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“Smoothness”

Ultimamente não tem se passado um dia sem que eu pense que a melhora na corrida de um amador deveria vir baseada em ganhos de força acima de qualquer coisa. Lembro que quando ainda trabalhava com velocistas, no universitário feminino eu dizia que o melhor revezamento não se ganhava treinando na pista, mas na musculação. No feminino com uma barra e muitas anilhas e você mal precisava levá-las à pista correr!

Dia atrás vi a imagem de uma corredora descalça correndo. Foi angustiante. O pé, nossa ligação primária com o ambiente, era tão fragilizado que você mal enxergava seu arco. Essa pessoa, tenho CERTEZA, se preocupa com tênis, pisada, volume de treino, ritmos e tem um pé que tem menos músculo que um pastel de carne.

Seus joelhos voltados pra dentro, sinalizando pernas e quadris que não suportam sequer seu peso, o que dizer de UMA perna sozinha por vez suportando TODO o peso somado ao impacto?

Todos enxergamos correr como nossa capacidade de GERAR um trabalho, mas ela é ANTES disso derivada de nossa capacidade de ABSORVER a carga INTRÍNSECA da modalidade. É como achar que podemos atacar sem defender! Ou seja, o corredor se preocupa com a chuteira, com caneleira, a tática do adversário, mas não repara que seu time entrou sem goleiro e zagueiros.

CRAIG PICKERING é um ex-velocista que escreve brilhantemente. Ele resolveu se debruçar sobre a suavidade e a fluidez (“smoothness”) na corrida. E a capacidade de ABSORVER IMPACTOS parece ser decisivo nessa história! Uma corrida passiva (que joga ao tênis esse trabalho) é ineficiente. E a fragilidade traz movimentos descoordenados (por trabalhar sempre no limite da exaustão).

Muitos dos corredores (amadores!) que mais admiro têm essa leveza! Parece que suas articulações são mais lubrificadas que a média, mas na verdade olhando a fundo vemos que são pessoas fortes, que faz a corrida parecer fácil, natural, fluida!

Os educativos “quebram” a fluidez da corrida (porque encara tudo em separado) e a fragilidade do conjunto nos impede de qualquer coisa. Pense nisso!

p.s.: não foi à toa que escolhi para este tema foto do velocista de corrida mais linda da história, Tyson Gay.

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CHEATFLY modelo 1957. Ou ainda: os Magic Shoes russos.

O MONSTRO treinador PJ Vazel nos trouxe a história dos primeiros CheatFLys do atletismo. Vou recapitular resumidamente… o saltador em altura Yuri Stepanov (ex-URSS) passou a usar por conta em seus últimos saltos nas competições um tênis que teria entressola de 4-5cm, ou seja, igual a aberração usada em Viena ano passado.

Resultado? Stepanov era agora capaz de bater o recorde mundial (WR) e quebrar a hegemonia americana de quase meio século (!!) na prova. Obviamente não foi só isso (SEMPRE que se toca no assunto asnos correm nos comentários escrevendo ainda em 4 apoios: “bate lá então vc o recorde do Kipchoge“).

Os soviéticos haviam mudado a ABORDAGEM da prova. Passaram acelerar na aproximação ao sarrafo (americanos aceleravam apenas nos 3 passos finais, soviéticos passaram a fazer toda a corrida em sprint). Tem mais, a ex-URSS fazia seus atletas fazerem então MUITO treino de força (acredite, saltadores fazem MUITO treino de força, eles não saltam daquele jeito porque fazem educativos…).

A imagem do post não é de Stepanov, mas de seu adversário Ernie Shelton (EUA) que criou uma sapatilha “armadilha de urso” para poder competir em pés de igualdade. O resultado? Americanos e agora alemães começaram a usar tamancos cada vez maiores. Com o WR quebrado e humilhado a IAAF teve que se mexer (novamente lenta). MANTEVE o WR com auxílio de tênis e estabeleceu que não mais que 13mm (meia polegada) eram permitido entre os pés e a pista. Pronto! Simples, não?!

Mais duas consequências. Stepanov CONTINUOU a competir e a ganhar, mas sem as mesmas marcas e acabou tragicamente cometendo suicídio aos 31 anos em 1963.

O WR do salto e altura CONTINUOU a subir MESMO sem os CheatFlys! Mas a IAAF viu que precisava proteger seu próprio esporte porque NADA impedia alguém de saltar com perna de pau assim como não há atualmente NADA que impeça você de usar rodinhas ou patins.

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O melhor educativo ao fundista é a Força.

OU ANDA: é sobre a hierarquia no Treinamento!

Sempre falo que fundistas e assessorias aprenderiam MUITO se observassem mais os velocistas. Basicamente porque estes precisam de MUITA qualidade enquanto corredores de longa focam na quantidade. Num pensamento por aproximação assessorias copiam exercícios educativos que os velocistas fazem porque executam gestos NÃO-naturais.

Sabe o que NÃO copiam? O treinamento de força. A razão é simples: é muito mais fácil orientar alguém a ficar elevando o joelho por 40m e muito mais gostoso do que levantar uma barra de 40kg. Agora sabe o que um velocista MAIS faz? Treinamento de força. Isso as assessorias em sua maioria NÃO copiam!

Os Educativos, assim como o Treinamento Funcional, parece nunca sair de moda. São MUITO mais fáceis de ensinar, de praticar, de supervisionar e encanta, você pode ficar ao lado do cliente fazendo cara de conteúdo. Quantos graduados sabem a parte técnica de um Levantamento Terra ou Agachamento? 5%? Nem isso.

 A hierarquia do treinamento deve ser SEMPRE respeitada em nome da EFICIÊNCIA do modelo de treinamento. Se você quer ter a técnica de um bom velocista, ANTES DE TUDO tenha seus níveis de força e mobilidade! Quando era mais inexperiente, quando via um atleta meu correndo com “joelho baixo” ou sem “trazer o calcanhar até o quadril”, o fazia praticar muitos educativos porque achava que aquilo era técnica, não déficit de níveis de força em TODA a amplitude funcional do movimento.

Porém, o educativo vai fazer tudo, MENOS elevar seus níveis de força. Seu corredor não executa algo não porque não queira (Técnica), mas porque não CONSEGUE (força). Um teste básico e simples: o corredor consegue fazer um agachamento total lateral só com a barra? Se não tem esse nível elementar de força e mobilidade como achar que ele terá força para correr em toda sua amplitude de movimento e – talvez até mais importante! – para assimilar a carga do esporte SEM se machucar??

Correr “direito” é sobre PODER, não QUERER. Por isso a força vai SEMPRE superar um educativo.

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“Faça por merecer!”

Já falei pra vocês que sou apaixonado pela Segunda Guerra Mundial? No melhor filme do gênero, uma das frases de Tom Hanks para Matt Damon é: EARN IT (“faça por merecer“). Já volto a ela.

Sempre me perguntam sobre volume máximo do longão treinando pra maratona. Há o pensamento comum de que para correr 42km teríamos que correr 36km. Por quê? Não há ciência nisso. É um número arbitrário por mais que te vendam o contrário. Lembrem-se: nosso corpo é regido fisiologicamente em função do TEMPO, não da distância.

Existem algumas regras informais para calcular volume semanal de treino e uma delas é que um longo não deveria exceder os 30%. Então a conta é simples, AINDA QUE nem mesmo eu a respeite 100%, para “poder correr” um longo de 32km algumas semanas antes de uma maratona, você deveria estar treinando cerca de 106km na semana (30%).

Não consigo entender (ainda que já tenha orientado isso!) um amador lento que treina 3 vezes na semana rodando longos de quase 4 horas pra chegar a esse valor de 30 e poucos KMs.

Em um dos meus workshops sobre Corrida, após uma pergunta no tema um participante respondeu: então você deve MERECER o treino?

Este final de semana no Outside Box em Balneário Camboriú meu amigo Fabio Pierry usou a expressão EARN THE LOAD (“faça por merecer a carga“). Ele diz que “aguentar, suportar, completar uma tarefa é muito diferente de estar PREPARADO para ela“.

Ou (ainda ele): “o atleta precisa ter capacidade para treinar ANTES de poder treinar“. Não poderia concordar mais! Sou feliz por ter sido seu estagiário!

Pode parecer complicado o conceito, eu sei. Mas pela minha experiência pouca coisa machuca mais do que um corpo não-preparado exposto a cargas irreais só porque a pessoa acha necessário e essencial antes de uma prova. E aí ela quebra ANTES da prova. Faz sentido?

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Técnica de Corrida não é sobre o que se ganha, mas sobre o que se perde!

OU AINDA: não se ensina aquilo que já se sabe!

Não consigo parar de olhar para a foto do post!! Me mandaram ironicamente dizendo “imagina se fizéssemos análises e educativos nelas“…

Repare no de azul à esquerda… Quadril flexionado, em “posição de força” (é o que acontece quando um velocista faz força, por isso falamos pra correr “grandão“, pra que o centro de gravidade não “caia“, o que diminui a amplitude da passada… Lembre-se SEMPRE: aceleração é uma resultante de força e velocidade… Se você “chama” a força, você perde velocidade que é o que você MAIS quer numa corrida).

Vamos ao garoto da direita… Regata azul clara… Pé em apoio completo no solo, fazendo força, tronco girando… Mais do que deveria? Sim, mas SÃO CRIANÇAS! Mas o MAIS importante… SABEM correr porque é ISSO que nossa espécie faz. PAREM de achar que é uma habilidade que se ensina!

Agora a menina de verde… Mobilidade de tornozelo, mobilidade de quadril, “joelhão” vindo grandão à frente… Alguém ensinou isso à ela? NÃO! Porque técnica de corrida não é uma questão de querer, mas de PODER!

Sabe, tenho calafrios quando vejo gente recomendando meio-agachamento, por exemplo, na longa distância… Você PRECISA agachar até o FIM, até o FUNDO para não perder um gesto que PERTENCE ao ser humano. A extensão do quadril, FUNDAMENTAL para correr bem não se conquista com educativo ou teoria, mas com capacidades perdidas com o sedentarismo ou com a falta de movimento envolvendo FORÇA.

Essas crianças que nunca tiveram que aprender ensinam muito se você quiser mesmo aprender.

Quando criança temos tudo sem educativo. Ao perder temos que nos movimentar. O educativo não é essencial na nesse processo ou então assuma que você quer melhorar com atalho, sem fazer força, um elemento esquecido na mobilidade.

 

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