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Inferno, doping, ingenuidade e não somos mais crianças

Dan Brown é um baita escritor. Seu livro mais conhecido, O Código Da Vinci, vale ser lido! De todas as críticas que já li, o dono era sempre um pedante necessariamente possuidor de um diploma universitário, como que para nos lembrar de que ele não cai em truques do entretenimento. Por isso pedante, pois só assim para ignorar que Brown fez pesquisa de primeira e a usou em uma obra de ficção, por definição com liberdade poética. É o típico chato que quando vê Star Wars fica nos lembrando que explosões no espaço não geram barulho.

O livro tem um personagem central que participa de 4 de seus livros (praticamente sem ligação entre eles). O mais recente dessa série, Inferno, também virou filme. Nele há uma frase interessante de um dos personagens centrais. Harry Sims diz: “Os jovens me decepcionam. Só os tolero por volta dos 35 *.

Semana passada tivemos duas notícias muito importantes no mundo do atletismo. Domingo caiu mais uma vez o recorde mundial da Meia Maratona entre as mulheres. Já mais para o final dela uma bomba: era pega no exame antidoping o primeiro peixe-grande queniano, a campeã da última Maratona Olímpica.

Existem levantamentos BEM interessantes que mostram como a adoção de testes antidoping influenciou diminuindo o ritmo competitivo em provas como os 10.000m, por exemplo. Existem algumas certezas: uma é que o doping funciona muito bem no aumento do desempenho. Outra é que um número muito baixo de dopados é pego em exames. Outra certeza é ainda que se você GARANTE que um grupo de elite não se dopa, o ritmo deste grupo NECESSARIAMENTE cai. *Por isso ainda se você quer bater a barreira das 2h00 na Maratona com um grupo de atletas, há um conflito de interesse perigoso…

Por isso que as duas notícias, apesar de importantes, vieram acompanhadas de uma sensação de “mais do mesmo”, com desinteresse. É uma pena. Isso porque foi o maior nome já pego e outra porque um recorde mundial deveria ser sempre especial. Sempre. Mas não é mais. Há muito acabou a época da inocência no atletismo. Este esporte virou um grande teatro, muitos torcem, acompanham, mas quando caem as cortinas você sabe que era tudo uma grande encenação, você não fica bravo querendo agredir a Adriana Esteves ao vê-la no supermercado, pois você sabe que na novela como vilã ela apenas atuava, era tudo falso. O atletismo caminha em direção ao ciclismo, ao halterofilismo, ao fisiculturismo, com a diferença que no atletismo ainda imaginamos haver mais atletas limpos. Mas já não sabemos mais quem interpreta e quem não atua.

Não é só isso. Assim como quando assistimos ficção não copiamos tudo o que se passa na tela ou no livro, no atletismo não deveria ser diferente. Porém, um dos maiores males do doping nesse esporte passa despercebido. O doping proporciona ao trapaceiro níveis de força, de resistência e de recuperação inalcançáveis sem o uso dos recursos proibidos. O doping faz assim que sejamos impossibilitados de entender bem como funcionam as diferentes cargas e metodologias de treinamento.

Mas o que eu vi dias depois da queda do recorde foi alguns veículos e pessoas compartilharem com interesse as sessões de treino da nova recordista. O mais incrível é que muito da gente que deveria ser a mais interessada no assunto simplesmente dava de ombros. Por quê? Porque está claro que é tudo um show, uma mentira. São 2 os motivos principais: primeiro é que detalhes de um indivíduo pouca informação nos dá em função da (sempre ela) individualidade biológica. Mas o mais importante é que um organismo dopado suporta cargas não só mais altas, como em uma frequência muito maior. Por isso que amadores se deliciam com a informação, os profissionais pouco comentam.

Basicamente é assim: não há o que tirar de lição quando você é de carne e osso e a pessoa que serve de exemplo e estudo não é. Não é uma questão de metodologia, mas um exemplo de realidades tão diferentes que não vejo outra coisa senão ingenuidade pensar muito diferente. Você analisar esses treinos é o mesmo que analisar o treino de um atleta de força que carrega cargas com o auxílio de um amigo sem você saber. Ou estudar o treinamento de um velocista que dá tiros em descida também sem você saber. Ou você é inocente ou você ainda não entendeu muita coisa.

Estou eu dizendo que o novo recorde é uma fraude? Não mesmo! Nem tenho como! Por outro lado a pessoa não tem também como provar que competiu limpa. Mas a essa altura pelo desinteresse delas acho que você imagina o que acham da nova marca algumas das melhores pessoas do meio.

*Young people are disappointing. I find them become tolerable around 35.

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A Maratona acima das 2h00 ainda tem vida longa

Eu achei que não fosse cair na tentação de escrever sobre a Maratona Sub-2h00 por 2 motivos muito simples: primeiro porque ela ainda demora MUITO a acontecer (*15-25 anos, chuto). E segundo porque sempre acreditei que dentro do ambiente da corrida a ideia dessa demora, ainda que venha a ser menor, era quase um consenso. Não, não é.

Que a unanimidade é burra já sabemos, mas um pouco me espanta como tem gente comprando a ideia dos projetos sub-2h. Esqueça as revistas e portais de corrida, pois eles têm que produzir tantas matérias que eles encherão linguiça com qualquer coisa. Com QUALQUER coisa. Vale até lixo hospitalar se o prazo apertado pedir, qualidade não é essencial.

As pessoas que deixam se iludir pelo discurso dos Relações Públicas dos 3 projetos (fora os RPs fan-boys que trabalham quase de graça) se esquecem de alguns pontos sobre o tamanho da façanha que é o correr mais de 42km em menos de 120 minutos:

Usain Bolt, talvez o maior freak da história do atletismo NÃO conseguiu melhorar sozinho o recorde mundial equivalente a esse necessário;

– Faz décadas que o recorde mundial não cai nessa magnitude de 3 minutos;

– O ritmo de melhora média do recorde mundial nos faz imaginar que a barreira ainda tem vida longa, muito longa;

– É impensável vermos qualquer outro recorde mundial nas provas de corrida caírem nessa porcentagem.

Então… POR QUE NA MARATONA SERIA DIFERENTE!?

Não sei explicar muito bem a razão das pessoas se deixarem levar pela ideia mais comum, a que mais escuto: a ciência ajudou a bater as antigas marcas e novas tecnologias irão ajudar ainda mais a melhorar treinamento, alimentação, suplementação, tênis e vestuário.

A ideia do discurso de que ganhos marginais com tênis, carro-madrinha quebrando vento, percurso plano e bebida mágica se baseia na fé. Isso porque, e já disse aqui, a tecnologia e a ciência muito pouco ajudaram na evolução das marcas na longa distância. A tecnologia e ciência não ajudam, elas são lentas demais, elas apenas tentam explicar aquilo que o treinamento da corrida na base da tentativa e erro descobriu. Podemos dizer que a corrida chega quase sempre ANTES que a ciência e a tecnologia quando o assunto é desempenho. Não esperem contar em hora tão crucial com quem tão pouco ajudou em toda uma jornada de décadas.

São 3 os maiores fatores que melhoraram de modo considerável e mais impactante as marcas e recordes na longa distância nessas décadas: o aumento expressivo da profissionalização e principalmente da premiação em dinheiro, que em parte explica o segundo fator, que é a entrada dos africanos no cenário competitivo global. E por fim, o terceiro fator, que muitos (não eu) acreditam ser o fator mais forte e preponderante: o doping.

Quem acredita que os atletas estarão agora mais motivados cometem 2 erros graves e ingênuos. Já foram oferecidos prêmios milionários para quebras bem mais modestas que não caíram. E segundo, não há motivação reproduzível (em treino ou simulado ou teste) que seja equivalente ao de uma competição real, aberta. Não há como negar isso, ponto.

Quem se apoia na ideia do percurso fechado, ignora ainda que há por volta de 5 provas internacionais que anualmente recebem a elite da corrida em condições consideradas ótimas e AINDA ASSIM se mantêm bem longe da marca.

Quem acha que pode haver melhoras no treinamento, ignora que não há ciência que o construa, mas que o explique. Quem diz que pode haver melhoras na periodização, ignora que ainda sequer temos provas de que ela é tão decisiva assim na corrida. Quem diz que pode haver melhoras no vestuário, deixa-se iludir por comercial barato de marca esportiva e desconhece a importância fisiológica da vestimenta. E quem acredita que alimentação/suplementação pode ter melhorado, passa longe de conhecer o que é usado atualmente pela elite mundial e o que há de ciência por trás disso. Sabe-se pouco, quase nada.

POR FIM, CHEGAMOS AO QUE IMPORTA

Há primordialmente 3 aspectos que podem antecipar a quebra dessa barreira. O primeiro deles (e ilegal!) oficialmente e teoricamente não está sendo usado: DOPING. Você pode não dopar um atleta, mas se você EFETIVAMENTE NÃO dopar um grande grupo de elite, você tem apenas UMA certeza no curto prazo: eles no máximo ficam mais LENTOS. Ou seja, estaríamos indo assim na contramão da meta. Duvido que dopem deliberadamente esses atletas. Porém, duvido que deliberadamente façam enorme questão de os impedir de se dopar.

O segundo fator, que é o mais citado, uma vez que é o produto que os patrocinadores mais querem nos empurrar, além daquele Tang com água e açúcar sendo vendido a preço de uísque 16 anos, são os TÊNIS. Quem entende bem de biomecânica (e eu confesso que em 10 anos próximo da indústria de calçado nunca conheci um brasileiro deste mercado que entenda) sabe o quão difícil é tirar vantagem de tênis.

Basicamente temos que tênis bom é aquele tênis que pouco atrapalha. Borracha não acelera, ela freia. 100% das vezes. PONTO. Quanto mais, menos velocidade. Ou seja, quanto menos tênis (até certo limite), melhor. Isso na prática já se sabe há quase 100 anos, mas alguns fan-boys gratuitos da imprensa acham que é novidade. Os tênis de hoje não são melhores, não são mais leves, não são mais eficientes do que os de 10 ou 40 anos atrás. O enorme desafio da Nike (e também da adidas, mas esta não está prometendo nada) é conseguir um tênis que melhore a economia de corrida em larga margem (4%) sendo que isso é algo a ser feito individualmente. Um tênis que melhora a corrida do Kenenisa Bekele muito provavelmente pode não melhorar a minha, nem a do leitor que corre a 5´00”/km nem a daquele profissional que faz Maratona em 2h15 ou a daquele queniano que corre em 2h06 mas com padrão biomecânico muito diferente. Entende o tamanho do problema?

Exagerando, é mais ou menos como prometer o melhor tênis da história, mas sendo vendido a todos no tamanho 41. Eu uso 43, e você? Eu não faria prova com ele. Mas o que importa: será que todos dos projetos calçam 41? Para piorar, os testes são em esteira. Fazer teste com esses atletas na esteira é como convocar o Falcão para a seleção do Tite porque ele arrebenta no Futsal. São quase esportes diferentes! Pergunte a qualquer treinador de atleta competitivo (não de assessoria!) se treinar na pista de carvão, na de tartan, no asfalto e na esteira é a mesma coisa para o padrão mecânico da corrida. Pergunte!

E chegamos ao terceiro fator que pode antecipar a quebra da barreira: o IMPONDERÁVEL, que na verdade é um “freak”, um atleta ET. Eles existem, mas este terá que ser tão fora da curva que, como dito, mesmo Bolt não melhorou as marcas tão expressivamente como preciso. Na natação, por particularidades fisiológicas e biomecânicas da atividade que não vêm ao caso, eles são mais frequentes. Por exemplo, a nadadora Katie Ledecky é hoje melhor do que medalhistas olímpicos homens dos anos 80 e 90. Isso não existiu ainda no atletismo. Mas o inédito é isso, é algo que jamais aconteceu. Ele é imprevisível, querer prevê-lo SE ou QUANDO vai ocorrer é um exercício mais do que estúpido.

Se ainda assim a Nike conseguir desenvolver um tênis que ajude com recursos externos, aí seria quase uma trapaça. E aí o debate é meio inútil. Um amador já bateu o recorde de 100m de Usain Bolt ainda em 2009. Como? Correndo na descida. O recorde mundial da Milha (1.609m) e dos 10km também já foram batidos anos atrás também em descida. E é tudo tão inválido como sem graça que aposto que o leitor não sabia desses 3 feitos. Então nem entro nesse mérito.

Eu relutei em escrever este texto porque acho o debate infrutífero já que a Matemática, a História e a Fisiologia são tão claras nesse sentido que não sei como alguém sério ou gabaritado em algumas dessas áreas acredite que estamos realmente em uma corrida séria. Não vejo gente qualificada (Alex Hutchinson à parte quase brincando de fan-boy) apostando que saia coelho dessa cartola porque eles sabem que é algo que apenas o tal imponderável pode antecipar. E esta mesma aleatoriedade é que pode por muita reputação a perder. E esta é meio que a graça de escrever aqui que a marca NÃO cai em condições normais (sem trapaças nos pés). Eu acho que sei e guardei bem o nome de quem da área pagou ingresso para o circo montado dizendo que sim, que cai. Daqui 1 ano eu posso estar errado, mas se posicionar também é um jeito deste texto valer algo.

A discordância que há entre mim e os que acreditam que é coisa para logo mais é que eu vejo ligação entre o progresso (cada vez mais) lento da marca – tem sido assim nos últimos 20 anos – e a raridade intrínseca do imponderável. Enquanto os crentes acham que o imponderável tem dia e hora marcada assim como que por mera boa-vontade a tecnologia e a ciência farão logo mais o que nunca fizeram em mais de 50 anos, ou que um pessoal das marcas esportivas em meia dúzia de reuniões viu o que ninguém que vive desse esporte teria visto ainda em décadas.

Esses da imprensa brasileira que apostam na quebra são mais felizes do que eu.

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Sobre Lindy, Vovós e falsos especialistas. OU ainda: o Tempo como senhor da Razão.

Um dos temas que mais aprecio, mas sobre o qual eu dificilmente decido escrever muito é a latente ineficiência dos atuais tênis de corrida na diminuição das lesões nesse esporte. Se eu precisasse resumir em poucas palavras o recente histórico seria: nos últimos 40 anos os tênis ficaram maiores, mais pesados e (muito) mais caros. Agora os modelos convencionais contam com “tecnologias” que prometem um maior controle de pisada, maior amortecimento e um menor risco de lesões. Mas na realidade conseguiram oferecer com evidências apenas maior conforto, uma falsa de sensação de maior controle (o que não é bom!) e menor resposta sensorial aos pés com suas entressolas mais espessas (o que com certeza é ruim). Ou seja, não há vantagem ou menor índice de lesões, porém dão uma falsa sensação de segurança que é muitas vezes contraproducente.

 A QUEM OUVIR? – O que é um especialista? O que é um falso especialista? Em quem acreditar?

Você não terá problemas em encontrar até treinador dizendo que você deve treinar apenas com quem tem CREF, o que é uma tremenda bobagem; discurso de quem se preocupa mais com o próprio bolso do que com aquele que deseja correr. No campo das ideias quem decide quem é e quem não é especialista é o tempo. E existe uma regra para isso, o Efeito Lindy, uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.

Aplicado aos tênis de corrida, os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde os anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar um corredor (nem tão) iniciante com suas propagandas chamativas, pode convencer o jornalista que só lê release, pode convencer aquele médico que faz lista de “tênis bom para o joelho”. Você apenas não engana duas entidades: Lindy e o Tempo.

É por isso também que não gosto muito de escrever sobre tênis. Não tarda para aparecer quem se encante com release e propaganda, mas quando olhamos no tempo vemos que a fragilidade dos argumentos não sobrevive a ele, uma vez que um dos discursos dos fabricantes diz que “esta versão está ainda melhor que a anterior” ainda que ela não tenha se mostrado em NADA mais segura que um tênis de corrida de 1965! É como o Comunismo/Socialismo, nunca deu certo em lugar nenhum, mas deveríamos continuar tentando. Para estes todos é muito triste quando o seu “mundo dos sonhos possíveis” encontra a vida real.

Fosse um modelo de tênis convencional de hoje superior aos da década de 60, o conceito desses teria morrido, mas continua vivo ainda que sem a força da propaganda. Por quê?

 

“Insanidade em indivíduos é algo raro – mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra”. (Friedrich Nietzsche)

 

Por que tantos de nós correm com tijolos aos pés que NÃO os protegem? Por que comemos 60% das nossas calorias justamente do nutriente que é não-essencial à vida? Por quê?

Vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas. Muitos deles montam suas teorias na segurança de não ter que submeter alguém previamente ao que pregam. E é aí que nossas avós são melhores do que nossos nutricionistas. Se na saúde você tiver que seguir uma recomendação nutricional, marque um encontro com sua avó JAMAIS consulta com um Nutricionista.

Sempre que alguém vem e me chama de polêmico (o que não é verdade), repare que provavelmente estou apenas a dar peso a pesquisas que com rigor contradizem o senso-comum, seja na Nutrição ou sobre com qual tipo de tênis que deveríamos correr. Afirmações essas que eu sei que acarretam danos à reputação dos falsos especialistas, os especialistas em release, ou os ignorantes por conveniência, estes os mais desonestos. As ideias desses não sobrevivem honestamente ao tempo. Veja: são 40 anos para provar que tecnologia ajuda. Sem provas. São 40 anos seguindo cada vez mais as diretrizes nutricionais: nunca tivemos um mundo tão obeso. Esses especialistas (nutricionistas e defensores da tecnologia em calçados) são vulneráveis à prova do tempo e esperam que a realidade mude seu fundionamento, não suas teorias absurdas.

AVÓS vs PESQUISADORES

Por isso insisto com uma heurística: quer ir ao Nutricionista? Converse com sua avó. Com enorme chance de certeza afirmo que 85% das vovós estarão certas. Menos de 15% dos nutricionistas têm essa taxa. Por quê? Porque elas, nossas avós, comiam alimentos que foram a base da nossa dieta por muitos séculos. O Nutricionista não, ele vive de um pensamento mágico de teorias de apenas 40 anos que jamais foram postas à prova. Ele não tinha muito a perder, nossas avós e antepassados tinham.

Com tênis de corrida não é diferente. Por séculos os corredores, que dependiam do sucesso de sua corrida, usavam calçados com pouco suporte. Por que então dar ouvidos a jornalistas, fisioterapeutas e médicos que NÃO estudam DE VERDADE o assunto (pseudo-especialistas) e cuja parte de seu sucesso depende justamente do SEU fracasso (lesão) na corrida? Há uma enorme dissociação de interesses, como em quase todas as áreas da Saúde.

Ou ainda, aplicando à teoria da Avó-Nutricionista, veja o tipo de tênis que os veteranos abaixo, que querem ganhar a prova, calçam e veja o que diz o ~especialista~ da revista/site de corrida de seu veículo favorito que quer vender tênis. Tire você suas próprias conclusões… já sabemos mesmo que ele é um falso expert.

imrs

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Quando DUNNING & KRUGER sobem correndo o “Monte da Estupidez”

Um dos maiores desafios que uma pessoa deve ter a seguir escrevendo em um blog é como lidar pacientemente com o Efeito Dunning-Kruger. Para quem não sabe do que se trata, o efeito é sobre uma ilusão descoberta em experimentos realizados pelos pesquisadores Justin Kruger e David Dunning que notaram que justamente os mais ignorantes em um assunto demonstravam possuir uma confiança desproporcional nestes mesmos assuntos nos quais são ignorantes. Resumidamente: a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento.

Muito provavelmente pesa o fato do veículo em questão. Tenho conversas produtivas com quem leu meus livros, mas um blog não gera o mesmo “respeito”. É como se o escrito aqui tivesse menos força do que algo escrito e publicado em papel. O Efeito Dunning-Kruger faz “indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditarem saber mais que outros, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória”.

Dois vídeos recentes em particular me chamaram a atenção. No mais novo deles, meu amigo Ricardo Nishi fala sua opinião sobre um tênis em particular. Desconsideremos que opinião é algo sempre… pessoal. Dizer que o que o Nishi dizia ali era uma – desculpe a redundância – “opinião pessoal dele”, é como dizer que um elevador “sobe para cima” ou “desce para baixo”.

mount-stupidOu seja, ignoremos que as pessoas leem um dicionário em frequência muito menor do que desejam escrever. O que impressiona é como as pessoas falam com segurança e certa agressividade de um assunto do qual não dominam, no caso, o papel dos tênis na redução de lesões na corrida.

Tempo atrás, quando convidei o fisioterapeuta e doutor Alexandre Lopes para escrever o capítulo sobre Tênis e Lesões em meu livro O Treinador Clandestino – o que nunca te contaram sobre corrida, um dos objetivos foi justamente o de dar embasamento às ideias apresentadas. As pessoas sofrem da síndrome do jaleco branco, elas precisam ver alguém vestido de branco quando o assunto é Saúde. É a falácia da autoridade. E não deixa de ser muito maluco isso.

Um dos argumentos mais citados justamente por quem mais demonstra não entender nada do assunto tipo de pisada, controle de movimento e calçados esportivos, é o de que deveríamos crer no que dizem releases de empresas fabricantes, pois elas têm pesquisas e investimentos brilionários em tecnologia.

Deixe de lado jornalistas do setor que parecem escrever sempre com o taxímetro ligado, encoste também ortopedistas e fisioterapeutas que parecem ainda escrever com o que fora produzido nos anos 70 ou 80 falando sobre tênis para diferentes tipos de pisada. Saiba sempre que não há investimento, não há pesquisa, não há evidências que tênis (modernos ou não) tragam maior segurança à nossa corrida. Não sou eu que estou falando isso. Basta procurar.

Mas os mesmos de sempre irão engrossar a voz. Vão argumentar que sou tolo em pensar que uma fabricante não investiria brilhões de dólares em pesquisas (não investem). Ou que os tênis de hoje são iguais (em segurança!) aos dos anos 70 (pois são).

Alguns são ignorantes porque não sabem do que falam. E isto não é crime.

Outros são ignorantes mesmo porque lhes é financeiramente conveniente.

Mas que é preciso paciência com os dois, ah isso é!

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p.s.: se você chegou até aqui, poderia me explicar por favor o que é “suporte” em um tênis de corrida? Corro há mais de 20 anos, trabalhei em marcas esportivas, mas JURO que até hoje não sei o que é isso  rsrsrs Tolo que sou, sempre acho que são minhas pernas quem me dariam suporte rsrs

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Treinandus Poucus Demasiadus Papus

Você conhece aquele que anda “treinando muito”, querendo “muito melhorar suas marcas” em algumas provas e ainda assim não obtém os resultados que tanto persegue? Pois os tempos atuais fazem necessário falarmos sobre a Síndrome do Treinandus Poucus Demasiadus Papus, uma desordem comportamental muito séria que se caracteriza por um platô do desempenho dessas pessoas na corrida. O indivíduo em questão é acometido por esta doença que impede o seu progresso apesar de todo o dinheiro investido e, muito mais importante, do considerável tempo de dedicação ou das sessões semanais treinando.

Esta síndrome atinge corredores dos mais variados níveis e de variadas idades, que vão em sua maioria entre os 20 e os 45 anos. A manifestação da Síndrome do Treinandus Poucus Demasiadus Papus pode se caracterizar por uma intensa preocupação com mais de um dos fatores abaixo:

– Tipos de pisada;

– Amortecimento do calçado;

– Flexibilidade;

– Equipamentos de vestuário (óculos, meias de compressão, manguitos…);

– Suplementos, BCAA e nutrição;

– Coleta de dados de treinamento (para posterior análise de seu treinador);

– Treinamento individualizado;

– Periodização;

– Fisioterapia preventiva.

O medo de fazer força nos tiros ou rodar em subidas, além de resistência ou preguiça de rodar muitos quilômetros (independente do ritmo) e ausência de treinos em temperaturas que estejam abaixo dos 15⁰C são outras características muito comuns a quem sofre da síndrome.

Não há um grande estudo analisando sua prevalência ou condição sine qua non de que sejam corredores de assessorias esportivas, e não sabemos se o Treinandus Poucus Demasiadus Papus é contagioso, endêmico ou exclusivo apenas de alguma microrregião (ex: Marquise do Ibirapuera), mas podemos estimar que pode afetar até mesmo cerca de ¾ dessas pessoas em maior ou menor grau, condição essa que não a diagnosticam como sofredoras da síndrome, mas sim que é mais fácil uma terapia de remissão ou mesmo cura.

Sabemos, sim, que aspectos sociais e ambientais parecem ter correlação positiva, ainda que não saibamos se de causa ou casualidade nesta síndrome. O que existem são fortes suspeitas como causadoras dela. Podemos teorizar que as fontes de informação por parte desses corredores acometidos são: conselhos de revistas de corrida, portais especializados da internet, além da simplificação advinda de postagens de incentivadores virtuais, os influencers, que em análise rápida de seu conteúdo, em considerável parte parecem sofrer do mesmo mal, em maior ou menor grau.

Mal este que NÃO parece ser adquirido por contato, via aérea ou sanguínea, já que se espalha mesmo em ambientes sem contato físico algum, como os grupos de Facebook e as redes sociais. E parece que pode ser diagnosticado por uma junta médica e de profissionais de saúde, dessas que você encontra facilmente em clínicas multidisciplinares com nome pomposo e/ou em inglês que enfatizam terapias preventivas com o intuito único de ganhar dinheir…OOOPS… de melhorar a saúde e o desempenho desses corredores amadores.

Falemos e discutamos, pois, de sintomas, prevenção, e medidas de tratamento por intervenção comportamental.

UMA SÍNDROME SÉRIA:

Dizem que é um passo importante ao doente admitir que sofre de um mal. Posso não sofrer hoje da síndrome, mas por um tempo considerável de minha vida como corredor apresentei alguns sintomas claros da Treinandus Poucus Demasiadus Papus. Fiz inúmeros testes de tipos de pisada, buscava amortecimento em calçados como alguém que procura o nirvana, alongava antes e depois dos treinos, já corri com tira sub-patelar, com munhequeira, de bermuda térmica e meia de compressão… comprei óculos de corrida, estudei os efeitos de suplementos, consumi BCAA, anotava dados como FC em repouso e volume de treinos… tudo. Por algum motivo que não a ingenuidade achava que meu treinador fosse algum dia analisar esses dados que nem mesmo eu hoje tenho o menor interesse pessoal. Hoje me considero curado. Mas tenho que me policiar a cada vez que alguém resolve me mostrar os belos gráficos que um GPS, aparelho que eu nunca tive, é capaz de criar.

Porém, ainda que curado, me incomoda ver tantos sucumbindo a essa grave doença…

Por outro lado, tive muita sorte por um período ter que treinar sozinho e ter entre meus colegas de equipe, corredores muito old-school. Correndo sozinho eu não tinha a tentação de perder tempo com o que não importa no resultado final, nem de ouvir dicas furadas. Treinando com veteranos rápidos e experientes aprendi o que nenhuma revista ou portal jamais me ensinaria. *Lembre-se sempre, revistas e portais tentam te vender os equipamentos das empresas que pagam por anúncios em suas páginas, e eles tentam ainda vender-lhe atalhos, que na corrida, simplesmente não existem.

Aprendi com eles que: correr bem é resultado basicamente uma questão de muito volume, de muita paciência, de muita regularidade e de muita dedicação. Para correr bem sem um desses “muitos”, você terá que ter a grande sorte de ter os genes certos.

E obviamente que minha sorte não me impediu ainda assim de perder muito tempo com coisa inútil. Porém, provavelmente foi meu interesse na área que me salvou de consumir um volume ainda maior dessas inutilidades e gastar dinheiro com coisas que atrapalham a corrida. Isso porque a base do que aqueles corredores experientes e rápidos me explicaram é que a corrida é simples. É quem vive dela e não quem corre que tenta criar a…

“ILUSÃO DA COMPLEXIDADE”

Alguns gurus, Revistas, Treinadores fracos, Portais, associações de Médicos, Nutricionistas, Fisioterapeutas e muitas outras pessoas da mais alta boa vontade vão tentar te enganar. Vão tentar dizer que o esporte mais simples de todos é complexo e exige cuidados maiores.

Com a internet ficou mais fácil consultar de modo simples as recomendações destes e você consegue chegar a um mesmo padrão de conduta que não encontra suporte nem respaldo em nada que não seja a vontade única deles de te vender um plano “individualizado” ou personalizado. Correr é um pé à frente do outro por milhões de vezes, mas dirão que há necessidade de testes, de equipamentos e planos pessoais e periodizados. Ao contrário de tudo o que fazem os melhores do mundo ou os que mais correm no mundo.

cientificamente

Quando alguém quer te vender milagres ou alguma bobagem, ela usa o termo ”cientificamente comprovado” em seus posts patrocinados nas redes sociais. É o jeito de querer rebuscar o simples. É impossível nos dias de hoje acompanhar toda a informação que é gerada. Por que não recorrer ao que funciona e é barato ou quase gratuito? Os adeptos da ilusão da complexidade tentam apenas encarecer o seu produto.

Na corrida não há muitos segredos.

 

 

 

Vejo corredores que não correm

Ninguém se considera fluente no idioma de Victor Hugo tendo aula na Aliança Francesa estudando 2 horas por semana, nem se considera bailarino dançando em festas a cada 15 dias, mas se considera corredor ao aparecer na assessoria correndo em média duas vezes na semana por pouco mais de 30 minutos. Encaram a maratona como uma tatuagem, uma vez feita, virou maratonista para sempre.

Corredor é quem corre, é tolo DEMAIS o debate de quem é (ou não é) “corredor”. Mas o texto é sobre evolução de marcas, e ela na corrida passa necessariamente sobre volume de sua prática. Pagar o boleto da academia não melhora sua carga no supino, empurrar uma barra pesada é que faz. Quer correr melhor? Vai ter que correr.

Como você pode saber se você vem sofrendo da síndrome?

Se você passa mais tempo aprendendo novos treinos, fazendo exercícios parados, pulando a corrida por treinos alternativos, e não vê suas marcas melhorarem, é bem possível que já sofra dela.

Voltamos então ao fato que corredor precisa correr. Consistentemente. E isso NÃO significa jamais perder um treino na mesma medida que ficar sem correr por meses e achar que vai melhorar é uma meta um pouco irreal.

DIAGNÓSTICO

Abaixo vão alguns dos sintomas clássicos do problema. Se você está em um platô de desempenho não condizente com seu tempo e volume correndo, não é necessário procurar ajuda, bastaria mudar a atitude.

1. Você não é metódico.

Corrida de longa distância é um esporte de paciência, repetição, persistência. Não há necessidade de você mudar seu treino semanalmente. Um dos benefícios das repetições de algumas sessões é você poder se comparar diretamente, aprender as respostas e as sensações que seu corpo lhe fornece. Pode parecer entediante às vezes, mas existem treino-chaves feitos por grandes corredores que os fazem de tempos em tempos para saberem e sentirem como estão.

Treinador que tem que ficar inventando treino para o atleta precisa é educar o atleta. Você não consegue imaginar um atleta de força tendo que a cada sessão inventar novas combinações, novos exercícios, novos aparelhos. O corredor também não precisa.

2. Você acha que precisa fazer muitas coisas.

Não há ainda gráfico assim correlacionando positivamente horas de Treino Mental (ou horas de Treino Funcional) com tempo na Maratona...

Não há ainda gráfico assim correlacionando positivamente horas de Treino Mental (ou horas de Treino Funcional) com tempo na Maratona…

Você pode correr leve (trote, rodagem ou mesmo ritmo de maratona) ou forte (velocidade de limiar ou acima disso, ritmos de intervalados). Você pode correr pouco, médio ou muito (longo). Isto tem sido praticado, testado e retestado há mais de 100 anos com muito mais sucesso do que você leitor encontraria em umas 3 vidas inteiras. Você corre no plano ou em terreno irregular (com subida).

Você não precisa pedalar, fazer spinning, aquarunning, nadar, fazer fisioterapia preventiva, pilates, cross-fit, power yoga… se você faz mais destes, você faz menos daquele (corrida). Corredores correm, grandes enxadristas praticam xadrez. Priorize o que é importante.

Se eu vendo suco de beterraba, vou querer te convencer que ele te faz correr melhor. Mas se eu quero correr bem, eu preciso é correr.

3. Você se preocupa mais com suplementos e BCAA do que com o volume de corrida.

Por algum motivo, que não vale discutir, damos à Nutrição um papel que ela não tem. Uma boa Nutrição é aquela que não atrapalha, não aquela que te faria correr melhor. Correr é o que te faz um melhor corredor. Ponto. O debate gordura versus carboidrato não deveria jamais ter saído do rodapé do apêndice dos livros de corrida.

Mas corredor é uma praga, ele acha realmente que para correr é necessário ter algum suplemento por perto. Sobre suplementos, existem 3 certezas:

– Se ele funciona, ele muito provavelmente já é proibido;

– Se ele não é proibido, ele provavelmente não funciona;

– Deve haver algumas pouquíssimas exceções, que não sabemos quais.

Não há suplemento que compense a sua falta de quilômetros no lombo.

4. Você corre mais volume para manter o peso

Se você corre para manter a forma e o peso, sua dieta é errada. Se ela é errada, você tem um problema. E não serão os suplementos a resolver uma dieta ruim. *a parte complicada é que dificilmente também será um Nutricionista

5. Seus treinos mais parecem uma propaganda de margarina

Você já viu fotos com pessoas comendo salada? A menos que você seja um vegano por opção ou uma capivara por nascença, comer salada é quase uma lição de casa, o maior prazer de uma refeição não está no maço de espinafre, mas está na gordura, na carne, no tempero, na sobremesa.

Tire a salada e o sorriso é parecido com fotos de gente correndo em publicações

Tire a salada e o sorriso é parecido com fotos de gente correndo em sites e revistas

Se você está rodando sempre sorridente, se seus tiros mais parecem um happy hour de 5ª feira, parabéns! Você colocou esporte em sua vida da forma mais prazerosa possível! Mas se você quer muito melhorar e não melhora, é porque ainda não entendeu que alguns treinos doem, incomodam, são desconfortáveis.

E não precisam ser todos! Nem mesmo a maioria! Aprender a correr forte é aprender a conviver na corrida com o desconforto. Quando olhamos aos treinos dos melhores atletas do mundo, vemos que não mais do que 2 ou 3 treinos semanais são realmente difíceis. Poucos treinos são muito difíceis. Mas o desconforto está muito presente, em maior ou menor grau. Ninguém é bom sempre sorrindo.

Por outro lado, é fácil ser “guerreiro” uma vez por semana, ou pior, alguns tiros de um treino na semana. Os melhores são os guerreiros na mesma frequência, mas treinam (ainda que leve!) nos outros dias.

6. Você passa mais do que 5 minutos fazendo abdominal

Se você não enxerga seu abdômen definido, você precisa perder gordura, não ficar fazendo abdominais. Perda de gordura localizada com abdominal ficou lá nos anos 90. Se você faz mais abdominais do que faz flexões de braço, por exemplo, você provavelmente está fazendo isso errado. Abdominais cansam, roubam sua energia e pouquíssimo fazem para melhorar sua corrida.

7. Você faz “core”… e usa Swiss Ball, Bosu ou qualquer outro equipamento que te faz parecer um… deixa pra lá!

Não tem como isso dar certo...

Não tem como isso dar certo…

Você consegue imaginar UM corredor bom (mas bão-bão, não o mais rápido na esteira da sua academia) chegando para treinar carregando uma Swiss Ball (aquela bolona gigante) ou uma pranchinha de (des)equilíbrio? Pois é… Eles servem para gerar… desequilíbrio. Não te deixam forte nem te fazem correr melhor. Foque no que importa. Mais tempo na FitBall é menos tempo correndo

8. Você quer correr como Mo Farah com um corpo de velocista

frangoUma verdade que dói aos homens: quanto mais você correr, mais frango você ficará. Quando maior o bíceps, menos você correrá. Existem alguns vídeos patrocinados com caras fortões tipo cross-fit ensinando como correr melhor… esses caras fazendo exercícios estranhos não aguentam duas voltas no quarteirão em um ritmo forte de 10km. Corrida é sobre deslocar massa, com ombros de estivador você não vai longe. Não vai ser pulando no mesmo lugar que você ensinará seu corpo a se deslocar por 15km. Não será correndo mais que você vai crescer. Tenha isso em mente porque é mais honesto!

 

Menos é mais.

Menos é mais.

9. Você usa canelitos, tiras subpatelares, meias de compressão, kinesio tape, viseiras no escuro, manguito no calor…

Corrida de longa distância é entre outras coisas ensinar e ajudar o corpo a dissipar calor. Se você corre fantasiado com muita roupa, você roda menos, se você roda menos, você corre pior. Deixe o estilo para os dias de muito frio (menos de 12⁰C). E a tira subpatelar você deixa na gaveta mesmo.

10. Você está correndo ou aquecendo? Não consigo ver diferença…

Aquecimento é aquecimento. Ele deve ser leve e é essencial para um melhor desempenho, seja em treino ou prova. Ele não pode cansar nem comprometer seu desempenho (na prova ou treino). Tem vezes que olho para alguém que estaria treinando, mas parece que é tudo um eterno aquecimento. Você deve conseguir diferenciar bem as velocidades de aquecimento, de treino e a que você passeia no shopping. Lembre-se: muitas vezes haverá certo desconforto quando falamos de treino buscando melhora de desempenho. Se o conforto é do mesmo nível que o do aquecimento, o treino não começou. Aquecimento a mais é treino a menos. Desaquecimento a mais é treino a mais. Abrace a diferença.

11. Sério que você faz isso?!? Pra correr melhor!?!

…sério mesmo?!?

12. Sem migué.

Tiros de 1.000m são tiros de 1km, não de 950m. Pausa de 1 minuto são 60 segundos, não 1 minuto e meio. No treinamento de corrida de longa distância, respeito à pausa é FUNDAMENTAL. De certa forma, manipulando as pausas eu consigo fazer alguns treinos do Bekele. Mas ainda que mexendo livremente nas pausas NÃO consigo sequer chegar perto dos fisiculturistas finalistas do Mister Olympia ou do velocista Justin Gatlin. Reforço: as pausas na longa distância são cruciais.

Ou seja, se você termina seu tiro 50m antes, você está também dando migué porque mexeu na pausa. Engana a si mesmo.

13. É sempre você quem corre, não seu treinador.

Treinador ajuda. Mas se você tiver ele sempre ao lado comentando e falando em TODAS as repetições, isso mais atrapalha do que ajuda. Você precisa aprender a correr, a obter os sinais que seu corpo lhe dá, sem treinador palpitando ao lado. Ele não estará lá no último quilômetro da prova. Aprenda a lidar com a realidade. E isso nos leva ao próximo sintoma.

14. Você é obcecado por informação

Corra mais, pense menos. Alguns dias correrá bem, em outros correrá mal. No calor será mais lento, no frio mais rápido. Dados não significam informação. Se fosse, a pessoa com o melhor GPS ganharia. Aliás, dá para falar com grande segurança que quanto mais frequência você obtém dados, PIOR. Isso te cega, tira sua percepção e o foco do melhor gadget que existe: seu corpo.

15. Você acha que treino funcional é fundamental.

Se você não consegue fazer um agachamento completo, até o chão, igual à música Na Boquinha da Garrafa, só com a barra, sem anilhas, você não precisa de exercício funcional, você precisa é fazer agachamento mesmo! Agachamento com barra livre ainda é melhor exercício do que qualquer protocolo funcional jamais criado ou prescrito. É mais simples, mais rápido, mais barato e… funciona muito melhor.

Uma barra faz mais por você do que as Swiss Ball, o Bosu, as pranchas de instabilidade, as máquinas-para-fazer-perna-do-tamanho-de-uma-geladeira… todos esses juntos.

16. Você se desespera porque acha que correr melhor te fará uma pessoa melhor.

As pessoas que mais gostam de você não fazem ideia dos seus tempos pessoais. Eu não sei dizer os tempos dos meus melhores amigos corredores, dos meus ex-atletas. Quem se importa com suas marcas são talvez os que não gostam de você. Isso diz um pouco sobre a importância de melhorar as marcas. A vontade de correr muito melhor tem que vir sempre de dentro porque ela não vem de fora. Você até sabe quem correu abaixo dos 40 minutos nos 10km, mas daí para baixo é tudo igual. 31 é igual 34, 36 igual 39, 41 igual 49, e por aí vai. Isso vale para quase todas as provas, todos os níveis e todas as distâncias.

É uma sensação indescritível bater uma grande marca pessoal, mas ninguém vai ficar mais feliz do que você. Faça por você. E só por você. Senão se decepcionará.

O tipo da sua motivação te levará longe, muito longe.

17. Você tem todas as desculpas para não treinar.

Um grande amigo, estacionado há uns 10 anos nos 43min, esses dias não correu porque quando chove forte “caem mais aviões“. Não ria, eu sei que ele falava sério. É uma arte saber quando o corpo precisa ir mais devagar. Algo muito diferente é você não treinar por lesão ou dor. Diferente é se você não treina aos finais de semana, nos feriados, dias festivos, quando está calor, quando está frio, quando chove, quando garoa, quando está abaixo de 15⁰C, quando está cansado, quando acordou muito cedo, quando dormiu tarde, quando tem provas, quando fez hora extra, quando está tarde…

Empurrado ao limite, há basicamente 2 dias: os com treino e os sem treino. O dia de treino que você não treinou, não importa a razão (que não seja lesão!), conta como dia sem treino, ou seja, reduz o volume, reduz a consistência e reduz a essa hora você já sabe o quê.

As pesquisas e estudos da Síndrome continuam

Obviamente não dá para esgotar os sintomas e características dessa grave doença. Se for caso, vou atualizar este post. Quando estava para terminar, li uma passagem de um texto de Steve Magness que fala um pouco da nossa loucura e delírio coletivo em nossa relação contemporânea com as redes sociais. Cada um tem uma relação própria com elas e também com a corrida, não há certo nem errado neste assunto, mas existem padrões. Sobre os leões de treino que sempre informam seus treinos, Magness disse:

Há um truque simples para reconhecer a falsa raça, quanto mais você falar sobre o quão durão você é, maior é a probabilidade de você ser um falso raçudo. Por quê? É insegurança. No fundo, essas pessoas sabem que realmente não são raçudas. Elas têm de criar uma falsa impressão para convencer os outros de que têm dedicação, perseverança e todas as outras palavras da moda. Elas falam de seus feitos e treinos pesados. Elas são os que postam fotos no Instagram treinando na chuva ou no mau tempo, ou postam no Facebook sobre como treinaram duro no Natal, quando todo mundo descansava. Elas precisam desesperadamente do mundo os vendo como dedicados. Elas não acreditam que são, por isso elas precisam de reafirmação e reforço social.

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*este texto não é um plágio, é uma homenagem xupinhada por completo mesmo do talvez mais incrível artigo já escrito sobre treinamento de força, o Fuckarounditis.

 

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