revelador pode apontar o ponto fraco do corredor (não deixa de ser curioso que tendão de Aquiles seja sinônimo de fraqueza). Mas sempre que temos soluções simples a problemas complexos temos que ser receosos sobre sua eficácia. *o que Alex Hutchinson deixa de discutir em seu belo texto é que a musculatura da panturrilha parece ser um limitante em corredores amadores mais lentos. Mas quem disse que não é justamente essa fraqueza que os faz lentos? Por que deduzir quase que ingenuamente que fortalecer corredores mais velozes seria assim tão benéfico? Mesmo os amadores, para se tornarem mais velozes eles já não teriam feito muito treinos em ladeiras ou mesmo de força que teriam fortalecido esse elo frágil?

Um belo vídeo da Nike sobre Eliud Kipchoge.

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Leituras de 5a Feira

Belíssimo vídeo da Nike com Caster Semenya, a velocista sul-africana que vive no olho do furacão de um polêmico debate sem fim sobre feminilidade no esporte.

Ainda falando de Semenya, uma rara e curta entrevista da atleta saiu na Runner’s World de seu país.

Um texto incrível da Let’s Run mergulha no cálculo do quanto os principais atletas do atletismo faturam em salários anuais. O modelo é primoroso! Mais. Fica claro como as provas dos atletas, sua nacionalidade e seu envolvimento mesmo em mídias sociais importam por vezes muito mais do que o desempenho nas provas.

Levantar cedíssimo e ir logo correr é caminho andado para um enfarte“. Era a chamada de uma manchete que recebi tempo atrás do Bino Biasutti. É impressionante como o pensamento raso e burro no jornalismo e na área da saúde gera notícias e recomendações como essa! Essa gente (pesquisadores e jornalistas) não sobrevivem ao mundo real. Basta tirarem o traseiro gordo UM dia cedo e ir a qualquer parque, parar, estudar um pouco de lógica, matemática e ver que não faz sentido algum. Confundem alhos com bugalhos. Burro ou mal-intencionado. Sem meio termo.

Como reconhecer um corredor em meio à multidão? Bom, seguindo as dicas da Canadian Running você nunca diria que eu corro. (risos)

A partir de hoje, sempre que um corredor mimimi vier falar que “ai aquele tênis não é pra minha pisada” eu vou fazer igual ao meme do Batman dando um tapa na cara do Robin e mostrar esse vídeo abaixo:

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Livro novo na área?!? O VETERINÁRIO CLANDESTINO

É com enorme satisfação e alegria que venho até você, que compartilha muitas das minhas ideias, dizer que minha nova obra finalmente ganhou vida! Sou dono (ou como gostam de dizer, tutor) de duas cadelas.

Uma delas ficou obesa enquanto eu morava no exterior. Isso resultou em questionamentos, uma pós-graduação em Nutrição Animal e um livro que questiona tudo – absolutamente TUDO! – o que os especialistas acham que sabem sobre a silenciosa epidemia recente de obesidade em nossos amigos de 4 patas.

Em O Veterinário Clandestino faco questão de trazer estudos esquecidos, alguns escondidos, outros ignorados sobre como combater esse problema tão grave. Você irá se surpreender, eu te GARANTO!

Caso você queira saber mais, basta clicar e entrar no site do livro (e-book)!

http://www.oclandestino.com.br/veterinario

Muito obrigado!

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Leituras de 2a Feira

Eu ia deixar passar, mas quando 13.000 pessoas trapaceiam em uma Maratona, mais do que tem nossa maior prova nos 42km, isso não deve ser ignorado! Ano passado quase 6.000 corredores teriam cortado caminho na Maratona da Cidade do México. Esse ano mais que o dobro. Qual a razão? Bom, assim como aqui no Brasil alguns circuitos oferecem medalha em forma de quebra-cabeça (você tendo que correr todas as etapas para completar a forma), no México por 6 anos as pessoas tinham que correr 42km para formar a palavra MÉXICO. Este ano era a letra O, a final, repetindo desta vez o percurso de 50 anos atrás quando a cidade foi sede olímpica (1968). Pronto, estava formada a confusão! Difícil julgar sem ignorar o fato que isso acontece em um país do 3º mundo… quando eu fiz um levantamento da Maratona de Buenos Aires (capital de outro país de 3º mundo como México e Brasil) anos atrás encontrei que lá no 39km há uma alça onde muitos corredores cortavam caminho. Muitos. Triste. Tenho certeza de que não somos melhores que nossos hermanos, apenas não temos como verificar ainda.

Como seria correr uma Maratona em Marte?

9 coisas que um espectador da Ultra Trail du Mont Blanc (170km) aprendeu sobre a modalidade de ultradistância de montanha.

Quando as provas de velocidade são feitas em altitude ou com vento (seja a favor ou contra) os comentaristas (ao menos os bons) costumam fazer paralelo com os tempos correspondentes. Por exemplo, dias atrás o americano Christian Coleman fez 9.79 com vento contra. Esse tempo é por si só o melhor em 3 anos e o 7º melhor de todos os tempos, ajustado o vento, ele é ainda melhor. Uma matéria bacana da Canadian Running explica os cálculos, como os amadores se beneficiam mais e como muda de prova para prova.

Aqui outro texto discutindo sem questionar muito a suposta vantagem que o Vaporfly da Nike daria. É muito reducionismo… não deve ser de graça!

Terry Fox é uma das maiores celebridades esportivas do Canadá. Sua história é incrível, emocionante, quase inacreditável. O canadense elevou a “corrida engajada” a um outro nível, inimaginável. Se você não conhece sua história, recomendo que o faça!

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