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Obesidade e aposentadoria no Esporte – parte 2

Joe Thomas é um ex-jogador da NFL com 10 participações no Pro-Bowl, o All Star do futebol americano, sua modalidade. Ele é lembrado como um dos maiores da história em sua posição. Recém-aposentado, ele queria se livrar do excesso de peso que traz vantagem competitiva na NFL. Para isso ele perdeu 34kg de 148kg!

Recentemente Thomas deu uma entrevista e explicou não como emagreceu, mas como ele fazia para engordar, ficar “grande”. Ele disse que ele era considerado “pequeno” (undersize). Sabe como ele fazia? Nas palavras DELE:

  1. Ele comia a cada 2 horas;
  2. Ele consumia açúcar, carboidrato e massa (pasta);
  3. Ele não podia pular refeições “para não emagrecer”;

O Esporte e a Pecuária sabem como engordar MUITO melhor do que a Nutrição sabe emagrecer. Por quê? Porque esporte e pecuária vivem de resultados, a nutrição vive de intenções. Os primeiros têm skin in the game, pele em jogo, a nutrição não. Isso explica quase tudo.

Thomas é hoje um aposentado, treina BEM menos e pesa BEM menos. Ele é mais magro do que quando era um dos melhores e mais bem pagos atletas do mundo em uma das ligas mais excruciantes do planeta. Como isso é possível?

Semanas atrás eu falava sobre o drama que companheiros de liga dele vivem ao engordarem quando param de jogar. O que recomendam os “especialistas” de sempre? O OPOSTO do que Thomas fez para emagrecer! Recomendam o OPOSTO do que a Pecuária faz para engordar grandes mamíferos.

  1. Pedem para comermos regularmente, a cada 3 horas para acelerar o metabolismo. Um sinal CLARO de que não têm IDEIA do que estão falando.
  2. Pedem para cortar gorduras, aumentando assim o consumo de carboidrato, macronutriente usado para engordar Thomas e os rebanhos.
  3. Condenam o jejum, deixando o corpo em constante estado anabólico.

 

Faz sentido para você? Lógico que não faz!

Entre a prática eficiente e o sonho de quem nega a realidade, vocês sabem com quem eu fico!

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O Esporte tem “Skin in the game” (pele em jogo). A Nutrição NÃO.

Dias atrás postei no meu instagram (@DaniloBalu) minha lista de melhores livros de corrida/atletismo. Essa semana irei atualizar a lista. Nela agora irá “Tigerbelle”, a biografia da ESPETACULAR Wyomia Tyus, primeira pessoa (homem ou mulher) a ser bicampeã olímpica dos 100m (1964 & 68). Era uma mácula que eu carregava.

Leia abaixo o trecho que separei e traduzi:

Você está muito grande! Você nunca foi tão grande! E você está perto da prova mais importante da sua vida. Nós vamos ter que fazer algo. Você precisa se afastar da mesa. Você precisa se afastar das batatas, precisa se afastar do arroz e precisa se afastar do pão.”

 

A frase foi dita por Ed Temple, primeiro americano a ir duas vezes seguidas a Jogos Olímpicos como treinador de atletismo, algo que era proibido. Isso dá um indício de como ele era especial.

Mr. Temple, como era chamado, sem saber a diferença entre insulina e glucagon tinha apele em jogo. Pedia à sua melhor velocista para perder peso. Como? Jejum e evitando arroz, massa e pão. Resultado? Ouro e recorde mundial!

Aí vem nutricionista e pede o quê ao amador? Comer de 3 em 3h e ênfase onde? Carboidrato! Minha bronca é ENORME quando vejo nutricionista falando em “peso ideal” ou em empurrar carboidrato goela abaixo de atleta amador é porque para mim fica CLARO justamente que eles NÃO entenderam NADA ainda desse esporte!

Temple entendia como o peso é CRUCIAL. Por isso que em 2008 o americano Chris Solinsky assombrou o mundo do atletismo. Não era só um recorde. Ele era o primeiro atleta na história com mais de 70kg a entrar no clube dos sub-27minutos nos 10.000m!

Entre os maratonistas o clube sub-2h06 tem uma MINORIA de atletas com mais de 60kg. Por quê? Porque peso (baixo) importa MUITO! Por isso que algumas atletas japonesas APANHAM de seus treinadores quando ganham peso.

A imagem abaixo que ilustra esse texto e é uma plotagem do peso dos fundistas nos Jogos Olímpicos do Rio/2016. Este é um padrão que se reproduz, não importando a edição olímpica!

Quando um nutricionista oferece carboidrato a um atleta acima do peso, ele dificulta que ele PERCA peso, um ENORME limitante de desempenho. Sabemos que low-carb é a estratégia nutricional que MELHOR traz perda de peso e que torna mais FÁCIL a manutenção de um baixo peso.

NÃO há correlação de (maior) consumo de carboidrato com desempenho. Mas HÁ uma relação de (menor) peso com melhor desempenho. Entendeu, nutricionista? Se você empurra carboidrato a um atleta eu SEI que você ainda NÃO entendeu esse esporte. Controle do peso vem À FRENTE de qual macronutriente consumir quando falamos em desempenho!

Simples assim.

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VO2máx? É sobrevalorizado! (*consumo máximo de oxigênio).

Tempo atrás quando eu explicava por que a Cadência é um marcador muito pobre e limitado ao corredor amador, usei a expressão de que ela “é o VO2máx do nosso século”. Um leitor pediu que eu explicasse por que considero essa métrica meio inútil.

Interesso-me em saber o VO2máx de um corredor amador tanto quanto me interesso pela sua envergadura, ou seja, ela me diz muito pouco. Em uma longa revisão do tema de 2006 os autores abrem o artigo dizendo que “o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) tem sido sugerido como a capacidade fisiológica mais importante na determinação do desempenho de corrida de resistência”. Mas… será mesmo?

Nassim Taleb magistralmente disse algo como “ao mundo acadêmico não há diferença entre a universidade e o mundo real. No mundo real há”. Aplicando isso ao questionamento do VO2máx como métrica de desempenho (atual ou futuro) na corrida, basta sabermos que com um mínimo de espaço e UM cronômetro você realiza testes que dirão mais sobre desempenho do que um sofisticado laboratório de última geração.

Viemos por tantas décadas supondo que esse marcador estava intimamente ou fortemente ligado e correlacionado ao desempenho e à fadiga na corrida de longa distância (e NÃO está) que algumas verdades são duras mesmo de engolir.

Não me sinto superior ao falar que acho o marcador meio “inútil”. Já medi o meu. Já recomendei que clientes fizessem. E – olha que absurdo – até já usei esses valores!

No mesmo texto sobre cadência eu explico que uma régua só faz sentido para medir algo, quando você também consegue usar este algo para medir a régua (“Wittgenstein’s Ruler”). Sendo assim, um VO2máx NÃO serve para medir desempenho (ao menos não é muito preciso nisso) uma vez que:

  1. VO2máx NÃO está necessariamente relacionado com melhores desempenhos. Ou seja, a pessoa que chega à frente NÃO necessariamente tem um VO2máx melhor, mais alto;
  2. Em função do resultado de uma maratona (ou 10.000m, por exemplo) eu NÃO consigo determinar o VO2máx do(s) competidor(es). Ou seja, é uma régua que não “funciona” nas duas direções.

Por que isso? Novamente Wittgenstein’s Ruler: o VO2máx NÃO pode ser um expressor de desempenho (atual ou futuro) pelo fato de que uma vez que você tem o valor dele, você NÃO consegue com grande precisão fazer o caminho inverso, ou seja, com o valor de VO2máx em mãos, eu NÃO consigo dizer se um corredor é/será rápido.

Não sou eu que estou dizendo! Entre os maiores VO2máx já medidos, estão nomes que NEM DE LONGE foram grandes corredores. Assim como há grandes corredores que tinham VO2máx medíocres, medianos.

Isso porque a própria métrica é imprecisa! Como o VO2máx pode ser métrica de desempenho se você pode melhorá-lo SEM haver alterações no desempenho? Temos evidências consistentes de que o VO2max não muda/mudou em corredores treinados!

Seria o VO2máx então completamente INÚTIL?

NÃO! Nem mesmo a cadência é inútil! TUDO acaba servindo para algo!

Lembra que falei que a envergadura não me serve quando falo de desempenho de corredores? O debate quando se centra na importância do “quanto é o VO2máx do Fulano?” me faz lembrar como aquele “especialista” que acha que altura é variável positiva de desempenho em jogadores de basquete. Ou seja, quanto mais alto melhor. Não é! Voltando à envergadura, parece dentro do basquete haver uma correlação maior de desempenho não com altura, mas com a envergadura do atleta! Mas nunca perguntamos pela envergadura e sim… altura!

Quanto mais alto um atleta, teoricamente maior a envergadura dele, e quanto maior a envergadura, maior é a capacidade defensiva desse atleta (lembre-se que ele tenta roubar a bola do adversário com as mãos, quanto mais longo o braço, mais fácil)! Quando uma pessoa tem grande envergadura ele provavelmente é alto e pode roubar bolas! O contrário, como mostram as estatísticas na modalidade, acredite, NÃO é verdadeiro!

Parece no basquete haver uma altura MÍNIMA para chegar ao alto nível e uma a partir da qual ela POUCO (ou menos) importa. O VO2máx parece ser assim, um valor X a partir do qual é necessário (quase essencial) para que você seja (não que você vá ser!) um grande corredor, mas POUCO IMPORTA depois ou acima disso. E ele é limitado justamente porque mesmo sendo (muito) acima disso ele NÃO traz garantias de que você será SEQUER campeão escolar dos 3.000m!

A limitação dele está no fato de que ele é simplesmente um teste que leva o indivíduo à exaustão. Mas faz isso de forma inespecífica na corrida e MUITO inespecífica para praticantes de outras modalidades. Por ISSO ele é tão impreciso no esporte.

Toda medição, assim como toda sessão de treino, deveria ter um propósito. O VO2máx é algo antigo, bem antigo. O conceito de VO2máx surgiu em 1923 quando a A.V. Hill e H. Lupton tiveram a ideia de que haveria um limite máximo para o consumo de oxigênio. O próprio pioneirismo deles dava pistas sobre sua limitação. Ainda na faculdade líamos sobre a obsessão de treinadores que mediam essa variável em jogadores e nadadores. Se nem na corrida, como o teste é feito em esteira, ele prediz com segurança, o que dizer nesses atletas?

A saber: ciclistas têm enorme variância porque fazem o teste em esteira. Mais. Mesmo corredores têm enorme variância individual de resultados! Ou seja, damos enorme valor a um teste que nem sequer sabemos fazer! (*e lógico que virá um vendedor dizendo que tem um teste bom, preciso e que irá cobrar de você para que faça com ele, vendedor de testes)

*e aqui um paralelo… semanas atrás houve um debate BEM interessante que mostrava ao povo acadêmico que o Quociente de Inteligência (QI) NÃO está nem pode ser relacionado com inteligência ou sucesso futuro. Desenterraram um estudo de 1995 no qual o mesmo indivíduo tirava 90 e 150 no mesmo teste de QI. Ou seja, VO2máx, QI e Cadência parecem compartilharem os 3, cada um em seu paraíso prometido, de uma característica: você precisa ter um valor mínimo, a partir dele é tudo o mesmo balaio.

 

Então por que medi-lo ou querer treiná-lo ou melhorá-lo?!?

Só treina o VO2máx de um atleta quem ainda não entendeu bem a ideia. Na verdade quando a pessoa usa a velocidade de VO2máx (vVO2máx) ela está melhorando a aplicação prática de algo! Não a métrica em si (até porque sabemos hoje que o treinamento é capaz de mudar a vVO2máx sem mudar valor do VO2máx).

Como o tempo gasto correndo na velocidade de VO2máx (vVOmáx) muda este, mas não aquele, temos que o que interessa mesmo na corrida é o ritmo, dane-se o VO2máx. Por isso que um cronômetro e uma pista resolvem, porém um laboratório não. Aliás, não existisse o conceito do VO2máx acredito que toda a especialidade da Fisiologia do Exercício hoje não teria muito mais o que fazer… estariam no olho da rua… dependem e se fundamentaram MUITO em algo que se mostra de certa forma limitado ou inútil no desempenho.

Limitado porque não prediz desempenho muito melhor que um dado de 6 faces e inútil porque treinar o VO2máx NUNCA deveria ser a meta e para isso invocamos a Lei de Goodhart: “Quando uma medida torna-se uma meta, ela deixa de ser uma boa medida.”

Para terminar (prometo!) em um tom mais otimista, como tudo, parece haver um pêndulo que vai de um extremo ao outro. Quando “inventaram” o VO2máx tudo girava ao seu redor e agora de modo prudente largamos isso ao pessoal de avental, que consegue ainda ver alguma utilidade porque estão quase sempre muitos anos atrás da prática. Outras coisas acontecem nesse sentido na corrida. Toda novidade é usada ao extremo até percebermos que houve excesso para abandonarmos 90% dela. Por isso hoje pouca gente dá valor ao VO2máx, porque ele é ruim no que se propõe.

 

E qual a utilidade ao amador?

Vou contar um causo de um grande treinador que exige de seus clientes o exame de VO2máx. Quando questionado por um corredor que já sabia de suas enormes limitações ele respondeu: não não… só quero que faça o teste para saber mesmo se você não vai morrer treinando comigo.

Bom, nem para isso ele serve. Mas aí é texto para outra hora.

p.s.: eu poderia resumir este enorme texto em poucas linhas. O VO2máx não serve porque ele é “apenas” um teste de exaustão. Só que ele leva o indivíduo (corredor ou não) à exaustão de uma forma inespecífica. Não tenho como dizer se a pessoa faz bem agachamentos fazendo um teste de flexão de braço até o limite. Mas como é feito em laboratório com pessoas de jaleco a gente dá uma importância desmedida. Fosse um treinador iletrado e barrigudo com um cronômetro na mão poderíamos ignorar todo o departamento de fisiologia da faculdade. 

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Cadência serve para algo?

OU AINDA: a cadência é o VO2máx do nosso século.

Uma das novas manias do corredor moderno que tem aparelho GPS é supervisionar sua cadência, ainda que seja sem tentar interferir demais nela. Seria isso de alguma forma útil?

 

Primeiro alinhemos. Cadência é o número de passos que um corredor dá por minuto a uma determinada velocidade. Os aparelhos de GPS oferecem esse valor automaticamente. Do contrário, um jeito simples de você descobrir a sua é contar quantas vezes você toca correndo o solo com um dos pés (direito ou esquerdo) por exatamente 1 minuto e depois basta multiplicar isso por 2.

 

O valor vai ser algo entre mais de 100 e pouco mais de 200. É aí que a coisa começa a ficar interessante!

 

A eficácia da média de cadência é estatisticamente uma fraude.

 

A cadência passou a ganhar certa atenção quando Jack Daniel, um dos maiores treinadores da história, fez um achado interessante. Em 1984 ele encontrou que os finalistas olímpicos dos Jogos Olímpicos de L.A. daquele ano em seu país tinham uma cadência média de 180 (passos por minuto).

 

De lá para cá este valor virou uma espécie de Santo Graal da corrida. Você deveria imitar os profissionais, uma vez que os finalistas, independentemente da distância da prova, mantinham em média 180 de cadência.

 

Porém, até bem pouco tempo atrás era difícil saber nossa cadência instantânea, sendo assim, ninguém ou pouca gente dava muita importância a essa variável. Uma vez que você paga algumas centenas de dólares em um aparelho e ele te dá essa informação, você acha prudente e útil passar a utilizá-la. Afinal, se o GPS/celular informa, deve servir para algo, certo?

 

Pois é…

 

Hoje os defensores de manter registro da cadência alegam 3 coisas basicamente: que ela melhoraria o desempenho, a eficiência e seria mais seguro (reduziria o risco de lesões). Vamos ver por partes.

 

No esporte é fundamental, ou muito bem-vindo, que observemos o que fazem os melhores. Mas para tal, é preciso separar o que é causa do que é consequência. O que é expressão do que é expressor de uma determinada capacidade atlética.

 

Se você quer imitar os 180 da cadência de um profissional, por que não imitar também o ritmo de 3 minutos por quilômetro dele? Por que não consegue, certo?

 

Eu gosto de dizer que a cadência de um atleta é uma expressão de seu condicionamento. Ele é fruto, não causa. E por que acho isso?

 

Wittgenstein’s Ruler

 

“Quando você usa uma régua para medir algo, você também está usando este algo para medir a régua.”

 

Você sabe que a cadência NÃO pode ser um expressor de desempenho (ou mesmo de eficiência, e tampouco do risco de lesões) pelo fato de que uma vez que você tem o valor dela, você não consegue fazer o caminho inverso, ou seja, com o valor de cadência em mãos, eu não consigo dizer se um corredor é rápido, se ele se lesiona mais nem mesmo se ele é eficiente!

 

Sem essa simetria de duas mãos, essa correlação “a elite corre em média a 180” é inútil!

 

Eu fiz uma série de stories em meu Instagram na qual expliquei esse raciocínio. Você me dá o volume semanal (em quilômetros) de um atleta X (do qual sei sexo, peso e idade, por exemplo) e eu consigo dizer com grande confiança de acerto quanto ele corre nos 5.000m, por exemplo.

 

Você me diz o peso de 2 atletas de altura similar e eu digo quem tem mais chances de vitória em um 10km. Porém, você me dando a cadência eu não consigo tirar NENHUMA conclusão com um mínimo que seja de confiança, seja sobre seu desempenho, sua eficiência ou suas chances de lesão.

 

Um tem 155, outro tem 180 e um terceiro tem 205 e eu não tenho IDEIA de quem chega na frente ou atrás! Ou de quem se machuca mais ou menos!

 

A cadência é assim, uma variável de uma mão, sem relação direta e conhecida com desempenho, eficiência ou lesões.

 

Ao contrário do volume de treino ou do peso do atleta, a cadência não prediz um vencedor, nem mesmo um finalista! Ela tem tanta precisão quanto o acaso, quanto o ato de lançar dados! Sabe por quê?

 

 

Um levantamento recente mostrou, por exemplo, que no Campeonato Mundial de 100km os atletas estavam em sua maioria ou muito acima de 180 ou muito abaixo!

 

E antes que você questione se é correto comparar um atleta amador, em função da velocidade (ritmo) e tempo de esforço desse grupo, temos que um corredor amador é fisiologicamente e no padrão motor muito mais próximo de um ultramaratonista veloz do que de Mo Farah.

 

E falando em Mo Farah…

 

O atleta britânico, após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016, migrou para a Maratona. E veja que interessante: sua cadência nos 42km é diferente de sua cadência quando compete nos 10km e de quando competia nos 5.000m…

A nossa cadência individual aumenta com a velocidade da corrida! Espera… e onde fica, então, a 180 como ótima??

Como é que é?!?

Houston, we have a problem!

 

Como saber, então, minha cadência ideal se ela varia?!?

 

Uma coisa que nunca nos contaram é que ela varia com a velocidade. Quando corremos em provas mais curtas (e mais rápidas) ela é maior e vai caindo com o aumento da prova (e redução da velocidade)! Como então ter uma cadência ótima se ela é uma para cada prova, piso e tipo de treino?!

 

Os profissionais de corrida que advogam pelo uso e controle da cadência sem má-fé erram em um conceito básico, porém fundamental…

 

A VARIÂNCIA

 

Não só a variância em função da prova! Reforço: já que a cadência muda mais de 10 ou 15 unidades, eu usaria 180 na Maratona, nos treinos ou numa prova de 3km??

 

Sinal vs Ruído

 

Quando olhamos os dados dispersos da cadência dos diferentes atletas vemos… uma enorme variância! Por quê?

 

Porque a cadência e uma expressão de valências físicas distintas, não um expressor! Ela é consequência, não uma causa!

 

(*outro exemplo aqui é que a elite do esporte passa por um filtro natural de seleção… não almejamos ter a altura ou envergadura desses atletas, mas como a cadência é em parte alterável, inventamos que basta “querer” ou tentar ter a cadência “certa”. Atletas de velocidade também têm uma cadência estupidamente alta, o que faz justamente que eles possam ser elite. Nenhum grande treinador sugere que você tente imitar a cadência dos finalistas olímpicos, por exemplo.)

 

Ou seja, ela é fruto (entre outras causas menores):

 

– Dos níveis de forças do quadril e da panturrilha.

– Dos níveis de mobilidade da articulação do quadril e do tornozelo.

– Dos níveis de flexibilidade de toda a cadeia posterior da perna.

– Varia em função da altura do quadril. (*e aqui OUTRO problema… uma simples diferença de 10 a 15cm de altura de um indivíduo pode trazer diferença de entre 10 e 15 na cadência. Quem está certo? Quem está errado? Quem iremos punir com a cadência “certa” por ele ter a altura “errada”?? O atleta mais baixo ou o mais alto? De quem serraremos as pernas para que ele caiba na cama??)

– E, como dito, da intensidade/velocidade da corrida (aumentando com a velocidade).

 

Se a cadência sobe com a velocidade. Então por que os 180 dos mais rápidos do mundo deveriam ser copiados??

Poder variar a cadência na corrida é assim um recurso do atleta! Mantê-la igual ou constante (seja em treinos ou provas mais curtas) é diminuir os recursos de um atleta! E que treinador em suas plenas faculdades mentais gostaria de limitar um atleta tirando um de seus recursos?!?

 

A cadência é inútil?

NÃO!

 

Ela no mínimo deveria ser APENAS um indicativo de que algo vai muito errado quando ela atinge valores muito errados. E quais são eles? Aqueles fora da normalidade! E quais são?

Não sei, mas algo menor que 130, maior que 230.

 

 

Não existe cadência certa, existe cadência MUITO errada. E isso não é a mesma coisa!

Se os melhores do mundo têm enorme variância, por que almejar 180??

 

Ou seja, a cadência não serviria para indicar algo bom (desempenho, eficiência…), mas limitada apenas a indicar algo ruim, que algo está errado e não quando está certo. Ou seja, quando muito distante da norma, abaixo de 130, acima de 230, por exemplo.

 

 

A Falácia do Melhor Mapa.

 

Ou ainda: Dado não é informação.

Ou ainda (2): apenas treinadores sem “skin in the game” usarão a cadência como norte ou guia de treino.

 

Cadência parece ser basicamente ruído. Este é o erro do porquê tentando analisar nossa cadência acabamos por interpretar ruído e dado como se fosse informação.

 

 

Tomemos um exemplo de gerenciamento de riscos de uma maneira– digamos – mais filosófica. Você tem a opção de fazer uma longa viagem em um avião bem chinfrim com tempo ruim. O que você faz? Resolve trocar o transporte por um trem ou ônibus, certo?

 

Ou ainda, o piloto do avião informa que vocês estão indo para Manaus, mas como ele está sem o radar funcionando, ele usará o mapa que ele tem em mãos, que é o mapa da África do Sul, afinal ”é um mapa”.

 

O dado de cadência é o que temos aqui para o seu treinamento! Ele pode ser seu mapa da África do Sul com você tentando voar para Manaus.

 

Porque diabos usar um dado do qual não sabemos sua utilidade em detrimento daquilo que realmente tem correlação conhecida com desempenho e eficiência?!?

 

E mais do que isso. Corrida é o esporte mais simples que existe. Talvez nenhuma modalidade esportiva olímpica tenha sido mais testada, além de ser a de gesto motor mais simples. É sempre mais provável que aquilo que só você vê e que ninguém mais viu ao longo de mais de 100 anos de história desse esporte mostre que você está provavelmente errado e não certo.

 

Quando você encontra padrões nunca antes notados ou levados a sério (olha! 180 é a média dos campeões, venham comigo!) isso faz você ganhar confiança, ainda que seja apenas ruído, fumaça. E o que você faz? Você intervém, ainda que esteja completamente equivocado.

 

Deixar de ver padrões, nesse e outros casos, é uma vantagem, pois diminui a chance de intervenção equivocada! Não é nada fácil transpor um dado estatístico para algo prático e efetivo! E a cadência, sinto informar, não se mostrou ainda efetivo! Para “nada”! Até hoje, em 100 anos de esporte. Mas pode ser que você esteja certo, e todos os que vieram antes, errados. Essa chance existe. Mas eu aposto contra.

 

 

Por isso o título do texto…

Nos anos 60 e 70 o VO2máximo ganhou um destaque porque confundiram dado com informação. A tara foi tamanha que até hoje aparece gente amadora querendo fazer teste de VO2máximo, algo inútil, distante da prática. Faziam testes caros e achavam que ele tinha que servir para algo. Sinto muito, não serve.

 

Por outro lado, se meu pai amanhã inventar que quer correr, sabendo que ele tem zero intenção de correr muito ou rápido, SIM, eu sugeriria para ele correr com cadência “alta” (sem NUNCA citar o número 180), seria o meu jeito de à distância diminuir as cargas em suas articulações sedentárias e septuagenárias. Tirar qualquer outra conclusão disso (mais eficiência, maior desempenho) é um salto de fé que essa informação não me dá. E que eu não tenho coragem de tomar entre meus orientados.

 

Já ao meu outro atleta, aquele que quer correr rápido e bater o PB dele nos 5km, eu NUNCA mexeria em sua cadência se ela estiver entre 130 e 230…

 

E para terminar, vale dizer que o homem que popularizou a cadência, o grande treinador Jack Daniel, jamais argumentou que ela deveria ser usada como vem sendo pregada (buscando melhor desempenho ou como um fim em si). Ele recomenda que ela deve estar próxima (não acima, mas próxima!) do valor de 180 para “reduzir as cargas de impacto da corrida”. E nisso sabemos que demanda um pouco de fé no assunto prevenção de lesões (o que não é um erro por si só), assim como não tem relação com desempenho ou eficiência.

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GEL em prova de… 12km?!?

Coisa rápida…. Participei tempinho atrás de uma prova noturna em SP. Ela foi na distância de 6km e 12km. Já no quilômetro DOIS eles ofereciam – que rufem os tambores! – GEL de carboidrato!

E no quilômetro 5!? Isotônico! Daquele famoso, que criou sua fama com estudo malfeito, análise torta e pagando meio dúzia de professores que farejam dinheiro melhor do que qualquer pastor alemão de aeroporto é capaz. Alguns até foram professores meus (os picaretas! Não os cães!)! Quer nomes? Eles sempre assinam diretrizes dessas sociedades “idôneas”.

Água, já disse aqui, eu não bebo em prova nessa distância. Falo o mesmo para quem eu treino e corre mais ou menos na minha velocidade, independente do clima. Agora.. GEL…?!

Costumo dizer a quem oriento que sou portador também das notícias ruins, ainda que quem pague não queira sempre isso. Não sei qual seu ritmo, mas há uma regra praticamente universal: se você precisa de gel durante uma prova de 12km, tenho uma má notícia, você NÃO está pronto pra ela! Deixe-a de lado, treine mais. Você tem mais a ganhar treinando mais para encarar a distância no futuro e menos a perder ($). Talvez você até perca peso!

Se seu treinador pede que você use um gel nos 12km, troque de treinador!

Se seu nutricionista recomenda gel (ou isotônico), troque de nutricionista!

Se seu médico recomenda um dos 2, não precisa trocar! Minha dica é: não dê ouvidos apenas quando ele tocar no assunto esporte ou nutrição, igual os 2 de cima, ele muito provavelmente não sabe do tema!

E se trocar, procure um profissional que se perguntado se você precisa de gel/isotônico pra encarar 12km, ele(a) abra o jogo pra você explicando que você NÃO está pronto! Mesmo que você o faça com o olhar do Gato de Botas da foto…

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