Arquivo da categoria: Curiosidades

Dados e mais dados…

Gosto muito de números, acho que eles podem nos revelar muita coisa. O grande segredo de analisar números é saber quando você olha para uma informação que te sinais e quando saber que você olha apenas para algo que é ruído, ou seja, algo que não informa nada, apenas confunde. No esporte talvez o melhor exemplo de dados gerando informação seja a incrível história contada no livro Moneyball. Michael Lewis nos conta como um time de orçamento muito limitado, o Oakland A´s, usou números para montar um time de beisebol repleto de atletas com estatísticas alternativas para chegar com sucesso à fase mata-mata na liga americana.

Por sua natureza a corrida é cheia de dados: quilômetros rodados, Frequência Cardíaca, volume, altimetria, VO2máx, ritmo… Mas será que nós amadores olhamos para os números a serem olhados? Improvável.

Nunca antes os corredores puderam contar com tantos dados de maneira fácil. As redes sociais, os smartphones com seus aplicativos, os aparelhos de GPS e os frequencímetros vieram se juntar a cronômetros de 100 ou mais voltas (laps). E agora estão disponíveis também gadgets que calculam vetores nos tênis calculando pronação, tempo de contato do solo e muitos outros dados.

Corredor se encanta com tanto número. Os gráficos são apaixonantes. Mas serve para algo? Novamente é improvável. Há muito pouca coisa que dê informação ÚTIL, que oriente o treinamento que não seja o volume e o ritmo na corrida. Eu sempre falo que o “corredor moderno” devia ter um desapego muito maior com esses dados e também com os marcadores. O ser humano não consegue processar tanta coisa. Pior, com aquilo que lhe chega ele tenta simplificar, ele busca contar uma falsa história com os números que tem, tentando tirar conclusões de seu real condicionamento. Ele arrisca decifrar tantos números e, na absoluta maioria das vezes, ele erra ao fazer isso.

Ainda que eu acredite fortemente que o atleta deveria treinar muito poucas vezes com esses marcadores, é inegável que eles são um grande motivador de muitos amadores. Se você quer registrar tudo porque gosta, OK, mas saiba que de tudo que ele irá lhe informar, basicamente DOIS dados impactam com segurança seu desempenho. Um deles é o volume semanal, o outro é o ritmo. O resto é muita perfumaria, muito confunde, pouquíssimo ajuda.

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Batman, O Cavaleiro das Trevas e a Corrida

Já bem na parte final do ótimo “O Cavaleiro das Trevas” (2008), Batman em um dos melhores discursos do filme diz que a verdade às vezes não é boa o suficiente, que às vezes as pessoas merecem mais, que elas precisam ter sua fé recompensada. Em outra fala clássica do cinema, Jack Nicholson grita em um julgamento: você não pode com a verdade!

Várias vezes vejo assim mesmo na corrida… O corredor merece não a verdade… ele precisa é ter a fé dele recompensada.

Já disse aqui outras vezes, a corrida é o esporte mais simples que existe. Por sua fácil mensuração, que já dura séculos, muito já foi testado, parece haver muito pouco a ser inventado. Quase tudo o que você tentar fazer, inventar ou criar, alguém já tentou antes. Os resultados na corrida são sempre lentos, consequência de muita disciplina, volume, dedicação, paciência, constância. Não há atalhos. E eles já foram tentados tantas vezes e de tantas formas…

No último mês me peguei tendo quase nada a postar aqui no blog. Cada vez menos acho que haja textos de alta qualidade para recomendar. Por quê? Queira ou não acaba sempre apenas parecendo um pouco mais do mesmo, textos requentados. Fico sempre achando que os portais de corrida têm que se comportar como as antigas revistas de meninas adolescentes: chamadas bobas na capa e conteúdo que tem que se repetir na íntegra a cada – o quê? – 6 meses. Menstruação, primeiro beijo, a Boy Band do momento, acne. A corrida, tal qual nessas revistas, não tem conteúdo original que possa ser criado em um esporte tão simples, tão básico, tão lento. Resumidamente, uma revista mediana de corrida em nível de escrita não é em nada melhor do que uma Toda Teen.

E um dos recursos na corrida passa então a ser valorizar a espuma, não o café. Para correr basta um tênis qualquer, shorts e camiseta (por convenção social). Nem treinador (muito menos formado ou com CREF) é necessário. De equipamento basta um marcador de tempo digital qualquer. Todo o resto é espuma. Assim como para ficar MUITO forte você precisa apenas de uma barra livre com peso nas pontas, para correr MUITO BEM você precisa apenas disso.

No outro extremo, se a academia tem equipamentos maiores que uma geladeira frost-free, você sabe que só usam esses equipamentos os sujeitos mais fracos de sempre. Na corrida, quem usa bosu, fit ball, pranchas de instabilidade e equipamentos modernos são os que correm menos ou os mais lentos. *O monte de brinquedinho que Alberto Salazar comprou para seu pomposo projeto descobriu-se que não era ciência, era disfarce dos verdadeiros métodos ilegais que hoje a maioria está certo que ele usava.

Lembre-se: ciência e corrida NÃO andam lado a lado. A corrida está na absoluta maioria das vezes sempre à frente, a ciência vem quase sempre depois, apenas tentando entender e explicar o que aconteceu.

É por essa lentidão da corrida que quem vive de escrever dela acaba comprando essas histórias de novidade inócua. É para recompensar a fé do corredor que busca um atalho que não existe, que acha que há muita novidade que funcione. Obviamente há aquele que escreve acreditando por crença honesta, que por não entender muito do gingado, acredita que de repente podemos quebrar a barreira das 2 horas na Maratona logo mais. *Outro adendo: entender de matemática, de história e de fisiologia da corrida… Se a pessoa entende de 2 qualquer desses 3, ela SABE que a quebra das 2h na maratona demora MUITO. Se ela acha que a quebra acontece em breve, é porque com segura certeza não entende bem de 2 desses 3.

E talvez por isso é também cada vez mais comum em portais e revistas ver gente nova (na corrida) escrevendo. Talvez tenham mais fé. Talvez porque acreditem mais em releases (ou essas sejam suas únicas fontes de informação). Não importa, fazem o que é bom para revistas: geram conteúdo em um esporte que por sua natureza se transforma muito devagar. Assim a máscara que imita o treino em altitude de hoje dá espaço à nova bebida esportiva mágica de amanhã. E o corredor que busca atalhos tem sua fé recompensada. A verdade de que tudo isso, igual a um aparelho de musculação do tamanho de um Fusca, nunca funciona seria duro demais para ele. Ele quer, precisa e prefere acreditar.

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*Sometimes the truth isn’t good enough, sometimes people deserve more. Sometimes people deserve to have their faith rewarded…

**You can’t handle the truth!

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Sobre Lindy, Vovós e falsos especialistas. OU ainda: o Tempo como senhor da Razão.

Um dos temas que mais aprecio, mas sobre o qual eu dificilmente decido escrever muito é a latente ineficiência dos atuais tênis de corrida na diminuição das lesões nesse esporte. Se eu precisasse resumir em poucas palavras o recente histórico seria: nos últimos 40 anos os tênis ficaram maiores, mais pesados e (muito) mais caros. Agora os modelos convencionais contam com “tecnologias” que prometem um maior controle de pisada, maior amortecimento e um menor risco de lesões. Mas na realidade conseguiram oferecer com evidências apenas maior conforto, uma falsa de sensação de maior controle (o que não é bom!) e menor resposta sensorial aos pés com suas entressolas mais espessas (o que com certeza é ruim). Ou seja, não há vantagem ou menor índice de lesões, porém dão uma falsa sensação de segurança que é muitas vezes contraproducente.

 A QUEM OUVIR? – O que é um especialista? O que é um falso especialista? Em quem acreditar?

Você não terá problemas em encontrar até treinador dizendo que você deve treinar apenas com quem tem CREF, o que é uma tremenda bobagem; discurso de quem se preocupa mais com o próprio bolso do que com aquele que deseja correr. No campo das ideias quem decide quem é e quem não é especialista é o tempo. E existe uma regra para isso, o Efeito Lindy, uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.

Aplicado aos tênis de corrida, os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde os anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar um corredor (nem tão) iniciante com suas propagandas chamativas, pode convencer o jornalista que só lê release, pode convencer aquele médico que faz lista de “tênis bom para o joelho”. Você apenas não engana duas entidades: Lindy e o Tempo.

É por isso também que não gosto muito de escrever sobre tênis. Não tarda para aparecer quem se encante com release e propaganda, mas quando olhamos no tempo vemos que a fragilidade dos argumentos não sobrevive a ele, uma vez que um dos discursos dos fabricantes diz que “esta versão está ainda melhor que a anterior” ainda que ela não tenha se mostrado em NADA mais segura que um tênis de corrida de 1965! É como o Comunismo/Socialismo, nunca deu certo em lugar nenhum, mas deveríamos continuar tentando. Para estes todos é muito triste quando o seu “mundo dos sonhos possíveis” encontra a vida real.

Fosse um modelo de tênis convencional de hoje superior aos da década de 60, o conceito desses teria morrido, mas continua vivo ainda que sem a força da propaganda. Por quê?

 

“Insanidade em indivíduos é algo raro – mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra”. (Friedrich Nietzsche)

 

Por que tantos de nós correm com tijolos aos pés que NÃO os protegem? Por que comemos 60% das nossas calorias justamente do nutriente que é não-essencial à vida? Por quê?

Vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas. Muitos deles montam suas teorias na segurança de não ter que submeter alguém previamente ao que pregam. E é aí que nossas avós são melhores do que nossos nutricionistas. Se na saúde você tiver que seguir uma recomendação nutricional, marque um encontro com sua avó JAMAIS consulta com um Nutricionista.

Sempre que alguém vem e me chama de polêmico (o que não é verdade), repare que provavelmente estou apenas a dar peso a pesquisas que com rigor contradizem o senso-comum, seja na Nutrição ou sobre com qual tipo de tênis que deveríamos correr. Afirmações essas que eu sei que acarretam danos à reputação dos falsos especialistas, os especialistas em release, ou os ignorantes por conveniência, estes os mais desonestos. As ideias desses não sobrevivem honestamente ao tempo. Veja: são 40 anos para provar que tecnologia ajuda. Sem provas. São 40 anos seguindo cada vez mais as diretrizes nutricionais: nunca tivemos um mundo tão obeso. Esses especialistas (nutricionistas e defensores da tecnologia em calçados) são vulneráveis à prova do tempo e esperam que a realidade mude seu fundionamento, não suas teorias absurdas.

AVÓS vs PESQUISADORES

Por isso insisto com uma heurística: quer ir ao Nutricionista? Converse com sua avó. Com enorme chance de certeza afirmo que 85% das vovós estarão certas. Menos de 15% dos nutricionistas têm essa taxa. Por quê? Porque elas, nossas avós, comiam alimentos que foram a base da nossa dieta por muitos séculos. O Nutricionista não, ele vive de um pensamento mágico de teorias de apenas 40 anos que jamais foram postas à prova. Ele não tinha muito a perder, nossas avós e antepassados tinham.

Com tênis de corrida não é diferente. Por séculos os corredores, que dependiam do sucesso de sua corrida, usavam calçados com pouco suporte. Por que então dar ouvidos a jornalistas, fisioterapeutas e médicos que NÃO estudam DE VERDADE o assunto (pseudo-especialistas) e cuja parte de seu sucesso depende justamente do SEU fracasso (lesão) na corrida? Há uma enorme dissociação de interesses, como em quase todas as áreas da Saúde.

Ou ainda, aplicando à teoria da Avó-Nutricionista, veja o tipo de tênis que os veteranos abaixo, que querem ganhar a prova, calçam e veja o que diz o ~especialista~ da revista/site de corrida de seu veículo favorito que quer vender tênis. Tire você suas próprias conclusões… já sabemos mesmo que ele é um falso expert.

imrs

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Os Maiores eventos de Corrida de Rua em 2016

Para acabar uma série iniciada dias atrás (aqui, aqui e aqui) e depois de publicar o infográfico das Meias Maratonas Brasileiras, o das Maratonas Brasileiras e a das 50 Maiores Corridas do Brasil, abaixo listo os Maiores Eventos de Corrida de Rua do Brasil em 2016.

Nesta lista, limitei apenas os eventos que somam mais de 10.000 concluintes somadas todas as distâncias e provas paralelas.

Em 2015 esses eventos eram apenas 9, mas em 2016 chegaram a 11. Desses, 2 são exclusivos para mulheres e a Night Run (Etapa II SP) ainda tem maioria feminina. Apenas 3 têm distâncias únicas (SS, Tribuna e Pampulha), somente 2 ficam fora do eixo Rio-SP, 4 têm transmissão pela TV e só 2 são noturnos.

Veja a lista completa abaixo! *reforço que são todas as distâncias somadas.

maiores-eventos-de-corrida-2016

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Treinandus Poucus Demasiadus Papus

Você conhece aquele que anda “treinando muito”, querendo “muito melhorar suas marcas” em algumas provas e ainda assim não obtém os resultados que tanto persegue? Pois os tempos atuais fazem necessário falarmos sobre a Síndrome do Treinandus Poucus Demasiadus Papus, uma desordem comportamental muito séria que se caracteriza por um platô do desempenho dessas pessoas na corrida. O indivíduo em questão é acometido por esta doença que impede o seu progresso apesar de todo o dinheiro investido e, muito mais importante, do considerável tempo de dedicação ou das sessões semanais treinando.

Esta síndrome atinge corredores dos mais variados níveis e de variadas idades, que vão em sua maioria entre os 20 e os 45 anos. A manifestação da Síndrome do Treinandus Poucus Demasiadus Papus pode se caracterizar por uma intensa preocupação com mais de um dos fatores abaixo:

– Tipos de pisada;

– Amortecimento do calçado;

– Flexibilidade;

– Equipamentos de vestuário (óculos, meias de compressão, manguitos…);

– Suplementos, BCAA e nutrição;

– Coleta de dados de treinamento (para posterior análise de seu treinador);

– Treinamento individualizado;

– Periodização;

– Fisioterapia preventiva.

O medo de fazer força nos tiros ou rodar em subidas, além de resistência ou preguiça de rodar muitos quilômetros (independente do ritmo) e ausência de treinos em temperaturas que estejam abaixo dos 15⁰C são outras características muito comuns a quem sofre da síndrome.

Não há um grande estudo analisando sua prevalência ou condição sine qua non de que sejam corredores de assessorias esportivas, e não sabemos se o Treinandus Poucus Demasiadus Papus é contagioso, endêmico ou exclusivo apenas de alguma microrregião (ex: Marquise do Ibirapuera), mas podemos estimar que pode afetar até mesmo cerca de ¾ dessas pessoas em maior ou menor grau, condição essa que não a diagnosticam como sofredoras da síndrome, mas sim que é mais fácil uma terapia de remissão ou mesmo cura.

Sabemos, sim, que aspectos sociais e ambientais parecem ter correlação positiva, ainda que não saibamos se de causa ou casualidade nesta síndrome. O que existem são fortes suspeitas como causadoras dela. Podemos teorizar que as fontes de informação por parte desses corredores acometidos são: conselhos de revistas de corrida, portais especializados da internet, além da simplificação advinda de postagens de incentivadores virtuais, os influencers, que em análise rápida de seu conteúdo, em considerável parte parecem sofrer do mesmo mal, em maior ou menor grau.

Mal este que NÃO parece ser adquirido por contato, via aérea ou sanguínea, já que se espalha mesmo em ambientes sem contato físico algum, como os grupos de Facebook e as redes sociais. E parece que pode ser diagnosticado por uma junta médica e de profissionais de saúde, dessas que você encontra facilmente em clínicas multidisciplinares com nome pomposo e/ou em inglês que enfatizam terapias preventivas com o intuito único de ganhar dinheir…OOOPS… de melhorar a saúde e o desempenho desses corredores amadores.

Falemos e discutamos, pois, de sintomas, prevenção, e medidas de tratamento por intervenção comportamental.

UMA SÍNDROME SÉRIA:

Dizem que é um passo importante ao doente admitir que sofre de um mal. Posso não sofrer hoje da síndrome, mas por um tempo considerável de minha vida como corredor apresentei alguns sintomas claros da Treinandus Poucus Demasiadus Papus. Fiz inúmeros testes de tipos de pisada, buscava amortecimento em calçados como alguém que procura o nirvana, alongava antes e depois dos treinos, já corri com tira sub-patelar, com munhequeira, de bermuda térmica e meia de compressão… comprei óculos de corrida, estudei os efeitos de suplementos, consumi BCAA, anotava dados como FC em repouso e volume de treinos… tudo. Por algum motivo que não a ingenuidade achava que meu treinador fosse algum dia analisar esses dados que nem mesmo eu hoje tenho o menor interesse pessoal. Hoje me considero curado. Mas tenho que me policiar a cada vez que alguém resolve me mostrar os belos gráficos que um GPS, aparelho que eu nunca tive, é capaz de criar.

Porém, ainda que curado, me incomoda ver tantos sucumbindo a essa grave doença…

Por outro lado, tive muita sorte por um período ter que treinar sozinho e ter entre meus colegas de equipe, corredores muito old-school. Correndo sozinho eu não tinha a tentação de perder tempo com o que não importa no resultado final, nem de ouvir dicas furadas. Treinando com veteranos rápidos e experientes aprendi o que nenhuma revista ou portal jamais me ensinaria. *Lembre-se sempre, revistas e portais tentam te vender os equipamentos das empresas que pagam por anúncios em suas páginas, e eles tentam ainda vender-lhe atalhos, que na corrida, simplesmente não existem.

Aprendi com eles que: correr bem é resultado basicamente uma questão de muito volume, de muita paciência, de muita regularidade e de muita dedicação. Para correr bem sem um desses “muitos”, você terá que ter a grande sorte de ter os genes certos.

E obviamente que minha sorte não me impediu ainda assim de perder muito tempo com coisa inútil. Porém, provavelmente foi meu interesse na área que me salvou de consumir um volume ainda maior dessas inutilidades e gastar dinheiro com coisas que atrapalham a corrida. Isso porque a base do que aqueles corredores experientes e rápidos me explicaram é que a corrida é simples. É quem vive dela e não quem corre que tenta criar a…

“ILUSÃO DA COMPLEXIDADE”

Alguns gurus, Revistas, Treinadores fracos, Portais, associações de Médicos, Nutricionistas, Fisioterapeutas e muitas outras pessoas da mais alta boa vontade vão tentar te enganar. Vão tentar dizer que o esporte mais simples de todos é complexo e exige cuidados maiores.

Com a internet ficou mais fácil consultar de modo simples as recomendações destes e você consegue chegar a um mesmo padrão de conduta que não encontra suporte nem respaldo em nada que não seja a vontade única deles de te vender um plano “individualizado” ou personalizado. Correr é um pé à frente do outro por milhões de vezes, mas dirão que há necessidade de testes, de equipamentos e planos pessoais e periodizados. Ao contrário de tudo o que fazem os melhores do mundo ou os que mais correm no mundo.

cientificamente

Quando alguém quer te vender milagres ou alguma bobagem, ela usa o termo ”cientificamente comprovado” em seus posts patrocinados nas redes sociais. É o jeito de querer rebuscar o simples. É impossível nos dias de hoje acompanhar toda a informação que é gerada. Por que não recorrer ao que funciona e é barato ou quase gratuito? Os adeptos da ilusão da complexidade tentam apenas encarecer o seu produto.

Na corrida não há muitos segredos.

 

 

 

Vejo corredores que não correm

Ninguém se considera fluente no idioma de Victor Hugo tendo aula na Aliança Francesa estudando 2 horas por semana, nem se considera bailarino dançando em festas a cada 15 dias, mas se considera corredor ao aparecer na assessoria correndo em média duas vezes na semana por pouco mais de 30 minutos. Encaram a maratona como uma tatuagem, uma vez feita, virou maratonista para sempre.

Corredor é quem corre, é tolo DEMAIS o debate de quem é (ou não é) “corredor”. Mas o texto é sobre evolução de marcas, e ela na corrida passa necessariamente sobre volume de sua prática. Pagar o boleto da academia não melhora sua carga no supino, empurrar uma barra pesada é que faz. Quer correr melhor? Vai ter que correr.

Como você pode saber se você vem sofrendo da síndrome?

Se você passa mais tempo aprendendo novos treinos, fazendo exercícios parados, pulando a corrida por treinos alternativos, e não vê suas marcas melhorarem, é bem possível que já sofra dela.

Voltamos então ao fato que corredor precisa correr. Consistentemente. E isso NÃO significa jamais perder um treino na mesma medida que ficar sem correr por meses e achar que vai melhorar é uma meta um pouco irreal.

DIAGNÓSTICO

Abaixo vão alguns dos sintomas clássicos do problema. Se você está em um platô de desempenho não condizente com seu tempo e volume correndo, não é necessário procurar ajuda, bastaria mudar a atitude.

1. Você não é metódico.

Corrida de longa distância é um esporte de paciência, repetição, persistência. Não há necessidade de você mudar seu treino semanalmente. Um dos benefícios das repetições de algumas sessões é você poder se comparar diretamente, aprender as respostas e as sensações que seu corpo lhe fornece. Pode parecer entediante às vezes, mas existem treino-chaves feitos por grandes corredores que os fazem de tempos em tempos para saberem e sentirem como estão.

Treinador que tem que ficar inventando treino para o atleta precisa é educar o atleta. Você não consegue imaginar um atleta de força tendo que a cada sessão inventar novas combinações, novos exercícios, novos aparelhos. O corredor também não precisa.

2. Você acha que precisa fazer muitas coisas.

Não há ainda gráfico assim correlacionando positivamente horas de Treino Mental (ou horas de Treino Funcional) com tempo na Maratona...

Não há ainda gráfico assim correlacionando positivamente horas de Treino Mental (ou horas de Treino Funcional) com tempo na Maratona…

Você pode correr leve (trote, rodagem ou mesmo ritmo de maratona) ou forte (velocidade de limiar ou acima disso, ritmos de intervalados). Você pode correr pouco, médio ou muito (longo). Isto tem sido praticado, testado e retestado há mais de 100 anos com muito mais sucesso do que você leitor encontraria em umas 3 vidas inteiras. Você corre no plano ou em terreno irregular (com subida).

Você não precisa pedalar, fazer spinning, aquarunning, nadar, fazer fisioterapia preventiva, pilates, cross-fit, power yoga… se você faz mais destes, você faz menos daquele (corrida). Corredores correm, grandes enxadristas praticam xadrez. Priorize o que é importante.

Se eu vendo suco de beterraba, vou querer te convencer que ele te faz correr melhor. Mas se eu quero correr bem, eu preciso é correr.

3. Você se preocupa mais com suplementos e BCAA do que com o volume de corrida.

Por algum motivo, que não vale discutir, damos à Nutrição um papel que ela não tem. Uma boa Nutrição é aquela que não atrapalha, não aquela que te faria correr melhor. Correr é o que te faz um melhor corredor. Ponto. O debate gordura versus carboidrato não deveria jamais ter saído do rodapé do apêndice dos livros de corrida.

Mas corredor é uma praga, ele acha realmente que para correr é necessário ter algum suplemento por perto. Sobre suplementos, existem 3 certezas:

– Se ele funciona, ele muito provavelmente já é proibido;

– Se ele não é proibido, ele provavelmente não funciona;

– Deve haver algumas pouquíssimas exceções, que não sabemos quais.

Não há suplemento que compense a sua falta de quilômetros no lombo.

4. Você corre mais volume para manter o peso

Se você corre para manter a forma e o peso, sua dieta é errada. Se ela é errada, você tem um problema. E não serão os suplementos a resolver uma dieta ruim. *a parte complicada é que dificilmente também será um Nutricionista

5. Seus treinos mais parecem uma propaganda de margarina

Você já viu fotos com pessoas comendo salada? A menos que você seja um vegano por opção ou uma capivara por nascença, comer salada é quase uma lição de casa, o maior prazer de uma refeição não está no maço de espinafre, mas está na gordura, na carne, no tempero, na sobremesa.

Tire a salada e o sorriso é parecido com fotos de gente correndo em publicações

Tire a salada e o sorriso é parecido com fotos de gente correndo em sites e revistas

Se você está rodando sempre sorridente, se seus tiros mais parecem um happy hour de 5ª feira, parabéns! Você colocou esporte em sua vida da forma mais prazerosa possível! Mas se você quer muito melhorar e não melhora, é porque ainda não entendeu que alguns treinos doem, incomodam, são desconfortáveis.

E não precisam ser todos! Nem mesmo a maioria! Aprender a correr forte é aprender a conviver na corrida com o desconforto. Quando olhamos aos treinos dos melhores atletas do mundo, vemos que não mais do que 2 ou 3 treinos semanais são realmente difíceis. Poucos treinos são muito difíceis. Mas o desconforto está muito presente, em maior ou menor grau. Ninguém é bom sempre sorrindo.

Por outro lado, é fácil ser “guerreiro” uma vez por semana, ou pior, alguns tiros de um treino na semana. Os melhores são os guerreiros na mesma frequência, mas treinam (ainda que leve!) nos outros dias.

6. Você passa mais do que 5 minutos fazendo abdominal

Se você não enxerga seu abdômen definido, você precisa perder gordura, não ficar fazendo abdominais. Perda de gordura localizada com abdominal ficou lá nos anos 90. Se você faz mais abdominais do que faz flexões de braço, por exemplo, você provavelmente está fazendo isso errado. Abdominais cansam, roubam sua energia e pouquíssimo fazem para melhorar sua corrida.

7. Você faz “core”… e usa Swiss Ball, Bosu ou qualquer outro equipamento que te faz parecer um… deixa pra lá!

Não tem como isso dar certo...

Não tem como isso dar certo…

Você consegue imaginar UM corredor bom (mas bão-bão, não o mais rápido na esteira da sua academia) chegando para treinar carregando uma Swiss Ball (aquela bolona gigante) ou uma pranchinha de (des)equilíbrio? Pois é… Eles servem para gerar… desequilíbrio. Não te deixam forte nem te fazem correr melhor. Foque no que importa. Mais tempo na FitBall é menos tempo correndo

8. Você quer correr como Mo Farah com um corpo de velocista

frangoUma verdade que dói aos homens: quanto mais você correr, mais frango você ficará. Quando maior o bíceps, menos você correrá. Existem alguns vídeos patrocinados com caras fortões tipo cross-fit ensinando como correr melhor… esses caras fazendo exercícios estranhos não aguentam duas voltas no quarteirão em um ritmo forte de 10km. Corrida é sobre deslocar massa, com ombros de estivador você não vai longe. Não vai ser pulando no mesmo lugar que você ensinará seu corpo a se deslocar por 15km. Não será correndo mais que você vai crescer. Tenha isso em mente porque é mais honesto!

 

Menos é mais.

Menos é mais.

9. Você usa canelitos, tiras subpatelares, meias de compressão, kinesio tape, viseiras no escuro, manguito no calor…

Corrida de longa distância é entre outras coisas ensinar e ajudar o corpo a dissipar calor. Se você corre fantasiado com muita roupa, você roda menos, se você roda menos, você corre pior. Deixe o estilo para os dias de muito frio (menos de 12⁰C). E a tira subpatelar você deixa na gaveta mesmo.

10. Você está correndo ou aquecendo? Não consigo ver diferença…

Aquecimento é aquecimento. Ele deve ser leve e é essencial para um melhor desempenho, seja em treino ou prova. Ele não pode cansar nem comprometer seu desempenho (na prova ou treino). Tem vezes que olho para alguém que estaria treinando, mas parece que é tudo um eterno aquecimento. Você deve conseguir diferenciar bem as velocidades de aquecimento, de treino e a que você passeia no shopping. Lembre-se: muitas vezes haverá certo desconforto quando falamos de treino buscando melhora de desempenho. Se o conforto é do mesmo nível que o do aquecimento, o treino não começou. Aquecimento a mais é treino a menos. Desaquecimento a mais é treino a mais. Abrace a diferença.

11. Sério que você faz isso?!? Pra correr melhor!?!

…sério mesmo?!?

12. Sem migué.

Tiros de 1.000m são tiros de 1km, não de 950m. Pausa de 1 minuto são 60 segundos, não 1 minuto e meio. No treinamento de corrida de longa distância, respeito à pausa é FUNDAMENTAL. De certa forma, manipulando as pausas eu consigo fazer alguns treinos do Bekele. Mas ainda que mexendo livremente nas pausas NÃO consigo sequer chegar perto dos fisiculturistas finalistas do Mister Olympia ou do velocista Justin Gatlin. Reforço: as pausas na longa distância são cruciais.

Ou seja, se você termina seu tiro 50m antes, você está também dando migué porque mexeu na pausa. Engana a si mesmo.

13. É sempre você quem corre, não seu treinador.

Treinador ajuda. Mas se você tiver ele sempre ao lado comentando e falando em TODAS as repetições, isso mais atrapalha do que ajuda. Você precisa aprender a correr, a obter os sinais que seu corpo lhe dá, sem treinador palpitando ao lado. Ele não estará lá no último quilômetro da prova. Aprenda a lidar com a realidade. E isso nos leva ao próximo sintoma.

14. Você é obcecado por informação

Corra mais, pense menos. Alguns dias correrá bem, em outros correrá mal. No calor será mais lento, no frio mais rápido. Dados não significam informação. Se fosse, a pessoa com o melhor GPS ganharia. Aliás, dá para falar com grande segurança que quanto mais frequência você obtém dados, PIOR. Isso te cega, tira sua percepção e o foco do melhor gadget que existe: seu corpo.

15. Você acha que treino funcional é fundamental.

Se você não consegue fazer um agachamento completo, até o chão, igual à música Na Boquinha da Garrafa, só com a barra, sem anilhas, você não precisa de exercício funcional, você precisa é fazer agachamento mesmo! Agachamento com barra livre ainda é melhor exercício do que qualquer protocolo funcional jamais criado ou prescrito. É mais simples, mais rápido, mais barato e… funciona muito melhor.

Uma barra faz mais por você do que as Swiss Ball, o Bosu, as pranchas de instabilidade, as máquinas-para-fazer-perna-do-tamanho-de-uma-geladeira… todos esses juntos.

16. Você se desespera porque acha que correr melhor te fará uma pessoa melhor.

As pessoas que mais gostam de você não fazem ideia dos seus tempos pessoais. Eu não sei dizer os tempos dos meus melhores amigos corredores, dos meus ex-atletas. Quem se importa com suas marcas são talvez os que não gostam de você. Isso diz um pouco sobre a importância de melhorar as marcas. A vontade de correr muito melhor tem que vir sempre de dentro porque ela não vem de fora. Você até sabe quem correu abaixo dos 40 minutos nos 10km, mas daí para baixo é tudo igual. 31 é igual 34, 36 igual 39, 41 igual 49, e por aí vai. Isso vale para quase todas as provas, todos os níveis e todas as distâncias.

É uma sensação indescritível bater uma grande marca pessoal, mas ninguém vai ficar mais feliz do que você. Faça por você. E só por você. Senão se decepcionará.

O tipo da sua motivação te levará longe, muito longe.

17. Você tem todas as desculpas para não treinar.

Um grande amigo, estacionado há uns 10 anos nos 43min, esses dias não correu porque quando chove forte “caem mais aviões“. Não ria, eu sei que ele falava sério. É uma arte saber quando o corpo precisa ir mais devagar. Algo muito diferente é você não treinar por lesão ou dor. Diferente é se você não treina aos finais de semana, nos feriados, dias festivos, quando está calor, quando está frio, quando chove, quando garoa, quando está abaixo de 15⁰C, quando está cansado, quando acordou muito cedo, quando dormiu tarde, quando tem provas, quando fez hora extra, quando está tarde…

Empurrado ao limite, há basicamente 2 dias: os com treino e os sem treino. O dia de treino que você não treinou, não importa a razão (que não seja lesão!), conta como dia sem treino, ou seja, reduz o volume, reduz a consistência e reduz a essa hora você já sabe o quê.

As pesquisas e estudos da Síndrome continuam

Obviamente não dá para esgotar os sintomas e características dessa grave doença. Se for caso, vou atualizar este post. Quando estava para terminar, li uma passagem de um texto de Steve Magness que fala um pouco da nossa loucura e delírio coletivo em nossa relação contemporânea com as redes sociais. Cada um tem uma relação própria com elas e também com a corrida, não há certo nem errado neste assunto, mas existem padrões. Sobre os leões de treino que sempre informam seus treinos, Magness disse:

Há um truque simples para reconhecer a falsa raça, quanto mais você falar sobre o quão durão você é, maior é a probabilidade de você ser um falso raçudo. Por quê? É insegurança. No fundo, essas pessoas sabem que realmente não são raçudas. Elas têm de criar uma falsa impressão para convencer os outros de que têm dedicação, perseverança e todas as outras palavras da moda. Elas falam de seus feitos e treinos pesados. Elas são os que postam fotos no Instagram treinando na chuva ou no mau tempo, ou postam no Facebook sobre como treinaram duro no Natal, quando todo mundo descansava. Elas precisam desesperadamente do mundo os vendo como dedicados. Elas não acreditam que são, por isso elas precisam de reafirmação e reforço social.

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*este texto não é um plágio, é uma homenagem xupinhada por completo mesmo do talvez mais incrível artigo já escrito sobre treinamento de força, o Fuckarounditis.

 

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