Arquivo da categoria: Biomecânica

CHEATFLY modelo 1957. Ou ainda: os Magic Shoes russos.

O MONSTRO treinador PJ Vazel nos trouxe a história dos primeiros CheatFLys do atletismo. Vou recapitular resumidamente… o saltador em altura Yuri Stepanov (ex-URSS) passou a usar por conta em seus últimos saltos nas competições um tênis que teria entressola de 4-5cm, ou seja, igual a aberração usada em Viena ano passado.

Resultado? Stepanov era agora capaz de bater o recorde mundial (WR) e quebrar a hegemonia americana de quase meio século (!!) na prova. Obviamente não foi só isso (SEMPRE que se toca no assunto asnos correm nos comentários escrevendo ainda em 4 apoios: “bate lá então vc o recorde do Kipchoge“).

Os soviéticos haviam mudado a ABORDAGEM da prova. Passaram acelerar na aproximação ao sarrafo (americanos aceleravam apenas nos 3 passos finais, soviéticos passaram a fazer toda a corrida em sprint). Tem mais, a ex-URSS fazia seus atletas fazerem então MUITO treino de força (acredite, saltadores fazem MUITO treino de força, eles não saltam daquele jeito porque fazem educativos…).

A imagem do post não é de Stepanov, mas de seu adversário Ernie Shelton (EUA) que criou uma sapatilha “armadilha de urso” para poder competir em pés de igualdade. O resultado? Americanos e agora alemães começaram a usar tamancos cada vez maiores. Com o WR quebrado e humilhado a IAAF teve que se mexer (novamente lenta). MANTEVE o WR com auxílio de tênis e estabeleceu que não mais que 13mm (meia polegada) eram permitido entre os pés e a pista. Pronto! Simples, não?!

Mais duas consequências. Stepanov CONTINUOU a competir e a ganhar, mas sem as mesmas marcas e acabou tragicamente cometendo suicídio aos 31 anos em 1963.

O WR do salto e altura CONTINUOU a subir MESMO sem os CheatFlys! Mas a IAAF viu que precisava proteger seu próprio esporte porque NADA impedia alguém de saltar com perna de pau assim como não há atualmente NADA que impeça você de usar rodinhas ou patins.

Etiquetado , , , , , , , ,

O melhor educativo ao fundista é a Força.

OU ANDA: é sobre a hierarquia no Treinamento!

Sempre falo que fundistas e assessorias aprenderiam MUITO se observassem mais os velocistas. Basicamente porque estes precisam de MUITA qualidade enquanto corredores de longa focam na quantidade. Num pensamento por aproximação assessorias copiam exercícios educativos que os velocistas fazem porque executam gestos NÃO-naturais.

Sabe o que NÃO copiam? O treinamento de força. A razão é simples: é muito mais fácil orientar alguém a ficar elevando o joelho por 40m e muito mais gostoso do que levantar uma barra de 40kg. Agora sabe o que um velocista MAIS faz? Treinamento de força. Isso as assessorias em sua maioria NÃO copiam!

Os Educativos, assim como o Treinamento Funcional, parece nunca sair de moda. São MUITO mais fáceis de ensinar, de praticar, de supervisionar e encanta, você pode ficar ao lado do cliente fazendo cara de conteúdo. Quantos graduados sabem a parte técnica de um Levantamento Terra ou Agachamento? 5%? Nem isso.

 A hierarquia do treinamento deve ser SEMPRE respeitada em nome da EFICIÊNCIA do modelo de treinamento. Se você quer ter a técnica de um bom velocista, ANTES DE TUDO tenha seus níveis de força e mobilidade! Quando era mais inexperiente, quando via um atleta meu correndo com “joelho baixo” ou sem “trazer o calcanhar até o quadril”, o fazia praticar muitos educativos porque achava que aquilo era técnica, não déficit de níveis de força em TODA a amplitude funcional do movimento.

Porém, o educativo vai fazer tudo, MENOS elevar seus níveis de força. Seu corredor não executa algo não porque não queira (Técnica), mas porque não CONSEGUE (força). Um teste básico e simples: o corredor consegue fazer um agachamento total lateral só com a barra? Se não tem esse nível elementar de força e mobilidade como achar que ele terá força para correr em toda sua amplitude de movimento e – talvez até mais importante! – para assimilar a carga do esporte SEM se machucar??

Correr “direito” é sobre PODER, não QUERER. Por isso a força vai SEMPRE superar um educativo.

Etiquetado , , ,

Técnica de Corrida não é sobre o que se ganha, mas sobre o que se perde!

OU AINDA: não se ensina aquilo que já se sabe!

Não consigo parar de olhar para a foto do post!! Me mandaram ironicamente dizendo “imagina se fizéssemos análises e educativos nelas“…

Repare no de azul à esquerda… Quadril flexionado, em “posição de força” (é o que acontece quando um velocista faz força, por isso falamos pra correr “grandão“, pra que o centro de gravidade não “caia“, o que diminui a amplitude da passada… Lembre-se SEMPRE: aceleração é uma resultante de força e velocidade… Se você “chama” a força, você perde velocidade que é o que você MAIS quer numa corrida).

Vamos ao garoto da direita… Regata azul clara… Pé em apoio completo no solo, fazendo força, tronco girando… Mais do que deveria? Sim, mas SÃO CRIANÇAS! Mas o MAIS importante… SABEM correr porque é ISSO que nossa espécie faz. PAREM de achar que é uma habilidade que se ensina!

Agora a menina de verde… Mobilidade de tornozelo, mobilidade de quadril, “joelhão” vindo grandão à frente… Alguém ensinou isso à ela? NÃO! Porque técnica de corrida não é uma questão de querer, mas de PODER!

Sabe, tenho calafrios quando vejo gente recomendando meio-agachamento, por exemplo, na longa distância… Você PRECISA agachar até o FIM, até o FUNDO para não perder um gesto que PERTENCE ao ser humano. A extensão do quadril, FUNDAMENTAL para correr bem não se conquista com educativo ou teoria, mas com capacidades perdidas com o sedentarismo ou com a falta de movimento envolvendo FORÇA.

Essas crianças que nunca tiveram que aprender ensinam muito se você quiser mesmo aprender.

Quando criança temos tudo sem educativo. Ao perder temos que nos movimentar. O educativo não é essencial na nesse processo ou então assuma que você quer melhorar com atalho, sem fazer força, um elemento esquecido na mobilidade.

 

Etiquetado , , ,

BIOMECÂNICA x LESÕES – Parte 2

Minority Report é um filme de 2002 de Steven Spielberg estrelado por Tom Cruise. O trabalho de Tom Cruise neste filme de enredo futurista é chegar nos assassinatos antes que eles aconteçam. Como? 3 videntes têm premonições usando tecnologia.

Não seria melhor com equipamento sofisticado e gráficos apaixonantes prevermos uma lesão ANTES de ela ocorrer? LÓGICO! Depois do primeiro texto recebi no inbox comentários de 2 fisioterapeutas que são BEM interessantes. O primeiro é que dá pra fazer essa detecção prévia.

Tenho que discordar por um problema conceitual. Se consigo prever o que NÃO aconteceu, eu atribuo a mim a prevenção de 17 brilhões de lesões somente em 2019. Quer correr sem lesão? Me contrate! É desonesto? Não se eu acredito nisso.

Um estudo de Jauhiainen (e colaboradores, 2020) usando sofisticados algoritmos e inteligência artifical NÃO encontrou relação de lesão com os mais diversos padrões de corrida. E por que é importante? Porque um dos comentários foi que essas análises poderiam JUSTAMENTE detectar padrões – digamos – incorretos.

E aqui há OUTRO problema. Seu treinador deve ser CAPAZ de analisar “fraquezas” ou “imperfeições” técnicas (contato muito à frente, quadril que cede demais, etc.) SEM ir ao laboratório! Se ele NÃO consegue isso você tem 2 problemas: um é a SUA técnica e outro é o SEU técnico.

Só que – reforço – MESMO as análises NÃO conseguiram prever um padrão de lesões. E aí vira aquela conversa de fé: “não, mas não foi feito direito”. Novamente é papo socialista: “Não! É que na Venezuela não foi o socialismo verdadeiro”.

Eu queria MUITO ser capaz de prever lesões. Na minha carreira eu NUNCA consegui fazer isso e nunca em minhas conversas tive dicas de treinadores de como conseguir. Veja só… mesmo atletas PROFISSIONAIS com TODOS os recursos possíveis, ficam de fora de eventos muito importantes por lesões inesperadas e atípicas. A lesão é pelo número de suas variáveis, DE CERTA FORMA, um Black Swan, e cisnes negros são POR DEFINIÇÃO imprevisíveis. Mas lógico… você não vai ter trabalho pra achar quem diz que consegue prever mesmo os Black Swans.

p.s.: uma coisa BEM diferente é o fato de lesões serem recorrentes. Uma vez que você teve problema, por exemplo, no posterior da coxa, a chance disso ser recorrente no local é enorme.

Etiquetado , ,

Biomecânica x Lesões – uma obsessão

Tem vezes que penso em bloquear uns de vocês no Instagram… dias atrás alguém me marcou num post com “perfis essenciais pra se seguir”. Não conhecia ninguém ali e entrei pra ver. Eram basicamente dôtores videntes que descobrem pela biomecânica de corrida quem e como se lesionam. Cobrando, lógico… Quanta bobagem…

O escândalo envolvendo Alberto Salazar me fez lembrar de um artigo clássico sobre ele na The New Yorker. Salazar seria o mago da biomecânica. Os ingênuos compraram essa história feito cachorrinhos.

Ele era obcecado com biomecânica. Queria “consertar” todo mundo. Dathan Ritzenhein é talvez sua vítima mais famosa. Salazar queria fazer Ritzenhein correr parecido com Kenenisa Bekele e Haile Gebrselassie.

 Voltando aos videntes de jaleco que preveem lesão, essa semana entrevistamos no podcast 3 Lados da Corrida o Nélio Moura, um dos maiores nomes da história do nosso atletismo. Sem constrangimento Nélio disse que nunca viu nada de mais na Maurren Maggi ou no Jefferson Sabino ainda jovens.

Na minha carreira como treinador eu NUNCA consegui prever uma lesão em atleta meu. NUNCA. Mesmo estando por mais de 10 horas semanalmente com alguns deles na pista. Mas tem quem acha que consiga olhar gente na esteira correndo e fazer aposta. É na melhor das hipóteses ingenuidade.

Depois de visitar esses perfis, agora no meu Instagram aparecem anúncios patrocinados de consultas para análise prevendo lesão (por isso que de raiva quero bloquear alguns de vocês). Acho que é mais honesto você prever números da Megasena!

Corrida é uma manifestação harmônica de individualidades biológicas! O que parece ser certo a NÓS, ao nosso olhar viciado por uma base de dados de corredores rápidos, nada mais é que NOSSO OLHAR vendo uma harmonia na NOSSA leitura do que é corrida. Mas o certo, para AQUELE individuo correndo, é seu corpo fazendo ajustes para otimizar aquele gesto, muitas vezes o protegendo! Quando você tenta fazer ajustes para protegê-lo VOCÊ acabando o machucando!

Bom treinador não é quem faz ajustes técnicos de corrida, mas quem pouco se mete no corpo que está se expressando na corrida. O corpo É PROGRAMADO para SABER correr. Tire as arestas! Não jogue o atleta naquilo que VOCÊ achar ser o certo!

E pare de prever lesão! Isso é golpe sujo na praça! Por quê? Porque é falso, é ignorância, porque demonstra uma leitura equivocada da mecânica de corrida ma longa distância já que cada um se expressa ao seu jeito. Mesmo que não pareça harmônico aos nossos olhos viciados.

Etiquetado , , ,