Leituras de 2a Feira

Autojabá: no outro blog eu falo o que o filme Batman versus Super-Homem nos diz sobre quem vigiaria a Nutrição

 

No vácuo de seu novo livro sobre ultramaratonas, uma matéria de Adharanand Finn contando sobre o crescimento dessas provas. Os outros 2 livros de corrida dele são incríveis, dizem que este é ainda melhor, mas o tema não me atrai, então vou pular. Porém, a matéria dá pistas do que ele acabou descobrindo!

 Autojabá 2: no outro blog falo novamente sobre um inegável vício que muitos profissionais fazem questão de não enxergar, o vício do açúcar.

 40 anos atrás Sebastian Coe fez um dos maiores feitos do atletismo ao bater 3 tradicionalíssimos e importantes recordes mundiais em uma janela de somente 41 dias. Aqui reduzido a Athletic Weekly reconta.

 Ganhou destaque a notícia de um estudo mostrando que ratos que receberam bactérias encontradas no intestino de corredores da Maratona de Boston. Um texto da Outside explica detalhes interessantes de forma bem didática.

Veja a imagem abaixo que ilustra o blog hoje… No ótimo livro Speed Trap o treinador Charlie Francis faz uma longa reflexão sobre doping. Sou contra, não vem ao caso. Bom, Francis foi treinador de Ben Johnson até 1988, ele sabe do que fala. Na foto abaixo a atleta Brigid Kosgei ganhou U$58.000 pela vitória da Peachtree Road Race. Já a segunda colocada Agnes Tirop levou pra casa U$2.500. Percebe?? Em menos de décimos de segundo houve uma diferença de U$55.500. 22 vezes a menos! Em um mundo onde SÓ a vitória interessa se pavimenta o futuro glorioso do doping.

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O corredor parece querer e gostar de ser enganado…

Ou ainda: o que Picasso nos ensina sobre o mercado de corrida

 

Em 1952 um Pablo Picasso de certa forma envergonhado, mas não arrependido, escreveu uma carta a Giovanni Papini na qual fala de um motivo pouco nobre, mas não menos inteligente que acabou por valorizar seu trabalho inegavelmente genial. Na carta separo o trecho abaixo… leia, por favor.

Na arte o povo não procura mais consolação e exaltação, mas os refinados, os ricos, os ociosos, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso. E eu mesmo, desde o Cubismo e além dele, eu contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça, e quanto menos eles me compreendiam, mais eles me admiravam.

(…) eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna, riqueza. E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico. Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenha a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra.

Giotto, Ticiano, Rembrandt e Goya foram grandes pintores: eu sou apenas um divertidor do público que compreendeu o seu tempo e explorou o melhor que pode a imbecilidade, a vaidade, a avidez de seus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, mais dolorosa do que ela parece. Mas, ela tem o mérito de ser sincera.”

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Penso exatamente como o Pedro Ayres, que foi quem me apresentou por e-mail o texto: na corrida é a mesma coisa… O trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente. Isso vale para qualquer atividade humana.

Eu vivo diariamente com certos dilemas. Cada vez mais sou da opinião de que o corredor amador médio parece QUERER ser enganado. Não me leve a mal! Sempre que abro meu Instagram às perguntas vocês se surpreenderiam com quantas vezes me perguntam atualmente sobre suplementação de Glutamina e Coenzima Q10. São o BCAA da década!

Elas não vêm de corredores com 100km semanais de treino ou triatletas fazendo 12 sessões semanais de treino, não! Elas vêm de corredores que não chegam a treinar dia sim dia não.

Dias atrás eu percebi que o segundo melhor corredor que oriento acabou dando uma volta de 1km a mais no aquecimento. Eu perguntei se ele tinha se confundido (todos tinham parado nos 2km). Ele disse que não, ele disse que havia reparado ultimamente que quando aquece por cerca de 15 minutos, uma volta de 1km a mais, ele se sente mais calmo, menos ofegante para começar o treino, então 3 vezes na semana ele passou a fazer esse adendo antes do treino. Isso gera 15 minutos em uma semana. Ou ainda, para quem treina cerca de 60km/semanais, 5% a mais de carga.

Uma mudança simples, gratuita, de poucos minutos que indubitavelmente gera melhoras em seu desempenho (maior volume). Eu não pedi. Ele não perguntou. Ele fez. Eu costumo dizer que os melhores corredores não são apenas aqueles que treinam mais, mas aqueles que sabem o que os fazem melhores corredores.

Esse atleta jamais, nunca me perguntou sobre suplemento. Ele nunca buscou em um subterfúgio fácil aquilo que só vem das próprias pernas. Ou como disse Ayers: o trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente.

No mesmo dia, conversava com uma amiga nutricionista que admiro muito. Ela dizia para mim que tem dificuldades em Nutrição Esportiva. Veja bem, quando falamos de amadores, não existe Nutrição Esportiva! Esse é apenas um campo inventado para se posicionar no mercado! É um jeito de, no bom sentido, “poder enganar” um cliente. O que se diz nutricionista esportivo tem menor concorrência, ele(a) pode assim cobrar mais.

Essa colega dizia que tem dúvidas sobre nutrição na hipertrofia muscular. Vivemos em um mundo tão esquizofrênico que faz as pessoas, por preguiça, ignorância ou delírio coletivo, procurarem um nutricionista ANTES de fazer força empurrando bastante peso, uma condição sine qua non, essencial para haver hipertrofia! O aumentado consumo calórico E proteico é uma resposta natural e esperada do treinamento de força que proporciona hipertrofia! É como achar que você tem que procurar um nutricionista antes de correr porque tem medo de morrer de sede se ele não prescrever quando se deve beber água.

O que eu falei a essa amiga foi: você já sabe tudo, mas terá que enganar o cliente. Por quê? Porque “o povo não procura mais consolação e exaltação, (…) buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso”. Você como profissional tem assim que mentir porque é uma necessidade do mercado, mas mais do que isso: porque o corredor quer ser enganado. Ainda que ele não admita.

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Leituras de 5a Feira

(Meio) Off-topic: um ciclista ainda em começo de carreira fez todo um laboratório parar para checar se o equipamento estava mesmo funcionando e calibrado ou se acabavam de fazer a maior medição de VO2máx da história. O Vo2 é aquela típica medida distante e ineficiente ao desempenho esportivo, mas prendeu gerações inteiras de fisiologistas que agora que vão descobrindo sua inutilidade é tarde demais para admitir o erro e abandoná-lo. Aqui a Outside reconta este episódio.

Autojabá: no outro blog falo sobre o mito do “carne demais pra um cão”

Autojabá 2: Para saber quando o podcast 3 Lados da Corrida do qual faço parte postou novos episódios, basta assinar aqui ou então assinar ou conferir no blog!

Os caras da Citius Mag fizeram um curto documentário sobre uma prova de revezamento de 550km que teve participação de uma equipe inteira feminina que quebrou o antigo recorde feminino, ficou em 3o geral e ainda correu abaixo de 4’00”/km!

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Treino ou malabarismo?

Tempo atrás quando lia um artigo sobre como melhorar seu condicionamento, um dos mandamentos era: se você precisa escrever o treino (como se fosse uma cola para poder executá-lo), ele é complicado demais para que valha a pena ser feito.

A corrida ela é linda por inúmeros motivos, mas 2 deles especialmente me encantam:

1. Ela te devolve o tanto quanto você dedica a ela. Ela é talvez o esporte mais justo que existe;

2. Ela é simples demais. Você não precisa de NADA, nem mesmo tênis especiais para praticá-la.

 

Todo mundo que a complica em sua teoria parece apenas querer criar uma dificuldade para depois vender-lhe a facilidade. Então eu sempre tenho comigo que meu atleta ele tem que ser capaz de decorar o treino do dia sem fazer muita força! Eu me dou o direito de apenas eventualmente prescrever uma sessão que seja um pouco mais difícil de decorar. E ainda assim TODOS os atletas do grupo fazem o MESMO treino (cada um em seu ritmo individual).

 

E veja bem, eu vou à pista carregando absolutamente NADA! Treinadores de velocistas e saltadores precisam de cones, paraquedas, blocos de saída, trenas… eu não! Nem cronômetro de punho eu levo!

Mas quando seu chefe, seu patrão, aquele que lhe paga o salário é o próprio atleta, temos aí um problema. Para ganhar mais ($) você precisa não fazer o melhor a ele, você precisa fazer parecer que aquilo ali é o melhor a ele.

Como você teoricamente instrui um leigo nesse assunto, você precisa de certa forma ou ludibriá-lo ou encantá-lo. A eficiência fica em segundo plano. Nasceu assim ao longo dos tempos uma tendência crescente nesse campo: o de tornar tudo complexo. Por quê? Porque assim é um jeito de se esconder a incompetência técnica fazendo malabarismos. E você encanta e pode cobrar mais caro.

Houve uma época que aos sábados na USP (local com maior número de corredores e assessorias nesse dia em SP) você encontrava pranchas, bosu, “gaiola” de abdominal, extensores, fit ball

Muitos dos equipamentos eram para apenas enganar (no sentido de esconder um desconhecimento técnico), entreter e encantar o corredor. Nunca serviram para muita coisa! Servia sim porque da noite para o dia espalhou-se a ideia de que fazer exercícios em bases instáveis (sobre o bosu ou sobre uma fit ball) era uma descoberta das melhores!

 

Como disse um grande especialista em treino de força, convenhamos: agachar-se na bola suíça é completamente idiota. É um truque de circo.

Não que elas não sirvam para nada! Elas servem para quase nada, é diferente! Elas podem servir a um surfista que compete em uma base instável, mas não a um corredor! Ela pode servir àquele cliente sedentário de 45 anos que desde os 20 faz nada, mas não a alguém condicionado ou minimamente fortalecido!

Se um treinador tem que carregar pra lá e pra cá um monte de equipamento é porque ou isso faz bem ao marketing (concordo!), ou para entreter um cliente que não gosta de correr ou porque ainda não entendeu direito para o que aquilo tudo serve.

Sempre (sempre!) que você quiser saber se algum equipamento é MESMO necessário para melhorar sua corrida, basta se perguntar: como as pessoas faziam antes SEM ele? Pois é…

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Leituras de 6a Feira

O crescimento dos participantes das corridas de rua teria chegado ao teto? Bom, na verdade há levantamentos que dizem que estamos em pequena queda. Um texto da Runner’s World reforça o discurso de que não apenas nos EUA, mas também na Europa temos menos gente participando de provas de 2016 pra cá. O crescimento asiático parece não compensar. As provas maiores parecem se segurar melhor, mas as pequenas estariam pagando o preço.

No The New York Times matéria sobre o livro de corrida de um dos gurus desse esporte.

Quão rápido são os britânicos correndo maratona? Não são muito diferentes de nós brasileiros… A verdade é que ficar acima da média lá fora não é nada difícil, mas por experiência própria, se destacar lá fora é MUITO mais difícil do que aqui no Brasil… britânicos, espanhóis, irlandeses, americanos… tenso… tenso mesmo acompanhá-los! Os dados sobre quão rápido eles correm na média lá fora você tem neste levantamento do Run Repeat aqui!

No The New York Times um corredor amador explica como a corrida o ajuda/ajudou a fazer melhor seu trabalho!

A Let’s Run fala daquelas que seriam as 3 principais ultramaratonas do mundo. Difícil discordar… mesmo sendo matéria patrocinada pela Hoka One One.

Não sei o quanto acompanham ou gostam do alto nível. Tempo atrás a fundista americana Gabe Grunewald passou a enfrentar uma duríssima batalha contra o câncer. Uma guerra que ela perdeu recentemente e que levou o atletismo ao luto. Uma mulher singular!

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