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Emagrecimento: Xadrez x Corrida

O ano é 1984, o Campeonato Mundial de Xadrez é temporariamente adiado porque o defensor do título, o russo Anatoly Karpov, havia perdido 10kg por causa das partidas.

Em outra edição, 20 anos depois, era a vez do campeão Rustam Kasimdzhanov sair 8kg mais magro.

Eu sempre falo que a ideia de que nosso peso (para mais ou para menos!) é resultado da teoria nunca antes DEVIDAMENTE testada do “balanço calórico” ainda permanece viva e forte é porque ela é apaixonante! (na verdade ela já foi N vezes refutada)

Ela é tão simples! É só jogar um conceito matemático em algo que SABEMOS ser biológico. Nela você ainda joga a culpa do sobrepeso em um fator meio puritano (a gula e preguiça do obeso!) e tira 100% das costas do especialista o caráter de incompetente por não compreender de conceitos básicos de sua área.

Se um profissional de saúde Marciano chegasse à Terra e fosse a um parque público sairia de lá com a teoria de que correr engorda, tamanha é a quantidade de pessoas acima do peso correndo.

Mentira!

Sabe por quê? Porque depois ele iria à África ver quenianos e etíopes magérrimos também correndo e concluiria que não é que corrida engorda ou emagrece.

É que africanos correm PORQUE são magros (e não para FICAR magros). E que os amadores acima do peso correm porque querem ser magros porque aqueles que são pagos para nos emagrecer ainda não entenderam que é uma questão de biologia… É sobre O QUE se come… E que não é matemático, sobre o QUANTO se come.

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Esteira vs Rua: Quais as diferenças?

Nos stories do meu Instagram perguntaram se treinar apenas em pista diariamente seria um problema… SIM. Isso porque o treinamento todo feito num mesmo piso não-natural, criado pelo homem, com uma uniformidade artificial está LONGE de ser ótimo. Com esteira é assim, mas por outro motivo.

A Economia de Corrida de quem treina em esteira é piorada (na rua, que é onde importa). O tempo de contato do corredor na esteira é prolongado, MAIOR do que no piso duro da rua. Quem treina em esteira fica bom de correr em… esteiras! Quantas provas são em esteira? Quando você vai pra rua você aplica então o mesmo tempo de contato (prolongado) no asfalto, uma menor cadência, uma maior amplitude, PORÉM com MENOR agressividade (menor resultante do movimento horizontal, uma vez que não é você quem corre na esteira, mas ela quem corre, você deixa que ela vá pra trás em vez de você ir à frente).

SIM, esteira é conveniente, pode ser uma mão na roda em chuvas torrenciais, ambientes perigosos, horários inoportunos… NÃO, ela não simula adequadamente a corrida. Além disso, 1km é 1km ainda que na esteira. Melhor do que nada, eu sei!

Um problema grande da transferência da esteira é que ainda que você coloque 1% na inclinação, ela exige até 7% menos do que correr na rua. Aqui ela se assemelha ao mesmo pensamento torto e sem lógica corrente na Nutrição Esportiva: facilitar a vida do corredor no TREINO quando o que o treinamento pretende fazer é JUSTAMENTE exigir algo a mais (é burrice da Nutrição, eu sei).

Tenho calafrios quando vejo treinador defender a esteira porque ela dá controle. O ambiente competitivo é NÃO-controlado! Por que automatizar um padrão de corrida que NÃO é aquele que será usado no dia? Não faz sentido algum…

Treinar em esteira vai na contramão do treino em pisos irregulares. A esteira facilita sua vida, dá um padrão facilitado e tem uma estabilidade irreal, não-natural no ambiente competitivo.

Esteira? Só em último caso.

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Corrida e Protetor Solar

Quando postei semanas atrás que não usava nem recomendava protetor solar na corrida começaram os comentários: como assim?!?

Esqueçamos um pouco o desempenho (se muito da elite não usa, deve ter motivo, não queiramos ensinar padre a rezar), já que é uma barreira física à sudorese, um enorme controlador de temperatura corporal.

Eu não uso protetor há MUITOS anos. Se as diretrizes erraram em TUDO o que diz respeito à saúde, meu palpite de cara é que devem estar errados nisso também. A Academia Americana de Dermatologia tem tolerância zero à exposição solar. Está lá no site deles: “Você precisa proteger sua pele do sol todos os dias, mesmo quando está nublado”.

Para mim não faz muito sentido… Nossa espécie é diurna e tem vivido assim e sem cremes com sucesso por milhões de anos. Parece-me ilógico dermatologista dizer que se sairmos sem estar besuntado de creme, morreremos. Olhando pra trás, minha família foi paupérrima a ponto de não ter dinheiro pra cremes. Vou contabilizar aqui os casos de melanomas e/ou câncer na família, relativos e vizinhos igualmente pobres… Zero.

Não pode ser… como dermatologistas poderiam estar errados? (leia em tom de ironia)

As atuais diretrizes americanas de exposição foram escritas às pessoas mais brancas do mundo. Porém, por que pedir que TODOS a sigam? É como determinar consumo de sal usando hipertensos ou carga de treino no agachamento usando pessoas com perna quebrada.

Quando olhamos escandinavos temos um estudo BEM interessante e revelador. Os MAIS EXPOSTOS ao sol tinham MAIS melanoma, PORÉM, eram oito vezes MENOS propensos a morrer com isso. Eu gosto de enxergar o sol também como um estressor, como exercício ou o jejum. Em excesso, faz mal, na medida natural é ESSENCIAL à boa saúde!

Nos 20 anos do tal estudo, os que EVITAVAM o sol tinham duas vezes MAIS chances de morrer.

Nós vivemos em um mundo esquizofrênico que pede que FUJAMOS do sol. Mas estamos deficientes em Vitamina D, que é sintetizada – voilà – com ajuda da luz solar! O que fazemos então? Suplementamos. Loucura, não?!

 

Baixa vitamina D no sangue tem relação com inúmeras graves doenças, distúrbios, problemas cardíacos, etc. E ela é ainda essencial à saúde óssea. Só que sua suplementação falha miseravelmente nos estudos. Os níveis sobem, mas os desfechos (o MAIS importante) NÃO são positivos. Essa vitamina seria assim um marcador, não um fim! (*SIM, você já ouviu essa história antes, só que com colesterol!)

Eu não tenho histórico familiar de melanoma ou câncer de pele. Eu sou ainda privilegiado por correr em horários de príncipes e herdeiros, às vezes pela manhã, às vezes após o almoço e corro sem NADA. Quando faz muito calor, vou pela sombra. Em treino longo? Você tem viseiras, bonés, óculos escuros…

Tal como exercício e jejum, errado não é pegar sol no verão por 3 horas ao meio-dia sem protetor nos 15 dias de férias. O errado é pegar esse sol nessa carga!

Eu arrisco dizer que corro mais ao sol do que uns 90% dos corredores de assessorias, que muitas vezes tem o sol do sábado como ÚNICO dia correndo ao sol. E o que se recomenda a eles? Usarem protetor! A diretriz de fugir do sol é pra mim tão NONSENSE que me faltam palavras.

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Escolha: Kipchoge é excepcional ou o tênis dá 4%. Os 2 não dá.

Ontem eu falei sobre como 2,9% impactam a corrida de um corredor de longa distância. Essa margem serve para colocar 2 pessoas em gavetas diferentes. Um tênis de R$1.500 poderia dar 4% de vantagem? Eu jamais teria coragem de afirmar isso. São várias as razões.

Primeiro vamos a um dos apelos mercadológicos. O apelo é que o modelo melhoraria em 4% a economia de corrida. Mas a literatura nos indica que uma melhora de 4% nesse marcador traz ganho não de 4%, mas de 1% no tempo da prova. Imagine o seguinte, que um equipamento garante que você melhore 35% da sua força máxima no agachamento ao usá-lo. Você pode dizer que sua maratona ficará 35% mais rápida? NÃO. A força máxima, assim como a economia de corrida, é “só” UM componente dentre tantas valências.

Outro apelo. Engana-se quem pensa que uma empresa que promete algo no tênis precisa entregá-lo. Nesse mercado a empresa precisa não entregar, mas apenas que o comprador ACREDITE que irá receber esse algo. Já se eu vendo um celular com 64Gb de memória, eu PRECISO entregar esses 64Gb. Com tênis NÃO é assim.

Não há nas promessas do setor NENHUMA evidência que entregam NADA do que vendem. Conforto? Subjetivo e pessoal. Amortecimento? Nada. Controle de movimento? Redução de lesões? Idem… nada! Eu preciso, e aqui está a pegadinha, é que eu entregue (sem evidências!) a UMA pessoa e ter o trabalho (bem feito por sinal!) de convencer a TODOS os demais compradores de que eles TAMBÉM terão os mesmos benefícios.

E se AINDA ASSIM eu não entregar? Tudo bem! O ser humano morre de vergonha de admitir que foi de certa forma ludibriado. Você nunca verá alguém que gastou R$1.500 em um modelo falar publicamente que ele é ruim. E quem ganha (jabá) TERÁ que falar que ele é bom, afinal, essa é uma regra IMPLÍCITA desse jogo de relações.

De um ponto de vista mais técnico, essa indústria tenta pelo menos desde os anos 80 inventar uma tecnologia quer amorteça e impulsione todos os corredores. O ENORME desafio é que as individualidades tornam isso quase impossível de ser alcançado “universalmente”. Cadência, peso do atleta, tipo de pisada, ritmo, tempo de contato com o solo, amplitude de passada… você teria que ter um tênis inteligente.

A F-1 e a corrida

Nos anos de 92 e 93 Ayrton Senna tomava uma surra nas pistas por causa da revolucionária tecnologia de suspensão ativa que somente a Williams dominava. Em 93 sua McLaren passou a ter, mas sem a mesma “leitura” de pista (além de todo o conjunto). Uma década depois a adidas lançava o seu adidas 1, um trambolho que prometia ler a pisada do atleta pelo preço de R$1.000 (isso em 2006!).

Ele era pesado e foi esquecido. Como “ler” pisadas tão diferentes?? Para isso o modelo tinha um processador, que invariavelmente aumenta o peso do calçado. Mas sabemos que 100g a mais nos pés piora em 1% a eficiência do corredor. Entende o tamanho do desafio?

NÃO, eu NÃO estou nem de longe afirmando que um tênis não possa nos dar benefícios… mas 4%?! A todos? Isso eu afirmo com certa tranquilidade que não acho ser possível ainda por causas das particularidades, pois você tem que “sincronizar” o trabalho da tecnologia para padrões muito particulares. Mas como disse, um fabricante precisa apenas convencer o consumidor que ele pode ser UM DOS a ter benefícios.

Por fim, entre achar que o tênis dá 4% de melhora e que Eliud Kipchoge é um atleta excepcional, você só pode escolher uma das opções. As duas está fora de questão, porque sem 4% ele é apenas um atleta muito bom.

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O corredor parece querer e gostar de ser enganado…

Ou ainda: o que Picasso nos ensina sobre o mercado de corrida

 

Em 1952 um Pablo Picasso de certa forma envergonhado, mas não arrependido, escreveu uma carta a Giovanni Papini na qual fala de um motivo pouco nobre, mas não menos inteligente que acabou por valorizar seu trabalho inegavelmente genial. Na carta separo o trecho abaixo… leia, por favor.

Na arte o povo não procura mais consolação e exaltação, mas os refinados, os ricos, os ociosos, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso. E eu mesmo, desde o Cubismo e além dele, eu contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça, e quanto menos eles me compreendiam, mais eles me admiravam.

(…) eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna, riqueza. E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico. Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenha a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra.

Giotto, Ticiano, Rembrandt e Goya foram grandes pintores: eu sou apenas um divertidor do público que compreendeu o seu tempo e explorou o melhor que pode a imbecilidade, a vaidade, a avidez de seus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, mais dolorosa do que ela parece. Mas, ela tem o mérito de ser sincera.”

*****

Penso exatamente como o Pedro Ayres, que foi quem me apresentou por e-mail o texto: na corrida é a mesma coisa… O trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente. Isso vale para qualquer atividade humana.

Eu vivo diariamente com certos dilemas. Cada vez mais sou da opinião de que o corredor amador médio parece QUERER ser enganado. Não me leve a mal! Sempre que abro meu Instagram às perguntas vocês se surpreenderiam com quantas vezes me perguntam atualmente sobre suplementação de Glutamina e Coenzima Q10. São o BCAA da década!

Elas não vêm de corredores com 100km semanais de treino ou triatletas fazendo 12 sessões semanais de treino, não! Elas vêm de corredores que não chegam a treinar dia sim dia não.

Dias atrás eu percebi que o segundo melhor corredor que oriento acabou dando uma volta de 1km a mais no aquecimento. Eu perguntei se ele tinha se confundido (todos tinham parado nos 2km). Ele disse que não, ele disse que havia reparado ultimamente que quando aquece por cerca de 15 minutos, uma volta de 1km a mais, ele se sente mais calmo, menos ofegante para começar o treino, então 3 vezes na semana ele passou a fazer esse adendo antes do treino. Isso gera 15 minutos em uma semana. Ou ainda, para quem treina cerca de 60km/semanais, 5% a mais de carga.

Uma mudança simples, gratuita, de poucos minutos que indubitavelmente gera melhoras em seu desempenho (maior volume). Eu não pedi. Ele não perguntou. Ele fez. Eu costumo dizer que os melhores corredores não são apenas aqueles que treinam mais, mas aqueles que sabem o que os fazem melhores corredores.

Esse atleta jamais, nunca me perguntou sobre suplemento. Ele nunca buscou em um subterfúgio fácil aquilo que só vem das próprias pernas. Ou como disse Ayers: o trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente.

No mesmo dia, conversava com uma amiga nutricionista que admiro muito. Ela dizia para mim que tem dificuldades em Nutrição Esportiva. Veja bem, quando falamos de amadores, não existe Nutrição Esportiva! Esse é apenas um campo inventado para se posicionar no mercado! É um jeito de, no bom sentido, “poder enganar” um cliente. O que se diz nutricionista esportivo tem menor concorrência, ele(a) pode assim cobrar mais.

Essa colega dizia que tem dúvidas sobre nutrição na hipertrofia muscular. Vivemos em um mundo tão esquizofrênico que faz as pessoas, por preguiça, ignorância ou delírio coletivo, procurarem um nutricionista ANTES de fazer força empurrando bastante peso, uma condição sine qua non, essencial para haver hipertrofia! O aumentado consumo calórico E proteico é uma resposta natural e esperada do treinamento de força que proporciona hipertrofia! É como achar que você tem que procurar um nutricionista antes de correr porque tem medo de morrer de sede se ele não prescrever quando se deve beber água.

O que eu falei a essa amiga foi: você já sabe tudo, mas terá que enganar o cliente. Por quê? Porque “o povo não procura mais consolação e exaltação, (…) buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso”. Você como profissional tem assim que mentir porque é uma necessidade do mercado, mas mais do que isso: porque o corredor quer ser enganado. Ainda que ele não admita.

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