Arquivo da categoria: Biomecânica

“Input”, “Output”, Calorias, Cadência & McNamara

Num treino um atleta me mostrava os recursos do GPS novo. Outro atleta comentou: as pessoas não entendem que esses números são legais, mas eles são apenas “output” (saída), não “input” (entrada).

NUNCA tinha pensado nisso, ainda que viva explicando que Cadência é CONSEQUÊNCIA de fatores da corrida, não causa! O mesmo vale às calorias. Elas valem TÃO POUCO no emagrecimento que não surpreende que Nutrição seja um enorme fracasso ao assumir consumo calórico como causa e não consequência da dieta.

Acabei dia desses um livro recomendado por um grande amigo. Em “Future Babble” o autor Dan Gardner nos mostra como “especialistas” tentam usar todo tipo de dados pra prever desfechos. É ÓBVIO que erram com enorme talento.

Isso porque confundem DADOS com INFORMAÇÃO. Robert McNamara era um dos homens mais importantes dos EUA nos anos 60. Era um gênio, mas talvez JUSTAMENTE sua genialidade tenha dado seu nome a um termo nada lisonjeador. A Falácia de McNamara se refere ao equívoco de se tomar decisões baseadas apenas em observações (ou métricas) quantitativas, ignorando outras mais importantes.

Sempre que ouço as pessoas falando de valores de cadência, oscilação vertical, VO2máx, FC, acho que estou ficando louco. Corolário #1: DADO NÃO É INFORMAÇÃO.

“EU RECONHEÇO UM GORDO QUANDO EU VEJO”

Um dos caras que mais gosto soltou essa frase qdo questionado sobre o que define alguém com sobrepeso. Ele não precisa de IMC (lixo), dobras cutâneas (menos lixo) ou bioimpedância (um circo). Quando uma pessoa passa à minha frente correndo EU SEI QUE ELA ESTÁ CORRENDO. E assim chegamos ao Corolário #2: se seu treinador precisa de dados de cadência, oscilação vertical, etc., tenha cuidado! Ele te enxerga como um agregado de coxa, quadril, pés. Ele te divide! Porém, corrida é JUSTAMENTE uma junção HARMONIOSA de tudo isso de forma que varia individualmente.

Eu NÃO tenho aversão a dados (ainda que não faça IDEIA da cadência, oscilação e FC de NENHUM dos meus atletas)! Sou meio obcecado é com controle de ritmo, por exemplo. A diferença é que ninguém em sã consciência pede que alguém faça um ritmo X na prova, isso porque você apenas SABE que isso é CONSEQUÊNCIA.

 

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O que Londres nos ensina sobre CADÊNCIA?

Tenho fascínio sobre a 2a Guerra Mundial. Adoro números. Eu seria “presa fácil” pela ilusão da cadência, mas esse canto não me encanta. Nós cometemos o erro de confundir dados com informação. Acredite, não são nem de longe a mesma coisa!

O ser humano tem uma característica MUITO intrínseca de tentar enxergar padrões em tudo. Mesmo onde não existe! Mais de 30 anos atrás um dos maiores treinadores da história descobriu que os maiores atletas do mundo tinham uma cadência MÉDIA de 180 passos por minuto. Essa informação ficou ignorada por outras década (afinal, contar passos é chato) até os gadgets atuais trazerem instantaneamente. Uma vez que você pagou caro por ele, você acha que tem que usar aquilo que ele oferece. Mesmo que, reforço, dado não seja informação.

Eu disse linhas atrás que o ser humano tenta enxergar padrões em tudo. O problema é que ele faz isso mesmo onde não existe!

Durante a 2a Guerra Londres foi bombardeada pelos alemães. As pessoas olhavam os mapas dos locais atingidos e enxergavam nos mísseis V-1 e V-2 uma precisão que eles não tinham. Especulavam que os alemães atingiam propositadamente a região do rio Tâmisa, assim como bairros operários a noroeste para tirar a moral da população trabalhadora. Assim como as partes NÃO atingidas seriam moradia de alemães espiões.

Nossa busca por padrões é TÃO grande que não aceitávamos que aquilo tudo era resultado do acaso, da ALEATORIEDADE. Você ter os DADOS dos locais destruídos NÃO gerava INFORMAÇÃO porque… aleatório.

A CADÊNCIA É ALEATÓRIA?

NÃO. Mas ela NÃO é informação, é um dado RESULTANTE dos níveis de força, somatotipo, tempo de esforço, mobilidade (quadril e tornozelo, principalmente), fadiga e altura do quadril. Uma resultante da qual temo MUITO POUCO controle.

 

CADÊNCIA NÃO É CAUSA, É CONSEQUÊNCIA DE UM FENÔMENO.

Os tolos tiram conclusões que ela não nos dá. E mexer nela é uma das estratégias MAIS ESTÚPIDAS que um treinador pode ter. Ele mexe assim com o imprevisível e não reconhece sua própria ignorância. É ingenuidade. É burrice.

 p.s.: na segunda foto (abaixo) vai a cadência do Mundial de 100km. Encontre um padrão… tente!

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Como ensinar pássaros a voar??

Veja a leveza da corrida da foto ao lado… Seja sincero com você mesmo: acha MESMO que esse menino teve aulas de técnicas de corrida? Avaliação biomecânica? Educativos de corrida? Feedback de treinador?

Pense assim: o ser humano é um animal corredor… Não existe treinador de técnica de corrida pra cavalo nem biólogos ensinando pássaros a voar e peixes a nadar. Então…

NÃO FAZ SENTIDO ENSINAR A CORRER

Conheço treinadores EXCELENTES que trabalham a corrida de seus atletas com educativos. Mas o ser humano NÃO É um animal que sai de blocos de saída ou faz salto triplo. Atividades não-naturais exigem educação.

Um corredor NÃO precisa fazer educativo. NÃO porque isso faça mal, mas porque é uma má leitura das prioridades da corrida.

Um corredor precisa SIM ter níveis adequados de força e mobilidade. O resto se ajusta! Querer mexer em sistemas complexos é sinal de arrogância e ingenuidade. Não costuma dar certo!!

O tempo investido na mecânica é um tempo não usado naquilo que REALMENTE importa.

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De Daniel Komen, corrida descalço e “estar faminto”..

Você conhece Daniel Komen, o queniano que nos anos 90 parecia que ia reescrever os recordes mundiais? Uma matéria INCRÍVEL tentou descobrir o que aconteceu com ele.

O que Haile, Bekele e Kipchoge compartilham de especial, além de recordes, é a longevidade.

Sábado fomos assistir à corrida infantil da The Great Ethiopian Run. Nunca vi nada tão grande. Sempre me perguntam se etíopes correm descalços. NÃO. Nesse dia vi somente 2 meninos descalços. O da foto (que GANHOU sua prova) e um outro que foi VICE.

Komen parece que depois dos prêmios ($) cansou daquela vida. Eu conversava aqui sobre o que faz:

1. Os etíopes tão bons;
2. A maioria desaparecer;

Não há uma única explicação. O alto nível mundial, lesões, azar… Mas uma não sai da minha cabeça.

Como ganhar de quem tem fome?? Quem MAIS precisa e mais QUER é que vai estar disposto a sangrar mais. Enquanto uns buscam conforto nos pés, o outro “empurra” até o DESCONFORTO SUPERAR a dor das pedras do asfalto enquanto corre descalço.

Você NUNCA vai se superar enquanto não ABRAÇAR E ACEITAR O DESCONFORTO.

É isso que um nutricionista NUNCA vai entender quando vem com a miopia de pré-treino:

NÃO EXISTE RECOMPENSA SEM PRÉVIO ESFORÇO.

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A Corrida fragiliza – pergunte ao Hamilton

Uma velocista perguntou no meu Instagram: por que esporte (buscando desempenho) e bem-estar não combinam?

Por partes…

Primeiro a questão do “pra desempenho”. Ela não usou a expressão. Ela não precisa. Ela deixa o “running do the talking”. Ela é uma das melhores velocistas amadoras que conheço. Quem fala que busca algo “pra desempenho” acaba tendo que me avisar porque no fundo no fundo a pessoa nem sabe que na verdade NÃO faz algo pra desempenho. Você não “vai pra desempenho”…

Na mesma rodada de perguntas me perguntaram de um tal gel Maurten. Me avisaram depois ser o usado por Kipchogue. Eu não sabia. Já repararam que as pessoas não querem rodar o volume que a elite TEM QUE rodar, mas querem comprar os docinhos que a elite SÓ toma porque é paga? De novo: o lento NÃO tem leitura do esporte. O veloz SABE o preço e que NÃO há atalhos.

O FÓRMULA 1 DE HAMILTON…

Lewis Hamilton foi hexacampeão este domingo. Seu carro é incrível. Mas tente tirá-lo da fábrica da Mercedez e andar pelas ruas. Ele não vai longe. Ele quebra. Para ser incrivelmente veloz e ter enorme aceleração ele PRECISA ser especialista. Ele abre mão de outras valências para ser absoluto em apenas algumas. E POR ISSO ele é MUITO frágil.

Quanto mais você corre para – sei lá – correr 21km abaixo de 4min/km, você trabalha apenas algumas capacidades EM DETRIMENTO de outras. Não é que o treino de resistência o torna lento. Isso é um TREMENDO ERRO interpretativo. É que correr demais (e ficar apenas treinando no plano sagital) faz com que você NÃO treine outras capacidades, inclusive a velocidade. E aí, sem leitura, você fala que perdeu velocidade por causa do aeróbio. Bobagem.

E o que não é treinado, se perde. Quanto mais você corre, menos você faz outras coisas, mais frágil você fica… você vira um bom fundista em DETRIMENTO do restante.

SIM, quanto mais corrida, PIOR no global. A corrida nos FRAGILIZA. Pergunte ao Hamilton se o carro que o leva à glória pode levá-lo até sua casa.

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