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Um pouco mais sobre correr na grama

Dias atrás um corredor me mandou o gráfico do treino dele feito em um ambiente gramado “sem subidas íngremes”. Tenho dito nos últimos textos e em meu último livro “Correndo com os Etíopes” o quanto acredito nos benefícios e vantagens de corrermos em pisos irregulares.

Resumidamente temos que esse tipo de terreno (grama, terra, trilha…) cria cargas em diferentes planos (que não apenas centrada no sagital, como é na corrida), além de exigir trabalho de outros músculos e partes do corpo, algo que não se faz na corrida em terreno mais uniforme como esteira, pista de atletismo ou asfalto.

Só que é natural duas coisas. Primeiro é achar que piso irregular significa necessariamente correr em trilhas de alto grau de dificuldade, no meio do mato.

E outro erro é achar que por morarmos em cidades, com pouco acesso a trilhas, essa prática é inviável. Mesmo treinadores que concordam comigo adiantam sobre o enorme desafio que é fazer o corredor de assessoria criar o hábito de por os pés na terra/grama. Sim, quando se vai ao Parque do Ibirapuera, por exemplo, mais de 95% corre no asfalto na volta de 3km. Mais do que isso vai à USP e corre no mesmo piso duro.

Porém, em ambos os locais há muito espaço verde. E o gráfico que esse leitor mandou nos revela que mesmo em um gramado convencional “sem subidas íngremes” já se reproduz muito da irregularidade, aquilo que quenianos e etíopes tanto buscam em seus países que fazem deles alguns dos povos mais rápidos do planeta.

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Charles Goodhart aplicado à Corrida

Não conheço bem o método Maffetone, não sei o que é valgo dinâmico, não conheço o método FIRST, mas sei que sem conhecer NADA disso, posso dizer que Charles Goodhart influencia mais a corrida do que todos esses juntos.

Charles Goodhart é o economista cuja frase virou lei. A Lei de Goodhart diz que “Quando uma medida torna-se uma meta, ela deixa de ser uma boa medida”.

Repare! Na corrida ela se aplica, por exemplo, ao VO2máx, à Cadência… a tantas coisas! Os gadgets, que pode parecer que eu seja contra (não é verdade!), acabam enfatizando nossa busca por uma medida X específica. Quando fazemos isso sem saber seus motivos e razões, sem entender o PROCESSO e motivos, ficamos cegos e desperdiçamos uma oportunidade de melhora.

Recentemente venho escrevendo nos meus espaços os motivos pelos quais faço uso ZERO de exercícios educativos. Talvez o argumento número UM de quem o pratique e o recomende é que ele vai tornar o corredor mais eficiente. Neste final de semana me deparei com um estudo que analisou 10 estudos que buscavam melhorar a eficiência mecânica da corrida de atletas. A conclusão? O impacto na economia de corrida NÃO se refletia em melhora de desempenho. Então pra que diabos fazer?!? Vá meditar que ajuda mais!

Curioso… ninguém NUNCA me procurou para correr com “melhor eficiência”… sempre me procuram para correr… MELHOR. Isso é Goodhart na veia! Na busca por mais eficiência ficamos cegos que aquilo que o corredor MAIS quer é correr MELHOR e não mais bonito, mais eficiente!

GOODHART ENCONTRA A NUTRIÇÃO…

E é POR ISSO também que é tão cheia de erros bisonhos a interpretação de nutricionistas quando eles tentam se meter no esporte. Não é só porque não entendem NADA de esporte, é que eles olham o prato ou a dieta de um atleta sem saber que a competição não se baseia como notas de MaterChef. Ninguém ganha uma prova por comer pratos mais coloridos! A dieta é um MEIO para um objetivo (ex: emagrecer) JAMAIS um fim nela mesma.

11 em 10 desses nutricionistas esportivos dirão que o carboidrato é importante ao desempenho, em sinal CLARO de que não sabem do que falam. Carboidrato é importante? DANE-SE a questão! Na corrida o atleta estar leve é que é importante! Por ISSO que eles NUNCA irão entender que um bom amador pode ficar MUITO melhor fazendo cetogênica (ou low-carb), por exemplo!

Como?!

Uma vez que há uma ENORME correlação direta e positiva de baixo peso com desempenho e de que NÃO existe essa mesma correlação com consumo de carboidrato, a dieta deve ter UMA finalidade: manter baixo o peso em situação de saúde! Ponto final!

Quando a métrica é aquile valor X de carboidrato que ele teve na faculdade ou na pós-graduação vagabunda em Nutrição Esportiva ele vai focar em UMA métrica: o porcentual de carboidrato. Esse valor será a meta EM DETRIMENTO do baixo peso e – MUITO mais grave – do desempenho e saúde do atleta!

Não tem como dar certo!

Amanhã continuo!

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A corrida como uma sucessão de saltos…

Correr é tão simples – você nasce, anda e corre. Não complique!

Se Herb Elliott, um dos maiores corredores da história, disse isso quem sou eu pra discutir??

Gosto de ver a corrida como sendo aquilo que ela é: o gesto atlético mais simples que existe. Tenho pavor quando dizem que “cada um tem um jeito“… NÃO! Você olha e SABE que alguém corre. Você nunca confunde alguém correndo com alguém dando cambalhotas. Há um padrão COMUM ao movimento.

Gosto de ver também a corrida como uma série de saltos horizontais. Os melhores, mais eficientes, vão mais à frente e menos ao alto. Por ISSO também que o fortalecimento da corrida simula este gesto.

Sabe aquele exercício esdrúxulo de força que pediram que você faça na academia? Pense: ele te fará saltar mais? Se não, por que faria você CORRER mais?

Outra coisa, quando você salta você cai com o calcanhar? Dói, né?! Será que não há uma lógica nisso tudo?

A imagem que separei abaixo neste post é uma das fotos mais incríveis do atletismo em 2019. Se você ainda tem certa dificuldade de entender a corrida como sendo uma série de saltos horizontais, espero que ela te ajude algo que também não também vi de cara…

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Trabalho duro e sem ‘glamour’

Nos anos de Otto Peltzer (…) havia uma obsessão com o estilo de corrida. (…) A ascensão do atletismo amador no final do século XIX levou a uma sensação de que o trabalho duro e sem glamour poderia ser substituído por um foco no movimento gracioso.(…) Peltzer, sempre individualista, certamente não concordou totalmente com essa visão. Sim, um bom estilo era importante, mas, como explica em seu livro “Manual de Treinamento para Atletas” (1926), era essencialmente uma questão de desaprender: as crianças têm um estilo de corrida natural, que tende a ser “destreinado” por seus treinadores. Franz Stampfl, que ajudou a treinar Roger Bannister para a quebra dos 4 minutos na Milha, fez a mesma observação em seu “Franz Stampfl on Running” (1955).

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Recentemente Steve Magness cunhou uma frase incrível: Expertise é você saber filtrar o que realmente é importante.

Eu reforço essa frase porque sempre bato na tecla de que os melhores corredores amadores parecem saber MUITO melhor do que os mais lentos aquilo que os faz… melhores! Ou seja, existe uma hierarquia de prioridades no treinamento. E atleta e treinador devem ter bem claro na cabeça aquilo que é determinante no seu esporte!

Nos meus anos como personal trainer meu aluno que mais me pagava eu não passava mais do que 3 horas semanais com ele! É mais ou menos como você chegar na aula de inglês e seu professor particular dizer que irão estudar (em português) a vida de Shakespeare. É falta de prioridade, não sinal de que não importa!

Peltzer, um dos maiores atletas alemães da primeira metade do século passado achava que, por ser amador, não tinha muito tempo para “investir” em exercícios educativos, então ele treinava duro. Mais. O meio-fundista alemão, bom que era, sabia o que era realmente importante em sua corrida.

É óbvio que você pode ir à pista e investir meia hora em educativos, aos quais não encontramos na literatura muitas evidências sólidas de benefícios concretos e palpáveis seja na técnica, seja no desempenho. Eu escrevo esse texto após voltar da pista de atletismo onde tive menos de 1h30 para dar treino. “Investi” zero em educativos (*na verdade as corridas coordenadas são pra mim o educativo mais específico que existe!)! Por uma questão de prioridade, como eles querem correr rápido, não bonito, ficamos no “trabalho duro e sem glamour”.

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Quando correr mais? Dos 21km à Maratona…

Tenho recebidos questionamentos similares sobre QUANDO uma pessoa deveria migrar para distâncias maiores. É típico: “corro há 2 anos, fiz 10km três vezes, meu melhor tempo é 1h05, posso arriscar um 21km esse ano?

É MUITO importante duas coisas. Antes de mais nada, as pessoas são livres para fazer o que elas bem quiserem! Acho engraçado (pra não dizer meio deprimente) o papo de corredor amador que fala que “vai ver com o treinador” se ele “deixa”. Isso é síndrome de amador que queria ser atleta… que queria ser mandado por alguém. Você PAGA o seu treinador, a direção da ordem é sempre de VOCÊ pra ele, nunca o contrário. VOCÊ quem toma a decisão, cresça e seja adulto!

A segunda, tecnicamente mais importante, é que NÃO existem dados sobre uma evolução adequada da distância em função do ritmo. Eu costumo dizer que 2 anos parece ser um prazo mínimo de experiência de treino para arriscar os 21km. E talvez 3 provas nessa distância para encarar os 42km. Eu apenas oriento, quem decide é sempre a pessoa.

Mas e como ficam as pessoas mais lentas?

Aqui há um ENORME erro interpretativo. As pessoas acham que corredores rápidos sofrem mais na Maratona que os mais lentos. Eu já acho que a carga é invertida! Os melhores corredores sofrem mais no TREINAMENTO e menos na prova. Os mais lentos, tendem a treinar menos, e sofrem MAIS é na prova.

Os mais lentos, que correm acima de 4h00 (bem mais da metade dos corredores) submetem seus corpos a uma carga articular MUITO grande. Sempre que eu paro e penso nesse esforço uma preguiça me contamina… 4 horas é MUITO tempo correndo! Apenas UMA vez na minha vida fiz isso!

Outro enorme erro interpretativo, que tem mais a ver com essa questão, é que as pessoas resolvem subir de prova e ficar mais rápidas, quando o contrário é MUITO mais garantido e – por que não dizer – inteligente. Vamos lá… uma pessoa intermediária que melhore seus 5km em 5 minutos, melhora assim seus 10km por volta de 11-13 minutos. Sendo assim, ele vai melhorar sua Meia Maratona em pelo menos 25-27 minutos. E isso vai tornar sua Maratona pelo menos 1h00 mais curta! É MUITA coisa!

Para fazer isso ele precisa se dedicar a treinos mais curtos, mais técnicos, mais intensos e com menor carga daquilo que eu eu acho que mais agride um corredor: o volume. Se ele tentar fazer o contrário, ou seja, rodando e rodando nos 21km e 42km a carga tem que ser MUITO grande para possibilitar melhora de mesma magnitude nas distâncias maiores SEM transferência em distâncias menores (opto por não usar tecnicismos aqui no momento, mas acho que é um tanto lógico entender que é mais fácil treinar rápido e no dia correr mais lento por mais tempo do que achar possível uma velocidade alta que nunca foi usada ou solicitada nem experimentada nos treinos).

Eu gosto SEMPRE de me imaginar fazendo o treino dos meus atletas. Me pergunto: eu faria ou conseguiria fazer esse treino (nas minhas velocidades, obviamente)? Se a resposta é não, por que seria uma boa ideia colocar alguém pra rodar 1h40 sem NENHUMA qualidade? A USP aos sábados é sempre um festival de milhares de zumbis rodando lentamente como se aquilo gerasse alguma transferência positiva à corrida. Vocês ficariam assustados se soubessem quanto tempo eu tinha já de treino para meu treinador deixar eu correr 2 sábados seguidos por mais de 1h00. Na cabeça dele, e foi um enorme aprendizado profissional e pessoal, só valia correr mais de 1h00 se o meu padrão de corrida se mantivesse. Se caísse a qualidade, o padrão, aquilo ali era inútil. Eu demorei MUITO para correr mais de 1h00 na vida!

Aliás, para minha primeira Meia Maratona eu fiz escondido um treino de 18km, já que ele não deixava passar de 13-14km sem qualidade… dizia que no dia ia dar certo (o fdp estava mesmo certo)… Mesmo na Irlanda, onde meu clube tinha treinos excruciantes, a gente NUNCA rodava mais de 1h00… mas também nunca corríamos os longos de forma lenta… E o que eu MAIS vejo é justamente gente rodando MUITO lentamente (e por muito tempo!) achando que por algum milagre da natureza correr lento o fará correr rápido no dia mais importante. É… tem que ter fé.

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