Os U$250 no Nike Vaporfly são garantia de 4%?

Dias atrás pelo perfil do Correndo por Aí no Instagram cheguei a um vídeo incrível do Run’Ix. Eles basicamente são um perfil (também no YouTube) com imagens de corrida-raiz. No vídeo em questão podemos ver 3 quenianos (??) disputando os 10km Port Gentil no Gabão. No pé de um deles vai o tênis que encanta a amadores e a quem é pago para falar bem do tênis: o Nike Vaporfly 4%. A mais nova sensação da Nike tem esse nome porque poderia aumentar em 4% a eficiência de corrida de quem o usa. Poderia.

Coisa de um mês atrás o The New York Times publicou um estudo fantástico, incrivelmente detalhado que daria razão à propaganda: sim, quem usou o Vaporfly da marca americana realmente correu mais rápido.

Mas…

 

O estudo em questão observou 500.000 marcas em provas de Meia Maratona e ainda 42km. É muita coisa! Mas porque deveria ser visto com reserva? O primeiro motivo é que esse tipo de estudo devido sua metodologia serve mais para levantar hipóteses, porém, sem poder estabelecer com segurança o que é causa ou consequência. Esse tipo de levantamento estabelece, sim, uma correlação. Abaixo vai um gráfico que parece sugerir causa e efeito entre as duas variáveis, mas trata-se apenas da qualidade de música versus a produção de petróleo nos EUA. Há relação entre elas? Sabemos que não.

Apenas ensaios clínicos randomizados e bem controlados poderiam nos responder: sim, o Vaporfly faz os atletas correrem mais rápido os 21km ou 42km (ou mesmo mais lentos). Mesmo meio milhão de corridas, no modo como foram organizadas as análises, NÃO permitem que tiremos conclusões, no máximo especulacões.

O que me incomoda muito no levantamento do The New York Times que, insisto, é um trabalho no mínimo fantástico, é como temos que ser sempre cuidadosos, céticos. Por alguns motivos. O primeiro em função do healthy user bias, o viés do paciente bem comportado. Esse é autoexplicativo. O indivíduo é tão correto que acaba distorcendo nossos dados. O Vaporfly custa cerca de U$250, é um tênis com pegada de desempenho. É um sinal, ao menos para mim, bem claro de que ele é uma espécie de trunfo que só será usado quando os astros se alinharem para aquele corredor dedicado. O próprio veículo meio que se questiona ao final “(e) se os corredores correram em Vaporfly apenas quando pensavam que poderiam ter sua melhor corrida, poderíamos esperar ver menos deles em dias com condições abaixo do ideal.”

Outro motivo é que a informação é fornecida pelo próprio corredor (via Strava). Quem é corredor sabe como filtramos aquilo que queremos que os outros vejam (e aquilo que não queremos que os outros saibam). Apenas questionários sobre comportamento sexual e comportamento dietético devem ser mais imprecisos e seletivos que os de corrida. E por fim, por que não?, o efeito placebo. Por que alguém não correria bem quando falam que com aquele produto de U$250 ele será 4% mais rápido??

Argumentar que a base de dados é grande pouco importa! Base pequena atrapalha, base grande não necessariamente ajuda! E por fim, voltamos ao vídeo inicial.

É desesperador ver um dos quenianos correndo com esse tênis. Se você não viu ainda o vídeo, veja e repare na parte em câmera-lenta, o queniano da esquerda, em 3º, correndo com o modelo da Nike. A minha descrença (e aqui não vai NADA contra a marca, que é provavelmente de longe a minha preferida), é como ESTE corredor tem um padrão não-natural calçando o tênis. Para o texto não virar uma sequência de tecnicismos, temos que saber sempre que cada atleta em diferentes velocidades tem padrões de pisadas diferentes. Como fazer um tênis atender a cadências e velocidades tão distintas? Isso não existe! Veja que o atleta do vídeo parece correr com um travesseiro aos pés que mais tira seu padrão ideal e natural do que qualquer outra coia..

E aí assim chegamos a meu último ponto.

Se você reparar na tabela dada na matéria com os tênis que propiciariam chances de recordes temos que justamente são os tênis mais leves e do tipo competição que lideram o ranking (com o Vaporfly à frente). E tênis “mais estruturados” (aquele nome que a indústria dá para tênis pesados que não oferecem mais do que apenas conforto e peso) são os mais correlacionados com… piores marcas.

Porém, isso todo mundo já sabia! Ninguém calça um tijolo como o ASICS Kayano ou (qualquer) um da Hoka One One se você quer correr rápido. Só se você for um desaviado, um patrocinado, um influencer ou um gerente de produto de uma dessas marcas você opta por eles ou por um Mizuno Wave Inspire! E quando olhamos na parte de cima vemos justamente os modelos mais leves. Lógico!

Bom, acho que a essa altura você já viu que eu sou cético, BEM cético, quanto a essa melhora que o Vaporfly ofereceria. Para mim ainda é mais uma questão de associação. Mas posso estar errado, lógico. Pode haver um benefício que é improvável demais que seja generalizado por causa da individualidade do padrão de corrida. E para isso basta lembrarmos que no projeto mais ambicioso que a marca já fez, o tênis fez pouco, quase nada, ainda que escolhendo os atletas a dedo.

E se é 4% para um e -10% para outro, como chamá-lo?

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Leituras de 6a Feira

Os nerds do Citius Mag trazem um texto cheio de citações de outras modalidades para tentar explicar por que a próxima competição neste final de semana de Kilian Jornet é um dos maiores duelos da corrida de ultradistância em trilha.

No outro blog falo sobre as semelhanças mais do que não imaginadas entre uma lanchonete Fast Food e um supermercado.

Talento ou esforço. O debate é legal, mas a polarização é inútil, basta 1 mês de vivência prática para saber quem nem é só genética nem somente treinamento. Alex Hutchinson traz um episódio BEM legal que revela coisas que não sabíamos até então. OK, basicamente é sobre fibras musculares mudando mais do que imaginávamos ser possível, mas outras ideias bem legais, como um indivíduo com sobrepeso ter pernas mais fortes do que um atleta de resistência. São nuances que especialistas em Nutrição se esquecem quando colocam pessoas com sobrepeso em dieta e há perda de músculo. Um músculo que só está para compensar dezenas de quilos de gordura.

Off-topic: Um trabalho fantástico da FitBit em parceria com a Yahoo! Nele, aproveitando dados de 150 BILHÕES de horas de usuários, temos dados MUITO bons relacionando tempo semanal de atividade física, idade, horas de sono, IMC e sexo da pessoa. MUITO bom! Sou bem, avesso à ideia que a pessoa tem que procurar um profissional quando seu IMC está acima de 25. Esse valor é tarde DEMAIS. Banalizamos a obesidade! Outra coisa interessante…. Veja os níveis de atividade física de países obesos como EUA e Irlanda… são alguns dos maiores praticantes. E o que dizem especialistas? Teriam que fazer mais exercício. Mas como?!?

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Leituras de 3a Feira

No portal Saúde Ancestral explico como a Corrida pode explicar os benefícios do Jejum.

Baixo peso é essencial ao melhor desempenho na corrida. A rigidez da cultura japonesa pode levar isso a um extremo muito perigoso. Aqui uma bela reportagem falando das consequências nefastas que um treinador irresponsável e inconsequente teve na vida de uma talentosa atleta japonesa de elite.

Acho que todo leitor daqui já deve ter corrido alguma prova em revezamento (Maratona, Volta à Ilha, Volta ao Lago-DF, TTT…). Se não fez, faça! Uma matéria do The New York Times fala da camaradagem de correr essas provas!

Off-topic: um texto incrível na Sports illustrated reflete se não é hora de os EUA se darem conta que o Futebol Americano é apenas um esporte.

Abaixo o vídeo que a Salomon TV fez falando do “descomunal” movimento das corridas.

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De Desafios, a crise da meia-idade e o wannabe influenciador!

Um texto de chamada forte chamou minha atenção: demonstração de extremo atleticismo é a nova crise de meia-idade. O texto me chega uma semana depois de outro rodar o mundinho na corrida com o autor falando de uma doença gravíssima e muito séria: pessoas estão colocando Ironman e Maratona no currículo profissional. Como corredor, tenho medo de pegar uma doença tão grave.

Eu sempre tento ser cuidadoso quando toco nesse assunto porque parece haver não juízo de valor, mas se as pessoas poderiam ou não fazer o que elas fazem. Elas podem! Sempre! Não se discute isso! Porém, uma coisa que o texto original nos traz é uma questão de fato (não de opinião): o público de maratonas, ultras e triatlos de longa distância são pessoas de 40 a 49 anos, de renda e escolaridade acima da média. É coisa de adulto, que paga as contas e que tem dinheiro para comprar um de nossos bens mais valiosos, o tempo. Ou tente convencer uma dona de casa de baixa renda que ela pode deixar de fazer afazeres doméstico para fazer longão em ritmo de amador. Ela vai achar que você é louco.

 

Tenho muita experiência com esporte universitário e afirmo: é muito difícil fazer jovens correrem. Eles já (ou ainda) têm saúde, não chegaram à crise de meia-idade que os obriga a pedir biscoito (o “parabéns” nas redes sociais). Isso porque a garota tem a jovialidade ao seu lado que lhe garante elogios sem fazer muita força. Já o cara tem esportes mais legais que a corrida para ir conquistar o mesmo destaque. Veja bem, correr é chato, monótono, aborrecido e agride demais nosso corpo (triatlo é 3 vezes isso, só que agride bem menos). Um cara que joga handebol ou basquete bem, por exemplo, pode praticar algo que lhe dá enorme satisfação sem exigir desconforto 90% do tempo, como faz a corrida. Corrida é esporte de gente velha, sem talento para outras coisas. Aceite que dói menos.

Correr/triatlo é ainda coisa de gente velha que investe nesses eventos buscando algo em troca. Seja a saúde (que vai se esvaecendo com o tempo, essa entidade invencível e inexorável), seja reconhecimento. Que ninguém se ofenda, pois eu escrevo. Quem diz escrever não se preocupando em ser lido está claramente mentindo. Nunca acredite em artista que diz fazer apenas por amor (*aqui um adendo, nunca, jamais acredite em um ator em qualquer assunto). Isso é bobagem. Ele poderia ficar cantando no chuveiro ou interpretando somente ao cachorro dele. Ele quer público. Se não quer ser lido, não use a internet, tenha um diário de papel. Se está nas redes sociais sabemos o motivo. E sem modéstia, que nada mais é que a vaidade esperando aplauso.

Quer exemplo maior do que o que aconteceu semana passada com falsos perfil da adidas e da Nike enganando centenas de milhares de pessoas? Como diz um grandessíssimo amigo, o fingimento é o mal do século e de nossa sociedade.

Esses falsos perfis eram toscos demais e, ainda assim, quando fui dormir um deles tinha 4.000 seguidores e no dia seguinte eram mais de 100.000, reforçando a mim que velho e internet não combinam porque eles não podem ver uma vergonha que correm lá para ir passar. Porém, eu toquei no assunto fingimento porque a pessoa que corre por correr, ela já se completa. Ela não precisa exteriorizar um significado (você correria uma maratona se não pudesse contar a absolutamente ninguém?). Mas há uma insistência na ideia de que a corrida te faz melhor. Mentira enorme. O que esse golpe nos mostrou foi que dentro de cada corredor parece haver um wannabe (gíria do inglês quero ser) que finge correr de graça.

O que me assusta na época de BBB é quantas pessoas desejam ser famosas por… serem famosas. Isso é uma fama que obviamente não se sustenta por si só (a menos que você seja um/uma jovem sexy, daí dura até os 30 anos). Os famosos longevos o são em função de algo que faz bem, profissionalmente. E pudemos nesses falsos perfis observar na vida real como as pessoas querem ser famosas, influenciadores pela sua corrida amadora. Ela é a escrita aplicada ao mundo da corrida. O corredor/triatleta amador tem um enorme desejo de ver sua história ser contada, ser lida, a ponto de ficar fazendo isso por horas seguidas bem lento para que alguém mais o veja. É ISSO que o completa. O amador parece correr somente e somente se puder ou tiver sua história contada.

E nisso parece haver um significado de completar algo que lhe falta. O texto, e aqui eu discordo completamente dele, fala que treinamos para poder nos garantir de modo mais saudável anos à frente. O que o caso dos CVs com a marca do IM ou o desespero de ver sua história de amador ser contada por alguém que nem apresentou suas credenciais em troca de uns equipamentos, me dão a certeza que o esporte de ultra/longa duração sendo intrinsicamente tão chatos (e POUCO desafiadores), só encontra terreno fértil porque é um jeito de adultos termos nossa vida contada e vista pelos demais. Sem nos darmos conta, reforço, completa algo (seja saúde, talento, auto-estima, significado…) que falta em cada um. Os 15 minutos de fama prometidos parece vir à custa de muitos e muitos quilômetros.

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Leituras de 2a Feira

Tianna Bartoletta, uma das maiores velocistas e saltadoras da história assistiu ao Europeu de Atletismo, se impressionou como nunca e em seu blog nos conta os motivos! Interessante!

Se você como eu não conseguiu acompanhar o Europeu de Atletismo como deveria, aqui a Athletics Weekly faz um compilado bacana dos 10 melhores momentos ou fatos!

Eu tenho uma relação com o VO2máx como marcador semelhante à que eu tenho com o Colesterol (total). Os 2 se aproximam do quase completamente inútil, mas ganham enorme atenção de quem não deveria (médicos, treinadores e amadores). Eu não sei qual o meu, não sei qual a dos meus atletas e não consigo imaginar alguma utilidade deles. Falo dos 2! Colesterol e VO2máx! Tara estranha essa por números inúteis! Me sinto nos anos 80… só que Aretha Franklin faleceu e Madonna fez 60 anos. E essa gente SEGUE testando colesterol e VO2! Já ouvi treinador falando que teste de VO2 seria importante em amador. O médico literalmente vender isso eu até entendo, é prática esse mercado tentar vender e vender! Agora o treinador eu não entendo! Já o amador, bom… gosta e saber ate quantos quilômetros tem o tênis. Mas saiba que é uma informação tão útil quanto saber a circunferência da perna. Não importa, até gente como o Alex Hutchinson ainda bate nessa tecla…. Aqui em matéria da Outside ele fala dos recordes mundiais desse marcador. Tão interessante quanto folhear o Guinness Book. Não entendo, juro…

No outro blog postei falando sobre Café, Placebo e o skin in the game!

Se você me pedisse para muito sucintamente dar explicações para o sucesso queniano e etíope no atletismo de longa distância eu diria: uma combinação rara de genética, pressão/incentivo social, dedicação, atitude, condições ambientais muito boas e ex-atletas servindo de modelos aos mais jovens. Uma matéria bem bacana do The Guardian dá sua explicação de quem está treinando por lá. Quem for comigo em novembro vai ver tudo pessoalmente!

Abaixo o vídeo do novo Saucony Xodus ISO3:

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