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Eliud Kipchoge. Mas… Já o melhor a história?

A história é a caixa forte da memória.”

Na aposentadoria de Usain Bolt escrevi que ele momentos antes da sua despedida, na final dos 100m no Mundial em Londres/2017, no qual ele foi bronze, ele já era o maior da história. Sob QUALQUER aspecto ele era já maior que seus maiores rivais anteriores: OwensLewis ou Hayes (*esta é a minha ordem de melhores da história).

O queniano Kipchoge domingo último correu uma Maratona em uma velocidade jamais feita. Alguns fatos chamam ainda mais atenção pelo seu feito. Por exemplo, foi a maior margem de quebra de um recorde mundial em mais de 50 anos (Derek Clayton/1967). Outro dado assustador: suas parciais de 10km foram cada vez mais rápidas. Não é apenas um split negativo (norma desde Ronaldo da Costa/1998). Da largada a chegada, de 10km em 10km ele foi acelerando! Os 10km mais velozes foram do 32km aos 42km! Fantástico!

O MAIOR DA HISTÓRIA?

Não, não é. Kipchoge é fantástico! É bonito e um enorme privilégio poder vê-lo competir. Mas apressadamente passá-lo à frente de outros nomes igualmente fantásticos é quase um desrespeito com ícones desse esporte. O tempo ensina… Ele nos ensina, por exemplo que outros atletas já foram até mais dominantes que Eliud.

O americano Clarence DEMAR, por exemplo, venceu a Maratona de Boston, quase uma espécie de mundial da época, 7 vezes em um intervalo de 19 anos. Tremenda longevidade. Medalhista olímpico (bronze/1924), talvez lhe falte um recorde mundial. O britânico Jim PETERS, outro de enorme domínio em sua época, bateu o WR por 3 vezes em 3 anos!

Em sua busca pelo seu ouro olímpico PETERS em 1952 foi esmagado por outro fora de série. Emil ZATOPEK estreou na distância com ouro e recorde olímpico. Zatopek em suas duas provas não obteve um WR. O australiano Derek Clayton bateu por duas vezes o WR. Ninguém foi mais rápido que ele por 14 anos. É o maior domínio até hoje. Mas antes dele houve aquele que pode não ser o maior da história, mas que também sob qualquer parâmetro analisado não pode nunca ser considerado PIOR que qualquer outro maratonista que já existiu.

Abebe BIKILA, bicampeão olímpico, dois WRs, não pode NUNCA ser colocado atrás em uma lista de os maiores da história. Não pode. Não pode. Ele bateu o WR correndo descalço no verão de Roma correndo em paralelepípedos! E depois o melhorou!

E assim chego ao meu último ponto. O que vimos domingo não podemos SEQUER afirmar que foi o maior desempenho já visto nos 42km! Zatopek em Helsinque/52, Bikila em Roma/60, Salazar em Boston/82, Ronaldo da Costa/1998, Wanjiru em Pequim/2008 ou Meb em Boston/2014… não foram menos espetaculares!

Quando olhamos apenas o cronômetro (um juiz que não envelhece), temos que o WR de Zatopek nos 10.000m é mais LENTO que a média de Kipchoge. Mas a dominância do queniano é de cerca de 1% enquanto ninguém dominou mais a corrida que o tcheco. Não deve existir na história do fundo atleta mais dominante que o tcheco. Até o tempo em Berlim, descontado o quanto ele foi beneficiado no evento #Breaking2 pela barreira de vento, parece mostrar que ele correu o MESMO tempo. Ou seja, no fundo não teria havido uma melhora domingo agora (*e aqui entra que feitos os cálculos, o Vaporfly não daria aquilo que as pessoas acham que dá, mas não quero me estender).

Estou nas páginas finais da leitura de meu 4º livro sobre a trajetória de Lance Armstrong*. Sabe… “A história é a caixa forte da memória”, como disse o poeta. Espanta um pouco que caiamos tão facilmente na pressa de eleger o melhor de todos os tempos. Assim como na Maratona, temos que ir com calma…. O jogo só acaba quando termina. Talvez depois de Tóquio/2020. Até lá Bikila está no topo do pódio. Pode até dividir com Kipchoge, mas não menos que o topo.

p.s.: Nem DE LONGE sugiro que haja desconfiança no que vimos domingo… eu só nunca compro de cara o que tentam me vender…

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A Economia Comportamental vai à Corrida

*A Flora Pfeifer é uma corredora de meio fundo fazendo seu último ano em Economia na FEA-USP. Não fomos contemporâneos de FEA (por alguns “poucos” anos!), mas dividimos muitos interesses, além da corrida. Talvez o maior deles seja a Economia Comportamental. Quando me chegou um texto dela, não pensei duas vezes e escrevi me apresentando para que pudéssemos alongar a conversa! Espero que vocês gostem do resultado, que vai transcrito abaixo!

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Oi Flora! Tudo bem? Li e reli com muita atenção seu texto “O segredo da corrida ou como sair do-sofá depois de um dia intenso de trabalho no blog do Grupo de Estudos sobre Economia Comportamental da FEA-USP. Muitos do que conhecem meu trabalho já sabem: sou apaixonado por Economia Comportamental!

E corrida é um esporte simples, mas não é nada fácil… ela exige uma dedicação constante e paciente enquanto oferece um desconforto físico durante a prática. Então vivemos em um dilema! Com tantas alternativas que oferecem um prazer enorme e imediato (um frappuccino no Starbucks, por exemplo), como fazer ser rotina uma ida até a pista para dar tiros de 400m que nos deixam com a sensação de “tirem me daqui!”?? Difícil, não!?

Eu não sabia, mas você corre há 4 anos aquela que para mim é a prova mais tática de todo o atletismo (1.500m). Você falou algo MUITO legal! “As provas de meio fundo são exclusivamente caracterizadas pela constante presença de escolhas. No começo, nosso corpo transborda adrenalina e nosso ímpeto é ir o mais rápido possível, garantindo a liderança. À medida que entramos na segunda volta, nossa boca seca, nossos músculos cansam e tendemos a desacelerar — por vezes, falta vontade para passar a(o) adversária(o). São mini escolhas tomadas a cada metro da prova — e eu diria que a chave está, justamente, em tomar as melhores decisões possíveis, dado sua restrição física, ao longo do 1.500m.”

A maioria dos que vêm ao Recorrido fazem provas mais longas que os 1.500m… correm 5km, 10km, 42km… Mas é um fato, ainda que em menor intensidade, correr uma prova é uma sucessão de “mini-escolhas”. Você está cansado(a), o corpo pede para reduzir, mas temos que tomar uma decisão racional de seguir correndo em um ritmo X para conquistar uma determinada marca. Você no seu texto de cara cita Kahneman (*nota: Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, é autor da “Bíblia da Economia Comportamental”, o clássico Rápido e Devagar). Então minha primeira pergunta, Flora, é:

O que você acha que a tomada de decisão (racionais e irracionais) tem a ver com uma prova, uma situação extenuante? Afinal, corrida não é só sair correndo? Sem pensar??

FLORA: Fico muito contente de ver que compartilhamos estes interesses, Balu. Sabe, cada vez mais que estudo economia comportamental e o processo de escolha vejo como a corrida é um ótimo experimento individual para muitas das questões trabalhadas nessa área.
Acho que eu só tive maturidade para entender melhor minha prova nesta temporada. Antes disso acho que só saia correndo mesmo, sem pensar — dava uma de coelho nas primeiras voltas e tentava não quebrar no final. Não ia mal, mas também não chegava no meu limite. Correr por si só é uma coisa. Correr uma prova é outra. São situações muito diferentes quando você se preocupa com tempo, metas e adversários. Não é algo confortável. A sensação quando você termina é indescritível, mas é uma grande batalha individual ao longo de todo o percurso.
O 1.500m é uma prova mais curta e, por isso mesmo, não abre espaço para devaneios, pois tem que ser feita inteiramente em intensidade. Por isso comecei a pensar nessa questão da tomada de decisão e, bom, meio que experimentar minhas teorias ao longo dos treinos. Se tomar decisões requer energia e esforço, isso atrapalharia nosso desempenho físico ao longo da prova. Além disso, tomar a decisão durante a prova não é algo indicado — por estar em uma situação extenuante, sua noção intertemporal será afetada, entre o que é melhor momentaneamente (parar de correr, correr em um ritmo confortável) com seu objetivo racional de longo prazo (bater seu tempo). Sabemos, contudo, que operamos de duas formas diferentes: nosso cérebro consegue tomar decisões racionais e bem pensadas, o Sistema 2 (nota: ideia de 2 sistemas defendida por Kahneman, em oposição ao sistema 1), mas muitas vezes operamos de maneira automática (Sistema 1), o que requer menos energia. Bom, sendo assim, eu deixaria a decisão racional, de estratégia, para ser planejada antes (durante o período de treinamento, por exemplo). Nisso entra aquela questão de encontrar seu ritmo, saber quando se controlar e quando acelerar. O necessário, então, é tornar o processo “automatizado” – através da repetição dos treinos — para que, durante a prova, onde você só contará com seu sistema “rápido”, saiba o que fazer. Os treinos, então, devem ser feitos levando em conta seu corpo e sua mente! Sabe quando você tem vontade de desistir no tiro final? Ou acabar a rodagem alguns quilômetros antes? Quando você se força a ir até o final, está treinando seu cérebro para automatizar essa decisão na prova. Quando esse gatilho aparecer você tem que inserir a ação desejada, até que vire automatizada. (Que fique claro: isso é um processo difícil, o de automatizar suas decisões para alcançar o ritmo desejado! Exige muita repetição e consciência corporal. Mas entender isso talvez torne um pouco mais fácil.)
Sabe uma coisa curiosa? Outro dia estava treinando com um amigo. Sabia o tempo que queria fazer, e pedi para ele me puxar em metade dos tiros – íamos intercalando. Quando ele me puxava, o esforço que eu fazia parecia tremendamente menor do que quando eu ia na frente. Sei que tem a questão do vento, aerodinâmica e etc. Mas acho que é algo além disso. Eu não estava fazendo esforço nenhum para controlar o ritmo – só seguia ele. Minha energia estava inteiramente focada em correr, não em pensar. Não tinha que tomar decisões. Eu só corria. E o esforço pareceu muito menor. (Talvez isso explique parte da eficiência de se treinar em grupo…). Você também sente isso?!

BALU: Muito bom! Sim, sinto tudo isso! Com certeza! O treinamento de corrida é uma questão de treinar parâmetros fisiológicos (VO2máx, limiares, resistência de força, de velocidade…), mas também uma questão psicológica, comportamental, neurológica… a ideia do treinamento, entre tantas outras coisas, é fazer algo que seja difícil até ela ficar fácil ou ao menos realizável. Ou como gostam de dizer muitos treinadores: a última repetição é a boa, é a que importa, é a que vale. Recentemente retomou-se um debate que acho meio raso, de que a cabeça é quem manda no desempenho, acho tolo porque bastaria então trazer um monge e ele bateria o recorde da maratona. Fazer o básico (correr e correr) não é sexy, então as pessoas vivem querendo trazer o diferente, algo mirabolante.

A questão mental da corrida é muito importante, lógico! Você, sem ter CREF nem ser treinadora, captou e acabou por explicar algo que somente muito recentemente nos demos conta na corrida: você ficar atrás, no vácuo de um corredor, traz ENORME vantagem competitiva e nem é por uma questão aerodinâmica, não! Mas porque você não precisa pensar, algo que consome MUITA energia. Incrível, né!?

Aí eu vou te fazer um desafio! Quando olhamos as estatísticas, temos que uma significante parte dos corredores brasileiros treinam no final da tarde, começo da noite. Sabemos agora que não só correr cansa, mas pensar também. Para piorar temos a chegada do frio mais ao Sul e Sudeste do país… como vencer todo aquele cansaço que inventa desculpas para não irmos treinar? Como fazer o sistema 2 “vencer” o 1? Você explicou muito bem em seu texto original, então baseada nos conceitos da Economia Comportamental, quais dicas práticas você daria?

FLORA: Concordo plenamente com seu ponto, Balu! Querendo ou não, o jeito bruto de melhorar a corrida é correndo. Não tem milagre. Tem “polimentos”, questões secundárias, mas não dá para tirar a parte principal. Toda essa questão de treino mental e estratégia só faz sentido se feito durante os treinos de corrida. É justamente em criar um hábito de resistência mental perante o esforço físico – de nada adianta “visualizar” sem efetivamente seu corpo estar preparado pra isso.
Você entrou em um assunto que diz respeito a um fenômeno muito estudado em economia comportamental: o autocontrole. Uma das coisas que os cientistas descobriram é que esse recurso nosso funciona como um músculo: ele fadiga e requer energia. Quando estamos muito desgastados das diversas atividades do dia (trabalho puxado, estudos intensos) é muuuito mais difícil criar forças pra vencer a preguiça e ir correr (e o frio só piora a situação!). E treinar no final do dia acaba pegando essas sequelas. O jeito de tentar “vencer” isso é tornar nosso exercício automático em nossa rotina.
Lembro que, quando estava na escola, eu corria na praia todo final de tarde. Ano de vestibular, chegava em casa esgotada. Quando eu deixava minhas coisas logo me trocava direto e calçava o tênis, eu não desistia de ir (por mais que ainda fosse fazer alguma outra coisa em casa). Agora, se eu deitasse pra ver TV e descansasse uns minutinhos, era quase impossível criar forças pra sair de casa (principalmente no inverno, onde não contamos com aquele lindo dia pra nos motivar). O que ocorre é que começamos a criar desculpas mentais pra justificar nossa “falha” – e uma vez que justificamos um dia, o processo pra desistir de novo passa a ter um atalho mental.
Assim, baseado nessas teorias, vou tentar dar algumas dicas práticas que talvez ajudem, então:
1) Ter um objetivo forte com metas TANGÍVEIS que sirvam como motivação (ex: perder tantos quilos em tal prazo; melhorar seu tempo em x semanas; aumentar o desempenho para uma determinada prova). Atenção: quanto mais preciso for, melhor, pra não esbarrar na questão de incerteza e intertemporalidade;
2) Ter um grupo que te motive. Treinar em grupo exige menos autocontrole porque você torna o processo uma “norma social”. Se não for, tem que justificar sua ausência aos seus pares, e as pessoas estariam contando com a sua presença; (e se você faltar, lembre-se que estará influenciando os outros a faltar também!)
3) Criar “gatilhos” do hábito. Por exemplo, colocar a roupa de corrida logo que chegar em casa; treinar exatamente em tal horário (gatilho: olhar o relógio); comer um alimento de pré treino (que você só come pra treinar);
4) Criar um sistema individual de punições e recompensas. E se a recompensa da sensação de treino cumprido não for suficiente, ativando as áreas de prazer (ex: jantar tal coisa, postar uma foto do treino, ver uma série sem culpa no Netflix, etc.); 
5) Não faltar por preguiça! Se você treina todo dia ou em X dias da semana, faça desses seus dias sagrados! Se você faltou uma vez, isso acaba facilitando o processo de desistir, pois nós ancoramos nossas decisões presentes em decisões passadas.

BALU: Flora, tudo, absolutamente TUDO o que você falou no seu texto e agora nessa conversa me faz sentido! Nunca falei isso, mas eu mesmo tenho algumas regras mentais para treinar… quando morava na Irlanda fiquei viciado em digestive biscuits… chegou um momento que eu só me permitia comer 3 delas após meu treino do dia. Era a cenoura a um coelho, uma estratégia quase do tipo ganha-ganha. Sem treino (por qualquer que fosse o motivo), sem biscoito! Atualmente só como tapioca em um limite semanal e desde que seja em um dia de treino. Eu encaro meu treino diário como se fosse escovar dente… após o almoço vou e escovo… corrida é igual, eu saio correndo, sem me perguntar se devo ou não. Queria então era agradecer! A ideia era você, uma corredora, mas também uma acadêmica da área, pudesse fazer a nós essa junção entre a teoria e a prática. Mas para acabar queria antes apenas mais uma espécie de último desafio! O pesquisador Dan Ariely (Nota: Ariely é renomado autor de livros já traduzidos ao português, sobre irracionalidade e desonestidade. Pode comprar qualquer um, não tem como não gostar!) sugere que uma sessão de treino seria melhor se o último estímulo não fosse talvez o mais difícil porque essa sensação de enorme desconforto ficaria retido na memória criando uma certa aversão aos treinos já que sempre associaríamos um treino àquele sofrimento horroroso, então ele fala que terminar leve muda positivamente nossa percepção. Pois muitos dos que leem aqui são de alguma forma treinadores (de si ou de alguém). Então como a Economia Comportamental poderia ajudar um treinador a aumentar a fidelidade ou compromisso de um amador aos treinos? Alguma sugestão nessa linha? Prometo que é a última! (risos)

FLORA: Balu, o Dan Ariely trata muito bem sobre como agregamos informações ao longo do tempo. Quando jovem, ele sofreu um grave acidente que queimou 70% de seu corpo e, como consequência, passou meses internado no hospital, onde passava várias vezes pelo doloroso processo de remover as ataduras. As enfermeiras removiam-nas rapidamente, mas ele achava que removê-las aos poucos diminuiria sua percepção da dor — e isso motivou-o a estudar o assunto.
Ele baseou-se em Kahneman, de que a intensidade final da experiência impacta a avaliação retrospectiva, em Lowenstein e Prelec, de que é, de fato, a tendência final que determina essa avaliação. e em Hsee de que mudanças de intensidade é que são incorporadas mais fortemente em nossa memória.
Ele chegou a conclusão, enfim, de que a dor dispersada ao longo do tempo em menores intensidades diminui a percepção intrínseca – mas causa um impacto maior na enfermeira que causa a dor (por isso elas faziam de uma vez só, assim, reduziam seu próprio sofrimento, e a percepção de que o processo, em geral, se sairia menos doloroso para ambas as partes.)
Aplicando aos treinos de atletismo, eu acho que parte desse efeito é incorporado da sensação de endorfina (runners’ high) e satisfação ao final do treino superarem a dor que é o treino em si. É pelos resultados (e pela sensação positiva que eles trazem em nosso cérebro) que continuamos a praticar esse esporte. Correr pra um tempo não é divertido. Mas a satisfação final é a que fica associada à experiência!
Não tenho conhecimento suficiente para afirmar se isso se aplica a “partes” do treinamento (ex.: começar com mais difícil e acabar com algo mais fácil, que doa menos…). Não sei nem os respaldos da parte física do processo e tampouco posso afirmar pela minha sensação individual. Se eu acabar encontrando algo sobre o assunto, te envio!

BALU: Ótimo, Flora! MUITO obrigado! Nem temos como agradecer!

*Para saber mais sobre Economia Comportamental, confira os posts do G.E.E.C. em
geecusp.wordpress.com

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Sobre Assessorias e correr rápido…

Ontem conversava com um amigo corredor sobre… corrida. E uma coisa com a qual ele concorda comigo e que foi assunto de conversa também com outro amigo (corredor!) é que o último lugar onde alguém deveria ir quando quer correr bem DE VERDADE é a uma assessoria esportiva.

Não me levem a mal! Estou longe de achar que não haja vários benefícios inegáveis em se treinar em uma assessoria esportiva. Até porque lá você encontra profissionais que estudaram (e estudam) para orientá-lo melhor na atividade física. Mas achar que é indo lá que você irá correr bem é como achar que será na academia padrão que você ficará forte de verdade. Não, não será. E a resposta do melhor lugar para buscar qualquer um desses 2 é mais difícil do que parece.

Uma coisa que você descobre rapidamente no mercado é que você tem que vender uma coisa e entregar outra. Do contrário você fica sem nada. Não foi uma, nem duas, nem 3 vezes que alguém chegou até mim querendo correr mais rápido e ao olhar o treino de assessoria que essa pessoa realizava, a minha conclusão muito direta era: você não vai correr rápido nem em 5 anos fazendo religiosamente isso!

Cliente machucado é um cliente que não paga. Treinamento é uma sucessão de estresse, agressão calculada ao corpo. O melhor jeito de garantir não-lesão em 100% das vezes é garantindo que você determine cargas bem baixas que não agridam o organismo, não o tire da homeostase. E é esse um jeito ainda garantido que a carga é tão baixa que correr bem é justamente o que a pessoa não fará.

De novo, que ninguém fique bravo. Eu acho que o ambiente de assessoria é saudável, muito saudável. Tem a questão social, a questão de gerar uma carga aeróbia saudável, a questão da motivação, do compromisso social e consigo mesmo. Acontece que saudável e adaptações buscando um mínimo de desempenho nem sempre se conversam, falam idiomas diferentes, distintos.

Correr é desconfortável, o treinador, que geralmente precisa ter mais clientes, está em um dilema: para gerar maior desempenho ele precisa aumentar o desconforto justamente de quem paga seu salário. É mais garantido cargas menores, mais seguras, que – novamente – geram benefícios sem incomodar. Mas correr BEM? Definitivamente não.

O irônico é que sempre aparecem clientes dizendo querer “correr bem”. O problema é que arrisco dizer que a maioria não sabe o preço disso, o preço de correr bem. Na ânsia de atender o cliente, o profissional promete entregar aquilo que ele não consegue. Ao menos não fazendo o necessário sem perder esse cliente. E aí fica o dilema do Vampeta no Flamengo. Certa vez o jogador teria dito que fingia que jogava enquanto o clube carioca fingia que pagava. Aí o circo está armado. O linguajar com um vocabulário cheio de palavras que todo amador gosta de ouvir (prova-alvo, performance, recuperação, personalizado, periodização…) e para fazer o básico para se correr bem, ele não preenche sequer até a página 2.

Logicamente que você acha grupos que buscam desempenho. Notadamente equipes menores, com treinadores mais românticos, tradicionais, menos comerciais. Ou mesmo equipes maiores, por exemplo, a HF lá de BH. No mais, para crescer você precisa abandonar um pouco o desempenho. Por isso que se você quer levantar 180kg no Terra, não será na famosa rede de academia que você irá encontrar o melhor treino para isso.

 

E onde você acha isso? Não me faça pergunta difícil. É sempre mais fácil falar o que é errado (achar que é em assessoria você vai virar elite B) do que o que é certo, que muitas vezes não sabemos. Mas é inegável, há um enorme conflito entre correr bem quando quem busca um grupo muitas vezes no fundo no fundo quer outra coisa, seu aspecto social. E como sempre digo: não há NADA de errado em não correr rápido.

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Números de uma grande Maratona brasileira

Recebi ontem um e-mail marketing da Iguana Sports falando de sua Maratona, a SP City. Há ali números interessantes! Primeiros, falemos de hidratação, compromisso (ou obrigação) de quem coloca milhares de pessoas para correr ao mesmo tempo. Entre água (cerca de 45.000L), isotônico (~15.000L) e refrigerante (300L), haverá no evento de julho cerca de 60.000L de líquido para hidratação. Dividido por 11.000 pessoas, número de participantes que largaram em 2017, temos 5,5L para cada corredor.

Isso dá pouco menos de 600ml para CADA 3 QUILÔMETROS por pessoa. Obviamente que há ajustes, como as perdas inerentes de um posto estar no início da prova ser pouco requisitado, ou ainda os maratonistas que, por uma intensidade menor de esforço (por tempo), beberem menos água.

Se a média por corredor em função da distância (3km) não agrada, vejamos pelo tempo. Levando o tempo de conclusão como parâmetro, temos que cada corredor terá como hidratação:

475ml a cada 15 minutos OU 635ml para cada 20 minutos, bem acima de qualquer uma das já exageradas recomendações de hidratação.

Você pode ainda alegar que é uma informação não-crível, papo de vendedor, no caso, a Iguana Sports. Tenho que dar o voto de confiança a eles por 2 motivos: primeiro que só assim o meu texto seria possível e segundo e mais importante porque já trabalhei para eles e tive EU certa vez que fazer esses cálculos. E os números eram já tão grandiosos que era desnecessário inflá-los mais.

Mas o número que chama atenção e que deveria ser explicado por qualquer um que alega que as corridas custam muito menos do que os preços praticados, é o de envolvidos no trabalho. São cerca de 1.500 profissionais (entretenimento, fotografia, filmagem, segurança e limpeza NÃO constam na imagem), todos devidamente pagos (não temos o hábito de ter voluntários como nos EUA, por exemplo).

Para colocarmos em perspectiva, há mais gente trabalhando nesta prova do que correndo em qualquer outra maratona brasileira com exceção de Rio, SP (Yescom), Curitiba e Porto Alegre. Há mais profissionais envolvidos que atletas PARTICIPANDO em mais de 100 Meias Maratonas pelo Brasil.

Como pagar tanta gente? Como oferecer e transportar água (um produto pesado) ao longo de tantos quilômetros? Tem que ser muito ingênuo para achar que as fabricantes de água oferecem gratuitamente seu produto (isso não existe). Isso envolve trabalho, muito trabalho. Mas o corredor continua achando que organizar corrida é fácil, mais que isso, BARATO e deixa qualquer um rico. É como se algo que você vai comprar brotasse na prateleira.

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Corrida é SIMPLES. Complicar é para vender ou para se dar mal.

Um dos textos que mais gostei de escrever ano passado foi um que definia uma grave síndrome que aflige os corredores de assessoria (ou não) Brasil afora: a Treinandus Poucus Demasiadus Papus. Basicamente explico nele que para melhorar na corrida, basta correr mais. Por algum motivo me vi em meio a notificações de pessoas que chegavam a ele quase 1 ano e meio depois.

O texto não é muito diferente do que disse muito bem Alex Hutchinson ao final do ano passado. Em seus 7 pilares da sabedoria na corrida, Hutchinson repete com outras palavras o que eu disse. Entre elas: se vem em uma embalagem, é improvável que te faça correr melhor. O melhor equipamento (gadget) que existe está na sua cabeça. Quer correr melhor? Corra mais. Ignore a ideia de que existe treino mágico ou atalho.

Por coincidência estava para comentar um texto muito interessante que fala sobre predição do tempo de corredores em maratonas. O texto retoma indiretamente algo que gosto sempre de enfatizar aqui e é algo que todos sabemos ou deveríamos saber: a corrida é, dentre as modalidades olímpicas, talvez a mais simples. Correr pode não ser fácil, mas é SIM simples. Envolvê-la em uma aura de complexidade é bom apenas para quem a tem como produto. Você valoriza justamente aquilo que você vende.

Já ouvi e não foi pouco que você teria que buscar alguém diplomado para aprender a correr. Dias atrás na TV algo bisonho: um ex-atleta olímpico ficou uma ou duas semanas apenas correndo na esteira porque isso “serviria para evitar lesões”. É um nonsense! É uma bobagem que nem quem defende isso consegue explicar sem se atrapalhar! Se deixarmos essa categoria de profissional cuidar da corrida, em breve você terá que fazer cursos antes de correr seus primeiros 5km. Será mais ou menos assim com nossas crianças:

  1. No ensino básico os treinadores (com diploma e CREF) passarão textos e livros para que as crianças possam ler sobre corrida;
  2. No ensino médio irão fazer trabalhos sobre corrida;
  3. E só na faculdade, enfim, poderão correr.

 

Em uma ou duas gerações com essa mentalidade e nos convencerão que sem aprender com quem tem o combo CREF-diploma não seremos capazes de correr!

Voltando ao texto sobre predição de treino em maratona, ele é importante por 2 motivos. Um deles bem claro. De cara você descobre que as fórmulas mais usadas são EXTREMAMENTE agressivas, acabam “quebrando” muita gente que sai forte, tentando um tempo irreal. Para sermos mais exatos, apenas cerca de 5% consegue atingir o tempo previsto (coluna verde abaixo)! Segundo o novo cálculo (coluna vermelha), para determinar o seu tempo nos 42km você deveria ser bem mais conservador sob o risco de quebrar feio. Faz todo o sentido.

Mas o que não está claro a quem lê é como reforça a simplicidade do treinamento. O autor do artigo nos mostra que justamente os atletas mais rápidos conseguem tempos mais próximos do previsto. Até aí é pura curiosidade, mas depois vem outro gráfico: os corredores mais rápidos correm maior volume semanal.

Eu disse em meu texto original, eu preciso de apenas UM marcador (ou variável) para saber quem corre mais: quem correu mais quilômetros no treinamento. Não me importa tênis, suplemento, metodologia ou mesmo um dos pontos mais sobrevalorizados que existem, a periodização. Quero e preciso saber apenas quem correu mais quilômetros. Só isso.

O autor estabelece metas de volume em função da velocidade. E adianto: americanos e britânicos priorizam muito volume! E quando os dados são colocados em gráficos temos que os mais rápidos (abaixo de 3h00) correm bem mais em seus 5 maiores longos e, MAIS IMPORTANTE, mais quilômetros FORA dos treinos longos!

O autor não faz correlação com GPS, com tipo de pisada, com fisioterapia preventiva nem nutrição, ele mede quem gastou mais o lombo correndo no asfalto. Simples. Quer melhorar? Corra. Qual ritmo? Isso é o de menos, CORRA! E veja só que “engraçado”: quem mais corre, melhor corre. E quem mais corre ainda tem mais chance de chegar a um tempo previsto “agressivo”.

Quanto mais quilômetros nos 5 maiores longos, maior a velocidade…

Eu escrevi tudo isso a algumas horas de participar de mais uma reunião em um ambicioso projeto envolvendo muitos profissionais sobre estudo da corrida. Não posso falar a respeito, mas as reuniões, que tinham apenas eu e mais um como treinador envolvido, caía eventualmente na importância de aspectos que na teoria parecem ser importantes, mas na prática pouco comprovam sua importância.

Periodização, tipo de pisada, alongamento, ter treinador, ter planilha… teriam isso importância na redução de lesões? Hoje não existem evidências que deem suporte a nenhum deles! Incrível, não? Na verdade, é mais fácil encontrar bons levantamentos que digam justamente o contrário (menos com periodização, que só não se mostrou ainda sequer importante).

Esse é um dilema atual, presente no debate. A teoria diz uma coisa, mas se você quiser ir bem, tem que ignorar boa parte dela! Porque mais do que não ter sido posta à prova, ela parece não funcionar muitas vezes. Vou para fechar usar outro exemplo.

Dias atrás fui em um evento de corrida e encontrei um maratonista amador que é tudo menos rápido e é tudo menos lento. Ele treinou para uma maratona mais longos do que eu treinei para minha primeira (e única) ultramaratona. Se eu treinasse o que ele treinou eu não chegaria à minha prova. Algumas coisas ficam bonitas nos livros de fisiologia. Pena que não funcionam. Ele toma mais gel por mês do que eu em um ano. Quando na verdade o treinamento deveria preparar para aquilo que você NÃO tem. Por que oferecer carboidrato ao corpo nos 42km quando você precisa ensinar o corpo a queimar gordura? É mais ou menos como você pegar um brasileiro iletrado, levá-lo para viver em Paris e dar aulas de… português. NÃO! Deixe que ele melhore o português sozinho, isso não é problema seu, ele tem que ter aula é de francês! (*aqui Mark Cucuzella explica didaticamente sua abordagem dos motivos para treinar como queimar mais gordura como combustível correndo 42km em uma super dica da Paula Ferreira).

Quanto mais aulas de português, menos tempo para francês, quanto mais gel na cabeça, menos o corpo pode aprender a usar gordura. A corrida é simples, é “fácil”, mas por um misto de ignorância conveniente ou por não conseguir ler o básico você vê pessoas complicando, errando. É de dar nervoso!

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