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O que a Etiópia nos ensina…

Na primeira vez que vim à Etiópia era um pouco angustiante ver a confirmação de MUITO do que acreditava e ter que relatar com palavras. A vantagem de enganarQUERO DIZER convencer outros a virem comigo experimentar torna a coisa menos angustiante, pois não viro o louco falando sozinho.

Foi assim ano passado, está sendo assim agora. Ao final de um treino leve e guiado pela floresta pude conversar com o André Savazoni (que também é treinador) sobre a simplicidade dos melhores do mundo.
Não há lojas de suplemento… E o que não falta no Brasil é nutricionista e vendedor fantasiado de especialista empurrando suplemento… Uns deles são só burros mesmo, outros são apenas picaretas lucrando com mentiras.

Os melhores tênis (na verdade os mais caros ou novos) estão nos pés dos amadores (nós). GPS? Nada! Eles aceleram e ditam ritmo na sensação 100% do tempo. Como fazem isso? TREINANDO.
Por fim, a técnica, ou como vocês gostam de chamar, a biomecânica. Sabe quantos toques recebemos ou vimos até agora? ZERO. Por quê? Como ensinar pássaros a voar, peixes a nadar?
A hierarquia do treinamento exige que se dê prioridade ao que é importante. Enquanto a corrida for um esporte que ganha quem chegar na frente e não quem corre bonito, o foco é esse.
Tenho poucos minutos com meus atletas. Se o homem é um animal corredor, tenho que focar no que interessa! Se eles aqui não ligam pra isso, eu vou fazer como eles, focar naquilo que ELES mostram ser importante.

O delírio do pré-treino

Duas perguntas recebidas no Instagram me reforçam o delírio coletivo de toda uma sociedade (que os autores das perguntas não se ofendam, os exemplos são apenas sintomas sociais). Ei-las:

1. Quanto tempo após comer se pode correr sem perder rendimento?

2. O que comer antes de treinar?

Na minha experiência – vamos lá – eu NUNCA conheci um Nutricionista que entendesse de esporte. Eu não disse que eles não existem! Só disse que não conheço nenhum. NEM. UM.

Certa vez conversava com um cliente acima do peso e ele me dizia que queria perder peso correndo. Expliquei que ele, nordestino, poderia vir caminhando de sua cidade até SP e AINDA ASSIM lhe sobraria gordura corporal de sobra. Aqui 2 pontos:

– Corrida/caminhada gasta poucas calorias;

– O desafio não é gastar, é conseguir ACESSAR sua reserva energética.

Porém, e esses Nutri-Nesfit que recomendam suplemento e pré-treino JAMAIS entendem – até porque não sabem NADA de esporte – , você NÃO TEM acesso à sua reserva pré-alimentado! Por vários motivos. Um fisiológico é que comer eleva os níveis de insulina que INIBEM a queima de gordura. Isso está na aula 2 de Fisiologia (na primeira o professor se apresenta e fala as datas da prova). O nutricionista que prescreve pré-treino em amador deve ter faltado nessa aula.

O motivo conceitual é mais simples! Não faz sentido NENHUM comer antes de atividade física porque em nosso modelo evolutivo os ancestrais quando jejuavam por não TER comida estavam procurando por ela, eram fisicamente ATIVOS. Sendo assim, o padrão é fazer ATIVIDADE FÍSICA enquanto estiver em jejum! Nenhuma criatura selvagem adulta descansa quando não possui calorias!

Tem mais! É JUSTAMENTE quando temos grande fonte de energia endógena (gordura corporal) que nosso cérebro avisa ao corpo de que NÃO precisamos mais ser ativos pra encontrar comida. Já disse aqui: é um ENORME erro interpretativo esperar que alguém com sobrepeso seja MAIS ativo, mais disposto.

Energia endógena –> letargia e sedentarismo.

Energia exógena –> descanso.

A Nutrição como prática VIVE de negar a realidade. Por isso é um fracasso.

A Corrida fragiliza – pergunte ao Hamilton

Uma velocista perguntou no meu Instagram: por que esporte (buscando desempenho) e bem-estar não combinam?

Por partes…

Primeiro a questão do “pra desempenho”. Ela não usou a expressão. Ela não precisa. Ela deixa o “running do the talking”. Ela é uma das melhores velocistas amadoras que conheço. Quem fala que busca algo “pra desempenho” acaba tendo que me avisar porque no fundo no fundo a pessoa nem sabe que na verdade NÃO faz algo pra desempenho. Você não “vai pra desempenho”…

Na mesma rodada de perguntas me perguntaram de um tal gel Maurten. Me avisaram depois ser o usado por Kipchogue. Eu não sabia. Já repararam que as pessoas não querem rodar o volume que a elite TEM QUE rodar, mas querem comprar os docinhos que a elite SÓ toma porque é paga? De novo: o lento NÃO tem leitura do esporte. O veloz SABE o preço e que NÃO há atalhos.

O FÓRMULA 1 DE HAMILTON…

Lewis Hamilton foi hexacampeão este domingo. Seu carro é incrível. Mas tente tirá-lo da fábrica da Mercedez e andar pelas ruas. Ele não vai longe. Ele quebra. Para ser incrivelmente veloz e ter enorme aceleração ele PRECISA ser especialista. Ele abre mão de outras valências para ser absoluto em apenas algumas. E POR ISSO ele é MUITO frágil.

Quanto mais você corre para – sei lá – correr 21km abaixo de 4min/km, você trabalha apenas algumas capacidades EM DETRIMENTO de outras. Não é que o treino de resistência o torna lento. Isso é um TREMENDO ERRO interpretativo. É que correr demais (e ficar apenas treinando no plano sagital) faz com que você NÃO treine outras capacidades, inclusive a velocidade. E aí, sem leitura, você fala que perdeu velocidade por causa do aeróbio. Bobagem.

E o que não é treinado, se perde. Quanto mais você corre, menos você faz outras coisas, mais frágil você fica… você vira um bom fundista em DETRIMENTO do restante.

SIM, quanto mais corrida, PIOR no global. A corrida nos FRAGILIZA. Pergunte ao Hamilton se o carro que o leva à glória pode levá-lo até sua casa.

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Um pouco mais sobre conforto…

M. N. Shyamalan era um promissor diretor que fez alguns filmes bem interessantes, como o Sexto Sentido e meu preferido, Sinais (2002). Em um dos mais fracos, há um personagem que me lembra bem o comportamento na corrida. Em A Dama na Água (2006) há um jovem que só treina musculação em um dos braços. Ele fica com um braço de Popeye e outro como um de um frango.

Na corrida por algum delírio nós treinamos as pernas, mas protegemos os pés. Já reparou o que acontece quando alguém fica com um braço (ou perna) imobilizado por semanas após uma fratura? Ao tirar a imobilização é NÍTIDO o enfraquecimento muscular do membro.

A BUSCA PELO CONFORTO

Por MUITOS anos eu sempre corri com esses tênis gigantes de quase 400g. Eu acreditava nessas balelas de controle de movimento, amortecimento, estabilidade. Porém, nas provas SEMPRE optei pela leveza. Meus amigos eram obcecados por modelos ultraleves. Motivo? É um tanto óbvio. O peso é um limitante mecânico.

A corrida é o ÚNICO esporte em que o amador usa equipamentos DIFERENTES do usado pela elite do seu esporte, repare! A elite corre com tênis leves, os amadores com trambolhos. Isso SÓ ACONTECE na corrida! É um misto de ingenuidade (por não ter a leitura correta do esporte que se pratica) com petulância, de achar que um amador possui necessidades especiais que nem mesmo a elite mundial tem.

Quando aderi mais fortemente ao minimalismo uma coisa me chamou atenção. Mesmo eu há tempos SEMPRE usando tênis com menos estrutura (há muitos anos jogo fora as palmilhas de todos os meus tênis, por exemplo) eu acabava com a musculatura da SOLA do meu pé MUITO dolorida. Mas não era dor do tipo traumática, mas FUNCIONAL. A musculatura intrínseca do meu pé (essa “da sola”) estava ACABADA, assim como quando você sai de um treino FORTE e PESADO de musculação.

Ao passar a usar minimalistas acabava ali a proteção aos meus pés. Era a vez de fazer a musculação dos pés. Não faz sentido NENHUM protegê-los. É na EXPOSIÇÃO que você o fortalece. O CONFORTO apenas nos AMOLECE. E isso, sabemos, serve pra tudo na vida. Do contrário, o braço forte e atlético do personagem seria o protegido, não o submetido ao treino.

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3×15 = 42km ?!?

Sempre tenho enorme dificuldade de explicar aos corredores como que uma pessoa treinando usando velocidades de provas de 5km pode ajudar alguém a correr 42km. Eu poderia talvez usar o exemplo da musculação. É bem claro na cabeça dessa pessoa que treinando sempre levantando muito peso por – sei lá – 5 repetições, torne fácil usar cargas baixas por 20 repetições, por exemplo. Afinal, você irá usar apenas PARTE da sua REAL capacidade máxima.

Já o contrário não é verdadeiro. Pegue aquela pessoa da academia que você vê sempre fazendo 200 repetições de elevação de perna com tornozeleira de 1kg e peça pra ela fazer um agachamento com 30kg em cada lado. A lógica NÃO funciona na contramão.

O que estou querendo dizer? Que é MAIS FÁCIL fazer alta intensidade e ESTENDER o tempo de atividade com baixa carga do que fazer baixa carga por muito tempo e conseguir altas intensidades.

Pegue grandes nomes da história da Maratona. Kipchogue, Bekele, Haile e mesmo Zatopek. TODOS tiveram êxitos na elite mundial em provas curtas, de 3.000m a 5.000m. Os ritmos de 3.000m a 5km são os que MAIS melhoram nossa velocidade em ritmo de VO2máx (um dia falo a respeito), mudando positivamente assim praticamente TODOS os demais parâmetros.

Dias atrás me lembrei de uma famosa maneira indireta de você chegar ao seu possível limite de tempo na maratona. A conta é BEM simples! Você pega seu recorde pessoal nos 15km e faz a conta abaixo:

3x15km = Maratona (*desvio padrão de ~1 minuto)

Essa conta costuma ser MAIS precisa que baseando-se no seu tempo de Meia Maratona! E como você melhora DE FATO seu tempo nos 15km? Rodando lento por horas? NÃO. Estalando o chicote. Afinal, 15km nada mais é que um 10km saindo um pouquiiiinho mais lento. É um “Tempozão Run”. E como você melhora seu tempo nos 10km? Rodando lento por horas? Bom, acho que já entendeu meu ponto.

Você quer melhorar sua Maratona? Você PRECISA fazer aquele ritmo parecer fácil.

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