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O que faz do Etíope um vencedor na corrida?

Seria a miséria? Outros países também são muito pobres. Seria a altitude de Adis Abebba? Quito e La Paz são capitais ainda mais altas. Seria sua ruralidade? Improvável. A genética? São várias etnias compondo a seleção nacional. A comida? Os métodos de treino?

Qual a resposta, a que explique a superioridade deles e dos quenianos, é uma pergunta que eu não me faço mais. Para mim, apesar de complexa, ela está bem clara aos que querem ver: é seu conjunto quase único, singular de fatores!

O método incrível de treinamento, a pressão social (a corrida como talvez única ferramenta de melhora sócio-econômica), a pobreza como propulsora, a ruralidade (que “protege” o corpo do cidadão-atleta)… A atitude, assim como também a altitude! Sim, uma genética privilegiada, a tradição de gerações…

TUDO tem seu peso. Buscar uma única resposta é coisa de ingênuo ou de quem não entendeu nada ainda.

Hoje quando visitava um cemitério destinado a heróis nacionais me deparei com essa cena. Crianças olhando o túmulo daquele que é provavelmente um dos 4 maiores corredores da história do país, sem dever NADA a Bikila, Haile ou Bekele.

Quando crianças admiram assim alguém como MIRUTS YIFTER, o Yifter “The Shifter”, um quase desconhecido fora da Etiópia, você sabe que há ainda gerações para dar seguimento a toda uma linhagem vencedora.

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Um protagonista ignorado

A parte legal de voltar a dar treinos presenciais é conseguir de forma mais clara passar algumas coisas que à distância é mais difícil convencer.
Na primeira vez que pedi que esses corredores amadores (universitários bem talentosos) desaquecessem e fizessem exercícios de mobilidade descalços houve olhares desconfiados, como se fosse esquisito.
O corredor amador geralmente se preocupa com o tênis, com qual suplemento deveria tomar, com periodização (pffff), com nutrição pré e pós treino (mas nunca nas demais 23 horas do dia).
O fato é que no pé estão ligamentos, tendões e músculos essenciais à corrida. Seja porque estabilizam, propulsionam e… amortecem. E aqui uma coisa importante: NÃO É AINDA POSSÍVEL terceirizarmos o amortecimento (e consequentemente a proteção de nosso corpo) aos tênis. NENHUM modelo consegue sequer chegar PERTO do que os pés conseguem.
Correr descalço é a forma de fortalecer músculos que ficam dormentes quando não corremos descalços. Você pode fazer um paralelo observando quem faz gestos finos com as mãos… esportistas ou não… violinistas, nadadores, pintores, jogadores de basquete… Imagina essas pessoas de luvas grossas? Por que correr com tênis grossos?
A história de alguns dos melhores povos corredores é repleta de relatos de treinos descalços ou com pouca proteção mostrando que tênis ou é um simples coadjuvante ou mesmo desnecessário.
O que esses da foto fazem é desaquecer por não mais do que 2km assim, descalços, na grama, leve. Fazer mais do que isso é exagerar em algo que por décadas nunca mais fizemos, deixar os pés totalmente livres. Pode não ser mesmo o ideal (assim como 30 minutos de academia por semana não é), mas é um mundo à frente do que se faz hoje em treinos com almofadas e tijolos nos pés.
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Eliud Kipchoge. Mas… Já o melhor a história?

A história é a caixa forte da memória.”

Na aposentadoria de Usain Bolt escrevi que ele momentos antes da sua despedida, na final dos 100m no Mundial em Londres/2017, no qual ele foi bronze, ele já era o maior da história. Sob QUALQUER aspecto ele era já maior que seus maiores rivais anteriores: OwensLewis ou Hayes (*esta é a minha ordem de melhores da história).

O queniano Kipchoge domingo último correu uma Maratona em uma velocidade jamais feita. Alguns fatos chamam ainda mais atenção pelo seu feito. Por exemplo, foi a maior margem de quebra de um recorde mundial em mais de 50 anos (Derek Clayton/1967). Outro dado assustador: suas parciais de 10km foram cada vez mais rápidas. Não é apenas um split negativo (norma desde Ronaldo da Costa/1998). Da largada a chegada, de 10km em 10km ele foi acelerando! Os 10km mais velozes foram do 32km aos 42km! Fantástico!

O MAIOR DA HISTÓRIA?

Não, não é. Kipchoge é fantástico! É bonito e um enorme privilégio poder vê-lo competir. Mas apressadamente passá-lo à frente de outros nomes igualmente fantásticos é quase um desrespeito com ícones desse esporte. O tempo ensina… Ele nos ensina, por exemplo que outros atletas já foram até mais dominantes que Eliud.

O americano Clarence DEMAR, por exemplo, venceu a Maratona de Boston, quase uma espécie de mundial da época, 7 vezes em um intervalo de 19 anos. Tremenda longevidade. Medalhista olímpico (bronze/1924), talvez lhe falte um recorde mundial. O britânico Jim PETERS, outro de enorme domínio em sua época, bateu o WR por 3 vezes em 3 anos!

Em sua busca pelo seu ouro olímpico PETERS em 1952 foi esmagado por outro fora de série. Emil ZATOPEK estreou na distância com ouro e recorde olímpico. Zatopek em suas duas provas não obteve um WR. O australiano Derek Clayton bateu por duas vezes o WR. Ninguém foi mais rápido que ele por 14 anos. É o maior domínio até hoje. Mas antes dele houve aquele que pode não ser o maior da história, mas que também sob qualquer parâmetro analisado não pode nunca ser considerado PIOR que qualquer outro maratonista que já existiu.

Abebe BIKILA, bicampeão olímpico, dois WRs, não pode NUNCA ser colocado atrás em uma lista de os maiores da história. Não pode. Não pode. Ele bateu o WR correndo descalço no verão de Roma correndo em paralelepípedos! E depois o melhorou!

E assim chego ao meu último ponto. O que vimos domingo não podemos SEQUER afirmar que foi o maior desempenho já visto nos 42km! Zatopek em Helsinque/52, Bikila em Roma/60, Salazar em Boston/82, Ronaldo da Costa/1998, Wanjiru em Pequim/2008 ou Meb em Boston/2014… não foram menos espetaculares!

Quando olhamos apenas o cronômetro (um juiz que não envelhece), temos que o WR de Zatopek nos 10.000m é mais LENTO que a média de Kipchoge. Mas a dominância do queniano é de cerca de 1% enquanto ninguém dominou mais a corrida que o tcheco. Não deve existir na história do fundo atleta mais dominante que o tcheco. Até o tempo em Berlim, descontado o quanto ele foi beneficiado no evento #Breaking2 pela barreira de vento, parece mostrar que ele correu o MESMO tempo. Ou seja, no fundo não teria havido uma melhora domingo agora (*e aqui entra que feitos os cálculos, o Vaporfly não daria aquilo que as pessoas acham que dá, mas não quero me estender).

Estou nas páginas finais da leitura de meu 4º livro sobre a trajetória de Lance Armstrong*. Sabe… “A história é a caixa forte da memória”, como disse o poeta. Espanta um pouco que caiamos tão facilmente na pressa de eleger o melhor de todos os tempos. Assim como na Maratona, temos que ir com calma…. O jogo só acaba quando termina. Talvez depois de Tóquio/2020. Até lá Bikila está no topo do pódio. Pode até dividir com Kipchoge, mas não menos que o topo.

p.s.: Nem DE LONGE sugiro que haja desconfiança no que vimos domingo… eu só nunca compro de cara o que tentam me vender…

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Os números das Meias Maratonas brasileiras em 2017: o perfil do corredor brasileiro

Publico hoje no Recorrido (aqui completo) o relatório das Meias Maratonas Brasileiras. Este é um levantamento único no nosso mercado de corrida e busca dar números a uma das distâncias preferidas pelos corredores brasileiros, os 21km. No ano de 2017 que se passou podemos destacar:

– Um número recorde de concluintes (pouco menos de 140.000, aumento de quase 20%);

– Um número recorde de provas (135);

– A participação feminina que só crescia, se estabilizou.

Se nossas provas ainda não são gigantes como as internacionais, elas estão cada vez maiores e mais femininas. Como tem sido praxe, a Meia Internacional do Rio de Janeiro (Yescom) aproveita a força da TV para ser com folga a maior prova do país.

Das 10 maiores provas, 8 estão no eixo Rio-SP.

A Golden Run Brasília (8ª) é a maior fora do eixo.

A soteropolitana Shopping da Bahia Farol a Farol (10ª) a maior do Nordeste.

A Meia de Floripa (13ª) é a maior da Região Sul.

A Meia Maratona de Manaus é a maior no Norte (32ª).

Já a das Cataratas do Iguaçu (18ª) é a maior fora das capitais.

Para quem acha que é fácil ganhar dinheiro organizando provas de 21km, vale lembrar que nenhuma prova apenas cresceu no período 2011-2017. E das 15 maiores, somente 4 não têm outras distâncias correndo em paralelo, o que mostra como é difícil organizar provas muito rentáveis nessa distância.

Por fim, com a entrada de novos corredores, mais inexperientes, a velocidade mediana do meio maratonista brasileiro cai. E hoje ela está em 2h19 (~6´35″/km) entre as mulheres e 2h04 (~5´50″/km) entre os homens. O que isso significa? Que se você, homem ou mulher, corre ao menos 1 segundo mais rápido que essas marcas, você chega à frente da metade (50%) de todos os demais corredores brasileiros.

Ainda falando em velocidade, se você busca uma boa marca, talvez devesse dar uma chance à Meia Maratona de Florianópolis, à de Porto Alegre e à Run City Brasília, as 3 mais rápidas do país.

Para esses e maiores detalhes, entre e confira o exclusivo infográfico das Meias Maratonas Brasileiras.

 

*aqui você tem o levantamento com as Maratonas brasileiras!

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Correndo com os Etíopes – parte 9: Nutrição.

Logo que cheguei à Etiópia, ainda no aeroporto, algumas coisas me chamaram a atenção. Uma delas era pessoas em forma, nada de obesos, saudavelmente magros. Além disso, não havia restaurantes fast food no local. Soube ainda depois que o Mc Donald´s não desembarcou no país. Quando fiz uma associação dessa ausência com o baixo índice de obesidade, um desses comentaristas que escrevem em 4 apoios disse:

 

Energúmeno, qual a renda média? Os caras não comem, não comem nem calorias nem proteínas. São magros por desnutrição.

 

Pois o mais legal de jogar com números, algo que eu adoro, é você poder colocar em teste alguns dos conceitos que temos bem arraigados. Um deles é antigo e não sobrevive nem a uma pesquisa preguiçosa. Por exemplo, quando cruzamos a lista de dados dos países organizados pelo ranking de IMC (um índice comparativo este que é pouco confiável quando olhado individualmente, mas que ajuda demais quando trabalhamos com populações heterogêneas) é que colocado lado a lado com o ranking de ingestão calórica você observa que não há um padrão claro. Ou seja, que consumir mais calorias não tem uma correlação positiva com mais obesidade. Ou ainda nas palavras de Nate Silver em sua obra mais famosa, O Sinal e o Ruído: “parece haver indícios restritos para uma associação entre obesidade e consumo calórico; pelos testes padrões, tal relação não seria qualificada como “estatisticamente significativa“.

O que isto quer dizer? Que a magreza etíope não se explica somente pelo baixo consumo calórico (o que é um fato), uma vez que há países que comem menos calorias e têm IMC maior e países bem obesos que consomem menos calorias que outros países magros.

Seria o baixo consumo proteico etíope, então? Hoje há uma espécie de cruzada entre os que acreditam na nunca testada e provada tese da gordura (ou das calorias) como engordativa quando é o carboidrato quem impacta o metabolismo de gordura. Como muita gente que se diz especialista no assunto não aceita quebra de paradigmas, abrem mão até de um dos nutrientes pouco lembrados na questão, a proteína. E, novamente, está acessível para quem gosta do tema: quando colocamos prevalência de obesidade com consumo proteico, voilà, aparecem paradoxos. Paradoxo nada mais é que um jeito chique de você não aceitar algo que vai contra sua teoria. Apesar do baixo IMC da Etiópia, você encontra vários países que consomem muito menos proteína que esses africanos.

Uma passagem muito bem descrita de uma pesquisa americana relatada em “Por que Engordamos“, livro ignorado por quem finge estudar o assunto, fala do trabalho de um pesquisador que ficava perplexo de como havia crianças desnutridas sendo carregadas por mães brasileiras claramente obesas que TAMBÉM não tinham muito o que comer nas favelas.

Obesidade (ou magreza) não se explica por quantas calorias comemos, que é o que diz esses rankings da ONU, mas QUAIS comemos. As mães faveladas brasileiras da pesquisa comiam pouco, mas consumiam muito açúcar. Suas crianças, comiam poucas calorias, pouca proteína e também pouco açúcar.

Cada um acredita no que quiser, até que controle de peso é sobre calorias, não sobre O QUE se come. Porém, para isso deverá ser feito um malabarismo lógico e argumentativo uma vez que dietas hipocalóricas têm um rico histórico de ineficiência.

Propositadamente, ignorei aqui o argumento da questão da (baixa) renda, até porque dentro da mesma sociedade desde sempre é sabido que os mais ricos são mais… magros! Desconsiderados os bolsões de miséria, renda não deveria ser questão central nesse debate.

Pelo que pude ver em minha experiência em Adis Abeba, os corredores sabem de duas coisas que deveriam ser sempre bem lógicas: comer de modo saudável é o mínimo que você deveria fazer se deseja correr bem. Mais: corrida é sobre coRRer, não sobre coMer. Não há debate sobre o que comer ou beber. Não havia suplementos, não há BCAA, não havia gel nem isotônico! Isso é coisa de atleta que corre de menos e de nutricionista que sabe de menos. Após nossas sessões de treino, quem tinha mais fome comia alguma banana, bebia algo e era isso! Os que estavam se sentindo bem, iam embora sem a tarefa de comer na “janela de oportunidade”, falácia essa que deveria já ter morrido na década passada, mas que ainda sobrevive entre alguns “especialistas”.

Enfim, corrida é o esporte mais simples que existe. Para correr bem você precisa rodar muito (volume), estar magro (em forma) e ter paciência e consistência. Os etíopes fazem tudo isso. Eles comem de modo saudável que os deixa magros. Quem quer achar algum atalho que não existe cai no golpe da dieta personalizada, equilibrada, BCAA, Glutamina, etc. Não aprendem nunca.

*durante meu período lá, não vi nem comi açúcar branco (refinado), no máximo vi o do tipo cristal. Não vi fast food, não vi sorvete, não lembro de ter visto muito chocolate. Apesar da fama ofensiva a eles de que passam fome, vi mais banana, laranja, tomates, avocados e iogurtes do que já vi no Brasil. É difícil você engordar quando você não consome justamente aquilo que te faz engordar: açúcar e alimentos processados e/ou ricos em amido.

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