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Valgo Dinâmico?!?

OU AINDA: POR QUE NÃO LEIO JORNAIS

Semana passada no meu Instagram (@danilobalu) – sempre lá! – perguntaram o que era melhor no tratamento do corredor com valgo dinâmico. Há um problema nisso aí… eu, Danilo Balu, trabalho com corrida e não faço IDEIA do que seja valgo dinâmico… Mais ainda: poderia em pesquisa de 30 segundos resolver a questão, mas seria perda de tempo. Saber se um corredor tem ou não valgo dinâmico é – arrisco dizer – completamente inútil, não muda NADA na minha abordagem com ele na corrida, então prefiro investir esse tempo pesquisando coisas melhores, como quem eram os zagueiros reservas da Copa de 98 (Gonçalves e André Cruz), por exemplo.

 

“NÃO LEIO JORNAIS, NÃO LEIO PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS…”

Tenho TV a cabo, mas não vejo telejornais. Tenho redes sociais, mas não sigo veículo de notícia. Tenho internet, mas não abro NENHUM periódico científico. ZERO. NEM UM. Por que faria??

O que é realmente e DE FATO importante, chega até você. Eu sei o que é síndrome da banda iliotibial, periostite/canelite, fascite plantar… Essas lesões eu NUNCA precisei pesquisar a priori, foi SEMPRE a posteriori, porque de uma forma ou outra “chegaram até mim”. Se o valgo dinâmico não chegou até hoje, se NENHUM dos grandes treinadores que acompanho NUNCA a mencionou, ela nada mais deve ser que um problema “inventado” por quem vive ($) de intervir no indivíduo.

Lembre-se: é intervindo (ainda que SEM necessidade) que o profissional de saúde ganha dinheiro.

 

VOCÊ ACREDITA NA CIÊNCIA?

SIM! Mas o pesquisador está para a ciência assim como a prostituta está para o amor (ou a esteira está para a corrida). Eu não leio artigos porque o pesquisador ganha dinheiro não para fazer pesquisa BOA, mas sim para publicar pesquisa, não importa nem mesmo quão lixo ela seja. Eu não leio ainda porque estudo bom “chega até você”. Foi assim com o estudo que comentei semana passada! Ele se sobressaiu sem eu ter que perder tempo lendo os outros 98% que vão virar forro de gaiola de periquito.

Depois de 20 anos como calouro na EEFE-USP voltei à faculdade tempo atrás e eles AINDA estão pesquisando treinamento de força de 12 semanas em mulheres na pré-menopausa. Por quê? Porque VIVEM de publicar a MESMA coisa, não importando sua qualidade!

Notícia é entretenimento. Por ISSO que eu não leio NADA de quem tem coluna fixa… porque ele não vive de escrever coisas boas, ele vive de escrever 3.000 toques a cada 7 dias, não importando sua qualidade!

Uma heurística é que se alguém que NÃO vive da corrida (como eu vivo) vem e mostra saber mais do que eu de algo que ele julga ser importante, que eu desconheço, é porque isso deve ser COMPLETAMENTE desimportante. É assim que eu sei que o número do drop de um tênis ou o valgo dinâmico são coisas MUITO desimportantes à sua corrida.

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Treino ou malabarismo?

Tempo atrás quando lia um artigo sobre como melhorar seu condicionamento, um dos mandamentos era: se você precisa escrever o treino (como se fosse uma cola para poder executá-lo), ele é complicado demais para que valha a pena ser feito.

A corrida ela é linda por inúmeros motivos, mas 2 deles especialmente me encantam:

1. Ela te devolve o tanto quanto você dedica a ela. Ela é talvez o esporte mais justo que existe;

2. Ela é simples demais. Você não precisa de NADA, nem mesmo tênis especiais para praticá-la.

 

Todo mundo que a complica em sua teoria parece apenas querer criar uma dificuldade para depois vender-lhe a facilidade. Então eu sempre tenho comigo que meu atleta ele tem que ser capaz de decorar o treino do dia sem fazer muita força! Eu me dou o direito de apenas eventualmente prescrever uma sessão que seja um pouco mais difícil de decorar. E ainda assim TODOS os atletas do grupo fazem o MESMO treino (cada um em seu ritmo individual).

 

E veja bem, eu vou à pista carregando absolutamente NADA! Treinadores de velocistas e saltadores precisam de cones, paraquedas, blocos de saída, trenas… eu não! Nem cronômetro de punho eu levo!

Mas quando seu chefe, seu patrão, aquele que lhe paga o salário é o próprio atleta, temos aí um problema. Para ganhar mais ($) você precisa não fazer o melhor a ele, você precisa fazer parecer que aquilo ali é o melhor a ele.

Como você teoricamente instrui um leigo nesse assunto, você precisa de certa forma ou ludibriá-lo ou encantá-lo. A eficiência fica em segundo plano. Nasceu assim ao longo dos tempos uma tendência crescente nesse campo: o de tornar tudo complexo. Por quê? Porque assim é um jeito de se esconder a incompetência técnica fazendo malabarismos. E você encanta e pode cobrar mais caro.

Houve uma época que aos sábados na USP (local com maior número de corredores e assessorias nesse dia em SP) você encontrava pranchas, bosu, “gaiola” de abdominal, extensores, fit ball

Muitos dos equipamentos eram para apenas enganar (no sentido de esconder um desconhecimento técnico), entreter e encantar o corredor. Nunca serviram para muita coisa! Servia sim porque da noite para o dia espalhou-se a ideia de que fazer exercícios em bases instáveis (sobre o bosu ou sobre uma fit ball) era uma descoberta das melhores!

 

Como disse um grande especialista em treino de força, convenhamos: agachar-se na bola suíça é completamente idiota. É um truque de circo.

Não que elas não sirvam para nada! Elas servem para quase nada, é diferente! Elas podem servir a um surfista que compete em uma base instável, mas não a um corredor! Ela pode servir àquele cliente sedentário de 45 anos que desde os 20 faz nada, mas não a alguém condicionado ou minimamente fortalecido!

Se um treinador tem que carregar pra lá e pra cá um monte de equipamento é porque ou isso faz bem ao marketing (concordo!), ou para entreter um cliente que não gosta de correr ou porque ainda não entendeu direito para o que aquilo tudo serve.

Sempre (sempre!) que você quiser saber se algum equipamento é MESMO necessário para melhorar sua corrida, basta se perguntar: como as pessoas faziam antes SEM ele? Pois é…

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A Supinação como doença…

Após tocarmos o solo o pé faz um pequeno rolamento medial (girando “para dentro”). Porém, algumas pessoas acabam não fazendo esse rolamento, gerando maior solicitação da região lateral (“de fora”) do pé. E esse movimento é chamado de “supinação”. Sabe como se chama em inglês? Underpronation.

Pronação é algo completamente normal, em maior ou menor grau, TODOS pronamos nosso pé. Em inglês a palavra mais apropriada para pronação é pronation. Quem “prona” é pronador, já em inglês é OVERpronator.

Em português pode ter ficado um pouco confuso, como se pronar (muito ou pouco) fosse algo a ser erradicado do padrão motor.

Mas nem sempre a pronação (e o controle de movimento) teve papel central na escolha de calçados. Na década de 70, entretanto, a indústria de tênis resolveu criar uma espécie de doença – a pronação – para a qual ela mesma inventou um remédio. Nada mais apropriado a quem vende do que criar doentes e vender-lhes não uma cura, mas uma remissão, um tratamento contínuo e a longo prazo.

Por anos o marketing das fabricantes separou propositadamente os corredores basicamente em 3 tipos (com subcategorias): pronadores, supinadores e neutros. Ela criou remédios específicos e doutrinou a todos, até os profissionais da área de Educação Física, Fisioterapia e Medicina, que nunca questionaram a fundo a questão.

Quando apenas o discurso sem estudos e comprovações não era suficiente, partiram patrocinando institutos, associações, conselhos de categoria, revistas e formadores de opinião que reproduziam, e reproduzem até hoje o mesmo discurso em troca de material ou de pagamento.

Isso bastou para criar uma leva de corredores receosos de que correr com um tênis fora de sua categoria de pisada fosse machucá-los seriamente. Os corredores, aliás, estão na última linha de quem se deve culpar pelo costume de, ainda hoje, depositarem no tipo do tênis, sua estabilidade, o amortecimento e o controle de movimento a responsabilidade para protegê-los de lesões. O fascínio por tênis não é atual, mas quando foi atribuído um poder de nos proteger, essa fixação só se acentuou.

*Trecho de O Treinador Clandestino

Fotos: Revista Beat

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“A floresta é minha academia”

Essa foi a resposta que recebi quando perguntei a um atleta etíope quantas vezes ele ia à academia e descobri que ele a frequentava UMA vez ao mês (!!)…

Repare no Franck Caldeira (à esquerda)… pé em supinação, a tocar o solo com o médio-pé buscando o centro do corpo… corpo relaxado, quadril levemente cedendo (pode ser apenas impressão da foto). Agora veja o Vini… já “no solo”… agora lhe pergunto:

Me diga UM exercício na academia que replica isso. Um só… Unzinho!

NON ECZISTE” (Padre Quevedo)

Aqueles que são para mim os 2 melhores exercícios a um corredor em uma academia… AGACHAMENTO… feito em 2 pés, 2 apoios… PORÉM, a definição de corrida é que ela tem que ser unipodal. O outro exercício, TERRA, idem!

Leg Press, Mesa (ou Cadeira) Flexora, Mesa Extensora, Stiff… o que esses exercícios têm que os aproximem da corrida? NADA!

O Avanço (ou Afundo, não sei como você o chama) tem a vantagem de ser feito em base alternada (um pé à frente), mas oferece menor ganho de força geral, ainda que seja mais específico… mas NENHUM deles (nem mesmo os 2 que eu mais gosto e mais uso) trabalha algo que na corrida é essencial.

Alguns posts atrás eu disse que a corrida é uma sucessão de saltos à frente. Sempre que tocamos o solo a tendência é a de nosso quadril ir “pra baixo”, em direção ao solo com nosso corpo oferecendo resistência contrária em um tempo mínimo, tentando desacelerar essa descida do quadril.

É essa desaceleração do quadril, dificílima de ser replicada na academia ou mesmo com pesos livres, que torna uma academia TÃO distante e ineficaz na corrida. O Agachamento (livre!) ou o Terra nos ajudam a ganhar força, mas essa desaceleração de quadril da corrida? Sinto muito…

Leg Press, Mesa Flexora, Extensora…? Pra mim? Não perco nem o meu tempo nem o dos meus atletas! O que mais tento é transferir a força do Agachamento, do Terra e Afundo ao gesto da corrida.

Foto: @NakanoFotografias (Marcelo Nakano)
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Um pouco mais sobre Centro de Gravidade…

Ou ainda: PORQUE PRAGA A GENTE TEM QUE MATAR AINDA NO NINHO!

Esqueçam a tolice que te disseram sobre o pé ter que tocar o solo abaixo do quadril, onde fica nosso CG! Repare os 3 que lideram essa largada… Todos tocam o pé à frente do CG.

“Ensinando pássaros a voar”

Essa sanha por teoria faz a gente querer ensinar o homem a fazer seu gesto motor MAIS elementar depois da caminhada, a corrida. Você NÃO ensina a correr, você PERMITE alguém a correr.

Você NÃO fala como é correto, você aprende o correto olhando os mais eficientes. É um jeito de não negarmos a realidade! Quanto mais veloz, mais provável que o pé do atleta toque o solo à frente do CG (*eu NÃO disse que quanto mais veloz mais à frente, eu disse mais veloz mais certo que será à frente, são coisas distintas!).

Os melhores NÃO são os que tocam “mais abaixo” do CG, os melhores são aqueles que a cada vez que tocam o solo à frente, menos velocidade perdem! Um toque com médio pé (Frank e o 43) ou ponta do pé (47) à frente do CG desacelera menos que com o calcanhar, além de mais fácil (tente você em pé tocar à frente com o calcanhar e sinta, você terá que ceder o quadril e perder amplitude de passada).

Corrida é uma sucessão de saltos à frente, é movimento, é desequilíbrio. Pois se estamos acima do nosso CG não há muito desequilíbrio. Quanto mais LENTO corremos, em menor desequilíbrio estaremos. Sendo assim, se eu for trotar bem leve com o Frank Caldeira, o Molina e o Vini, estaremos os 4 pisando abaixo do nosso quadril, mas os 4 ao acelerarmos para – sei lá – 3’40”/km tocaremos à frente dele.

E se eu insistir em tocar abaixo dele quando estiver rápido? Perco momento elástico e apenas “empurro” minha corrida. É, pois, uma questão de velocidade, não de gesto certo.

📷 @NakanoFotografias (Marcelo Nakano)

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