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Sobre Tênis, Atenção e Sentir-se especial

Ao postar o vídeo de uma marca que fabrica tênis minimalistas, o Pedro Ayres fez a seguinte observação: se por um lado algumas pessoas parecem depositar muita confiança no tênis como um protetor (de lesões), do outro lado muita gente parece responsabilizar os tênis por todas elas. Nesse cenário um tanto simplista com apenas uma causa de algo complexo como lesões são as lesões na corrida, bastaria tirarmos um pouco de tênis para a coisa melhorar.

Hoje eu quase não faço mais Supino Reto. Tenho uma dor chata no ombro quando faço com mais carga, resultado de muitos anos fazendo. Usando a mesma lógica de fabricantes de tênis e de muitos ortopedistas e fisioterapeutas, um tratamento eficaz seria talvez o uso de uma ombreira. Algo para “aumentar o controle do movimento”, “corrigir” o gesto, “diminuir o impacto”.

Só que nossa primeira abordagem deveria ser sempre tirar o agente estressor, no meu caso, o exercício Supino Reto. Chamamos isso entre outras coisas de “via negativa”. Não faço mais esse exercício, a lesão foi embora e, se eu quiser voltar a fazer esse exercício, tenho que ir devagar. Para compensar faço sem dores inúmeros outros exercícios para a região do peito.

É assim também na corrida.

Nós fomos construídos para corrermos descalços, por mais que alguns profissionais de saúde entortem uma lógica que não existe dizendo que para correr o mais seguro seja fazê-lo calçado. Correr de tênis é não-natural, correr descalço (ou com pouquíssima entressola, pequena intervenção) é natural. Ponto. Só que corredores descalços também se machucam (menos lesões por quilômetro rodado, mas se machucam). E corredores com tênis sabidamente se lesionam, pelo menos na mesma frequência, mostrando o quanto tênis é ineficiente como protetor. O seja, nem toda lesão é resultado de uma intervenção (correr calçado), mas pode ser por causa da corrida. Para esses, tirar o tênis simplesmente não é um remédio eficiente!

Como há uma miríade de causas para coisas complexas como as lesões no movimento, sempre que há algo de errado com o meu corpo eu sempre prefiro esperar pelo tempo. Não alongo, não faço gelo, não tomo nada. O tempo resolve. Já o corredor amador se apressa para pedir ajuda (a médico, fisioterapeuta, nutricionista…) e daí quando o corpo melhora a pessoa atribui isso ao profissional e sua intervenção, ainda que seja como tantas vezes o é inócua. O profissional se sente obrigado a fazer algo. Qualquer coisa, muitas sabidamente inúteis em sua essência.

O amador descobre assim uma causa simples para algo complexo. Uma causa errada.

E se não melhora esse amador troca de profissional (“o primeiro não era bom”). Por isso hoje o profissional da saúde (fora os médicos nos casos de emergência) são muitas vezes apenas pessoas que servem para nos distrair (pena que a maioria nem saiba ou acredite nisso). Esses ficam fazendo firulas, nos distraindo enquanto é o Tempo quem trabalha. Um dia, por exemplo, acredito que vai ficar claro que a fisioterapia não serve para nada em uns 90% dos casos da corrida…

Nem acho que, como disse o Ayres, “gostamos de chamar qualquer dorzinha de lesão”… gostamos, SIM, é de atenção. Esse é, aliás, o maior produto que você compra quando entra em uma assessoria. Você paga por mês a um treinador o que você pagaria a um Psicólogo por sessão. Com o benefício que ele vai te elogiar a cada sessão de tiros, e não apontar alguns problemas a serem lidados. Gostamos ainda é e de sermos especiais, ou de ter alguém que nos trate assim. Repare, o seu amigo amador, ele não perde tempo ao deixar claro que a planilha/palmilha/dieta feita pelo treinador/ortopedista/nutricionista dele foi feita especialmente/especificamente para ele. Acho até divertido quando alguém vem e fala que a abordagem X na Nutrição funciona para todos, mas “no meu caso”… dou risada antes dele terminar.

É sobre atenção e se sentir especial, não sobre o que funciona ou não.

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Os corredores amadores estão mais lentos

As pessoas gostam de acreditar que as últimas décadas teriam trazido um avanço que seria tão significativo nas tecnologias de equipamento, no treinamento e nutrição esportiva que hoje os atletas teriam um desempenho muito superior aos atletas de gerações passadas. Mas será que essa suposição que até parece plausível sobrevive à verificação?

Pois um levantamento do Run Repeat veio reforçar mais uma vez aquilo que parece fato a quem observa os números dos atletas amadores: o corredor médio está ficando cada vez mais lento. Mais grave do que isso: o corredor amador americano nunca foi tão lento! Para chegar à essa conclusão o site analisou quase 35 milhões de resultados de cerca de 30.000 corridas entre os anos de 1996 e 2016. E o resultado é desanimador aos que argumentam que tecnologia nos faz mais rápidos.

A piora do tempo do americano médio é alto! Em 20 anos ele está 39 minutos mais lento nos 42km e 18 minutos mais lento nos 10km. Ou seja, não é pouca coisa!

A primeira limitação desse tipo de levantamento é argumento que isso era esperado, uma vez que o número de concluintes nas corridas de rua explodiu nas últimas décadas. Não deixa de ser verdade. Mas é ainda uma meia verdade. O site dinamarquês teve esse cuidado ao analisar também a velocidade média do 100º, do 1.000º e do 10.000º corredor! E o que mais espanta é que se por um lado a elite não perdeu velocidade, os corredores amadores mais rápidos e os da rabeira estão mais lentos. E é uma queda de desempenho que atinge mais fortemente os homens, mas também é notado entre as mulheres.

Vale sempre reforçar que quando o assunto é desempenho, os atletas da primeira metade do século passado são tão rápidos quanto os da atualidade. Sim, muito por causa da profissionalização, da entrada dos africanos no cenário competitivo mundial e da disseminação do doping, os vencedores das grandes provas e recordes hoje são mais velozes. Porém, quando olhamos para o número de corredores que baixam de uma hora em um evento quase centenário como o Tely 10 (prova canadense de 10 milhas) vemos que nem a explosão no número de corredores, nem os produtos modernos foram capazes de trazer aumento substancial na quantidade desses atletas.

Ou ainda, em distâncias maiores, quando analisamos as Maratonas de Nova Iorque e a de Boston desde 1977 até hoje, vemos que os tempos do 100º colocado vêm piorando, ainda que o número de participantes aumente na casa das dezenas de milhares de corredores. O mais interessante é que a queda coincide justamente quando as estratégias de hidratação foram se tornando mais rígidas para uma suposta melhoria de desempenho. E foi também bem depois dos anos 70 as maiores intervenções de tecnologia nos calçados.

E isso é um enorme paradoxo. Se a tecnologia de calçados, hidratação e suplementos e os novos métodos de treinamento trouxessem ganhos substanciais no desempenho e menos lesões, nós deveríamos estar mais rápidos. Mas estamos proporcionalmente mais lentos.

BRASIL

No Brasil infelizmente não temos um histórico de desempenho, mas os dados que compilei de 2014 para cá revelam a mesma tendência: estamos (brasileiros e brasileiras) ficando mais lentos (cerca de 2 minutos por ano nos 42km e metade disso na Meia Maratona).

Mas… o que causaria essa perda de desempenho entre amadores?

As teorias são várias. A mais fraca para mim passa pelo aumento a obesidade. O peso é um fator muito determinante no desempenho na corrida de longa distância, e uma vez que a população está mais pesada, mais gorda, ela corre mais lento. Faz sentido, mas não me convence 100%. Outro argumento é que a entrada de novos corredores inexperientes reduz a velocidade média, afinal, inexperientes tendem a ser mais lentos que os treinados experientes.

Esses 2 pontos fariam sentido não fosse o fato que já foi dito de os amadores rápidos também estarem ficando mais lentos. Então temos um problema em aberto.

Um fator que não se pode negar é como a atual sociedade encara a corrida. Se antes ela era um esporte de aficionados que devoravam conteúdo querendo superar marcas e correr se espelhando no que faziam os melhores do mundo, hoje temos uma legião de praticantes que encaram a corrida como uma terapia. O ato de completar, não importa o tempo ou se for andando por boa parte do percurso, é o sinal de vitória. Guerreiro é quem completa. Não é necessário ser (mais) rápido para ganhar a alcunha. Vivemos um mundo imediatista com tanta coisa disputando nossa atenção em nossa rotina que a dedicação, o tempo e a paciência que a corrida exige para se obter os melhores resultados encontra agora muitos concorrentes e pouca motivação. E aí ela perde, ainda que em parte. E a perda de desempenho em amadores é talvez seu maior sintoma.

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Tênis mais caro é melhor?

Qual a relação da qualidade de um tênis com seu preço? Seria o preço uma medida direta e confiável da qualidade desse equipamento tão presente na corrida?

Pois com tantas opções no mercado a métrica mais fácil, direta e simples seria confiar que os produtos mais caros, teoricamente os de melhor qualidade, nos garantiriam melhores produtos, mais capazes de diminuir a incidência de lesões, por exemplo. Infelizmente a coisa não funciona assim.

Dois estatísticos fizeram uma análise baseados em 134.867 revisões de 391 tênis de corrida de 24 marcas diferentes no site RunRepeat. Foi possível assim comparar o preço dos tênis com o quão bem classificados eles são pelos corredores consumidores. A principal conclusão que se tira é que tênis caros não são melhores do que os mais baratos. Na verdade, tênis baratos são melhores classificados dos que os mais caros. Quanto maior o preço do calçado, mais baixa é a avaliação do tênis.

Esta análise encontrou que os 10 tênis de corrida mais caros (média de preço de U$181) são classificados como 8,1% pior do que os 10 tênis de corrida mais baratos (média de U$61). Com nota média de 86 (de cem possível), apenas 18,9% de todos os 391 tênis avaliados têm nota superior aos dez mais baratos!

Ainda que deixemos de lado a avaliação pessoal e optemos para os dados encontrados em algum experimento mais independente vemos que a coisa não melhora para a métrica “maior preço” como indicador de mais qualidade. Por exemplo, os corredores usando tênis caros estariam 123% mais propensos a se lesionar que aqueles corredores com tênis mais baratos.

Isto foi o encontrado em um estudo da University of Bern que investigou 4.358 corredores. O estudo encontrou ainda que a variável mais relacionada com lesões não era a superfície de treino, a velocidade, a quilometragem semanal, nem mesmo o peso corporal ou o histórico de lesão, mas o preço do tênis!

Aqueles corredores com calçados que custavam mais de U$95 eram duas vezes mais propensos a se machucar do que os corredores com produtos que custavam menos de U$40. Os pesquisadores constataram que “usuários de tênis caros (…) se lesionam significativamente mais frequentemente que os corredores que usam tênis baratos”.

Este estudo não é único em suas conclusões. Podemos citar ainda um estudo de Steven Robbins (1990) que encontrou que tênis caros não compensavam um maior investimento, podendo mesmo aumentar o risco de lesões.

Obviamente que seria quase uma irresponsabilidade (além de uma conclusão equivocada para não dizer burra) afirmar que o preço do tênis é, por si só, uma variável direta por lesões. Bastaria assim apenas uma promoção ou liquidação sazonal para um tênis ficar melhor ou mais seguro. Isso porque há o fato comportamental. Lembremos que há uma relação entre expectativa e realidade, você é mais rigoroso com aquilo que paga mais caro, no caso do levantamento da RunRepeat. Já nos outros 3 casos, nem mesmo os autores chegam à conclusão de que o preço determina o risco, eles apenas tentam deixar claro que pagar a mais não te protege a mais.

Porém, há explicação. Um estudo interessante também feito por Steven Robbins (1997) viu que tênis mais caros podem, pela propaganda intencional de seu fabricante e indiretamente pelo seu maior preço, transpassar a impressão de que oferecem maior proteção de amortecimento ao corredor, ainda que não haja evidências científicas de que eles consigam de fato fazer mesmo isso. Essa falsa sensação de segurança dadas pelo preço e pela propaganda das empresas diminui a atenuação do impacto feito pelo usuário que corre com pior técnica e causa mais lesões. Ou seja, é um fator comportamental induzido por um produto que não pode entregar aquilo que promete.

E no Brasil? Teríamos dados para fazer algo parecido?

Eu resolvi então analisar de forma simples as avaliações (“reviews”) feitas pelo canal de YouTube Corrida no Ar. Por que ele? Por várias razões.

Primeiro porque ele é o maior canal do mundo falando sobre corrida! Isso não é pouca coisa! Outro motivo é que o canal faz avaliações diretas com notas (de 0 a 5) usando 10 quesitos (entre eles “preço”, ainda que com outros menos relacionados com qualidade, como beleza). Com isso podemos fazer comparações diretas e objetivas entre modelos diferentes usando valores numéricos.

A metodologia pode não ser perfeita, mas é interessante para tentarmos ver com dados brasileiros se um maior preço traria realmente maior qualidade. *aqui vale atentar para algumas particularidades. A primeira é o conflito de interesse. O canal é patrocinado pela adidas. Eu fiz os cálculos com e sem os tênis dessa marca. Os resultados foram praticamente os mesmos, então escolhi postar incluindo os tênis da marca alemã uma vez que isso dá um maior volume de dados sem nesse caso prejudicar a confiabilidade da resultante. As médias das notas foram feitas excluindo-se a nota dada para “preço” (1 dos 10 quesitos) justamente porque a ideia era encontrar uma nota média independente do preço do calçado. E o detalhe que deve ser reforçado é que as notas dadas pelo Corrida no Ar não têm nenhuma correlação com lesões ou segurança, elas são apenas indicadores da qualidade de um tênis usado por pouco menos de 100km em média. Ou seja, NÃO podemos retirar ideia de maior segurança (menos lesões) ou não em funções dessas notas, ao contrário de alguns dos estudos supracitados!

Analisando-se o gráfico com as avaliações de 31 modelos de 13 marcas feitas pelo canal, temos que há realmente uma correlação positiva entre preço e qualidade. Mas talvez valha citar que os 2 tênis mais caros estão abaixo da média enquanto o mais barato está acima da média custo-benefício. Esse ganho de qualidade com maior preço pode não ser tão forte e garantida, mas ela existiria!

Mas insisto em dizer que aqui não discutimos se os tênis mais caros são mais seguros (menos lesões), mas apenas que seriam “melhores”, seja lá o que isso signifique na prática.

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Sobre Corrida, Jejum, Ramadã e o delírio de não encarar a realidade

Faz questão de uns 4 anos que publicações de corrida voltaram a dar destaque a algo que se faz há décadas: correr (ou fazer qualquer exercício) em jejum. Há um motivo fundamental para isso: é que para se gerar conteúdo, esses canais fazem um loop infinito, tal qual as antigas revistas de adolescente, eles revisitam de tempos em tempos o mesmo tema, afinal, algo precisa ser postado e publicado sempre, não importa sua qualidade.

Impressiona o hábito e tamanha insistência equivocada dos veículos em chamar treinadores para falar de Nutrição. Há um detalhe aí: você não deveria tratar desse assunto com treinadores como consultores, uma categoria que não estudou isso de modo central em sua formação. É como convidar um médico para falar em revista de veterinária, ou ter um engenheiro civil falando de Física no portal. Eles até sabem um pouco, mas seu raciocínio é quase sempre por aproximação, incompleto, falho.

E aí os veículos completam ainda com outro problema: convidam nutricionistas que têm enorme talento para falar bobagens. Não vou citar, vocês sabem quem são eles. Eles têm colunas fixas, uma característica muito comum de quem sabemos não ser muito bom.

Talvez o cerne da questão é que quem deveria entender a teoria criando hipóteses observando o mundo real faz tudo no sentido contrário, ou seja, eles dão mostras de não entender absolutamente nada. Por décadas as pessoas fizeram (e fazem!) atividade física em jejum sem NENHUM grande problema. Alguém estabelecer uma diretriz nutricional diferente não transforma a realidade!

Indo muito mais longe temos que o homem pré-histórico tinha que ter PELO MENOS um desempenho MUITO BOM em jejum. Houvesse hipoglicemia, tontura, desmaio, fraqueza ou perda de massa muscular quando não comesse de 3 em 3 horas, o homem antes do advento da geladeira, do supermercado e do micro-ondas, teria desaparecido, não teria conseguido correr atrás de sua próxima refeição. Quando um predador corre perseguindo sua presa ele não alonga, nem come “uma porção de carboidrato e proteína magra” antes. Sua preparação é a necessidade e a vontade. Seu corpo foi construído para que ele possa fazê-lo, não importando a bobagem que diga o colunista especialista.

Porém, o profissional da Saúde atual parece viver em um mundo de fantasia. Delírio esse sabemos não ser exclusivo da categoria dos nutricionistas, uma visita breve a portais como o da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva prova meu ponto. Aquilo é uma sequência de bobagens feitas por iletrados no assunto Nutrição. *e aqui nem vou perguntar se aquilo é de graça ou entrega de alguma compra, não creditemos ao mau-caratismo o que pode ser apenas explicado pela incompetência mesmo.

Quando fui escrever o capítulo sobre jejum para meu livro O Treinador Clandestino, eu tinha dificuldades em encontrar estudos que explicassem a segurança e mesmo efeitos benéficos talvez exclusivos do jejum na corrida. Eu não precisei ir até a Pré-História nem ficar nesses textos de 2013 para cá. Aliás, usava esses textos apenas para saber o que era errado. Não falham nunca! E minhas buscas meio que por acaso caíram em um termo conhecido que me abriu um mundo. Não era ele fisiológico, era ele religioso. Mais precisamente o Ramadã.

Os muçulmanos fazem jejum religioso um mês por ano, comendo e se hidratando apenas entre o pôr e o nascer do sol. Este ano, como ele sempre muda, foi de 26 de Maio a 24 de Junho. Quando você observa o comportamento de atletas que fazem jejum (seja nos países islâmicos ou entre os religiosos espalhados pelo mundo) você observa que: não há queda de desempenho, não há redução nas sessões de treino, não há aumento do número de lesões nem aumento de ocorrências médicas entre praticantes.

E uma matéria recente da Dyestat me chamou atenção porque trata de algo que deveria já ter ser sido visitado por quem escreve no assunto: como é a rotina de alguns atletas muçulmanos durante o Ramadã. Ou seja, como é a realidade deles (e não o delírio dos especialistas) para lidar com seus treinos e competições sem poder comer nem beber absolutamente nada durante o dia claro?

Impressiona que mesmo entre atletas que precisam competir bem, ou seja, entre pessoas que não são meros participantes recreativos. Esses corredores ou competem em jejum ou quebram o jejum apenas em competições, não em treinos. E vale reforçar que o jejum religioso não possibilita sequer beber água. Já o jejum intermitente não-religioso é mais brando porque permite ao praticante se hidratar com água, chás e café (sem açúcar), e mesmo refrigerantes light/diet.

A alucinação coletiva de nutricionistas, médicos e treinadores que dizem que jejum compromete a massa muscular ou a segurança do atleta não sobrevive a uma pesquisa preguiçosa de estudos ou, reforço, do mundo real de décadas de atletismo ou de milhares de anos que não viram pessoas definhar sua massa muscular. Isso porque o jejum aumenta a liberação de adrenalina (maior atenção e maior queima de gordura) e aumenta ainda a liberação de GH (que promove a preservação de massa muscular, não à toa um hormônio muito utilizado nos anos 80 e 90 entre atletas que queriam se dopar).

Pois bem, essa questão de jejum é só mais um exemplo de como devemos primeiro olhar o que acontece, para só depois formarmos nossas hipóteses que expliquem a realidade. Gostem ou não, pratiquem ou não, acreditem ou não, o jejum (com ou sem atividade física) existe há milhares de anos. Estabelecer por diretriz que ele faz mal não o fará… nos fazer mal. Isso é apenas pensamento mágico! *para não dizer pensamento burro.

 

Lição de Casa

Você deveria treinar em jejum para correr melhor? Eu acredito que incluir algumas sessões leves em jejum pode ser muito beneficial, sim. Porém, é puro achismo. A minha aposta é porque jejum é uma quebra de homeostase, pivô no treinamento físico. Mas esse texto não é sobre DEVER, mas sobre PODER.

Então podemos treinar em jejum sem maiores prejuízos? A prática diz que não sendo sessões extenuantes em volume e/ou intensidade, que sim. E mesmo entre os habituados, até essas sessões podem ser feitas em jejum. Ou ainda, escrevendo em um modo um pouco mais mundano: não havendo fome, POR QUE DIABOS ter que comer antes de sair pra correr?!?

Mas nunca faltará “especialista” que em seu delírio ou ignorância no tema não vá tentar negar a realidade.

 

*como dito, no meu livro O Treinador Clandestino falo sobre corrida em jejum. Pouco falo disso no livro O Nutricionista Clandestino, mas eles estão sendo vendidos impressos em um combo com valor promocional, basta clicar aqui!

 

 

 

 

 

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O peso do corredor tem relação com lesões?

Tem, mas provavelmente é bem diferente do que você imagina…

Vou arriscar um palpite: saia perguntando entre treinadores de corrida de assessorias se um maior peso do atleta está correlacionado positivamente com ele sofrer mais lesões (mais peso, mais lesões) e acredito que mais de 80% diria que sim. Mas… estaria mesmo!? Quando olhamos na literatura não encontramos essa correlação. *Trato disso em O Treinador Clandestino (versão impressa clicando aqui).

Aliás, o contrário parece ser verdadeiro: atletas mais leves têm mais lesões. Um texto interessante no The Washington Post agora retrata que atletas com baixo IMC inclusive demoram mais para se recuperar de lesões por estresse repetitivo (variações da canelite para o amigo corredor entender).

Ao contrario do que você sempre ouve, o tênis pouco ajuda na prevenção das lesões ósseas…

A primeira ideia parece simples de explicar… Atletas mais pesados geralmente treinam (e conseguem correr) menos quilômetros e em uma velocidade menor, e isso gera menor carga mecânica. Já a ideia do IMC baixo ser um problema exige explicar outras nuances.

O IMC é limitado para se aplicar em indivíduos (apesar de poder ser interessante quando usado com populações) porque junta em um número duas variáveis: massa muscular e massa gorda. A saúde óssea sabemos hoje ser muito dependente de nossos hábitos de atividade física, já a massa muscular é por sua vez muito dependente desta (e não da nutrição, como muito nutricionista gosta de acreditar). Por sua vez, a massa de gordura é algo meio morto atleticamente falando, gera “apenas” carga. Para uma melhor saúde óssea precisamos fazer exercícios, o que por sua vez gera ganho de massa muscular, e causa pouco impacto na massa gorda.

Podemos levantar a hipótese então que essas pessoas de baixo IMC (os leves) que se machucam são aquelas de pouca massa gorda (que não tem muita relação com exercício) e que também fazem pouca atividade física. Assim fica claro entender que não é o peso baixo per se que aumenta a susceptibilidade de se machucar ou atrapalhar na recuperação, como dito no artigo do jornal, mas apenas reforça que é massa muscular que é um indicativo da saúde óssea.

A pessoa pode ser sedentária e ter pouca gordura E pouco músculo. E esses parece que irão lesionar seus ossos não por serem leves, mas por terem pouca massa muscular. E, por incrível que pareça, as pessoas de alto IMC (as que seriam gordas) teriam 2 fatores protetores: elas são um pouco mais fortes (o corpo ganha músculos com o hábito de carregar mais peso) e quando elas se movimentam, o fazem em velocidades e volumes menores. A gordura aqui acaba sendo um protetor dos ossos (e é bom destacar aqui porque a gordura pode proteger os ossos, mas no âmbito geral mais gordura está correlacionada com menor longevidade).

Uma balança prática assim que medisse nossos músculos faria mais pelos ossos do que manter o peso baixo…

O que podemos concluir disso?

Basicamente a limitação do IMC está no fato que ele não difere o que é muita/pouca massa adiposa (o que faz a pessoa poder ser gorda ainda que não pesada, os falsos-gordos) e o que é muita/pouca massa muscular. Mas talvez a melhor lição que fica é que se você quer proteger os seus ossos (hoje e no futuro, leia-se: terceira idade) não basta olhar para a balança, você precisa olhar principalmente para a sua rotina de movimento (o mais importante) e para os aspectos nutricionais (uma dieta que ofereça condições de ganho de massa óssea DESDE QUE esteja treinando). Não é questão de peso, mas de músculo!

 

Se você se interessa por esses mitos da corrida ou outros aspectos das lesões (alongamento, tênis, pronação…) reforço o convite para ler meu livro O Treinador Clandestino (versão impressa clicando aqui) onde trato desse assunto mais profundamente.

Danilo Balu

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