Arquivo da categoria: Curiosidades

Coisas que (parecem) só acontecer na Etiópia…

CAUSO #1

Um grande amigo, corredor dos “bão”, 5km na casa de 17 minutos, sai pra correr pelas ruas de Adis Abebba (coisas que os prós NÃO fazem) e, de repente, num cruzamento um senhor estragado, vestido todo simprão, de sandálias, sem falar inglês, faz gestos de que vai correr com ele. Ele topa. Pergunto como foi. “Balu… Passei um calor com o velhinho”. Reforço: ele tem 17 minutos nos 5.000m. O meu amigo! O velhinho não sei!!

CAUSO #2

Um taxista pergunta se sou atleta. Eu corro. No máaaximo sou corredor. Só conheço pangarés que falam que são atletas. Eu respondo que não, que só corro, e ele pergunta se “sou lento como o Ed (da Run Africa)?” O Ed tem 17 minutos nos 5km, ~36 minutos (10km), 1h24 (21km) e 3h00 na Maratona. Sim, sou lento como ele, respondo.

CAUSO #3

Fui conversar de canto com uma treinadora bem jovem e seu inglês precário. Consegui arrancar que ela gosta de correr 3.000m com obstáculos. Mas descobri que ela já fez duas Meias Maratonas. Uma esse ano! Tempo? 1h13. Na altitude daqui (*hoje treinei a 3.000m, mais alto que o pico da Neblina, o “teto brasileiro”). Apenas 8 brasileiras correram mais rápido que ela na história. Nenhuma em 2018. E não é a especialidade dela.

CAUSO #4

No término do treino vemos uma atleta que parece ser a campeã da Maratona de Londres. Apontamos pedindo a uma local para a chamarem pra tirarmos foto. A etíope chama uma pessoa errada. Explicamos o engano, que queríamos ver se a outra era a que havia ganho a major. Ela nos explica que não, que essa que ela havia trazido ganhou foi é a Maratona de Dubai.

CAUSO #5

O Ed, o lento, pergunta: “Como é mesmo o nome daquela corrida?” Eu respondo que é São Silvestre. Aí ele me explica que bateu papo com um cara essa semana, que o havia adicionado no dia anterior no Facebook e ao entrar no perfil dele descobriu que ele ganhou “essa corrida aí no Brasil”.

CAUSO #6

Perguntamos ao nosso guia se ele corre ou se vai correr a The Great Run nesse domingo agora. Ele diz que nenhum dos dois. Mas diz que se fosse domingo que ganharia de nós. Eu sou mais eu. Mas se me desafiasse a apostar dinheiro eu não seria tonto.

CAUSO #7

Na volta do treino, param pra comprar água e banana, a dieta e suplemento dos verdadeiros campeões. Um cara se aproxima e pede carona em nossa van para o centro da cidade. Ed, o lento, faz um gesto explicando e esperando nossa aprovação. Em tom de brincadeira um brasileiro explica que aquilo ali era uma van de e para corredores. “Qual o seu tempo nos 10km?” 31 minutos. Pode entrar.

Ônibus de “primeira classe” chegando para a primeira sessão de treino do dia na periferia de Adis Abebba. Créditos da foto: Adriana Piza.

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Um protagonista ignorado

A parte legal de voltar a dar treinos presenciais é conseguir de forma mais clara passar algumas coisas que à distância é mais difícil convencer.
Na primeira vez que pedi que esses corredores amadores (universitários bem talentosos) desaquecessem e fizessem exercícios de mobilidade descalços houve olhares desconfiados, como se fosse esquisito.
O corredor amador geralmente se preocupa com o tênis, com qual suplemento deveria tomar, com periodização (pffff), com nutrição pré e pós treino (mas nunca nas demais 23 horas do dia).
O fato é que no pé estão ligamentos, tendões e músculos essenciais à corrida. Seja porque estabilizam, propulsionam e… amortecem. E aqui uma coisa importante: NÃO É AINDA POSSÍVEL terceirizarmos o amortecimento (e consequentemente a proteção de nosso corpo) aos tênis. NENHUM modelo consegue sequer chegar PERTO do que os pés conseguem.
Correr descalço é a forma de fortalecer músculos que ficam dormentes quando não corremos descalços. Você pode fazer um paralelo observando quem faz gestos finos com as mãos… esportistas ou não… violinistas, nadadores, pintores, jogadores de basquete… Imagina essas pessoas de luvas grossas? Por que correr com tênis grossos?
A história de alguns dos melhores povos corredores é repleta de relatos de treinos descalços ou com pouca proteção mostrando que tênis ou é um simples coadjuvante ou mesmo desnecessário.
O que esses da foto fazem é desaquecer por não mais do que 2km assim, descalços, na grama, leve. Fazer mais do que isso é exagerar em algo que por décadas nunca mais fizemos, deixar os pés totalmente livres. Pode não ser mesmo o ideal (assim como 30 minutos de academia por semana não é), mas é um mundo à frente do que se faz hoje em treinos com almofadas e tijolos nos pés.
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A Maratona de NY também está mais lenta na média…

No vácuo da Maratona de Chicago, que viu cerca de 1.300 pessoas correndo abaixo das 3h00 entre seus quase 45.000 concluintes, cheguei a uma análise que me passou em branco ano passado. Olhando aos dados da Maratona de Nova Iorque desde os anos 80, temos que – adivinhem! – os maratonistas amadores estão ficando cada vez mais lentos.

Esse é um dos temas que mais me atraem, vocês já sabem (já falei aqui e depois aqui no blog)! Os mais iludidos com o avanço da “ciência” vivem alegando que hoje o treinamento é mais científico, muito “melhor” ou mais eficiente que o do passado (digamos, 40 ou 50 anos atrás). Eu tenho ENORMES dúvidas sobre tamanho avanço. Porém, quando olhamos apenas o tempo médio, que no Brasil também vai ficando mais lento ano a ano, temos alguns desafios para isolar as variáveis.

Primeiro é que com mais gente correndo, os iniciantes “contaminam a média”. Um iniciante, o nome já diz, em uma modalidade que o tempo de prática e o volume de treino têm enorme impacto no desempenho, quase sempre começará mais lento que a média dos praticantes. Então com mais gente começando a correr, a tendência era mesmo a redução da velocidade média.

E tem mais. Quando olhamos a elite (profissional ou não) temos que ela hoje consegue se dividir (por premiação ou mera escolha) em centenas de provas pelos EUA (no Brasil havia 2 ou 3 maratonas 40 anos atrás, hoje há quase 25).

Esses 2 argumentos acima explicam BOA parte do debate (sim hoje a média é sabidamente mais lenta). Mas 2 pontos acho que não vêm merecendo a atenção devida. O primeiro é que a sociedade muda com o tempo. A corrida é uma prática exigente, ela exige muita dedicação. E nosso mundo de redes sociais e smartphones nos oferece MUITAS distrações e competidores (se qualquer vídeo de 3 minutos no whatsapp ou YouTube já são preteridos, imagine 1h30 sem checar o Instagram??).

E por fim, um tema mais espinhoso: o mundo está cada vez mais gordo. Baixo peso é condição sine qua non para corrermos bem ou melhor. Como esperar que melhoraríamos se estamos carregando mais gordura, um “peso morto” nesse esporte?

Com certeza alguns dirão que toda a tecnologia de calçado e de treinamento (só nunca dizem quais são elas ou mais precisamente esses tais avanços) dirão que os amadores estariam ainda mais lentos e ainda mais lesionados não fosse o tal progresso. Não consigo acreditar nisso… até porque fica sempre tudo na esperança, na torcida, nunca nas evidências.

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O que comer antes, durante e depois de provas de até 10km?

Essa semana uma amiga nutricionista que trabalha com emagrecimento e reeducação alimentar no interior de SP me escreveu. Basicamente, uma emissora local a chamou para falar sobre alimentação e corrida. Eles querem um profissional que fale sobre o que comer antes, durante e depois dos treinos e provas. Como ela foi indicada e não é “da área” ficou meio receosa de aceitar o convite. Entendi perfeitamente. Ela que – reforço – não é da área, resumiu em uma mensagem pra mim: corrida de rua (até 1h00) é só hidratação mesmo, né?

Sabe, tempo atrás, quando eu era bem mais ingênuo e acreditava que o intuito dessas reportagens era o de informar, tinha meio que a ambição de um dia ser consultado para esse tipo de coisa. Hoje eu faço diferente. É preciso eu escrever apenas uma vez a um veículo para que nunca mais seja consultado.

O motivo de você buscar “especialistas” é puramente encher linguiça, “gerar conteúdo” (expressão moderna). Informação passa longe. Tem outra heurística bem válida: não há ninguém no clube dos que eu mais admire que seja consultado regularmente. Por que eu ia querer, então?

O pessoal da TV queria dela quais alimentos são benéficos para a atividade física. É como se existisse um alimento para correr e outro para nadar e outro para dançar zumba. É como se acerola fosse bom para corredores, almeirão a quem toca saxofone e queijo branco ao pessoal do cross-fit. Faz sentido? Alimento benéfico para atividade física é aquele que é benéfico ao ser humano. O contrário é verdadeiro. Um alimento NÃO TEM COMO ser bom ao corredor e ser nocivo ao ser humano.

Existem alimentos que são NATURAIS à nossa espécie (e por isso mesmo são bons, apenas um acadêmico com vários títulos consegue acreditar que a gordura saturada da carne faça mal, porque uma pessoa normal que tenha mais o que fazer nunca pensaria isso). Por outro lado, existem alimentos NÃO-naturais à espécie, que não deveriam ser consumidos. Só muita propaganda para convencer impunemente populações inteiras a comer margarina e óleo de canola, por exemplo.

Uma vez que corredores – até onde sei – são da mesma espécie dos demais humanos, a dieta compartilha dos mesmos “alimentos benéficos”.

Mas você poderia argumentar que comer um bife antes de correr não é a melhor prática. Bom, vários pontos. Aqui é uma questão de prática. Você não deveria comer meio porco antes de correr. Ou nem antes de nadar. Bom, uma pessoa só comete esse erro uma vez na vida, não é preciso alguém com PhD falando a respeito. É puro bom senso. Mas aqui entra outra heurística pessoal. Quando um nutricionista tem toda uma abordagem do que comer antes, durante e após correr eu tenho duas suspeitas:

1. Ele(a) é gordo;
2. Ele(a) nunca correu.

Pode reparar! Essa regra não falha!

Vamos, então, entrar na parte técnica (que alguns estão esperando que eu entre). Nosso corpo foi feito para (treinado) poder correr sem nenhuma grande “prévia preparação” por cerca de 1h00 (um pouco mais ou um pouco menos em função do grau de treino). Vou de cara descartar a questão do comer durante. Em quase 30 anos de corrida eu só precisei comer durante UMA única vez na vida, e foi em uma prova de 90km. 21km os mais lentos podem precisar. Mas a prova da TV é de 10km.

Então agora o PÓS…

O que você come após a corrida é a dieta que você comeria no domingo, numa 3ª feira, em um dia de descanso, numa tarde de outono ou em uma manhã de fevereiro. Não há ABSOLUTAMENTE nada que justifique uma refeição “especial” pós-corrida que seja…

1. Diferente do que é sua dieta habitual. (*ou seja, se você terminar de correr antes do almoço, almoce normalmente. Se acabou a prova antes do jantar, jante o que sempre jantou);

2. Ou feita sem fome. Acabou de comer e está com fome? Coma! Está sem fome? Não coma! O quê você vai comer? Leia o #1. Ainda virão DÉCADAS até os “especialistas” entenderem que a janela fisiológica de oportunidade é um espectro que não existe em 99% dos casos.

Agora, por fim, o começo. O que comer ANTES?

Como eu disse, nosso corpo vai bem sem prévia ingestão em esforços não muito longos (1h00). Para se preocupar TANTO em comer algo, estamos falando de alguém que teria que fazer uma prova por cerca de 1h30 ou mais. Mas olha que interessante… A média do corredor amador corre 1h30 por semana. Mais. A média do corredor amador está ACIMA do peso. Sendo um menor peso talvez uma das melhores variáveis de MELHORA de desempenho, tudo o que eu MAIS quero é que esse indivíduo coma MENOS e não mais!

A população só vai emagrecer quando comer MENOS vezes. Mas os especialistas em nutrição (que não correm nada!) continuam a ignorar a realidade e pedir que se coma antes, durante e depois. Se você tem um amador que corre 10km em mais de 1h00 ele não tem que necessariamente comer pré ou pós evento… ele precisa ter uma dieta MELHOR, que possibilite perder peso que assim ele correrá mais rápido! TUDO o que alguém que corra nesse ritmo precisa NÃO virá da nutrição no DIA do evento! E sim FORA desse dia!

FIM.

*estou em uma fase muito “skin in the game” (pele em jogo), eu sei… se eu juntar os 10 ou 20 melhores amadores com quem já treinei e competi bastante na vida, uns 98 a 99% deles não tinham NENHUM “protocolo” de alimentação pré ou pós. E se você falasse em “comer durante” para eles, eles ririam na sua cara. 

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Eliud Kipchoge. Mas… Já o melhor a história?

A história é a caixa forte da memória.”

Na aposentadoria de Usain Bolt escrevi que ele momentos antes da sua despedida, na final dos 100m no Mundial em Londres/2017, no qual ele foi bronze, ele já era o maior da história. Sob QUALQUER aspecto ele era já maior que seus maiores rivais anteriores: OwensLewis ou Hayes (*esta é a minha ordem de melhores da história).

O queniano Kipchoge domingo último correu uma Maratona em uma velocidade jamais feita. Alguns fatos chamam ainda mais atenção pelo seu feito. Por exemplo, foi a maior margem de quebra de um recorde mundial em mais de 50 anos (Derek Clayton/1967). Outro dado assustador: suas parciais de 10km foram cada vez mais rápidas. Não é apenas um split negativo (norma desde Ronaldo da Costa/1998). Da largada a chegada, de 10km em 10km ele foi acelerando! Os 10km mais velozes foram do 32km aos 42km! Fantástico!

O MAIOR DA HISTÓRIA?

Não, não é. Kipchoge é fantástico! É bonito e um enorme privilégio poder vê-lo competir. Mas apressadamente passá-lo à frente de outros nomes igualmente fantásticos é quase um desrespeito com ícones desse esporte. O tempo ensina… Ele nos ensina, por exemplo que outros atletas já foram até mais dominantes que Eliud.

O americano Clarence DEMAR, por exemplo, venceu a Maratona de Boston, quase uma espécie de mundial da época, 7 vezes em um intervalo de 19 anos. Tremenda longevidade. Medalhista olímpico (bronze/1924), talvez lhe falte um recorde mundial. O britânico Jim PETERS, outro de enorme domínio em sua época, bateu o WR por 3 vezes em 3 anos!

Em sua busca pelo seu ouro olímpico PETERS em 1952 foi esmagado por outro fora de série. Emil ZATOPEK estreou na distância com ouro e recorde olímpico. Zatopek em suas duas provas não obteve um WR. O australiano Derek Clayton bateu por duas vezes o WR. Ninguém foi mais rápido que ele por 14 anos. É o maior domínio até hoje. Mas antes dele houve aquele que pode não ser o maior da história, mas que também sob qualquer parâmetro analisado não pode nunca ser considerado PIOR que qualquer outro maratonista que já existiu.

Abebe BIKILA, bicampeão olímpico, dois WRs, não pode NUNCA ser colocado atrás em uma lista de os maiores da história. Não pode. Não pode. Ele bateu o WR correndo descalço no verão de Roma correndo em paralelepípedos! E depois o melhorou!

E assim chego ao meu último ponto. O que vimos domingo não podemos SEQUER afirmar que foi o maior desempenho já visto nos 42km! Zatopek em Helsinque/52, Bikila em Roma/60, Salazar em Boston/82, Ronaldo da Costa/1998, Wanjiru em Pequim/2008 ou Meb em Boston/2014… não foram menos espetaculares!

Quando olhamos apenas o cronômetro (um juiz que não envelhece), temos que o WR de Zatopek nos 10.000m é mais LENTO que a média de Kipchoge. Mas a dominância do queniano é de cerca de 1% enquanto ninguém dominou mais a corrida que o tcheco. Não deve existir na história do fundo atleta mais dominante que o tcheco. Até o tempo em Berlim, descontado o quanto ele foi beneficiado no evento #Breaking2 pela barreira de vento, parece mostrar que ele correu o MESMO tempo. Ou seja, no fundo não teria havido uma melhora domingo agora (*e aqui entra que feitos os cálculos, o Vaporfly não daria aquilo que as pessoas acham que dá, mas não quero me estender).

Estou nas páginas finais da leitura de meu 4º livro sobre a trajetória de Lance Armstrong*. Sabe… “A história é a caixa forte da memória”, como disse o poeta. Espanta um pouco que caiamos tão facilmente na pressa de eleger o melhor de todos os tempos. Assim como na Maratona, temos que ir com calma…. O jogo só acaba quando termina. Talvez depois de Tóquio/2020. Até lá Bikila está no topo do pódio. Pode até dividir com Kipchoge, mas não menos que o topo.

p.s.: Nem DE LONGE sugiro que haja desconfiança no que vimos domingo… eu só nunca compro de cara o que tentam me vender…

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