Arquivo da categoria: Nutrição

VERSCHLIMMBESSERUNG. “A luta contra a magia, o pretenso divino”

Nos meus últimos textos, seja sobre Jejum, Educativos de Corrida, Suplementos ou Biomecânica sempre surge a mesma indagação que às vezes me incomoda um pouco: “você tem os estudos a respeito?”

Pra quê?! Sabe, quando eu ainda acreditava na Academia como fonte de conhecimento eu mantinha registro de estudos importantes para servir de referências. Hoje? Sequer leio estudos! O que é – peço perdão pelo termo – disruptivo, chega até mim sem eu ter que ler os outros 500 artigos que são pura encheção de linguiça que são publicados juntos. Ou seja, eu deixo assim os OUTROS fazerem (de graça!) pra mim o que eu NÃO QUERO fazer (ler lixo).

Sabe, ainda preciso ler mais na fonte os grandes filósofos e clássicos. Venho consumindo de forma intermitente, indireta. Caí em um trecho de Hipócrates que é sensacional, que cabe no que vivemos atualmente na Corrida.

A vida é curta, a arte é longa; a experiência, enganosa; o empirismo, perigoso; o julgamento, difícil”. É POR ISSO que eu não leio estudos na área! Ler sobre efeito de educativo em intervenção de 3 meses? Buscar evidências de que Jejum seja benéfico? Basta olhar “pra trás”! São 5.000 anos de evidências NÃO publicadas em revistas científicas! Suplementos? Em nossa história nunca usamos, tem que sofrer de delírio coletivo pra achar que de repente vivemos uma crise mundial de vitamina D. Biomecânica? Educativos? O esporte apenas engatinha, mas enquanto vocês consultam acadêmicos que nunca estiveram no campo, eu prefiro ver a prática (skin in the game). Por quê? Porque “a vida é curta, a arte é longa; a experiência, enganosa; o empirismo, perigoso; o julgamento, difícil”.

SEMPRE que se entra na pista, remetendo novamente à Hipócrates, “não basta você fazer aquilo que convém, é preciso também contar com o auxílio do indivíduo, daqueles que o assistem e dos elementos exteriores… A prática que realizamos é a dos ‘phainomenon’, daquilo que aparece, e buscamos sempre investigar, associar e compreender à luz do sistema que nos foi transmitido pelos antigos”.

A pessoa manda inbox e fala que “se bem feito, funciona”. Amigo… eu não consigo, NÃO TENHO CORAGEM de virar pra treinador meia-boca e falar que sei mais de técnica de corrida do que ele, como alguém fora da área vem falar que enxerga mais do que eu há 30 anos nesse jogo? Ou como disse brilhantemente Italo Marsili, “ocorre algo mágico aqui no Brasil: a pessoa não concorda comigo e quer me dar aulas, mas não percebe, no entanto, que jamais leu o autor, jamais leu os comentaristas sobre o autor e, provavelmente, não leu o que eu escrevi sobre o assunto”.

Cada vez mais, pela “experiência ser enganosa; o empirismo, perigoso e o julgamento, difícil” eu tento me abster de mecanismos complexos. Sou cada vez mais adepto de MENO intervenções. Por quê? Porque nos falta compreensão deles. Verschlimmbesserung” é um substantivo em alemão para quando uma tentativa de melhoria acaba é piorando as coisas. Para MIM, me ABSTER é a MINHA “luta contra a magia”. Deixo é aos outros ficar corrigindo técnica de atleta e prescrevendo suplemento corrigindo a humanidade, deixo esses brincarem de “pretenso divino”.

Etiquetado ,

Sobre low-carb em amador

É MUITO comum corredores me perguntarem: se a elite não faz low-carb por que um amador deveria fazer?
 
Ou ainda, dessa vez é a leitura míope de nutricionistas: a elite, para correr rápido, consome muito carboidrato, então você amador também deveria consumir.
 
Ambos raciocínios estão errados, ainda que façam algum sentido (do amador se perdoa o equívoco, de nutricionistas não! Mas como não sabem nada de esporte, é de certa forma compreensível). Cada esporte deveria ser visto em função de suas demandas que nem sempre são aquilo que nos aparece em um olhar mais apressado.
 
As pessoas acham que os jogadores de basquete são altos. São mais do que altos! Eles têm é uma ENVERGADURA enorme. O corredor de longa distância, quanto mais longa a especialidade, MENOR deve ser seu peso.
 
Não temos que olhar o esporte SOMENTE pelo que fazem a elite porque isso por si só NÃO explica serem fora da curva.
 
É legal ver que o baixinho gosta de jogar de basquete ou o cara lento insiste em correr provas de 800m. O filme da Disney e de Hollywood gostam de dizer que “tudo é possível“. Você até PODE escolher o seu esporte, mas é o ESPORTE quem escolhe quem fará sucesso nele. E na corrida ele escolhe pessoas rápidas E leves! Isso por uma questão mecânica!
 
E a elite do atletismo, igual o defensor da NBA tem envergadura MAIOR que a altura, acaba tendo enorme tolerância ao carboidrato. Tolerância essa que permita que ele se ENTUPA de carboidrato sem efeitos adversos (ganho de peso, hipertensão, resistência à insulina). Desses efeitos o peso é o que MAIS nos interessa (amadores). E sabemos que uma dieta de baixo carboidrato é a de mais fácil manutenção de um baixo peso.
 
SIM, uma dieta rica em carboidrato na elite permite maior POTÊNCIA aeróbia, capacidade determinante em provas de 5km e 10km. Então nada melhor do que eles comerem muito já que são tolerantes.
 
O amador não! Come muito, tem poucos benefícios com a potência aeróbia em provas de 10km em diante, engorda, fica lento… Ficou mais claro?
 
É sempre MUITO pertinente olhar o que faz a elite. Mas SEMPRE que o fizer saiba que aquilo ali não explica tudo afinal eles foram ESCOLHIDOS pelo esporte deles. Você não. Com você as regras podem ser diferentes.
Etiquetado ,

GASTO ENERGÉTICO: uma entidade pouco compreendida

Fiz 3 anos de Engenharia Civil. Eu achava que seria engenheiro porque sempre gostei de contas. Tanto no colégio quanto no Laboratório de Física, já na POLI-USP, fazíamos experimentos de termodinâmica. Aquecíamos materiais isolados fazendo cálculos pra ver como se comportavam.

A Nutrição, em um reducionismo, num “pensamento por aproximação”, passou a tratar nosso organismo (biológico!) como uma lâmpada incandescente ou uma esteira ergométrica, ou seja, considera tudo pelo lado físico, matemático, ignorando inúmeras DEZENAS de hormônios que regulam nosso organismo, seu peso e funcionamento. Não tinha como dar certo, por isso é um fracasso no controle do peso!

Sábado fui treinar na volta da grade do Ibirapuera com um amigo de longa data. Pelo pensamento por aproximação e reducionista da nutrição, você poderia ADICIONAR o gasto do treino ao total energético de nosso dia. Na faculdade ensinam equações de gasto energético que funcionam PURAMENTE por FÉ. A base dessas equações NÃO passariam em “Laboratório de Física Elementar pra Iniciantes” se existisse. Por quê? Elas se baseiam em PURA e PORCA extrapolação.

Na POLI se você errasse UMA conta o professor de Resistência de Materiais dava zero e dizia “o caminhão derrubou a ponte” (aconteceu COMIGO!). Na Nutrição você faz a conta, a pessoa não emagrece e você dá zero é pra ele.

No mesmo sábado dormi de tarde. Foi a primeira vez em semanas! Motivo? Foi meu treino mais longo no período! Foi o jeito que meu corpo encontrou pra me trazer ao equilíbrio, de COMPENSAR um maior gasto energético matinal! Eu NÃO gastei mais energia no dia, eu CONCENTREI o gasto pela manhã! POR ISSO que aumento de volume de treino NÃO vem com gasto energético ou perda de peso equivalentes! Já disse antes: eu DORMIA TODO sábado (longos) em minhas últimas maratonas. Não CONSEGUIA ficar acordado.

O gráfico do post mostra um modelo compensatório de gasto energético porque ele parte da premissa de que nosso corpo NÃO funciona como uma máquina, mas como um organismo biológico, VIVO. A extrapolação de gasto calórico NÃO faz sentido porque o gasto NÃO é linear.

Etiquetado ,

A Nutrição Esportiva é míope

Dos maiores males da sociedade é a busca por conforto. Modernidade, progresso e tecnologia tornaram tangível conforto entorpecente a preço módico. Era de se esperar que um dos males do corredor moderno fosse a busca por conforto. As perguntas mais recorrentes são sobre o que tomar durante e após treinos. Corredores querem nadar sem se molhar, correr sem se cansar.

Que os bons nutricionistas (vários!) me perdoem, mas buscar nutricionista esportivo é um fracasso em seu fim, só faz sentido a quem estiver acima do peso. Isso porque lhes faltam um entendimento BÁSICO, MÍNIMO, ELEMENTAR de treinamento. O papo é sempre o mesmo: pré treino, suplemento durante e pós-treino. Isso é um ATESTADO de que não compreenderam absolutamente NADA do esporte. Sabe por quê?

Porque a busca pelo conforto é CONTRAPRODUCENTE. Vai na CONTRAMÃO do esporte. À medida que treinamos mais, nosso condicionamento aumenta porque é ISTO que queremos. A meta NÃO é bem-estar ou conforto, mas desempenho, o fim maior. Porém, fadiga/cansaço/desconforto TAMBÉM aumenta nesses períodos de treino intenso. Digo mais: eles PRECISAM aumentar. No Esporte DESCONHECEMOS atletas que ganharam desempenho SEM desconforto.

Após um período de treino, de grande desconforto, você NÃO vê muito progresso, melhoria. E É ISTO que Nutricionistas não são capazes de enxergar porque não ENTENDEM do esporte! Sabe por que progresso não vem DURANTE o treino? Justamente porque só quando as cargas de treinamento são REDUZIDAS (polimento!) e a fadiga DESAPARECE que um melhor condicionamento aparece.

É ao REDUZIRMOS a fadiga (e não evitá-la!) que VIVENCIAMOS ganho de desempenho. É NESTE momento que estamos fisicamente melhor.

Como disse Steve Magness: estar desconfortável é um sinal de que estamos em uma condição pra crescer. Adaptação e desenvolvimento NÃO acontecem quando estamos em conforto, mas sim quando estamos ultrapassando nossos limites.

E o que quer um nutricionista com seus lanchinhos? Que evitemos um estado SINE QUA NON para ganho de desempenho. NÃO TEM COMO DAR CERTO!

Aos meus orientados sou sucinto: NÃO vá ao Nutricionista. A menos que você não queira melhorar. Ou a menos que esteja bem acima do peso.

 

Etiquetado , ,

Coenzima Q10 (CoQ10)

Acabei 4a feira outro experimento pessoal. Como sempre faço com essas papagaiadas que aparecem na corrida, terminei um período de 60 dias de suplementação com a CoQ10, a Coenzima Q10, uma das preferidas dos atuais “vendedores”.

Por que faço isso?

No começo, em meus tempos mais ingênuos, eu fazia porque acreditava. Foi ainda em 1997 que usei um tempo BCAA. Ex-professores, que não correm, não dão treino nem trabalham com corrida, apenas vendem para corredores, falavam de seus (supostos) benefícios. Então comprei (por isso ninguém tem que ter vergonha quando for enganado. Você só precisa rever por que você QUER SER enganado).

Eles ainda vivem de vender essas coisas. Deve ser duro 20 anos buscando evidências sem sucesso que não seja comissão…

Pra quem já usou palmilha de silicone, multivitamínico e até recovery pós-treino, 60 dias de Q-10 era fácil. Então comprei.

Comprei porque é mais honesto. 2 ou 3 telefonemas e teria amostras em casa (vez ou outra um desavisado me oferece “parceria” de suplemento… Ninguém elogia isso em rede social de graça!).

Primeiro efeito colateral: estou R$75 mais pobre. Único benefício observado: estou livre da ideia de que CoQ10 sirva pra algo na corrida.

Tem gente muito boa que acompanho que usa esse suplemento. Pedem que seus clientes (NÃO-corredores!) usem algumas semanas quando estão em transição de uma dieta “junk” para uma dieta low-carb.

Alguma intenção de desempenho? Não! Para evitar fadiga mitocondrial, buscando melhora de disposição e cognição nessa mudança de dieta.

Não há lógica para o desempenho. Dá um alívio ouvir isso dos 2!

Etiquetado , ,