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Sobre “skin in the game”, Maratonas, Câncer, Bitcoins e a Dra. Lorca

OU AINDA: FAÇA O QUE PREGA

Mês passado, em mais um daqueles programas governamentais de conscientização da população, um médico do INCA (Instituto Nacional de Câncer) foi à TV para nos alertar sobre os riscos da doença. Ele falou obviedades como o peso do estilo de vida e da alimentação nas chances de incidência da doença. A coisa ficou mais interessante quando chegou a parte da nutrição: o que fazer para melhorar nossas chances, doutor?

O médico que deveria saber o que fala, não pensou duas vezes: consumir pouca carne e menos alimentos industrializados. Não fez nenhuma menção ao açúcar, nenhuma menção aos óleos vegetais, nenhuma menção ao álcool. Somente carnes e alimentos processados.

Eu nunca teria esse doutor como meu médico! Não é nem o fato de ele não entender muita coisa sobre (prevenção de) Câncer ou Risco (o assunto do qual ele fala, então deve ser sua especialidade), mas é porque ele não tem “skin in the game”. A pele dele não está em jogo.

Falo isso porque o próprio site do INCA estabelece que para evitarmos câncer deveríamos comer menos de 300g de carne por semana. Eu devo comer isso por dia. Eu aposto com muita certeza que este médico também ultrapassa esse valor semanal. O doutor só não sabe do que fala, como também não segue o que recomenda. Então por que eu seguiria alguém que não segue o que prega?

BITCOINS – “Nunca embarque em um avião se o piloto não estiver a bordo.” (Fat Tony)

Eu não tenho criptomoedas, não tenho moral para recomendar que você ou qualquer um a compre. Vamos pensar diferente. Imagine que você contrata um consultor financeiro que lhe recomenda: aplique todo o dinheiro que tiver em criptomoedas, venda seu carro, venda sua casa, viva de aluguel e compre quantas bitcoins puder. No que você pergunta: “por curiosidade, quantas você tem?” No que ele responde: “nenhuma, acho isso muito arriscado”.

Seguindo uma lógica bem interessante defendida por Nassim Taleb, as pessoas que votam a favor da guerra precisam ter, pelo menos, um descendente (filho ou neto) em combate. Na antiga Roma os engenheiros precisavam passar algum tempo sob a ponte que eles haviam construído. Dizem que os ingleses foram ainda mais longe, obrigaram as famílias dos engenheiros a permanecer com eles sob a ponte construída.

MARATONAS – Se for amador, corra com quem já correu pra valer 42km.

Há uma discussão eterna “conhecimento vs prática” no esporte. É uma discussão tola, uma vez que se complementam e não se excluem. Eu treinaria (e já treinei!) com um não-formado, com alguém que não tem CREF (eu não tenho). Mas eu nunca, jamais treinaria para uma Maratona com um treinador que nunca correu para valer os 42km. Nunca. Assim como nunca iria para uma aula de natação com um treinador que não sabe nadar, ou nem aprenderia basquete com alguém que não gosta do jogo. É simples. Muito simples.

A pessoa precisa ter a pele em jogo. E antes que você pergunte se renomados treinadores como Renato Canova ou Steve Magness correm maratona, eu lhes digo que o salário deles, a renda deles, vem da porcentagem que seus atletas ganham se e somente se correrem muito bem. É uma relação de esporte profissional, não amadora. Canova e Magness têm a pele em jogo sem precisarem correr sequer 21km.

Dra Lorca, nutricionista personagem do programa humorístico Zorra Total.

DRA LORCA – Nutricionistas deveriam, sim, ser magros.

Anualmente quando chego ao meu dentista, o Ayman, eu falo a frase que Tony Stark disse ao Capitão América em “Guerra Civil”: “às vezes quero dar um soco nesses seus dentes perfeitos”. Eu nunca teria o Tião Macalé como meu dentista. Assim como nunca teria um treinador que nunca correu 42km, nem compraria bitcoins seguindo conselho de quem nunca comprou.

E eu nunca teria uma nutricionista obesa me orientando. Simples. É sabido que a dieta (aquilo que uma pessoa come ao longo do tempo) é a maior responsável pelo seu peso. Sim, estilo de vida, nível de atividade física têm seu peso, mas são bem menores, muito menores. Doenças e genética também. Mas sabemos que o peso tem a dieta de longe como seu maior componente.

Se a minha nutricionista é obesa, há de forma meio geral 3 opções: uma doença/condição (ex: hipotireoidismo ou depressão), que é de longe a menor das possibilidades. Há a chance ainda dela seguir o que fala e não dar certo. Ou de não seguir o que fala, o ponto central do texto. E isto, não seguir, não me serve (assim como uma dieta que não funciona também não me servirá).

Sendo assim, sim, é de muito bom tom que a/o nutricionista seja magro(a) ou em forma. Ele precisa ter e colocar “a pele em jogo”. Porque na eventualidade de danos causados pela confiança que se deposita na dieta desse profissional, ele precisa ter algo a perder com isso. Ou seja, se ele recomenda low-carb ou low-fat ele tem que seguir a dieta. E se seguir e continuar gordo, já saberemos que o que fala não presta.

Se você não segue o que prega (ou o que vende, treinador!), isso não é opinião. Falar sem fazer (ou ter feito, no caso dos 42km), sem se expor aos danos, sem colocar a própria pele em jogo, sem ter algo em risco, você fica com as vantagens, transferindo a seu cliente todo o risco e todo o prejuízo. É um alargamento na dissociação de interesses. Não me serve.

*sim, como corredor eu também JAMAIS me consultoria com um(a) nutricionista que nunca correu pra valer 42km. Quem corre sabe que a absoluta maioria das diretrizes e recomendações nutricionais não sobrevive à rigidez do mundo real.

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Teste de Pisada: o vendedor do mês.

É sempre complicado falar sobre tecnologia de tênis. Isso porque corredores (pagos ou os não-pagos), tal qual o consumidor mediano de outras categorias, colocam na tecnologia um peso desproporcional à sua efetividade, assim o debate sai do campo das ideias e parte para a torcida, vira quase religião.

Diferentemente de um computador, de um celular ou de outro artigo eletroeletrônico, a tecnologia não é a maior responsável pela efetividade desse produto. Isso é tão claro que basta olharmos aos tênis dos profissionais. Quanto menos tênis houver, melhor. E isso vale dos 100m aos 42km.

Assim como colocar a palavra “orgânico” ou “100% natural” em um alimento aumenta o valor percebido da comida, quando o tênis vem envolto em um ar tecnológico e moderno, você aumenta o preço pelo qual o corredor estará disposto a desembolsar por ele.

Se você olhar historicamente, verá que a maior sacada inicial da Nike foi entender que, além de vender mais, a tecnologia tem que necessariamente ser visível. Foi assim com a tecnologia AIR, que não bastava estar lá, a bolsa TINHA que ser e estar visível ao consumidor. Na mesma linha a Mizuno (com sua placa sempre à mostra) e a ASICS (com seu gel) entenderam essa ideia simples, mas essencial. Mais do que possuir gel (ou placa), ele precisa ser visível, colorido. Isso porque um gel branco, ao corredor, pareceria ineficaz. A Nike pode não ser a líder do mercado de running performance (nome da categoria), mas ela lançou a ideia.

Quando trabalhei na adidas esse era um desafio constante. A tecnologia finada da época (Formotion) não era visível. Apenas explicar ao corredor não funcionava, isso porque igual um aborígene de 1.000 anos atrás, se o corredor não vê a tecnologia (que pode ser uma espuma, um pedaço de plástico ou puro ar), é porque ela não existiria. Quando eu estava lá havia mais gente correndo com o também finado bounce (que não era de corrida, mas que tinha bolas vazadas de acrílico no calcanhar) do que os de corrida. Por isso que em treinamento da ASICS se leva um tênis aberto pelo meio com o gel sempre exposto. O corredor, antes de tudo, precisa ver para ter fé.

 

Se você reparar, em toda “tecnologia de amortecimento” (tenho pavor dessa expressão) há um nome rebuscado e algo tangível, que pode ser tocado (a única exceção dos protagonistas talvez seja a Brooks, que quem sabe não só por acaso não decole no Brasil).

OK, essa é uma estratégia do fabricante de te “convencer”. Mas ela não acaba aí. Outra estratégia para convencer sem abrir mão da tecnologia é a análise de pisada, usada pelos fabricantes, lojas e mesmo fisioterapeutas. Quem nunca viu um? Quem nunca entrou em uma fila para fazer um?

A verdade é que um teste de pisada aumenta demais a conversão de vendas. Uma loja que realiza o teste é vista como melhor do que uma sem um equipamento. E quando você consegue fazer alguém realizar um teste, você sabe que aquela pessoa caiu na arapuca e está prestes a virar um consumidor seu.

O que sabemos hoje é que o excesso de opções atrapalha as vendas (“Paradoxo da Escolha”). Se você oferece 40 tipos de geleia a alguém, você cria uma confusão mental tão grande que a pessoa trava e não compra. Mas se você oferece 6 tipos de geleia suas chances de vender aumentam consideravelmente. Não à toa qualquer lanchonete com a opção “monte seu sanduíche” deixa de lado opções já pré-selecionadas (com nomes pomposos) porque ter que escolher dentre 100 ingredientes não é lá muito acolhedor. Visto desse modo, quando você entra em uma loja e se depara com 40 tipos de tênis, nada mais assustador.

Mas daí vem alguém e lhe dá um banho de tecnologia de ponta (“feita pelos japoneses”, “pelos americanos”… nunca por chilenos, por exemplo). E os 30 tênis serão reduzidos para uns 5 modelos. É um combo matador: personalização com tecnologia. Como resistir? Você pode até não saber ou se fazer de esperto, mas quando faz um teste, você já foi fisgado, caiu na armadilha da loja e do fabricante.

“É bem mais fácil convencer o cliente a gastar dinheiro depois de fazer um teste de pisada. Você tem que se questionar eticamente.”

Resolvi escrever esse texto após parar em uma análise das questões éticas em se fazer um teste tão precário (eu mesmo desconhecia um estudo que associa um maior risco de lesão ente aqueles que fizeram o teste!). Como um profissional da área (fisioterapeuta ou ortopedista) pode trabalhar com esse tipo de equipamento sem infringir um limite ético? E na mesma semana, ironia do destino, acabei em outro post. Seu humor e sua graça estão justamente em seu fundo de verdade: um teste de pisada confirma que o consumidor precisa de novos tênis, novas meias, novo quebra-vento e um relógio novo.

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O lesionado quer melhorar, mas precisa é de esperança

No final do ano postei um texto sobre qual seria o melhor método para prevenção e reabilitação de lesões. Basicamente falo das armadilhas que fisioterapeutas, médicos (ortopedistas) e treinadores aplicam (ingenuamente ou espertamente) para proteger ou curar corredores. O assunto não é novo aqui no Recorrido… vocês sabem o que acho quando o assunto é lesões, a (baixíssima) capacidade de tênis influenciar positivamente na prevenção de lesões (ou mesmo desempenho) ou do tamanho da importância do placebo e da fé do corredor nesse assunto.

Vira e mexe volto no assunto: o corredor quer se sentir especial. Isso é uma constante em quem acompanha esse mercado e esse público. E essa fé vem em várias formas. Vem na forma de uma tecnologia inócua, que é cara e encanta, ainda que seja… inócua. Vem ainda na forma de um profissional gabaritado que é capaz de muito pouca coisa, mas sob quem depositamos uma enorme fé. Ou fé de que desta vez, mesmo contra todos os prognósticos, será diferente.

Eu não tenho nada contra médicos ou fisioterapeutas. Acho apenas que médicos e fisioterapeutas têm baixíssima capacidade de ajudar um corredor a se machucar menos, até porque é o treinador (sou um) quem aplica as cargas. Esse, sim, é o maior responsável a evitar que uma lesão apareça. Médicos e fisioterapeutas vêm depois, quando a lesão já está lá. *e, tenho que ser honesto, confesso que tenho pouca fé na capacidade deles em acelerar esse processo.

Um fisioterapeuta que respeito muito, o Claudio Mesquita, leu meu texto e escreveu uma resposta educada a ele. Basicamente, posso estar enganado, acho que mais concordamos do que discordamos. Ele reforça que falo de overtreatment. Esse excesso de intervenções é um mal da área da saúde, uma vez que sempre há uma ênfase em fazer algo quando há um problema (via positiva) em vez de buscar retirar aquilo que o causou em primeiro lugar (via negativa). No fundo no fundo, ninguém vai ao fisioterapeuta para escutá-lo dizer que você precisa descansar e voltar a correr devagar e em menor volume, ainda que esta seja a melhor e mais segura medida, você o quer aplicando um tratamento com algum aparelho da NASA que o fará voltar a correr 100% em tempo recorde.

Meu texto era mais sobre “armadilhas” e as “espumas” usadas no tratamento que acabam tirando o foco do problema real, como a busca de muitos profissionais por “tratamento complexo” e “nomes pomposos” (que são mais caros e encantam). Entendo que o Claudio Mesquita tenha achado minha implicância com o avental (que ele não usa), por exemplo, desnecessária. E é mesmo! Para mim o avental apenas transforma a pessoa aos olhos do lesionado em um super-herói.

Falando em super-herói…

Dias atrás voltei a assistir O Incrível Homem-Aranha 2. Foi ao final do filme (que já sei de cor) que me obriguei a escrever esse texto. Gwen Stacy, a namorada dele, faz um discurso sobre esperança (aqui ele dublado). Para ela haverá dias sombrios à nossa frente. Haverá dias em que você se sentirá sozinho, e é quando a esperança é mais necessária. Não importa o quão pessimista, ou o quão perdido você se sinta, você deve ter esperança. Isso nos mantêm vivos. Temos que ser maiores do que o que nos faz sofrer. O avental para mim é sintomático, ao corredor machucado transforma o profissional de saúde em um super-herói.

Ou ainda citando outro super-herói de meu filme favorito no gênero, Batman diz que às vezes a verdade não é suficiente, às vezes as pessoas merecem mais. Às vezes elas merecem ter sua fé recompensada.

Eu preciso no fundo é trabalhar melhor em mim o fato de que nunca devemos retirar de alguém uma ilusão se você não pode substituí-la por outra imediatamente. Isso pode não ser justo nem suficiente. Sob essa ótica, talvez no fundo não faça mal algum deixar aquele corredor ali fazendo exercícios em uma cama elástica ou em um aparelho caro com um doutor de avental se o que ele mais precisa é justamente ter esperança que aquilo funcione para recuperá-lo.

*para ilustrar não achei uma imagem melhor que o final do filme O Incrível Homem-Aranha 2. Não deve existir mesmo…

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O melhor método para prevenção e reabilitação de lesões

O Jornal da Band de 6ª feira dia 22 levou ao ar uma matéria sobre o crescimento do mercado de fisioterapia para corredores, uma das áreas mais “engraçadas” de se acompanhar na corrida. A reportagem foi resposta talvez à matéria da Folha de S. Paulo que no mesmo dia falava sobre o crescimento do movimento de corredores em clínicas particulares de fisioterapia.

Na reportagem você encontra de tudo… gente que vai buscar informação em “canais especializados” e “aprende” que tem que alongar bem depois de correr para diminuir as dores, gente que em 15 dias estava recuperado (um milagre tratando-se de algo tendíneo) e, lógico!, os profissionais de sempre oferecendo análise de “posturologia” e vendendo palmilhas individualizadas. Não sei como essa gente consegue não gargalhar. Tenho comigo que eles acreditam muito naquilo que eles dizem… só assim para ignorar o que deveria ser praxe: ser sempre honesto com o cliente.

Naquelas coisas que só o acaso explica, horas antes havia almoçado com dois dos profissionais da corrida que mais respeito. Um é treinador e vive perdendo cliente porque diz “ainda não” ao aluno que quer atropelar as fases e correr muito o quanto antes (nunca rápido, é sempre mais longe). O outro, um fisioterapeuta, que sabe o quanto perde de dinheiro por não fazer o que essa gente faz. Mas…. o que “essa gente” faz!?

Parece haver sempre um método, um jeito de você se valorizar sem se responsabilizar (afinal, corredores em sua maioria se machucam, então você transfere o prejuízo ao cliente enquanto fica com o benefício sem risco, o dinheiro. Ou então tente sugerir ao seu “fisio preventivo” o seguinte contrato de risco: você o paga somente ao final do ano ou temporada SE você não se lesionar). Neste tal método de parte dos profissionais você consegue identificar abaixo alguns padrões na fisioterapia (ou reabilitação com ortopedista):

 

– Você como profissional cria um tratamento complexo. Exercícios e rotinas difíceis, complicadas, com ordem determinada, geralmente envolvendo equipamento. Se o corredor se machucar, é culpa dele que provavelmente não seguiu à risca 100%!

– Você dá nomes pomposos, bonitos, técnicos… tipo POSTUROLOGIA. Assim até parece que funciona! O cliente vai adorar! E até paga mais caro por isso!

Use avental (ainda que não haja chance de haver sangue), use esteiras (ainda que ele só corra na rua, que é na prática um outro esporte), observe e analise sua corrida (ainda que seu olho não seja capaz de ver muitas nuances).

Talvez o mais importante: faça intervenções! Afinal, quem paga quer mudanças, ainda que inúteis ou contraproducentes. Não basta dizer “menos” (via negativa), você tem que intervir, agregar, colocar mais coisas na corrida dele. É na via positiva que a área da Saúde faz seu lucro e o cliente seu prejuízo.

Trate o amador como um profissional, chame-o de atleta, fale em performance, desempenho, (ainda que sejam a mesma coisa), competição e use muitos termos fisiológicos. Não “desça” ao nível do cliente – digo – atleta.

Individualize. Fundamental! A palmilha tem que ser individualizada, igual a calça jeans dele. A rotina dele também. Ele tem que se sentir especial, único, ainda que não haja nada de especial em uma dor comum.

– Por fim, está BEM claro que marketing é mais importante que ciência quando você trabalha com corrida, então não deixe de “tratar” (de graça) algum influencer e peça que ele agradeça nas redes sociais. O influencer vai se sentir um atleta olímpico, vai economizar dinheiro, vai ter o que postar e você vai poder “prevenir lesões” em muito mais gente! Mas essa relação de influencer eu deixo para falar outro dia!

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Correndo com os Etíopes – parte 8: sobre equipamento.

Em uma sessão de treino lá em Adis Abeba, após terminarmos, enquanto apenas conversávamos um atleta veio e me perguntou o porquê meu tênis tinha pequenas bandeiras do Quênia, sem nunca esconder a rivalidade que possuem, além do enorme respeito. O Fila Kenya Racer 3 é assim. O que eles não conheciam era a marca esportiva Fila. Quando falei que havia trabalhado na ASICS, alguns claramente não sabiam do que se tratava. E quando apareci com um Skechers eles não conheciam a marca, apenas o nome do modelo, em homenagem ao maratonista americano Meb Keflezighi.

Equipamento nunca foi assunto nos treinos. O cara que me ajudava lá usa um relógio Casio dos anos 90. GPS não vi nenhum por lá, apesar deles falarem que às vezes usam nos longos. Frequencímetro cardíaco nunca foi visto pelo agente que vive lá há 7 anos. Smartphones como o meu nos treinos não vi nenhum.

Eu tenho algumas heurísticas. Uma delas diz que: se o corredor amador não trabalha com tênis e entende desse assunto, é porque ele corre MAL. Essa minha tese quase nunca falha. O caminho inverso é verdadeiro: se a pessoa corre bem, ela entende pouco de tênis, marcas e modelos. Até nas empresas para quais trabalhei era assim… geralmente quanto mais sabia de produto, menos corria.

Comprove você mesmo! Só tem tempo e energia para se aprofundar no tema quem não passa muito tempo correndo. Com GPS é parecido. Você acha bons corredores que entendem de GPS na mesma proporção que acha pessoas que entendem de relógios de luxo (Rolex, por exemplo) ou de helicópteros militares ou da geografia Inca. Estou querendo dizer que correr e entender de GPS (ou de helicópteros ou de tênis) são duas variáveis completamente independentes. A intimidade (ou competência) em um não diz absolutamente nada sobre a intimidade em outro.

ESSA é uma das maiores lições que aprendi no meu tempo com os etíopes: eles sabem aquilo que realmente importa na corrida.

Até hoje não sei mexer em GPS. E também não sei mexer em iPhone ou iMac nem jogar Candy Crush nem Gamão. Não é questão de ser contra tecnologia (adoro celular Samsung!), é sobre não haver relação disso com minha corrida.

Tem mais. Estou sendo repetitivo, mas há uma moda de fisioterapia preventiva que nada mais é que uma piada mal contada. Fortalecimento? Durante um treino eu perguntei se o atleta ia à academia e ele me disse “sometimes” (às vezes). 1 vez na semana?, perguntei. Não… uma vez ao mês.

Isso não é sometimes! No que ele me respondeu: a floresta é minha academia (enquanto corríamos mudando de direção em um pasto pesado).

No Brasil seu treinador pede para você correr no asfalto (da USP, do Ibirapuera, de Belvedere…) e depois te passa uma série vagabunda de fortalecimento que nem de longe compensa. Ele quer te fazer resiliente sendo fragilista. Não tem como dar certo!

O meu Fila furado era um dos tênis mais novos do grupo. O equipamento não é tema de conversa porque melhor do que nós eles sabem que não serve para nada. Eu começo a bocejar quando a pessoa começa a falar de tecnologia de calçado. Até porque tendo trabalhado na área sei que não existe baboseira maior. No fundo os etíopes sabem que para correr bem parece que a pessoa precisa entender pouco de tênis. Na verdade, como entender de helicóptero, não há uma relação.

Eu corro de forma orientada faz quase já 30 anos. Em minha primeira sessão lá tive uma sensação que eu jamais tive. Eu sentia a musculatura da minha canela (entre o tornozelo e o joelho, não a panturrilha em si) arder quase inchada. Eu nunca havia na vida mudado tanto de direção e velocidade em um só treino. Por mais que seu treinador e seu fisioterapeuta aleguem: eles nunca conseguirão reproduzir isso na academia. Não há tênis que proteja você como um piso instável e menos agressivo.

No meu penúltimo dia de treino lá, comecei a correr umas 6h30 com um atleta e perguntei se ele iria treinar de tarde. Ele disse que não, que aquela já era a sua segunda sessão do dia. Relembro: eram 6h30! Ele havia antecipado a segunda sessão do dia. E nessa linha, se eu pudesse resumir a maior lição que tive com eles é algo que mesmo os melhores corredores brasileiros já sabem na prática: os melhores fundistas sabem aquilo que realmente importa para fazer você correr bem. Os mais lentos ou não sabem, ou se iludem buscando atalhos fora da corrida, fora do único equipamento que realmente importa: seu corpo.

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