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Corrida e Trapaça

Está circulando o episódio de um corredor brasileiro que, tudo leva a crer, trapaceou cortando caminho na Maratona de Boston desta 2a feira. A prova é especial porque exige índice de qualificação. Como ele nem de longe teria condições, ele teria TAMBÉM trapaceado na Maratona de Chicago onde “correu” a marca exigida. O custo para alguém daqui fazer as duas provas não gira em menos que R$10.000-12.000 entre transporte, hospedagem e inscrição.
É óbvio que a indignação explodiu. “O que leva alguém a trapacear desse jeito?” “Por quê?!” “É injusto com os demais corredores“.
Eu sinceramente não sei o que achar. O que leva alguém a pagar a sair para correr 42km?, pode perguntar quem odeia correr. O que um comportamento que NÃO nos afeta diretamente tem a ver com injustiça? Por que se indignar??
Uns 2 anos atrás eu tentei entrar em contato com um conhecido cortador de caminho em provas. Na casa dos 60 anos eu pude notar que claramente falava com uma pessoa doente, perturbada, que necessitava de tratamento, uma vez que ele insistia ter corrido na 3a idade em ritmo queniano, mandando dados de GPS que revelavam ritmos sobre-humanos.
A coisa andou de um jeito que sua filha interveio, reconhecendo ser doença e pedindo compreensão. E eu me retirei. Igual um jogador profissional que é punido por doping quando cai no vício das drogas, esse corredor brasileiro não merece ser defenestrado em praça pública. Ele precisa, talvez não saiba, de tratamento. Por isso que é em vão querer expô-lo aqui. Pra quê!? Ele já foi punido demais! Não faz mais sentido.
Acabei de ler uma obra prima. “Em Busca de Sentido” é um clássico mundial de Viktor Frankl que fala sobre sentido em viver. Por que VOCÊ corre? Semanas atrás vi uma matéria na TV com uma garota que falhou numa prova de longa distância e estava em lágrimas porque queria que “se orgulhassem” dela. Tive certa pena daquilo tudo… ela fazia tudo aquilo pelos outros, não por ela. Correr já é chato, correr pelos OUTROS?!?
No fundo no fundo, esse brasileiro queria algo parecido. Ele buscava aprovação social que, ainda que você negue, todos buscamos. Nessa mesma semana assisti a Fyre, um documentário na Netflix que fala de um cara que engana milhares de pessoas criando um produto que seria de certa forma uma vida de Instagram só que real. Ele é ao mesmo tempo doente e manipulador (picareta mesmo). Ele só se deu bem por tanto tempo porque é muito fácil enganar as pessoas.
Esse falso maratonista vinha enganando a todos (e a ele mesmo). Mas foi pego. Linchá-lo publicamente não adianta nada. É até desumano. Doentes precisam é de tratamento.
*a foto deste texto é do perfil do maior trapaceador amador que a corrida já conheceu, Marathon Man na New Yorker.
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“-Larry, são apenas tênis.”

Acabei de corrigir outra mácula: terminei de ler uma biografia daquele que é o maior velocista ao lado de Usain BoltJesse Owens. Tudo era precário na época que o velocista americano chegava para realizar sua mais famosa façanha, os 4 ouros olímpicos.

Ao desembarcarem de navio na Alemanha (onde ele evitava consumir pães e massas para não engordar, pois é…) Owens estava ainda sem sua nova sapatilha para competir.

Larry Snyder, seu treinador, estava preocupado, queria que o atleta a experimentasse o quanto antes.

Eu costumo dizer que uma das grandes diferenças entre os amadores médios e os que “chegam lá” é que estes sabem o que DE FATO importa no esporte. Com tão pouca tecnologia disponível seria de se pensar que uma sapatilha feita com couro de canguru (antes de serem proibidas) poderíamos imaginar que ela seria imprescindível para os feitos de Owens.

Mas Jesse sabia o que fazia dele Owens. Vendo a preocupação de seu treinador ele solta a frase:

Larry, são apenas tênis.

Se preocupa de mais com tênis quem sabe de menos desse esporte.

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De Desafios, a crise da meia-idade e o wannabe influenciador!

Um texto de chamada forte chamou minha atenção: demonstração de extremo atleticismo é a nova crise de meia-idade. O texto me chega uma semana depois de outro rodar o mundinho na corrida com o autor falando de uma doença gravíssima e muito séria: pessoas estão colocando Ironman e Maratona no currículo profissional. Como corredor, tenho medo de pegar uma doença tão grave.

Eu sempre tento ser cuidadoso quando toco nesse assunto porque parece haver não juízo de valor, mas se as pessoas poderiam ou não fazer o que elas fazem. Elas podem! Sempre! Não se discute isso! Porém, uma coisa que o texto original nos traz é uma questão de fato (não de opinião): o público de maratonas, ultras e triatlos de longa distância são pessoas de 40 a 49 anos, de renda e escolaridade acima da média. É coisa de adulto, que paga as contas e que tem dinheiro para comprar um de nossos bens mais valiosos, o tempo. Ou tente convencer uma dona de casa de baixa renda que ela pode deixar de fazer afazeres doméstico para fazer longão em ritmo de amador. Ela vai achar que você é louco.

 

Tenho muita experiência com esporte universitário e afirmo: é muito difícil fazer jovens correrem. Eles já (ou ainda) têm saúde, não chegaram à crise de meia-idade que os obriga a pedir biscoito (o “parabéns” nas redes sociais). Isso porque a garota tem a jovialidade ao seu lado que lhe garante elogios sem fazer muita força. Já o cara tem esportes mais legais que a corrida para ir conquistar o mesmo destaque. Veja bem, correr é chato, monótono, aborrecido e agride demais nosso corpo (triatlo é 3 vezes isso, só que agride bem menos). Um cara que joga handebol ou basquete bem, por exemplo, pode praticar algo que lhe dá enorme satisfação sem exigir desconforto 90% do tempo, como faz a corrida. Corrida é esporte de gente velha, sem talento para outras coisas. Aceite que dói menos.

Correr/triatlo é ainda coisa de gente velha que investe nesses eventos buscando algo em troca. Seja a saúde (que vai se esvaecendo com o tempo, essa entidade invencível e inexorável), seja reconhecimento. Que ninguém se ofenda, pois eu escrevo. Quem diz escrever não se preocupando em ser lido está claramente mentindo. Nunca acredite em artista que diz fazer apenas por amor (*aqui um adendo, nunca, jamais acredite em um ator em qualquer assunto). Isso é bobagem. Ele poderia ficar cantando no chuveiro ou interpretando somente ao cachorro dele. Ele quer público. Se não quer ser lido, não use a internet, tenha um diário de papel. Se está nas redes sociais sabemos o motivo. E sem modéstia, que nada mais é que a vaidade esperando aplauso.

Quer exemplo maior do que o que aconteceu semana passada com falsos perfil da adidas e da Nike enganando centenas de milhares de pessoas? Como diz um grandessíssimo amigo, o fingimento é o mal do século e de nossa sociedade.

Esses falsos perfis eram toscos demais e, ainda assim, quando fui dormir um deles tinha 4.000 seguidores e no dia seguinte eram mais de 100.000, reforçando a mim que velho e internet não combinam porque eles não podem ver uma vergonha que correm lá para ir passar. Porém, eu toquei no assunto fingimento porque a pessoa que corre por correr, ela já se completa. Ela não precisa exteriorizar um significado (você correria uma maratona se não pudesse contar a absolutamente ninguém?). Mas há uma insistência na ideia de que a corrida te faz melhor. Mentira enorme. O que esse golpe nos mostrou foi que dentro de cada corredor parece haver um wannabe (gíria do inglês quero ser) que finge correr de graça.

O que me assusta na época de BBB é quantas pessoas desejam ser famosas por… serem famosas. Isso é uma fama que obviamente não se sustenta por si só (a menos que você seja um/uma jovem sexy, daí dura até os 30 anos). Os famosos longevos o são em função de algo que faz bem, profissionalmente. E pudemos nesses falsos perfis observar na vida real como as pessoas querem ser famosas, influenciadores pela sua corrida amadora. Ela é a escrita aplicada ao mundo da corrida. O corredor/triatleta amador tem um enorme desejo de ver sua história ser contada, ser lida, a ponto de ficar fazendo isso por horas seguidas bem lento para que alguém mais o veja. É ISSO que o completa. O amador parece correr somente e somente se puder ou tiver sua história contada.

E nisso parece haver um significado de completar algo que lhe falta. O texto, e aqui eu discordo completamente dele, fala que treinamos para poder nos garantir de modo mais saudável anos à frente. O que o caso dos CVs com a marca do IM ou o desespero de ver sua história de amador ser contada por alguém que nem apresentou suas credenciais em troca de uns equipamentos, me dão a certeza que o esporte de ultra/longa duração sendo intrinsicamente tão chatos (e POUCO desafiadores), só encontra terreno fértil porque é um jeito de adultos termos nossa vida contada e vista pelos demais. Sem nos darmos conta, reforço, completa algo (seja saúde, talento, auto-estima, significado…) que falta em cada um. Os 15 minutos de fama prometidos parece vir à custa de muitos e muitos quilômetros.

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De Café, Placebo & “skin in the game”…

Já não acompanho mais matérias sobre café e cafeína na corrida. Não há como acompanhar esse tipo de abordagem no volume que são publicadas ou requentadas frequentemente (é isso que fazem portais e perfis de saúde, agem como revistas de adolescentes dos anos 90 que não existem mais, sinal claro de que não são terreno fértil para buscarmos informação com um mínimo de qualidade).

Primeiro porque estudos dos 2 lados não faltam, seja provando ou “desprovando” X ou Y, que consumir faz BEM ou faz MAL. Lembremos que você consegue achar pesquisas para tudo, por isso a maior parte delas é puro ruído, não sinal. Sinal você encontrará utilizando 2 recursos: o TEMPO e quando existe SKIN IN THE GAME “pele em jogo”).

Uma heurística (ou proxy ou regra) muito simples que uso com Esporte e Nutrição quando o assunto é suplementação passa por quem usa ou o recomenda. Se vem de acadêmicos, simplesmente não me importa nada. Por quê? Eles não têm “skin in the game”. No esporte o resultado é soberano. Já o sonho do acadêmico não sobrevive à realidade. Se o acadêmico vivesse fora do mundo de unicórnios, estaria no esporte. Acadêmico é aquela pessoa que sabe dar uma aula teórica sobre natação, mas que você jamais teria como salva-vidas da piscina da escola do seu filho. Isso é skin in the game.

E o que diz o mundo real sobre a cafeína?

Antes, vamos à minha sequência de proxy para suplementos:

1. Se o suplemento não foi banido, provavelmente não é efetivo;
2. Se o suplemento é efetivo, provavelmente já foi banido;
3. Há algumas exceções. Porém, não sabemos quais.

Duvida?

No caso da cafeína ela era anteriormente proibida pelo COI. Sabe o que aconteceu quando ela foi liberada? Seu consumo entre atletas CAIU. Por quê? Porque a liberação era um sinal claro de que ela NÃO melhorava tanto o desempenho. Lembrem-se: o acadêmico que fala que jejum não deveria ser feito entre atletas ou que tenta determinar protocolos de consumo de cafeína NÃO tem “skin in the game”, atletas SIM.

Voltando à cafeína. Ela é um estimulante. Porém, nosso organismo cria tolerância a algo em função de 2 variáveis: frequência e intensidade. Vejamos o caso da pimenta. Caso você se sente à mesa com um baiano (ou um tailandês ou um mexicano) verá que terá enorme dificuldade de acompanhar o consumo deles de pimenta (ou outros condimentos). Isso porque eles consomem em enorme frequência e/ou intensidade esse alimento.

Com a cafeína não deixa de ser parecido. Há pessoas mais sensíveis (como o há, por exemplo, com o consumo de sal) e menos sensíveis. Um consumo regular de cafeína (seja na forma de café, refrigerante cola ou energético) atinge pessoas de forma individual e pode gerar uma sensibilidade diferente com o tempo (em função da frequência e intensidade, lembra?).

Mas o mais importante é: SIM, a cafeína pode gerar estímulos (positivos) na prática da atividade física, mas eles são de forma individual (de acordo com nossa tolerância ou sensibilidade). E o mais importante: estão longe de serem garantidos OU do tipo “mais é melhor”, se fosse, os atletas continuariam a usar independentemente do que dizem os acadêmicos sem “skin in the game”.

Se você consome uma xícara de café e vai correr e se sente bem, siga o jogo! Quer experimentar duas? Tente, experimente! Agora se você acha que 18 xícaras te fará mais veloz ou segue recomendação de acadêmico sem “skin in the game” achando que pode ser melhor que a prática, eu tenho uma má notícia a te dar…

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Treinador Clandestino!

Danilo Balu
autor

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A Economia Comportamental vai à Corrida

*A Flora Pfeifer é uma corredora de meio fundo fazendo seu último ano em Economia na FEA-USP. Não fomos contemporâneos de FEA (por alguns “poucos” anos!), mas dividimos muitos interesses, além da corrida. Talvez o maior deles seja a Economia Comportamental. Quando me chegou um texto dela, não pensei duas vezes e escrevi me apresentando para que pudéssemos alongar a conversa! Espero que vocês gostem do resultado, que vai transcrito abaixo!

**********

Oi Flora! Tudo bem? Li e reli com muita atenção seu texto “O segredo da corrida ou como sair do-sofá depois de um dia intenso de trabalho no blog do Grupo de Estudos sobre Economia Comportamental da FEA-USP. Muitos do que conhecem meu trabalho já sabem: sou apaixonado por Economia Comportamental!

E corrida é um esporte simples, mas não é nada fácil… ela exige uma dedicação constante e paciente enquanto oferece um desconforto físico durante a prática. Então vivemos em um dilema! Com tantas alternativas que oferecem um prazer enorme e imediato (um frappuccino no Starbucks, por exemplo), como fazer ser rotina uma ida até a pista para dar tiros de 400m que nos deixam com a sensação de “tirem me daqui!”?? Difícil, não!?

Eu não sabia, mas você corre há 4 anos aquela que para mim é a prova mais tática de todo o atletismo (1.500m). Você falou algo MUITO legal! “As provas de meio fundo são exclusivamente caracterizadas pela constante presença de escolhas. No começo, nosso corpo transborda adrenalina e nosso ímpeto é ir o mais rápido possível, garantindo a liderança. À medida que entramos na segunda volta, nossa boca seca, nossos músculos cansam e tendemos a desacelerar — por vezes, falta vontade para passar a(o) adversária(o). São mini escolhas tomadas a cada metro da prova — e eu diria que a chave está, justamente, em tomar as melhores decisões possíveis, dado sua restrição física, ao longo do 1.500m.”

A maioria dos que vêm ao Recorrido fazem provas mais longas que os 1.500m… correm 5km, 10km, 42km… Mas é um fato, ainda que em menor intensidade, correr uma prova é uma sucessão de “mini-escolhas”. Você está cansado(a), o corpo pede para reduzir, mas temos que tomar uma decisão racional de seguir correndo em um ritmo X para conquistar uma determinada marca. Você no seu texto de cara cita Kahneman (*nota: Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, é autor da “Bíblia da Economia Comportamental”, o clássico Rápido e Devagar). Então minha primeira pergunta, Flora, é:

O que você acha que a tomada de decisão (racionais e irracionais) tem a ver com uma prova, uma situação extenuante? Afinal, corrida não é só sair correndo? Sem pensar??

FLORA: Fico muito contente de ver que compartilhamos estes interesses, Balu. Sabe, cada vez mais que estudo economia comportamental e o processo de escolha vejo como a corrida é um ótimo experimento individual para muitas das questões trabalhadas nessa área.
Acho que eu só tive maturidade para entender melhor minha prova nesta temporada. Antes disso acho que só saia correndo mesmo, sem pensar — dava uma de coelho nas primeiras voltas e tentava não quebrar no final. Não ia mal, mas também não chegava no meu limite. Correr por si só é uma coisa. Correr uma prova é outra. São situações muito diferentes quando você se preocupa com tempo, metas e adversários. Não é algo confortável. A sensação quando você termina é indescritível, mas é uma grande batalha individual ao longo de todo o percurso.
O 1.500m é uma prova mais curta e, por isso mesmo, não abre espaço para devaneios, pois tem que ser feita inteiramente em intensidade. Por isso comecei a pensar nessa questão da tomada de decisão e, bom, meio que experimentar minhas teorias ao longo dos treinos. Se tomar decisões requer energia e esforço, isso atrapalharia nosso desempenho físico ao longo da prova. Além disso, tomar a decisão durante a prova não é algo indicado — por estar em uma situação extenuante, sua noção intertemporal será afetada, entre o que é melhor momentaneamente (parar de correr, correr em um ritmo confortável) com seu objetivo racional de longo prazo (bater seu tempo). Sabemos, contudo, que operamos de duas formas diferentes: nosso cérebro consegue tomar decisões racionais e bem pensadas, o Sistema 2 (nota: ideia de 2 sistemas defendida por Kahneman, em oposição ao sistema 1), mas muitas vezes operamos de maneira automática (Sistema 1), o que requer menos energia. Bom, sendo assim, eu deixaria a decisão racional, de estratégia, para ser planejada antes (durante o período de treinamento, por exemplo). Nisso entra aquela questão de encontrar seu ritmo, saber quando se controlar e quando acelerar. O necessário, então, é tornar o processo “automatizado” – através da repetição dos treinos — para que, durante a prova, onde você só contará com seu sistema “rápido”, saiba o que fazer. Os treinos, então, devem ser feitos levando em conta seu corpo e sua mente! Sabe quando você tem vontade de desistir no tiro final? Ou acabar a rodagem alguns quilômetros antes? Quando você se força a ir até o final, está treinando seu cérebro para automatizar essa decisão na prova. Quando esse gatilho aparecer você tem que inserir a ação desejada, até que vire automatizada. (Que fique claro: isso é um processo difícil, o de automatizar suas decisões para alcançar o ritmo desejado! Exige muita repetição e consciência corporal. Mas entender isso talvez torne um pouco mais fácil.)
Sabe uma coisa curiosa? Outro dia estava treinando com um amigo. Sabia o tempo que queria fazer, e pedi para ele me puxar em metade dos tiros – íamos intercalando. Quando ele me puxava, o esforço que eu fazia parecia tremendamente menor do que quando eu ia na frente. Sei que tem a questão do vento, aerodinâmica e etc. Mas acho que é algo além disso. Eu não estava fazendo esforço nenhum para controlar o ritmo – só seguia ele. Minha energia estava inteiramente focada em correr, não em pensar. Não tinha que tomar decisões. Eu só corria. E o esforço pareceu muito menor. (Talvez isso explique parte da eficiência de se treinar em grupo…). Você também sente isso?!

BALU: Muito bom! Sim, sinto tudo isso! Com certeza! O treinamento de corrida é uma questão de treinar parâmetros fisiológicos (VO2máx, limiares, resistência de força, de velocidade…), mas também uma questão psicológica, comportamental, neurológica… a ideia do treinamento, entre tantas outras coisas, é fazer algo que seja difícil até ela ficar fácil ou ao menos realizável. Ou como gostam de dizer muitos treinadores: a última repetição é a boa, é a que importa, é a que vale. Recentemente retomou-se um debate que acho meio raso, de que a cabeça é quem manda no desempenho, acho tolo porque bastaria então trazer um monge e ele bateria o recorde da maratona. Fazer o básico (correr e correr) não é sexy, então as pessoas vivem querendo trazer o diferente, algo mirabolante.

A questão mental da corrida é muito importante, lógico! Você, sem ter CREF nem ser treinadora, captou e acabou por explicar algo que somente muito recentemente nos demos conta na corrida: você ficar atrás, no vácuo de um corredor, traz ENORME vantagem competitiva e nem é por uma questão aerodinâmica, não! Mas porque você não precisa pensar, algo que consome MUITA energia. Incrível, né!?

Aí eu vou te fazer um desafio! Quando olhamos as estatísticas, temos que uma significante parte dos corredores brasileiros treinam no final da tarde, começo da noite. Sabemos agora que não só correr cansa, mas pensar também. Para piorar temos a chegada do frio mais ao Sul e Sudeste do país… como vencer todo aquele cansaço que inventa desculpas para não irmos treinar? Como fazer o sistema 2 “vencer” o 1? Você explicou muito bem em seu texto original, então baseada nos conceitos da Economia Comportamental, quais dicas práticas você daria?

FLORA: Concordo plenamente com seu ponto, Balu! Querendo ou não, o jeito bruto de melhorar a corrida é correndo. Não tem milagre. Tem “polimentos”, questões secundárias, mas não dá para tirar a parte principal. Toda essa questão de treino mental e estratégia só faz sentido se feito durante os treinos de corrida. É justamente em criar um hábito de resistência mental perante o esforço físico – de nada adianta “visualizar” sem efetivamente seu corpo estar preparado pra isso.
Você entrou em um assunto que diz respeito a um fenômeno muito estudado em economia comportamental: o autocontrole. Uma das coisas que os cientistas descobriram é que esse recurso nosso funciona como um músculo: ele fadiga e requer energia. Quando estamos muito desgastados das diversas atividades do dia (trabalho puxado, estudos intensos) é muuuito mais difícil criar forças pra vencer a preguiça e ir correr (e o frio só piora a situação!). E treinar no final do dia acaba pegando essas sequelas. O jeito de tentar “vencer” isso é tornar nosso exercício automático em nossa rotina.
Lembro que, quando estava na escola, eu corria na praia todo final de tarde. Ano de vestibular, chegava em casa esgotada. Quando eu deixava minhas coisas logo me trocava direto e calçava o tênis, eu não desistia de ir (por mais que ainda fosse fazer alguma outra coisa em casa). Agora, se eu deitasse pra ver TV e descansasse uns minutinhos, era quase impossível criar forças pra sair de casa (principalmente no inverno, onde não contamos com aquele lindo dia pra nos motivar). O que ocorre é que começamos a criar desculpas mentais pra justificar nossa “falha” – e uma vez que justificamos um dia, o processo pra desistir de novo passa a ter um atalho mental.
Assim, baseado nessas teorias, vou tentar dar algumas dicas práticas que talvez ajudem, então:
1) Ter um objetivo forte com metas TANGÍVEIS que sirvam como motivação (ex: perder tantos quilos em tal prazo; melhorar seu tempo em x semanas; aumentar o desempenho para uma determinada prova). Atenção: quanto mais preciso for, melhor, pra não esbarrar na questão de incerteza e intertemporalidade;
2) Ter um grupo que te motive. Treinar em grupo exige menos autocontrole porque você torna o processo uma “norma social”. Se não for, tem que justificar sua ausência aos seus pares, e as pessoas estariam contando com a sua presença; (e se você faltar, lembre-se que estará influenciando os outros a faltar também!)
3) Criar “gatilhos” do hábito. Por exemplo, colocar a roupa de corrida logo que chegar em casa; treinar exatamente em tal horário (gatilho: olhar o relógio); comer um alimento de pré treino (que você só come pra treinar);
4) Criar um sistema individual de punições e recompensas. E se a recompensa da sensação de treino cumprido não for suficiente, ativando as áreas de prazer (ex: jantar tal coisa, postar uma foto do treino, ver uma série sem culpa no Netflix, etc.); 
5) Não faltar por preguiça! Se você treina todo dia ou em X dias da semana, faça desses seus dias sagrados! Se você faltou uma vez, isso acaba facilitando o processo de desistir, pois nós ancoramos nossas decisões presentes em decisões passadas.

BALU: Flora, tudo, absolutamente TUDO o que você falou no seu texto e agora nessa conversa me faz sentido! Nunca falei isso, mas eu mesmo tenho algumas regras mentais para treinar… quando morava na Irlanda fiquei viciado em digestive biscuits… chegou um momento que eu só me permitia comer 3 delas após meu treino do dia. Era a cenoura a um coelho, uma estratégia quase do tipo ganha-ganha. Sem treino (por qualquer que fosse o motivo), sem biscoito! Atualmente só como tapioca em um limite semanal e desde que seja em um dia de treino. Eu encaro meu treino diário como se fosse escovar dente… após o almoço vou e escovo… corrida é igual, eu saio correndo, sem me perguntar se devo ou não. Queria então era agradecer! A ideia era você, uma corredora, mas também uma acadêmica da área, pudesse fazer a nós essa junção entre a teoria e a prática. Mas para acabar queria antes apenas mais uma espécie de último desafio! O pesquisador Dan Ariely (Nota: Ariely é renomado autor de livros já traduzidos ao português, sobre irracionalidade e desonestidade. Pode comprar qualquer um, não tem como não gostar!) sugere que uma sessão de treino seria melhor se o último estímulo não fosse talvez o mais difícil porque essa sensação de enorme desconforto ficaria retido na memória criando uma certa aversão aos treinos já que sempre associaríamos um treino àquele sofrimento horroroso, então ele fala que terminar leve muda positivamente nossa percepção. Pois muitos dos que leem aqui são de alguma forma treinadores (de si ou de alguém). Então como a Economia Comportamental poderia ajudar um treinador a aumentar a fidelidade ou compromisso de um amador aos treinos? Alguma sugestão nessa linha? Prometo que é a última! (risos)

FLORA: Balu, o Dan Ariely trata muito bem sobre como agregamos informações ao longo do tempo. Quando jovem, ele sofreu um grave acidente que queimou 70% de seu corpo e, como consequência, passou meses internado no hospital, onde passava várias vezes pelo doloroso processo de remover as ataduras. As enfermeiras removiam-nas rapidamente, mas ele achava que removê-las aos poucos diminuiria sua percepção da dor — e isso motivou-o a estudar o assunto.
Ele baseou-se em Kahneman, de que a intensidade final da experiência impacta a avaliação retrospectiva, em Lowenstein e Prelec, de que é, de fato, a tendência final que determina essa avaliação. e em Hsee de que mudanças de intensidade é que são incorporadas mais fortemente em nossa memória.
Ele chegou a conclusão, enfim, de que a dor dispersada ao longo do tempo em menores intensidades diminui a percepção intrínseca – mas causa um impacto maior na enfermeira que causa a dor (por isso elas faziam de uma vez só, assim, reduziam seu próprio sofrimento, e a percepção de que o processo, em geral, se sairia menos doloroso para ambas as partes.)
Aplicando aos treinos de atletismo, eu acho que parte desse efeito é incorporado da sensação de endorfina (runners’ high) e satisfação ao final do treino superarem a dor que é o treino em si. É pelos resultados (e pela sensação positiva que eles trazem em nosso cérebro) que continuamos a praticar esse esporte. Correr pra um tempo não é divertido. Mas a satisfação final é a que fica associada à experiência!
Não tenho conhecimento suficiente para afirmar se isso se aplica a “partes” do treinamento (ex.: começar com mais difícil e acabar com algo mais fácil, que doa menos…). Não sei nem os respaldos da parte física do processo e tampouco posso afirmar pela minha sensação individual. Se eu acabar encontrando algo sobre o assunto, te envio!

BALU: Ótimo, Flora! MUITO obrigado! Nem temos como agradecer!

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