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BIOMECÂNICA x LESÕES – Parte 2

Minority Report é um filme de 2002 de Steven Spielberg estrelado por Tom Cruise. O trabalho de Tom Cruise neste filme de enredo futurista é chegar nos assassinatos antes que eles aconteçam. Como? 3 videntes têm premonições usando tecnologia.

Não seria melhor com equipamento sofisticado e gráficos apaixonantes prevermos uma lesão ANTES de ela ocorrer? LÓGICO! Depois do primeiro texto recebi no inbox comentários de 2 fisioterapeutas que são BEM interessantes. O primeiro é que dá pra fazer essa detecção prévia.

Tenho que discordar por um problema conceitual. Se consigo prever o que NÃO aconteceu, eu atribuo a mim a prevenção de 17 brilhões de lesões somente em 2019. Quer correr sem lesão? Me contrate! É desonesto? Não se eu acredito nisso.

Um estudo de Jauhiainen (e colaboradores, 2020) usando sofisticados algoritmos e inteligência artifical NÃO encontrou relação de lesão com os mais diversos padrões de corrida. E por que é importante? Porque um dos comentários foi que essas análises poderiam JUSTAMENTE detectar padrões – digamos – incorretos.

E aqui há OUTRO problema. Seu treinador deve ser CAPAZ de analisar “fraquezas” ou “imperfeições” técnicas (contato muito à frente, quadril que cede demais, etc.) SEM ir ao laboratório! Se ele NÃO consegue isso você tem 2 problemas: um é a SUA técnica e outro é o SEU técnico.

Só que – reforço – MESMO as análises NÃO conseguiram prever um padrão de lesões. E aí vira aquela conversa de fé: “não, mas não foi feito direito”. Novamente é papo socialista: “Não! É que na Venezuela não foi o socialismo verdadeiro”.

Eu queria MUITO ser capaz de prever lesões. Na minha carreira eu NUNCA consegui fazer isso e nunca em minhas conversas tive dicas de treinadores de como conseguir. Veja só… mesmo atletas PROFISSIONAIS com TODOS os recursos possíveis, ficam de fora de eventos muito importantes por lesões inesperadas e atípicas. A lesão é pelo número de suas variáveis, DE CERTA FORMA, um Black Swan, e cisnes negros são POR DEFINIÇÃO imprevisíveis. Mas lógico… você não vai ter trabalho pra achar quem diz que consegue prever mesmo os Black Swans.

p.s.: uma coisa BEM diferente é o fato de lesões serem recorrentes. Uma vez que você teve problema, por exemplo, no posterior da coxa, a chance disso ser recorrente no local é enorme.

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Biomecânica x Lesões – uma obsessão

Tem vezes que penso em bloquear uns de vocês no Instagram… dias atrás alguém me marcou num post com “perfis essenciais pra se seguir”. Não conhecia ninguém ali e entrei pra ver. Eram basicamente dôtores videntes que descobrem pela biomecânica de corrida quem e como se lesionam. Cobrando, lógico… Quanta bobagem…

O escândalo envolvendo Alberto Salazar me fez lembrar de um artigo clássico sobre ele na The New Yorker. Salazar seria o mago da biomecânica. Os ingênuos compraram essa história feito cachorrinhos.

Ele era obcecado com biomecânica. Queria “consertar” todo mundo. Dathan Ritzenhein é talvez sua vítima mais famosa. Salazar queria fazer Ritzenhein correr parecido com Kenenisa Bekele e Haile Gebrselassie.

 Voltando aos videntes de jaleco que preveem lesão, essa semana entrevistamos no podcast 3 Lados da Corrida o Nélio Moura, um dos maiores nomes da história do nosso atletismo. Sem constrangimento Nélio disse que nunca viu nada de mais na Maurren Maggi ou no Jefferson Sabino ainda jovens.

Na minha carreira como treinador eu NUNCA consegui prever uma lesão em atleta meu. NUNCA. Mesmo estando por mais de 10 horas semanalmente com alguns deles na pista. Mas tem quem acha que consiga olhar gente na esteira correndo e fazer aposta. É na melhor das hipóteses ingenuidade.

Depois de visitar esses perfis, agora no meu Instagram aparecem anúncios patrocinados de consultas para análise prevendo lesão (por isso que de raiva quero bloquear alguns de vocês). Acho que é mais honesto você prever números da Megasena!

Corrida é uma manifestação harmônica de individualidades biológicas! O que parece ser certo a NÓS, ao nosso olhar viciado por uma base de dados de corredores rápidos, nada mais é que NOSSO OLHAR vendo uma harmonia na NOSSA leitura do que é corrida. Mas o certo, para AQUELE individuo correndo, é seu corpo fazendo ajustes para otimizar aquele gesto, muitas vezes o protegendo! Quando você tenta fazer ajustes para protegê-lo VOCÊ acabando o machucando!

Bom treinador não é quem faz ajustes técnicos de corrida, mas quem pouco se mete no corpo que está se expressando na corrida. O corpo É PROGRAMADO para SABER correr. Tire as arestas! Não jogue o atleta naquilo que VOCÊ achar ser o certo!

E pare de prever lesão! Isso é golpe sujo na praça! Por quê? Porque é falso, é ignorância, porque demonstra uma leitura equivocada da mecânica de corrida ma longa distância já que cada um se expressa ao seu jeito. Mesmo que não pareça harmônico aos nossos olhos viciados.

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“Running tall” (corra GRANDÃO)

OU AINDA: Run like a sprinter

O Ricardo Hirsch nas conversas em off nas gravações do 3 Lados da Corrida sempre fala uma coisa que faz TODO sentido: temos que aprender com os melhores. Quando falo que MAF é distante a corredores as pessoas citam o Mark Allen (um super-homem), que NÃO é especialista! Ninguém aprende a nadar com triatleta, diz o Hirsch, por que insistir em citar o Allen como argumento?

Corrida de longa distância tem um enorme foco na quantidade enquanto os velocistas na qualidade . O texto que postei ontem fala do (aleluia!) foco maior no QUADRIL dos corredores, em detrimento dos pés (tara atual de amadores).

Voltemos aos velocistas. Eles têm enorme foco no QUADRIL, nosso “núcleo” de força. Exercício simples: imagine-se em pé com uma barra com 100kg nas costas. Como é mais fácil sustentá-la por muito tempo? Com pernas estendidas ou um pouco flexionadas como no agachamento? Esticadas, certo?

ISSO é o “running tall”! Você tem uma posição menos fatigável, elevando seu Centro de Gravidade (o que aumenta a amplitude de passada) e, talvez o mais importante, essa é uma posição de VELOCIDADE de nosso músculo de força (lembre-se que Potência é produto de Força e Velocidade). Mas o que você MAIS quer correndo é mais velocidade, não força! A sua potência máxima é sempre a MESMA. Se você aumenta a força (ao ficar levemente agachado) você PERDE aquilo que MAIS quer, a VELOCIDADE!

O IDEAL, diz o artigo citado, é imaginar-se correndo como com uma corda o puxando pra cima. Eu gosto de dizer aos meus atletas que o ideal é imaginar-se correndo com um cabo preso no QUADRIL o puxando à frente e você “tendo” que manter-se “alto”, grandão”. Running tall!!

E OS PÉS?! NÃO IMPORTAM?

LÓGICO que sim! Mas eles NÃO são os maiores geradores de potência. Uma das coisas que nos diferenciam dos macacos é o glúteo forte (veja o tamanho da b&nda da elite velocista), que nos possibilita ser bípedes, mas também… CORRER! Não são os pés! Nosso glúteo possibilita isso, então USE!

Primeiro a gente corrige o quadril (que é BEM mais difícil) e SÓ DEPOIS então a gente olha pros pés. Treinadores de longa distância aprendem DEMAIS quando olham os velocistas.

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“Por que quase tudo que você pensou sobre correr está errado”.

OU AINDA: Causa vs Consequência

É incrível o poder do apelo visual nas pessoas (homens que o digam). Tempo atrás um infográfico tentava explicar a superioridade de Usain Bolt. Milhares de compartilhamentos, pena que não havia lá NADA de muito esclarecedor.

Está rodando uma matéria interessante da ABC.net que leva o título do post. Ela fala de um equivocado excesso de foco nos pés. Conversei brevemente com o treinador Fabio Pierry sobre a matéria. Os 2 acho que concordam: é BEM-VINDO esse aviso da sobrevalorização nos pés, mas o autor confunde algumas vezes causa com consequência.

“FULANA É MELHOR PORQUE FAZ X…”

NÃO! PORQUE a Fulana é melhor ela faz X! É como dizer que como LeBron OPTA por enterrar ele é melhor que meu vizinho basqueteiro. NÃO! Como ele é melhor atleta ele PODE enterrar!

Recebo mensagens: “estou tentando acertar a entrada do meu pé”… PARA!! Ninguém enterra QUERENDO, mas TENDO condições. No pé há músculos e ENQUANTO ELES OU SE NÃO FOREM treinados o suficiente, você NÃO conseguirá sustentar a entrada com médiopé! Nem mesmo a ELITE consegue sustentar entrada assim por provas longas! “Querer é PODER” apenas em filmes! Causa é diferente de consequência! Por DÉCADAS treinando eu não consigo sustentar por 21km, por que vc acha que apenas porque vc QUER vc conseguirá?

 

Por ser melhor/superior esse alguém CONSEGUE sustentar assim por mais tempo, não é que ele é melhor por QUERER. Um corolário que amador e quem quer trabalhar em esporte não entende é: NÃO é o esporte que faz um atleta potente! É o atleta potente que faz esse esporte! Não é você que escolhe a especialidade, é a especialidade que te escolhe!

Está lá na matéria, “Fulana tem tempo de contato mais rápido” como se por fazer isso ela seria melhor. NÃO! Ela é tão melhor (atleta olímpica) que CONSEGUE fazer isso! O esporte escolhe seus melhores indivíduos!

Do ponto de vista técnico DE LONGE a melhor parte da matéria é o foco na ENORME importância do quadril, nosso REAL músculo de força! O “Running tall”, ou “grandão” no coloquial de pista, é SUBVALORIZADO. Treinadores de fundo aprenderiam MUITO se como os velocistas olhassem MUITO mais para o quadril.

 

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“Input”, “Output”, Calorias, Cadência & McNamara

Num treino um atleta me mostrava os recursos do GPS novo. Outro atleta comentou: as pessoas não entendem que esses números são legais, mas eles são apenas “output” (saída), não “input” (entrada).

NUNCA tinha pensado nisso, ainda que viva explicando que Cadência é CONSEQUÊNCIA de fatores da corrida, não causa! O mesmo vale às calorias. Elas valem TÃO POUCO no emagrecimento que não surpreende que Nutrição seja um enorme fracasso ao assumir consumo calórico como causa e não consequência da dieta.

Acabei dia desses um livro recomendado por um grande amigo. Em “Future Babble” o autor Dan Gardner nos mostra como “especialistas” tentam usar todo tipo de dados pra prever desfechos. É ÓBVIO que erram com enorme talento.

Isso porque confundem DADOS com INFORMAÇÃO. Robert McNamara era um dos homens mais importantes dos EUA nos anos 60. Era um gênio, mas talvez JUSTAMENTE sua genialidade tenha dado seu nome a um termo nada lisonjeador. A Falácia de McNamara se refere ao equívoco de se tomar decisões baseadas apenas em observações (ou métricas) quantitativas, ignorando outras mais importantes.

Sempre que ouço as pessoas falando de valores de cadência, oscilação vertical, VO2máx, FC, acho que estou ficando louco. Corolário #1: DADO NÃO É INFORMAÇÃO.

“EU RECONHEÇO UM GORDO QUANDO EU VEJO”

Um dos caras que mais gosto soltou essa frase qdo questionado sobre o que define alguém com sobrepeso. Ele não precisa de IMC (lixo), dobras cutâneas (menos lixo) ou bioimpedância (um circo). Quando uma pessoa passa à minha frente correndo EU SEI QUE ELA ESTÁ CORRENDO. E assim chegamos ao Corolário #2: se seu treinador precisa de dados de cadência, oscilação vertical, etc., tenha cuidado! Ele te enxerga como um agregado de coxa, quadril, pés. Ele te divide! Porém, corrida é JUSTAMENTE uma junção HARMONIOSA de tudo isso de forma que varia individualmente.

Eu NÃO tenho aversão a dados (ainda que não faça IDEIA da cadência, oscilação e FC de NENHUM dos meus atletas)! Sou meio obcecado é com controle de ritmo, por exemplo. A diferença é que ninguém em sã consciência pede que alguém faça um ritmo X na prova, isso porque você apenas SABE que isso é CONSEQUÊNCIA.

 

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