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Correr não é sexy, nem cool, nem tem segredos

Correr é simples, não?! (*o que é BEM diferente de ser fácil) Aí a pessoa pergunta: quantas calorias você gasta no treino?

Não faço ideia!

 

Qual a distribuição do seu consumo de macronutrientes (carboidrato, gordura, proteína…)?

Também não faço ideia! Juro! As pessoas não acreditam…

 

Como é seu treino de força?

Faço força, muita. Mas não tenho protocolo nem periodização.

 

O que você toma no pré-treino?

Café preto ou jejum.

 

E no pós?

Nada… no máximo faço a próxima refeição.

 

Suplementos?

Nenhum.

 

Qual seu tipo de pisada?

Não sei.

 

FC de Limiar?

Não tenho ideia…

 

Volume semanal?

Não sei…. Mas dá pra calcular…

 

Qual tênis?

Um antigo de uma marca que nunca tinha usado, mas soube que já saiu de linha de tão velho…

 

O problema da corrida é que é um esporte de repetição. Ela é monótona, machuca, cansa, aborrece, é desconfortável… o melhor momento do treino – olha que irônico – é justamente quando PARAMOS de correr… seus efeitos no condicionamento vêm somente com constância, paciência, regularidade…

Correr não é descolado, fazer o que todo mundo faz (para melhorar) não é nada sexy. E o caminho é longo. Por isso que as pessoas ficam afoitas por atalhos, por segredos (que ninguém tem, todos no fundo parecem já saber aquilo que funciona) e a tecnologia ou dinheiro não lhe dão nenhuma vantagem.

Em um mundo com tantas distrações lutando pela nossa atenção, com imediatismo (a pizzaria não lhe cobrará se não entregar a pizza em 28 minutos) e tanta coisa virtual, algo tão old school como a corrida é um concorrente meio ultrapassado porque ela é quase exatamente uma antítese de nosso mundo atual: lenta, real, requer atenção e dedicação.

Por isso que há tantas promessas no mercado. Eu poderia ser mais indelicado e dizer que em um mundo cheio de malandros não lhes faltam clientes otários. Mas tem gente inteligente…. Que cai por ingenuidade, ignorância e boa-fé. Acreditam em promessas de melhoras por intervenções sofisticadas. Todos já caímos. Eu já consumi muito lixo… BCAA, teste de pisada, usei pré e pós-treino… aí você aprende que… não funcionam e que NADA é de graça. Então daí você já de cara filtra uns 80% dos profissionais do mercado que vivem da ignorância ou da ingenuidade alheia, que por venderem martelo chamam tudo de prego.

Ainda assim a corrida tem vida longa. Seja porque o passado foi glorioso, seja porque correr é uma ação intrínseca do ser humano (crianças correm, os animais correm). Mas as pessoas vão inventando novos jeitos querendo reinventar a roda. E mais uma vez o passado nos dá a resposta: não vão conseguir. E como expectativa tem enorme relação com frustração, vejo que ou a pessoa aceita e aprende a gostar das coisas como são, ou vão ficar como o Nelton já disse certa vez: ficarão colocando leite em pó e mel no açaí porque é cool comer açaí, mas o gosto nunca lhe agradou.

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Um pouco da Boston que muita gente não vê nem viu.

Uma das análises mais certeiras e sensatas feitas antes da última Maratona de Boston foi feita por Steve Magness: o clima adverso é o maior equalizador de desempenho em uma prova. Todos ficam assim mais parecidos, desaparecem os recordes pessoais e os season best. Aí a disputa é para ver quem tem mais garra.

Muito se falou que a vitória INCRÍVEL (mas não 100% inesperada) de Yuki Kawauchi seria algo como uma redenção, que ele seria um representante amador dentre tantos profissionais bem pagos. Essa leitura é algo que fica entre a pressa e uma leitura incompleta do cenário. Como muitíssimo bem disse o escritor Adharanand Finno japonês é o último e o maior dos guerreiros, sua vitória veio coroar sua vitoriosa carreira.

Kawauchi, diferentemente de um Galen Rupp, por exemplo, não vive “da” corrida (e essa ênfase se faz necessária), mas ele vive “para” a corrida. Mas de amador no sentido da palavra ele não tem muito mais. Ele não é tão amador sequer quanto o eram os atletas das décadas de 60 e 70 que ganhavam dinheiro por debaixo dos panos, equipamento e apoio. Isso porque o japonês recebe prêmios em dinheiro e material, muito material. Ele é praticamente um atleta profissional que complementa sua renda com outro emprego. A decisão de não ter um clube pagando seus salários é uma escolha que traz alguns grandes benefícios ao atleta (ele precisa competir “apenas” as provas que escolhe). Ele está para o amadorismo tanto quanto aquele conhecido que ganha R$300 de vez em quando para correr por um supermercado em provas pelo interior está para o profissionalismo. Yuki não é um amador. O tal Fulano não é profissional.

Vale aqui ainda ressaltar que a enorme maioria dos atletas ao longo dos tempos, e a regra vigente na modalidade na absoluta maior parte da história do atletismo, exigia que os atletas fossem amadores. Kawauchi é um caso raro que segue cumprindo algumas das finadas “obrigações”, mas ele NÃO seria considerado amador JUSTAMENTE quando essa definição mais era decisiva, essencial para a elegibilidade de um corredor.

NÃO, quando analisado, Yuki Kawauchi não é amador.

 

Agora vamos à parte de que ele “seria um de nós”.

Sinto-lhes informar, o japonês está mais próximo de Abebe Bikila e Eliud Kipchoge, os 2 maiores maratonistas da história, do que qualquer amador que você conheça. Ele não é um de nós. Há duas coisas que podemos falar de atletas que disputam de forma protagonista um evento major (Mundial, Jogos Olímpicos, por exemplo):

 

  1. Eles são outliers, fora da curva, são “especiais”.

Kawauchi aguenta cargas competitivas e mesmo de treinos que estão absolutamente fora do comum. Um fora do comum não pode ser um de nós. Neste domingo ele correu uma Meia Maratona em 1h04. Na 5ª feira, 6ª feira e sábado imediatamente antes da Maratona de Boston (que é realizada sempre em uma 2a feira) ele correu diariamente 20km, em ritmo progressivo cada treino. Isso não tem nada de comum!

 

  1. A maioria dos atletas de ponta do atletismo, a elite, se dopa.

Isso, infelizmente, é algo que não podemos ignorar. Eu não quero entrar na questão se ele se dopa ou não. É irrelevante (ainda que eu acredite, ou espero acreditar, que não). A maioria dos amadores não faz isso, não treina 60km em 3 dias antes de uma prova importante nem treina 160km de forma rotineira semanalmente.

 

Não, Kawauchi não tem nada de normal, não tem tudo que caracteriza um amador.

 

Eu escrevi tudo isso não para diminuir Kawauchi. Se você entendeu assim, recomendo que releia o que escrevi. Estou aqui porque acredito que a melhor de todas as histórias de Boston vai passar despercebida por mais de 90% do público.

A vitória japonesa foi emocionante. A vitória da que seja talvez a atleta mais consistente em maratonas, a de Des Linden, que quebrou um jejum de décadas sem vitória de uma mulher local também foi igualmente emocionante. Principalmente quando você descobre que ela pensou em não largar, quando no 5km comentou com Shalane Flanagan que estava prestes a abandonar a prova.

 

Mas a melhor história para mim é de uma amadora: Sarah Sellers. A americana surpreendeu a todos (e a ela mesma). Como ela nunca havia corrido uma maratona, correu uma prova para obter o índice (correu em 2h44) para poder se juntar ao seu irmão que pretendia correr em Boston. Sellers é Amadora (com “A” maiúsculo). Sellers, uma enfermeira em tempo integral, é mais próxima daquele seu conhecido(a) amador que treina todos os dias, tira dinheiro do bolso, paga a própria inscrição, compra seu próprio equipamento, corre como um “comum”, tem um passado atlético.

Sarah Sellers é para mim uma prova de que, com os astros devidamente alinhados, com um “espírito guerreiro”, com um clima “equalizando” os atletas e com muita dedicação de quem corre humanamente, nada outlier, 100km semanais mesmo ao final de um dia de trabalho, você pode SIM entrar e mais do que não fazer feio, fazer bonito mesmo entre alguns dos melhores do mundo.

Sim, Sarah foi um de nós no maior palco da maratona amadora!

 

*Jessica Chichester é outra que “nos” representa, inclusive largando atrás da elite

 

**se você gosta de histórias especiais, talvez goste desta recente: um goleiro amador de hóquei sobre o gelo foi chamado para ficar emergencialmente no banco de reservas de seu time de coração em uma partida da NHL (a NBA desse esporte). O improvável acontece. O goleiro titular se machuca e ele tem que entrar em quadra. Mais. Ele faz 7 defesas e é o MVP da noite. Uma noite para não se esquecer jamais. Goste ou não de hóquei.

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O que há por trás dos amadores buscando desafios cada vez maiores?

No The New York Times uma matéria explicando como os amadores vão criando desafios cada vez maiores para se manterem motivados. Acho de verdade que isso dá material para um pós-doc de tanto que dá para desenvolver. Para mim quem faz isso não gosta tanto assim de correr porque tem que apelar ao quase impossível para manter uma rotina.

Um amigo diz que quem coloca coisas no açaí, não gosta de açaí, gosta daquilo que ele coloca no açaí para amenizar o sabor do… açaí. É como café com bastante açúcar, a pessoa gosta mesmo é de açúcar. No ramo da corrida, quem só consegue correr 100% do tempo com música, acha correr tão chato que precisa se distrair ouvindo música. Essa tara pelos amadores em sair correndo muitos quilômetros da noite para o dia é o paraíso dos ortopedistas. Na verdade é a operação Cavalo de Troia dos fisioterapeutas. “Corram… corram machucados para o meu consultório!

Sim, vivemos em uma sociedade imediatista. Você perde o cliente se disser que ele, um iniciante, só deveria correr 21km daqui 2 anos. Ele quer correr ESSE ano. Se você não treiná-lo ele não terá dificuldade em encontrar alguém disposto a aceitar o dinheiro pra fazer isso. Sempre que vejo isso fico curioso com a rotatividade dos corredores. Por que o que vai fazer alguém que no começo do ano nunca correu, ao final do ano correu 21km e no outro faz o Desafio do Dunga (5km/10km/21km/42km em 4 dias seguidos)?

Sempre me pergunto também o que gera tanta atração na classe média (alta) em sofrer nesses eventos. Ainda que seja um sofrimento relativo, mais teimosia do que desconforto prolongado. Justo ela que anda em carros confortáveis com ar condicionado, confortáveis como suas salas, também confortáveis. Que treinam 2h00 no sábado, mas trabalham e moram no 2o andar e sobem sempre de elevador.

Veja bem, não há NENHUMA inferioridade moral em fazer isso (muito menos em ter dinheiro!)! Mas o fechamento da matéria entrega tudo: a pessoa acha que ela sai mentalmente mais forte de uma ultramaratona. De onde a pessoa tira isso? Parece papo de psicologia vagabunda de RH que coloca vídeo motivacional do filme Gladiador, esquecendo que as pessoas ali eram escravas prestes a morrer (seu RH burro nem esconde de você que te acha um escravo). Qual a relação de um com outro? Correr te torna tão melhor quanto sair para fazer feira de 4a feira!

Eu acredito mais em compensação… que a pessoa busca um falso sofrimento compensatório. Não sem antes tomar todos os cuidados para que seja um sofrimento de laboratório, controlado, não muito difícil, pasteurizado. Como se os resultados fossem os mesmos nessa falsa mimetização de como era sofrida a vida de antepassados sem tanto dinheiro (mais pobres) ou sem tanto conforto (menos tecnologia).

E lógico, nada disso teria tomado essa magnitude não fossem as redes sociais, afinal, a pergunta não é minha, mas nunca foi tão verdadeira: você correria uma maratona se não pudesse contar a ninguém?

Preço de Tênis é imposto. Mas também muito posicionamento de mercado, social e Fé, muita fé.

3 posts bem atuais falam quase tudo o que um corredor precisa saber para entender melhor o mercado de tênis de corrida no Brasil (e também lá fora). O primeiro deles é da Triathlete e questiona: por que alguns tênis custam tão mais que os outros?

Tem o YouTuber que vai tentar te convencer que existe muita pesquisa e tecnologia em tênis de corrida, o P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), o wannabe influencer que vai correr 15km com um tênis que ganhou e falar que vale pagar R$699 no novo modelo ou o jornalista que se informa lendo release dizendo as bobagens de sempre. Quem trabalha ou trabalhou com isso sabe que o P&D não tem impacto substancial no custo de um tênis. Não precisa acreditar em mim, é só ouvir outros que são ou já foram do mercado.

O texto explica que “muitas vezes, não é questão se pesquisa gera custos, mas se ela sequer foi feita”. Você vê que “muitos produtos usam o mesmo projeto fundamental. Não houve uma verdadeira pesquisa“. É duro quando o mundo de sonho de tanta gente não bate com a realidade.

Não há uma correlação positiva de preço com lesões (ou seja, quanto mais caro o modelo, menos lesões), na verdade há uma associação oposta! Quanto mais barato um tênis, menos lesões (*associação não é garantia de causa).

Preço de tênis não tem nada a ver com qualidade ao que se propõe, ele é um resultado de múltiplas causas. Ele é fruto de posicionamento de mercado, de tributo (impostos) e de demanda. O Brasil, qualquer um sabe, pois sente na pele, tem alguns dos impostos mais caros do mundo. E assim chegamos ao segundo post.

O Eduardo Suzuki fez uma pesquisa para quantificar o que já sabíamos: pagamos os tênis de corrida mais caros do mundo. O imposto responde? Com certeza. Totalmente? Não.

Aqui entra o posicionamento. É uma questão de valor percebido. Como o público brasileiro para muitos mercados atribui preço à qualidade (além de toda uma questão toda antropológica que daria margem para um pergaminho, afinal correr com um tênis que só se compra indo aos EUA ou que custou 4 dígitos te posiciona dentro da hierarquia social) você vai sempre encontrar tênis muito caros. Sim, a indústria trabalha com uma margem menor do que muita gente sonha, mas o ponto é: não há nenhum incentivo para reduzir os preços quando há… demanda.

O corredor quer qualidade (e acha que preço o garante isso), ele quer pagar caro. Por que vender algo igual por – sei lá – R$399 se pagam sorrindo R$799?

E por fim caímos na terceira publicação que cai em outro ponto fundamental do mercado. Os novos solados vieram para ficar. É item fundamental que a (argh!) tecnologia do tênis seja aparente. Elas vêm e vão. Já foi o Air da Nike, o Bounce da adidas… estão aí o Gel da ASICS, a placa da Mizuno. Você TEM que expor a tecnologia. O texto da Business Insider explica como a ideia das solas traz uma vantagem enorme: você pode moldá-la em qualquer produto, inclusive em modelos casuais (assim você pode andar tranquilo no shopping ou na balada combatendo o impacto com aquela entidade que ninguém nunca mostrou: o amortecimento).

Tênis é uma questão de preço de “tecnologia” visível, de posicionamento social e de fé, muita fé. Sem isso, você não pagaria (sorrindo) o que paga hoje.

*agradeço ao Marcel Pracidelle e ao Igor Oliveira pelas dicas!

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Sobre “skin in the game”, Maratonas, Câncer, Bitcoins e a Dra. Lorca

OU AINDA: FAÇA O QUE PREGA

Mês passado, em mais um daqueles programas governamentais de conscientização da população, um médico do INCA (Instituto Nacional de Câncer) foi à TV para nos alertar sobre os riscos da doença. Ele falou obviedades como o peso do estilo de vida e da alimentação nas chances de incidência da doença. A coisa ficou mais interessante quando chegou a parte da nutrição: o que fazer para melhorar nossas chances, doutor?

O médico que deveria saber o que fala, não pensou duas vezes: consumir pouca carne e menos alimentos industrializados. Não fez nenhuma menção ao açúcar, nenhuma menção aos óleos vegetais, nenhuma menção ao álcool. Somente carnes e alimentos processados.

Eu nunca teria esse doutor como meu médico! Não é nem o fato de ele não entender muita coisa sobre (prevenção de) Câncer ou Risco (o assunto do qual ele fala, então deve ser sua especialidade), mas é porque ele não tem “skin in the game”. A pele dele não está em jogo.

Falo isso porque o próprio site do INCA estabelece que para evitarmos câncer deveríamos comer menos de 300g de carne por semana. Eu devo comer isso por dia. Eu aposto com muita certeza que este médico também ultrapassa esse valor semanal. O doutor só não sabe do que fala, como também não segue o que recomenda. Então por que eu seguiria alguém que não segue o que prega?

BITCOINS – “Nunca embarque em um avião se o piloto não estiver a bordo.” (Fat Tony)

Eu não tenho criptomoedas, não tenho moral para recomendar que você ou qualquer um a compre. Vamos pensar diferente. Imagine que você contrata um consultor financeiro que lhe recomenda: aplique todo o dinheiro que tiver em criptomoedas, venda seu carro, venda sua casa, viva de aluguel e compre quantas bitcoins puder. No que você pergunta: “por curiosidade, quantas você tem?” No que ele responde: “nenhuma, acho isso muito arriscado”.

Seguindo uma lógica bem interessante defendida por Nassim Taleb, as pessoas que votam a favor da guerra precisam ter, pelo menos, um descendente (filho ou neto) em combate. Na antiga Roma os engenheiros precisavam passar algum tempo sob a ponte que eles haviam construído. Dizem que os ingleses foram ainda mais longe, obrigaram as famílias dos engenheiros a permanecer com eles sob a ponte construída.

MARATONAS – Se for amador, corra com quem já correu pra valer 42km.

Há uma discussão eterna “conhecimento vs prática” no esporte. É uma discussão tola, uma vez que se complementam e não se excluem. Eu treinaria (e já treinei!) com um não-formado, com alguém que não tem CREF (eu não tenho). Mas eu nunca, jamais treinaria para uma Maratona com um treinador que nunca correu para valer os 42km. Nunca. Assim como nunca iria para uma aula de natação com um treinador que não sabe nadar, ou nem aprenderia basquete com alguém que não gosta do jogo. É simples. Muito simples.

A pessoa precisa ter a pele em jogo. E antes que você pergunte se renomados treinadores como Renato Canova ou Steve Magness correm maratona, eu lhes digo que o salário deles, a renda deles, vem da porcentagem que seus atletas ganham se e somente se correrem muito bem. É uma relação de esporte profissional, não amadora. Canova e Magness têm a pele em jogo sem precisarem correr sequer 21km.

Dra Lorca, nutricionista personagem do programa humorístico Zorra Total.

DRA LORCA – Nutricionistas deveriam, sim, ser magros.

Anualmente quando chego ao meu dentista, o Ayman, eu falo a frase que Tony Stark disse ao Capitão América em “Guerra Civil”: “às vezes quero dar um soco nesses seus dentes perfeitos”. Eu nunca teria o Tião Macalé como meu dentista. Assim como nunca teria um treinador que nunca correu 42km, nem compraria bitcoins seguindo conselho de quem nunca comprou.

E eu nunca teria uma nutricionista obesa me orientando. Simples. É sabido que a dieta (aquilo que uma pessoa come ao longo do tempo) é a maior responsável pelo seu peso. Sim, estilo de vida, nível de atividade física têm seu peso, mas são bem menores, muito menores. Doenças e genética também. Mas sabemos que o peso tem a dieta de longe como seu maior componente.

Se a minha nutricionista é obesa, há de forma meio geral 3 opções: uma doença/condição (ex: hipotireoidismo ou depressão), que é de longe a menor das possibilidades. Há a chance ainda dela seguir o que fala e não dar certo. Ou de não seguir o que fala, o ponto central do texto. E isto, não seguir, não me serve (assim como uma dieta que não funciona também não me servirá).

Sendo assim, sim, é de muito bom tom que a/o nutricionista seja magro(a) ou em forma. Ele precisa ter e colocar “a pele em jogo”. Porque na eventualidade de danos causados pela confiança que se deposita na dieta desse profissional, ele precisa ter algo a perder com isso. Ou seja, se ele recomenda low-carb ou low-fat ele tem que seguir a dieta. E se seguir e continuar gordo, já saberemos que o que fala não presta.

Se você não segue o que prega (ou o que vende, treinador!), isso não é opinião. Falar sem fazer (ou ter feito, no caso dos 42km), sem se expor aos danos, sem colocar a própria pele em jogo, sem ter algo em risco, você fica com as vantagens, transferindo a seu cliente todo o risco e todo o prejuízo. É um alargamento na dissociação de interesses. Não me serve.

*sim, como corredor eu também JAMAIS me consultoria com um(a) nutricionista que nunca correu pra valer 42km. Quem corre sabe que a absoluta maioria das diretrizes e recomendações nutricionais não sobrevive à rigidez do mundo real.

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