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Os U$250 no Nike Vaporfly são garantia de 4%?

Dias atrás pelo perfil do Correndo por Aí no Instagram cheguei a um vídeo incrível do Run’Ix. Eles basicamente são um perfil (também no YouTube) com imagens de corrida-raiz. No vídeo em questão podemos ver 3 quenianos (??) disputando os 10km Port Gentil no Gabão. No pé de um deles vai o tênis que encanta a amadores e a quem é pago para falar bem do tênis: o Nike Vaporfly 4%. A mais nova sensação da Nike tem esse nome porque poderia aumentar em 4% a eficiência de corrida de quem o usa. Poderia.

Coisa de um mês atrás o The New York Times publicou um estudo fantástico, incrivelmente detalhado que daria razão à propaganda: sim, quem usou o Vaporfly da marca americana realmente correu mais rápido.

Mas…

 

O estudo em questão observou 500.000 marcas em provas de Meia Maratona e ainda 42km. É muita coisa! Mas porque deveria ser visto com reserva? O primeiro motivo é que esse tipo de estudo devido sua metodologia serve mais para levantar hipóteses, porém, sem poder estabelecer com segurança o que é causa ou consequência. Esse tipo de levantamento estabelece, sim, uma correlação. Abaixo vai um gráfico que parece sugerir causa e efeito entre as duas variáveis, mas trata-se apenas da qualidade de música versus a produção de petróleo nos EUA. Há relação entre elas? Sabemos que não.

Apenas ensaios clínicos randomizados e bem controlados poderiam nos responder: sim, o Vaporfly faz os atletas correrem mais rápido os 21km ou 42km (ou mesmo mais lentos). Mesmo meio milhão de corridas, no modo como foram organizadas as análises, NÃO permitem que tiremos conclusões, no máximo especulacões.

O que me incomoda muito no levantamento do The New York Times que, insisto, é um trabalho no mínimo fantástico, é como temos que ser sempre cuidadosos, céticos. Por alguns motivos. O primeiro em função do healthy user bias, o viés do paciente bem comportado. Esse é autoexplicativo. O indivíduo é tão correto que acaba distorcendo nossos dados. O Vaporfly custa cerca de U$250, é um tênis com pegada de desempenho. É um sinal, ao menos para mim, bem claro de que ele é uma espécie de trunfo que só será usado quando os astros se alinharem para aquele corredor dedicado. O próprio veículo meio que se questiona ao final “(e) se os corredores correram em Vaporfly apenas quando pensavam que poderiam ter sua melhor corrida, poderíamos esperar ver menos deles em dias com condições abaixo do ideal.”

Outro motivo é que a informação é fornecida pelo próprio corredor (via Strava). Quem é corredor sabe como filtramos aquilo que queremos que os outros vejam (e aquilo que não queremos que os outros saibam). Apenas questionários sobre comportamento sexual e comportamento dietético devem ser mais imprecisos e seletivos que os de corrida. E por fim, por que não?, o efeito placebo. Por que alguém não correria bem quando falam que com aquele produto de U$250 ele será 4% mais rápido??

Argumentar que a base de dados é grande pouco importa! Base pequena atrapalha, base grande não necessariamente ajuda! E por fim, voltamos ao vídeo inicial.

É desesperador ver um dos quenianos correndo com esse tênis. Se você não viu ainda o vídeo, veja e repare na parte em câmera-lenta, o queniano da esquerda, em 3º, correndo com o modelo da Nike. A minha descrença (e aqui não vai NADA contra a marca, que é provavelmente de longe a minha preferida), é como ESTE corredor tem um padrão não-natural calçando o tênis. Para o texto não virar uma sequência de tecnicismos, temos que saber sempre que cada atleta em diferentes velocidades tem padrões de pisadas diferentes. Como fazer um tênis atender a cadências e velocidades tão distintas? Isso não existe! Veja que o atleta do vídeo parece correr com um travesseiro aos pés que mais tira seu padrão ideal e natural do que qualquer outra coia..

E aí assim chegamos a meu último ponto.

Se você reparar na tabela dada na matéria com os tênis que propiciariam chances de recordes temos que justamente são os tênis mais leves e do tipo competição que lideram o ranking (com o Vaporfly à frente). E tênis “mais estruturados” (aquele nome que a indústria dá para tênis pesados que não oferecem mais do que apenas conforto e peso) são os mais correlacionados com… piores marcas.

Porém, isso todo mundo já sabia! Ninguém calça um tijolo como o ASICS Kayano ou (qualquer) um da Hoka One One se você quer correr rápido. Só se você for um desaviado, um patrocinado, um influencer ou um gerente de produto de uma dessas marcas você opta por eles ou por um Mizuno Wave Inspire! E quando olhamos na parte de cima vemos justamente os modelos mais leves. Lógico!

Bom, acho que a essa altura você já viu que eu sou cético, BEM cético, quanto a essa melhora que o Vaporfly ofereceria. Para mim ainda é mais uma questão de associação. Mas posso estar errado, lógico. Pode haver um benefício que é improvável demais que seja generalizado por causa da individualidade do padrão de corrida. E para isso basta lembrarmos que no projeto mais ambicioso que a marca já fez, o tênis fez pouco, quase nada, ainda que escolhendo os atletas a dedo.

E se é 4% para um e -10% para outro, como chamá-lo?

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De Desafios, a crise da meia-idade e o wannabe influenciador!

Um texto de chamada forte chamou minha atenção: demonstração de extremo atleticismo é a nova crise de meia-idade. O texto me chega uma semana depois de outro rodar o mundinho na corrida com o autor falando de uma doença gravíssima e muito séria: pessoas estão colocando Ironman e Maratona no currículo profissional. Como corredor, tenho medo de pegar uma doença tão grave.

Eu sempre tento ser cuidadoso quando toco nesse assunto porque parece haver não juízo de valor, mas se as pessoas poderiam ou não fazer o que elas fazem. Elas podem! Sempre! Não se discute isso! Porém, uma coisa que o texto original nos traz é uma questão de fato (não de opinião): o público de maratonas, ultras e triatlos de longa distância são pessoas de 40 a 49 anos, de renda e escolaridade acima da média. É coisa de adulto, que paga as contas e que tem dinheiro para comprar um de nossos bens mais valiosos, o tempo. Ou tente convencer uma dona de casa de baixa renda que ela pode deixar de fazer afazeres doméstico para fazer longão em ritmo de amador. Ela vai achar que você é louco.

 

Tenho muita experiência com esporte universitário e afirmo: é muito difícil fazer jovens correrem. Eles já (ou ainda) têm saúde, não chegaram à crise de meia-idade que os obriga a pedir biscoito (o “parabéns” nas redes sociais). Isso porque a garota tem a jovialidade ao seu lado que lhe garante elogios sem fazer muita força. Já o cara tem esportes mais legais que a corrida para ir conquistar o mesmo destaque. Veja bem, correr é chato, monótono, aborrecido e agride demais nosso corpo (triatlo é 3 vezes isso, só que agride bem menos). Um cara que joga handebol ou basquete bem, por exemplo, pode praticar algo que lhe dá enorme satisfação sem exigir desconforto 90% do tempo, como faz a corrida. Corrida é esporte de gente velha, sem talento para outras coisas. Aceite que dói menos.

Correr/triatlo é ainda coisa de gente velha que investe nesses eventos buscando algo em troca. Seja a saúde (que vai se esvaecendo com o tempo, essa entidade invencível e inexorável), seja reconhecimento. Que ninguém se ofenda, pois eu escrevo. Quem diz escrever não se preocupando em ser lido está claramente mentindo. Nunca acredite em artista que diz fazer apenas por amor (*aqui um adendo, nunca, jamais acredite em um ator em qualquer assunto). Isso é bobagem. Ele poderia ficar cantando no chuveiro ou interpretando somente ao cachorro dele. Ele quer público. Se não quer ser lido, não use a internet, tenha um diário de papel. Se está nas redes sociais sabemos o motivo. E sem modéstia, que nada mais é que a vaidade esperando aplauso.

Quer exemplo maior do que o que aconteceu semana passada com falsos perfil da adidas e da Nike enganando centenas de milhares de pessoas? Como diz um grandessíssimo amigo, o fingimento é o mal do século e de nossa sociedade.

Esses falsos perfis eram toscos demais e, ainda assim, quando fui dormir um deles tinha 4.000 seguidores e no dia seguinte eram mais de 100.000, reforçando a mim que velho e internet não combinam porque eles não podem ver uma vergonha que correm lá para ir passar. Porém, eu toquei no assunto fingimento porque a pessoa que corre por correr, ela já se completa. Ela não precisa exteriorizar um significado (você correria uma maratona se não pudesse contar a absolutamente ninguém?). Mas há uma insistência na ideia de que a corrida te faz melhor. Mentira enorme. O que esse golpe nos mostrou foi que dentro de cada corredor parece haver um wannabe (gíria do inglês quero ser) que finge correr de graça.

O que me assusta na época de BBB é quantas pessoas desejam ser famosas por… serem famosas. Isso é uma fama que obviamente não se sustenta por si só (a menos que você seja um/uma jovem sexy, daí dura até os 30 anos). Os famosos longevos o são em função de algo que faz bem, profissionalmente. E pudemos nesses falsos perfis observar na vida real como as pessoas querem ser famosas, influenciadores pela sua corrida amadora. Ela é a escrita aplicada ao mundo da corrida. O corredor/triatleta amador tem um enorme desejo de ver sua história ser contada, ser lida, a ponto de ficar fazendo isso por horas seguidas bem lento para que alguém mais o veja. É ISSO que o completa. O amador parece correr somente e somente se puder ou tiver sua história contada.

E nisso parece haver um significado de completar algo que lhe falta. O texto, e aqui eu discordo completamente dele, fala que treinamos para poder nos garantir de modo mais saudável anos à frente. O que o caso dos CVs com a marca do IM ou o desespero de ver sua história de amador ser contada por alguém que nem apresentou suas credenciais em troca de uns equipamentos, me dão a certeza que o esporte de ultra/longa duração sendo intrinsicamente tão chatos (e POUCO desafiadores), só encontra terreno fértil porque é um jeito de adultos termos nossa vida contada e vista pelos demais. Sem nos darmos conta, reforço, completa algo (seja saúde, talento, auto-estima, significado…) que falta em cada um. Os 15 minutos de fama prometidos parece vir à custa de muitos e muitos quilômetros.

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De Café, Placebo & “skin in the game”…

Já não acompanho mais matérias sobre café e cafeína na corrida. Não há como acompanhar esse tipo de abordagem no volume que são publicadas ou requentadas frequentemente (é isso que fazem portais e perfis de saúde, agem como revistas de adolescentes dos anos 90 que não existem mais, sinal claro de que não são terreno fértil para buscarmos informação com um mínimo de qualidade).

Primeiro porque estudos dos 2 lados não faltam, seja provando ou “desprovando” X ou Y, que consumir faz BEM ou faz MAL. Lembremos que você consegue achar pesquisas para tudo, por isso a maior parte delas é puro ruído, não sinal. Sinal você encontrará utilizando 2 recursos: o TEMPO e quando existe SKIN IN THE GAME “pele em jogo”).

Uma heurística (ou proxy ou regra) muito simples que uso com Esporte e Nutrição quando o assunto é suplementação passa por quem usa ou o recomenda. Se vem de acadêmicos, simplesmente não me importa nada. Por quê? Eles não têm “skin in the game”. No esporte o resultado é soberano. Já o sonho do acadêmico não sobrevive à realidade. Se o acadêmico vivesse fora do mundo de unicórnios, estaria no esporte. Acadêmico é aquela pessoa que sabe dar uma aula teórica sobre natação, mas que você jamais teria como salva-vidas da piscina da escola do seu filho. Isso é skin in the game.

E o que diz o mundo real sobre a cafeína?

Antes, vamos à minha sequência de proxy para suplementos:

1. Se o suplemento não foi banido, provavelmente não é efetivo;
2. Se o suplemento é efetivo, provavelmente já foi banido;
3. Há algumas exceções. Porém, não sabemos quais.

Duvida?

No caso da cafeína ela era anteriormente proibida pelo COI. Sabe o que aconteceu quando ela foi liberada? Seu consumo entre atletas CAIU. Por quê? Porque a liberação era um sinal claro de que ela NÃO melhorava tanto o desempenho. Lembrem-se: o acadêmico que fala que jejum não deveria ser feito entre atletas ou que tenta determinar protocolos de consumo de cafeína NÃO tem “skin in the game”, atletas SIM.

Voltando à cafeína. Ela é um estimulante. Porém, nosso organismo cria tolerância a algo em função de 2 variáveis: frequência e intensidade. Vejamos o caso da pimenta. Caso você se sente à mesa com um baiano (ou um tailandês ou um mexicano) verá que terá enorme dificuldade de acompanhar o consumo deles de pimenta (ou outros condimentos). Isso porque eles consomem em enorme frequência e/ou intensidade esse alimento.

Com a cafeína não deixa de ser parecido. Há pessoas mais sensíveis (como o há, por exemplo, com o consumo de sal) e menos sensíveis. Um consumo regular de cafeína (seja na forma de café, refrigerante cola ou energético) atinge pessoas de forma individual e pode gerar uma sensibilidade diferente com o tempo (em função da frequência e intensidade, lembra?).

Mas o mais importante é: SIM, a cafeína pode gerar estímulos (positivos) na prática da atividade física, mas eles são de forma individual (de acordo com nossa tolerância ou sensibilidade). E o mais importante: estão longe de serem garantidos OU do tipo “mais é melhor”, se fosse, os atletas continuariam a usar independentemente do que dizem os acadêmicos sem “skin in the game”.

Se você consome uma xícara de café e vai correr e se sente bem, siga o jogo! Quer experimentar duas? Tente, experimente! Agora se você acha que 18 xícaras te fará mais veloz ou segue recomendação de acadêmico sem “skin in the game” achando que pode ser melhor que a prática, eu tenho uma má notícia a te dar…

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Treinador Clandestino!

Danilo Balu
autor

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Os defensores da corrida têm um histórico fraco..

Ontem estive na SP City Marathon que, confirmado seu sucesso, passará a ser a segunda maior maratona do Brasil. Não é pouco para uma prova sem TV nem total apoio da administração! “Em off” descobri também que já no ano que vem a Iguana Sports irá oferecer medalhas Top 100 para homens e agora também mulheres (que recebiam 30 até então). Sei que estou ficando velho quando vejo minha enorme preguiça de saber que oferecer medalha Top 100 às mulheres virou textões. No plural.

Isso é sinal que os tempos, ao contrário do que dizem, estão BEM menos sombrios. Antes mulheres tinham necessidades mais urgentes e essenciais, sinal claro de nossa evolução como sociedade. Mas talvez seja necessário explicar melhor.

Essa história de medalha top-não-sei-o-quê veio com mais força em 2011 na finada e repaginada Golden Four ASICS. Apenas (e minha memória pode me trair) em 2014 ela virou Top 100 para homens e Top 20 para mulheres. Por quê 20 e não 30 ou 50 ou 100? Vários motivos:

  1. Números redondos são maluquices da cabeça de corredor;
  2. Mulheres eram à época apenas 20% das concluintes. Não fazia sentido distribuir um número iguais de medalhas porque…
  3. A ideia era despertar desejo;
  4. Por fim, custo.

Uma das críticas é que Top 20 (ou 30) não é proporcional à participação feminina. Bobagem. Quem quer só reclamar reclama. Qualquer que fosse o número, mesmo que fosse estendido à terceira casa depois da vírgula, resultaria em reclamação, afinal, a participação feminina flutua evento a evento. Havia a necessidade de o número ser arbitrário.

Enfim, foi 20 porque o intuito sempre foi despertar desejo. É e foi assim em todas essas provas.

Por fim, o custo.

Algumas pessoas vão dizer que sim, mas afirmo com segurança uma frase cunhada por um Nobel em Economia: não existe almoço grátis.

Medalhas banhadas à ouro têm um custo que tenho certeza que nenhum corredor amador imagina qual seja. Quando alguém vem e diz que é injusto e fruto de machismo “por um valor tão baixo” não premiar 100 mulheres, se a pessoa for REALMENTE honesta, tem a obrigação moral de arcar com o valor. Ao não fazer isso, não pagar, você não defende um princípio de igualdade, você apenas endossa e aceita um princípio (machismo) que diz condenar. Você combate o machismo independentemente dos demais e das demais instituições.

Falo isso porque, sim, houve a acusação GRAVE de chamar ou sugerir machismo a um evento que não premia 100 mulheres. Se eu abro o perfil da pessoa que faz essa argumentação e a acuso de racista porque ela não tem muitas fotos com negros, essa é uma acusação grave e rasa. Se eu vou no perfil de outra e a acuso de homofóbica, esta é uma acusação grave, muito grave. Por que sugerir machismo quando há menos medalhas para mulheres?

Porque talvez nem todos entendam direito o esporte.

Homens e mulheres não são iguais. Ponto. Mas devem, SIM, ser tratados iguais. Devem. E são. Recebem medalhas e prêmios iguais. Mas há nuances que o esporte tolera. Por quê? Porque o esporte se pauta, entre outras coisas, em firmar regras para buscar de forma justa aceitar a inaceitável e inegável diferença.

No atletismo homens e mulheres lançam e arremessam implementos de pesos bem diferentes (cerca de 100% de diferença), correm com barreiras de alturas distintas . Essa é uma forma encontrada para:

  1. Aumentar a intensidade do esporte, aumentando nosso interesse;
  2. Evitar comparações que inevitavelmente desvalorizariam as mulheres, naturalmente mais fracas que homens.

Tempinho atrás esses “defensores do esporte igualitário” fizeram seu estrago nos EUA. Nas categorias menores os meninos corriam provas de 3 milhas e mulheres de 2 milhas. Qual era a reivindicação? Que os adolescentes corressem todos a mesma distância. O que os tolos não sabiam é que a intensidade do esforço era a mesma, visto que meninos e meninas corriam quase no mesmo tempo. Ao igualarem a distância, elas fizeram as garotas correrem agora por mais tempo, em menor intensidade, sendo diretamente comparadas com meninos (perdendo a disputa) e despertando menor interesse (o ser humano tem prazer em descobrir quem é o melhor, sem se importar se ele é cromossomo XX ou XY).

Agora imagine o cenário hipotético, que as crianças disputassem a prova por tempo. Garotos em provas de 10 minutos e meninas em provas de 13 minutos. Os organizadores seriam acusados de machistas por exporem garotas a um maior tempo de esforço. Faz sentido? Não, não faz.

As regras em várias modalidades esportivas “facilitam” as regras femininas (o termo correto seria “adaptam”) para gerar interesse, desejo, aumentando a intensidade.

2019 nem chegou e a organização já espera reclamação de corredoras que irão reclamar da facilidade. Isso porque quem briga pelo direito das mulheres nem está envolvido! Eles têm zero skin in the game! Nos 3 anos que trabalhei com o Top 100 exclusivo presenciei inúmeras mulheres que queriam ser top 100 porque ela não era exclusiva aos homens. ESSE era o desejo. Isso também foi tirado (ainda que a um bem maior, utilitarista, o “greater good”).

Pois vejamos…

A diferença média do desempenho entre homens e mulheres no atletismo é da ordem de 11%. A diferença entre o homem Top 100 e a Mulher Top 30 nas 3 últimas edições das City Run (Rio, SP e DF) é de 12,8%. Sabe qual a diferença entre os mesmos homens e a Mulher Top 100? 22,6%!

Na ânsia por serem visionários, justiceiros, justos, feministas, na base da marretada tiram um dos motivadores no esporte: o desejo que a escassez gera. Pior: vindo de pessoas que NÃO são prejudicadas nem estão envolvidas nas atuais regras!

E por que alguns fazem isso? Para explicar destaco um daqueles textos que não canso de reler.
Seria legal, seria interessante ver o pessoal parar de tentar ser inteligente. Sério: esse negócio de ficar pensando muito profundo deixa ruga em vocês. Além disso, causa uma certa sensação de que você é um gênio: “nossa eu sou perspicaz pra caralho, eu enxergo além do que as pessoas comuns enxergam“. Não enxerga, não, meu filho; você é normalzinho como nós também. 99% das análises muito aprofundadas na internet vêm dessa doença de achar que você é capaz de fazer uma análise mais profunda que a patuleia. Quando você fica mexendo com o intelecto e achando que foi premiado, você esquece de OLHAR PRO MUNDO. É daí que vem tudo que é tipo de escrotidão, porém a escrotidão das mais perversas (que são as escrotidões cientes de si). Por exemplo: “tem que ver o que está ‘por trás’ da prisão do Cunha” e começa toda uma análise crítica do porquê teriam prendido o Cunha, sendo que a resposta está bem ali à vista, explicada, mostrada, basta abrir os olhos e parar de achar que teu cérebro vai desvelar o que ninguém desvela. Porque não há sustentação teórica que se sobreponha à realidade concreta. Essa é a diferença entre uma pessoa “ANALISAR” a realidade e uma pessoa ENXERGAR a realidade. Toda análise vem EM DETRIMENTO da realidade que está ali, ela é dada, como um presente. Mas que você se nega a ver porque ela é acessível a todos e você não quer ser todos. Você quer ser o cara que “vê além“. Isso é uma doença. Sem contar que é chato pra caralho. Pensa assim: a vida real é como você ali esperando pra atravessar a rua. Tem o sinal vermelho e o sinal verde. Você olha o sinal verde e ele SIGNIFICA que você pode atravessar; você olha o sinal vermelho e ele SIGNIFICA que você não pode atravessar. Você não precisa parar e pensar “nossa, mas será que o verde realmente quer dizer o que ele quer dizer?”, “será que o sinal vermelho não é alguém que está querend…” – e o sinal fechou de novo. O resumo de tudo é que não há significado FORA da realidade. Tentando achar algo assim ou você é atropelado ou não atravessa a rua nunca.

Enfim, se dar mais medalhas às mulheres não tira o direito dos demais homens, outro argumento que traz em si uma acusação grave de machismo, afirmo que deixar de dá-las também não mexe com o direito de ninguém!

A coisa está melhorando para as mulheres corredoras, e isso é ÓTIMO. Mas tentar na marretada acelerar essa mudança naquilo que VOCÊ acha melhor, pode ser um belo tiro pela culatra.

Vamos todos correr mais e fazer textão de menos!

p.s.1: quem teve uma saída com estilo foi a New Balance que em sua prova de 15km distribuiu 15 medalhas para cada sexo.

p.s.2: a alternativa mais fácil à organizadora é tirar TODAS as medalhas Top. O desgaste (e o custo) é menor. Quando isso acontecer, os defensores do “medalhas Top banhadas a ouro a TODOS os corredores” não estarão aqui para serem responsabilizados.

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TRATAMENTOS DA MODA. Ou ainda “A Natureza sempre dá um jeito”

Uma teoria apresentada em um congresso recente com resultados preliminares encontrou que corredores que pisam com o calcanhar têm economia de corrida similar àqueles que pisam com a parte mais anterior. Basicamente aquele tem uma extensão maior da panturrilha enquanto este teria maior carga. Ou ainda, usando um clássico de Jeff Goldblum em Jurassic Park (1993): a natureza sempre dá um jeito.

A corrida, não podemos nos esquecer nunca disso, é extremamente simples, antiga, facilmente mensurável, acessível e bem disseminada. Tudo que você tentar (e achar revolucionário), é improvável que não tenham tentado antes, então não assuma a priori que nunca alguém tenha pensado e tentado o que você tem mente. É assim que eu vejo alguns especialistas que vivem de enchê-la de espuma.

 

Quando o gelo engana o fisioterapeuta

O mundo dá voltas e a natureza dará sempre um jeito. Parece ter virado praxe a recomendação de aplicar gelo em atletas mesmo em indivíduos não-lesionados. Ignoremos de cara duas verdades do amador: a primeira é que se você paga uma consulta e seu fisioterapeuta/ortopedista fala que você pode voltar para casa sem recomendar nada, você o avaliará como menos competente. Então ele vai mandar você fazer algo que não te prejudique, mas que não o torne um profissional malvisto. A segunda é que todo corredor amador gosta de ser visto como especial, como mais próximo de um atleta profissional (uma mentira) do que alguém sedentário (uma verdade)*. Então ele gosta de ser orientado a fazer algo que seria “para ele” (personalizado) ou próximo do que faz, por exemplo, um LeBron James, que faz gelo ao final do jogo 2 da apertada série de 7 partidas.

*gosto muito da definição da Runner’s World sul-africana que meio que prega que alguém que corra 30 minutos 3 vezes por semana (a maioria absoluta dos corredores) não tenha um estresse fisiológico que impacte e/ou faça qualquer alteração ser necessária.

Não é de se espantar que estudo atrás de estudo encontre que aplicar o gelo após a sessão de treino traria apenas adaptações negativas, contraproducentes ao corredor não lesionado. Eu sempre me pergunto os motivos das pessoas seguirem orientações esportivas de fisioterapeutas, médicos e nutricionistas… sempre acho que é como perguntar sobre hidrodinâmica a pescadores. As coisas se parecem, mas cada um tem seu funcionamento distinto.

Falo isso porque esporte é basicamente gerenciamento de estresse aplicado a um sistema orgânico complexo buscando adaptação. Qualquer prática incidindo em qualquer uma dessas variáveis vai impactar seu resultado. O nutricionista que sugere a ideia estúpida de oferecer uma refeição com proteína e carboidrato (sempre a 4:1!) sem fome impacta o resultado. O fisioterapeuta ou médico que sugere gelo sem lesão impacta a carga. Costumo dizer que essas são ideias tão esdrúxulas, de quem ainda não entendeu o básico, porque seria o mesmo que pedir que a pessoa corra sempre em descida porque as velocidades médias de treino serão maiores, quando no dia da competição a pessoa correrá no plano (ou na subida).

 

O estresse é essencial

O corpo precisa ser submetido ao estresse. Fazer gelo é tirar as condições para que isso ocorra. Isso porque o estresse revela e propicia benefícios que ficam escondidos no conforto. No conforto do gelo para tirar a dor (que não é fruto de lesão), o conforto da palmilha de silicone ou o conforto da refeição a cada 3 horas. Basicamente, podemos dizer que oferecer nutrientes que ele ainda não “pede” é alterar negativamente toda uma rede complexa que é intrinsecamente regulada. O homem parece ser o único animal que vai à mesa sem fome ou que sai dela sem estar satisfeito. E é o único que sofre de algumas doenças crônicas por causa disso. Por isso mesmo…

Não tente enganar a natureza

Por fim, chego a outro estudo interessante, um envolvendo maximalismo e impacto. O resultado de um levantamento é que aqueles que correram com o que é estupidamente apontado como solução por vendedores (mecanismos para reduzir o impacto na corrida) tiveram maiores cargas de impacto em sua corrida. Ou seja, tênis maximalistas geravam maiores cargas de impacto que tênis neutros.

Veja bem, para vender (mais) tênis, vendedores disfarçados de pesquisadores vieram nos dizer que um pedacinho de borracha ao calcanhar melhoraria um trabalho de milhares de anos Do Criador (seja lá quem seja Ele para você). Não tinha como dar certo! A natureza criou e cria o jeito dela de passar por cima disso. Era óbvio que usar tênis grandes mudaria nosso padrão de corrida. Que ao corrermos enfatizando uma parte do pé fariam as lesões apenas migrarem de lugar.

 

O que os profissionais da saúde fazem é mudar para menos a carga de estresse. Só que, ainda que o condicionamento aeróbio seja calibrado pela média da distribuição de cargas, parte deles, os níveis de força, são calibrados pelos extremos (dessas cargas), então, SIM, diminuir essa carga oferendo as intervenções da moda (gelo, crioterapia, meias de compressão, lanche pós-treino, glutamina….) só pode ser contraproducente.

Não caia nessa pegadinha!

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