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Conselhos de Landy ao jovem Clarke

John Landy (E) é um dos maiores atletas da história, ex-recordista mundial, segundo homem a baixar dos 4 minutos na Milha.Quando ainda jovem, Ron Clarke (D) decidiu escrever ao seu conterrâneo Landy pedindo dicas.

Landy é tido como um gentleman singular. E eis que sem esperar Clarke recebe uma resposta escrita a mão. Nela dicas que ele usaria e provavelmente o ajudaria a torná-lo um dos 5 maiores corredores da era amadora.

Landy explica ao jovem que a corrida exige duas coisas: velocidade e resistência. Explica ainda que fazer grandes volumes é necessário para desenvolver resistência, mas que isso NÃO irá melhorar aquilo que ele também muito precisa, a velocidade!

E como ganhar velocidade, um dos 2 componentes? Treinando a velocidade correndo… rápido!

Clarke na carta original destacou que muita gente dizia que sua técnica não era refinada (diziam que seu movimento de braço era estranho). No que Landy respondeu:

Eu não me preocuparia com isso. O mais importante é estar em forma, a técnica e outras características menos importantes cuidarão de si mesmas. À medida que você evolui, o estilo se torna mais importante, mas você não consegue mudar muito o estilo do corredor – apenas modificá-lo – porque cada um tem seu estilo particular de correr”.

Bom, se Landy falou isso e Clarke acatou, quem sou eu para argumentar contra, não?! Mas talvez eles estejam errados, que o melhor jeito de ganhar velocidade seja ficar rodando e rodando sem velocidade nem qualidade ou que antes de treinar bastante a pessoa deva é ficar olhando para a ”entrada do pé” e esses detalhes com os quais os dois não se importavam.

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BIOMECÂNICA vs TREINAMENTO

OU AINDA: é possível “ensinar” um guepardo a correr mais rápido melhorando sua técnica?

Muitos anos atrás me apaixonei pela história do cavalo Seabiscuit. E tempos atrás mergulhei no mundo das corridas de cachorro para escrever meu livro O Veterinário Clandestino. Ambos os mundos conseguem uma proeza: fazer animais incríveis correrem ainda mais rápido.

Como? Treinando suas CAPACIDADES. Cavalos e cães não fazem educativos. O que sobra é melhorar suas valências (níveis de força e resistência, por exemplo). Você nunca verá cavalos na academia nem cães fazendo educativos de corrida. Ok, não são racionais como nós humanos.

Será que poderíamos fazer o guepardo, o animal mais rápido do mundo, correr ainda mais? Sim! Com certeza! E se ele fosse racional como o Haroldo amigo do Calvin? Poderíamos dizer COMO ele deveria correr para ser mais rápido?

Fiz um vídeo dias atrás porque me perguntaram o que achava do enfoque na biomecânica. O que vejo que muito amador não percebe é que o PADRÃO biomecânico de uma pessoa REFLETE, é uma expressão de suas capacidades físicas, enquanto muita gente entende a biomecânica como sendo CAUSA da corrida.

Como “melhorar” alguém tecnicamente/biomecanicamente se à medida que a força, resistência e potência aumentam sua biomecânica TAMBÉM muda, uma vez que ela é a expressão dos anteriores?

Esse é (mais) um dos motivos pelos quais interfiro ZERO na mecânica de meus atletas. Ao treinar suas CAPACIDADES, elas se refletirão no novo padrão de corrida da pessoa. Duvida? Venha em janeiro em um treino meu, filme meus atletas e volte em maio! E verá como mudarão sem fazer UM exercício educativo sequer! Como isso é possível?

Eu tento olhar o padrão de corrida como indicador de CAPACIDADE que faltam ser treinadas. E apenas querer ou falar (faça isso, pise assim) POUCO ou NADA muda. Para você fazer o fadeaway do Jordan ou enterrar como LeBron, não basta educativos. Você precisa ter capacidades físicas mínimas e brutas, além de praticar o gesto POR COMPLETO. Focar primeiro em ângulos não te levará a lugar nenhum. E DENTRO do gesto completo seu corpo encontrará as alternativas mais adequadas de ajuste.

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A maior revolução da história do atletismo

Nos últimos dias fiz no meu Instagram uma contagem regressiva das 5 maiores revoluções da história do atletismo. Após passar pela quinta posição (o Brasil revolucionando a técnica do 4x100m em Atlanta/1996), passando pela quarta colocação (o campeão olímpico de 1908, Gilbert, introduzindo um buraco no corredor do salto com vara).

Passei depois pelo hipotético pódio com o terceiro lugar (as varas feitas em material ultramoderno, o equipamento responsável pelo segundo maior aumento de desempenho na história do esporte olímpico). Feito esse que contou novamente com Gilbert (EUA) que usava varas de bambu e não mais madeira.

O segundo lugar fica com dois iconoclastas: Dick Fosbury (EUA), o mais famoso, e a então jovem canadense Debbie Brill que revolucionaram sua prova, o salto em altura. Agora o primeiro!

Bobby McDonald foi um famoso velocista indígena australiano. Em 1887 ele apresenta ao mundo uma nova técnica de largada, à época chamada de “largada canguru”. Isso porque, inspirado no animal, McDonald percebeu que tinha vantagens ao sair “agachado” ao contrário da norma vigente de largar em pé.

Foi um militar americano (C. H. Sherrill) quem levou à inovação aos EUA. Nas primeiras vezes, assim como Fosbury, Sherrill era motivo de piada diante do público que o achava exótico e de árbitros que achavam que ele não sabia o que estava fazendo e tentavam demovê-lo da ideia.

Em um dos jornais da época lê-se: “Apesar de Sherrill ter parecido tombar na largada da prova, ele ainda assim se recuperou e venceu”.

Depois disso a técnica chegou à Europa e é usada por todos os atletas do mundo até hoje.

p.s.: nos destaques dos meus stories estão os 5, além do por que não se pode comparar o avanço das varas com os cheatflyers.

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Pré-Treino (não aquele que você imagina)

Já que estou em uma fila de uma hora vou tentar explicar duas coisas que sempre perguntam…

“Aos mais lentos não tem como fugir de um teto de ~2h30 nos Longos pra Maratona?”

Vamos lá… Se você chegar HOJE pro Mo Farah e pedir que ele faça um longo de 3h30 ele não aguenta. Se você mandá-lo correr isso no sábado e dizer que 2a feira tem tiro ele não aguenta. Então deixa eu devolver sua pergunta com outra pergunta:

Mo Farah tem mais talento, é melhor, treina mais volume, mais intensidade, mais força, tem mais disciplina, mais tolerância ao desconforto e mais experiência. COMO o corredor amador conseguiria fazer algo que o profissional NÃO conseguiria? Entre os 2 tem alguém treinando MUITO errado. Quem você aposta que é??

“Mas o amador mais lento fica inseguro de chegar em uma maratona fazendo só um longo de 25km. Como resolvo?”

Vou evitar entrar no mérito de que essa pessoa NÃO deveria TREINAR pra maratona, ainda que possa corrê-la.

O corredor TEM QUE acreditar no processo. Quem acha 25km pouco vai achar pouco 30, 32, 34… 8km a um lento é quase uma 1h00!!

Uma solução simples é treinar METABOLICAMENTE (mas não MECANICAMENTE) CANSADO (ou exposto, ou fragilizado, chame como quiser). Como?

A fadiga/estresse mecânico da corrida é o fardo que limita o longo. Você pode andar por horas, pedalar horas, nadar horas. Essas atividades NÃO têm o impacto que bagunçam os treinos Longos do corredor. Há 2 jeitos simples de fugir disso gerando uma fadiga metabólica inicial:

JEJUM. Você começa com um corpo com menos combustível, mas não agredido.

PRÉ-TREINO. Não o que o nutricionista IPI pede porque não entende, mas um treino SEM impacto. Preferência: ciclismo, transport, resistido (musculação, etc…)

Assim você gera volume de TEMPO de treino sem o custo MECÂNICO de uma carga que nem um profissional aguenta.

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Longos (Maratona): Tempo vs Distância

Tenho um pouco de dificuldade de explicar aos amadores porque eles NÃO deveriam fazer longos Longões para Maratona. O primeiro motivo é fisiológico. Um treino de 1h30 (a um corredor muito rápido) é BEM diferente de um treino de 2h30 a este mesmo corredor! Quando copiamos o treino por DISTÂNCIA ignoramos a enorme variação, neste caso 66% a mais. Você acha que está treinando uma coisa e está na verdade treinando para outra.

NUNCA se esqueça: a fisiologia do nosso corpo é regida pelo TEMPO, não pela distância!

O segundo motivo principal é uma questão puramente mecânica. Ontem falei um pouco sobre estratégia nutricional em treinos longos (e por que você deveria ignorar as orientações de praxe dos nutricionistas esportivos, que vão na CONTRAMÃO daquilo que você mais quer… ou seja, consultá-los te faz PIOR).

Fiz uma tabela porca e correndo… Nela comparo um atleta de elite (3min/km), uma mulher intermediária (5min/km) e um amador rápido (4min/km). Números redondos pra facilitar o trabalho do Excel.

Abaixo você tem o número de passos que cada um dá para terminar um treino longo de 32km. E OV (Oscilação Vertical) é um fator de correção porque quanto mais lento o corredor, MAIOR é sua OV, AUMENTANDO o trabalho mecânico da pessoa.

Repare que ao final da MESMA sessão de treino a atleta mais lenta fez um trabalho mecânico (treino) 80% MAIOR que um cara que ganha uma major!

Faz algum sentido pra você??? Pra mim não… mas pode ser que você esteja certo e eu errado.

Repare ainda que, por mais que machuque o ego daquele cara que fala pra todo mundo que tem índice pra Boston, ele fisiologicamente está mais próximo da amiga intermediária do que do Kipchoge. Mas adivinhe o treino de quem que ele quer imitar…

Pois é…

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