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Sobre alocação de recursos na corrida

Dia desses um atleta gringo tuitou como é o ciclo de maratona de um corredor. No começo: “Estou empolgado! Mal posso esperar para treinar!!

No meio do período de treinamento: “Estou tão cansado que mal posso esperar para acabar isso“.

Chegando o dia prova: “Não estou pronto! Precisava de mais umas semanas”.

SEMPRE que vejo profissional de saúde recomendando exercício físico dizendo que isso aumenta a disposição eu tiro UMA conclusão dele: essa pessoa NÃO treina. Não como deveria…

Veja essa frase da graaande Des Linden, olímpica e campeã de Boston quando perguntada qual sessão de treino mais difícil que já teve: “Não tive um treino que se destaque. O mais difícil pra mim é tentar correr rápido durante o treinamento pesado pra maratona.”

Vira e mexe nos stories do meu Instagram as pessoas me perguntam o que TOMAR (?!?) para ganhar disposição em treinos longos. Como é que é?! Seu treinador AINDA não te falou tudo sobre a corrida!? É como querer nadar e pedir conselhos de como não molhar o cabelo.

O treinamento é JUSTAMENTE expor seu corpo a uma condição que ele ainda “não tem”. Em preparação para eventos ou atividades de mais longa duração o estresse é mais extensivo e longo, já o treinamento de força e potência é mais intenso e agudo.

Porém, para gerar sobrecarga você faz com que o corpo COMPITA POR RECURSOS. Energéticos mesmo! Então você NÃO PODE esperar que após um treinamento DECENTE de pernas você vá estar feliz para ajudar um amigo na mudança de casa ou a encher uma laje. É IMPROVÁVEL que após um longo treinando pra Meia do Rio você tenha disposição para ir jogar bola com os sobrinhos. Por quê? Porque ele COMPETE pelos recursos energéticos, ele vai pedir que você fique quietinho.

Por isso é delírio a ideia de fazer mais exercícios pra emagrecer. Isso porque inúmeras análises controladas mostram que a pessoa que faz atividade física é MENOS ativa fora do treino. QUALQUER pessoa que tem/teve cachorro sabe disso… eu passeio com as minhas 2x/dia pra que elas não corram dentro da sala! Elas DORMEM depois dos passeios! Eu COCHILO, fico IMPRESTÁVEL depois dos meus longos de sábado! Eu não faço NADA depois dos treinos de tiro.

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O dilema do atletismo e os tênis com placas…

REGRA 143.2 do atletismo: (…) sapatos, no entanto, não devem ser construídos de modo a dar aos atletas qualquer assistência injusta ou vantagem. Qualquer tipo de sapato usado deve ser razoavelmente disponível para todos no espírito da universalidade do atletismo.

Tivemos na Maratona de Chicago um recorde mundial dito “inquebrável” sendo destruído. Vimos um dia antes um circo derrubar a barreira das 2h00. Algo precisa ser feito pela “universalidade do atletismo”. O homem mais poderoso da modalidade, Sebastian Coe, é patrocinado (U$100.000/ano) pela marca fabricante e acredito que por isso, não toca no assunto. É nojento.

Eliud Kipchoge corria antes de ter tênis customizado 42km em 2h03. Com eles correu 2h01. Kenenisa Bekele? 2h03. Com eles? 2h01. As melhores marcas da história têm TODAS menos de 18 meses. Há um padrão. Todas com o mesmo modelo. Mas muita gente finge não ver.

A discussão sobre ser contra tecnologia é TOSCA. A F-1 tem em sua ESSÊNCIA o embate tecnológico e percebeu ainda em 1993 (!) que isso MATARIA o esporte e proibiu N recursos tecnológicos. Hoje apenas estrelas patrocinadas pela Nike correm com o produto mais recente. Ou seja…

NÃO

UNIVERSALIDADE

“Ah, você é contra a tecnologia…

Pistas sintéticas são para TODOS os competidores. Os tênis não. Sapatilhas NÃO conferem a mesma vantagem (em desempenho), além de serem universais. Você NÃO TEM no atletismo QUALQUER coisa semelhante.

Coe foi GIGANTE como atleta. Como cartola é medíocre.

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HEURÍSTICA na Corrida: se o Método de treino tem nome, deve ser ruim…

A vida é curta e a quantidade de conteúdo produzida faz ser humanamente impossível acompanhar e se avaliar tudo. Se algo tem nome, regra pessoal, não me debruço nele pra estudar, já assumo que seja ruim! Depois que me provem o contrário.

Quando resolvi escrever sobre a BAAASE do Método MAF me deparei com algo pelo qual já esperava, seus defensores ferrenhos. Há quem defenda aveia, suco… há até quem defenda óleo vegetal! Então com certeza haveria quem defende o MAF (e olha que só falei mal da BASE! Nem acho o resto ruim!).

Pra mim a BASE do MAF é como homeopatia (que também não falta quem lhe defenda): você NÃO treina uma valência para ficar bom nela. Ou seja, quem nunca fez força, aos 40 anos deve ser capaz de fazer supino com um Fusca. Mas há quem enxergue aí um padrão lógico. Ok, é um direito.

E não faltaram citações a um suposto método 80:20 do Matt Fitzgerald. Deixa eu lhe dar uma notícia: o Método 80:20 não existe!

QUE ENTRE PARETO…

Das pesquisas do economista italiano Vilfredo Pareto no século 19 veio o Princípio de Pareto que se aplica a diversos campos como vendas, economia, ciência, marketing, gestão do tempo e de recursos. O princípio diz que 80% dos resultados podem sempre ser atribuídos à apenas 20% das causas. E olhe a magia acontecendo… analisados os volumes de treino das mais diversas escolas (espanhola, americana, queniana, etíope…) temos que eles fazem – adivinhem – 80% do volume mais lento que a prova e 20% igual ou mais rápido. Ficou claro?

Minha birra com método de treino é que eles embalam algo que sempre existiu. Não há NADA que você tente fazer na corrida que já não tenha sido feito MUITO à exaustão pelos grandes corredores da história. Não se engane!

Ou como magistralmente disse Steve Magness: o que você vê inevitavelmente é que todos estamos fazendo quase a mesma coisa. Sim, existem variações, pois alguns enfatizam um pouco mais disso ou um pouco mais daquilo. Mas, em geral, os melhores treinadores que eu já vi estão todos usando peças de um mesmo quebra-cabeça.

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Emagrecimento: Xadrez x Corrida

O ano é 1984, o Campeonato Mundial de Xadrez é temporariamente adiado porque o defensor do título, o russo Anatoly Karpov, havia perdido 10kg por causa das partidas.

Em outra edição, 20 anos depois, era a vez do campeão Rustam Kasimdzhanov sair 8kg mais magro.

Eu sempre falo que a ideia de que nosso peso (para mais ou para menos!) é resultado da teoria nunca antes DEVIDAMENTE testada do “balanço calórico” ainda permanece viva e forte é porque ela é apaixonante! (na verdade ela já foi N vezes refutada)

Ela é tão simples! É só jogar um conceito matemático em algo que SABEMOS ser biológico. Nela você ainda joga a culpa do sobrepeso em um fator meio puritano (a gula e preguiça do obeso!) e tira 100% das costas do especialista o caráter de incompetente por não compreender de conceitos básicos de sua área.

Se um profissional de saúde Marciano chegasse à Terra e fosse a um parque público sairia de lá com a teoria de que correr engorda, tamanha é a quantidade de pessoas acima do peso correndo.

Mentira!

Sabe por quê? Porque depois ele iria à África ver quenianos e etíopes magérrimos também correndo e concluiria que não é que corrida engorda ou emagrece.

É que africanos correm PORQUE são magros (e não para FICAR magros). E que os amadores acima do peso correm porque querem ser magros porque aqueles que são pagos para nos emagrecer ainda não entenderam que é uma questão de biologia… É sobre O QUE se come… E que não é matemático, sobre o QUANTO se come.

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O que o calor de Doha nos ensina?

Por motivos pouco nobre$ a IAAF resolveu fazer o Mundial de Atletismo deste ano em Doha (Qatar). A Maratona foi disputada à meia-noite para diminuir os efeitos do calor. Ainda assim largaram com 35°C, foi a vitória mais lenta da história da competição e teve mais de 40% das corredoras abandonando.

Eu vivo dizendo aqui que o desempenho na Longa distância é dependente de 3 fatores. Um deles é o

Eu vivo dizendo aqui que o desempenho na Longa distância é dependente de 3 fatores. Um deles é o VOLUME DE TREINO (de corrida!). Não importa a escola de treino, a nacionalidade. Você vai encontrar que em média os atletas fazem grande parte (~80%) dos quilômetros mais lento que o ritmo de competição. Não há muito segredo, o restante fica a gosto do treinador.

Os outros 2 são capacidade de DISSIPAÇÃO DE CALOR e (baixo) PESO. Repare ainda que peso tem relação forte e direta com a questão do calor e mesmo com o volume (é mais fácil correr 150km semanais pesando 60kg do que com 120kg).

A PRÁTICA

Semanas atrás, na gravação do podcast 3 Lados da Corrida com o psicólogo Arthur Ferraz, ao final fora do ar batíamos papo. Ele falava que estava prestes a viajar ao seu sexto Ironman no Havaí. Quando falávamos de seus treinos ele que é visivelmente e saudavelmente bem magro disse que precisava ainda perder “alguma coisa”. Por quê? Um cara do nível dele SABE que treino e peso “é tudo” nesse esporte.

A área (de nossa pele) é uma variável bidimensional enquanto nosso peso (ou volume) são tridimensionais. A relação de crescimento em ambas é sempre DESVANTAJOSA à capacidade de dissipação do calor, uma das 3 variáveis fundamentais. Entende meu ponto?

O gráfico abaixo que acompanha o texto é de 2 atletas de mesmo nível, um com 60kg e outro com 70kg. Só que os dois competindo a 26°C, um pode correr em 2h10 e outro “apenas” em 2h18 porque o “carburador esquenta”, o “motor fuma”.

Está treinando?? Tem que fazer mais! Tem que olhar o peso! Esqueeece tipo de pisada, tênis (modelo pesado PIORA um dos marcadores), palatinose (gel em excesso PIORA a questão do peso), meia de compressão (PIORA a dissipação)… Atleta BOM (igual o Arthur) SABE o que importa!

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