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Inferno, doping, ingenuidade e não somos mais crianças

Dan Brown é um baita escritor. Seu livro mais conhecido, O Código Da Vinci, vale ser lido! De todas as críticas que já li, o dono era sempre um pedante necessariamente possuidor de um diploma universitário, como que para nos lembrar de que ele não cai em truques do entretenimento. Por isso pedante, pois só assim para ignorar que Brown fez pesquisa de primeira e a usou em uma obra de ficção, por definição com liberdade poética. É o típico chato que quando vê Star Wars fica nos lembrando que explosões no espaço não geram barulho.

O livro tem um personagem central que participa de 4 de seus livros (praticamente sem ligação entre eles). O mais recente dessa série, Inferno, também virou filme. Nele há uma frase interessante de um dos personagens centrais. Harry Sims diz: “Os jovens me decepcionam. Só os tolero por volta dos 35 *.

Semana passada tivemos duas notícias muito importantes no mundo do atletismo. Domingo caiu mais uma vez o recorde mundial da Meia Maratona entre as mulheres. Já mais para o final dela uma bomba: era pega no exame antidoping o primeiro peixe-grande queniano, a campeã da última Maratona Olímpica.

Existem levantamentos BEM interessantes que mostram como a adoção de testes antidoping influenciou diminuindo o ritmo competitivo em provas como os 10.000m, por exemplo. Existem algumas certezas: uma é que o doping funciona muito bem no aumento do desempenho. Outra é que um número muito baixo de dopados é pego em exames. Outra certeza é ainda que se você GARANTE que um grupo de elite não se dopa, o ritmo deste grupo NECESSARIAMENTE cai. *Por isso ainda se você quer bater a barreira das 2h00 na Maratona com um grupo de atletas, há um conflito de interesse perigoso…

Por isso que as duas notícias, apesar de importantes, vieram acompanhadas de uma sensação de “mais do mesmo”, com desinteresse. É uma pena. Isso porque foi o maior nome já pego e outra porque um recorde mundial deveria ser sempre especial. Sempre. Mas não é mais. Há muito acabou a época da inocência no atletismo. Este esporte virou um grande teatro, muitos torcem, acompanham, mas quando caem as cortinas você sabe que era tudo uma grande encenação, você não fica bravo querendo agredir a Adriana Esteves ao vê-la no supermercado, pois você sabe que na novela como vilã ela apenas atuava, era tudo falso. O atletismo caminha em direção ao ciclismo, ao halterofilismo, ao fisiculturismo, com a diferença que no atletismo ainda imaginamos haver mais atletas limpos. Mas já não sabemos mais quem interpreta e quem não atua.

Não é só isso. Assim como quando assistimos ficção não copiamos tudo o que se passa na tela ou no livro, no atletismo não deveria ser diferente. Porém, um dos maiores males do doping nesse esporte passa despercebido. O doping proporciona ao trapaceiro níveis de força, de resistência e de recuperação inalcançáveis sem o uso dos recursos proibidos. O doping faz assim que sejamos impossibilitados de entender bem como funcionam as diferentes cargas e metodologias de treinamento.

Mas o que eu vi dias depois da queda do recorde foi alguns veículos e pessoas compartilharem com interesse as sessões de treino da nova recordista. O mais incrível é que muito da gente que deveria ser a mais interessada no assunto simplesmente dava de ombros. Por quê? Porque está claro que é tudo um show, uma mentira. São 2 os motivos principais: primeiro é que detalhes de um indivíduo pouca informação nos dá em função da (sempre ela) individualidade biológica. Mas o mais importante é que um organismo dopado suporta cargas não só mais altas, como em uma frequência muito maior. Por isso que amadores se deliciam com a informação, os profissionais pouco comentam.

Basicamente é assim: não há o que tirar de lição quando você é de carne e osso e a pessoa que serve de exemplo e estudo não é. Não é uma questão de metodologia, mas um exemplo de realidades tão diferentes que não vejo outra coisa senão ingenuidade pensar muito diferente. Você analisar esses treinos é o mesmo que analisar o treino de um atleta de força que carrega cargas com o auxílio de um amigo sem você saber. Ou estudar o treinamento de um velocista que dá tiros em descida também sem você saber. Ou você é inocente ou você ainda não entendeu muita coisa.

Estou eu dizendo que o novo recorde é uma fraude? Não mesmo! Nem tenho como! Por outro lado a pessoa não tem também como provar que competiu limpa. Mas a essa altura pelo desinteresse delas acho que você imagina o que acham da nova marca algumas das melhores pessoas do meio.

*Young people are disappointing. I find them become tolerable around 35.

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A Maratona acima das 2h00 ainda tem vida longa

Eu achei que não fosse cair na tentação de escrever sobre a Maratona Sub-2h00 por 2 motivos muito simples: primeiro porque ela ainda demora MUITO a acontecer (*15-25 anos, chuto). E segundo porque sempre acreditei que dentro do ambiente da corrida a ideia dessa demora, ainda que venha a ser menor, era quase um consenso. Não, não é.

Que a unanimidade é burra já sabemos, mas um pouco me espanta como tem gente comprando a ideia dos projetos sub-2h. Esqueça as revistas e portais de corrida, pois eles têm que produzir tantas matérias que eles encherão linguiça com qualquer coisa. Com QUALQUER coisa. Vale até lixo hospitalar se o prazo apertado pedir, qualidade não é essencial.

As pessoas que deixam se iludir pelo discurso dos Relações Públicas dos 3 projetos (fora os RPs fan-boys que trabalham quase de graça) se esquecem de alguns pontos sobre o tamanho da façanha que é o correr mais de 42km em menos de 120 minutos:

Usain Bolt, talvez o maior freak da história do atletismo NÃO conseguiu melhorar sozinho o recorde mundial equivalente a esse necessário;

– Faz décadas que o recorde mundial não cai nessa magnitude de 3 minutos;

– O ritmo de melhora média do recorde mundial nos faz imaginar que a barreira ainda tem vida longa, muito longa;

– É impensável vermos qualquer outro recorde mundial nas provas de corrida caírem nessa porcentagem.

Então… POR QUE NA MARATONA SERIA DIFERENTE!?

Não sei explicar muito bem a razão das pessoas se deixarem levar pela ideia mais comum, a que mais escuto: a ciência ajudou a bater as antigas marcas e novas tecnologias irão ajudar ainda mais a melhorar treinamento, alimentação, suplementação, tênis e vestuário.

A ideia do discurso de que ganhos marginais com tênis, carro-madrinha quebrando vento, percurso plano e bebida mágica se baseia na fé. Isso porque, e já disse aqui, a tecnologia e a ciência muito pouco ajudaram na evolução das marcas na longa distância. A tecnologia e ciência não ajudam, elas são lentas demais, elas apenas tentam explicar aquilo que o treinamento da corrida na base da tentativa e erro descobriu. Podemos dizer que a corrida chega quase sempre ANTES que a ciência e a tecnologia quando o assunto é desempenho. Não esperem contar em hora tão crucial com quem tão pouco ajudou em toda uma jornada de décadas.

São 3 os maiores fatores que melhoraram de modo considerável e mais impactante as marcas e recordes na longa distância nessas décadas: o aumento expressivo da profissionalização e principalmente da premiação em dinheiro, que em parte explica o segundo fator, que é a entrada dos africanos no cenário competitivo global. E por fim, o terceiro fator, que muitos (não eu) acreditam ser o fator mais forte e preponderante: o doping.

Quem acredita que os atletas estarão agora mais motivados cometem 2 erros graves e ingênuos. Já foram oferecidos prêmios milionários para quebras bem mais modestas que não caíram. E segundo, não há motivação reproduzível (em treino ou simulado ou teste) que seja equivalente ao de uma competição real, aberta. Não há como negar isso, ponto.

Quem se apoia na ideia do percurso fechado, ignora ainda que há por volta de 5 provas internacionais que anualmente recebem a elite da corrida em condições consideradas ótimas e AINDA ASSIM se mantêm bem longe da marca.

Quem acha que pode haver melhoras no treinamento, ignora que não há ciência que o construa, mas que o explique. Quem diz que pode haver melhoras na periodização, ignora que ainda sequer temos provas de que ela é tão decisiva assim na corrida. Quem diz que pode haver melhoras no vestuário, deixa-se iludir por comercial barato de marca esportiva e desconhece a importância fisiológica da vestimenta. E quem acredita que alimentação/suplementação pode ter melhorado, passa longe de conhecer o que é usado atualmente pela elite mundial e o que há de ciência por trás disso. Sabe-se pouco, quase nada.

POR FIM, CHEGAMOS AO QUE IMPORTA

Há primordialmente 3 aspectos que podem antecipar a quebra dessa barreira. O primeiro deles (e ilegal!) oficialmente e teoricamente não está sendo usado: DOPING. Você pode não dopar um atleta, mas se você EFETIVAMENTE NÃO dopar um grande grupo de elite, você tem apenas UMA certeza no curto prazo: eles no máximo ficam mais LENTOS. Ou seja, estaríamos indo assim na contramão da meta. Duvido que dopem deliberadamente esses atletas. Porém, duvido que deliberadamente façam enorme questão de os impedir de se dopar.

O segundo fator, que é o mais citado, uma vez que é o produto que os patrocinadores mais querem nos empurrar, além daquele Tang com água e açúcar sendo vendido a preço de uísque 16 anos, são os TÊNIS. Quem entende bem de biomecânica (e eu confesso que em 10 anos próximo da indústria de calçado nunca conheci um brasileiro deste mercado que entenda) sabe o quão difícil é tirar vantagem de tênis.

Basicamente temos que tênis bom é aquele tênis que pouco atrapalha. Borracha não acelera, ela freia. 100% das vezes. PONTO. Quanto mais, menos velocidade. Ou seja, quanto menos tênis (até certo limite), melhor. Isso na prática já se sabe há quase 100 anos, mas alguns fan-boys gratuitos da imprensa acham que é novidade. Os tênis de hoje não são melhores, não são mais leves, não são mais eficientes do que os de 10 ou 40 anos atrás. O enorme desafio da Nike (e também da adidas, mas esta não está prometendo nada) é conseguir um tênis que melhore a economia de corrida em larga margem (4%) sendo que isso é algo a ser feito individualmente. Um tênis que melhora a corrida do Kenenisa Bekele muito provavelmente pode não melhorar a minha, nem a do leitor que corre a 5´00”/km nem a daquele profissional que faz Maratona em 2h15 ou a daquele queniano que corre em 2h06 mas com padrão biomecânico muito diferente. Entende o tamanho do problema?

Exagerando, é mais ou menos como prometer o melhor tênis da história, mas sendo vendido a todos no tamanho 41. Eu uso 43, e você? Eu não faria prova com ele. Mas o que importa: será que todos dos projetos calçam 41? Para piorar, os testes são em esteira. Fazer teste com esses atletas na esteira é como convocar o Falcão para a seleção do Tite porque ele arrebenta no Futsal. São quase esportes diferentes! Pergunte a qualquer treinador de atleta competitivo (não de assessoria!) se treinar na pista de carvão, na de tartan, no asfalto e na esteira é a mesma coisa para o padrão mecânico da corrida. Pergunte!

E chegamos ao terceiro fator que pode antecipar a quebra da barreira: o IMPONDERÁVEL, que na verdade é um “freak”, um atleta ET. Eles existem, mas este terá que ser tão fora da curva que, como dito, mesmo Bolt não melhorou as marcas tão expressivamente como preciso. Na natação, por particularidades fisiológicas e biomecânicas da atividade que não vêm ao caso, eles são mais frequentes. Por exemplo, a nadadora Katie Ledecky é hoje melhor do que medalhistas olímpicos homens dos anos 80 e 90. Isso não existiu ainda no atletismo. Mas o inédito é isso, é algo que jamais aconteceu. Ele é imprevisível, querer prevê-lo SE ou QUANDO vai ocorrer é um exercício mais do que estúpido.

Se ainda assim a Nike conseguir desenvolver um tênis que ajude com recursos externos, aí seria quase uma trapaça. E aí o debate é meio inútil. Um amador já bateu o recorde de 100m de Usain Bolt ainda em 2009. Como? Correndo na descida. O recorde mundial da Milha (1.609m) e dos 10km também já foram batidos anos atrás também em descida. E é tudo tão inválido como sem graça que aposto que o leitor não sabia desses 3 feitos. Então nem entro nesse mérito.

Eu relutei em escrever este texto porque acho o debate infrutífero já que a Matemática, a História e a Fisiologia são tão claras nesse sentido que não sei como alguém sério ou gabaritado em algumas dessas áreas acredite que estamos realmente em uma corrida séria. Não vejo gente qualificada (Alex Hutchinson à parte quase brincando de fan-boy) apostando que saia coelho dessa cartola porque eles sabem que é algo que apenas o tal imponderável pode antecipar. E esta mesma aleatoriedade é que pode por muita reputação a perder. E esta é meio que a graça de escrever aqui que a marca NÃO cai em condições normais (sem trapaças nos pés). Eu acho que sei e guardei bem o nome de quem da área pagou ingresso para o circo montado dizendo que sim, que cai. Daqui 1 ano eu posso estar errado, mas se posicionar também é um jeito deste texto valer algo.

A discordância que há entre mim e os que acreditam que é coisa para logo mais é que eu vejo ligação entre o progresso (cada vez mais) lento da marca – tem sido assim nos últimos 20 anos – e a raridade intrínseca do imponderável. Enquanto os crentes acham que o imponderável tem dia e hora marcada assim como que por mera boa-vontade a tecnologia e a ciência farão logo mais o que nunca fizeram em mais de 50 anos, ou que um pessoal das marcas esportivas em meia dúzia de reuniões viu o que ninguém que vive desse esporte teria visto ainda em décadas.

Esses da imprensa brasileira que apostam na quebra são mais felizes do que eu.

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Dados e mais dados…

Gosto muito de números, acho que eles podem nos revelar muita coisa. O grande segredo de analisar números é saber quando você olha para uma informação que te sinais e quando saber que você olha apenas para algo que é ruído, ou seja, algo que não informa nada, apenas confunde. No esporte talvez o melhor exemplo de dados gerando informação seja a incrível história contada no livro Moneyball. Michael Lewis nos conta como um time de orçamento muito limitado, o Oakland A´s, usou números para montar um time de beisebol repleto de atletas com estatísticas alternativas para chegar com sucesso à fase mata-mata na liga americana.

Por sua natureza a corrida é cheia de dados: quilômetros rodados, Frequência Cardíaca, volume, altimetria, VO2máx, ritmo… Mas será que nós amadores olhamos para os números a serem olhados? Improvável.

Nunca antes os corredores puderam contar com tantos dados de maneira fácil. As redes sociais, os smartphones com seus aplicativos, os aparelhos de GPS e os frequencímetros vieram se juntar a cronômetros de 100 ou mais voltas (laps). E agora estão disponíveis também gadgets que calculam vetores nos tênis calculando pronação, tempo de contato do solo e muitos outros dados.

Corredor se encanta com tanto número. Os gráficos são apaixonantes. Mas serve para algo? Novamente é improvável. Há muito pouca coisa que dê informação ÚTIL, que oriente o treinamento que não seja o volume e o ritmo na corrida. Eu sempre falo que o “corredor moderno” devia ter um desapego muito maior com esses dados e também com os marcadores. O ser humano não consegue processar tanta coisa. Pior, com aquilo que lhe chega ele tenta simplificar, ele busca contar uma falsa história com os números que tem, tentando tirar conclusões de seu real condicionamento. Ele arrisca decifrar tantos números e, na absoluta maioria das vezes, ele erra ao fazer isso.

Ainda que eu acredite fortemente que o atleta deveria treinar muito poucas vezes com esses marcadores, é inegável que eles são um grande motivador de muitos amadores. Se você quer registrar tudo porque gosta, OK, mas saiba que de tudo que ele irá lhe informar, basicamente DOIS dados impactam com segurança seu desempenho. Um deles é o volume semanal, o outro é o ritmo. O resto é muita perfumaria, muito confunde, pouquíssimo ajuda.

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Batman, O Cavaleiro das Trevas e a Corrida

Já bem na parte final do ótimo “O Cavaleiro das Trevas” (2008), Batman em um dos melhores discursos do filme diz que a verdade às vezes não é boa o suficiente, que às vezes as pessoas merecem mais, que elas precisam ter sua fé recompensada. Em outra fala clássica do cinema, Jack Nicholson grita em um julgamento: você não pode com a verdade!

Várias vezes vejo assim mesmo na corrida… O corredor merece não a verdade… ele precisa é ter a fé dele recompensada.

Já disse aqui outras vezes, a corrida é o esporte mais simples que existe. Por sua fácil mensuração, que já dura séculos, muito já foi testado, parece haver muito pouco a ser inventado. Quase tudo o que você tentar fazer, inventar ou criar, alguém já tentou antes. Os resultados na corrida são sempre lentos, consequência de muita disciplina, volume, dedicação, paciência, constância. Não há atalhos. E eles já foram tentados tantas vezes e de tantas formas…

No último mês me peguei tendo quase nada a postar aqui no blog. Cada vez menos acho que haja textos de alta qualidade para recomendar. Por quê? Queira ou não acaba sempre apenas parecendo um pouco mais do mesmo, textos requentados. Fico sempre achando que os portais de corrida têm que se comportar como as antigas revistas de meninas adolescentes: chamadas bobas na capa e conteúdo que tem que se repetir na íntegra a cada – o quê? – 6 meses. Menstruação, primeiro beijo, a Boy Band do momento, acne. A corrida, tal qual nessas revistas, não tem conteúdo original que possa ser criado em um esporte tão simples, tão básico, tão lento. Resumidamente, uma revista mediana de corrida em nível de escrita não é em nada melhor do que uma Toda Teen.

E um dos recursos na corrida passa então a ser valorizar a espuma, não o café. Para correr basta um tênis qualquer, shorts e camiseta (por convenção social). Nem treinador (muito menos formado ou com CREF) é necessário. De equipamento basta um marcador de tempo digital qualquer. Todo o resto é espuma. Assim como para ficar MUITO forte você precisa apenas de uma barra livre com peso nas pontas, para correr MUITO BEM você precisa apenas disso.

No outro extremo, se a academia tem equipamentos maiores que uma geladeira frost-free, você sabe que só usam esses equipamentos os sujeitos mais fracos de sempre. Na corrida, quem usa bosu, fit ball, pranchas de instabilidade e equipamentos modernos são os que correm menos ou os mais lentos. *O monte de brinquedinho que Alberto Salazar comprou para seu pomposo projeto descobriu-se que não era ciência, era disfarce dos verdadeiros métodos ilegais que hoje a maioria está certo que ele usava.

Lembre-se: ciência e corrida NÃO andam lado a lado. A corrida está na absoluta maioria das vezes sempre à frente, a ciência vem quase sempre depois, apenas tentando entender e explicar o que aconteceu.

É por essa lentidão da corrida que quem vive de escrever dela acaba comprando essas histórias de novidade inócua. É para recompensar a fé do corredor que busca um atalho que não existe, que acha que há muita novidade que funcione. Obviamente há aquele que escreve acreditando por crença honesta, que por não entender muito do gingado, acredita que de repente podemos quebrar a barreira das 2 horas na Maratona logo mais. *Outro adendo: entender de matemática, de história e de fisiologia da corrida… Se a pessoa entende de 2 qualquer desses 3, ela SABE que a quebra das 2h na maratona demora MUITO. Se ela acha que a quebra acontece em breve, é porque com segura certeza não entende bem de 2 desses 3.

E talvez por isso é também cada vez mais comum em portais e revistas ver gente nova (na corrida) escrevendo. Talvez tenham mais fé. Talvez porque acreditem mais em releases (ou essas sejam suas únicas fontes de informação). Não importa, fazem o que é bom para revistas: geram conteúdo em um esporte que por sua natureza se transforma muito devagar. Assim a máscara que imita o treino em altitude de hoje dá espaço à nova bebida esportiva mágica de amanhã. E o corredor que busca atalhos tem sua fé recompensada. A verdade de que tudo isso, igual a um aparelho de musculação do tamanho de um Fusca, nunca funciona seria duro demais para ele. Ele quer, precisa e prefere acreditar.

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*Sometimes the truth isn’t good enough, sometimes people deserve more. Sometimes people deserve to have their faith rewarded…

**You can’t handle the truth!

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Sobre Lindy, Vovós e falsos especialistas. OU ainda: o Tempo como senhor da Razão.

Um dos temas que mais aprecio, mas sobre o qual eu dificilmente decido escrever muito é a latente ineficiência dos atuais tênis de corrida na diminuição das lesões nesse esporte. Se eu precisasse resumir em poucas palavras o recente histórico seria: nos últimos 40 anos os tênis ficaram maiores, mais pesados e (muito) mais caros. Agora os modelos convencionais contam com “tecnologias” que prometem um maior controle de pisada, maior amortecimento e um menor risco de lesões. Mas na realidade conseguiram oferecer com evidências apenas maior conforto, uma falsa de sensação de maior controle (o que não é bom!) e menor resposta sensorial aos pés com suas entressolas mais espessas (o que com certeza é ruim). Ou seja, não há vantagem ou menor índice de lesões, porém dão uma falsa sensação de segurança que é muitas vezes contraproducente.

 A QUEM OUVIR? – O que é um especialista? O que é um falso especialista? Em quem acreditar?

Você não terá problemas em encontrar até treinador dizendo que você deve treinar apenas com quem tem CREF, o que é uma tremenda bobagem; discurso de quem se preocupa mais com o próprio bolso do que com aquele que deseja correr. No campo das ideias quem decide quem é e quem não é especialista é o tempo. E existe uma regra para isso, o Efeito Lindy, uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.

Aplicado aos tênis de corrida, os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde os anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar um corredor (nem tão) iniciante com suas propagandas chamativas, pode convencer o jornalista que só lê release, pode convencer aquele médico que faz lista de “tênis bom para o joelho”. Você apenas não engana duas entidades: Lindy e o Tempo.

É por isso também que não gosto muito de escrever sobre tênis. Não tarda para aparecer quem se encante com release e propaganda, mas quando olhamos no tempo vemos que a fragilidade dos argumentos não sobrevive a ele, uma vez que um dos discursos dos fabricantes diz que “esta versão está ainda melhor que a anterior” ainda que ela não tenha se mostrado em NADA mais segura que um tênis de corrida de 1965! É como o Comunismo/Socialismo, nunca deu certo em lugar nenhum, mas deveríamos continuar tentando. Para estes todos é muito triste quando o seu “mundo dos sonhos possíveis” encontra a vida real.

Fosse um modelo de tênis convencional de hoje superior aos da década de 60, o conceito desses teria morrido, mas continua vivo ainda que sem a força da propaganda. Por quê?

 

“Insanidade em indivíduos é algo raro – mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra”. (Friedrich Nietzsche)

 

Por que tantos de nós correm com tijolos aos pés que NÃO os protegem? Por que comemos 60% das nossas calorias justamente do nutriente que é não-essencial à vida? Por quê?

Vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas. Muitos deles montam suas teorias na segurança de não ter que submeter alguém previamente ao que pregam. E é aí que nossas avós são melhores do que nossos nutricionistas. Se na saúde você tiver que seguir uma recomendação nutricional, marque um encontro com sua avó JAMAIS consulta com um Nutricionista.

Sempre que alguém vem e me chama de polêmico (o que não é verdade), repare que provavelmente estou apenas a dar peso a pesquisas que com rigor contradizem o senso-comum, seja na Nutrição ou sobre com qual tipo de tênis que deveríamos correr. Afirmações essas que eu sei que acarretam danos à reputação dos falsos especialistas, os especialistas em release, ou os ignorantes por conveniência, estes os mais desonestos. As ideias desses não sobrevivem honestamente ao tempo. Veja: são 40 anos para provar que tecnologia ajuda. Sem provas. São 40 anos seguindo cada vez mais as diretrizes nutricionais: nunca tivemos um mundo tão obeso. Esses especialistas (nutricionistas e defensores da tecnologia em calçados) são vulneráveis à prova do tempo e esperam que a realidade mude seu fundionamento, não suas teorias absurdas.

AVÓS vs PESQUISADORES

Por isso insisto com uma heurística: quer ir ao Nutricionista? Converse com sua avó. Com enorme chance de certeza afirmo que 85% das vovós estarão certas. Menos de 15% dos nutricionistas têm essa taxa. Por quê? Porque elas, nossas avós, comiam alimentos que foram a base da nossa dieta por muitos séculos. O Nutricionista não, ele vive de um pensamento mágico de teorias de apenas 40 anos que jamais foram postas à prova. Ele não tinha muito a perder, nossas avós e antepassados tinham.

Com tênis de corrida não é diferente. Por séculos os corredores, que dependiam do sucesso de sua corrida, usavam calçados com pouco suporte. Por que então dar ouvidos a jornalistas, fisioterapeutas e médicos que NÃO estudam DE VERDADE o assunto (pseudo-especialistas) e cuja parte de seu sucesso depende justamente do SEU fracasso (lesão) na corrida? Há uma enorme dissociação de interesses, como em quase todas as áreas da Saúde.

Ou ainda, aplicando à teoria da Avó-Nutricionista, veja o tipo de tênis que os veteranos abaixo, que querem ganhar a prova, calçam e veja o que diz o ~especialista~ da revista/site de corrida de seu veículo favorito que quer vender tênis. Tire você suas próprias conclusões… já sabemos mesmo que ele é um falso expert.

imrs

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