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De Café, Placebo & “skin in the game”…

Já não acompanho mais matérias sobre café e cafeína na corrida. Não há como acompanhar esse tipo de abordagem no volume que são publicadas ou requentadas frequentemente (é isso que fazem portais e perfis de saúde, agem como revistas de adolescentes dos anos 90 que não existem mais, sinal claro de que não são terreno fértil para buscarmos informação com um mínimo de qualidade).

Primeiro porque estudos dos 2 lados não faltam, seja provando ou “desprovando” X ou Y, que consumir faz BEM ou faz MAL. Lembremos que você consegue achar pesquisas para tudo, por isso a maior parte delas é puro ruído, não sinal. Sinal você encontrará utilizando 2 recursos: o TEMPO e quando existe SKIN IN THE GAME “pele em jogo”).

Uma heurística (ou proxy ou regra) muito simples que uso com Esporte e Nutrição quando o assunto é suplementação passa por quem usa ou o recomenda. Se vem de acadêmicos, simplesmente não me importa nada. Por quê? Eles não têm “skin in the game”. No esporte o resultado é soberano. Já o sonho do acadêmico não sobrevive à realidade. Se o acadêmico vivesse fora do mundo de unicórnios, estaria no esporte. Acadêmico é aquela pessoa que sabe dar uma aula teórica sobre natação, mas que você jamais teria como salva-vidas da piscina da escola do seu filho. Isso é skin in the game.

E o que diz o mundo real sobre a cafeína?

Antes, vamos à minha sequência de proxy para suplementos:

1. Se o suplemento não foi banido, provavelmente não é efetivo;
2. Se o suplemento é efetivo, provavelmente já foi banido;
3. Há algumas exceções. Porém, não sabemos quais.

Duvida?

No caso da cafeína ela era anteriormente proibida pelo COI. Sabe o que aconteceu quando ela foi liberada? Seu consumo entre atletas CAIU. Por quê? Porque a liberação era um sinal claro de que ela NÃO melhorava tanto o desempenho. Lembrem-se: o acadêmico que fala que jejum não deveria ser feito entre atletas ou que tenta determinar protocolos de consumo de cafeína NÃO tem “skin in the game”, atletas SIM.

Voltando à cafeína. Ela é um estimulante. Porém, nosso organismo cria tolerância a algo em função de 2 variáveis: frequência e intensidade. Vejamos o caso da pimenta. Caso você se sente à mesa com um baiano (ou um tailandês ou um mexicano) verá que terá enorme dificuldade de acompanhar o consumo deles de pimenta (ou outros condimentos). Isso porque eles consomem em enorme frequência e/ou intensidade esse alimento.

Com a cafeína não deixa de ser parecido. Há pessoas mais sensíveis (como o há, por exemplo, com o consumo de sal) e menos sensíveis. Um consumo regular de cafeína (seja na forma de café, refrigerante cola ou energético) atinge pessoas de forma individual e pode gerar uma sensibilidade diferente com o tempo (em função da frequência e intensidade, lembra?).

Mas o mais importante é: SIM, a cafeína pode gerar estímulos (positivos) na prática da atividade física, mas eles são de forma individual (de acordo com nossa tolerância ou sensibilidade). E o mais importante: estão longe de serem garantidos OU do tipo “mais é melhor”, se fosse, os atletas continuariam a usar independentemente do que dizem os acadêmicos sem “skin in the game”.

Se você consome uma xícara de café e vai correr e se sente bem, siga o jogo! Quer experimentar duas? Tente, experimente! Agora se você acha que 18 xícaras te fará mais veloz ou segue recomendação de acadêmico sem “skin in the game” achando que pode ser melhor que a prática, eu tenho uma má notícia a te dar…

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Treinador Clandestino!

Danilo Balu
autor

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A Economia Comportamental vai à Corrida

*A Flora Pfeifer é uma corredora de meio fundo fazendo seu último ano em Economia na FEA-USP. Não fomos contemporâneos de FEA (por alguns “poucos” anos!), mas dividimos muitos interesses, além da corrida. Talvez o maior deles seja a Economia Comportamental. Quando me chegou um texto dela, não pensei duas vezes e escrevi me apresentando para que pudéssemos alongar a conversa! Espero que vocês gostem do resultado, que vai transcrito abaixo!

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Oi Flora! Tudo bem? Li e reli com muita atenção seu texto “O segredo da corrida ou como sair do-sofá depois de um dia intenso de trabalho no blog do Grupo de Estudos sobre Economia Comportamental da FEA-USP. Muitos do que conhecem meu trabalho já sabem: sou apaixonado por Economia Comportamental!

E corrida é um esporte simples, mas não é nada fácil… ela exige uma dedicação constante e paciente enquanto oferece um desconforto físico durante a prática. Então vivemos em um dilema! Com tantas alternativas que oferecem um prazer enorme e imediato (um frappuccino no Starbucks, por exemplo), como fazer ser rotina uma ida até a pista para dar tiros de 400m que nos deixam com a sensação de “tirem me daqui!”?? Difícil, não!?

Eu não sabia, mas você corre há 4 anos aquela que para mim é a prova mais tática de todo o atletismo (1.500m). Você falou algo MUITO legal! “As provas de meio fundo são exclusivamente caracterizadas pela constante presença de escolhas. No começo, nosso corpo transborda adrenalina e nosso ímpeto é ir o mais rápido possível, garantindo a liderança. À medida que entramos na segunda volta, nossa boca seca, nossos músculos cansam e tendemos a desacelerar — por vezes, falta vontade para passar a(o) adversária(o). São mini escolhas tomadas a cada metro da prova — e eu diria que a chave está, justamente, em tomar as melhores decisões possíveis, dado sua restrição física, ao longo do 1.500m.”

A maioria dos que vêm ao Recorrido fazem provas mais longas que os 1.500m… correm 5km, 10km, 42km… Mas é um fato, ainda que em menor intensidade, correr uma prova é uma sucessão de “mini-escolhas”. Você está cansado(a), o corpo pede para reduzir, mas temos que tomar uma decisão racional de seguir correndo em um ritmo X para conquistar uma determinada marca. Você no seu texto de cara cita Kahneman (*nota: Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, é autor da “Bíblia da Economia Comportamental”, o clássico Rápido e Devagar). Então minha primeira pergunta, Flora, é:

O que você acha que a tomada de decisão (racionais e irracionais) tem a ver com uma prova, uma situação extenuante? Afinal, corrida não é só sair correndo? Sem pensar??

FLORA: Fico muito contente de ver que compartilhamos estes interesses, Balu. Sabe, cada vez mais que estudo economia comportamental e o processo de escolha vejo como a corrida é um ótimo experimento individual para muitas das questões trabalhadas nessa área.
Acho que eu só tive maturidade para entender melhor minha prova nesta temporada. Antes disso acho que só saia correndo mesmo, sem pensar — dava uma de coelho nas primeiras voltas e tentava não quebrar no final. Não ia mal, mas também não chegava no meu limite. Correr por si só é uma coisa. Correr uma prova é outra. São situações muito diferentes quando você se preocupa com tempo, metas e adversários. Não é algo confortável. A sensação quando você termina é indescritível, mas é uma grande batalha individual ao longo de todo o percurso.
O 1.500m é uma prova mais curta e, por isso mesmo, não abre espaço para devaneios, pois tem que ser feita inteiramente em intensidade. Por isso comecei a pensar nessa questão da tomada de decisão e, bom, meio que experimentar minhas teorias ao longo dos treinos. Se tomar decisões requer energia e esforço, isso atrapalharia nosso desempenho físico ao longo da prova. Além disso, tomar a decisão durante a prova não é algo indicado — por estar em uma situação extenuante, sua noção intertemporal será afetada, entre o que é melhor momentaneamente (parar de correr, correr em um ritmo confortável) com seu objetivo racional de longo prazo (bater seu tempo). Sabemos, contudo, que operamos de duas formas diferentes: nosso cérebro consegue tomar decisões racionais e bem pensadas, o Sistema 2 (nota: ideia de 2 sistemas defendida por Kahneman, em oposição ao sistema 1), mas muitas vezes operamos de maneira automática (Sistema 1), o que requer menos energia. Bom, sendo assim, eu deixaria a decisão racional, de estratégia, para ser planejada antes (durante o período de treinamento, por exemplo). Nisso entra aquela questão de encontrar seu ritmo, saber quando se controlar e quando acelerar. O necessário, então, é tornar o processo “automatizado” – através da repetição dos treinos — para que, durante a prova, onde você só contará com seu sistema “rápido”, saiba o que fazer. Os treinos, então, devem ser feitos levando em conta seu corpo e sua mente! Sabe quando você tem vontade de desistir no tiro final? Ou acabar a rodagem alguns quilômetros antes? Quando você se força a ir até o final, está treinando seu cérebro para automatizar essa decisão na prova. Quando esse gatilho aparecer você tem que inserir a ação desejada, até que vire automatizada. (Que fique claro: isso é um processo difícil, o de automatizar suas decisões para alcançar o ritmo desejado! Exige muita repetição e consciência corporal. Mas entender isso talvez torne um pouco mais fácil.)
Sabe uma coisa curiosa? Outro dia estava treinando com um amigo. Sabia o tempo que queria fazer, e pedi para ele me puxar em metade dos tiros – íamos intercalando. Quando ele me puxava, o esforço que eu fazia parecia tremendamente menor do que quando eu ia na frente. Sei que tem a questão do vento, aerodinâmica e etc. Mas acho que é algo além disso. Eu não estava fazendo esforço nenhum para controlar o ritmo – só seguia ele. Minha energia estava inteiramente focada em correr, não em pensar. Não tinha que tomar decisões. Eu só corria. E o esforço pareceu muito menor. (Talvez isso explique parte da eficiência de se treinar em grupo…). Você também sente isso?!

BALU: Muito bom! Sim, sinto tudo isso! Com certeza! O treinamento de corrida é uma questão de treinar parâmetros fisiológicos (VO2máx, limiares, resistência de força, de velocidade…), mas também uma questão psicológica, comportamental, neurológica… a ideia do treinamento, entre tantas outras coisas, é fazer algo que seja difícil até ela ficar fácil ou ao menos realizável. Ou como gostam de dizer muitos treinadores: a última repetição é a boa, é a que importa, é a que vale. Recentemente retomou-se um debate que acho meio raso, de que a cabeça é quem manda no desempenho, acho tolo porque bastaria então trazer um monge e ele bateria o recorde da maratona. Fazer o básico (correr e correr) não é sexy, então as pessoas vivem querendo trazer o diferente, algo mirabolante.

A questão mental da corrida é muito importante, lógico! Você, sem ter CREF nem ser treinadora, captou e acabou por explicar algo que somente muito recentemente nos demos conta na corrida: você ficar atrás, no vácuo de um corredor, traz ENORME vantagem competitiva e nem é por uma questão aerodinâmica, não! Mas porque você não precisa pensar, algo que consome MUITA energia. Incrível, né!?

Aí eu vou te fazer um desafio! Quando olhamos as estatísticas, temos que uma significante parte dos corredores brasileiros treinam no final da tarde, começo da noite. Sabemos agora que não só correr cansa, mas pensar também. Para piorar temos a chegada do frio mais ao Sul e Sudeste do país… como vencer todo aquele cansaço que inventa desculpas para não irmos treinar? Como fazer o sistema 2 “vencer” o 1? Você explicou muito bem em seu texto original, então baseada nos conceitos da Economia Comportamental, quais dicas práticas você daria?

FLORA: Concordo plenamente com seu ponto, Balu! Querendo ou não, o jeito bruto de melhorar a corrida é correndo. Não tem milagre. Tem “polimentos”, questões secundárias, mas não dá para tirar a parte principal. Toda essa questão de treino mental e estratégia só faz sentido se feito durante os treinos de corrida. É justamente em criar um hábito de resistência mental perante o esforço físico – de nada adianta “visualizar” sem efetivamente seu corpo estar preparado pra isso.
Você entrou em um assunto que diz respeito a um fenômeno muito estudado em economia comportamental: o autocontrole. Uma das coisas que os cientistas descobriram é que esse recurso nosso funciona como um músculo: ele fadiga e requer energia. Quando estamos muito desgastados das diversas atividades do dia (trabalho puxado, estudos intensos) é muuuito mais difícil criar forças pra vencer a preguiça e ir correr (e o frio só piora a situação!). E treinar no final do dia acaba pegando essas sequelas. O jeito de tentar “vencer” isso é tornar nosso exercício automático em nossa rotina.
Lembro que, quando estava na escola, eu corria na praia todo final de tarde. Ano de vestibular, chegava em casa esgotada. Quando eu deixava minhas coisas logo me trocava direto e calçava o tênis, eu não desistia de ir (por mais que ainda fosse fazer alguma outra coisa em casa). Agora, se eu deitasse pra ver TV e descansasse uns minutinhos, era quase impossível criar forças pra sair de casa (principalmente no inverno, onde não contamos com aquele lindo dia pra nos motivar). O que ocorre é que começamos a criar desculpas mentais pra justificar nossa “falha” – e uma vez que justificamos um dia, o processo pra desistir de novo passa a ter um atalho mental.
Assim, baseado nessas teorias, vou tentar dar algumas dicas práticas que talvez ajudem, então:
1) Ter um objetivo forte com metas TANGÍVEIS que sirvam como motivação (ex: perder tantos quilos em tal prazo; melhorar seu tempo em x semanas; aumentar o desempenho para uma determinada prova). Atenção: quanto mais preciso for, melhor, pra não esbarrar na questão de incerteza e intertemporalidade;
2) Ter um grupo que te motive. Treinar em grupo exige menos autocontrole porque você torna o processo uma “norma social”. Se não for, tem que justificar sua ausência aos seus pares, e as pessoas estariam contando com a sua presença; (e se você faltar, lembre-se que estará influenciando os outros a faltar também!)
3) Criar “gatilhos” do hábito. Por exemplo, colocar a roupa de corrida logo que chegar em casa; treinar exatamente em tal horário (gatilho: olhar o relógio); comer um alimento de pré treino (que você só come pra treinar);
4) Criar um sistema individual de punições e recompensas. E se a recompensa da sensação de treino cumprido não for suficiente, ativando as áreas de prazer (ex: jantar tal coisa, postar uma foto do treino, ver uma série sem culpa no Netflix, etc.); 
5) Não faltar por preguiça! Se você treina todo dia ou em X dias da semana, faça desses seus dias sagrados! Se você faltou uma vez, isso acaba facilitando o processo de desistir, pois nós ancoramos nossas decisões presentes em decisões passadas.

BALU: Flora, tudo, absolutamente TUDO o que você falou no seu texto e agora nessa conversa me faz sentido! Nunca falei isso, mas eu mesmo tenho algumas regras mentais para treinar… quando morava na Irlanda fiquei viciado em digestive biscuits… chegou um momento que eu só me permitia comer 3 delas após meu treino do dia. Era a cenoura a um coelho, uma estratégia quase do tipo ganha-ganha. Sem treino (por qualquer que fosse o motivo), sem biscoito! Atualmente só como tapioca em um limite semanal e desde que seja em um dia de treino. Eu encaro meu treino diário como se fosse escovar dente… após o almoço vou e escovo… corrida é igual, eu saio correndo, sem me perguntar se devo ou não. Queria então era agradecer! A ideia era você, uma corredora, mas também uma acadêmica da área, pudesse fazer a nós essa junção entre a teoria e a prática. Mas para acabar queria antes apenas mais uma espécie de último desafio! O pesquisador Dan Ariely (Nota: Ariely é renomado autor de livros já traduzidos ao português, sobre irracionalidade e desonestidade. Pode comprar qualquer um, não tem como não gostar!) sugere que uma sessão de treino seria melhor se o último estímulo não fosse talvez o mais difícil porque essa sensação de enorme desconforto ficaria retido na memória criando uma certa aversão aos treinos já que sempre associaríamos um treino àquele sofrimento horroroso, então ele fala que terminar leve muda positivamente nossa percepção. Pois muitos dos que leem aqui são de alguma forma treinadores (de si ou de alguém). Então como a Economia Comportamental poderia ajudar um treinador a aumentar a fidelidade ou compromisso de um amador aos treinos? Alguma sugestão nessa linha? Prometo que é a última! (risos)

FLORA: Balu, o Dan Ariely trata muito bem sobre como agregamos informações ao longo do tempo. Quando jovem, ele sofreu um grave acidente que queimou 70% de seu corpo e, como consequência, passou meses internado no hospital, onde passava várias vezes pelo doloroso processo de remover as ataduras. As enfermeiras removiam-nas rapidamente, mas ele achava que removê-las aos poucos diminuiria sua percepção da dor — e isso motivou-o a estudar o assunto.
Ele baseou-se em Kahneman, de que a intensidade final da experiência impacta a avaliação retrospectiva, em Lowenstein e Prelec, de que é, de fato, a tendência final que determina essa avaliação. e em Hsee de que mudanças de intensidade é que são incorporadas mais fortemente em nossa memória.
Ele chegou a conclusão, enfim, de que a dor dispersada ao longo do tempo em menores intensidades diminui a percepção intrínseca – mas causa um impacto maior na enfermeira que causa a dor (por isso elas faziam de uma vez só, assim, reduziam seu próprio sofrimento, e a percepção de que o processo, em geral, se sairia menos doloroso para ambas as partes.)
Aplicando aos treinos de atletismo, eu acho que parte desse efeito é incorporado da sensação de endorfina (runners’ high) e satisfação ao final do treino superarem a dor que é o treino em si. É pelos resultados (e pela sensação positiva que eles trazem em nosso cérebro) que continuamos a praticar esse esporte. Correr pra um tempo não é divertido. Mas a satisfação final é a que fica associada à experiência!
Não tenho conhecimento suficiente para afirmar se isso se aplica a “partes” do treinamento (ex.: começar com mais difícil e acabar com algo mais fácil, que doa menos…). Não sei nem os respaldos da parte física do processo e tampouco posso afirmar pela minha sensação individual. Se eu acabar encontrando algo sobre o assunto, te envio!

BALU: Ótimo, Flora! MUITO obrigado! Nem temos como agradecer!

*Para saber mais sobre Economia Comportamental, confira os posts do G.E.E.C. em
geecusp.wordpress.com

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Correr não é sexy, nem cool, nem tem segredos

Correr é simples, não?! (*o que é BEM diferente de ser fácil) Aí a pessoa pergunta: quantas calorias você gasta no treino?

Não faço ideia!

 

Qual a distribuição do seu consumo de macronutrientes (carboidrato, gordura, proteína…)?

Também não faço ideia! Juro! As pessoas não acreditam…

 

Como é seu treino de força?

Faço força, muita. Mas não tenho protocolo nem periodização.

 

O que você toma no pré-treino?

Café preto ou jejum.

 

E no pós?

Nada… no máximo faço a próxima refeição.

 

Suplementos?

Nenhum.

 

Qual seu tipo de pisada?

Não sei.

 

FC de Limiar?

Não tenho ideia…

 

Volume semanal?

Não sei…. Mas dá pra calcular…

 

Qual tênis?

Um antigo de uma marca que nunca tinha usado, mas soube que já saiu de linha de tão velho…

 

O problema da corrida é que é um esporte de repetição. Ela é monótona, machuca, cansa, aborrece, é desconfortável… o melhor momento do treino – olha que irônico – é justamente quando PARAMOS de correr… seus efeitos no condicionamento vêm somente com constância, paciência, regularidade…

Correr não é descolado, fazer o que todo mundo faz (para melhorar) não é nada sexy. E o caminho é longo. Por isso que as pessoas ficam afoitas por atalhos, por segredos (que ninguém tem, todos no fundo parecem já saber aquilo que funciona) e a tecnologia ou dinheiro não lhe dão nenhuma vantagem.

Em um mundo com tantas distrações lutando pela nossa atenção, com imediatismo (a pizzaria não lhe cobrará se não entregar a pizza em 28 minutos) e tanta coisa virtual, algo tão old school como a corrida é um concorrente meio ultrapassado porque ela é quase exatamente uma antítese de nosso mundo atual: lenta, real, requer atenção e dedicação.

Por isso que há tantas promessas no mercado. Eu poderia ser mais indelicado e dizer que em um mundo cheio de malandros não lhes faltam clientes otários. Mas tem gente inteligente…. Que cai por ingenuidade, ignorância e boa-fé. Acreditam em promessas de melhoras por intervenções sofisticadas. Todos já caímos. Eu já consumi muito lixo… BCAA, teste de pisada, usei pré e pós-treino… aí você aprende que… não funcionam e que NADA é de graça. Então daí você já de cara filtra uns 80% dos profissionais do mercado que vivem da ignorância ou da ingenuidade alheia, que por venderem martelo chamam tudo de prego.

Ainda assim a corrida tem vida longa. Seja porque o passado foi glorioso, seja porque correr é uma ação intrínseca do ser humano (crianças correm, os animais correm). Mas as pessoas vão inventando novos jeitos querendo reinventar a roda. E mais uma vez o passado nos dá a resposta: não vão conseguir. E como expectativa tem enorme relação com frustração, vejo que ou a pessoa aceita e aprende a gostar das coisas como são, ou vão ficar como o Nelton já disse certa vez: ficarão colocando leite em pó e mel no açaí porque é cool comer açaí, mas o gosto nunca lhe agradou.

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Um pouco da Boston que muita gente não vê nem viu.

Uma das análises mais certeiras e sensatas feitas antes da última Maratona de Boston foi feita por Steve Magness: o clima adverso é o maior equalizador de desempenho em uma prova. Todos ficam assim mais parecidos, desaparecem os recordes pessoais e os season best. Aí a disputa é para ver quem tem mais garra.

Muito se falou que a vitória INCRÍVEL (mas não 100% inesperada) de Yuki Kawauchi seria algo como uma redenção, que ele seria um representante amador dentre tantos profissionais bem pagos. Essa leitura é algo que fica entre a pressa e uma leitura incompleta do cenário. Como muitíssimo bem disse o escritor Adharanand Finno japonês é o último e o maior dos guerreiros, sua vitória veio coroar sua vitoriosa carreira.

Kawauchi, diferentemente de um Galen Rupp, por exemplo, não vive “da” corrida (e essa ênfase se faz necessária), mas ele vive “para” a corrida. Mas de amador no sentido da palavra ele não tem muito mais. Ele não é tão amador sequer quanto o eram os atletas das décadas de 60 e 70 que ganhavam dinheiro por debaixo dos panos, equipamento e apoio. Isso porque o japonês recebe prêmios em dinheiro e material, muito material. Ele é praticamente um atleta profissional que complementa sua renda com outro emprego. A decisão de não ter um clube pagando seus salários é uma escolha que traz alguns grandes benefícios ao atleta (ele precisa competir “apenas” as provas que escolhe). Ele está para o amadorismo tanto quanto aquele conhecido que ganha R$300 de vez em quando para correr por um supermercado em provas pelo interior está para o profissionalismo. Yuki não é um amador. O tal Fulano não é profissional.

Vale aqui ainda ressaltar que a enorme maioria dos atletas ao longo dos tempos, e a regra vigente na modalidade na absoluta maior parte da história do atletismo, exigia que os atletas fossem amadores. Kawauchi é um caso raro que segue cumprindo algumas das finadas “obrigações”, mas ele NÃO seria considerado amador JUSTAMENTE quando essa definição mais era decisiva, essencial para a elegibilidade de um corredor.

NÃO, quando analisado, Yuki Kawauchi não é amador.

 

Agora vamos à parte de que ele “seria um de nós”.

Sinto-lhes informar, o japonês está mais próximo de Abebe Bikila e Eliud Kipchoge, os 2 maiores maratonistas da história, do que qualquer amador que você conheça. Ele não é um de nós. Há duas coisas que podemos falar de atletas que disputam de forma protagonista um evento major (Mundial, Jogos Olímpicos, por exemplo):

 

  1. Eles são outliers, fora da curva, são “especiais”.

Kawauchi aguenta cargas competitivas e mesmo de treinos que estão absolutamente fora do comum. Um fora do comum não pode ser um de nós. Neste domingo ele correu uma Meia Maratona em 1h04. Na 5ª feira, 6ª feira e sábado imediatamente antes da Maratona de Boston (que é realizada sempre em uma 2a feira) ele correu diariamente 20km, em ritmo progressivo cada treino. Isso não tem nada de comum!

 

  1. A maioria dos atletas de ponta do atletismo, a elite, se dopa.

Isso, infelizmente, é algo que não podemos ignorar. Eu não quero entrar na questão se ele se dopa ou não. É irrelevante (ainda que eu acredite, ou espero acreditar, que não). A maioria dos amadores não faz isso, não treina 60km em 3 dias antes de uma prova importante nem treina 160km de forma rotineira semanalmente.

 

Não, Kawauchi não tem nada de normal, não tem tudo que caracteriza um amador.

 

Eu escrevi tudo isso não para diminuir Kawauchi. Se você entendeu assim, recomendo que releia o que escrevi. Estou aqui porque acredito que a melhor de todas as histórias de Boston vai passar despercebida por mais de 90% do público.

A vitória japonesa foi emocionante. A vitória da que seja talvez a atleta mais consistente em maratonas, a de Des Linden, que quebrou um jejum de décadas sem vitória de uma mulher local também foi igualmente emocionante. Principalmente quando você descobre que ela pensou em não largar, quando no 5km comentou com Shalane Flanagan que estava prestes a abandonar a prova.

 

Mas a melhor história para mim é de uma amadora: Sarah Sellers. A americana surpreendeu a todos (e a ela mesma). Como ela nunca havia corrido uma maratona, correu uma prova para obter o índice (correu em 2h44) para poder se juntar ao seu irmão que pretendia correr em Boston. Sellers é Amadora (com “A” maiúsculo). Sellers, uma enfermeira em tempo integral, é mais próxima daquele seu conhecido(a) amador que treina todos os dias, tira dinheiro do bolso, paga a própria inscrição, compra seu próprio equipamento, corre como um “comum”, tem um passado atlético.

Sarah Sellers é para mim uma prova de que, com os astros devidamente alinhados, com um “espírito guerreiro”, com um clima “equalizando” os atletas e com muita dedicação de quem corre humanamente, nada outlier, 100km semanais mesmo ao final de um dia de trabalho, você pode SIM entrar e mais do que não fazer feio, fazer bonito mesmo entre alguns dos melhores do mundo.

Sim, Sarah foi um de nós no maior palco da maratona amadora!

 

*Jessica Chichester é outra que “nos” representa, inclusive largando atrás da elite

 

**se você gosta de histórias especiais, talvez goste desta recente: um goleiro amador de hóquei sobre o gelo foi chamado para ficar emergencialmente no banco de reservas de seu time de coração em uma partida da NHL (a NBA desse esporte). O improvável acontece. O goleiro titular se machuca e ele tem que entrar em quadra. Mais. Ele faz 7 defesas e é o MVP da noite. Uma noite para não se esquecer jamais. Goste ou não de hóquei.

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O que há por trás dos amadores buscando desafios cada vez maiores?

No The New York Times uma matéria explicando como os amadores vão criando desafios cada vez maiores para se manterem motivados. Acho de verdade que isso dá material para um pós-doc de tanto que dá para desenvolver. Para mim quem faz isso não gosta tanto assim de correr porque tem que apelar ao quase impossível para manter uma rotina.

Um amigo diz que quem coloca coisas no açaí, não gosta de açaí, gosta daquilo que ele coloca no açaí para amenizar o sabor do… açaí. É como café com bastante açúcar, a pessoa gosta mesmo é de açúcar. No ramo da corrida, quem só consegue correr 100% do tempo com música, acha correr tão chato que precisa se distrair ouvindo música. Essa tara pelos amadores em sair correndo muitos quilômetros da noite para o dia é o paraíso dos ortopedistas. Na verdade é a operação Cavalo de Troia dos fisioterapeutas. “Corram… corram machucados para o meu consultório!

Sim, vivemos em uma sociedade imediatista. Você perde o cliente se disser que ele, um iniciante, só deveria correr 21km daqui 2 anos. Ele quer correr ESSE ano. Se você não treiná-lo ele não terá dificuldade em encontrar alguém disposto a aceitar o dinheiro pra fazer isso. Sempre que vejo isso fico curioso com a rotatividade dos corredores. Por que o que vai fazer alguém que no começo do ano nunca correu, ao final do ano correu 21km e no outro faz o Desafio do Dunga (5km/10km/21km/42km em 4 dias seguidos)?

Sempre me pergunto também o que gera tanta atração na classe média (alta) em sofrer nesses eventos. Ainda que seja um sofrimento relativo, mais teimosia do que desconforto prolongado. Justo ela que anda em carros confortáveis com ar condicionado, confortáveis como suas salas, também confortáveis. Que treinam 2h00 no sábado, mas trabalham e moram no 2o andar e sobem sempre de elevador.

Veja bem, não há NENHUMA inferioridade moral em fazer isso (muito menos em ter dinheiro!)! Mas o fechamento da matéria entrega tudo: a pessoa acha que ela sai mentalmente mais forte de uma ultramaratona. De onde a pessoa tira isso? Parece papo de psicologia vagabunda de RH que coloca vídeo motivacional do filme Gladiador, esquecendo que as pessoas ali eram escravas prestes a morrer (seu RH burro nem esconde de você que te acha um escravo). Qual a relação de um com outro? Correr te torna tão melhor quanto sair para fazer feira de 4a feira!

Eu acredito mais em compensação… que a pessoa busca um falso sofrimento compensatório. Não sem antes tomar todos os cuidados para que seja um sofrimento de laboratório, controlado, não muito difícil, pasteurizado. Como se os resultados fossem os mesmos nessa falsa mimetização de como era sofrida a vida de antepassados sem tanto dinheiro (mais pobres) ou sem tanto conforto (menos tecnologia).

E lógico, nada disso teria tomado essa magnitude não fossem as redes sociais, afinal, a pergunta não é minha, mas nunca foi tão verdadeira: você correria uma maratona se não pudesse contar a ninguém?