Arquivo da categoria: Fisiologia

Periodização – parte 2 (final)

PERIODIZAÇÃO (na corrida) É COMO SEXO DE ADOLESCENTE.

OU AINDA: QUEM PERIODIZA NO FUNDO NO FUNDO QUER PREVER TERREMOTOS. (E não há NADA de errado nisso)

Dias atrás escrevi um texto sobre periodização (na corrida de longa distância), um tema do qual sempre quis tratar e do qual sempre me perguntavam. Como disse nele, não foram uma nem duas (nem 5) vezes que tratei disso com treinadores experientes, alguns de atletas profissionais, outros de seleção, olímpicos, etc.

Na totalidade das vezes (e aqui trata-se obviamente de um viés de conviver profissionalmente mais próximo de pessoas que pensam de forma mais semelhante) é que a periodização é daquelas coisas bonitas numa apresentação de PPT a um cliente, mas que na prática se mostra muito mais útil ao mundo acadêmico (que não precisa apresentar resultado algum) do que ao mundo que vive e trabalha com atletas e pessoas de carne e osso, ou seja, o mundo real.

Sem recorrer aos livros defino PERIODIZAÇÃO como sendo o conceito de que controlando a ordem de fatores trabalhados em um processo de treinamento a médio e longo prazo podemos controlar de forma a maximizar o desempenho do(s) atleta(s) treinado(s) ao final de um período.

Sendo assim, o treinador escolhe o que treinar em cada fase empregando determinadas valências e ênfases e o resultado seria maximizado, digamos assim. No conceito por trás da periodização 2 mais 2 não é 4, mas 5.

Faz sentido?

FAZ. MUITO!

Funciona?

Eu acho que não.

 

Na verdade, não disse no texto original, eu acredito que na periodização 2+2 é igual a 4,1. E olhe lá!

Gosto de comparar que a periodização se fundamenta na ideia de que o treinamento seria mais ou menos como um bolo tradicional. Você tem os ingredientes e, IGUALMENTE importante quanto à qualidade deles, você tem uma forma certa e/ou ótima de ir adicionando/introduzindo esses ingredientes.

Da minha parte eu já acredito que quando falamos de amadores, o treinamento está mais para um bolo de liquidificador. Você precisa ter os ingredientes (insisto no igualmente de boa qualidade), mas você tem a opção de misturá-los todos de uma vez e o resultado é… um bolo! Como em uma operação de multiplicação, a ordem dos fatores NÃO importaria no resultado.

*e aqui entra a mandinga, a fé, a crença. Eu gosto de primeiro adicionar 4 ovos, depois 5 copos de farinha, depois duas colheres de fermento e por aí vai… ou seja, eu gosto de usar os ingredientes em BLOCOS, não um a um.

Acredito que a periodização tem uma importância MUITO maior ao treinador do que ao atleta ou ao resultado. Isso porque a periodização serve na pior das hipóteses para o treinador certificar-se de que ele usou todas as suas ferramentas. Sou o único que pensa assim? Ouvi exatamente essa resposta de 2 treinadores de atletas olímpicos. É como se fosse um bloco de notas mental SEM impacto direto no resultado.

A SORTE e o COMPORTAMENTO HUMANO explicam Periodização

Não é nem que a sorte (ou a falta dela ou o simples acaso) que me garante que a periodização NÃO é essencial ao treinamento. Desde antes da formatura eu tinha enorme atração pelo tema. Até hoje invejo como alguns nomes conhecidos dessa área (todos gringos) fizeram carreira e fama nesse tópico sem que em toda sua obra acadêmica tenham citado uma única vez a palavra doping. É mais ou menos como alguém ficar famoso e ser levado a sério por tratar diabetes com homeopatia ou macumba sem citar a palavra “insulina” em todos seus artigos. Invejo a lábia desses caras, de quem fui vítima comprando muitos livros.

Mas por que e como o acaso explica? Fosse a periodização necessária ou essencial ao desempenho eu e muitos dos treinadores com quem converso seríamos algumas das pessoas mais sortudas do mundo. Isso porque os atletas parecem atingir seu ápice físico em uma forma quase randômica ou minimamente estruturada do treino (no que diz respeito à periodização, não às cargas das sessões).

OU SEJA: dar certo SEM a presença de algo que se julga essencial mostra JUSTAMENTE que sua presença NÃO se faz necessária!

Mas este texto não é sobre eles ou sobre minha pessoa. Faça você mesmo o exercício: abra os resultados das competições majors (Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais) e busque a sigla de SB (season best) ao lado do resultado, sinal de que o atleta conquistou sua melhor marca da temporada na competição mais importante.

Você verá que é a EXCEÇÃO o atleta conquistar as melhores marcas na competição mais importante. Um sinal (não prova!) CLARO de que temos POUCO controle de sistemas complexos.

A falta de SBs é um indicador de que se HÁ ou EXISTE uma periodização que DE FATO funcione, ainda não a conhecemos.

Reforço: os melhores treinadores do mundo no alto nível, que ganham ($) justamente com o SB (skin in the game!) NÃO conseguem periodizar de forma MINIMAMENTE eficiente. Por que (e COMO) o amador conseguiria??? Parem de delirar!

E aqui entra a ECONOMIA COMPORTAMENTAL.

Não é somente a sorte que me mostra que a periodização está LONGE de funcionar minimamente bem. Como dito, se quem NÃO a usa obtém os mesmos resultados, ela não é essencial nem eficiente nem de todo necessária. Para mim a insistência com a periodização se explica de outra forma: a obsessão TÃO humana por controle.

Um indivíduo em treinamento é um sistema complexo. Sistemas complexos são de certa forma imprevisíveis (pergunte ao seu treinador em quantos segundos, não minutos, você vai correr o próximo 10km e ele mentirá ou fugirá da resposta). Porém, e isso é intrínseco ao ser humano, queremos ter controle sobre tudo. Sobre TUDO.

Queremos saber se vai chover daqui 5 dias e não acertamos SEQUER se choverá em 12 horas. Achar que controlamos sistemas complexos é algo MUITO humano. Não temos que ter vergonha disso.

Escrevo este texto no trem após ir visitar o Vulcão Vesúvio, ao lado de Nápoles e que destruiu Pompeia. Mais do que controlar, o ser humano adora prever. Muito já se produziu dizendo que poderíamos prever terremotos (não, não podemos), que podemos prever vencedores de eleições até nos EUA, país mais obcecado por estatísticas, e vimos que não temos essa capacidade.

Nate Silver está no olho do furacão de um debate acadêmico porque ele teria sido capaz de prever o resultado das 3 últimas eleições norte-americanas (assim como um indivíduo em treinamento, um sistema complexo). E parece que ele errou miseravelmente, mas contou com sorte.

 

Estou dizendo que para MIM periodizar é mais como prever uma erupção vulcânica. Hoje você possui alarmes em cidades em volta de vulcões dormentes que conseguem em cima da hora minimizar um desastre sem JAMAIS conseguir prever com muito tempo hábil. Ou seja, ao treinador a periodização serve para BEM pouco (*eu mesmo disse que faço um esboço dela. O polimento não deixa de ser isso que se faz com vulcões… você altera cargas buscando controlar algo no curto prazo, não mais que 3 semanas, no caso das maratonas).

Mas quem se apoia em periodização, ao menos para mim, está querendo prever terremotos e o próximo presidente americano. Mas para isso terá que ser ou se considerar mais gênio que Silver, que já aceitou em seu mais famoso livro que isso não é possível no caso dos terremotos. Ou ter a mesma sorte que ele. Mas aí corre-se justamente o risco de ser esculachado quando mostrarem que o resultado foi apenas… SORTE.

P.s.: se algum cliente meu chegou até aqui, no final do texto, saiba que no SEU caso eu periodizo, então descontos estão fora de questão.

Etiquetado ,

Periodização

Periodização (de corredor) é como sexo na adolescência:

– Todo mundo fala sobre ela;

– Ninguém na real sabe como fazer;

– Todo mundo pensa que o outro está fazendo;

– Então todos falam que estão fazendo.

 

Tempo atrás 2 treinadores BEM experientes em momentos distintos me perguntaram de canto o que eu achava de PERIODIZAÇÃO. Eu disse que é MUITO sobrevalorizada (overrated). Eu não faço, ao menos não do jeito que os professores fora do mercado, que não dão treino, nos “ensinam” na faculdade.

Quase um ano atrás me contrataram para dar treino a uma equipe de fundistas amadores que curtem competir forte. De certa forma depois de já contratado eles me cercavam porque queriam saber da “periodização”, já que há atletas ali com competições em diferentes datas e distâncias.

Eu falei o que hoje eles já sabem: não há periodização. Todos vão treinar juntos, praticamente o MESMO treino, não importa a prova (se 5.000m ou 10km), não importa a data (se em maio ou em julho). Aliás, se a data mudasse alguma coisa no treino, bastaria eu aparecer 5 semanas antes e pedir meu treino “individualizado e periodizado”, não ficaria treinando igual tonto por 12 meses.

Eu achei que igual treinador de futebol eu fosse cair em 2 semanas. Acho que quase caí, é verdade, mas eles compraram a ideia e aí estamos.

SE periodização DE FATO funcionasse, você não teria TANTOS atletas olímpicos ficando LONGE da melhor marca da temporada quando mais importa. Aliás, um dos termos mais em voga de quem corre pouco é justamente o “prova-alvo”. Tenho úlcera quando ouço.

Da pessoa que fala “prova-alvo” você tira de cara duas informações. Ela corre há muito pouco tempo. Tão pouco que ela ainda não aprendeu o básico desse esporte. O segundo, e talvez nem ela saiba, é que quando ela diz “prova-alvo” no fundo no fundo ela já está te dando desculpas do por que ela vai tão mal nas provas anteriores à tal “prova alvo”. “Prova-alvo” é autossabotagem.

Se nem atleta profissional tem prova-alvo, por que eu ou você teríamos?? Deixe de delirar!

Um dos princípios do Treinamento estabelece definir cargas que gerem estresse num nível adequado (é mais arte do que ciência, para desespero do povo de avental, é muito mais feeling do que cálculo). Aí você vai fazendo indo sessão após sessão ad eternum. Qual valência física deve vir antes (força, resistência, velocidade…) vai do gosto do treinador. O que a gente encontra na literatura (e mesmo na prática) é que ela pouco importa na corrida de longa distância.

A “minha” periodização eu divido em 3 partes. Começo pela base onde trabalho força geral e velocidade “pura” do corredor. E termino com queda de volume (não de intensidade!) de 1 a 3 semanas antes da competição.

E o que eu faço “no miolo”? Qualquer coisa. Literalmente qualquer coisa, NÃO é modo de falar! O treino eu invento quando estou chegando na pista. Eu sei o treino que eu fiz na semana passada, o de “hoje” e o da próxima. E só. Nada mais.

Mas como eu quero cobrar o mais caro possível pelos meus serviços, eu faço o que qualquer assessoria esportiva do mercado faz, eu falo que faço planos personalizados, individualizados e periodizados em função das metas e da “prova-alvo“ que é definida com o cliente. Os clientes, que entendem de corrida menos que eu, gostam disso.

Mas agora contei meu segredo… Periodização é como sexo de adolescente.

 

 

Etiquetado , , ,

Obesidade e aposentadoria no Esporte – parte 2

Joe Thomas é um ex-jogador da NFL com 10 participações no Pro-Bowl, o All Star do futebol americano, sua modalidade. Ele é lembrado como um dos maiores da história em sua posição. Recém-aposentado, ele queria se livrar do excesso de peso que traz vantagem competitiva na NFL. Para isso ele perdeu 34kg de 148kg!

Recentemente Thomas deu uma entrevista e explicou não como emagreceu, mas como ele fazia para engordar, ficar “grande”. Ele disse que ele era considerado “pequeno” (undersize). Sabe como ele fazia? Nas palavras DELE:

  1. Ele comia a cada 2 horas;
  2. Ele consumia açúcar, carboidrato e massa (pasta);
  3. Ele não podia pular refeições “para não emagrecer”;

O Esporte e a Pecuária sabem como engordar MUITO melhor do que a Nutrição sabe emagrecer. Por quê? Porque esporte e pecuária vivem de resultados, a nutrição vive de intenções. Os primeiros têm skin in the game, pele em jogo, a nutrição não. Isso explica quase tudo.

Thomas é hoje um aposentado, treina BEM menos e pesa BEM menos. Ele é mais magro do que quando era um dos melhores e mais bem pagos atletas do mundo em uma das ligas mais excruciantes do planeta. Como isso é possível?

Semanas atrás eu falava sobre o drama que companheiros de liga dele vivem ao engordarem quando param de jogar. O que recomendam os “especialistas” de sempre? O OPOSTO do que Thomas fez para emagrecer! Recomendam o OPOSTO do que a Pecuária faz para engordar grandes mamíferos.

  1. Pedem para comermos regularmente, a cada 3 horas para acelerar o metabolismo. Um sinal CLARO de que não têm IDEIA do que estão falando.
  2. Pedem para cortar gorduras, aumentando assim o consumo de carboidrato, macronutriente usado para engordar Thomas e os rebanhos.
  3. Condenam o jejum, deixando o corpo em constante estado anabólico.

 

Faz sentido para você? Lógico que não faz!

Entre a prática eficiente e o sonho de quem nega a realidade, vocês sabem com quem eu fico!

Etiquetado , , ,

O Esporte tem “Skin in the game” (pele em jogo). A Nutrição NÃO.

Dias atrás postei no meu instagram (@DaniloBalu) minha lista de melhores livros de corrida/atletismo. Essa semana irei atualizar a lista. Nela agora irá “Tigerbelle”, a biografia da ESPETACULAR Wyomia Tyus, primeira pessoa (homem ou mulher) a ser bicampeã olímpica dos 100m (1964 & 68). Era uma mácula que eu carregava.

Leia abaixo o trecho que separei e traduzi:

Você está muito grande! Você nunca foi tão grande! E você está perto da prova mais importante da sua vida. Nós vamos ter que fazer algo. Você precisa se afastar da mesa. Você precisa se afastar das batatas, precisa se afastar do arroz e precisa se afastar do pão.”

 

A frase foi dita por Ed Temple, primeiro americano a ir duas vezes seguidas a Jogos Olímpicos como treinador de atletismo, algo que era proibido. Isso dá um indício de como ele era especial.

Mr. Temple, como era chamado, sem saber a diferença entre insulina e glucagon tinha apele em jogo. Pedia à sua melhor velocista para perder peso. Como? Jejum e evitando arroz, massa e pão. Resultado? Ouro e recorde mundial!

Aí vem nutricionista e pede o quê ao amador? Comer de 3 em 3h e ênfase onde? Carboidrato! Minha bronca é ENORME quando vejo nutricionista falando em “peso ideal” ou em empurrar carboidrato goela abaixo de atleta amador é porque para mim fica CLARO justamente que eles NÃO entenderam NADA ainda desse esporte!

Temple entendia como o peso é CRUCIAL. Por isso que em 2008 o americano Chris Solinsky assombrou o mundo do atletismo. Não era só um recorde. Ele era o primeiro atleta na história com mais de 70kg a entrar no clube dos sub-27minutos nos 10.000m!

Entre os maratonistas o clube sub-2h06 tem uma MINORIA de atletas com mais de 60kg. Por quê? Porque peso (baixo) importa MUITO! Por isso que algumas atletas japonesas APANHAM de seus treinadores quando ganham peso.

A imagem abaixo que ilustra esse texto e é uma plotagem do peso dos fundistas nos Jogos Olímpicos do Rio/2016. Este é um padrão que se reproduz, não importando a edição olímpica!

Quando um nutricionista oferece carboidrato a um atleta acima do peso, ele dificulta que ele PERCA peso, um ENORME limitante de desempenho. Sabemos que low-carb é a estratégia nutricional que MELHOR traz perda de peso e que torna mais FÁCIL a manutenção de um baixo peso.

NÃO há correlação de (maior) consumo de carboidrato com desempenho. Mas HÁ uma relação de (menor) peso com melhor desempenho. Entendeu, nutricionista? Se você empurra carboidrato a um atleta eu SEI que você ainda NÃO entendeu esse esporte. Controle do peso vem À FRENTE de qual macronutriente consumir quando falamos em desempenho!

Simples assim.

Etiquetado , , ,

VO2máx? É sobrevalorizado! (*consumo máximo de oxigênio).

Tempo atrás quando eu explicava por que a Cadência é um marcador muito pobre e limitado ao corredor amador, usei a expressão de que ela “é o VO2máx do nosso século”. Um leitor pediu que eu explicasse por que considero essa métrica meio inútil.

Interesso-me em saber o VO2máx de um corredor amador tanto quanto me interesso pela sua envergadura, ou seja, ela me diz muito pouco. Em uma longa revisão do tema de 2006 os autores abrem o artigo dizendo que “o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) tem sido sugerido como a capacidade fisiológica mais importante na determinação do desempenho de corrida de resistência”. Mas… será mesmo?

Nassim Taleb magistralmente disse algo como “ao mundo acadêmico não há diferença entre a universidade e o mundo real. No mundo real há”. Aplicando isso ao questionamento do VO2máx como métrica de desempenho (atual ou futuro) na corrida, basta sabermos que com um mínimo de espaço e UM cronômetro você realiza testes que dirão mais sobre desempenho do que um sofisticado laboratório de última geração.

Viemos por tantas décadas supondo que esse marcador estava intimamente ou fortemente ligado e correlacionado ao desempenho e à fadiga na corrida de longa distância (e NÃO está) que algumas verdades são duras mesmo de engolir.

Não me sinto superior ao falar que acho o marcador meio “inútil”. Já medi o meu. Já recomendei que clientes fizessem. E – olha que absurdo – até já usei esses valores!

No mesmo texto sobre cadência eu explico que uma régua só faz sentido para medir algo, quando você também consegue usar este algo para medir a régua (“Wittgenstein’s Ruler”). Sendo assim, um VO2máx NÃO serve para medir desempenho (ao menos não é muito preciso nisso) uma vez que:

  1. VO2máx NÃO está necessariamente relacionado com melhores desempenhos. Ou seja, a pessoa que chega à frente NÃO necessariamente tem um VO2máx melhor, mais alto;
  2. Em função do resultado de uma maratona (ou 10.000m, por exemplo) eu NÃO consigo determinar o VO2máx do(s) competidor(es). Ou seja, é uma régua que não “funciona” nas duas direções.

Por que isso? Novamente Wittgenstein’s Ruler: o VO2máx NÃO pode ser um expressor de desempenho (atual ou futuro) pelo fato de que uma vez que você tem o valor dele, você NÃO consegue com grande precisão fazer o caminho inverso, ou seja, com o valor de VO2máx em mãos, eu NÃO consigo dizer se um corredor é/será rápido.

Não sou eu que estou dizendo! Entre os maiores VO2máx já medidos, estão nomes que NEM DE LONGE foram grandes corredores. Assim como há grandes corredores que tinham VO2máx medíocres, medianos.

Isso porque a própria métrica é imprecisa! Como o VO2máx pode ser métrica de desempenho se você pode melhorá-lo SEM haver alterações no desempenho? Temos evidências consistentes de que o VO2max não muda/mudou em corredores treinados!

Seria o VO2máx então completamente INÚTIL?

NÃO! Nem mesmo a cadência é inútil! TUDO acaba servindo para algo!

Lembra que falei que a envergadura não me serve quando falo de desempenho de corredores? O debate quando se centra na importância do “quanto é o VO2máx do Fulano?” me faz lembrar como aquele “especialista” que acha que altura é variável positiva de desempenho em jogadores de basquete. Ou seja, quanto mais alto melhor. Não é! Voltando à envergadura, parece dentro do basquete haver uma correlação maior de desempenho não com altura, mas com a envergadura do atleta! Mas nunca perguntamos pela envergadura e sim… altura!

Quanto mais alto um atleta, teoricamente maior a envergadura dele, e quanto maior a envergadura, maior é a capacidade defensiva desse atleta (lembre-se que ele tenta roubar a bola do adversário com as mãos, quanto mais longo o braço, mais fácil)! Quando uma pessoa tem grande envergadura ele provavelmente é alto e pode roubar bolas! O contrário, como mostram as estatísticas na modalidade, acredite, NÃO é verdadeiro!

Parece no basquete haver uma altura MÍNIMA para chegar ao alto nível e uma a partir da qual ela POUCO (ou menos) importa. O VO2máx parece ser assim, um valor X a partir do qual é necessário (quase essencial) para que você seja (não que você vá ser!) um grande corredor, mas POUCO IMPORTA depois ou acima disso. E ele é limitado justamente porque mesmo sendo (muito) acima disso ele NÃO traz garantias de que você será SEQUER campeão escolar dos 3.000m!

A limitação dele está no fato de que ele é simplesmente um teste que leva o indivíduo à exaustão. Mas faz isso de forma inespecífica na corrida e MUITO inespecífica para praticantes de outras modalidades. Por ISSO ele é tão impreciso no esporte.

Toda medição, assim como toda sessão de treino, deveria ter um propósito. O VO2máx é algo antigo, bem antigo. O conceito de VO2máx surgiu em 1923 quando a A.V. Hill e H. Lupton tiveram a ideia de que haveria um limite máximo para o consumo de oxigênio. O próprio pioneirismo deles dava pistas sobre sua limitação. Ainda na faculdade líamos sobre a obsessão de treinadores que mediam essa variável em jogadores e nadadores. Se nem na corrida, como o teste é feito em esteira, ele prediz com segurança, o que dizer nesses atletas?

A saber: ciclistas têm enorme variância porque fazem o teste em esteira. Mais. Mesmo corredores têm enorme variância individual de resultados! Ou seja, damos enorme valor a um teste que nem sequer sabemos fazer! (*e lógico que virá um vendedor dizendo que tem um teste bom, preciso e que irá cobrar de você para que faça com ele, vendedor de testes)

*e aqui um paralelo… semanas atrás houve um debate BEM interessante que mostrava ao povo acadêmico que o Quociente de Inteligência (QI) NÃO está nem pode ser relacionado com inteligência ou sucesso futuro. Desenterraram um estudo de 1995 no qual o mesmo indivíduo tirava 90 e 150 no mesmo teste de QI. Ou seja, VO2máx, QI e Cadência parecem compartilharem os 3, cada um em seu paraíso prometido, de uma característica: você precisa ter um valor mínimo, a partir dele é tudo o mesmo balaio.

 

Então por que medi-lo ou querer treiná-lo ou melhorá-lo?!?

Só treina o VO2máx de um atleta quem ainda não entendeu bem a ideia. Na verdade quando a pessoa usa a velocidade de VO2máx (vVO2máx) ela está melhorando a aplicação prática de algo! Não a métrica em si (até porque sabemos hoje que o treinamento é capaz de mudar a vVO2máx sem mudar valor do VO2máx).

Como o tempo gasto correndo na velocidade de VO2máx (vVOmáx) muda este, mas não aquele, temos que o que interessa mesmo na corrida é o ritmo, dane-se o VO2máx. Por isso que um cronômetro e uma pista resolvem, porém um laboratório não. Aliás, não existisse o conceito do VO2máx acredito que toda a especialidade da Fisiologia do Exercício hoje não teria muito mais o que fazer… estariam no olho da rua… dependem e se fundamentaram MUITO em algo que se mostra de certa forma limitado ou inútil no desempenho.

Limitado porque não prediz desempenho muito melhor que um dado de 6 faces e inútil porque treinar o VO2máx NUNCA deveria ser a meta e para isso invocamos a Lei de Goodhart: “Quando uma medida torna-se uma meta, ela deixa de ser uma boa medida.”

Para terminar (prometo!) em um tom mais otimista, como tudo, parece haver um pêndulo que vai de um extremo ao outro. Quando “inventaram” o VO2máx tudo girava ao seu redor e agora de modo prudente largamos isso ao pessoal de avental, que consegue ainda ver alguma utilidade porque estão quase sempre muitos anos atrás da prática. Outras coisas acontecem nesse sentido na corrida. Toda novidade é usada ao extremo até percebermos que houve excesso para abandonarmos 90% dela. Por isso hoje pouca gente dá valor ao VO2máx, porque ele é ruim no que se propõe.

 

E qual a utilidade ao amador?

Vou contar um causo de um grande treinador que exige de seus clientes o exame de VO2máx. Quando questionado por um corredor que já sabia de suas enormes limitações ele respondeu: não não… só quero que faça o teste para saber mesmo se você não vai morrer treinando comigo.

Bom, nem para isso ele serve. Mas aí é texto para outra hora.

p.s.: eu poderia resumir este enorme texto em poucas linhas. O VO2máx não serve porque ele é “apenas” um teste de exaustão. Só que ele leva o indivíduo (corredor ou não) à exaustão de uma forma inespecífica. Não tenho como dizer se a pessoa faz bem agachamentos fazendo um teste de flexão de braço até o limite. Mas como é feito em laboratório com pessoas de jaleco a gente dá uma importância desmedida. Fosse um treinador iletrado e barrigudo com um cronômetro na mão poderíamos ignorar todo o departamento de fisiologia da faculdade. 

Etiquetado , ,