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Corrida em tempos de Coronavírus – parte 3

Toda situação incomum, época de crise, serve também para revelar não só caráter, mas comportamento.
 
O que vinha discutindo nos bastidores do podcast 3 Lados da Corrida é como seria pra muitos conviver sem a corrida por causa da quarentena. Cada um lida de um jeito.
 
Eu disse em off que achava que seria um alívio a uns que usam as redes sociais pra declarar amor à prática por JUSTAMENTE NÃO poder correr. É a motivação INTRÍNSECA versus a EXTRÍNSECA. Motivada internamente ou externamente.
 
Percebi agora que pra uns desses influenciadores é que a corrida não faz sentido algum sem posts sobre a pessoa correndo.
 
Então vivemos um embate de quem posta seu treino (um direito legítimo que as recomendações dão suporte e que não me agrada, ainda que seja um direito).
 
E de outro lado perfis que buscam demonstrar virtudes postando dizeres do tipo “não corra” ou ainda “faça como eu , corra em esteira e aproveite e use esse meu cupom de desconto“. NUNCA é de graça!
 
A corrida parece a esses apenas um meio de demonstrar virtudes. E por isso ela é um porre (sucks) e um alívio qdo sua prática é mal vista.
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Quanto correr antes dos 42km? – Parte 4

*continuo assim uma série de posts que começou aqui e depois aqui e teve a 3a parte aqui.

Podemos dizer que Treinamento Esportivo nada mais é do que um gerenciamento eficiente de cargas de esforços que gerem desconforto. Por que desconforto se fazemos um esporte que gostamos? Porque pra haver evolução NECESSARIAMENTE temos que quebrar a homeostase, o equilíbrio.

Vivem me perguntando nos stories: 20km semanais está bom pra quem quer fazer 5-10km? 26km/semana é suficiente pra fazer 21km? Pico de 50km na semana está bom pra Maratona? (casos reais)

Corredor tem gosto enorme por dados e, sendo o volume semanal o jeito mais prático e fácil de se medir essa carga, era natural esse gosto. Quem me conhece sabe da minha fé no volume como artifício de melhora. Mas não é bem assim! Eu me ESPANTO quando vejo o volume de treinos de amadores mais lentos.

O volume, na verdade NADA no treinamento, não deveria nunca vir prescrito sem algum propósito! Resistência é estender a capacidade

 que temos de produzir uma carga. Se quero quebrar a barreira dos 50’00” nos 10km e faço 12x1km a 5’00” com pausas curtas, incompletas, estou ensinando meu corpo a estender a capacidade que ele tem de sustentar e produzir trabalho a 5’00”/km.

Pulemos para os 42km. Se seu sonho é fazer a prova em 4h13 (6’00″/km, mas a lógica vale pra QUALQUER ritmo, já explico), forçar um treino “do nada” por 28km traz duas implicações MUITO sérias:

1. Você provavelmente irá correr bem mais LENTO que 6’00”/km. E aí vc NÃO ensina o corpo a resistir a um ritmo do trabalho porque ele simplesmente não foi atingido! NÃO espere que no dia você irá consegui-lo! Eu tenho FÉ no volume, o que você tem é outra coisa porque acredita que irá correr mais rápido e mais longe!

2. Talvez o mais grave e que mais me espante porque há MUITO treinador ignorando algo FUNDAMENTAL: nosso corpo é regido fisiologicamente pelo TEMPO, NÃO pela distância! Um treino bem longo tem ENORMES implicações no tamanho da carga! Quanto mais lenta a pessoa, MENOS carga ela suporta e quanto MAIS lenta, MAIS carga se aplica nela (porque corre mais tempo os MESMOS quilômetros). NÃO. FAZ. SENTIDO. ALGUM.

Lembre-se SEMPRE: para o corpo aprender a resistir a uma carga ela ANTES DE TUDO precisa ser atingida. POR ISSO que a intensidade da corrida é TÃO ESSENCIAL que um volume não pode NUNCA ser atingido em detrimento dela.

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O Trials (EUA) e o mercado dos rápidos

Gosto de olhar para a seletiva americana na Maratona (Trials) nos EUA como um espelho do mercado dentre os que gostam de correr rápido por alguns motivos. Pela característica dele, juntando cerca de 700 corredores, em vez de olhar para o pódio de majors, diluímos assim o efeito dos atletas patrocinados no perfil dos tênis mais escolhidos. Por exemplo, dentre os 6 que se classificaram pros Jogos, temos 2 que não tinham contrato com marcas! Na turma que vem atrás, temos ainda centenas de outros que têm que arcar ($) com o próprio tênis.

Vamos à imagem 1, tirada do Twitter. Um perfil fez uma contagem por equipe similar à que se usa no cross-country, somando a posição dos 3 melhores de cada “equipe” (marca esportiva) e o menor número assim ganha. No masculino nenhuma surpresa na liderança, Nike. Mas em 2o? Aquela marca que mais rápido lançou seu modelo com placa de carbono, a Hoka.

Quais outros destaques? adidas lá atrás (4o). ASICS? UM único atleta resolveu correr de ASICS, marca que já foi líder anos atrás no maior mercado do mundo, o americano. Brooks? Saucony? New Balance? Marcas MUITO fortes nos EUA não emplacam por aqui. Eu tenho minha explicação-chute, o Rodrigo Carneiro da Velocità sempre discorda dela.

No feminino fica interessante! Hoka à frente da Nike! Ex-líder ASICS? Gigante adidas? Lá atrás (5o e 7o, respectivamente).

Na imagem 2 desse post (que não sei a origem, por isso vai sem créditos, mas peguei foi com o Rodrigo Roehniss) temos os tênis por MODELO. Lembro que a Nike ofereceu gratuitamente o Alphafly, então é natural que houvesse tantos na prova, POR ISSO que acho a combinação desses levantamentos relevante… ele agrega um conjunto de quase 700 atletas MUITO rápido, MUITOS deles SEM patrocínio levando ainda em consideração a classificação final (ranking por “equipes”).

Não me espantou Nike como líder. Me espantou a Hoka (ágil na resposta ao mercado) e como marcas antes tão usadas ficaram TÃO pra trás tão rapidamente.

Por último, mas não menos importante, antes de você sair correndo pra imitar o tênis que as mulheres usam pra ver se corre mais rápido, talvez valha dar uma passada na imagem 3 e ver o volume SEMANAL de treino delas! Essa parece ser a real explicação, mas duvido que os amadores tirarão essa conclusão. Até porque os amadores não querem enxergar isso!

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Sevilha e Lodz, duas desconhecidas….

Faz tempo que não tento entender pra onde caminha o mercado… a Maratona de NY sempre foi desejada, ok, mas até tempo atrás ninguém ligava muito para Chicago… De repente virou uma obsessão entre amadores correrem as majors… outras gigantes como Honolulu ou a Marine Corps parecem seguir sendo coisa de americano. Esse domingo rolou a de Sevilha que, assim como a vizinha Valencia, parece que ganhará adeptos.

O que atrai exatamente multidões? A fórmula ninguém sabe a certo, mas exige muito dinheiro. Fosse apenas um percurso plano, Sevilha deveria faz tempo estar entre as maiores, mas é hoje apenas a 3a do país (atrás da líder Valencia e da vice Barcelona com Madri em 4o).

E por que Sevilha deveria receber mais atenção? Ontem 11 corredores fizeram abaixo de 2h08, um recorde que apenas Dubai já conseguiu (2020). Bom, mas dinheiro distorce um pouco a “velocidade” de uma prova quando se paga para profissionais correrem forte… Porém, quando falamos de percursos planos e rápidos (devemos aliar a temperatura e umidade média), Sevilha possui o percurso mais plano da Europa, só que não consegue comunicar isso!

Não é só ela! Um levantamento anos atrás chegou que a prova de LODZ na Polônia é uma das 3 melhores para uma amador correr rápido no velho continente (altimetria no pé da imagem), mas essa é uma grande desconhecida de nós. Planejei ir até lá anos atrás, mas o calendário não deixou.

Enfim….. fica a dica! Se você busca correr rápido, tem preguiça como eu tenho de se inscrever com 1 ano de antecedência em sorteio e tem um orçamento mais limitado (são 2 países BEM mais baratos), Sevilha (Espanha) e Lodz (Polônia) talvez mereçam sua atenção.

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“Smoothness”

Ultimamente não tem se passado um dia sem que eu pense que a melhora na corrida de um amador deveria vir baseada em ganhos de força acima de qualquer coisa. Lembro que quando ainda trabalhava com velocistas, no universitário feminino eu dizia que o melhor revezamento não se ganhava treinando na pista, mas na musculação. No feminino com uma barra e muitas anilhas e você mal precisava levá-las à pista correr!

Dia atrás vi a imagem de uma corredora descalça correndo. Foi angustiante. O pé, nossa ligação primária com o ambiente, era tão fragilizado que você mal enxergava seu arco. Essa pessoa, tenho CERTEZA, se preocupa com tênis, pisada, volume de treino, ritmos e tem um pé que tem menos músculo que um pastel de carne.

Seus joelhos voltados pra dentro, sinalizando pernas e quadris que não suportam sequer seu peso, o que dizer de UMA perna sozinha por vez suportando TODO o peso somado ao impacto?

Todos enxergamos correr como nossa capacidade de GERAR um trabalho, mas ela é ANTES disso derivada de nossa capacidade de ABSORVER a carga INTRÍNSECA da modalidade. É como achar que podemos atacar sem defender! Ou seja, o corredor se preocupa com a chuteira, com caneleira, a tática do adversário, mas não repara que seu time entrou sem goleiro e zagueiros.

CRAIG PICKERING é um ex-velocista que escreve brilhantemente. Ele resolveu se debruçar sobre a suavidade e a fluidez (“smoothness”) na corrida. E a capacidade de ABSORVER IMPACTOS parece ser decisivo nessa história! Uma corrida passiva (que joga ao tênis esse trabalho) é ineficiente. E a fragilidade traz movimentos descoordenados (por trabalhar sempre no limite da exaustão).

Muitos dos corredores (amadores!) que mais admiro têm essa leveza! Parece que suas articulações são mais lubrificadas que a média, mas na verdade olhando a fundo vemos que são pessoas fortes, que faz a corrida parecer fácil, natural, fluida!

Os educativos “quebram” a fluidez da corrida (porque encara tudo em separado) e a fragilidade do conjunto nos impede de qualquer coisa. Pense nisso!

p.s.: não foi à toa que escolhi para este tema foto do velocista de corrida mais linda da história, Tyson Gay.

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