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O que cães podem nos ensinar sobre corrida?

Eu tenho duas… passeio diariamente correndo e andando… as minhas ficam felizes quando saem para correr… acham isso um privilégio! Talvez devêssemos ser um pouco mais gratos pelos nossos treinos…
As minhas saem para correr sem se alongar nem antes nem depois… mas o corredor amador acha que faz algum sentido parar para alongar antes e durante em gestos que nada lembram aquela atividade… nada mais sem sentido!
As duas fazem apenas uma refeição ao dia (jantar)… quando vamos sair elas não me perguntam sobre lanche pré-treino… suplemento durante? Elas não são tontas! Somente alguém que não entende do gingado acha que faz sentido ter que comer antes de fazer atividade…
Elas podem andar o tempo que for, quando tiverem sede, bebem água… e há – acredite! – quem pague um profissional para falar a besteira de que “sede é sinal tardio de desidratação”… bateu sede? Beba água! Sem sede? Segue o jogo!
Falei tudo isso após ler um belo texto da Podium Runner (*dica da Adriana Piza) com mais uma dessas lições… dessa vez é sobre treinamento em calor… os cães do autor correm desde o começo mais lento quando em alta temperaturas… Os escravos dos GPSs e dos relógios ignoram o óbvio (o calor nos faz mais lentos) e fazem força, empurram, querendo repetir o ritmo proposto da planilha cometendo o maior erro de todos: ignorar a realidade.
Sem usar GPS e sem termômetros os cães reduzem o ritmo. Há estudos BEM interessantes evidenciando que nós também saímos mais lentos sob temperaturas mais altas… não vá contra isso… não ignore isso, ignore SIM é a tentação de acelerar para ver um número mágico no visor. O corpo é sábio demais… mesmo um cão tonto como é um labrador parece saber mais que o corredor e o treinador médio… não se esqueça disso!
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Diabetes do tipo “Nutris Esportivos”

Veja a conclusão do seguinte estudo feito com atletas de ALTO nível, desses que vivem indo em “nutri esportivo”: “ao contrário das expectativas a glicemia alta parece ser uma preocupação MAIOR do que a baixa glicemia mesmo naqueles com MAIOR gasto de energia e consumindo ABAIXO da ingestão recomendada de carboidratos”. Do grupo estudado, 30% desses atletas (que treinam MUITO e competem BEM melhor que você) tinha PRÉ-diabetes!

 

“VOCÊ NÃO CONSEGUE PELO EXERCÍCIO SUPERAR UMA DIETA RUIM”

Lembre-se: tenha a sua volta profissionais que tenham skin in the game, pele em jogo! E quem manda você encher o rabo de carboidratos HOJE para correr 21km NÃO tem pele em jogo, afinal, as consequências do consumo crônico de carboidrato (especialmente aqueles na forma de LIXOS como os isotônicos e géis ou balinhas) se dará só quando já tiver passado sua consulta com ele.

A corrida (ou QUALQUER outra atividade física) NÃO te salvará do custo fisiológico do consumo crônico de carboidrato na forma de suplemento, suco e farinha.

Talvez você conheça Steve Redgrave, o maior remador britânico, um dos maiores da história. Sua dieta foi “cientificamente” elaborada por “nutris esportivos”. Ele consumia gel, balinhas de carboidrato (jujubas), geleia e treinava feito um cavalo… Redgrave treinava em uma semana mais do que você treina por mês. Hoje ele tem diabetes. Duvido que algum desses “nutris esportivos” ainda estejam ao lado dele na doença.

Por que ele caiu nesse conto?

Porque TODOS (eu tive aula com encantadores de serpente também!) fomos educados pela “ciência” de que tinha que ser assim… Eles, ingênuos (ou nem tanto, pois acreditam nisso entre outras coisas porque ganham dinheiro vendendo suplemento), acharam que não havia consequências inesperadas.

A tese do consumo crônico de carboidrato refinado, ou seja, SEM fibras (suplementos, sucos, géis, açúcar, frutas anabolizadas…) NUNCA foi a norma na espécie. “Nutris esportivos” AINDA acham que é melhor. Porém, a oferta frequente de energia NÃO é o padrão na natureza, que moldou nosso organismo.

Talvez caiba falar ainda de Rob Gronkowski, ex-jogador do New England Patriots que se junta a Joe Thomas de quem falei tempo atrás. Gronkowski perdeu quase 25kg em 1 ano mesmo treinando MUITO menos. Como?! Apenas deixou de seguir a “ciência” dos “nutris esportivos”. Talvez justamente POR ISSO não vire um diabético obeso.

Pergunto: o “nutri esportivo” que hoje te vende palatinose e a ideia de lanche pós-treino estará ao seu lado quando você estiver obeso e diabético??

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Charles Goodhart aplicado à Corrida

Não conheço bem o método Maffetone, não sei o que é valgo dinâmico, não conheço o método FIRST, mas sei que sem conhecer NADA disso, posso dizer que Charles Goodhart influencia mais a corrida do que todos esses juntos.

Charles Goodhart é o economista cuja frase virou lei. A Lei de Goodhart diz que “Quando uma medida torna-se uma meta, ela deixa de ser uma boa medida”.

Repare! Na corrida ela se aplica, por exemplo, ao VO2máx, à Cadência… a tantas coisas! Os gadgets, que pode parecer que eu seja contra (não é verdade!), acabam enfatizando nossa busca por uma medida X específica. Quando fazemos isso sem saber seus motivos e razões, sem entender o PROCESSO e motivos, ficamos cegos e desperdiçamos uma oportunidade de melhora.

Recentemente venho escrevendo nos meus espaços os motivos pelos quais faço uso ZERO de exercícios educativos. Talvez o argumento número UM de quem o pratique e o recomende é que ele vai tornar o corredor mais eficiente. Neste final de semana me deparei com um estudo que analisou 10 estudos que buscavam melhorar a eficiência mecânica da corrida de atletas. A conclusão? O impacto na economia de corrida NÃO se refletia em melhora de desempenho. Então pra que diabos fazer?!? Vá meditar que ajuda mais!

Curioso… ninguém NUNCA me procurou para correr com “melhor eficiência”… sempre me procuram para correr… MELHOR. Isso é Goodhart na veia! Na busca por mais eficiência ficamos cegos que aquilo que o corredor MAIS quer é correr MELHOR e não mais bonito, mais eficiente!

GOODHART ENCONTRA A NUTRIÇÃO…

E é POR ISSO também que é tão cheia de erros bisonhos a interpretação de nutricionistas quando eles tentam se meter no esporte. Não é só porque não entendem NADA de esporte, é que eles olham o prato ou a dieta de um atleta sem saber que a competição não se baseia como notas de MaterChef. Ninguém ganha uma prova por comer pratos mais coloridos! A dieta é um MEIO para um objetivo (ex: emagrecer) JAMAIS um fim nela mesma.

11 em 10 desses nutricionistas esportivos dirão que o carboidrato é importante ao desempenho, em sinal CLARO de que não sabem do que falam. Carboidrato é importante? DANE-SE a questão! Na corrida o atleta estar leve é que é importante! Por ISSO que eles NUNCA irão entender que um bom amador pode ficar MUITO melhor fazendo cetogênica (ou low-carb), por exemplo!

Como?!

Uma vez que há uma ENORME correlação direta e positiva de baixo peso com desempenho e de que NÃO existe essa mesma correlação com consumo de carboidrato, a dieta deve ter UMA finalidade: manter baixo o peso em situação de saúde! Ponto final!

Quando a métrica é aquile valor X de carboidrato que ele teve na faculdade ou na pós-graduação vagabunda em Nutrição Esportiva ele vai focar em UMA métrica: o porcentual de carboidrato. Esse valor será a meta EM DETRIMENTO do baixo peso e – MUITO mais grave – do desempenho e saúde do atleta!

Não tem como dar certo!

Amanhã continuo!

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Na corrida vale Força, Músculo, Gordura ou Peso?

Eu me contorço quando vejo “especialista” de Nutrição falar em “peso ideal” de corredor… quando ouço isso já sei que não sabe do que está falando! Não existe peso ideal! No desempenho na corrida o peso mais baixo é melhor. Por isso os melhores corredores NÃO são sinônimos de saúde… eles parecem que estão fugindo de um hospital!

Ah, mas é que músculo…” Bobagem! Você nunca verá um fundista com ombro de estivador ganhando prova! O peso daquele músculo que possibilita ele fazer 90kg no Press ATRAPALHA sua corrida! Hipertrofia e desempenho na corrida (de longa distância!) NÃO se conversam! Elas discutem entre si!

O que importa no esporte é o GESTO, é a funcionalidade! Músculo PODE fazer isso, não que ele VÁ fazer isso. Exemplo? Mesa extensora e flexora na academia… ela te dá músculos, mas ela NÃO trabalha o gesto esportivo. Ela não dá força GESTUAL, FUNCIONAL à corrida. Você pode ficar a tarde inteira nesse lixo de aparelho, ele pouco lhe ajudará a correr.

Estou escrevendo isso porque li essa semana um artigo incrível apontado por 2 profissionais que tenho na mais alta conta. Nele um grupo de velocistas mulheres foi acompanhado. E aí vem o choque a alguns…

As que melhoraram mais não foram as que mais ganharam músculos, mas as que mais PERDERAM GORDURA! Quando perdemos gordura, ganhamos eficiência, mas quando ganhamos músculo esse ganho NÃO é garantido porque GERALMENTE (não sempre!) o ganho de força vem com ganho de peso de massa muscular que o atleta precisa carregar sempre!

Falei tudo isso porque vivem perguntando nas enquetes do meu Instagram (@danilobalu) se deve haver fortalecimento (com pesos) ao corredor. DEPENDE. A ideia é desempenho? NÃO NECESSARIAMENTE (fortalecimento gera sim ganhos ao corredor que é fragilizado). A intenção é Saúde? SIM! Fortaleça!

O importante é: o fortalecimento mal feito, que gere ganho de massa e força NÃO funcional à prática da corrida vem a um custo grande… com PERDA de desempenho… aí o foco é MUITO mais inteligente se feito na perda de massa gorda. E sabemos que o que não falta é corredor BEM acima do peso, ainda que a Nutrição insista com a balela de que corrida emagrece.

p.s.: no livro SPEED TRAP (desculpe a insistência) ao menos em 2 episódios Francis reclama que Johnson está 5kg de MÚSCULO nas PERNAS pesado demais para competir. A solução? Perdê-los mantendo a força FUNCIONAL!

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O corredor parece querer e gostar de ser enganado…

Ou ainda: o que Picasso nos ensina sobre o mercado de corrida

 

Em 1952 um Pablo Picasso de certa forma envergonhado, mas não arrependido, escreveu uma carta a Giovanni Papini na qual fala de um motivo pouco nobre, mas não menos inteligente que acabou por valorizar seu trabalho inegavelmente genial. Na carta separo o trecho abaixo… leia, por favor.

Na arte o povo não procura mais consolação e exaltação, mas os refinados, os ricos, os ociosos, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso. E eu mesmo, desde o Cubismo e além dele, eu contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça, e quanto menos eles me compreendiam, mais eles me admiravam.

(…) eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna, riqueza. E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico. Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenha a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra.

Giotto, Ticiano, Rembrandt e Goya foram grandes pintores: eu sou apenas um divertidor do público que compreendeu o seu tempo e explorou o melhor que pode a imbecilidade, a vaidade, a avidez de seus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, mais dolorosa do que ela parece. Mas, ela tem o mérito de ser sincera.”

*****

Penso exatamente como o Pedro Ayres, que foi quem me apresentou por e-mail o texto: na corrida é a mesma coisa… O trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente. Isso vale para qualquer atividade humana.

Eu vivo diariamente com certos dilemas. Cada vez mais sou da opinião de que o corredor amador médio parece QUERER ser enganado. Não me leve a mal! Sempre que abro meu Instagram às perguntas vocês se surpreenderiam com quantas vezes me perguntam atualmente sobre suplementação de Glutamina e Coenzima Q10. São o BCAA da década!

Elas não vêm de corredores com 100km semanais de treino ou triatletas fazendo 12 sessões semanais de treino, não! Elas vêm de corredores que não chegam a treinar dia sim dia não.

Dias atrás eu percebi que o segundo melhor corredor que oriento acabou dando uma volta de 1km a mais no aquecimento. Eu perguntei se ele tinha se confundido (todos tinham parado nos 2km). Ele disse que não, ele disse que havia reparado ultimamente que quando aquece por cerca de 15 minutos, uma volta de 1km a mais, ele se sente mais calmo, menos ofegante para começar o treino, então 3 vezes na semana ele passou a fazer esse adendo antes do treino. Isso gera 15 minutos em uma semana. Ou ainda, para quem treina cerca de 60km/semanais, 5% a mais de carga.

Uma mudança simples, gratuita, de poucos minutos que indubitavelmente gera melhoras em seu desempenho (maior volume). Eu não pedi. Ele não perguntou. Ele fez. Eu costumo dizer que os melhores corredores não são apenas aqueles que treinam mais, mas aqueles que sabem o que os fazem melhores corredores.

Esse atleta jamais, nunca me perguntou sobre suplemento. Ele nunca buscou em um subterfúgio fácil aquilo que só vem das próprias pernas. Ou como disse Ayers: o trabalho diário, monótono, cansativo, que rende resultados lentamente não é atraente.

No mesmo dia, conversava com uma amiga nutricionista que admiro muito. Ela dizia para mim que tem dificuldades em Nutrição Esportiva. Veja bem, quando falamos de amadores, não existe Nutrição Esportiva! Esse é apenas um campo inventado para se posicionar no mercado! É um jeito de, no bom sentido, “poder enganar” um cliente. O que se diz nutricionista esportivo tem menor concorrência, ele(a) pode assim cobrar mais.

Essa colega dizia que tem dúvidas sobre nutrição na hipertrofia muscular. Vivemos em um mundo tão esquizofrênico que faz as pessoas, por preguiça, ignorância ou delírio coletivo, procurarem um nutricionista ANTES de fazer força empurrando bastante peso, uma condição sine qua non, essencial para haver hipertrofia! O aumentado consumo calórico E proteico é uma resposta natural e esperada do treinamento de força que proporciona hipertrofia! É como achar que você tem que procurar um nutricionista antes de correr porque tem medo de morrer de sede se ele não prescrever quando se deve beber água.

O que eu falei a essa amiga foi: você já sabe tudo, mas terá que enganar o cliente. Por quê? Porque “o povo não procura mais consolação e exaltação, (…) buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso”. Você como profissional tem assim que mentir porque é uma necessidade do mercado, mas mais do que isso: porque o corredor quer ser enganado. Ainda que ele não admita.

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