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Corrida, depressão e vício

Aproveitando a deixa falando de corrida como um sintoma psicológico, vou colocar aqui de novo o que escrevi pouco mais de um ano atrás aqui mesmo no Recorrido sobre o que penso da corrida como tratamento na depressão ou como sendo “viciante”.

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Se tem algo do qual NÃO gosto muito de falar a respeito é da associação que vira e mexem fazem com a corrida nos campos (do tratamento) da depressão e sobre ela causar vício e dependência. Da depressão não gosto nem de falar quando associam a corrida como tratamento para ela. É uma doença TÃO terrível e TÃO estigmatizada que o simples debate com o público dá a entender que a corrida seria uma espécie de remédio. Corrida só pode ser remédio para quem GOSTA minimamente de correr. O indivíduo com depressão não deveria buscar a corrida, mas o ESPORTE como ferramenta de auxílio, NÃO como remédio.

Ser viciado é BEM diferente de ter prazer. Gostar de correr não te faz um viciado. Minha crítica ao debate da sua prática ser viciante é porque SEMPRE sugerem ou dão a entender que ela vicia mais do que realmente pode viciar.

Eu tenho prazer em correr (são muitos anos correndo), mas não tenho graves e sérias crises de abstinências quando não corro. Aliás, estou há 10 dias sem conseguir correr (mas treinando força) porque meu calcanhar dá sinais de que precisa de uma cirurgia iminente. Experimente deixar um viciado sem narcótico ou droga todo esse período.

Não é nada simples definir quando algo “te vicia”. Quando falamos de uma substância ser viciante (e eu sei que a corrida não é uma substância) a American Psychological Association (APA) define 7 pontos dos quais havendo AO MENOS 3 você tem algo viciante. Porcamente resumindo seria: tolerância, abstinência, “bingeing” (overdose, uso excessivo de uma vez…), desejo de largar, procura/desejo (craving), interferência (negativa) na vida e consumo APESAR do mal que causa.

Para alguém ser MESMO viciado em correr tem que ser alguém que corre MUITO. Mas MUITO. Em frequência e tempo (nem estou falando de ritmo!). Outras coisas REALMENTE e claramente viciam a muitos… açúcar, entorpecentes, cigarro, álcool, fármacos, sexo, jogo… Não precisa ser especialista para saber que não entram todos no mesmo balaio. De uns é mais fácil sair do vício que de outros. Fora que por vezes confundimos hábito com dependência… o hábito (por exemplo, parar para correr dia sim dia não num parque na volta do trabalho pra casa) facilita o trabalho ao nosso cérebro (MUITO preguiçoso) porque esse hábito é uma tomada de decisão A MENOS que tem que ser feita. Se você come uma tapioca sempre e SOMENTE SE você corre há assim ainda a questão de associar a corrida com o fim do expediente ou de uma recompensa. Seria a corrida o vício? Não!

Como disse, é complexo. E o debate da corrida ser viciante ou ajudando pessoas com depressão não só acho simplista como quase insensível (com viciados, dependentes e doentes).

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Quando a Corrida é sintoma, não tratamento.

Já me perguntaram sobre correr dentro de casa na quarentena e falei mais de uma vez: correr dentro de casa não é parte da cura, mas sintoma de uma doença.

Em inbox me mandaram que um dos argumentos é que se isso dá paz mental à pessoa, deveria ser feito. Porém, quem sofre de TOC e precisa dar 15 voltas no próprio eixo antes de abrir a geladeira, por exemplo, não pode achar normal buscar paz nesse gesto irracional. Dar as 15 voltas não é dar paz mental, não é tratamento! Isso não deixa é de ser um sintoma de um problema.

Pois bem, em “On the Wildness of ChildrenCarol Black explica que durante décadas nosso modelo de dependência de drogas foi baseado em pesquisas realizadas com ratos de laboratório. Em um dos experimentos os animais podiam pressionar uma alavanca para receber água com heroína ou com cocaína. Os pesquisadores descobriram que os ratos pressionariam a alavanca e consumiriam droga até que morressem disso! A droga seria então, segundo as conclusões, a CAUSA do comportamento viciante.

Tudo muito lógico não?!

Porém, foi o psicólogo Bruce Alexander (em The Globalization of Addiction) que notou algo especial. Os ratos que se mataram assim estavam isolados em um ambiente não-natural, artificial, estéril, onde NÃO havia nada de mais, de natural para distraí-los ou ter o que fazer.

Vejamos, quando eles foram colocados em um ambiente mais natural, diversificado, onde eram capazes de interagir livremente com o meio-ambiente e mesmo com outros ratos, o uso de drogas foi reduzido em 80%. Ou seja, se você lhes desse uma VIDA real, um ambiente e um mundo no qual eles QUEIRAM VIVER, eles NÃO se destruíam com as drogas.

Mark Baker argumenta que um animal selvagem não é feliz em uma gaiola, por isso ele manifestará com gestos repetidos e comportamento perturbados. Por isso tenho pavor de entrar em lojas que vendem aves em pequenas gaiolas… você percebe em instantes como estão perturbadas. Liberte o animal e ele volta ao seu normal.

Essa gente pregando “corra dentro de casa” sinalizando virtude (“olha como sou virtuoso sou guerreiro e amo correr, quem sai de casa é egoísta!”) acha que está resolvendo um problema, quando apenas nos mostram sintomas de sua doença.

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Os clássicos ensinam – percepção de ritmo

A quarentena me fez estudar corrida de forma diária e metódica que não fazia havia mto. Ando preenchendo uma lacuna que me incomodava: não tinha mergulhado nos detalhes nos diários de treino de alguns ícones e ainda de arquivos da primeira metade do século passado.

Desde ontem me enfiei em 3 clássicos de 1896. E em vários capítulos há uma obsessão: a capacidade do atleta em determinar o ritmo de corrida. Isso vai em paralelo justamente com o DESCUIDO que amadores dão a o aprendizado de algo tão enfatizado há mais de um século!

Correr “GPS-dependente” é como dirigir olhando o velocímetro do carro a cada quarteirão, correr com frequencímetro pra saber a intensidade do treino é como o motorista que tem que olhar pro câmbio pra saber qual marcha está usando. Eu nunca andaria no carro de alguém que dirige assim. Eu lembro que pedia aos velocistas pra darem tiros de 120m acertando a casa do DÉCIMO de segundo.

Quando o corredor dá tiros de 1km olhando pro GPS ele incorre a um GRAVE erro. O GPS dá a velocidade INSTANTÂNEA da corrida que POUCO importa porque ela NUNCA é estável, a mesma, porque a corrida é uma sucessão de saltos, ou seja, ou a pessoa está acelerando ou desacelerando!

Quando a pessoa checa PARCIAIS de um tiro ela tem um cenário mais amplo, mais preciso, mais FIDEDIGNO porque ela compara sua SENSAÇÃO de esforço pela metragem em questão. E é ESSA sensação que ela PRECISA, que ela vai COMPARANDO e criando referências.

Um jeito de se conseguir isso é treinar algumas vezes “às cegas”. Por exemplo: num treino de 6x1km a pessoa só checar alguns tiros (metade?). Ou então checar apenas algumas parciais (a primeira metade, a segunda metade, o primeiro terço…). Quando ela se guia pelo GPS (velocidade instantânea) ela NÃO recebe um feedback de esforço porque o esforço tem que se relacionar com PERÍODOS, não com um MOMENTO.

Outra coisa que uso muito são velocidades DISTINTAS pra assim criar PERCEPÇÕES distintas. Quem treina comigo sabe que uso NO MÍNIMO 6 velocidades. E se você NÃO é capaz de fazer um treino SEM relógio CUMPRINDO com BOA PARTE do programado você tem um ENORME problema em mãos. Você só não sabe disso. Isso é sabido pelo menos desde 1896. Pelo menos…

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Corrida em tempos de Coronavírus – parte 3

Toda situação incomum, época de crise, serve também para revelar não só caráter, mas comportamento.
 
O que vinha discutindo nos bastidores do podcast 3 Lados da Corrida é como seria pra muitos conviver sem a corrida por causa da quarentena. Cada um lida de um jeito.
 
Eu disse em off que achava que seria um alívio a uns que usam as redes sociais pra declarar amor à prática por JUSTAMENTE NÃO poder correr. É a motivação INTRÍNSECA versus a EXTRÍNSECA. Motivada internamente ou externamente.
 
Percebi agora que pra uns desses influenciadores é que a corrida não faz sentido algum sem posts sobre a pessoa correndo.
 
Então vivemos um embate de quem posta seu treino (um direito legítimo que as recomendações dão suporte e que não me agrada, ainda que seja um direito).
 
E de outro lado perfis que buscam demonstrar virtudes postando dizeres do tipo “não corra” ou ainda “faça como eu , corra em esteira e aproveite e use esse meu cupom de desconto“. NUNCA é de graça!
 
A corrida parece a esses apenas um meio de demonstrar virtudes. E por isso ela é um porre (sucks) e um alívio qdo sua prática é mal vista.
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“Feedback”, dados, informação e aprendizado – parte 2

É comum em véspera de prova atleta vir perguntar como ELE(A) deve correr. Como vou saber?! Como treinador tenho PALPITES do que é POSSÍVEL ser feito. ESSE é o problema da falácia da confiança, de achar que ter prints de treinos me faria ter controle daquilo que não tenho, o desempenho alheio.

Treinos trabalham CAPACIDADES, valências, uma prova em si é IRREPRODUTÍVEL. O que se pode fazer é usar testes reproduzindo SITUAÇÕES que vão nos dar palpites mais acurados.

Eu sempre me faço de bobo quase nunca falando ao corredor o que ele deve fazer na prova. No máximo ELE vem até mim buscando confirmação (“estou pensando em sair pra tanto”), que no fundo nada mais é que ele perguntando indiretamente “não estou falando bobagem, né?”

LÓGICO que tenho interesse sincero e real pelo desempenho de quem oriento, porém eu a TREINO na SESSÃO, mas a ENSINO mesmo é quando faço com que ELA tome decisões, olhando meio que de longe não a deixando fazer bobagem, papel quase que FUNDAMENTAL de um treinador.

A pessoa ficar me enviando DADOS e resumos de treinos NÃO gera necessariamente INFORMAÇÃO (tempo dela no próximo 10km, por exemplo). EU dizer o quanto ela vai ou deveria correr 10km não produz nem um nem outro!

O treinador deveria assim fazer com que o corredor seja parte atuante no processo, fazendo com que ELE tente descobrir por ele mesmo as soluções (ritmos). Sessões de treino nos dizem POUCO do que vai acontecer futuramente, falam mais sobre o que PODE acontecer. Mas NINGUÉM conhece o atleta melhor que ele mesmo, nem mesmo um treinador lendo TODOS os treinos.

Stephanie Bruce contou no domingo que seu marido Ben, atleta profissional, decidiu no SÁBADO correr a Mesa Marathon. Ele venceu em recorde pessoal (2h21). Sua conclusão foi que isso é “um exemplo pra que não façamos overthinking’ sobre nossa preparação porque às vezes você só precisa aproveitar sua aptidão atual, seja ela qual for”.

Marílson Gomes disse pra nós dias atrás no podcast 3 Lados da Corrida que quando controlou TUDO correu 42km em 2h09, mas quando fez uma preparação errática, fez 2h06. A sensação de controle é MUITO traiçoeira.

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