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O peso do corredor tem relação com lesões?

Tem, mas provavelmente é bem diferente do que você imagina…

Vou arriscar um palpite: saia perguntando entre treinadores de corrida de assessorias se um maior peso do atleta está correlacionado positivamente com ele sofrer mais lesões (mais peso, mais lesões) e acredito que mais de 80% diria que sim. Mas… estaria mesmo!? Quando olhamos na literatura não encontramos essa correlação. *Trato disso em O Treinador Clandestino (versão impressa clicando aqui).

Aliás, o contrário parece ser verdadeiro: atletas mais leves têm mais lesões. Um texto interessante no The Washington Post agora retrata que atletas com baixo IMC inclusive demoram mais para se recuperar de lesões por estresse repetitivo (variações da canelite para o amigo corredor entender).

Ao contrario do que você sempre ouve, o tênis pouco ajuda na prevenção das lesões ósseas…

A primeira ideia parece simples de explicar… Atletas mais pesados geralmente treinam (e conseguem correr) menos quilômetros e em uma velocidade menor, e isso gera menor carga mecânica. Já a ideia do IMC baixo ser um problema exige explicar outras nuances.

O IMC é limitado para se aplicar em indivíduos (apesar de poder ser interessante quando usado com populações) porque junta em um número duas variáveis: massa muscular e massa gorda. A saúde óssea sabemos hoje ser muito dependente de nossos hábitos de atividade física, já a massa muscular é por sua vez muito dependente desta (e não da nutrição, como muito nutricionista gosta de acreditar). Por sua vez, a massa de gordura é algo meio morto atleticamente falando, gera “apenas” carga. Para uma melhor saúde óssea precisamos fazer exercícios, o que por sua vez gera ganho de massa muscular, e causa pouco impacto na massa gorda.

Podemos levantar a hipótese então que essas pessoas de baixo IMC (os leves) que se machucam são aquelas de pouca massa gorda (que não tem muita relação com exercício) e que também fazem pouca atividade física. Assim fica claro entender que não é o peso baixo per se que aumenta a susceptibilidade de se machucar ou atrapalhar na recuperação, como dito no artigo do jornal, mas apenas reforça que é massa muscular que é um indicativo da saúde óssea.

A pessoa pode ser sedentária e ter pouca gordura E pouco músculo. E esses parece que irão lesionar seus ossos não por serem leves, mas por terem pouca massa muscular. E, por incrível que pareça, as pessoas de alto IMC (as que seriam gordas) teriam 2 fatores protetores: elas são um pouco mais fortes (o corpo ganha músculos com o hábito de carregar mais peso) e quando elas se movimentam, o fazem em velocidades e volumes menores. A gordura aqui acaba sendo um protetor dos ossos (e é bom destacar aqui porque a gordura pode proteger os ossos, mas no âmbito geral mais gordura está correlacionada com menor longevidade).

Uma balança prática assim que medisse nossos músculos faria mais pelos ossos do que manter o peso baixo…

O que podemos concluir disso?

Basicamente a limitação do IMC está no fato que ele não difere o que é muita/pouca massa adiposa (o que faz a pessoa poder ser gorda ainda que não pesada, os falsos-gordos) e o que é muita/pouca massa muscular. Mas talvez a melhor lição que fica é que se você quer proteger os seus ossos (hoje e no futuro, leia-se: terceira idade) não basta olhar para a balança, você precisa olhar principalmente para a sua rotina de movimento (o mais importante) e para os aspectos nutricionais (uma dieta que ofereça condições de ganho de massa óssea DESDE QUE esteja treinando). Não é questão de peso, mas de músculo!

 

Se você se interessa por esses mitos da corrida ou outros aspectos das lesões (alongamento, tênis, pronação…) reforço o convite para ler meu livro O Treinador Clandestino (versão impressa clicando aqui) onde trato desse assunto mais profundamente.

Danilo Balu

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Sobre Lindy, Vovós e falsos especialistas. OU ainda: o Tempo como senhor da Razão.

Um dos temas que mais aprecio, mas sobre o qual eu dificilmente decido escrever muito é a latente ineficiência dos atuais tênis de corrida na diminuição das lesões nesse esporte. Se eu precisasse resumir em poucas palavras o recente histórico seria: nos últimos 40 anos os tênis ficaram maiores, mais pesados e (muito) mais caros. Agora os modelos convencionais contam com “tecnologias” que prometem um maior controle de pisada, maior amortecimento e um menor risco de lesões. Mas na realidade conseguiram oferecer com evidências apenas maior conforto, uma falsa de sensação de maior controle (o que não é bom!) e menor resposta sensorial aos pés com suas entressolas mais espessas (o que com certeza é ruim). Ou seja, não há vantagem ou menor índice de lesões, porém dão uma falsa sensação de segurança que é muitas vezes contraproducente.

 A QUEM OUVIR? – O que é um especialista? O que é um falso especialista? Em quem acreditar?

Você não terá problemas em encontrar até treinador dizendo que você deve treinar apenas com quem tem CREF, o que é uma tremenda bobagem; discurso de quem se preocupa mais com o próprio bolso do que com aquele que deseja correr. No campo das ideias quem decide quem é e quem não é especialista é o tempo. E existe uma regra para isso, o Efeito Lindy, uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.

Aplicado aos tênis de corrida, os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde os anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar um corredor (nem tão) iniciante com suas propagandas chamativas, pode convencer o jornalista que só lê release, pode convencer aquele médico que faz lista de “tênis bom para o joelho”. Você apenas não engana duas entidades: Lindy e o Tempo.

É por isso também que não gosto muito de escrever sobre tênis. Não tarda para aparecer quem se encante com release e propaganda, mas quando olhamos no tempo vemos que a fragilidade dos argumentos não sobrevive a ele, uma vez que um dos discursos dos fabricantes diz que “esta versão está ainda melhor que a anterior” ainda que ela não tenha se mostrado em NADA mais segura que um tênis de corrida de 1965! É como o Comunismo/Socialismo, nunca deu certo em lugar nenhum, mas deveríamos continuar tentando. Para estes todos é muito triste quando o seu “mundo dos sonhos possíveis” encontra a vida real.

Fosse um modelo de tênis convencional de hoje superior aos da década de 60, o conceito desses teria morrido, mas continua vivo ainda que sem a força da propaganda. Por quê?

 

“Insanidade em indivíduos é algo raro – mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra”. (Friedrich Nietzsche)

 

Por que tantos de nós correm com tijolos aos pés que NÃO os protegem? Por que comemos 60% das nossas calorias justamente do nutriente que é não-essencial à vida? Por quê?

Vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas. Muitos deles montam suas teorias na segurança de não ter que submeter alguém previamente ao que pregam. E é aí que nossas avós são melhores do que nossos nutricionistas. Se na saúde você tiver que seguir uma recomendação nutricional, marque um encontro com sua avó JAMAIS consulta com um Nutricionista.

Sempre que alguém vem e me chama de polêmico (o que não é verdade), repare que provavelmente estou apenas a dar peso a pesquisas que com rigor contradizem o senso-comum, seja na Nutrição ou sobre com qual tipo de tênis que deveríamos correr. Afirmações essas que eu sei que acarretam danos à reputação dos falsos especialistas, os especialistas em release, ou os ignorantes por conveniência, estes os mais desonestos. As ideias desses não sobrevivem honestamente ao tempo. Veja: são 40 anos para provar que tecnologia ajuda. Sem provas. São 40 anos seguindo cada vez mais as diretrizes nutricionais: nunca tivemos um mundo tão obeso. Esses especialistas (nutricionistas e defensores da tecnologia em calçados) são vulneráveis à prova do tempo e esperam que a realidade mude seu fundionamento, não suas teorias absurdas.

AVÓS vs PESQUISADORES

Por isso insisto com uma heurística: quer ir ao Nutricionista? Converse com sua avó. Com enorme chance de certeza afirmo que 85% das vovós estarão certas. Menos de 15% dos nutricionistas têm essa taxa. Por quê? Porque elas, nossas avós, comiam alimentos que foram a base da nossa dieta por muitos séculos. O Nutricionista não, ele vive de um pensamento mágico de teorias de apenas 40 anos que jamais foram postas à prova. Ele não tinha muito a perder, nossas avós e antepassados tinham.

Com tênis de corrida não é diferente. Por séculos os corredores, que dependiam do sucesso de sua corrida, usavam calçados com pouco suporte. Por que então dar ouvidos a jornalistas, fisioterapeutas e médicos que NÃO estudam DE VERDADE o assunto (pseudo-especialistas) e cuja parte de seu sucesso depende justamente do SEU fracasso (lesão) na corrida? Há uma enorme dissociação de interesses, como em quase todas as áreas da Saúde.

Ou ainda, aplicando à teoria da Avó-Nutricionista, veja o tipo de tênis que os veteranos abaixo, que querem ganhar a prova, calçam e veja o que diz o ~especialista~ da revista/site de corrida de seu veículo favorito que quer vender tênis. Tire você suas próprias conclusões… já sabemos mesmo que ele é um falso expert.

imrs

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De Trump, bolhas, volume e Maratonas

Uma fórmula que não funciona conosco não a torna necessariamente errada na mesma intensidade que dar certo para meia dúzia não a torna certa. Previsões, médias, medianas… funcionam de certa forma assim. Isso me leva até o Donald Trump, que daqui 2 meses será o homem mais poderoso do Planeta. A cegueira dentro de uma bolha era tão grande que parecia que era impossível que ele ganhasse. É o vício de buscar reforço em nós mesmos ou naqueles de quem estamos próximos. Até agora os jornalistas-torcedores, teimosos e míopes, não entenderam. “Se não aconteceu entre os meus, não pode dar certo”, é o que pensam. Semanas antes foi com Freixo, candidato carioca, o mais-novo-melhor-quase-prefeito que esse mundo já produziu, quase tão bom quanto outra “unanimidade sem voto”: Haddad. Freixo ganhou no Leblon e em meu Facebook, porém, perdeu no mundo real, aquele que importa de verdade. “Não conheço UM eleitor do Crivella, não pode ser verdade…”

Pois alguns dias atrás falei de uma tabela para previsão de tempo na Maratona. Sua grande novidade para mim é que ela se baseia em apenas duas informações. Esqueça VO2máx, FCs, métodos de treinamento, Ritmo nos Longos… ela pede tão somente seu volume semanal de treino e um tempo em uma prova recente na preparação. É, ainda que com todas as suas limitações, de certa forma incrível.

Eu tento ao máximo não partir para o campo do pessoal. E obviamente que algumas pessoas não perderam tempo para dizer: “não funciona, no meu caso deu X minutos mais lento (que a realidade)”. *E ela parece de fato ser conservadora dentro do padrão de treino dos brasileiros.

A maior sacada dela é que ela reduz a distância mais “magia” da corrida em algo que pode ser decifrada usando 2 dados simples. O que não é matemático quase passa a ser. O pessoal do 538, que fez o algoritmo, considera que correr 42km exige volume de corrida e uma determinada velocidade. Ele tira daí sua estimativa. Periodização, estratégia de hidratação, tática… nada! Eles acham que precisam saber quantos quilômetros você corre. Não importa o ritmo! Repito: não deixa de ser uma abordagem incrível. E ela é mais do que isso. Ela é lógica!

Correr 42km é muita coisa! Sempre que vejo corredor amador se preocupando com suplemento, equipamento, recuperação pós-treino eu penso: esse cara quer ganho marginal quando aos 95% que realmente importam ele não dá a devida atenção. Ele treina de menos, mas massageia de mais. Ele roda de menos, mas toma suplementos/BCAA de mais nos treinos. Ele tem quilômetros de menos, mas equipamento de mais. Isso é generalizado! Duvida?

Em uma matéria sobre treinamento de Maratona na Runner´s World, a mais importante revista de corrida do mundo, eu contei os caracteres. Nutrição ocupou quase METADE (47,8%) do espaço! Longos e Volume de treino ocuparam (juntos!) – atenção – 15% dos caracteres. QUINZE. Não pode ser possível… 42km é uma Maratona de corrida, não de comida!

Nutrição ajuda, mas não decide! Volume e Longos são ESSENCIAIS. Você pode correr a prova com uma dieta de lixo, porém você NÃO a corre fazendo a dieta dos sonhos, PORÉM SEM treino. A revista praticamente acha que a primeira coisa que um jogador de futebol precisa fazer é primeiro escolher por muito tempo a trava da chuteira e depois, talvez se der tempo, nos 15% finais ir jogar bola.

Voltando à fórmula, é óbvio que não há mal NENHUM em você apontar uma inconsistência de uma fórmula usando um exemplo pessoal. Duvido que os criadores não contavam com isso. Para mim o diferencial dela é justamente simplificar o que parece tão complexo.

Pretendo em 2017 voltar a correr novamente uma Maratona. Quero fazer um treinamento completamente diferente de tudo o que eu já fiz na vida. Mas tenho uma certeza, tal qual Steve Magness quando relatou semanas atrás o que encontrou ao olhar seus treinos do passado e percebeu quando mais melhorou: era uma questão de volume (muito) e consistência (muita).

Os céticos dirão que foi porque ele tomava BCAA e lanchinhos pós-treino. E rodava nos 15% restantes.

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O que aprendi com nadadores olímpicos…

Passei quase três semanas com alguns dos melhores nadadores do mundo que se preparavam para a competição mais forte e mais importante da vida deles. Apesar de realidades tão distintas, sempre dá para tirar muita coisa aplicável a um amador. Mas 3 coisas chamaram em especial minha atenção.

(Foco, Treino e Descanso) A primeira eu já sabia pela rotina dos fundistas quenianos: o ENORME peso que dão ao descanso e ao foco. Os atletas ou estavam treinando (duas vezes ao dia), ou estavam comendo (sempre logo após os treinos) ou descansando (dormindo ou relaxando no hotel). Nesses mais de 15 dias, apenas 2 passeios de menos de 2 horas cada. Não dá para achar que você vai treinar pesado, baladar pesado, trabalhar pesado, dormir pouco, bater perna o dia todo e conseguir competir forte. Não, não vai.

O que isso ensina? TEM que descansar. Você pode não ter vida de atleta profissional, mas na semana da prova, reduza bem o volume, tente fazer turismo DEPOIS da prova. Uma rotina saudável e compatível de sono e descanso é parte fundamental do treinamento!

(Treinador é essencial, o resto é espuma) A segunda coisa é como se eu fosse ensinar a um meu “eu” ainda estudante. Na faculdade debatíamos inconformados como no futebol dá-se uma importância grande ao massagista, por exemplo, em detrimento de outros profissionais da saúde, como o fisioterapeuta. Dentre os grupos que acompanhei, havia obviamente muitos treinadores, mas também havia muito mais massagistas que fisioterapeutas. Estranho, né? Nem tanto. Um fisioterapeuta no dia a dia, o melhor que ele pode te oferecer ou não é itinerante (material grande, pesado e caro) ou é completamente dispensável no curto prazo. Em uma situação como essa, um fisioterapeuta é quase como um boneco de posto, você o vê ali, mas não vai te ajudar muito, você quer e precisa mesmo é do frentista. Nesse caso, o médico, esse sim fundamental no caso de alguma emergência ou doença.

bonecodeposto_carnavalJá os massagistas, sempre acionados e importantíssimos, carregam com eles o material mais útil e importante: suas mãos e braços que apertam mais que um grifo e um torniquete. Hoje quando converso com meus colegas de faculdade, vejo como uma visão “cientificista” e quase ingênua da coisa é tola porque é teórica, sobrevaloriza ferramentas e ignora 100% a prática.

Temos sempre que saber que nesse alto nível de desempenho O MAIS importante no processo de treinamento é SEMPRE o treinador. Seja ele quem for. SEMPRE. O resto é luxo. Médico é emergência. O resto é perfumaria, é fumaça. E já explico o porquê agora que chego à terceira lição que aprendi.

Com mais de 7 delegações, mais de 10 nacionalidades, havia quantos nutricionistas? Adivinhe você… Zero.

Volto novamente aos meus tempos de faculdade. A visão científica é bonita, mas é pouco prática (*veja que eu JAMAIS disse que treinador tem que ser formado em algo). Quando entrei na EEFE-USP sempre achei junto com alguns dos melhores alunos que conheci que a área do Esporte era “várzea”, até eu ir estudar Nutrição e ver que o esporte é prático e BEM eficiente. Primeiro porque seus processos são quase sempre muito facilmente mensuráveis e, mais importante, respondem diretamente pelos resultados, não pelas intenções. No esporte o melhor será aquele que ganha, ponto final. Não é considerado ideal aquele que ACHA que tem a melhor estratégia.

No restaurante desses atletas cada um se servia. No cardápio tinha que ter massa, folhas, frutas, legumes, carne… não havia segredos, era tudo aberto e acessível a quem quisesse ver! Não podia haver refrigerante, por exemplo. Um acerto. Uma Nutricionista no hotel instruiu para que não houvesse sal nas mesas. Mas havia açúcar à vontade. Não podia haver bacon, mas havia leite condensado à disposição. Sem frituras, um acerto, mas somente carnes com cortes magros. Dá para entender? Eu não consigo. O que acontecia? Atletas quando podem correm pedindo pizza e tapiocas doce. Lógico! Até quando quer acertar, a intervenção especializada na Nutrição parece errar.

Fui ajudar 3 atletas a comprar suplementos nesse período. Nada de mais. Ômega-3, maltodextrina e Vitamina B. Não havia lancheiras, não havia lanches a cada 3 horas, nada de shakes pós-treino, não havia refeições prontas. Diferentemente do Treinador, essencial, o Nutricionista Esportivo não é quem responde pelos resultados. Por isso você consegue enxergar o porquê mesmo entre os melhores do mundo há tanta gente que abra mão dele, mas não do treinador, nem do treinamento. Quando você enxerga o essencial, você acaba por definir quem é dispensável.

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Sobre metabolismo acelerado, várias refeições e o mundo mágico

*já me desculpo pela falta de imagens e muita ordem no pensamento…. hoje o texto é quase na base do rabisco, sem tática!

Eu adorava F-1. Hoje só assisto para ver um negro, o monstro Lewis Hamilton, dar uma surra nos brancos. O ano era 1999, eu estava em Tietê vendo a largada do GP da Inglaterra. Michael Schumacher perdeu o controle de sua Ferrari na largada e bateu violentamente quebrando uma perna e dando adeus ao campeonato. Como àquela época o desenho da brita ali era paralelo à direção dos carros, o narrador (Kleber Machado?) soltou a pérola: “o carro entra na área de escape e ganha velocidade”. Isaac Newton deve ter se contorcido em seu túmulo na linda Abadia de Westminster. Na cabeça do narrador haveria uma geração espontânea de energia quando você toca a brita. Porém, se um carro com os freios acionados ganhasse velocidade na área mole de escape, a corrida seria sobre a brita, não no asfalto duro.

Há duas crenças na Nutrição e na Educação Física que me incomodam como um narrador de F-1 incomoda ao falar bobagem. A primeira é a de que lanches ocasionais a cada 3 horas teriam o mágico poder de acelerar o metabolismo. No mundo do faz de conta da Nutrição, para gastar mais calorias e emagrecer, você precisaria… comer mais vezes. Não faz muito sentido, eu sei. O Nutricionista nessas horas faz o papel daquele narrador de futebol iletrado em Física que diz em dia de jogo com chuva que a bola “pega no gramado molhado e ganha velocidade”. É um mundo com regras à parte, é um delírio, é quase um sonho.

O pior é que a crença dos lanches está tão enraizada na categoria que muitos leigos hoje a defendem, afinal, uma categoria inteira repetindo o mantra não poderia estar errada. Poderia? Porém, a história é repleta de casos assim, de gente estudada e muito bem intencionada, que usou seu título para poder recomendar o absurdo quase impunemente. Por isso sempre duvide. Duvide sempre.

Muito Nutricionista protesta dizendo que um não-credenciado não pode clinicar. OK, é a tal da dissociação de interesses. O interesse maior dele não é que você emagreça, ele quer mesmo é que você pague pelo serviço. Você é quem quer emagrecer. Pela lei que ele defende você só pode tentar emagrecer com um nutricionista (que quer o seu dinheiro!). Ele NÃO precisa entregar o que você quer. Mas você TEM que entregá-lo o que ele mais quer.

Convido então você a fazer 2 testes. Procure um profissional com mais uns 10 amigos e diga que você irá pagar SOMENTE depois E SE vocês emagrecerem – sei lá – 10kg de gordura cada um. Qualquer boa vontade dele acabará aí. Agora nós sabemos o que cada uma das duas pontas realmente quer. *aqui não há crime algum em querer dinheiro honestamente, a crítica é somente sobre as limitações de um modelo viciado.

O segundo teste é perguntar ao mesmo Nutricionista qual a base científica (evidências!) do lanche a cada 3 horas. Faça isso! Pergunte! Duvide! Duvide sempre!

Uma coisa que sempre falo é que a Nutrição faz uma absurda inversão entre a prática e a teoria. Você deve sempre se basear na prática para entender e criar uma teoria. O carro de F-1 desacelera na brita, por quê? Temos que buscar os motivos. A Nutrição faz o oposto. Se ela defende a teoria de que o carro ganha velocidade na brita, então será isso. Fim de papo, não será necessário medir a velocidade, basta estudar 4 anos e pagar anuidade do CRN que isso vai criar um mundo paralelo onde a vontade por mágica acontecerá. É o pensamento mágico na Nutrição: se ela diz para você comer a cada 3 horas para emagrecer, então não se faz necessário estudos, você irá emagrecer. Se não perder peso, daí será culpa sua.

Reforço, então: pergunte sempre a qualquer nutricionista que faz essa recomendação qual a base científica (estudos bem feitos e controlados). O mundo real irá prová-lo completamente equivocado. Convido você a fazer o teste!

Outra mágica que acontece no mundo que ignora a realidade é a de que o exercício aumentaria o metabolismo basal. O exercício tem incontáveis benefícios, mas um dos mais citados é que ele aumentaria nosso metabolismo em repouso. Assim, praticá-los iria acelerar o quanto você gasta de energia parado e você perderia peso. É algo tão bom que custa a parecer verdade. Ela é a teoria absurda da grama molhada como propulsora da velocidade na bola de futebol. Funciona assim: em um loop infinito você treina, seu corpo por algum motivo divino fica com o metabolismo acelerado, você passa a gastar mais energia, e emagrece. Esse metabolismo acelerado continuaria queimando energia. Não é preciso fazer nada, é um mundo paralelo gerando sua própria energia.

Vou repetir a frase de um amigo que já usei aqui no Recorrido: é muito duro quando a realidade não obedece as nossas expectativas. A miríade de exercícios é incrível! Você tem exercícios de longa e curta duração, intensos, moderados e leves. Cada uma dessas características com infindáveis meio termos. Temos ainda organismos respondendo de forma particular a diferentes estímulos (individualidade biológica) em função de idade, genética, etc. Nessa lógica, bastaria pegar alguém, fazê-la repetir algum exercício em alta intensidade (ex: 5 tiros de 30 segundos com 3 minutos de pausa), dar várias refeições ao dia e ela viraria uma fornalha de queimar gordura. Tudo isso em menos de 20 minutos ao dia! Na verdade, menos de 3 minutos de exercício! Faz sentido para você? Para mim não. O mundo seria inteiro magro se a solução estivesse em 3 minutos e 6 refeições por dia. Na realidade, a prática e estudos nos mostram que esse raciocínio não para em pé! Mas lembremos: eles invertem a ordem de teoria e prática!

Pois quando você se debruça sobre inúmeros estudos controlados e bem feitos você observa pessoas destreinadas realmente treinando e queimando MAIS gordura por horas após o treino (o que é DIFERENTE de um maior metabolismo basal). Mas você também tem muitos casos de pessoas treinadas que têm um metabolismo desacelerado após uma longa atividade aeróbia, por exemplo. Você encontra casos de indivíduos que por compensação queimam menos energia no período de descanso. São respostas diferentes para protocolos bem distintos.

Não existe essa regra simples de exercício como promotor de um metabolismo acelerado. Simplesmente ela não existe!

Isso porque parece que o efeito compensatório é fortíssimo. Treinou muito por muito tempo? Você gasta menos quando está parado. O contrário do que pregam. Isso porque o corpo não é burro. Gastar energia à toa é MUITO custoso ao organismo. Nosso corpo é mais eficiente com o consumo de energia do que qualquer máquina jamais criada pelo homem (a saber, recorrendo à memória, a eficiência térmica até onde me lembro é algo como 25% do organismo contra 8% das máquinas a combustível).

O que precisamos sempre saber é que o corpo sempre economizará energia não importa como. O controle de peso (gordura) tem que ser visto ainda não como uma somatória de calorias ingeridas (alimentação) e gastas (exercício), mas como um controle fino do corpo em função de inúmeros hormônios atuantes. Já por outro lado, a massa muscular da pessoa é controlada (principalmente) via exercício. Você não consegue deixar alguém forte SEM treino, mexendo apenas em sua alimentação. Assim como inúmeros estudos mostram que a pessoa NÃO emagrece se não houver um determinado tipo de intervenção em sua dieta. Resumindo: Gordura? Dieta! Músculos? Treinamento!

Quando então você junta as duas coisas você passa a entender melhor como a tese do exercício para aumentar metabolismo é extremamente limitada. Vamos começar com os destreinados.

O exercício impacta muito na massa muscular da pessoa. Ele gera mudanças em alguns dos hormônios envolvidos no anabolismo (GH, insulina, adrenalina, por exemplo). Uma pessoa destreinada que passa a treinar tende a ganhar massa muscular, afinal, ela estressa o corpo dela com um novo estímulo que irá gerar adaptações (ganho de massa muscular). Opa! Então durante o repouso nessa fase em que ela ainda é destreinada, seu corpo está em um estado de anabolismo que supera o de catabolismo (“metabolismo mais acelerado”). Porém, árvores não crescem até o céu. Com um pouco de prática e tempo, o destreinado vira um… treinado. E aí a coisa “desanda”.

O treinado não tem mais músculos em grandes quantidades a ser ganho. Um treinado que pratique exercícios aeróbios de longa duração sofre comumente do efeito de compensação. Ou seja, durante sua fase de repouso, ele gasta MENOS energia do que o habitual. Porém, não demora quem diga que a musculação acelera o metabolismo e que músculos nos fariam “poder comer mais”. Porém, sucintamente falando: em maior ou menor grau o que te faz poder comer mais é estar sempre treinando!

Assim como uma bola não ganha velocidade somente porque a grama está molhada, alguém musculoso não passa a poder comer mais somente por ter bíceps de estivador. A manutenção da massa muscular conseguida com treinamento gera um gasto enorme ao organismo. Se você não a usa, você a perde! Do contrário, bastaríamos ir à academia dos 18 aos 20 anos e voilà. Largar tudo para sempre! É simples entender isso.

O que é difícil é acreditar que treinar faz o corpo ficar MENOS e não MAIS eficiente. Uma das consequências do treinamento é justamente fazer você gastar MENOS energia em um gesto, ou ainda, produzir mais trabalho com a mesma energia despendida. O delírio é achar que em um estado de equilíbrio (nada do anabolismo de um destreinado) seu corpo fique com a torneira aberta sem razão queimando energia preciosa. Tenha sempre em mente, seu corpo não tem como meta você andando de maiô no verão, mas a sobrevivência!

É bom deixar claro que considero o exercício importantíssimo em uma rotina de hábitos saudáveis. Sua prática regular é muito bem vinda! Mas ela vem junta de mitos. E uma das mais repetidas é o de achar que se exercitar ou comer várias vezes ao dia vem junto com mágica. Não vem. Uma pena. Falo isso com dor no coração, mas não vem.

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