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Por que vender tênis barato se é melhor vendê-los caros?

Dia desses eu comentava como é inútil o corredor reclamar dos preços dos tênis e serviços (corridas), afinal, a grande maioria PRETENDE pagar caro por tudo. Eis que o Luís Oliveira me mandou o link de um curto podcast com uma história fantástica e improvável que eu não conhecia. Basicamente um garoto que cresceu desejando os caros tênis de basquete que só aumentavam de preço a cada temporada, quando chegou à NBA resolveu lançar um calçado que democratizaria o acesso aos fãs da liga. Afinal, quem não poderia arcar com um tênis de U$15 usado até por profissionais??

O resultado, como mesmo um parco conhecedor da liga pode imaginar, foi longe do que se esperava. O tênis foi um fracasso porque achavam que o tênis era ruim, ainda que a premissa dele era ser IGUAL a um de U$110, apenas mais barato. Basicamente vale mais vender a U$110 do que a U$15 porque isso aumenta as vendas! E consequentemente, o faturamento.

Nós temos essa ideia romântica de que tomamos decisões baseadas sempre e principalmente de forma racional. Ledo engano. Tal qual o texto que falei na 2ª feira e que foi interpretado por alguns como de esquerda (só quem me conhece bem sabe que estou LONGE de ser de esquerda) ou equivocado, o comportamento de quem paga caro por tênis é entre outras coisas uma questão de posicionamento. Você PODE comprar um Nike por ser um fanboy, ou um tênis baixo por ser minimalista, um tênis de marca que não tenha no Brasil apenas para ser diferente (se a marca fosse espetacularmente tão boa talvez vendesse em mais países do que EUA e Canadá)… Queira ou não, admita ou não, saiba ou não, aquilo que você põe no pé diz um pouco sobre o que você é ou quer ser.

Eu estou ficando velho e rabugento para continuar debatendo que “as corridas estão muito caras”, que “os tênis estão em um preço absurdo de caro”, que “tudo virou comércio”… Tudo SEMPRE foi comércio. Ninguém trabalha de graça, a adidas não é uma ONG, aquela medalha da Yescom não cresce em árvore. *maçãs crescem e não são distribuídas gratuitamente!

Diferentemente de outros tempos, o PREÇO de um produto ou serviço não se faz somente pela equação CUSTO + LUCRO. Nessa lógica quanto mais baixo fosse seu custo, maior seria o lucro ou mais baixo poderia ser o preço (P = C + L). Se o consumidor fosse 100% racional, bastaria reduzir um pouco qualquer um dos 3 que a empresa seria a líder de vendas.

Acontece que o preço já foi definido por VOCÊ e pelo Mercado.

Se amanhã você resolver criar a sua marca esportiva e decidir lançar um tênis de corrida, o top de linha de sua marca recém-criada terá que custar R$799. Ou então você terá que atribuir à coincidência que o ASICS Nimbus ou o Mizuno Creation tenham esse preço porque possuem exatamente o mesmo custo, a mesma margem de lucro e o mesmo preço do top de linha das marcas concorrentes. Seria uma coincidência tão grande que o acaso sozinho parece não conseguir explicar. Na verdade é resultado que o Mercado e VOCÊ decidiram que querem e acham esse R$799 “O” valor justo por um tênis.

Um produto não é caro se há quem pague por ele, na mesma medida que ele às vezes pode não ser considerado bom o suficiente se ninguém paga ainda que barato por ele.

Se por competência administrativa você fizer tênis com preço mais barato que seus concorrentes, a diferença não reverterá em liderança de mercado, assim como cobrar mais caro irá prejudicar as vendas ALÉM DE diminuir seu lucro. As próprias marcas inclusive têm modelos mais caros que servem apenas para comparação. Como? Um tênis de R$799 que realmente é um absurdo de caro em um país com média salarial de R$2.100, passa a não ser mais um assombro quando há um sabidamente pior que custa R$1.100. O de R$799 passa a ser assim um bom negócio aos seus olhos.

E aquele modelo de R$225 (*o preço do meu atual modelo)? “Ele deve ser/é ruim”. É isso o que eu ouço de todo mundo que fala do modelo antes de eu falar que corro todos os dias com ele. Assim como na história do podcast, as pessoas têm dúvidas da qualidade. Mais do que isso. Elas querem o que todo mundo quer, ainda que neguem.

No fundo no fundo o que todo mundo quer é pagar barato por aquilo que elas mesmas fizeram ser caro. A qualidade? Pouco importa, isso é o de menos. Diferentemente de carros, onde comparativos existem e são possíveis, aos corredores o que importa mesmo de indicador no tênis é o preço. Por que de diabos vendê-lo então barato?!?

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Tênis mais caro é melhor?

Qual a relação da qualidade de um tênis com seu preço? Seria o preço uma medida direta e confiável da qualidade desse equipamento tão presente na corrida?

Pois com tantas opções no mercado a métrica mais fácil, direta e simples seria confiar que os produtos mais caros, teoricamente os de melhor qualidade, nos garantiriam melhores produtos, mais capazes de diminuir a incidência de lesões, por exemplo. Infelizmente a coisa não funciona assim.

Dois estatísticos fizeram uma análise baseados em 134.867 revisões de 391 tênis de corrida de 24 marcas diferentes no site RunRepeat. Foi possível assim comparar o preço dos tênis com o quão bem classificados eles são pelos corredores consumidores. A principal conclusão que se tira é que tênis caros não são melhores do que os mais baratos. Na verdade, tênis baratos são melhores classificados dos que os mais caros. Quanto maior o preço do calçado, mais baixa é a avaliação do tênis.

Esta análise encontrou que os 10 tênis de corrida mais caros (média de preço de U$181) são classificados como 8,1% pior do que os 10 tênis de corrida mais baratos (média de U$61). Com nota média de 86 (de cem possível), apenas 18,9% de todos os 391 tênis avaliados têm nota superior aos dez mais baratos!

Ainda que deixemos de lado a avaliação pessoal e optemos para os dados encontrados em algum experimento mais independente vemos que a coisa não melhora para a métrica “maior preço” como indicador de mais qualidade. Por exemplo, os corredores usando tênis caros estariam 123% mais propensos a se lesionar que aqueles corredores com tênis mais baratos.

Isto foi o encontrado em um estudo da University of Bern que investigou 4.358 corredores. O estudo encontrou ainda que a variável mais relacionada com lesões não era a superfície de treino, a velocidade, a quilometragem semanal, nem mesmo o peso corporal ou o histórico de lesão, mas o preço do tênis!

Aqueles corredores com calçados que custavam mais de U$95 eram duas vezes mais propensos a se machucar do que os corredores com produtos que custavam menos de U$40. Os pesquisadores constataram que “usuários de tênis caros (…) se lesionam significativamente mais frequentemente que os corredores que usam tênis baratos”.

Este estudo não é único em suas conclusões. Podemos citar ainda um estudo de Steven Robbins (1990) que encontrou que tênis caros não compensavam um maior investimento, podendo mesmo aumentar o risco de lesões.

Obviamente que seria quase uma irresponsabilidade (além de uma conclusão equivocada para não dizer burra) afirmar que o preço do tênis é, por si só, uma variável direta por lesões. Bastaria assim apenas uma promoção ou liquidação sazonal para um tênis ficar melhor ou mais seguro. Isso porque há o fato comportamental. Lembremos que há uma relação entre expectativa e realidade, você é mais rigoroso com aquilo que paga mais caro, no caso do levantamento da RunRepeat. Já nos outros 3 casos, nem mesmo os autores chegam à conclusão de que o preço determina o risco, eles apenas tentam deixar claro que pagar a mais não te protege a mais.

Porém, há explicação. Um estudo interessante também feito por Steven Robbins (1997) viu que tênis mais caros podem, pela propaganda intencional de seu fabricante e indiretamente pelo seu maior preço, transpassar a impressão de que oferecem maior proteção de amortecimento ao corredor, ainda que não haja evidências científicas de que eles consigam de fato fazer mesmo isso. Essa falsa sensação de segurança dadas pelo preço e pela propaganda das empresas diminui a atenuação do impacto feito pelo usuário que corre com pior técnica e causa mais lesões. Ou seja, é um fator comportamental induzido por um produto que não pode entregar aquilo que promete.

E no Brasil? Teríamos dados para fazer algo parecido?

Eu resolvi então analisar de forma simples as avaliações (“reviews”) feitas pelo canal de YouTube Corrida no Ar. Por que ele? Por várias razões.

Primeiro porque ele é o maior canal do mundo falando sobre corrida! Isso não é pouca coisa! Outro motivo é que o canal faz avaliações diretas com notas (de 0 a 5) usando 10 quesitos (entre eles “preço”, ainda que com outros menos relacionados com qualidade, como beleza). Com isso podemos fazer comparações diretas e objetivas entre modelos diferentes usando valores numéricos.

A metodologia pode não ser perfeita, mas é interessante para tentarmos ver com dados brasileiros se um maior preço traria realmente maior qualidade. *aqui vale atentar para algumas particularidades. A primeira é o conflito de interesse. O canal é patrocinado pela adidas. Eu fiz os cálculos com e sem os tênis dessa marca. Os resultados foram praticamente os mesmos, então escolhi postar incluindo os tênis da marca alemã uma vez que isso dá um maior volume de dados sem nesse caso prejudicar a confiabilidade da resultante. As médias das notas foram feitas excluindo-se a nota dada para “preço” (1 dos 10 quesitos) justamente porque a ideia era encontrar uma nota média independente do preço do calçado. E o detalhe que deve ser reforçado é que as notas dadas pelo Corrida no Ar não têm nenhuma correlação com lesões ou segurança, elas são apenas indicadores da qualidade de um tênis usado por pouco menos de 100km em média. Ou seja, NÃO podemos retirar ideia de maior segurança (menos lesões) ou não em funções dessas notas, ao contrário de alguns dos estudos supracitados!

Analisando-se o gráfico com as avaliações de 31 modelos de 13 marcas feitas pelo canal, temos que há realmente uma correlação positiva entre preço e qualidade. Mas talvez valha citar que os 2 tênis mais caros estão abaixo da média enquanto o mais barato está acima da média custo-benefício. Esse ganho de qualidade com maior preço pode não ser tão forte e garantida, mas ela existiria!

Mas insisto em dizer que aqui não discutimos se os tênis mais caros são mais seguros (menos lesões), mas apenas que seriam “melhores”, seja lá o que isso signifique na prática.

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Sobre Corrida, Jejum, Ramadã e o delírio de não encarar a realidade

Faz questão de uns 4 anos que publicações de corrida voltaram a dar destaque a algo que se faz há décadas: correr (ou fazer qualquer exercício) em jejum. Há um motivo fundamental para isso: é que para se gerar conteúdo, esses canais fazem um loop infinito, tal qual as antigas revistas de adolescente, eles revisitam de tempos em tempos o mesmo tema, afinal, algo precisa ser postado e publicado sempre, não importa sua qualidade.

Impressiona o hábito e tamanha insistência equivocada dos veículos em chamar treinadores para falar de Nutrição. Há um detalhe aí: você não deveria tratar desse assunto com treinadores como consultores, uma categoria que não estudou isso de modo central em sua formação. É como convidar um médico para falar em revista de veterinária, ou ter um engenheiro civil falando de Física no portal. Eles até sabem um pouco, mas seu raciocínio é quase sempre por aproximação, incompleto, falho.

E aí os veículos completam ainda com outro problema: convidam nutricionistas que têm enorme talento para falar bobagens. Não vou citar, vocês sabem quem são eles. Eles têm colunas fixas, uma característica muito comum de quem sabemos não ser muito bom.

Talvez o cerne da questão é que quem deveria entender a teoria criando hipóteses observando o mundo real faz tudo no sentido contrário, ou seja, eles dão mostras de não entender absolutamente nada. Por décadas as pessoas fizeram (e fazem!) atividade física em jejum sem NENHUM grande problema. Alguém estabelecer uma diretriz nutricional diferente não transforma a realidade!

Indo muito mais longe temos que o homem pré-histórico tinha que ter PELO MENOS um desempenho MUITO BOM em jejum. Houvesse hipoglicemia, tontura, desmaio, fraqueza ou perda de massa muscular quando não comesse de 3 em 3 horas, o homem antes do advento da geladeira, do supermercado e do micro-ondas, teria desaparecido, não teria conseguido correr atrás de sua próxima refeição. Quando um predador corre perseguindo sua presa ele não alonga, nem come “uma porção de carboidrato e proteína magra” antes. Sua preparação é a necessidade e a vontade. Seu corpo foi construído para que ele possa fazê-lo, não importando a bobagem que diga o colunista especialista.

Porém, o profissional da Saúde atual parece viver em um mundo de fantasia. Delírio esse sabemos não ser exclusivo da categoria dos nutricionistas, uma visita breve a portais como o da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva prova meu ponto. Aquilo é uma sequência de bobagens feitas por iletrados no assunto Nutrição. *e aqui nem vou perguntar se aquilo é de graça ou entrega de alguma compra, não creditemos ao mau-caratismo o que pode ser apenas explicado pela incompetência mesmo.

Quando fui escrever o capítulo sobre jejum para meu livro O Treinador Clandestino, eu tinha dificuldades em encontrar estudos que explicassem a segurança e mesmo efeitos benéficos talvez exclusivos do jejum na corrida. Eu não precisei ir até a Pré-História nem ficar nesses textos de 2013 para cá. Aliás, usava esses textos apenas para saber o que era errado. Não falham nunca! E minhas buscas meio que por acaso caíram em um termo conhecido que me abriu um mundo. Não era ele fisiológico, era ele religioso. Mais precisamente o Ramadã.

Os muçulmanos fazem jejum religioso um mês por ano, comendo e se hidratando apenas entre o pôr e o nascer do sol. Este ano, como ele sempre muda, foi de 26 de Maio a 24 de Junho. Quando você observa o comportamento de atletas que fazem jejum (seja nos países islâmicos ou entre os religiosos espalhados pelo mundo) você observa que: não há queda de desempenho, não há redução nas sessões de treino, não há aumento do número de lesões nem aumento de ocorrências médicas entre praticantes.

E uma matéria recente da Dyestat me chamou atenção porque trata de algo que deveria já ter ser sido visitado por quem escreve no assunto: como é a rotina de alguns atletas muçulmanos durante o Ramadã. Ou seja, como é a realidade deles (e não o delírio dos especialistas) para lidar com seus treinos e competições sem poder comer nem beber absolutamente nada durante o dia claro?

Impressiona que mesmo entre atletas que precisam competir bem, ou seja, entre pessoas que não são meros participantes recreativos. Esses corredores ou competem em jejum ou quebram o jejum apenas em competições, não em treinos. E vale reforçar que o jejum religioso não possibilita sequer beber água. Já o jejum intermitente não-religioso é mais brando porque permite ao praticante se hidratar com água, chás e café (sem açúcar), e mesmo refrigerantes light/diet.

A alucinação coletiva de nutricionistas, médicos e treinadores que dizem que jejum compromete a massa muscular ou a segurança do atleta não sobrevive a uma pesquisa preguiçosa de estudos ou, reforço, do mundo real de décadas de atletismo ou de milhares de anos que não viram pessoas definhar sua massa muscular. Isso porque o jejum aumenta a liberação de adrenalina (maior atenção e maior queima de gordura) e aumenta ainda a liberação de GH (que promove a preservação de massa muscular, não à toa um hormônio muito utilizado nos anos 80 e 90 entre atletas que queriam se dopar).

Pois bem, essa questão de jejum é só mais um exemplo de como devemos primeiro olhar o que acontece, para só depois formarmos nossas hipóteses que expliquem a realidade. Gostem ou não, pratiquem ou não, acreditem ou não, o jejum (com ou sem atividade física) existe há milhares de anos. Estabelecer por diretriz que ele faz mal não o fará… nos fazer mal. Isso é apenas pensamento mágico! *para não dizer pensamento burro.

 

Lição de Casa

Você deveria treinar em jejum para correr melhor? Eu acredito que incluir algumas sessões leves em jejum pode ser muito beneficial, sim. Porém, é puro achismo. A minha aposta é porque jejum é uma quebra de homeostase, pivô no treinamento físico. Mas esse texto não é sobre DEVER, mas sobre PODER.

Então podemos treinar em jejum sem maiores prejuízos? A prática diz que não sendo sessões extenuantes em volume e/ou intensidade, que sim. E mesmo entre os habituados, até essas sessões podem ser feitas em jejum. Ou ainda, escrevendo em um modo um pouco mais mundano: não havendo fome, POR QUE DIABOS ter que comer antes de sair pra correr?!?

Mas nunca faltará “especialista” que em seu delírio ou ignorância no tema não vá tentar negar a realidade.

 

*como dito, no meu livro O Treinador Clandestino falo sobre corrida em jejum. Pouco falo disso no livro O Nutricionista Clandestino, mas eles estão sendo vendidos impressos em um combo com valor promocional, basta clicar aqui!

 

 

 

 

 

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O peso do corredor tem relação com lesões?

Tem, mas provavelmente é bem diferente do que você imagina…

Vou arriscar um palpite: saia perguntando entre treinadores de corrida de assessorias se um maior peso do atleta está correlacionado positivamente com ele sofrer mais lesões (mais peso, mais lesões) e acredito que mais de 80% diria que sim. Mas… estaria mesmo!? Quando olhamos na literatura não encontramos essa correlação. *Trato disso em O Treinador Clandestino (versão impressa clicando aqui).

Aliás, o contrário parece ser verdadeiro: atletas mais leves têm mais lesões. Um texto interessante no The Washington Post agora retrata que atletas com baixo IMC inclusive demoram mais para se recuperar de lesões por estresse repetitivo (variações da canelite para o amigo corredor entender).

Ao contrario do que você sempre ouve, o tênis pouco ajuda na prevenção das lesões ósseas…

A primeira ideia parece simples de explicar… Atletas mais pesados geralmente treinam (e conseguem correr) menos quilômetros e em uma velocidade menor, e isso gera menor carga mecânica. Já a ideia do IMC baixo ser um problema exige explicar outras nuances.

O IMC é limitado para se aplicar em indivíduos (apesar de poder ser interessante quando usado com populações) porque junta em um número duas variáveis: massa muscular e massa gorda. A saúde óssea sabemos hoje ser muito dependente de nossos hábitos de atividade física, já a massa muscular é por sua vez muito dependente desta (e não da nutrição, como muito nutricionista gosta de acreditar). Por sua vez, a massa de gordura é algo meio morto atleticamente falando, gera “apenas” carga. Para uma melhor saúde óssea precisamos fazer exercícios, o que por sua vez gera ganho de massa muscular, e causa pouco impacto na massa gorda.

Podemos levantar a hipótese então que essas pessoas de baixo IMC (os leves) que se machucam são aquelas de pouca massa gorda (que não tem muita relação com exercício) e que também fazem pouca atividade física. Assim fica claro entender que não é o peso baixo per se que aumenta a susceptibilidade de se machucar ou atrapalhar na recuperação, como dito no artigo do jornal, mas apenas reforça que é massa muscular que é um indicativo da saúde óssea.

A pessoa pode ser sedentária e ter pouca gordura E pouco músculo. E esses parece que irão lesionar seus ossos não por serem leves, mas por terem pouca massa muscular. E, por incrível que pareça, as pessoas de alto IMC (as que seriam gordas) teriam 2 fatores protetores: elas são um pouco mais fortes (o corpo ganha músculos com o hábito de carregar mais peso) e quando elas se movimentam, o fazem em velocidades e volumes menores. A gordura aqui acaba sendo um protetor dos ossos (e é bom destacar aqui porque a gordura pode proteger os ossos, mas no âmbito geral mais gordura está correlacionada com menor longevidade).

Uma balança prática assim que medisse nossos músculos faria mais pelos ossos do que manter o peso baixo…

O que podemos concluir disso?

Basicamente a limitação do IMC está no fato que ele não difere o que é muita/pouca massa adiposa (o que faz a pessoa poder ser gorda ainda que não pesada, os falsos-gordos) e o que é muita/pouca massa muscular. Mas talvez a melhor lição que fica é que se você quer proteger os seus ossos (hoje e no futuro, leia-se: terceira idade) não basta olhar para a balança, você precisa olhar principalmente para a sua rotina de movimento (o mais importante) e para os aspectos nutricionais (uma dieta que ofereça condições de ganho de massa óssea DESDE QUE esteja treinando). Não é questão de peso, mas de músculo!

 

Se você se interessa por esses mitos da corrida ou outros aspectos das lesões (alongamento, tênis, pronação…) reforço o convite para ler meu livro O Treinador Clandestino (versão impressa clicando aqui) onde trato desse assunto mais profundamente.

Danilo Balu

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Sobre Lindy, Vovós e falsos especialistas. OU ainda: o Tempo como senhor da Razão.

Um dos temas que mais aprecio, mas sobre o qual eu dificilmente decido escrever muito é a latente ineficiência dos atuais tênis de corrida na diminuição das lesões nesse esporte. Se eu precisasse resumir em poucas palavras o recente histórico seria: nos últimos 40 anos os tênis ficaram maiores, mais pesados e (muito) mais caros. Agora os modelos convencionais contam com “tecnologias” que prometem um maior controle de pisada, maior amortecimento e um menor risco de lesões. Mas na realidade conseguiram oferecer com evidências apenas maior conforto, uma falsa sensação de maior controle (o que não é bom!) e menor resposta sensorial aos pés com suas entressolas mais espessas (o que com certeza é ruim). Ou seja, não há vantagem ou menor índice de lesões, porém dão uma falsa sensação de segurança, o que é muitas vezes contraproducente.

 A QUEM OUVIR? – O que é um especialista? O que é um falso especialista? Em quem acreditar?

Você não terá dificuldades para encontrar treinador dizendo que você deve treinar apenas com quem tem CREF, o que é uma tremenda bobagem; discurso de quem se preocupa mais com o próprio bolso do que com aquele que deseja correr. No campo das ideias, quem decide quem é e quem não é especialista é o tempo. E existe uma regra para isso, o Efeito Lindy, uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.

Aplicado aos tênis de corrida, os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde os anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar um corredor (nem tão) iniciante com suas propagandas chamativas, pode convencer o jornalista que só lê release, pode convencer aquele médico que faz lista de “tênis bom para o joelho”. Você apenas não engana duas entidades: Lindy e o Tempo.

É por isso também que não gosto muito de escrever sobre tênis. Não tarda para aparecer quem se encante com release e propaganda, mas quando olhamos no tempo vemos que a fragilidade dos argumentos não sobrevive a ele, uma vez que um dos discursos dos fabricantes diz que “esta versão está ainda melhor que a anterior” ainda que ela não tenha se mostrado em NADA mais segura que um tênis de corrida de 1965! É como o Comunismo/Socialismo, nunca deu certo em lugar nenhum, mas deveríamos continuar tentando. Para estes todos é muito triste quando o seu “mundo dos sonhos possíveis” encontra a vida real.

Fosse um modelo de tênis convencional de hoje superior aos da década de 60, o conceito desses teria morrido, mas continua vivo ainda que sem a força da propaganda. Por quê?

 

“Insanidade em indivíduos é algo raro – mas em grupos, festas, nações e épocas, ela é uma regra”. (Friedrich Nietzsche)

 

Por que tantos de nós correm com tijolos aos pés que NÃO os protegem? Por que comemos 60% das nossas calorias justamente do nutriente que é não-essencial à vida? Por quê?

Vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas. Muitos deles montam suas teorias na segurança de não ter que submeter alguém previamente ao que pregam. E é aí que nossas avós são melhores do que nossos nutricionistas. Se na saúde você tiver que seguir uma recomendação nutricional, marque um encontro com sua avó, JAMAIS uma consulta com um Nutricionista.

Sempre que alguém vem e me chama de polêmico (o que não é verdade), repare que provavelmente estou apenas a dar peso a pesquisas que com rigor contradizem o senso-comum, seja na Nutrição ou sobre com qual tipo de tênis que deveríamos correr. Afirmações essas que eu sei que acarretam danos à reputação dos falsos especialistas, os especialistas em release, ou os ignorantes por conveniência, estes os mais desonestos. As ideias desses não sobrevivem honestamente ao tempo. Veja: são 40 anos para provar que tecnologia ajuda. Sem provas. São 40 anos seguindo cada vez mais as diretrizes nutricionais: nunca tivemos um mundo tão obeso. Esses especialistas (nutricionistas e defensores da tecnologia em calçados) são vulneráveis à prova do tempo e esperam que a realidade mude seu funcionamento, não suas teorias absurdas.

AVÓS vs PESQUISADORES

Por isso insisto com uma heurística: quer ir ao Nutricionista? Converse com sua avó. Com enorme chance de acerto afirmo que 85% das vovós estarão certas. Menos de 15% dos nutricionistas têm essa taxa. Por quê? Porque elas, nossas avós, comiam alimentos que foram a base da nossa dieta por muitos séculos. O Nutricionista não, ele vive de um pensamento mágico de teorias de apenas 40 anos que jamais foram postas à prova. Ele não tinha muito a perder, nossas avós e antepassados tinham.

Com tênis de corrida não é diferente. Por séculos os corredores, que dependiam do sucesso de sua corrida, usavam calçados com pouco suporte. Por que então dar ouvidos a jornalistas, fisioterapeutas e médicos que NÃO estudam DE VERDADE o assunto (pseudo-especialistas) e cuja parte de seu sucesso depende justamente do SEU fracasso (lesão) na corrida? Há uma enorme dissociação de interesses, como em quase todas as áreas da Saúde.

Ou ainda, aplicando à teoria da Avó-Nutricionista, veja o tipo de tênis que os veteranos abaixo, que querem ganhar a prova, calçam e veja o que diz o ~especialista~ da revista/site de corrida de seu veículo favorito que quer vender tênis. Tire você suas próprias conclusões… já sabemos mesmo que ele é um falso expert.

imrs

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