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Trabalho duro e sem ‘glamour’

Nos anos de Otto Peltzer (…) havia uma obsessão com o estilo de corrida. (…) A ascensão do atletismo amador no final do século XIX levou a uma sensação de que o trabalho duro e sem glamour poderia ser substituído por um foco no movimento gracioso.(…) Peltzer, sempre individualista, certamente não concordou totalmente com essa visão. Sim, um bom estilo era importante, mas, como explica em seu livro “Manual de Treinamento para Atletas” (1926), era essencialmente uma questão de desaprender: as crianças têm um estilo de corrida natural, que tende a ser “destreinado” por seus treinadores. Franz Stampfl, que ajudou a treinar Roger Bannister para a quebra dos 4 minutos na Milha, fez a mesma observação em seu “Franz Stampfl on Running” (1955).

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Recentemente Steve Magness cunhou uma frase incrível: Expertise é você saber filtrar o que realmente é importante.

Eu reforço essa frase porque sempre bato na tecla de que os melhores corredores amadores parecem saber MUITO melhor do que os mais lentos aquilo que os faz… melhores! Ou seja, existe uma hierarquia de prioridades no treinamento. E atleta e treinador devem ter bem claro na cabeça aquilo que é determinante no seu esporte!

Nos meus anos como personal trainer meu aluno que mais me pagava eu não passava mais do que 3 horas semanais com ele! É mais ou menos como você chegar na aula de inglês e seu professor particular dizer que irão estudar (em português) a vida de Shakespeare. É falta de prioridade, não sinal de que não importa!

Peltzer, um dos maiores atletas alemães da primeira metade do século passado achava que, por ser amador, não tinha muito tempo para “investir” em exercícios educativos, então ele treinava duro. Mais. O meio-fundista alemão, bom que era, sabia o que era realmente importante em sua corrida.

É óbvio que você pode ir à pista e investir meia hora em educativos, aos quais não encontramos na literatura muitas evidências sólidas de benefícios concretos e palpáveis seja na técnica, seja no desempenho. Eu escrevo esse texto após voltar da pista de atletismo onde tive menos de 1h30 para dar treino. “Investi” zero em educativos (*na verdade as corridas coordenadas são pra mim o educativo mais específico que existe!)! Por uma questão de prioridade, como eles querem correr rápido, não bonito, ficamos no “trabalho duro e sem glamour”.

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Valgo Dinâmico?!?

OU AINDA: POR QUE NÃO LEIO JORNAIS

Semana passada no meu Instagram (@danilobalu) – sempre lá! – perguntaram o que era melhor no tratamento do corredor com valgo dinâmico. Há um problema nisso aí… eu, Danilo Balu, trabalho com corrida e não faço IDEIA do que seja valgo dinâmico… Mais ainda: poderia em pesquisa de 30 segundos resolver a questão, mas seria perda de tempo. Saber se um corredor tem ou não valgo dinâmico é – arrisco dizer – completamente inútil, não muda NADA na minha abordagem com ele na corrida, então prefiro investir esse tempo pesquisando coisas melhores, como quem eram os zagueiros reservas da Copa de 98 (Gonçalves e André Cruz), por exemplo.

 

“NÃO LEIO JORNAIS, NÃO LEIO PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS…”

Tenho TV a cabo, mas não vejo telejornais. Tenho redes sociais, mas não sigo veículo de notícia. Tenho internet, mas não abro NENHUM periódico científico. ZERO. NEM UM. Por que faria??

O que é realmente e DE FATO importante, chega até você. Eu sei o que é síndrome da banda iliotibial, periostite/canelite, fascite plantar… Essas lesões eu NUNCA precisei pesquisar a priori, foi SEMPRE a posteriori, porque de uma forma ou outra “chegaram até mim”. Se o valgo dinâmico não chegou até hoje, se NENHUM dos grandes treinadores que acompanho NUNCA a mencionou, ela nada mais deve ser que um problema “inventado” por quem vive ($) de intervir no indivíduo.

Lembre-se: é intervindo (ainda que SEM necessidade) que o profissional de saúde ganha dinheiro.

 

VOCÊ ACREDITA NA CIÊNCIA?

SIM! Mas o pesquisador está para a ciência assim como a prostituta está para o amor (ou a esteira está para a corrida). Eu não leio artigos porque o pesquisador ganha dinheiro não para fazer pesquisa BOA, mas sim para publicar pesquisa, não importa nem mesmo quão lixo ela seja. Eu não leio ainda porque estudo bom “chega até você”. Foi assim com o estudo que comentei semana passada! Ele se sobressaiu sem eu ter que perder tempo lendo os outros 98% que vão virar forro de gaiola de periquito.

Depois de 20 anos como calouro na EEFE-USP voltei à faculdade tempo atrás e eles AINDA estão pesquisando treinamento de força de 12 semanas em mulheres na pré-menopausa. Por quê? Porque VIVEM de publicar a MESMA coisa, não importando sua qualidade!

Notícia é entretenimento. Por ISSO que eu não leio NADA de quem tem coluna fixa… porque ele não vive de escrever coisas boas, ele vive de escrever 3.000 toques a cada 7 dias, não importando sua qualidade!

Uma heurística é que se alguém que NÃO vive da corrida (como eu vivo) vem e mostra saber mais do que eu de algo que ele julga ser importante, que eu desconheço, é porque isso deve ser COMPLETAMENTE desimportante. É assim que eu sei que o número do drop de um tênis ou o valgo dinâmico são coisas MUITO desimportantes à sua corrida.

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O melhor educativo de Corrida é… CORRER!

Estou há uma semana na Cidade do México, capital que fica a 2.200m de altitude. Campos do Jordão (SP), onde muitos brasileiros vão treinar na “altitude”, tem meros 1650m. Ar rarefeito respondesse sozinha pelo resultado na corrida, mexicanos e quem usa aquelas máscaras toscas pra correr se dariam muito bem. A coisa, sabemos, é mais complexa.
O best-seller “Nascidos para Correr” (Born to Run) trouxe fama à tribo dos Tarahumaras, repleta de grandes corredores. Repare na foto (ruim) que tirei no fantástico Museu Nacional de Antropologia! Aos pés o índio retratado usa as sandálias huarache.
Mas mais que isso, há algo que não se compra. Veja sua extensão de quadril ao correr. Bonito demais! Repare no pé no ar… joelho e ponta do pé à frente guiando a corrida, nada de pé de bailarina… que leveza! Aí te pergunto: quem ensinou esses caras a correrem??
NÃO SE ENSINA PÁSSAROS A VOAR!
NÃO SE ENSINA HOMENS A CORRER!
No meu Instagram (@danilobalu) uma das perguntas era novamente sobre educativos de corrida… se eu recomendaria sua execução na pista ou em terreno mais mole (grama, terra). Então vai lá:
 
NO TRABAJAMOS CON EDUCATIVOS!
NENHUM orientado meu faz educativos! As pessoas me procuram para CORRER bem/melhor, não para fazer EDUCATIVOS bem! Educativo em corredor amador de longa distância é ineficiência bem remunerada, é PERDA DE TEMPO é querer ENSINAR PÁSSAROS A VOAR… é nonsense!
Quando me virem na pista em breve, os treinadores dos velocistas, barreiristas e saltadores não precisam me bater! Transpor barreira correndo a mais de 30km/h NÃO é natural, largar de 4 apoios NÃO é natural, salto triplo NÃO é natural, saltar 1,95m de costas pro sarrafo NÃO é natural, correr com um dardo NÃO é natural! Esses caras PRECISAM fazer educativos de corrida! Agora fundista? Pra quê?!?!
Quer melhorar a técnica de um fundista? O faça correr rápido… na subida, na reta, e busque leveza… correr rápido e relaxado! De novo… e de novo… e de novo… e de novo. Não erre como eu que literalmente por mais de década perdi o meu tempo e o dos meus fundistas mandando fazer dribbling, skipping, passeio no bosque… a eles, peço perdão!
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Na corrida vale Força, Músculo, Gordura ou Peso?

Eu me contorço quando vejo “especialista” de Nutrição falar em “peso ideal” de corredor… quando ouço isso já sei que não sabe do que está falando! Não existe peso ideal! No desempenho na corrida o peso mais baixo é melhor. Por isso os melhores corredores NÃO são sinônimos de saúde… eles parecem que estão fugindo de um hospital!

Ah, mas é que músculo…” Bobagem! Você nunca verá um fundista com ombro de estivador ganhando prova! O peso daquele músculo que possibilita ele fazer 90kg no Press ATRAPALHA sua corrida! Hipertrofia e desempenho na corrida (de longa distância!) NÃO se conversam! Elas discutem entre si!

O que importa no esporte é o GESTO, é a funcionalidade! Músculo PODE fazer isso, não que ele VÁ fazer isso. Exemplo? Mesa extensora e flexora na academia… ela te dá músculos, mas ela NÃO trabalha o gesto esportivo. Ela não dá força GESTUAL, FUNCIONAL à corrida. Você pode ficar a tarde inteira nesse lixo de aparelho, ele pouco lhe ajudará a correr.

Estou escrevendo isso porque li essa semana um artigo incrível apontado por 2 profissionais que tenho na mais alta conta. Nele um grupo de velocistas mulheres foi acompanhado. E aí vem o choque a alguns…

As que melhoraram mais não foram as que mais ganharam músculos, mas as que mais PERDERAM GORDURA! Quando perdemos gordura, ganhamos eficiência, mas quando ganhamos músculo esse ganho NÃO é garantido porque GERALMENTE (não sempre!) o ganho de força vem com ganho de peso de massa muscular que o atleta precisa carregar sempre!

Falei tudo isso porque vivem perguntando nas enquetes do meu Instagram (@danilobalu) se deve haver fortalecimento (com pesos) ao corredor. DEPENDE. A ideia é desempenho? NÃO NECESSARIAMENTE (fortalecimento gera sim ganhos ao corredor que é fragilizado). A intenção é Saúde? SIM! Fortaleça!

O importante é: o fortalecimento mal feito, que gere ganho de massa e força NÃO funcional à prática da corrida vem a um custo grande… com PERDA de desempenho… aí o foco é MUITO mais inteligente se feito na perda de massa gorda. E sabemos que o que não falta é corredor BEM acima do peso, ainda que a Nutrição insista com a balela de que corrida emagrece.

p.s.: no livro SPEED TRAP (desculpe a insistência) ao menos em 2 episódios Francis reclama que Johnson está 5kg de MÚSCULO nas PERNAS pesado demais para competir. A solução? Perdê-los mantendo a força FUNCIONAL!

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A academia não te fará um corredor melhor

Pergunte a um corredor ou pra alguém que quer começar a correr: o que se deve fazer para poder correr melhor e de forma mais segura, com menos lesões?

 “Musculação, certo?”

Um dos temas pelo qual MAIS me mais interessava ainda na faculdade era JUSTAMENTE sobre treinamento de força em corredores. Ele é tão praticado, tão difundido, tão intuitivo que parece que ir à academia deveria ser uma espécie de item obrigatório de quem quer levar a corrida de longa distância mais a sério ou de forma mais segura (menos lesões).

O que a prática e a observação me ensinaram? Academia!? Dane-se! Faça por razões estéticas. E só.

Duvida? Pergunte a qualquer orientado meu se peço para que eles façam academia com esse intuito (desempenho e/ou lesão). Zero. Nada. Niente. Rien. Nichts.

 

 Por que fazer academia?

Corrida é um movimento feito em cadeia. Ela nada mais é que uma sucessão alternada de saltos horizontais. É nossa capacidade de produzir força de forma rápida e usando cadeias musculares que determinam nosso resultado.

 Quando você se senta para fazer Mesa Flexora, por exemplo. Você se isola de uma forma TOTALMENTE NÃO específica. A cada passo de uma corrida seu quadril por ação da gravidade, tende a ir para baixo. O que seu corpo faz? “Desacelera o quadril” para manter a forma.

 Se você olhar em uma academia tradicional o que há ali que simula AINDA QUE de longe o gesto? Mesa Extensora? Cadeira Flexora? Abdutora? Adutora? Lixo puro!

 

Reforço: se você quer fazer por questões ESTÉTICAS esses 4 exercícios, OK! (*ainda que eu NUNCA recomende que se faça a extensora… nem mesmo esteticamente… nem mesmo os inimigos, seria não respeitar a Convenção de Genebra, um crime de guerra). Porém, se você faz por causa da corrida, tenho uma PÉSSIMA notícia…

 

*Se você faz Leg Press isso SÓ SE justifica se não há na academia uma máquina de agachamento. Se há máquina para agachamento, essa SÓ SE justifica se não houver uma barra livre (pro agachamento). Se há barra livre, abandone o resto! A vida é curta! O tempo é seu bem mais valioso pra perdê-lo fazendo exercício errado!

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