Arquivo da categoria: Tecnologia

TRATAMENTOS DA MODA. Ou ainda “A Natureza sempre dá um jeito”

Uma teoria apresentada em um congresso recente com resultados preliminares encontrou que corredores que pisam com o calcanhar têm economia de corrida similar àqueles que pisam com a parte mais anterior. Basicamente aquele tem uma extensão maior da panturrilha enquanto este teria maior carga. Ou ainda, usando um clássico de Jeff Goldblum em Jurassic Park (1993): a natureza sempre dá um jeito.

A corrida, não podemos nos esquecer nunca disso, é extremamente simples, antiga, facilmente mensurável, acessível e bem disseminada. Tudo que você tentar (e achar revolucionário), é improvável que não tenham tentado antes, então não assuma a priori que nunca alguém tenha pensado e tentado o que você tem mente. É assim que eu vejo alguns especialistas que vivem de enchê-la de espuma.

 

Quando o gelo engana o fisioterapeuta

O mundo dá voltas e a natureza dará sempre um jeito. Parece ter virado praxe a recomendação de aplicar gelo em atletas mesmo em indivíduos não-lesionados. Ignoremos de cara duas verdades do amador: a primeira é que se você paga uma consulta e seu fisioterapeuta/ortopedista fala que você pode voltar para casa sem recomendar nada, você o avaliará como menos competente. Então ele vai mandar você fazer algo que não te prejudique, mas que não o torne um profissional malvisto. A segunda é que todo corredor amador gosta de ser visto como especial, como mais próximo de um atleta profissional (uma mentira) do que alguém sedentário (uma verdade)*. Então ele gosta de ser orientado a fazer algo que seria “para ele” (personalizado) ou próximo do que faz, por exemplo, um LeBron James, que faz gelo ao final do jogo 2 da apertada série de 7 partidas.

*gosto muito da definição da Runner’s World sul-africana que meio que prega que alguém que corra 30 minutos 3 vezes por semana (a maioria absoluta dos corredores) não tenha um estresse fisiológico que impacte e/ou faça qualquer alteração ser necessária.

Não é de se espantar que estudo atrás de estudo encontre que aplicar o gelo após a sessão de treino traria apenas adaptações negativas, contraproducentes ao corredor não lesionado. Eu sempre me pergunto os motivos das pessoas seguirem orientações esportivas de fisioterapeutas, médicos e nutricionistas… sempre acho que é como perguntar sobre hidrodinâmica a pescadores. As coisas se parecem, mas cada um tem seu funcionamento distinto.

Falo isso porque esporte é basicamente gerenciamento de estresse aplicado a um sistema orgânico complexo buscando adaptação. Qualquer prática incidindo em qualquer uma dessas variáveis vai impactar seu resultado. O nutricionista que sugere a ideia estúpida de oferecer uma refeição com proteína e carboidrato (sempre a 4:1!) sem fome impacta o resultado. O fisioterapeuta ou médico que sugere gelo sem lesão impacta a carga. Costumo dizer que essas são ideias tão esdrúxulas, de quem ainda não entendeu o básico, porque seria o mesmo que pedir que a pessoa corra sempre em descida porque as velocidades médias de treino serão maiores, quando no dia da competição a pessoa correrá no plano (ou na subida).

 

O estresse é essencial

O corpo precisa ser submetido ao estresse. Fazer gelo é tirar as condições para que isso ocorra. Isso porque o estresse revela e propicia benefícios que ficam escondidos no conforto. No conforto do gelo para tirar a dor (que não é fruto de lesão), o conforto da palmilha de silicone ou o conforto da refeição a cada 3 horas. Basicamente, podemos dizer que oferecer nutrientes que ele ainda não “pede” é alterar negativamente toda uma rede complexa que é intrinsecamente regulada. O homem parece ser o único animal que vai à mesa sem fome ou que sai dela sem estar satisfeito. E é o único que sofre de algumas doenças crônicas por causa disso. Por isso mesmo…

Não tente enganar a natureza

Por fim, chego a outro estudo interessante, um envolvendo maximalismo e impacto. O resultado de um levantamento é que aqueles que correram com o que é estupidamente apontado como solução por vendedores (mecanismos para reduzir o impacto na corrida) tiveram maiores cargas de impacto em sua corrida. Ou seja, tênis maximalistas geravam maiores cargas de impacto que tênis neutros.

Veja bem, para vender (mais) tênis, vendedores disfarçados de pesquisadores vieram nos dizer que um pedacinho de borracha ao calcanhar melhoraria um trabalho de milhares de anos Do Criador (seja lá quem seja Ele para você). Não tinha como dar certo! A natureza criou e cria o jeito dela de passar por cima disso. Era óbvio que usar tênis grandes mudaria nosso padrão de corrida. Que ao corrermos enfatizando uma parte do pé fariam as lesões apenas migrarem de lugar.

 

O que os profissionais da saúde fazem é mudar para menos a carga de estresse. Só que, ainda que o condicionamento aeróbio seja calibrado pela média da distribuição de cargas, parte deles, os níveis de força, são calibrados pelos extremos (dessas cargas), então, SIM, diminuir essa carga oferendo as intervenções da moda (gelo, crioterapia, meias de compressão, lanche pós-treino, glutamina….) só pode ser contraproducente.

Não caia nessa pegadinha!

Etiquetado , , , , , , ,

Preço de Tênis é imposto. Mas também muito posicionamento de mercado, social e Fé, muita fé.

3 posts bem atuais falam quase tudo o que um corredor precisa saber para entender melhor o mercado de tênis de corrida no Brasil (e também lá fora). O primeiro deles é da Triathlete e questiona: por que alguns tênis custam tão mais que os outros?

Tem o YouTuber que vai tentar te convencer que existe muita pesquisa e tecnologia em tênis de corrida, o P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), o wannabe influencer que vai correr 15km com um tênis que ganhou e falar que vale pagar R$699 no novo modelo ou o jornalista que se informa lendo release dizendo as bobagens de sempre. Quem trabalha ou trabalhou com isso sabe que o P&D não tem impacto substancial no custo de um tênis. Não precisa acreditar em mim, é só ouvir outros que são ou já foram do mercado.

O texto explica que “muitas vezes, não é questão se pesquisa gera custos, mas se ela sequer foi feita”. Você vê que “muitos produtos usam o mesmo projeto fundamental. Não houve uma verdadeira pesquisa“. É duro quando o mundo de sonho de tanta gente não bate com a realidade.

Não há uma correlação positiva de preço com lesões (ou seja, quanto mais caro o modelo, menos lesões), na verdade há uma associação oposta! Quanto mais barato um tênis, menos lesões (*associação não é garantia de causa).

Preço de tênis não tem nada a ver com qualidade ao que se propõe, ele é um resultado de múltiplas causas. Ele é fruto de posicionamento de mercado, de tributo (impostos) e de demanda. O Brasil, qualquer um sabe, pois sente na pele, tem alguns dos impostos mais caros do mundo. E assim chegamos ao segundo post.

O Eduardo Suzuki fez uma pesquisa para quantificar o que já sabíamos: pagamos os tênis de corrida mais caros do mundo. O imposto responde? Com certeza. Totalmente? Não.

Aqui entra o posicionamento. É uma questão de valor percebido. Como o público brasileiro para muitos mercados atribui preço à qualidade (além de toda uma questão toda antropológica que daria margem para um pergaminho, afinal correr com um tênis que só se compra indo aos EUA ou que custou 4 dígitos te posiciona dentro da hierarquia social) você vai sempre encontrar tênis muito caros. Sim, a indústria trabalha com uma margem menor do que muita gente sonha, mas o ponto é: não há nenhum incentivo para reduzir os preços quando há… demanda.

O corredor quer qualidade (e acha que preço o garante isso), ele quer pagar caro. Por que vender algo igual por – sei lá – R$399 se pagam sorrindo R$799?

E por fim caímos na terceira publicação que cai em outro ponto fundamental do mercado. Os novos solados vieram para ficar. É item fundamental que a (argh!) tecnologia do tênis seja aparente. Elas vêm e vão. Já foi o Air da Nike, o Bounce da adidas… estão aí o Gel da ASICS, a placa da Mizuno. Você TEM que expor a tecnologia. O texto da Business Insider explica como a ideia das solas traz uma vantagem enorme: você pode moldá-la em qualquer produto, inclusive em modelos casuais (assim você pode andar tranquilo no shopping ou na balada combatendo o impacto com aquela entidade que ninguém nunca mostrou: o amortecimento).

Tênis é uma questão de preço de “tecnologia” visível, de posicionamento social e de fé, muita fé. Sem isso, você não pagaria (sorrindo) o que paga hoje.

*agradeço ao Marcel Pracidelle e ao Igor Oliveira pelas dicas!

Etiquetado , , , ,

Teste de Pisada: o vendedor do mês.

É sempre complicado falar sobre tecnologia de tênis. Isso porque corredores (pagos ou os não-pagos), tal qual o consumidor mediano de outras categorias, colocam na tecnologia um peso desproporcional à sua efetividade, assim o debate sai do campo das ideias e parte para a torcida, vira quase religião.

Diferentemente de um computador, de um celular ou de outro artigo eletroeletrônico, a tecnologia não é a maior responsável pela efetividade desse produto. Isso é tão claro que basta olharmos aos tênis dos profissionais. Quanto menos tênis houver, melhor. E isso vale dos 100m aos 42km.

Assim como colocar a palavra “orgânico” ou “100% natural” em um alimento aumenta o valor percebido da comida, quando o tênis vem envolto em um ar tecnológico e moderno, você aumenta o preço pelo qual o corredor estará disposto a desembolsar por ele.

Se você olhar historicamente, verá que a maior sacada inicial da Nike foi entender que, além de vender mais, a tecnologia tem que necessariamente ser visível. Foi assim com a tecnologia AIR, que não bastava estar lá, a bolsa TINHA que ser e estar visível ao consumidor. Na mesma linha a Mizuno (com sua placa sempre à mostra) e a ASICS (com seu gel) entenderam essa ideia simples, mas essencial. Mais do que possuir gel (ou placa), ele precisa ser visível, colorido. Isso porque um gel branco, ao corredor, pareceria ineficaz. A Nike pode não ser a líder do mercado de running performance (nome da categoria), mas ela lançou a ideia.

Quando trabalhei na adidas esse era um desafio constante. A tecnologia finada da época (Formotion) não era visível. Apenas explicar ao corredor não funcionava, isso porque igual um aborígene de 1.000 anos atrás, se o corredor não vê a tecnologia (que pode ser uma espuma, um pedaço de plástico ou puro ar), é porque ela não existiria. Quando eu estava lá havia mais gente correndo com o também finado bounce (que não era de corrida, mas que tinha bolas vazadas de acrílico no calcanhar) do que os de corrida. Por isso que em treinamento da ASICS se leva um tênis aberto pelo meio com o gel sempre exposto. O corredor, antes de tudo, precisa ver para ter fé.

 

Se você reparar, em toda “tecnologia de amortecimento” (tenho pavor dessa expressão) há um nome rebuscado e algo tangível, que pode ser tocado (a única exceção dos protagonistas talvez seja a Brooks, que quem sabe não só por acaso não decole no Brasil).

OK, essa é uma estratégia do fabricante de te “convencer”. Mas ela não acaba aí. Outra estratégia para convencer sem abrir mão da tecnologia é a análise de pisada, usada pelos fabricantes, lojas e mesmo fisioterapeutas. Quem nunca viu um? Quem nunca entrou em uma fila para fazer um?

A verdade é que um teste de pisada aumenta demais a conversão de vendas. Uma loja que realiza o teste é vista como melhor do que uma sem um equipamento. E quando você consegue fazer alguém realizar um teste, você sabe que aquela pessoa caiu na arapuca e está prestes a virar um consumidor seu.

O que sabemos hoje é que o excesso de opções atrapalha as vendas (“Paradoxo da Escolha”). Se você oferece 40 tipos de geleia a alguém, você cria uma confusão mental tão grande que a pessoa trava e não compra. Mas se você oferece 6 tipos de geleia suas chances de vender aumentam consideravelmente. Não à toa qualquer lanchonete com a opção “monte seu sanduíche” deixa de lado opções já pré-selecionadas (com nomes pomposos) porque ter que escolher dentre 100 ingredientes não é lá muito acolhedor. Visto desse modo, quando você entra em uma loja e se depara com 40 tipos de tênis, nada mais assustador.

Mas daí vem alguém e lhe dá um banho de tecnologia de ponta (“feita pelos japoneses”, “pelos americanos”… nunca por chilenos, por exemplo). E os 30 tênis serão reduzidos para uns 5 modelos. É um combo matador: personalização com tecnologia. Como resistir? Você pode até não saber ou se fazer de esperto, mas quando faz um teste, você já foi fisgado, caiu na armadilha da loja e do fabricante.

“É bem mais fácil convencer o cliente a gastar dinheiro depois de fazer um teste de pisada. Você tem que se questionar eticamente.”

Resolvi escrever esse texto após parar em uma análise das questões éticas em se fazer um teste tão precário (eu mesmo desconhecia um estudo que associa um maior risco de lesão ente aqueles que fizeram o teste!). Como um profissional da área (fisioterapeuta ou ortopedista) pode trabalhar com esse tipo de equipamento sem infringir um limite ético? E na mesma semana, ironia do destino, acabei em outro post. Seu humor e sua graça estão justamente em seu fundo de verdade: um teste de pisada confirma que o consumidor precisa de novos tênis, novas meias, novo quebra-vento e um relógio novo.

Etiquetado , , , , ,

O lesionado quer melhorar, mas precisa é de esperança

No final do ano postei um texto sobre qual seria o melhor método para prevenção e reabilitação de lesões. Basicamente falo das armadilhas que fisioterapeutas, médicos (ortopedistas) e treinadores aplicam (ingenuamente ou espertamente) para proteger ou curar corredores. O assunto não é novo aqui no Recorrido… vocês sabem o que acho quando o assunto é lesões, a (baixíssima) capacidade de tênis influenciar positivamente na prevenção de lesões (ou mesmo desempenho) ou do tamanho da importância do placebo e da fé do corredor nesse assunto.

Vira e mexe volto no assunto: o corredor quer se sentir especial. Isso é uma constante em quem acompanha esse mercado e esse público. E essa fé vem em várias formas. Vem na forma de uma tecnologia inócua, que é cara e encanta, ainda que seja… inócua. Vem ainda na forma de um profissional gabaritado que é capaz de muito pouca coisa, mas sob quem depositamos uma enorme fé. Ou fé de que desta vez, mesmo contra todos os prognósticos, será diferente.

Eu não tenho nada contra médicos ou fisioterapeutas. Acho apenas que médicos e fisioterapeutas têm baixíssima capacidade de ajudar um corredor a se machucar menos, até porque é o treinador (sou um) quem aplica as cargas. Esse, sim, é o maior responsável a evitar que uma lesão apareça. Médicos e fisioterapeutas vêm depois, quando a lesão já está lá. *e, tenho que ser honesto, confesso que tenho pouca fé na capacidade deles em acelerar esse processo.

Um fisioterapeuta que respeito muito, o Claudio Mesquita, leu meu texto e escreveu uma resposta educada a ele. Basicamente, posso estar enganado, acho que mais concordamos do que discordamos. Ele reforça que falo de overtreatment. Esse excesso de intervenções é um mal da área da saúde, uma vez que sempre há uma ênfase em fazer algo quando há um problema (via positiva) em vez de buscar retirar aquilo que o causou em primeiro lugar (via negativa). No fundo no fundo, ninguém vai ao fisioterapeuta para escutá-lo dizer que você precisa descansar e voltar a correr devagar e em menor volume, ainda que esta seja a melhor e mais segura medida, você o quer aplicando um tratamento com algum aparelho da NASA que o fará voltar a correr 100% em tempo recorde.

Meu texto era mais sobre “armadilhas” e as “espumas” usadas no tratamento que acabam tirando o foco do problema real, como a busca de muitos profissionais por “tratamento complexo” e “nomes pomposos” (que são mais caros e encantam). Entendo que o Claudio Mesquita tenha achado minha implicância com o avental (que ele não usa), por exemplo, desnecessária. E é mesmo! Para mim o avental apenas transforma a pessoa aos olhos do lesionado em um super-herói.

Falando em super-herói…

Dias atrás voltei a assistir O Incrível Homem-Aranha 2. Foi ao final do filme (que já sei de cor) que me obriguei a escrever esse texto. Gwen Stacy, a namorada dele, faz um discurso sobre esperança (aqui ele dublado). Para ela haverá dias sombrios à nossa frente. Haverá dias em que você se sentirá sozinho, e é quando a esperança é mais necessária. Não importa o quão pessimista, ou o quão perdido você se sinta, você deve ter esperança. Isso nos mantêm vivos. Temos que ser maiores do que o que nos faz sofrer. O avental para mim é sintomático, ao corredor machucado transforma o profissional de saúde em um super-herói.

Ou ainda citando outro super-herói de meu filme favorito no gênero, Batman diz que às vezes a verdade não é suficiente, às vezes as pessoas merecem mais. Às vezes elas merecem ter sua fé recompensada.

Eu preciso no fundo é trabalhar melhor em mim o fato de que nunca devemos retirar de alguém uma ilusão se você não pode substituí-la por outra imediatamente. Isso pode não ser justo nem suficiente. Sob essa ótica, talvez no fundo não faça mal algum deixar aquele corredor ali fazendo exercícios em uma cama elástica ou em um aparelho caro com um doutor de avental se o que ele mais precisa é justamente ter esperança que aquilo funcione para recuperá-lo.

*para ilustrar não achei uma imagem melhor que o final do filme O Incrível Homem-Aranha 2. Não deve existir mesmo…

Etiquetado , , , , , ,

A fauna dos influencers na corrida

No final do ano passado resolvi mergulhar por alguns dias em um mundo que reluto em acompanhar: o dos corredores que querem ser (wannabe) influenciadores digitais (influencer). É uma turma que por ser corredora (ainda que por poucos quilômetros por semana) é parecida demais para que eu continue a ignorar, mas diferente demais de mim a ponto de eu tolerar. Simplesmente não consigo ficar nesse mundo. Não consigo!

Quando estava trabalhando com marketing nesse mercado eu ganhava ($$) para tolerá-los, agora que não me pagam mais, minha paciência se acaba muito rapidamente. Apesar de não me fazer um influencer, por ter trabalhado diretamente com isso, digo que sei o be-a-bá de como funciona por dentro. Confesso que acho tudo às vezes meio triste, meio bisonho, porém nada que Freud não explique bem. Um amigo costuma chamá-los de pombos, porque basta você jogar qualquer migalha e quase todos se reúnem à sua frente.

E aqui está uma das maiores sacadas! Ofereça algo, mesmo que pouco, ou tão somente uma bandeira, como se fosse um grupo exclusivo para que trabalhem por você, de graça e em grupo. Veja o que algumas marcas esportivas fizeram: um esquadrão, um time… e os escolhidos decidem por conta defender a causa alheia. E sempre fico com pé atrás dessa turma. Esses times estão sempre correndo sorrindo como comercial de margarina ou fazendo cara de mau como se fosse um time de basquete do Bronx. Artificial, como a margarina.

E esse é um dos segredos da perspectiva para esse mercado ser de vida longa; muito longa e promissora. Longa a ponto de um conhecido desses já estar não-sei-em-qual-marca dizendo que dessa vez é o melhor tênis com qual já correu. Soa tão honesto quanto o jogador Magno Alves aos 41 anos beijando o 12o escudo de time. Só o bem iniciante compra a ideia. *Todo mundo começa a carreira de algum jeito, ninguém precisa se ofender!

Mas confesso que acho a fauna toda um show de horrores (no pior sentido). Você encontra de tudo, mas há padrões bem definidos. Você encontra a cocota de 20 e poucos anos com IMC de 20, com cara de Lolita e dezenas de milhares de seguidores. Ela vai tirar fotos sempre com shortinhos de corrida (curtinhos!), top e esconder o namorado. Por quê? Porque o público dela se faz muito de garotas que querem ser magras como ela (e que são as únicas a ler seus textões e interagir) e de maioria masculina, que não vão ler nada daqueles textões chatos e vão deixar de segui-la caso ela poste mais do que 1/3 das fotos com muita roupa, de prato fit ou com o namorado (por isso ela o esconde, repare).

Tem ainda uma versão moderna da Soccer Mom, a mulher que na verdade nem precisa ter filhos, mas tem que estar na casa dos 40 e estar bolada à base de hormônios, cada vez mais assustadoramente frequentes em qualquer academia ou consultório médico, mas nos posts faz parecer que é tudo à base de muito treino, aveia, frutas e peixe.

Ontem mesmo conversava com um grande treinador sobre o problema dessa visão romantizada e deturpada que muita mulher tem sobre preparação física (*homens parecem sofrer muito menos dessa, por assim dizer, ingenuidade… nenhum homem acha, por exemplo, que o quarterback astro da NFL ou o super-herói do blockbuster do verão tem aquele corpo à base de somente treino limpo… homens sabem o que deixam as assistentes de palco e as dançarinas-frutas parecendo nadadoras olímpicas, nossas amigas mulheres parecem mesmo não saber o real preço químico para ter aqueles corpos). Aí você tem a 40tona toda rasgada à base de bola e a menininha sarada à base de juventude e dieta hipocalórica fazendo parecer que todo mundo é assim de forma limpa, basta querer. Tirando as geneticamente privilegiadas, sabemos que não é. Qualquer um que trabalhou com esporte sabe que não é.

Uma constate bem presente é no discurso sempre se levar a sério… falar chavões sobre desempenho, prova-alvo, periodização, treino específico, dieta personalizada, importância da nutrição… sempre me pergunto se acreditam 100% no que escrevem. Bom, outro dia eu conversava ainda com uma psicóloga falando de como deve ser duro a uma atriz de Hollywood encarar o fato de que quando faz 40 anos ela deixa de estrelar filmes como protagonista e passa a ser coadjuvante como a sogra do 60tão que agora está saindo com a filha dela de 25-30 anos. É meio triste para ela, mas ela não pode dizer que não sabia das regras do jogo. Todos sabemos desde sempre. A influencer de 20 e poucos anos tanto sabe as regras que esconde o tal namorado e não posta fotos de moletom. Ela sabe o que um homem procura ver no perfil dela (não é a descrição do treino do dia nem do prato natureba). Já a de 40-e-tanto tenta disfarçar a idade à base de GH e testosterona porque o mundo, afinal, é cruel; e ninguém disse que ele era justo.

O fato é que o Instagram é uma rede social à base de imagem. No Facebook somos todos felizes, no Instagram tudo é belo e interessante, até um prato de salada. Aí o caldo entorna quando essa gente (que geralmente corre pouco) resolve gerar conteúdo escrito, informação.

Aí nãooooo… Aí não, amigo…

Vamos pular a parte da cocota que escreve textão que nenhum homem quer ler. Entremos direto na parte que influencer geralmente não tem muito a ser dito, afinal, influencer de Instagram serve para postar foto legal e motivar, não informar. E quando resolve se aprofundar a coisa degringola. Essa semana um amigo corredor-raiz mandou um vídeo de uma YouTuber iniciante na corrida dando 8 dicas sobre corrida. Fosse uma prova, ela tomava DP direto, tadinha. Mas o mais engraçado é que, como ela, parte dos influencers tem apoio de marcas esportivas. Aqui temos duas observações: marcas não entendem absolutamente nada de corrida do ponto de vista técnico. Absolutamente nada. Um dos maiores YouTubers de corrida do país, coitado, insiste em dizer que marcas são especialistas em corrida e biomecânica, sinal claro que até hoje no mercado e ele ainda não entendeu que a especialidade delas é fazer tênis. Nem vender elas vendem sozinhas! Mas não sou eu quem vai ensiná-lo… afinal, é uma ignorância conveniente quando você ganha materialmente com isso. E aí quando você olha os apoiados você acaba concordando ainda mais comigo.

E a segunda observação é que apoiar alguém de presença forte nas redes sociais é algo não muito exato, mas barato, extremamente barato. É aquele investimento que quando errado o prejuízo se dilui. Os mais conservadores vivem perguntando o porquê de não se apoiar mais atletas de ponta e sim pangarés engajados. Acontece que apoiar um maratonista profissional que treina 200km/semana demanda muito material, sai muito caro e atinge uma pessoa. E esse cara está tão mergulhado no trabalho (correr) que lhe sobra pouco tempo para postar aos seus (poucos) seguidores. É mais fácil você dar 1-2 tênis por ano para alguém que roda 20km/semana e vai te agradecer sem parar (a tese do pombo-migalha!). A fidelidade na categoria é muito barata, eu te garanto.

Como não há matemática ou uma fórmula do que realmente funciona neste modelo (ninguém, absolutamente ninguém sabe o que funciona de verdade) você pulveriza sua verba em material (que custa 30% do que custaria em pagamento em dinheiro) esperando que essa gente trabalhe literalmente de graça. E é o que eles mais fazem! Acredite, trabalhei muito com isso!

E assim, assistir da tela do nosso celular chega a ser até engraçado porque a pessoa precisa fazer valer o “investimento” que foi feito nela. O que poucos, bem poucos influencers já entenderam é que uma vez que você aceitou material de uma empresa, você sem saber já determinou o seu valor máximo à empresa, a marca assim sabe que não precisa pagar um centavo a mais por você. *e de novo, não há crime por parte de quem topa participar!

Assim como ninguém do mercado sabe o que funciona ou não nessa estratégia de dar mimo aos influencers, ninguém sabe onde isso vai parar, mas a chance é que tudo continue como está porque é o jeito mais barato de alguém fazer e trabalhar de graça por algo que um profissional cobra para fazer.

Bom, desculpe a verborragia, mas eu precisava falar dessa fauna cada vez mais rica que são os influencers no mundo da corrida! Ainda que tenha trabalhado bastante com isso confesso que em novembro e dezembro me espantei com a criatividade e o esforço de alguns em fazer parecer que o discurso deles é de graça, espontâneo e natural.

Etiquetado ,