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A Economia Comportamental vai à Corrida

*A Flora Pfeifer é uma corredora de meio fundo fazendo seu último ano em Economia na FEA-USP. Não fomos contemporâneos de FEA (por alguns “poucos” anos!), mas dividimos muitos interesses, além da corrida. Talvez o maior deles seja a Economia Comportamental. Quando me chegou um texto dela, não pensei duas vezes e escrevi me apresentando para que pudéssemos alongar a conversa! Espero que vocês gostem do resultado, que vai transcrito abaixo!

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Oi Flora! Tudo bem? Li e reli com muita atenção seu texto “O segredo da corrida ou como sair do-sofá depois de um dia intenso de trabalho no blog do Grupo de Estudos sobre Economia Comportamental da FEA-USP. Muitos do que conhecem meu trabalho já sabem: sou apaixonado por Economia Comportamental!

E corrida é um esporte simples, mas não é nada fácil… ela exige uma dedicação constante e paciente enquanto oferece um desconforto físico durante a prática. Então vivemos em um dilema! Com tantas alternativas que oferecem um prazer enorme e imediato (um frappuccino no Starbucks, por exemplo), como fazer ser rotina uma ida até a pista para dar tiros de 400m que nos deixam com a sensação de “tirem me daqui!”?? Difícil, não!?

Eu não sabia, mas você corre há 4 anos aquela que para mim é a prova mais tática de todo o atletismo (1.500m). Você falou algo MUITO legal! “As provas de meio fundo são exclusivamente caracterizadas pela constante presença de escolhas. No começo, nosso corpo transborda adrenalina e nosso ímpeto é ir o mais rápido possível, garantindo a liderança. À medida que entramos na segunda volta, nossa boca seca, nossos músculos cansam e tendemos a desacelerar — por vezes, falta vontade para passar a(o) adversária(o). São mini escolhas tomadas a cada metro da prova — e eu diria que a chave está, justamente, em tomar as melhores decisões possíveis, dado sua restrição física, ao longo do 1.500m.”

A maioria dos que vêm ao Recorrido fazem provas mais longas que os 1.500m… correm 5km, 10km, 42km… Mas é um fato, ainda que em menor intensidade, correr uma prova é uma sucessão de “mini-escolhas”. Você está cansado(a), o corpo pede para reduzir, mas temos que tomar uma decisão racional de seguir correndo em um ritmo X para conquistar uma determinada marca. Você no seu texto de cara cita Kahneman (*nota: Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, é autor da “Bíblia da Economia Comportamental”, o clássico Rápido e Devagar). Então minha primeira pergunta, Flora, é:

O que você acha que a tomada de decisão (racionais e irracionais) tem a ver com uma prova, uma situação extenuante? Afinal, corrida não é só sair correndo? Sem pensar??

FLORA: Fico muito contente de ver que compartilhamos estes interesses, Balu. Sabe, cada vez mais que estudo economia comportamental e o processo de escolha vejo como a corrida é um ótimo experimento individual para muitas das questões trabalhadas nessa área.
Acho que eu só tive maturidade para entender melhor minha prova nesta temporada. Antes disso acho que só saia correndo mesmo, sem pensar — dava uma de coelho nas primeiras voltas e tentava não quebrar no final. Não ia mal, mas também não chegava no meu limite. Correr por si só é uma coisa. Correr uma prova é outra. São situações muito diferentes quando você se preocupa com tempo, metas e adversários. Não é algo confortável. A sensação quando você termina é indescritível, mas é uma grande batalha individual ao longo de todo o percurso.
O 1.500m é uma prova mais curta e, por isso mesmo, não abre espaço para devaneios, pois tem que ser feita inteiramente em intensidade. Por isso comecei a pensar nessa questão da tomada de decisão e, bom, meio que experimentar minhas teorias ao longo dos treinos. Se tomar decisões requer energia e esforço, isso atrapalharia nosso desempenho físico ao longo da prova. Além disso, tomar a decisão durante a prova não é algo indicado — por estar em uma situação extenuante, sua noção intertemporal será afetada, entre o que é melhor momentaneamente (parar de correr, correr em um ritmo confortável) com seu objetivo racional de longo prazo (bater seu tempo). Sabemos, contudo, que operamos de duas formas diferentes: nosso cérebro consegue tomar decisões racionais e bem pensadas, o Sistema 2 (nota: ideia de 2 sistemas defendida por Kahneman, em oposição ao sistema 1), mas muitas vezes operamos de maneira automática (Sistema 1), o que requer menos energia. Bom, sendo assim, eu deixaria a decisão racional, de estratégia, para ser planejada antes (durante o período de treinamento, por exemplo). Nisso entra aquela questão de encontrar seu ritmo, saber quando se controlar e quando acelerar. O necessário, então, é tornar o processo “automatizado” – através da repetição dos treinos — para que, durante a prova, onde você só contará com seu sistema “rápido”, saiba o que fazer. Os treinos, então, devem ser feitos levando em conta seu corpo e sua mente! Sabe quando você tem vontade de desistir no tiro final? Ou acabar a rodagem alguns quilômetros antes? Quando você se força a ir até o final, está treinando seu cérebro para automatizar essa decisão na prova. Quando esse gatilho aparecer você tem que inserir a ação desejada, até que vire automatizada. (Que fique claro: isso é um processo difícil, o de automatizar suas decisões para alcançar o ritmo desejado! Exige muita repetição e consciência corporal. Mas entender isso talvez torne um pouco mais fácil.)
Sabe uma coisa curiosa? Outro dia estava treinando com um amigo. Sabia o tempo que queria fazer, e pedi para ele me puxar em metade dos tiros – íamos intercalando. Quando ele me puxava, o esforço que eu fazia parecia tremendamente menor do que quando eu ia na frente. Sei que tem a questão do vento, aerodinâmica e etc. Mas acho que é algo além disso. Eu não estava fazendo esforço nenhum para controlar o ritmo – só seguia ele. Minha energia estava inteiramente focada em correr, não em pensar. Não tinha que tomar decisões. Eu só corria. E o esforço pareceu muito menor. (Talvez isso explique parte da eficiência de se treinar em grupo…). Você também sente isso?!

BALU: Muito bom! Sim, sinto tudo isso! Com certeza! O treinamento de corrida é uma questão de treinar parâmetros fisiológicos (VO2máx, limiares, resistência de força, de velocidade…), mas também uma questão psicológica, comportamental, neurológica… a ideia do treinamento, entre tantas outras coisas, é fazer algo que seja difícil até ela ficar fácil ou ao menos realizável. Ou como gostam de dizer muitos treinadores: a última repetição é a boa, é a que importa, é a que vale. Recentemente retomou-se um debate que acho meio raso, de que a cabeça é quem manda no desempenho, acho tolo porque bastaria então trazer um monge e ele bateria o recorde da maratona. Fazer o básico (correr e correr) não é sexy, então as pessoas vivem querendo trazer o diferente, algo mirabolante.

A questão mental da corrida é muito importante, lógico! Você, sem ter CREF nem ser treinadora, captou e acabou por explicar algo que somente muito recentemente nos demos conta na corrida: você ficar atrás, no vácuo de um corredor, traz ENORME vantagem competitiva e nem é por uma questão aerodinâmica, não! Mas porque você não precisa pensar, algo que consome MUITA energia. Incrível, né!?

Aí eu vou te fazer um desafio! Quando olhamos as estatísticas, temos que uma significante parte dos corredores brasileiros treinam no final da tarde, começo da noite. Sabemos agora que não só correr cansa, mas pensar também. Para piorar temos a chegada do frio mais ao Sul e Sudeste do país… como vencer todo aquele cansaço que inventa desculpas para não irmos treinar? Como fazer o sistema 2 “vencer” o 1? Você explicou muito bem em seu texto original, então baseada nos conceitos da Economia Comportamental, quais dicas práticas você daria?

FLORA: Concordo plenamente com seu ponto, Balu! Querendo ou não, o jeito bruto de melhorar a corrida é correndo. Não tem milagre. Tem “polimentos”, questões secundárias, mas não dá para tirar a parte principal. Toda essa questão de treino mental e estratégia só faz sentido se feito durante os treinos de corrida. É justamente em criar um hábito de resistência mental perante o esforço físico – de nada adianta “visualizar” sem efetivamente seu corpo estar preparado pra isso.
Você entrou em um assunto que diz respeito a um fenômeno muito estudado em economia comportamental: o autocontrole. Uma das coisas que os cientistas descobriram é que esse recurso nosso funciona como um músculo: ele fadiga e requer energia. Quando estamos muito desgastados das diversas atividades do dia (trabalho puxado, estudos intensos) é muuuito mais difícil criar forças pra vencer a preguiça e ir correr (e o frio só piora a situação!). E treinar no final do dia acaba pegando essas sequelas. O jeito de tentar “vencer” isso é tornar nosso exercício automático em nossa rotina.
Lembro que, quando estava na escola, eu corria na praia todo final de tarde. Ano de vestibular, chegava em casa esgotada. Quando eu deixava minhas coisas logo me trocava direto e calçava o tênis, eu não desistia de ir (por mais que ainda fosse fazer alguma outra coisa em casa). Agora, se eu deitasse pra ver TV e descansasse uns minutinhos, era quase impossível criar forças pra sair de casa (principalmente no inverno, onde não contamos com aquele lindo dia pra nos motivar). O que ocorre é que começamos a criar desculpas mentais pra justificar nossa “falha” – e uma vez que justificamos um dia, o processo pra desistir de novo passa a ter um atalho mental.
Assim, baseado nessas teorias, vou tentar dar algumas dicas práticas que talvez ajudem, então:
1) Ter um objetivo forte com metas TANGÍVEIS que sirvam como motivação (ex: perder tantos quilos em tal prazo; melhorar seu tempo em x semanas; aumentar o desempenho para uma determinada prova). Atenção: quanto mais preciso for, melhor, pra não esbarrar na questão de incerteza e intertemporalidade;
2) Ter um grupo que te motive. Treinar em grupo exige menos autocontrole porque você torna o processo uma “norma social”. Se não for, tem que justificar sua ausência aos seus pares, e as pessoas estariam contando com a sua presença; (e se você faltar, lembre-se que estará influenciando os outros a faltar também!)
3) Criar “gatilhos” do hábito. Por exemplo, colocar a roupa de corrida logo que chegar em casa; treinar exatamente em tal horário (gatilho: olhar o relógio); comer um alimento de pré treino (que você só come pra treinar);
4) Criar um sistema individual de punições e recompensas. E se a recompensa da sensação de treino cumprido não for suficiente, ativando as áreas de prazer (ex: jantar tal coisa, postar uma foto do treino, ver uma série sem culpa no Netflix, etc.); 
5) Não faltar por preguiça! Se você treina todo dia ou em X dias da semana, faça desses seus dias sagrados! Se você faltou uma vez, isso acaba facilitando o processo de desistir, pois nós ancoramos nossas decisões presentes em decisões passadas.

BALU: Flora, tudo, absolutamente TUDO o que você falou no seu texto e agora nessa conversa me faz sentido! Nunca falei isso, mas eu mesmo tenho algumas regras mentais para treinar… quando morava na Irlanda fiquei viciado em digestive biscuits… chegou um momento que eu só me permitia comer 3 delas após meu treino do dia. Era a cenoura a um coelho, uma estratégia quase do tipo ganha-ganha. Sem treino (por qualquer que fosse o motivo), sem biscoito! Atualmente só como tapioca em um limite semanal e desde que seja em um dia de treino. Eu encaro meu treino diário como se fosse escovar dente… após o almoço vou e escovo… corrida é igual, eu saio correndo, sem me perguntar se devo ou não. Queria então era agradecer! A ideia era você, uma corredora, mas também uma acadêmica da área, pudesse fazer a nós essa junção entre a teoria e a prática. Mas para acabar queria antes apenas mais uma espécie de último desafio! O pesquisador Dan Ariely (Nota: Ariely é renomado autor de livros já traduzidos ao português, sobre irracionalidade e desonestidade. Pode comprar qualquer um, não tem como não gostar!) sugere que uma sessão de treino seria melhor se o último estímulo não fosse talvez o mais difícil porque essa sensação de enorme desconforto ficaria retido na memória criando uma certa aversão aos treinos já que sempre associaríamos um treino àquele sofrimento horroroso, então ele fala que terminar leve muda positivamente nossa percepção. Pois muitos dos que leem aqui são de alguma forma treinadores (de si ou de alguém). Então como a Economia Comportamental poderia ajudar um treinador a aumentar a fidelidade ou compromisso de um amador aos treinos? Alguma sugestão nessa linha? Prometo que é a última! (risos)

FLORA: Balu, o Dan Ariely trata muito bem sobre como agregamos informações ao longo do tempo. Quando jovem, ele sofreu um grave acidente que queimou 70% de seu corpo e, como consequência, passou meses internado no hospital, onde passava várias vezes pelo doloroso processo de remover as ataduras. As enfermeiras removiam-nas rapidamente, mas ele achava que removê-las aos poucos diminuiria sua percepção da dor — e isso motivou-o a estudar o assunto.
Ele baseou-se em Kahneman, de que a intensidade final da experiência impacta a avaliação retrospectiva, em Lowenstein e Prelec, de que é, de fato, a tendência final que determina essa avaliação. e em Hsee de que mudanças de intensidade é que são incorporadas mais fortemente em nossa memória.
Ele chegou a conclusão, enfim, de que a dor dispersada ao longo do tempo em menores intensidades diminui a percepção intrínseca – mas causa um impacto maior na enfermeira que causa a dor (por isso elas faziam de uma vez só, assim, reduziam seu próprio sofrimento, e a percepção de que o processo, em geral, se sairia menos doloroso para ambas as partes.)
Aplicando aos treinos de atletismo, eu acho que parte desse efeito é incorporado da sensação de endorfina (runners’ high) e satisfação ao final do treino superarem a dor que é o treino em si. É pelos resultados (e pela sensação positiva que eles trazem em nosso cérebro) que continuamos a praticar esse esporte. Correr pra um tempo não é divertido. Mas a satisfação final é a que fica associada à experiência!
Não tenho conhecimento suficiente para afirmar se isso se aplica a “partes” do treinamento (ex.: começar com mais difícil e acabar com algo mais fácil, que doa menos…). Não sei nem os respaldos da parte física do processo e tampouco posso afirmar pela minha sensação individual. Se eu acabar encontrando algo sobre o assunto, te envio!

BALU: Ótimo, Flora! MUITO obrigado! Nem temos como agradecer!

*Para saber mais sobre Economia Comportamental, confira os posts do G.E.E.C. em
geecusp.wordpress.com

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Sobre Assessorias e correr rápido…

Ontem conversava com um amigo corredor sobre… corrida. E uma coisa com a qual ele concorda comigo e que foi assunto de conversa também com outro amigo (corredor!) é que o último lugar onde alguém deveria ir quando quer correr bem DE VERDADE é a uma assessoria esportiva.

Não me levem a mal! Estou longe de achar que não haja vários benefícios inegáveis em se treinar em uma assessoria esportiva. Até porque lá você encontra profissionais que estudaram (e estudam) para orientá-lo melhor na atividade física. Mas achar que é indo lá que você irá correr bem é como achar que será na academia padrão que você ficará forte de verdade. Não, não será. E a resposta do melhor lugar para buscar qualquer um desses 2 é mais difícil do que parece.

Uma coisa que você descobre rapidamente no mercado é que você tem que vender uma coisa e entregar outra. Do contrário você fica sem nada. Não foi uma, nem duas, nem 3 vezes que alguém chegou até mim querendo correr mais rápido e ao olhar o treino de assessoria que essa pessoa realizava, a minha conclusão muito direta era: você não vai correr rápido nem em 5 anos fazendo religiosamente isso!

Cliente machucado é um cliente que não paga. Treinamento é uma sucessão de estresse, agressão calculada ao corpo. O melhor jeito de garantir não-lesão em 100% das vezes é garantindo que você determine cargas bem baixas que não agridam o organismo, não o tire da homeostase. E é esse um jeito ainda garantido que a carga é tão baixa que correr bem é justamente o que a pessoa não fará.

De novo, que ninguém fique bravo. Eu acho que o ambiente de assessoria é saudável, muito saudável. Tem a questão social, a questão de gerar uma carga aeróbia saudável, a questão da motivação, do compromisso social e consigo mesmo. Acontece que saudável e adaptações buscando um mínimo de desempenho nem sempre se conversam, falam idiomas diferentes, distintos.

Correr é desconfortável, o treinador, que geralmente precisa ter mais clientes, está em um dilema: para gerar maior desempenho ele precisa aumentar o desconforto justamente de quem paga seu salário. É mais garantido cargas menores, mais seguras, que – novamente – geram benefícios sem incomodar. Mas correr BEM? Definitivamente não.

O irônico é que sempre aparecem clientes dizendo querer “correr bem”. O problema é que arrisco dizer que a maioria não sabe o preço disso, o preço de correr bem. Na ânsia de atender o cliente, o profissional promete entregar aquilo que ele não consegue. Ao menos não fazendo o necessário sem perder esse cliente. E aí fica o dilema do Vampeta no Flamengo. Certa vez o jogador teria dito que fingia que jogava enquanto o clube carioca fingia que pagava. Aí o circo está armado. O linguajar com um vocabulário cheio de palavras que todo amador gosta de ouvir (prova-alvo, performance, recuperação, personalizado, periodização…) e para fazer o básico para se correr bem, ele não preenche sequer até a página 2.

Logicamente que você acha grupos que buscam desempenho. Notadamente equipes menores, com treinadores mais românticos, tradicionais, menos comerciais. Ou mesmo equipes maiores, por exemplo, a HF lá de BH. No mais, para crescer você precisa abandonar um pouco o desempenho. Por isso que se você quer levantar 180kg no Terra, não será na famosa rede de academia que você irá encontrar o melhor treino para isso.

 

E onde você acha isso? Não me faça pergunta difícil. É sempre mais fácil falar o que é errado (achar que é em assessoria você vai virar elite B) do que o que é certo, que muitas vezes não sabemos. Mas é inegável, há um enorme conflito entre correr bem quando quem busca um grupo muitas vezes no fundo no fundo quer outra coisa, seu aspecto social. E como sempre digo: não há NADA de errado em não correr rápido.

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Números de uma grande Maratona brasileira

Recebi ontem um e-mail marketing da Iguana Sports falando de sua Maratona, a SP City. Há ali números interessantes! Primeiros, falemos de hidratação, compromisso (ou obrigação) de quem coloca milhares de pessoas para correr ao mesmo tempo. Entre água (cerca de 45.000L), isotônico (~15.000L) e refrigerante (300L), haverá no evento de julho cerca de 60.000L de líquido para hidratação. Dividido por 11.000 pessoas, número de participantes que largaram em 2017, temos 5,5L para cada corredor.

Isso dá pouco menos de 600ml para CADA 3 QUILÔMETROS por pessoa. Obviamente que há ajustes, como as perdas inerentes de um posto estar no início da prova ser pouco requisitado, ou ainda os maratonistas que, por uma intensidade menor de esforço (por tempo), beberem menos água.

Se a média por corredor em função da distância (3km) não agrada, vejamos pelo tempo. Levando o tempo de conclusão como parâmetro, temos que cada corredor terá como hidratação:

475ml a cada 15 minutos OU 635ml para cada 20 minutos, bem acima de qualquer uma das já exageradas recomendações de hidratação.

Você pode ainda alegar que é uma informação não-crível, papo de vendedor, no caso, a Iguana Sports. Tenho que dar o voto de confiança a eles por 2 motivos: primeiro que só assim o meu texto seria possível e segundo e mais importante porque já trabalhei para eles e tive EU certa vez que fazer esses cálculos. E os números eram já tão grandiosos que era desnecessário inflá-los mais.

Mas o número que chama atenção e que deveria ser explicado por qualquer um que alega que as corridas custam muito menos do que os preços praticados, é o de envolvidos no trabalho. São cerca de 1.500 profissionais (entretenimento, fotografia, filmagem, segurança e limpeza NÃO constam na imagem), todos devidamente pagos (não temos o hábito de ter voluntários como nos EUA, por exemplo).

Para colocarmos em perspectiva, há mais gente trabalhando nesta prova do que correndo em qualquer outra maratona brasileira com exceção de Rio, SP (Yescom), Curitiba e Porto Alegre. Há mais profissionais envolvidos que atletas PARTICIPANDO em mais de 100 Meias Maratonas pelo Brasil.

Como pagar tanta gente? Como oferecer e transportar água (um produto pesado) ao longo de tantos quilômetros? Tem que ser muito ingênuo para achar que as fabricantes de água oferecem gratuitamente seu produto (isso não existe). Isso envolve trabalho, muito trabalho. Mas o corredor continua achando que organizar corrida é fácil, mais que isso, BARATO e deixa qualquer um rico. É como se algo que você vai comprar brotasse na prateleira.

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Corrida é SIMPLES. Complicar é para vender ou para se dar mal.

Um dos textos que mais gostei de escrever ano passado foi um que definia uma grave síndrome que aflige os corredores de assessoria (ou não) Brasil afora: a Treinandus Poucus Demasiadus Papus. Basicamente explico nele que para melhorar na corrida, basta correr mais. Por algum motivo me vi em meio a notificações de pessoas que chegavam a ele quase 1 ano e meio depois.

O texto não é muito diferente do que disse muito bem Alex Hutchinson ao final do ano passado. Em seus 7 pilares da sabedoria na corrida, Hutchinson repete com outras palavras o que eu disse. Entre elas: se vem em uma embalagem, é improvável que te faça correr melhor. O melhor equipamento (gadget) que existe está na sua cabeça. Quer correr melhor? Corra mais. Ignore a ideia de que existe treino mágico ou atalho.

Por coincidência estava para comentar um texto muito interessante que fala sobre predição do tempo de corredores em maratonas. O texto retoma indiretamente algo que gosto sempre de enfatizar aqui e é algo que todos sabemos ou deveríamos saber: a corrida é, dentre as modalidades olímpicas, talvez a mais simples. Correr pode não ser fácil, mas é SIM simples. Envolvê-la em uma aura de complexidade é bom apenas para quem a tem como produto. Você valoriza justamente aquilo que você vende.

Já ouvi e não foi pouco que você teria que buscar alguém diplomado para aprender a correr. Dias atrás na TV algo bisonho: um ex-atleta olímpico ficou uma ou duas semanas apenas correndo na esteira porque isso “serviria para evitar lesões”. É um nonsense! É uma bobagem que nem quem defende isso consegue explicar sem se atrapalhar! Se deixarmos essa categoria de profissional cuidar da corrida, em breve você terá que fazer cursos antes de correr seus primeiros 5km. Será mais ou menos assim com nossas crianças:

  1. No ensino básico os treinadores (com diploma e CREF) passarão textos e livros para que as crianças possam ler sobre corrida;
  2. No ensino médio irão fazer trabalhos sobre corrida;
  3. E só na faculdade, enfim, poderão correr.

 

Em uma ou duas gerações com essa mentalidade e nos convencerão que sem aprender com quem tem o combo CREF-diploma não seremos capazes de correr!

Voltando ao texto sobre predição de treino em maratona, ele é importante por 2 motivos. Um deles bem claro. De cara você descobre que as fórmulas mais usadas são EXTREMAMENTE agressivas, acabam “quebrando” muita gente que sai forte, tentando um tempo irreal. Para sermos mais exatos, apenas cerca de 5% consegue atingir o tempo previsto (coluna verde abaixo)! Segundo o novo cálculo (coluna vermelha), para determinar o seu tempo nos 42km você deveria ser bem mais conservador sob o risco de quebrar feio. Faz todo o sentido.

Mas o que não está claro a quem lê é como reforça a simplicidade do treinamento. O autor do artigo nos mostra que justamente os atletas mais rápidos conseguem tempos mais próximos do previsto. Até aí é pura curiosidade, mas depois vem outro gráfico: os corredores mais rápidos correm maior volume semanal.

Eu disse em meu texto original, eu preciso de apenas UM marcador (ou variável) para saber quem corre mais: quem correu mais quilômetros no treinamento. Não me importa tênis, suplemento, metodologia ou mesmo um dos pontos mais sobrevalorizados que existem, a periodização. Quero e preciso saber apenas quem correu mais quilômetros. Só isso.

O autor estabelece metas de volume em função da velocidade. E adianto: americanos e britânicos priorizam muito volume! E quando os dados são colocados em gráficos temos que os mais rápidos (abaixo de 3h00) correm bem mais em seus 5 maiores longos e, MAIS IMPORTANTE, mais quilômetros FORA dos treinos longos!

O autor não faz correlação com GPS, com tipo de pisada, com fisioterapia preventiva nem nutrição, ele mede quem gastou mais o lombo correndo no asfalto. Simples. Quer melhorar? Corra. Qual ritmo? Isso é o de menos, CORRA! E veja só que “engraçado”: quem mais corre, melhor corre. E quem mais corre ainda tem mais chance de chegar a um tempo previsto “agressivo”.

Quanto mais quilômetros nos 5 maiores longos, maior a velocidade…

Eu escrevi tudo isso a algumas horas de participar de mais uma reunião em um ambicioso projeto envolvendo muitos profissionais sobre estudo da corrida. Não posso falar a respeito, mas as reuniões, que tinham apenas eu e mais um como treinador envolvido, caía eventualmente na importância de aspectos que na teoria parecem ser importantes, mas na prática pouco comprovam sua importância.

Periodização, tipo de pisada, alongamento, ter treinador, ter planilha… teriam isso importância na redução de lesões? Hoje não existem evidências que deem suporte a nenhum deles! Incrível, não? Na verdade, é mais fácil encontrar bons levantamentos que digam justamente o contrário (menos com periodização, que só não se mostrou ainda sequer importante).

Esse é um dilema atual, presente no debate. A teoria diz uma coisa, mas se você quiser ir bem, tem que ignorar boa parte dela! Porque mais do que não ter sido posta à prova, ela parece não funcionar muitas vezes. Vou para fechar usar outro exemplo.

Dias atrás fui em um evento de corrida e encontrei um maratonista amador que é tudo menos rápido e é tudo menos lento. Ele treinou para uma maratona mais longos do que eu treinei para minha primeira (e única) ultramaratona. Se eu treinasse o que ele treinou eu não chegaria à minha prova. Algumas coisas ficam bonitas nos livros de fisiologia. Pena que não funcionam. Ele toma mais gel por mês do que eu em um ano. Quando na verdade o treinamento deveria preparar para aquilo que você NÃO tem. Por que oferecer carboidrato ao corpo nos 42km quando você precisa ensinar o corpo a queimar gordura? É mais ou menos como você pegar um brasileiro iletrado, levá-lo para viver em Paris e dar aulas de… português. NÃO! Deixe que ele melhore o português sozinho, isso não é problema seu, ele tem que ter aula é de francês! (*aqui Mark Cucuzella explica didaticamente sua abordagem dos motivos para treinar como queimar mais gordura como combustível correndo 42km em uma super dica da Paula Ferreira).

Quanto mais aulas de português, menos tempo para francês, quanto mais gel na cabeça, menos o corpo pode aprender a usar gordura. A corrida é simples, é “fácil”, mas por um misto de ignorância conveniente ou por não conseguir ler o básico você vê pessoas complicando, errando. É de dar nervoso!

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Um pouco da Boston que muita gente não vê nem viu.

Uma das análises mais certeiras e sensatas feitas antes da última Maratona de Boston foi feita por Steve Magness: o clima adverso é o maior equalizador de desempenho em uma prova. Todos ficam assim mais parecidos, desaparecem os recordes pessoais e os season best. Aí a disputa é para ver quem tem mais garra.

Muito se falou que a vitória INCRÍVEL (mas não 100% inesperada) de Yuki Kawauchi seria algo como uma redenção, que ele seria um representante amador dentre tantos profissionais bem pagos. Essa leitura é algo que fica entre a pressa e uma leitura incompleta do cenário. Como muitíssimo bem disse o escritor Adharanand Finno japonês é o último e o maior dos guerreiros, sua vitória veio coroar sua vitoriosa carreira.

Kawauchi, diferentemente de um Galen Rupp, por exemplo, não vive “da” corrida (e essa ênfase se faz necessária), mas ele vive “para” a corrida. Mas de amador no sentido da palavra ele não tem muito mais. Ele não é tão amador sequer quanto o eram os atletas das décadas de 60 e 70 que ganhavam dinheiro por debaixo dos panos, equipamento e apoio. Isso porque o japonês recebe prêmios em dinheiro e material, muito material. Ele é praticamente um atleta profissional que complementa sua renda com outro emprego. A decisão de não ter um clube pagando seus salários é uma escolha que traz alguns grandes benefícios ao atleta (ele precisa competir “apenas” as provas que escolhe). Ele está para o amadorismo tanto quanto aquele conhecido que ganha R$300 de vez em quando para correr por um supermercado em provas pelo interior está para o profissionalismo. Yuki não é um amador. O tal Fulano não é profissional.

Vale aqui ainda ressaltar que a enorme maioria dos atletas ao longo dos tempos, e a regra vigente na modalidade na absoluta maior parte da história do atletismo, exigia que os atletas fossem amadores. Kawauchi é um caso raro que segue cumprindo algumas das finadas “obrigações”, mas ele NÃO seria considerado amador JUSTAMENTE quando essa definição mais era decisiva, essencial para a elegibilidade de um corredor.

NÃO, quando analisado, Yuki Kawauchi não é amador.

 

Agora vamos à parte de que ele “seria um de nós”.

Sinto-lhes informar, o japonês está mais próximo de Abebe Bikila e Eliud Kipchoge, os 2 maiores maratonistas da história, do que qualquer amador que você conheça. Ele não é um de nós. Há duas coisas que podemos falar de atletas que disputam de forma protagonista um evento major (Mundial, Jogos Olímpicos, por exemplo):

 

  1. Eles são outliers, fora da curva, são “especiais”.

Kawauchi aguenta cargas competitivas e mesmo de treinos que estão absolutamente fora do comum. Um fora do comum não pode ser um de nós. Neste domingo ele correu uma Meia Maratona em 1h04. Na 5ª feira, 6ª feira e sábado imediatamente antes da Maratona de Boston (que é realizada sempre em uma 2a feira) ele correu diariamente 20km, em ritmo progressivo cada treino. Isso não tem nada de comum!

 

  1. A maioria dos atletas de ponta do atletismo, a elite, se dopa.

Isso, infelizmente, é algo que não podemos ignorar. Eu não quero entrar na questão se ele se dopa ou não. É irrelevante (ainda que eu acredite, ou espero acreditar, que não). A maioria dos amadores não faz isso, não treina 60km em 3 dias antes de uma prova importante nem treina 160km de forma rotineira semanalmente.

 

Não, Kawauchi não tem nada de normal, não tem tudo que caracteriza um amador.

 

Eu escrevi tudo isso não para diminuir Kawauchi. Se você entendeu assim, recomendo que releia o que escrevi. Estou aqui porque acredito que a melhor de todas as histórias de Boston vai passar despercebida por mais de 90% do público.

A vitória japonesa foi emocionante. A vitória da que seja talvez a atleta mais consistente em maratonas, a de Des Linden, que quebrou um jejum de décadas sem vitória de uma mulher local também foi igualmente emocionante. Principalmente quando você descobre que ela pensou em não largar, quando no 5km comentou com Shalane Flanagan que estava prestes a abandonar a prova.

 

Mas a melhor história para mim é de uma amadora: Sarah Sellers. A americana surpreendeu a todos (e a ela mesma). Como ela nunca havia corrido uma maratona, correu uma prova para obter o índice (correu em 2h44) para poder se juntar ao seu irmão que pretendia correr em Boston. Sellers é Amadora (com “A” maiúsculo). Sellers, uma enfermeira em tempo integral, é mais próxima daquele seu conhecido(a) amador que treina todos os dias, tira dinheiro do bolso, paga a própria inscrição, compra seu próprio equipamento, corre como um “comum”, tem um passado atlético.

Sarah Sellers é para mim uma prova de que, com os astros devidamente alinhados, com um “espírito guerreiro”, com um clima “equalizando” os atletas e com muita dedicação de quem corre humanamente, nada outlier, 100km semanais mesmo ao final de um dia de trabalho, você pode SIM entrar e mais do que não fazer feio, fazer bonito mesmo entre alguns dos melhores do mundo.

Sim, Sarah foi um de nós no maior palco da maratona amadora!

 

*Jessica Chichester é outra que “nos” representa, inclusive largando atrás da elite

 

**se você gosta de histórias especiais, talvez goste desta recente: um goleiro amador de hóquei sobre o gelo foi chamado para ficar emergencialmente no banco de reservas de seu time de coração em uma partida da NHL (a NBA desse esporte). O improvável acontece. O goleiro titular se machuca e ele tem que entrar em quadra. Mais. Ele faz 7 defesas e é o MVP da noite. Uma noite para não se esquecer jamais. Goste ou não de hóquei.

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