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Vamos correr com os Etíopes?

Que tal ter a experiência de treinar com atletas e treinadores profissionais etíopes, terra de muitos dos maiores e melhores corredores do planeta? No final do ano passado eu pude vivenciar a realidade deles e aprender sobre corrida mais do que eu poderia jamais imaginar antes de pegar meu voo para Adis Abeba, a capital!

Pois agora no começo novembro eu vou repetir a dose, mas dessa vez não será sozinho! Irei com um pequeno grupo de corredores amadores brasileiros, gente “normal”, de carne e osso, amadores como eu e você que lê este espaço.

Pedi à Run Africa que montasse uma programação de pouco mais de uma semana treinando em vivenciando a realidade etíope. E o melhor: ela acaba com uma participação na maior corrida africana, domingo 18 de novembro! A 10km Great Ethiopian Run, bem maior do que nossa São Silvestre, é a única prova da franquia britânica a rolar fora do Reino Unido!

Com chegada na 6ª feira 09 de novembro, a programação acontece com treinos diários matinais e períodos livres pela tarde para nos aventurarmos pela cidade e redondezas. O retorno está programado para 2ª feira 19 de novembro, um dia depois da prova de 10km.

Posso garantir que correr nos mesmos locais, usando da mesma metodologia, cercado por profissionais locais há muito a aprender e se surpreender!

Se você gostou do que leu, veja o vídeo abaixo e nos escreva (blog.recorrido@gmail.com)! A Etiópia é um país barato! O pacote inclui hospedagem, café da manhã, tour ao centro histórico, traslados e todo o transporte dentro da cidade, inscrição para a prova e – logicamente – o mais desejado, o treinamento!

Vem comigo?!?

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Os 2 Elefantes na sala que o atletismo finge não existir

No final de semana que Rafael Nadal ganhou seu 11º título em Roland Garros, ganhou destaque uma frase sua dizendo que não é justo querer comparar ou igualar na marra o faturamento diferenciado entre homens e mulheres no tênis. Bom, o prêmio aos campeões do torneio em si, é algo que já vem há cerca de 10 anos. A diferença fica mesmo pelos bônus e patrocínios.

No final de semana outro evento trouxe debate. Duas atletas trans, biologicamente nascidas homens, ganharam (ouro e prata, com direito a recorde) a prova dos 100m e dos 200m em um meeting colegial nos EUA. É justo?

A resposta é simples, mas não é politicamente correta a ponto de não encontrar muitos envolvidos que tragam o debate à tona. No caso brasileiro, atualmente há um debate no esporte de alto nível se a jogadora de vôlei Tiffany Abreu poderia competir ou mesmo servir a seleção brasileira (feminina).

Na essência do esporte está a competição sob as mesmas regras, em igualdade de condições e regras em que se respeitem a diversidade biológica entre os competidores, sem igualá-los à força. Ou seja, no basquete você compete contra homens mais altos que você e na natação nada contra atletas que, como Michael Phelps, parece terem nascidos dentro da água. Porém, em algumas modalidades as regras criam classificações para proteger o atleta. Seja no judô, ou no boxe, um atleta de 120kg não luta contra alguém de 60kg. em outros, é por uma mera viabilidade competitiva. No halterofilismo você compete por faixa de peso, por exemplo, ainda que não haja contato físico entre competidores.

As regras que diferenciam homens de mulheres servem para: possibilitar a competição (do contrário seria inviável haver mulheres atletas competindo contra homens, pois elas perderiam na imensa maioria das vezes) ou para… protegê-las. Permitir que essas duas atletas trans compitam contra e prejudicando diretamente garotas é de uma covardia sem precedente no atletismo moderno.

É de certa forma um avanço na sociedade que uma pessoa nascida biologicamente homem possa se identificar socialmente como mulher. Porém, negar a biologia só poderia ser considerado sem impeditivos quando essa alteração não gerasse prejuízo a terceiros. Se eu, um homem, me identifico como sendo uma torradeira, isso é algo que diz respeito tão somente a mim. Mas se eu me identifico como um rei supremo e exijo ser tratado assim por todos vocês, meus súditos, há complicações claras.

O esporte tem regras claras definida pela biologia. Do contrário eu posso alegar que me identifico como sendo das Ilhas Samoa, estando apto a disputar pela primeira vez os Jogos Olímpicos como atleta. Deu para entender? Não é uma questão de preconceito, argumento imbecil de quem não quer enxergar o problema que surgiu no vôlei e periga se estender ao atletismo.

Anos atrás o atletismo foi salvo pelo gongo. O sul-africano Oscar Pistorius vinha obtendo bons resultados claramente beneficiado pelas suas próteses nas pernas. Sua história de vida era incrível (um bi-amputado correndo lado a lado com os melhores do mundo). Pena que era algo artificial. Quis tragicamente o destino que o assassinato de sua então namorada, o impedisse de seguir sua carreira. O atletismo-avestruz podia assim tirar sua cabeça de dentro do buraco.

Cerca de 90% dos saltadores amputados usam a prótese como perna de salto. Não pode ser coincidência. Não é, todos sabemos. O padrão de corrida nos 400m desses atletas é completamente alienígena. Não é coincidência.

Dias atrás outro amputado quebrou a barreira dos 45 segundos nos 400m, mas parece não “oferecer perigo” aos melhores do mundo, a ponto de se iniciar um debate. Mas pode ser que a sorte que a modalidade teve anos atrás dessa vez não se repita caso floresçam mais casos bisonhos de homens biológicos competindo contra mulheres. E a modalidade fica bancando o avestruz fingindo não ver esses 2 elefantes andando dentro da loja de cristais.

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Sobre “skin in the game”, Maratonas, Câncer, Bitcoins e a Dra. Lorca

OU AINDA: FAÇA O QUE PREGA

Mês passado, em mais um daqueles programas governamentais de conscientização da população, um médico do INCA (Instituto Nacional de Câncer) foi à TV para nos alertar sobre os riscos da doença. Ele falou obviedades como o peso do estilo de vida e da alimentação nas chances de incidência da doença. A coisa ficou mais interessante quando chegou a parte da nutrição: o que fazer para melhorar nossas chances, doutor?

O médico que deveria saber o que fala, não pensou duas vezes: consumir pouca carne e menos alimentos industrializados. Não fez nenhuma menção ao açúcar, nenhuma menção aos óleos vegetais, nenhuma menção ao álcool. Somente carnes e alimentos processados.

Eu nunca teria esse doutor como meu médico! Não é nem o fato de ele não entender muita coisa sobre (prevenção de) Câncer ou Risco (o assunto do qual ele fala, então deve ser sua especialidade), mas é porque ele não tem “skin in the game”. A pele dele não está em jogo.

Falo isso porque o próprio site do INCA estabelece que para evitarmos câncer deveríamos comer menos de 300g de carne por semana. Eu devo comer isso por dia. Eu aposto com muita certeza que este médico também ultrapassa esse valor semanal. O doutor só não sabe do que fala, como também não segue o que recomenda. Então por que eu seguiria alguém que não segue o que prega?

BITCOINS – “Nunca embarque em um avião se o piloto não estiver a bordo.” (Fat Tony)

Eu não tenho criptomoedas, não tenho moral para recomendar que você ou qualquer um a compre. Vamos pensar diferente. Imagine que você contrata um consultor financeiro que lhe recomenda: aplique todo o dinheiro que tiver em criptomoedas, venda seu carro, venda sua casa, viva de aluguel e compre quantas bitcoins puder. No que você pergunta: “por curiosidade, quantas você tem?” No que ele responde: “nenhuma, acho isso muito arriscado”.

Seguindo uma lógica bem interessante defendida por Nassim Taleb, as pessoas que votam a favor da guerra precisam ter, pelo menos, um descendente (filho ou neto) em combate. Na antiga Roma os engenheiros precisavam passar algum tempo sob a ponte que eles haviam construído. Dizem que os ingleses foram ainda mais longe, obrigaram as famílias dos engenheiros a permanecer com eles sob a ponte construída.

MARATONAS – Se for amador, corra com quem já correu pra valer 42km.

Há uma discussão eterna “conhecimento vs prática” no esporte. É uma discussão tola, uma vez que se complementam e não se excluem. Eu treinaria (e já treinei!) com um não-formado, com alguém que não tem CREF (eu não tenho). Mas eu nunca, jamais treinaria para uma Maratona com um treinador que nunca correu para valer os 42km. Nunca. Assim como nunca iria para uma aula de natação com um treinador que não sabe nadar, ou nem aprenderia basquete com alguém que não gosta do jogo. É simples. Muito simples.

A pessoa precisa ter a pele em jogo. E antes que você pergunte se renomados treinadores como Renato Canova ou Steve Magness correm maratona, eu lhes digo que o salário deles, a renda deles, vem da porcentagem que seus atletas ganham se e somente se correrem muito bem. É uma relação de esporte profissional, não amadora. Canova e Magness têm a pele em jogo sem precisarem correr sequer 21km.

Dra Lorca, nutricionista personagem do programa humorístico Zorra Total.

DRA LORCA – Nutricionistas deveriam, sim, ser magros.

Anualmente quando chego ao meu dentista, o Ayman, eu falo a frase que Tony Stark disse ao Capitão América em “Guerra Civil”: “às vezes quero dar um soco nesses seus dentes perfeitos”. Eu nunca teria o Tião Macalé como meu dentista. Assim como nunca teria um treinador que nunca correu 42km, nem compraria bitcoins seguindo conselho de quem nunca comprou.

E eu nunca teria uma nutricionista obesa me orientando. Simples. É sabido que a dieta (aquilo que uma pessoa come ao longo do tempo) é a maior responsável pelo seu peso. Sim, estilo de vida, nível de atividade física têm seu peso, mas são bem menores, muito menores. Doenças e genética também. Mas sabemos que o peso tem a dieta de longe como seu maior componente.

Se a minha nutricionista é obesa, há de forma meio geral 3 opções: uma doença/condição (ex: hipotireoidismo ou depressão), que é de longe a menor das possibilidades. Há a chance ainda dela seguir o que fala e não dar certo. Ou de não seguir o que fala, o ponto central do texto. E isto, não seguir, não me serve (assim como uma dieta que não funciona também não me servirá).

Sendo assim, sim, é de muito bom tom que a/o nutricionista seja magro(a) ou em forma. Ele precisa ter e colocar “a pele em jogo”. Porque na eventualidade de danos causados pela confiança que se deposita na dieta desse profissional, ele precisa ter algo a perder com isso. Ou seja, se ele recomenda low-carb ou low-fat ele tem que seguir a dieta. E se seguir e continuar gordo, já saberemos que o que fala não presta.

Se você não segue o que prega (ou o que vende, treinador!), isso não é opinião. Falar sem fazer (ou ter feito, no caso dos 42km), sem se expor aos danos, sem colocar a própria pele em jogo, sem ter algo em risco, você fica com as vantagens, transferindo a seu cliente todo o risco e todo o prejuízo. É um alargamento na dissociação de interesses. Não me serve.

*sim, como corredor eu também JAMAIS me consultoria com um(a) nutricionista que nunca correu pra valer 42km. Quem corre sabe que a absoluta maioria das diretrizes e recomendações nutricionais não sobrevive à rigidez do mundo real.

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Quando o Skate sentiu na pele o ativismo da Corrida

Semana passada perdi as contas de quantas vezes vi compartilhada uma foto. Nela os 2 vencedores de um campeonato de skate. Com os cheques simbólicos do prêmio em mãos você tem um atleta que ganhou quase 4 vezes mais que a campeã. Essa discrepância é o ideal? Não precisamos pensar 10 segundos para saber que NÃO. O ideal é que ela seja ZERO um dia. Mas essa discrepância é (atualmente) por si só ruim? A resposta não é assim tão simples quanto parece.

Há algo que incomoda qualquer pessoa: as injustiças e a sociedade mudam em uma velocidade bem menor do que gostaríamos. Porém, na ânsia por corrigir as coisas na base do grito, aumentando uma velocidade que nos incomoda, não dando tempo para que algumas coisas se realoquem, perdendo o foco do que REALMENTE importa, podemos prejudicar justamente aqueles que achamos defender.

A análise do que a foto significa (e não do que ela representa) tem que ser feita com um pouco de calma. Vi muita gente que considero inteligente aos gritos, como se a organização do evento fosse por si só machista ou misógina. Duvido que sejam. Não conheço ninguém ali, mas faço essa aposta (arrisco isso até porque dizer o contrário seria uma injúria irresponsável) porque já participei de dilemas quase parecidos.

O fato é: a boa vontade pode até ser infinita, o dinheiro não.

Sim, o dinheiro.

Chegamos assim à corrida…

Posso dizer que tenho experiência no ramo. Por que a corrida não premia financeiramente as categorias de idade? Por que a corrida não premia os especiais (cadeirantes, por exemplo)? O motivo é simples, se vier uma ordem de cima pra baixo, o mercado se protege. Quando uma lei diz que deve haver premiação igual, você simplesmente foge desse local ou na insistência você extingue a competição ou o benefício de todos. Existem inúmeros exemplos recentes na corrida! Quer alguns?

O jantar de massa é criticado porque é em horário reduzido? Retire porque ampliar custa dinheiro. Tem que premiar por idade porque a lei municipal exige? Mude de cidade. Tem que premiar mulheres e homens iguais mesmo os destaques sendo homens? Dê cachês reservado a alguns homens. Quer pagar mais, mas prêmio acima de R$10.000 exige pagar outros R$15.000 por um exame antidoping? Fique então pagando menos.

Homens e mulheres são iguais, lógico. Merecem prêmios iguais! Devem ser tratados de forma igualitária. A competição de skate que gerou o debate envolvia 25 homens profissionais, 3 mulheres profissionais e outras 7 amadoras. HOJE infelizmente não dá para pagar o mesmo se você quiser viabilizar o torneio. É ruim? MUITO. Agora olhemos por outra ótica: NUNCA um torneio havia pago tamanho valor a uma skatista mulher. E isso é BOM. Muito bem-vindo! Mas a mensagem que ficou é que o torneio era machista e misógino. Não houve elogios de ativistas, apenas críticas.

Semanas atrás fui a um churrasco em que um amigo estava com sua filha pequena andando de skate rosa da Barbie. As meninas da minha geração não PODIAM andar de skate porque isso era “coisa de vagabunda”. Há dois jeitos de você enxergar o que eu vi. Uma é achar que é muito bom ver que a filha deste grande amigo cresceu em outra realidade a ponto de ganhar dos pais um brinquedo antes proibido a meninas. Ou uma visão ativista radical e apressada e dizer que meu amigo é um machista misógino porque deu à filha um skate rosa com a imagem de uma personagem que “oprime há décadas as mulheres mundo afora”. Você entende onde quero chegar?

Falo tudo isso porque obrigar que a organização deste evento em 2019 premie igualmente as categorias abre um precedente simples que eles sabem tão bem quanto eu como “solucionar”. Você “por fora”, mas 100% dentro da lei, paga cachês aos homens mais importantes para que eles compitam. Em um cenário hipotético você iguala a premiação em R$3 mil pagando uns R$10 mil “por fora” (insisto, não há infração nisso!). Você consegue pagar menos, prejudica AS atletas e silencia os ativistas. Entende meu ponto?

Não há solução fácil nem mágica para equalizar os pagamentos. O tênis, por exemplo, oferece pagamentos iguais em torneios (o britânico Wimbledon, ao contrário do que pode parecer, apenas em 2007 igualou as premiações). Mas em patrocínio não há equivalência. Por quê? Pelo mesmo motivo que nos 100m o campeão recebe mais destaque ($) que o maratonista ou vencedor do Lançamento de Dardo. Você consegue reduzir discrepâncias, igualar importância (número de pontos e medalhas, por exemplo), mas não consegue tornar iguais coisas que são intrinsecamente diferentes.

Os ativistas mais apressados têm mesmo que se sentir incomodados, mas na pressa por justiça e pela falta de ver algum lado positivo, os maiores prejudicados podem ser justamente aquelas que eles tentam defender.

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Uma curta pausa porque é hora de correr!

Quando vocês lerem esta mensagem eu provavelmente, Deus querendo, estarei já em Frankfurt para correr minha 5ª maratona, a 2ª fora do país, a 1ª na Europa (SP-SP-POA-Buenos Aires). Não tenho pretensões. Se antes eu dependia da minha dedicação e disciplina para correr bem em um nível amador, hoje negocio prova a prova, semana a semana com um tendão de Aquiles esquerdo teimoso que desta vez não queria mesmo treinar, queria apenas no máximo estar em forma.

Tenho paixão pela Alemanha a ponto de dizer que o que farei domingo será apenas um detalhe. Dos bem pequenos. Depois de uma semana paro ainda em Adis Abeba, a capital do país dos corredores, a Etiópia. Farei um curto running camp para ver se cachorro velho aprende truques novos.

O Recorrido tem andando em ritmo mais lento de postagens, não é por falta de tempo nem vontade, é falta de material mesmo. Nos próximos 15 dias é provável que eu não consiga escrever nada, mas espero que mais uma maratona e que a terra que produziu tantos campeões me ensine algo que eu possa compartilhar e discutir depois com vocês.

Seria um prazer.

Enquanto isso, fiquem com o vencedor da Western States 100, Ryan Sandes, correndo em terras africanas inspirando nossas corridas!

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