Arquivo da categoria: Biomecânica

Longos (Maratona): Tempo vs Distância

Tenho um pouco de dificuldade de explicar aos amadores porque eles NÃO deveriam fazer longos Longões para Maratona. O primeiro motivo é fisiológico. Um treino de 1h30 (a um corredor muito rápido) é BEM diferente de um treino de 2h30 a este mesmo corredor! Quando copiamos o treino por DISTÂNCIA ignoramos a enorme variação, neste caso 66% a mais. Você acha que está treinando uma coisa e está na verdade treinando para outra.

NUNCA se esqueça: a fisiologia do nosso corpo é regida pelo TEMPO, não pela distância!

O segundo motivo principal é uma questão puramente mecânica. Ontem falei um pouco sobre estratégia nutricional em treinos longos (e por que você deveria ignorar as orientações de praxe dos nutricionistas esportivos, que vão na CONTRAMÃO daquilo que você mais quer… ou seja, consultá-los te faz PIOR).

Fiz uma tabela porca e correndo… Nela comparo um atleta de elite (3min/km), uma mulher intermediária (5min/km) e um amador rápido (4min/km). Números redondos pra facilitar o trabalho do Excel.

Abaixo você tem o número de passos que cada um dá para terminar um treino longo de 32km. E OV (Oscilação Vertical) é um fator de correção porque quanto mais lento o corredor, MAIOR é sua OV, AUMENTANDO o trabalho mecânico da pessoa.

Repare que ao final da MESMA sessão de treino a atleta mais lenta fez um trabalho mecânico (treino) 80% MAIOR que um cara que ganha uma major!

Faz algum sentido pra você??? Pra mim não… mas pode ser que você esteja certo e eu errado.

Repare ainda que, por mais que machuque o ego daquele cara que fala pra todo mundo que tem índice pra Boston, ele fisiologicamente está mais próximo da amiga intermediária do que do Kipchoge. Mas adivinhe o treino de quem que ele quer imitar…

Pois é…

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Quem é o velocista?

Quem você acha que é lo velocista da figura de cima? A ou B? Pense bem…m olhe, repare e pense. Um deles é um velocista e outro um jogador de futebol americano dando um tiro. Abaixo dou a resposta…

Eu coloquei ontem esse teste nos meus stories pra saber quem seria o velocista da foto (sombras reais). As respostas ficaram em mais ou menos 52% pela opção errada. Eu não esperava tantas respostas e explicações que me ajudarão a guiar a ”explicação”. Primeiro, não existe 100% certo ou errado. Não acho difícil errar o teste, mas de certa forma fácil explicar que o atleta de BAIXO é o velocista.

Eu tive um treinador que pedia pra corrermos como se estivéssemos segurando um ovo. Se apertar ele quebra, se abrir a mão (como fazem e PODEM fazer muitos velocistas), ele cai. Então lição número 1: mão aberta na velocidade NÃO é obrigatório.

Escolhi A porque o quadril está projetado pra frente”. Não ganha a prova quem mais projeta o quadril, mas quem corre a distância da prova o mais rápido possível. Não esqueça isso! Ao projetar o quadril o atleta BAIXA o Centro de Gravidade (running tall). Quando a gente quer MUITO uma coisa, a gente pode ir na contramão dela. A maior aula da história foi Usain Bolt ultrapassando Justin Gatlin nos metros finais da final do Mundial de Londres de 2015. Gatlin faz força excessiva (ele queria MUITO correr mais rápido), desce o CG, perde velocidade, perde o ouro. Um exemplo de como buscar o que mais se quer pode ser obstáculo.

 

“Do not show yours spikes to Jesus”

O jogador exagera no braço! Ao projetar o quadril (e não o mantendo alto, na MELHOR prosição possível de se EXPRESSAR a velocidade) o tronco também vai à frente, para compensar a perna lá pra trás cometendo o pecado de mostrar os cravos da sapatilha pra Jesus Cristo, forçando toda a cadeia posterior.

Por fim (somente daquilo que ME fez identificar o B): repare no olhar do velocista…. à frente… é uma posição de força MELHOR do que a cabeça caída pra trás do jogador… Pense: como você faria um agachamento pesado? Olhando pra frente ou pro teto da academia?

Existem outras nuances que não caberiam no espaço… o A parece rodar (o que é causa e o que é consequência? Eu não sei… de verdade não sei… o braço exagerado parece ser consequência dessa cambalhota). O joelho alto pra MIM NÃO me disse nada… o dedão do velocista parece mais pra cima… me disse mais que o joelho.

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Um pouco de história de biomecânica

Já que vocês gostam de divagar sobre biomecânica nas perguntas, vamos trazer um pouco de história? Semana passada em bate-papo pro podcast (que ainda não foi ao ar), o Fabio Pierry quando perguntado sua opinião sobre o que explica o crescimento da corrida em Balneário Camboriú disse: o Instagram. TODOS rimos. Toda piada parece explorar um fundo de verdade.

Por que as pessoas querem TANTO correr bonito? Pra melhorar? Lógico que NÃO! Tiros de 400m fazem melhorar MAIS que QUALQUER educativo ou suplemento. Mas dói, incomoda. É o Instagram!

Eu sempre falo aqui que acho bobagem educativos em corredor amador por 2 motivos. É total falta de foco e totalmente improdutivo. “Não se ensinam pássaros a voar”, mas o acadêmico acha que precisamos ensinar alguém a correr. A foto que ilustra o post tem na esquerda a imagem em uma ânfora datada de 4 séculos antes de Cristo.

Vemos nela a reprodução de alguém correndo retratada puramente com a MEMÓRIA de um pintor que não tinha CREF nem diploma. Será que Bolt se inspirou na ânfora? Ou seguiu a escola egípcia sem tradução no atletismo? Ou ele apenas CORREU?

Correr é 100% natural, competir com regras não. Vamos à história.

Cerca de 150 anos atrás um australiano percebeu que largar em 4 apoios trazia vantagens e após isso o mundo todo copiou na velocidade (só um desavisado Peter Snell largava de 4 nos 800m em Roma/1960). Depois disso houve RARÍSSIMAS mudanças técnicas. Na primeira metade do século passado os velocistas corriam desde a largada olhando pra frente. Na segunda metade percebemos que era melhor por até cerca de 40m correr olhando pra BAIXO. E só.

Um bom treinador sabe que velocistas correm DIFERENTE nas pistas de carvão (até Tóquio/1964 era esse o piso) e nas sintéticas (tartã). Correm DIFERENTE com sapatilha ou com tênis. (*muda se puxa mais que empurra, aumenta tempo de contato, etc)

E só!

Ah o relaxamento o Bolt…” BOBAGEM! Wyomia Tyus dançava na largada em 64, Tommie Smith falava disso já em 68… Mudou pouco, bem pouco.

Dá pra melhorar a técnica? Dá, lógico! Inventar a roda? Já talhavam a roda com pedra antes… é mais simples do que parece. Não problematize.

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O que o Cócoras nos fala sobre o mundo da corrida…

Os amadores migram rotineiramente entre algumas insistências, manias, como se tivessem descoberto o Santo Graal da corrida. Buscam a alquimia que transformaria chumbo em ouro porque garimpar com uma picareta dá trabalho. Dá mesmo! Por isso também encontrar ouro enriquecia!

Palatinose, educativos, suco de beterraba, BCAA… Repare: há SEMPRE alguém VENDENDO a solução. E quando ela não é palpável (ex: educativos), o vendedor a torna complexa pra ser o intermediário que dará o atalho, igual um coiote de fronteira que foge no meio da noite porque NÃO irá entregar a promessa!

O Thadeu Miranda falou um negócio brilhante pra mim: “vivemos tempos estranhos, da complicação e metodolização de coisas que até um cachorro é capaz de fazer sozinho”. SIM, eu não preciso calcular necessidade hídrica de um labrador, por que preciso fazer pra corredor??

Ele segue: “somos ainda muito pautados pelo positivismo, tudo que é natural e funciona parece que acreditamos que se sistematizado será melhor”. Perfeito! Nutricionista ADORA fazer cálculo assim seja porque NÃO entende, seja porque te APRISIONA (sempre recebendo, lógico) seja porque acha que estruturar apresenta vantagens. Não, NÃO apresenta.

 

Andam me perguntando sobre “treinar” cócoras! Isso NÃO existe! Cócoras é sobre CONSEGUIR chegar e sustentar uma posição NATURAL ao ser humano. Você não treina isso, você pratica para RECUPERAR um gesto que é NATURAL e se perde o no mundo moderno. E se você NÃO chega à naturalidade envolvendo duas das três articulações mais importantes na corrida é porque há algo de MUITO errado.

Acabei ontem um desafio proposto pelo Léo Moratta que é ficar 30 minutos seguidos por 30 dias seguidos de cócoras. Sem folga! Dói! Visitar o desconforto o nome já diz… exercício, jejum, restrição de carboidratos… TUDO vem com… desconforto! Sou mais uma vez grato ao Léo porque sem ele “individualizar” (BULSHITAGEM DESGRAÇADA) o resultado foi surreal!

A extensão ótima da passada na corrida não se consegue VENDO imagens, fazendo educativos, mas tendo os RECURSOS (Mobilidade e Força) necessários!

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Volume mata sua Velocidade?

Temos que sempre olhar com um pouco de cautela o que a elite tem a dizer. Primeiro porque precisamos olhar as nuances. É fácil adotar a dieta que a elite consome fingindo não saber que treinam 12 vezes na semana e que são tolerantes, são fora da curva.

Tem mais. Muitos usam substâncias proibidas, que jogam fumaça na compreensão do que é fruto de treino ou do doping. E por fim porque esses caras são – de novo – fora da curva. Eles parecem tolerar e melhorar com qualquer coisa.

Dia desses vi o longevo Nick Willis falando sobre treino de velocidade. Muito me espanta o tão pouco que amadores treinam essa capacidade. Seja por ignorância técnica do treinador, seja porque dá (muito) mais trabalho coordenar uma sessão assim, seja porque exige vivência (olhar crítico) de um profissional que em sua enorme maioria só conheceu corrida pelos livros da faculdade.

O conceito de que volume diminui a velocidade é um ENORME erro interpretativo. Você perde aquilo que você NÃO treina. Quando você sai do curso de francês pra passar a estudar espanhol não é que ler Gabriel García Marquez te faz esquecer a língua da Édith Piaf. Você piorou o francês porque você DEIXOU de praticá-lo.

Willis falou do tanto que faz treinos de velocidade com ADEQUADO descanso (entre os tiros) AINDA QUE possa estimular a velocidade DIARIAMENTE. Falo tranquilamente: mais de 95% das minhas intervenções em treinos é pedindo que o corredor REDUZA a velocidade do tiro. Motivo? É o ácido lático constante que parece “matar” o corredor. Mesmo meio-fundistas o visitam somente 2, 3, 4x na semana.

Dia desses um leitor que corre provas de 5km a 6’00″/km falava que dava tiros de 1km abaixo de 5’00” porque acha que (mais) ritmo é o que determina a evolução. Resultado: treinos com intensidades de meio-fundista e volumes de fundista. ISSO é que mata o corredor.

Lições básicas (não ensinadas na faculdade):

1. A velocidade é o que o corredor MAIS quer. Então ela PODE ser visitada TODO SANTO DIA se feita com estímulos e pausas adequadas.

2. Se você NÃO a estimula, você a perde! Volume NÃO diminui a velocidade. É NÃO treiná-la que te faz perdê-la.

3. É a dose CERTA da carga de treino que gera melhora. Mais não é melhor!

 

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