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O que faz do Etíope um vencedor na corrida?

Seria a miséria? Outros países também são muito pobres. Seria a altitude de Adis Abebba? Quito e La Paz são capitais ainda mais altas. Seria sua ruralidade? Improvável. A genética? São várias etnias compondo a seleção nacional. A comida? Os métodos de treino?

Qual a resposta, a que explique a superioridade deles e dos quenianos, é uma pergunta que eu não me faço mais. Para mim, apesar de complexa, ela está bem clara aos que querem ver: é seu conjunto quase único, singular de fatores!

O método incrível de treinamento, a pressão social (a corrida como talvez única ferramenta de melhora sócio-econômica), a pobreza como propulsora, a ruralidade (que “protege” o corpo do cidadão-atleta)… A atitude, assim como também a altitude! Sim, uma genética privilegiada, a tradição de gerações…

TUDO tem seu peso. Buscar uma única resposta é coisa de ingênuo ou de quem não entendeu nada ainda.

Hoje quando visitava um cemitério destinado a heróis nacionais me deparei com essa cena. Crianças olhando o túmulo daquele que é provavelmente um dos 4 maiores corredores da história do país, sem dever NADA a Bikila, Haile ou Bekele.

Quando crianças admiram assim alguém como MIRUTS YIFTER, o Yifter “The Shifter”, um quase desconhecido fora da Etiópia, você sabe que há ainda gerações para dar seguimento a toda uma linhagem vencedora.

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Eliud Kipchoge. Mas… Já o melhor a história?

A história é a caixa forte da memória.”

Na aposentadoria de Usain Bolt escrevi que ele momentos antes da sua despedida, na final dos 100m no Mundial em Londres/2017, no qual ele foi bronze, ele já era o maior da história. Sob QUALQUER aspecto ele era já maior que seus maiores rivais anteriores: OwensLewis ou Hayes (*esta é a minha ordem de melhores da história).

O queniano Kipchoge domingo último correu uma Maratona em uma velocidade jamais feita. Alguns fatos chamam ainda mais atenção pelo seu feito. Por exemplo, foi a maior margem de quebra de um recorde mundial em mais de 50 anos (Derek Clayton/1967). Outro dado assustador: suas parciais de 10km foram cada vez mais rápidas. Não é apenas um split negativo (norma desde Ronaldo da Costa/1998). Da largada a chegada, de 10km em 10km ele foi acelerando! Os 10km mais velozes foram do 32km aos 42km! Fantástico!

O MAIOR DA HISTÓRIA?

Não, não é. Kipchoge é fantástico! É bonito e um enorme privilégio poder vê-lo competir. Mas apressadamente passá-lo à frente de outros nomes igualmente fantásticos é quase um desrespeito com ícones desse esporte. O tempo ensina… Ele nos ensina, por exemplo que outros atletas já foram até mais dominantes que Eliud.

O americano Clarence DEMAR, por exemplo, venceu a Maratona de Boston, quase uma espécie de mundial da época, 7 vezes em um intervalo de 19 anos. Tremenda longevidade. Medalhista olímpico (bronze/1924), talvez lhe falte um recorde mundial. O britânico Jim PETERS, outro de enorme domínio em sua época, bateu o WR por 3 vezes em 3 anos!

Em sua busca pelo seu ouro olímpico PETERS em 1952 foi esmagado por outro fora de série. Emil ZATOPEK estreou na distância com ouro e recorde olímpico. Zatopek em suas duas provas não obteve um WR. O australiano Derek Clayton bateu por duas vezes o WR. Ninguém foi mais rápido que ele por 14 anos. É o maior domínio até hoje. Mas antes dele houve aquele que pode não ser o maior da história, mas que também sob qualquer parâmetro analisado não pode nunca ser considerado PIOR que qualquer outro maratonista que já existiu.

Abebe BIKILA, bicampeão olímpico, dois WRs, não pode NUNCA ser colocado atrás em uma lista de os maiores da história. Não pode. Não pode. Ele bateu o WR correndo descalço no verão de Roma correndo em paralelepípedos! E depois o melhorou!

E assim chego ao meu último ponto. O que vimos domingo não podemos SEQUER afirmar que foi o maior desempenho já visto nos 42km! Zatopek em Helsinque/52, Bikila em Roma/60, Salazar em Boston/82, Ronaldo da Costa/1998, Wanjiru em Pequim/2008 ou Meb em Boston/2014… não foram menos espetaculares!

Quando olhamos apenas o cronômetro (um juiz que não envelhece), temos que o WR de Zatopek nos 10.000m é mais LENTO que a média de Kipchoge. Mas a dominância do queniano é de cerca de 1% enquanto ninguém dominou mais a corrida que o tcheco. Não deve existir na história do fundo atleta mais dominante que o tcheco. Até o tempo em Berlim, descontado o quanto ele foi beneficiado no evento #Breaking2 pela barreira de vento, parece mostrar que ele correu o MESMO tempo. Ou seja, no fundo não teria havido uma melhora domingo agora (*e aqui entra que feitos os cálculos, o Vaporfly não daria aquilo que as pessoas acham que dá, mas não quero me estender).

Estou nas páginas finais da leitura de meu 4º livro sobre a trajetória de Lance Armstrong*. Sabe… “A história é a caixa forte da memória”, como disse o poeta. Espanta um pouco que caiamos tão facilmente na pressa de eleger o melhor de todos os tempos. Assim como na Maratona, temos que ir com calma…. O jogo só acaba quando termina. Talvez depois de Tóquio/2020. Até lá Bikila está no topo do pódio. Pode até dividir com Kipchoge, mas não menos que o topo.

p.s.: Nem DE LONGE sugiro que haja desconfiança no que vimos domingo… eu só nunca compro de cara o que tentam me vender…

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Correndo com os Etíopes – parte 8: sobre equipamento.

Em uma sessão de treino lá em Adis Abeba, após terminarmos, enquanto apenas conversávamos um atleta veio e me perguntou o porquê meu tênis tinha pequenas bandeiras do Quênia, sem nunca esconder a rivalidade que possuem, além do enorme respeito. O Fila Kenya Racer 3 é assim. O que eles não conheciam era a marca esportiva Fila. Quando falei que havia trabalhado na ASICS, alguns claramente não sabiam do que se tratava. E quando apareci com um Skechers eles não conheciam a marca, apenas o nome do modelo, em homenagem ao maratonista americano Meb Keflezighi.

Equipamento nunca foi assunto nos treinos. O cara que me ajudava lá usa um relógio Casio dos anos 90. GPS não vi nenhum por lá, apesar deles falarem que às vezes usam nos longos. Frequencímetro cardíaco nunca foi visto pelo agente que vive lá há 7 anos. Smartphones como o meu nos treinos não vi nenhum.

Eu tenho algumas heurísticas. Uma delas diz que: se o corredor amador não trabalha com tênis e entende desse assunto, é porque ele corre MAL. Essa minha tese quase nunca falha. O caminho inverso é verdadeiro: se a pessoa corre bem, ela entende pouco de tênis, marcas e modelos. Até nas empresas para quais trabalhei era assim… geralmente quanto mais sabia de produto, menos corria.

Comprove você mesmo! Só tem tempo e energia para se aprofundar no tema quem não passa muito tempo correndo. Com GPS é parecido. Você acha bons corredores que entendem de GPS na mesma proporção que acha pessoas que entendem de relógios de luxo (Rolex, por exemplo) ou de helicópteros militares ou da geografia Inca. Estou querendo dizer que correr e entender de GPS (ou de helicópteros ou de tênis) são duas variáveis completamente independentes. A intimidade (ou competência) em um não diz absolutamente nada sobre a intimidade em outro.

ESSA é uma das maiores lições que aprendi no meu tempo com os etíopes: eles sabem aquilo que realmente importa na corrida.

Até hoje não sei mexer em GPS. E também não sei mexer em iPhone ou iMac nem jogar Candy Crush nem Gamão. Não é questão de ser contra tecnologia (adoro celular Samsung!), é sobre não haver relação disso com minha corrida.

Tem mais. Estou sendo repetitivo, mas há uma moda de fisioterapia preventiva que nada mais é que uma piada mal contada. Fortalecimento? Durante um treino eu perguntei se o atleta ia à academia e ele me disse “sometimes” (às vezes). 1 vez na semana?, perguntei. Não… uma vez ao mês.

Isso não é sometimes! No que ele me respondeu: a floresta é minha academia (enquanto corríamos mudando de direção em um pasto pesado).

No Brasil seu treinador pede para você correr no asfalto (da USP, do Ibirapuera, de Belvedere…) e depois te passa uma série vagabunda de fortalecimento que nem de longe compensa. Ele quer te fazer resiliente sendo fragilista. Não tem como dar certo!

O meu Fila furado era um dos tênis mais novos do grupo. O equipamento não é tema de conversa porque melhor do que nós eles sabem que não serve para nada. Eu começo a bocejar quando a pessoa começa a falar de tecnologia de calçado. Até porque tendo trabalhado na área sei que não existe baboseira maior. No fundo os etíopes sabem que para correr bem parece que a pessoa precisa entender pouco de tênis. Na verdade, como entender de helicóptero, não há uma relação.

Eu corro de forma orientada faz quase já 30 anos. Em minha primeira sessão lá tive uma sensação que eu jamais tive. Eu sentia a musculatura da minha canela (entre o tornozelo e o joelho, não a panturrilha em si) arder quase inchada. Eu nunca havia na vida mudado tanto de direção e velocidade em um só treino. Por mais que seu treinador e seu fisioterapeuta aleguem: eles nunca conseguirão reproduzir isso na academia. Não há tênis que proteja você como um piso instável e menos agressivo.

No meu penúltimo dia de treino lá, comecei a correr umas 6h30 com um atleta e perguntei se ele iria treinar de tarde. Ele disse que não, que aquela já era a sua segunda sessão do dia. Relembro: eram 6h30! Ele havia antecipado a segunda sessão do dia. E nessa linha, se eu pudesse resumir a maior lição que tive com eles é algo que mesmo os melhores corredores brasileiros já sabem na prática: os melhores fundistas sabem aquilo que realmente importa para fazer você correr bem. Os mais lentos ou não sabem, ou se iludem buscando atalhos fora da corrida, fora do único equipamento que realmente importa: seu corpo.

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Correndo com os Etíopes – parte 7: sobre volume e piso.

Não faltam muito mais posts a falar sobre meus treinos na Etiópia, mas não dá para não passar por 2 dos aspectos que foram dos que mais me impactaram. Eu havia dito que antes do meu primeiro treino uma coisa me chamou atenção: mesmo estando a menos de 2km do local, nós fomos de carro e não trotando. Eu me sentia como aquelas pessoas que pegam elevador para ir à academia ou o carro à padaria. Meio triste, meio irracional.

Os etíopes treinam em média entre 10 e 14 vezes por semana. A minha surpresa chegando lá é que apenas UMA sessão por semana é feita em asfalto. UMA. E ela é feita em asfalto por 2 motivos principais: porque as competições são em asfalto, então este é um jeito de você manter contato com este piso. E também porque nas estradas, assim como na pista, você consegue ter um controle maior da distância, podendo fazer treinos controlados por ritmo, não somente sensação ou tempo.

Uma passagem que me chamou atenção em Running with the Kenyans é quando o autor tenta convencer os quenianos a começar o treino alguns poucos metros antes da estrada de terra. Sem sucesso. Eles caminhariam pela calçada. Concreto e o asfalto machucam, os africanos sabem disso. E nós achamos que um tênis de R$699 compensa essa característica intrínseca do piso. Regra número 1: corredores quenianos e etíopes sabem mais sobre prevenção de lesões do que qualquer fisioterapeuta ou médico. O primeiro grupo vive de não estar machucado, os outros 2 vivem de tratar (bem ou mal) o lesionado. Os interesses são dissociados.

O corpo é o instrumento de trabalho mais importante do atleta. E os etíopes (e agora você sabe que também o queniano) fogem do asfalto como o diabo foge da cruz. Eu não conseguia explicar aos treinadores que aqui no Brasil todo treino dos amadores é feito sempre em asfalto. Eles não conseguiam entender como alguns dos melhores parques da cidade não têm corredores nas trilhas (como a “volta da grade” ou a Pista de Cooper do Parque do Ibirapuera, ou ainda o Alfredo Volpi próximo ao Jóquei Club). Ou ainda: como explicar que 99% das pessoas que pegam o carro para ir à USP treinar não correm nas trilhas das ilhas centrais das avenidas. Eu me sito um E.T. sempre que estou lá, pois tudo aquilo é só meu com o asfalto lotado! O Bosque da Física na mesma USP, inteira de terra batida, está sempre deserta, é um latifúndio que só teria gente se fosse (toc-toc-toc, sai zica) concretado. A própria pista de atletismo da USP é rodeada por uma trilha de 1050m que tem muito menos gente treinando do que a própria pista, um completo non-sense.

O corredor brasileiro é muito estranho. Eu tenho uma tia que faz caminhadas dentro de um shopping center. Dentro. De. Um. Shopping. E em grupo. Orientado. Mas a culpa, sejamos honestos e justos, não é só dos corredores, mas MUITO por culpa dos treinadores.

Você vai sempre encontrar um consultor mal informado dizendo na revista das vantagens de correr na esteira, ou explicando dos perigos e cuidados de correr em trilhas. Os treinadores atuais confundem aquilo que não entendem com aquilo que não existe. Dia desses um coitado de um médico veio mostrar sua ignorância sobre risco no meu Facebook. Ele se mostrou ser do tipo que quando chega bêbado em casa sem as chaves, a procura somente embaixo do poste de luz, que é onde enxerga, ele ignora que pode estar em qualquer lugar escuro. Pois quando você pede ao seu atleta para não correr na trilha para não torcer o pé você demonstra não compreender os riscos de correr no asfalto (ou na esteira). As lesões na corrida são em sua maioria por esforços repetitivos, não torções. E correr em pisos estáveis (asfalto, pista, esteira…) é a garantia que você executa o exato mesmo movimento em todos os treinos. É você pagando alguém para te machucar ao mandá-lo fazer esforços repetitivos não-essenciais. E este alguém, em vez de te fazer correr melhor (aquilo que você realmente quer), tenta não te machucar impedindo que você corra muito melhor. Não faz sentido.

E aí chegamos ao segundo ponto deste texto, o volume. Como eu disse, eu não faço ideia de quantos quilômetros corri na África. Nem o ritmo. Volume alto é fundamental na corrida. Mas você só consegue isso quando ele não te machuca. Corríamos sem controle de velocidade, de quilometragem, de frequência cardíaca, mas também sem dores.

Uma coisa que escondi da equipe para que não me tratassem diferente é que pela manhã tenho muitas dores quando corro. Por isso também só quase corro de noite, quando elas já passaram. Na Etiópia corri sem dores nenhuma às 6h30. Desde que cheguei ao Brasil implementei muito do que vi lá fora e venho treinando sem dor alguma. Eu corro menos nas sessões, mas corro mais e sem dor. O volume final assim é maior.

Por isso também que durante meu período lá não falávamos sobre equipamento. Eles não ligam para isso. E é sobre equipamento que falarei no próximo texto.

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Correndo com os Etíopes – parte 5: Vamos aos tiros!

Balu, amanhã saímos 5:45. O ônibus da equipe passa aqui e chegamos ao treino 6:15. Será treino de tiro”.

 

AGORA sim!

Eu seria quase um ingrato se dissesse que nos treinos leves não aprendi. Tive aulas que jamais poderia esperar. Mas correr lento é para qualquer um. Eu queria ver é como correm rápido os melhores do mundo.

 

Pontualmente 5:45 chega o ônibus. É necessário um certo salto de fé para chamá-lo de ônibus. Adis Abeba é repleta de um antigo modelo de caminhão russo dos anos 60 e 70 que foram reformados (diga-se soldados) para virar ônibus. Maior que um micro-ônibus convencional, menor do que um ônibus, parecido com uma grande Kombi ele encosta, subimos e sentamos com outros atletas que ocupavam todos os demais assentos.

Rapidamente saímos da cidade, não era longe. Chegamos e após descermos o treinador explica a todos sessão. Depois ele me traduziu no seu inglês: seria uma pirâmide e meia. Um tiro de 5 minutos, depois 4, 3, 3, 4, 5, 5, 4 e finalmente 3. Após cada uma das 9 repetições, 3 minutos de pausa em trote mentiroso. Era isso.

 

Porém antes, o aquecimento.

Em 20 minutos aquecendo na grama do acostamento da estrada chegaríamos ao verdadeiro local do treino. A viagem à Etiópia, é sempre honesto reforçar, parecia feita pelo meu inconsciente mais para reafirmar algumas crenças minhas antigas do que para observar novas. Como eu já esperava, eu conseguia sem dificuldades acompanhá-los no trote de aquecimento. Depois veio algo que eu havia lido em Running with the Kenyans: os africanos mudam de ritmo como um carro muda de marcha. Talvez após os 5 minutos o ritmo já era outro. Por volta dos 10 minutos eu deixei eles irem aos poucos. Nos 15 minutos, nem no meu melhor condicionamento da vida eu teria conseguido correr junto sem comprometer a sessão. Resumindo: eu descobria ali que a mudança de ritmo é outra obsessão. Você mal se deu conta e está mudando de ritmo constantemente, até aquecendo.

 

Dias atrás acabei de ler um dos mais legais livros de corrida que existe. Duel in the Sun conta a incrível batalha entre Alberto Salazar e Dick Beardsley no calor da Maratona de Boston em 1982. Em determinado trecho, Beardsley explica que seus treinos intervalados eram nos longos, quando ele fazia treinos de cerca de 30km com várias mudanças não-programadas de velocidade. Seu lendário treinador Bill Squires explica ainda como é falsa a impressão que maratona (no alto nível) é feita em velocidade de cruzeiro e não com mudanças seguidas e constantes de ritmo. O próprio secular Fartlek (brincar de correr em sueco) se baseia em seguidas alternâncias de ritmo que não são pré-determinadas.

O aquecimento etíope, conversei depois com o treinador (experiente, presente em mundiais pela seleção local) é assim, um crescente contínuo para que o atleta termine pronto para o que vem. É tudo tão lógico, certo? Errado. Acompanhe treinos de amadores e verá que o salto de intensidade é sempre enorme. As pessoas aquecem a 5´50”/km para dar tiros a 5´00”/km ou mais rápido. Não só é do ponto fisiológico pior, lhe carece algo específico: a mudança de velocidade que em menor grau acontece pelo menos a cada vez que seu pé toca o solo.

Chegamos ao local da sessão, o treinador repete o treino, os atletas tiram seus agasalhos e vai começar. Quando eu treinava na Irlanda os tiros eram em uma pista oficial de grama que parecia uma mesa de sinuca. Antes de pegar o ônibus me disseram que iríamos treinar em um gramado plano (flat grass). Quando cheguei lá vi outro salto de fé. Era um pasto com grama batendo quase no ossinho do tornozelo, buracos, esterco, bambus no chão e, como todo pasto, gado pastando. Inacreditável.

 

Eu não vou conseguir correr aqui

 

Preparaaaaaa… vai!!

 

Eu havia recebido antes a instrução: fique atrás daquela menina, ela é a mais lenta do grupo. Não a ultrapasse. Boa sorte.

 

Mais difícil que acompanhá-la era correr ali. Um terreno completamente irregular e pesado. Se você prestou atenção viu que eu não falei do percurso, apenas do terreno. Isso é o mais espantoso. Não há percurso, não há ritmo, não há trajeto nem picada! Os atletas correm em fila indiana com os líderes determinando o ritmo e a direção e, conforme eles abrem de você, você corta nas curvas e se junta novamente ao grupo. Você começa com todos, termina com todos.

Eu saí de lá sem saber a distância que eu corri nem o ritmo. Eu nem todos os demais. Mas veja bem, não precisávamos saber! Sabemos, sim, que fizemos 36 minutos em ritmo forte em um terreno que trabalha força e, como em todos os demais, propriocepção.

Ao final dos 3 minutos de trote, acabados, vem a surpresa: mais um tiro de 2 minutos. E aí, sim, fomos aos 15-20 minutos de calistênicos e alongamento dinâmico antes de um alongamento estático mentiroso conversando sobre o desempenho deles na competição de domingo.

 

Depois disso era hora de voltar ao ônibus e retornar à cidade.

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