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Treino ou malabarismo?

Tempo atrás quando lia um artigo sobre como melhorar seu condicionamento, um dos mandamentos era: se você precisa escrever o treino (como se fosse uma cola para poder executá-lo), ele é complicado demais para que valha a pena ser feito.

A corrida ela é linda por inúmeros motivos, mas 2 deles especialmente me encantam:

1. Ela te devolve o tanto quanto você dedica a ela. Ela é talvez o esporte mais justo que existe;

2. Ela é simples demais. Você não precisa de NADA, nem mesmo tênis especiais para praticá-la.

 

Todo mundo que a complica em sua teoria parece apenas querer criar uma dificuldade para depois vender-lhe a facilidade. Então eu sempre tenho comigo que meu atleta ele tem que ser capaz de decorar o treino do dia sem fazer muita força! Eu me dou o direito de apenas eventualmente prescrever uma sessão que seja um pouco mais difícil de decorar. E ainda assim TODOS os atletas do grupo fazem o MESMO treino (cada um em seu ritmo individual).

 

E veja bem, eu vou à pista carregando absolutamente NADA! Treinadores de velocistas e saltadores precisam de cones, paraquedas, blocos de saída, trenas… eu não! Nem cronômetro de punho eu levo!

Mas quando seu chefe, seu patrão, aquele que lhe paga o salário é o próprio atleta, temos aí um problema. Para ganhar mais ($) você precisa não fazer o melhor a ele, você precisa fazer parecer que aquilo ali é o melhor a ele.

Como você teoricamente instrui um leigo nesse assunto, você precisa de certa forma ou ludibriá-lo ou encantá-lo. A eficiência fica em segundo plano. Nasceu assim ao longo dos tempos uma tendência crescente nesse campo: o de tornar tudo complexo. Por quê? Porque assim é um jeito de se esconder a incompetência técnica fazendo malabarismos. E você encanta e pode cobrar mais caro.

Houve uma época que aos sábados na USP (local com maior número de corredores e assessorias nesse dia em SP) você encontrava pranchas, bosu, “gaiola” de abdominal, extensores, fit ball

Muitos dos equipamentos eram para apenas enganar (no sentido de esconder um desconhecimento técnico), entreter e encantar o corredor. Nunca serviram para muita coisa! Servia sim porque da noite para o dia espalhou-se a ideia de que fazer exercícios em bases instáveis (sobre o bosu ou sobre uma fit ball) era uma descoberta das melhores!

 

Como disse um grande especialista em treino de força, convenhamos: agachar-se na bola suíça é completamente idiota. É um truque de circo.

Não que elas não sirvam para nada! Elas servem para quase nada, é diferente! Elas podem servir a um surfista que compete em uma base instável, mas não a um corredor! Ela pode servir àquele cliente sedentário de 45 anos que desde os 20 faz nada, mas não a alguém condicionado ou minimamente fortalecido!

Se um treinador tem que carregar pra lá e pra cá um monte de equipamento é porque ou isso faz bem ao marketing (concordo!), ou para entreter um cliente que não gosta de correr ou porque ainda não entendeu direito para o que aquilo tudo serve.

Sempre (sempre!) que você quiser saber se algum equipamento é MESMO necessário para melhorar sua corrida, basta se perguntar: como as pessoas faziam antes SEM ele? Pois é…

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A Supinação como doença…

Após tocarmos o solo o pé faz um pequeno rolamento medial (girando “para dentro”). Porém, algumas pessoas acabam não fazendo esse rolamento, gerando maior solicitação da região lateral (“de fora”) do pé. E esse movimento é chamado de “supinação”. Sabe como se chama em inglês? Underpronation.

Pronação é algo completamente normal, em maior ou menor grau, TODOS pronamos nosso pé. Em inglês a palavra mais apropriada para pronação é pronation. Quem “prona” é pronador, já em inglês é OVERpronator.

Em português pode ter ficado um pouco confuso, como se pronar (muito ou pouco) fosse algo a ser erradicado do padrão motor.

Mas nem sempre a pronação (e o controle de movimento) teve papel central na escolha de calçados. Na década de 70, entretanto, a indústria de tênis resolveu criar uma espécie de doença – a pronação – para a qual ela mesma inventou um remédio. Nada mais apropriado a quem vende do que criar doentes e vender-lhes não uma cura, mas uma remissão, um tratamento contínuo e a longo prazo.

Por anos o marketing das fabricantes separou propositadamente os corredores basicamente em 3 tipos (com subcategorias): pronadores, supinadores e neutros. Ela criou remédios específicos e doutrinou a todos, até os profissionais da área de Educação Física, Fisioterapia e Medicina, que nunca questionaram a fundo a questão.

Quando apenas o discurso sem estudos e comprovações não era suficiente, partiram patrocinando institutos, associações, conselhos de categoria, revistas e formadores de opinião que reproduziam, e reproduzem até hoje o mesmo discurso em troca de material ou de pagamento.

Isso bastou para criar uma leva de corredores receosos de que correr com um tênis fora de sua categoria de pisada fosse machucá-los seriamente. Os corredores, aliás, estão na última linha de quem se deve culpar pelo costume de, ainda hoje, depositarem no tipo do tênis, sua estabilidade, o amortecimento e o controle de movimento a responsabilidade para protegê-los de lesões. O fascínio por tênis não é atual, mas quando foi atribuído um poder de nos proteger, essa fixação só se acentuou.

*Trecho de O Treinador Clandestino

Fotos: Revista Beat

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“A floresta é minha academia”

Essa foi a resposta que recebi quando perguntei a um atleta etíope quantas vezes ele ia à academia e descobri que ele a frequentava UMA vez ao mês (!!)…

Repare no Franck Caldeira (à esquerda)… pé em supinação, a tocar o solo com o médio-pé buscando o centro do corpo… corpo relaxado, quadril levemente cedendo (pode ser apenas impressão da foto). Agora veja o Vini… já “no solo”… agora lhe pergunto:

Me diga UM exercício na academia que replica isso. Um só… Unzinho!

NON ECZISTE” (Padre Quevedo)

Aqueles que são para mim os 2 melhores exercícios a um corredor em uma academia… AGACHAMENTO… feito em 2 pés, 2 apoios… PORÉM, a definição de corrida é que ela tem que ser unipodal. O outro exercício, TERRA, idem!

Leg Press, Mesa (ou Cadeira) Flexora, Mesa Extensora, Stiff… o que esses exercícios têm que os aproximem da corrida? NADA!

O Avanço (ou Afundo, não sei como você o chama) tem a vantagem de ser feito em base alternada (um pé à frente), mas oferece menor ganho de força geral, ainda que seja mais específico… mas NENHUM deles (nem mesmo os 2 que eu mais gosto e mais uso) trabalha algo que na corrida é essencial.

Alguns posts atrás eu disse que a corrida é uma sucessão de saltos à frente. Sempre que tocamos o solo a tendência é a de nosso quadril ir “pra baixo”, em direção ao solo com nosso corpo oferecendo resistência contrária em um tempo mínimo, tentando desacelerar essa descida do quadril.

É essa desaceleração do quadril, dificílima de ser replicada na academia ou mesmo com pesos livres, que torna uma academia TÃO distante e ineficaz na corrida. O Agachamento (livre!) ou o Terra nos ajudam a ganhar força, mas essa desaceleração de quadril da corrida? Sinto muito…

Leg Press, Mesa Flexora, Extensora…? Pra mim? Não perco nem o meu tempo nem o dos meus atletas! O que mais tento é transferir a força do Agachamento, do Terra e Afundo ao gesto da corrida.

Foto: @NakanoFotografias (Marcelo Nakano)
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Um pouco mais sobre Centro de Gravidade…

Ou ainda: PORQUE PRAGA A GENTE TEM QUE MATAR AINDA NO NINHO!

Esqueçam a tolice que te disseram sobre o pé ter que tocar o solo abaixo do quadril, onde fica nosso CG! Repare os 3 que lideram essa largada… Todos tocam o pé à frente do CG.

“Ensinando pássaros a voar”

Essa sanha por teoria faz a gente querer ensinar o homem a fazer seu gesto motor MAIS elementar depois da caminhada, a corrida. Você NÃO ensina a correr, você PERMITE alguém a correr.

Você NÃO fala como é correto, você aprende o correto olhando os mais eficientes. É um jeito de não negarmos a realidade! Quanto mais veloz, mais provável que o pé do atleta toque o solo à frente do CG (*eu NÃO disse que quanto mais veloz mais à frente, eu disse mais veloz mais certo que será à frente, são coisas distintas!).

Os melhores NÃO são os que tocam “mais abaixo” do CG, os melhores são aqueles que a cada vez que tocam o solo à frente, menos velocidade perdem! Um toque com médio pé (Frank e o 43) ou ponta do pé (47) à frente do CG desacelera menos que com o calcanhar, além de mais fácil (tente você em pé tocar à frente com o calcanhar e sinta, você terá que ceder o quadril e perder amplitude de passada).

Corrida é uma sucessão de saltos à frente, é movimento, é desequilíbrio. Pois se estamos acima do nosso CG não há muito desequilíbrio. Quanto mais LENTO corremos, em menor desequilíbrio estaremos. Sendo assim, se eu for trotar bem leve com o Frank Caldeira, o Molina e o Vini, estaremos os 4 pisando abaixo do nosso quadril, mas os 4 ao acelerarmos para – sei lá – 3’40”/km tocaremos à frente dele.

E se eu insistir em tocar abaixo dele quando estiver rápido? Perco momento elástico e apenas “empurro” minha corrida. É, pois, uma questão de velocidade, não de gesto certo.

📷 @NakanoFotografias (Marcelo Nakano)

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Você se preocupa com os 99% iniciais ou só com o 1% final?

Eu não consigo parar de olhar essa foto do GRANDE Frank Caldeira… Sem equipamento, sem monitor, sem tênis com 5cm de entressola… se não é para ao menos QUERER ter essa extensão de quadril dele, eu nem quero treinar!

Olhe a leveza com a qual ele corre. Será que ele está preocupado com a cadência? Ou com o tipo de pisada dele? Aliás, será que ele sabe um dos 2? Duvido!

O mercado de corrida nos enganou! Ou seríamos nós que em algum momento nos perdemos? Os vendedores e os que não entendem NADA de corrida convenceram amadores que o 1% final é mais importante do que os 99% iniciais. O que importa é o equipamento, é o ritual miraculoso. Uma ênfase maluca, irracional, delirante sobre recuperação, suplemento e equipamento com a qual apenas a elite deveria se preocupar.

O novo modelo na New Balance para concorrer com o modelo 4% da Nike é projetado para ritmos superiores a 3’25”/km. Quantos você conhece nessa pegada? Pois na 10 km Tribuna FM em Santos eu vi uma menina correndo para 50’ os 10km com o Vaporfly. Faz sentido para você?

Os detalhes parecem atualmente mais importantes que a fundação. Para que ter 8 horas de sono se há melatonina? Se você não dorme, não come comida de verdade e não treina DURO, tenho uma má notícia para você…

Suplemento não faz NADA. Equipamento? Não faz NADA. Seu lanche pós-treino feita por Nutricionista que ganha comissão pelo suplemento é inútil quando a maior parte da sua energia vem de alimentos processados. Botas modernas de compressão? Todos sabemos que você vê Netflix pelo celular deitado até de madrugada.

Você faz aula de alongamento, fisioterapia preventiva? Você é doido? Você treina 3 vezes por semana! Quem você quer enganar? Eu sei quem… você NO FUNDO quer se convencer de que olhar o 1% substitui o 99%… Pare de olhar a cobertura se você ainda nem sequer preparou a fundação…

Tenha em mente uma coisa: o básico NÃO encontra vendedores. Não vai encontrar ninguém o promovendo. Pergunte ao Frank Caldeira como se faz!
📷 @NakanoFotografias (Marcelo Nakano)
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