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De Daniel Komen, corrida descalço e “estar faminto”..

Você conhece Daniel Komen, o queniano que nos anos 90 parecia que ia reescrever os recordes mundiais? Uma matéria INCRÍVEL tentou descobrir o que aconteceu com ele.

O que Haile, Bekele e Kipchoge compartilham de especial, além de recordes, é a longevidade.

Sábado fomos assistir à corrida infantil da The Great Ethiopian Run. Nunca vi nada tão grande. Sempre me perguntam se etíopes correm descalços. NÃO. Nesse dia vi somente 2 meninos descalços. O da foto (que GANHOU sua prova) e um outro que foi VICE.

Komen parece que depois dos prêmios ($) cansou daquela vida. Eu conversava aqui sobre o que faz:

1. Os etíopes tão bons;
2. A maioria desaparecer;

Não há uma única explicação. O alto nível mundial, lesões, azar… Mas uma não sai da minha cabeça.

Como ganhar de quem tem fome?? Quem MAIS precisa e mais QUER é que vai estar disposto a sangrar mais. Enquanto uns buscam conforto nos pés, o outro “empurra” até o DESCONFORTO SUPERAR a dor das pedras do asfalto enquanto corre descalço.

Você NUNCA vai se superar enquanto não ABRAÇAR E ACEITAR O DESCONFORTO.

É isso que um nutricionista NUNCA vai entender quando vem com a miopia de pré-treino:

NÃO EXISTE RECOMPENSA SEM PRÉVIO ESFORÇO.

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A sanha dos justiceiros faz a primeira vítima fatal…

Vale a máxima: toda morte nos diminui...

Um corredor amador ganhou destaque porque teria batido o recorde mundial da Maratona em sua categoria (70-74). Porém, descobriram que ele cortou caminho e a internet não perdoa. O corredor, que era médico, no olho do furacão não aguentou a pressão e se suicidou.

O corredor amador tem enorme interesse no que os OUTROS acham de sua corrida e na relação do OUTRO com a corrida. As redes sociais e a digitalização da cronometragem tornaram a vida dos trapaceiros muito mais difícil.

Há uma onda recente de perseguição a essas pessoas. Não envolvendo dinheiro ou benefícios diretos acho tudo MUITO sem sentido! O que descobri ao ir atrás de um famoso trapaceiro brasileiro é que se tratava de alguém claramente doente, perturbado… crucificá-lo era desumano… larguei mão… ele precisava era de tratamento… até sua filha, sóbria, já sabe disso.

Este corredor americano foi a primeira vítima direta. Meses atrás um brasileiro foi vítima parecida. Era outro claramente em situação patológica. Que a organização continue desclassificando essa turma. Que a turba entenda que a perseguição é cruel… desnecessária…

Ver a família ainda insistindo em sua inocência dá uma ideia da magnitude da dor deles… nos faz entender melhor o ser humano…

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O corredor parece querer e gostar de ser enganado…

Ou ainda: o que Picasso nos ensina sobre o mercado de corrida

 

Em 1952 um Pablo Picasso de certa forma envergonhado, mas não arrependido, escreveu uma carta a Giovanni Papini na qual fala de um motivo pouco nobre, mas não menos inteligente que acabou por valorizar seu trabalho inegavelmente genial. Na carta separo o trecho abaixo… leia, por favor.

Na arte o povo não procura mais consolação e exaltação, mas os refinados, os ricos, os ociosos, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso. E eu mesmo, desde o Cubismo e além dele, eu contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça, e quanto menos eles me compreendiam, mais eles me admiravam.

(…) eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna, riqueza. E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico. Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenha a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra.

Giotto, Ticiano, Rembrandt e Goya foram grandes pintores: eu sou apenas um divertidor do público que compreendeu o seu tempo e explorou o melhor que pode a imbecilidade, a vaidade, a avidez de seus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, mais dolorosa do que ela parece. Mas, ela tem o mérito de ser sincera.”

*****

Penso exatamente como o Pedro Ayres, que foi quem me apresentou por e-mail o texto: na corrida é a mesma coisa… O trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente. Isso vale para qualquer atividade humana.

Eu vivo diariamente com certos dilemas. Cada vez mais sou da opinião de que o corredor amador médio parece QUERER ser enganado. Não me leve a mal! Sempre que abro meu Instagram às perguntas vocês se surpreenderiam com quantas vezes me perguntam atualmente sobre suplementação de Glutamina e Coenzima Q10. São o BCAA da década!

Elas não vêm de corredores com 100km semanais de treino ou triatletas fazendo 12 sessões semanais de treino, não! Elas vêm de corredores que não chegam a treinar dia sim dia não.

Dias atrás eu percebi que o segundo melhor corredor que oriento acabou dando uma volta de 1km a mais no aquecimento. Eu perguntei se ele tinha se confundido (todos tinham parado nos 2km). Ele disse que não, ele disse que havia reparado ultimamente que quando aquece por cerca de 15 minutos, uma volta de 1km a mais, ele se sente mais calmo, menos ofegante para começar o treino, então 3 vezes na semana ele passou a fazer esse adendo antes do treino. Isso gera 15 minutos em uma semana. Ou ainda, para quem treina cerca de 60km/semanais, 5% a mais de carga.

Uma mudança simples, gratuita, de poucos minutos que indubitavelmente gera melhoras em seu desempenho (maior volume). Eu não pedi. Ele não perguntou. Ele fez. Eu costumo dizer que os melhores corredores não são apenas aqueles que treinam mais, mas aqueles que sabem o que os fazem melhores corredores.

Esse atleta jamais, nunca me perguntou sobre suplemento. Ele nunca buscou em um subterfúgio fácil aquilo que só vem das próprias pernas. Ou como disse Ayers: o trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente.

No mesmo dia, conversava com uma amiga nutricionista que admiro muito. Ela dizia para mim que tem dificuldades em Nutrição Esportiva. Veja bem, quando falamos de amadores, não existe Nutrição Esportiva! Esse é apenas um campo inventado para se posicionar no mercado! É um jeito de, no bom sentido, “poder enganar” um cliente. O que se diz nutricionista esportivo tem menor concorrência, ele(a) pode assim cobrar mais.

Essa colega dizia que tem dúvidas sobre nutrição na hipertrofia muscular. Vivemos em um mundo tão esquizofrênico que faz as pessoas, por preguiça, ignorância ou delírio coletivo, procurarem um nutricionista ANTES de fazer força empurrando bastante peso, uma condição sine qua non, essencial para haver hipertrofia! O aumentado consumo calórico E proteico é uma resposta natural e esperada do treinamento de força que proporciona hipertrofia! É como achar que você tem que procurar um nutricionista antes de correr porque tem medo de morrer de sede se ele não prescrever quando se deve beber água.

O que eu falei a essa amiga foi: você já sabe tudo, mas terá que enganar o cliente. Por quê? Porque “o povo não procura mais consolação e exaltação, (…) buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso”. Você como profissional tem assim que mentir porque é uma necessidade do mercado, mas mais do que isso: porque o corredor quer ser enganado. Ainda que ele não admita.

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Corrida e Trapaça

Está circulando o episódio de um corredor brasileiro que, tudo leva a crer, trapaceou cortando caminho na Maratona de Boston desta 2a feira. A prova é especial porque exige índice de qualificação. Como ele nem de longe teria condições, ele teria TAMBÉM trapaceado na Maratona de Chicago onde “correu” a marca exigida. O custo para alguém daqui fazer as duas provas não gira em menos que R$10.000-12.000 entre transporte, hospedagem e inscrição.
É óbvio que a indignação explodiu. “O que leva alguém a trapacear desse jeito?” “Por quê?!” “É injusto com os demais corredores“.
Eu sinceramente não sei o que achar. O que leva alguém a pagar a sair para correr 42km?, pode perguntar quem odeia correr. O que um comportamento que NÃO nos afeta diretamente tem a ver com injustiça? Por que se indignar??
Uns 2 anos atrás eu tentei entrar em contato com um conhecido cortador de caminho em provas. Na casa dos 60 anos eu pude notar que claramente falava com uma pessoa doente, perturbada, que necessitava de tratamento, uma vez que ele insistia ter corrido na 3a idade em ritmo queniano, mandando dados de GPS que revelavam ritmos sobre-humanos.
A coisa andou de um jeito que sua filha interveio, reconhecendo ser doença e pedindo compreensão. E eu me retirei. Igual um jogador profissional que é punido por doping quando cai no vício das drogas, esse corredor brasileiro não merece ser defenestrado em praça pública. Ele precisa, talvez não saiba, de tratamento. Por isso que é em vão querer expô-lo aqui. Pra quê!? Ele já foi punido demais! Não faz mais sentido.
Acabei de ler uma obra prima. “Em Busca de Sentido” é um clássico mundial de Viktor Frankl que fala sobre sentido em viver. Por que VOCÊ corre? Semanas atrás vi uma matéria na TV com uma garota que falhou numa prova de longa distância e estava em lágrimas porque queria que “se orgulhassem” dela. Tive certa pena daquilo tudo… ela fazia tudo aquilo pelos outros, não por ela. Correr já é chato, correr pelos OUTROS?!?
No fundo no fundo, esse brasileiro queria algo parecido. Ele buscava aprovação social que, ainda que você negue, todos buscamos. Nessa mesma semana assisti a Fyre, um documentário na Netflix que fala de um cara que engana milhares de pessoas criando um produto que seria de certa forma uma vida de Instagram só que real. Ele é ao mesmo tempo doente e manipulador (picareta mesmo). Ele só se deu bem por tanto tempo porque é muito fácil enganar as pessoas.
Esse falso maratonista vinha enganando a todos (e a ele mesmo). Mas foi pego. Linchá-lo publicamente não adianta nada. É até desumano. Doentes precisam é de tratamento.
*a foto deste texto é do perfil do maior trapaceador amador que a corrida já conheceu, Marathon Man na New Yorker.
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“-Larry, são apenas tênis.”

Acabei de corrigir outra mácula: terminei de ler uma biografia daquele que é o maior velocista ao lado de Usain BoltJesse Owens. Tudo era precário na época que o velocista americano chegava para realizar sua mais famosa façanha, os 4 ouros olímpicos.

Ao desembarcarem de navio na Alemanha (onde ele evitava consumir pães e massas para não engordar, pois é…) Owens estava ainda sem sua nova sapatilha para competir.

Larry Snyder, seu treinador, estava preocupado, queria que o atleta a experimentasse o quanto antes.

Eu costumo dizer que uma das grandes diferenças entre os amadores médios e os que “chegam lá” é que estes sabem o que DE FATO importa no esporte. Com tão pouca tecnologia disponível seria de se pensar que uma sapatilha feita com couro de canguru (antes de serem proibidas) poderíamos imaginar que ela seria imprescindível para os feitos de Owens.

Mas Jesse sabia o que fazia dele Owens. Vendo a preocupação de seu treinador ele solta a frase:

Larry, são apenas tênis.

Se preocupa de mais com tênis quem sabe de menos desse esporte.

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