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Um pouco mais sobre correr na grama – parte 2

Continuando raciocínio do último post... Em toda Adis Abeba, capital da Etiópia, acredito haver 3 pistas sintéticas de atletismo. Todas elas de acesso restrito. Em uma apenas atletas profissionais podem treinar, em outra ninguém entra e em outra, a do atleta Kenenisa Bekele, você precisa pagar U$15 (30% do salário médio etíope) por dia para treinar.

No Quênia, as pistas mostradas nos diversos documentários são sempre de carvão (ou terra batida, como preferir chamar). Há um conceito, totalmente equivocado a meu ver, que lamenta o fato de esses locais não contarem com melhor estrutura de treino. Por “melhor estrutura” leia-se pistas sintéticas. Isso é verdade? NÃO!

O aparelho locomotor dos seres humanos se desenvolveu com a espécie se deslocando em terrenos irregulares. Uma coisa é COMPETIR em piso duro e estável, a outra MUITO DIFERENTE é passar a maior parte do tempo (treinando ou não) nele!

Eu acho que o ônus da prova de que é melhor ter pistas sintéticas está com a turma que acredita na tecnologia que insiste em afirmar e propagar promessas antes nunca cumpridas.

Estou falando isso porque recebi da mesma pessoa a leitura de seu GPS em um treino feito em uma pista de carvão, mais barata, mais comum em países mais pobres. Veja como ela se aproxima mais da leitura feita em um piso irregular (grama). Veja ainda como esse tipo de piso, MESMO QUE seja uma pista de atletismo, é irregular.

Não é que quenianos e etíopes são melhores AINDA QUE treinando em pista de carvão. Para mim, eles são melhores TAMBÉM porque fazem isso!

 

 

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Um pouco mais sobre correr na grama

Dias atrás um corredor me mandou o gráfico do treino dele feito em um ambiente gramado “sem subidas íngremes”. Tenho dito nos últimos textos e em meu último livro “Correndo com os Etíopes” o quanto acredito nos benefícios e vantagens de corrermos em pisos irregulares.

Resumidamente temos que esse tipo de terreno (grama, terra, trilha…) cria cargas em diferentes planos (que não apenas centrada no sagital, como é na corrida), além de exigir trabalho de outros músculos e partes do corpo, algo que não se faz na corrida em terreno mais uniforme como esteira, pista de atletismo ou asfalto.

Só que é natural duas coisas. Primeiro é achar que piso irregular significa necessariamente correr em trilhas de alto grau de dificuldade, no meio do mato.

E outro erro é achar que por morarmos em cidades, com pouco acesso a trilhas, essa prática é inviável. Mesmo treinadores que concordam comigo adiantam sobre o enorme desafio que é fazer o corredor de assessoria criar o hábito de por os pés na terra/grama. Sim, quando se vai ao Parque do Ibirapuera, por exemplo, mais de 95% corre no asfalto na volta de 3km. Mais do que isso vai à USP e corre no mesmo piso duro.

Porém, em ambos os locais há muito espaço verde. E o gráfico que esse leitor mandou nos revela que mesmo em um gramado convencional “sem subidas íngremes” já se reproduz muito da irregularidade, aquilo que quenianos e etíopes tanto buscam em seus países que fazem deles alguns dos povos mais rápidos do planeta.

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A corrida como uma sucessão de saltos…

Correr é tão simples – você nasce, anda e corre. Não complique!

Se Herb Elliott, um dos maiores corredores da história, disse isso quem sou eu pra discutir??

Gosto de ver a corrida como sendo aquilo que ela é: o gesto atlético mais simples que existe. Tenho pavor quando dizem que “cada um tem um jeito“… NÃO! Você olha e SABE que alguém corre. Você nunca confunde alguém correndo com alguém dando cambalhotas. Há um padrão COMUM ao movimento.

Gosto de ver também a corrida como uma série de saltos horizontais. Os melhores, mais eficientes, vão mais à frente e menos ao alto. Por ISSO também que o fortalecimento da corrida simula este gesto.

Sabe aquele exercício esdrúxulo de força que pediram que você faça na academia? Pense: ele te fará saltar mais? Se não, por que faria você CORRER mais?

Outra coisa, quando você salta você cai com o calcanhar? Dói, né?! Será que não há uma lógica nisso tudo?

A imagem que separei abaixo neste post é uma das fotos mais incríveis do atletismo em 2019. Se você ainda tem certa dificuldade de entender a corrida como sendo uma série de saltos horizontais, espero que ela te ajude algo que também não também vi de cara…

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Trabalho duro e sem ‘glamour’

Nos anos de Otto Peltzer (…) havia uma obsessão com o estilo de corrida. (…) A ascensão do atletismo amador no final do século XIX levou a uma sensação de que o trabalho duro e sem glamour poderia ser substituído por um foco no movimento gracioso.(…) Peltzer, sempre individualista, certamente não concordou totalmente com essa visão. Sim, um bom estilo era importante, mas, como explica em seu livro “Manual de Treinamento para Atletas” (1926), era essencialmente uma questão de desaprender: as crianças têm um estilo de corrida natural, que tende a ser “destreinado” por seus treinadores. Franz Stampfl, que ajudou a treinar Roger Bannister para a quebra dos 4 minutos na Milha, fez a mesma observação em seu “Franz Stampfl on Running” (1955).

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Recentemente Steve Magness cunhou uma frase incrível: Expertise é você saber filtrar o que realmente é importante.

Eu reforço essa frase porque sempre bato na tecla de que os melhores corredores amadores parecem saber MUITO melhor do que os mais lentos aquilo que os faz… melhores! Ou seja, existe uma hierarquia de prioridades no treinamento. E atleta e treinador devem ter bem claro na cabeça aquilo que é determinante no seu esporte!

Nos meus anos como personal trainer meu aluno que mais me pagava eu não passava mais do que 3 horas semanais com ele! É mais ou menos como você chegar na aula de inglês e seu professor particular dizer que irão estudar (em português) a vida de Shakespeare. É falta de prioridade, não sinal de que não importa!

Peltzer, um dos maiores atletas alemães da primeira metade do século passado achava que, por ser amador, não tinha muito tempo para “investir” em exercícios educativos, então ele treinava duro. Mais. O meio-fundista alemão, bom que era, sabia o que era realmente importante em sua corrida.

É óbvio que você pode ir à pista e investir meia hora em educativos, aos quais não encontramos na literatura muitas evidências sólidas de benefícios concretos e palpáveis seja na técnica, seja no desempenho. Eu escrevo esse texto após voltar da pista de atletismo onde tive menos de 1h30 para dar treino. “Investi” zero em educativos (*na verdade as corridas coordenadas são pra mim o educativo mais específico que existe!)! Por uma questão de prioridade, como eles querem correr rápido, não bonito, ficamos no “trabalho duro e sem glamour”.

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Valgo Dinâmico?!?

OU AINDA: POR QUE NÃO LEIO JORNAIS

Semana passada no meu Instagram (@danilobalu) – sempre lá! – perguntaram o que era melhor no tratamento do corredor com valgo dinâmico. Há um problema nisso aí… eu, Danilo Balu, trabalho com corrida e não faço IDEIA do que seja valgo dinâmico… Mais ainda: poderia em pesquisa de 30 segundos resolver a questão, mas seria perda de tempo. Saber se um corredor tem ou não valgo dinâmico é – arrisco dizer – completamente inútil, não muda NADA na minha abordagem com ele na corrida, então prefiro investir esse tempo pesquisando coisas melhores, como quem eram os zagueiros reservas da Copa de 98 (Gonçalves e André Cruz), por exemplo.

 

“NÃO LEIO JORNAIS, NÃO LEIO PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS…”

Tenho TV a cabo, mas não vejo telejornais. Tenho redes sociais, mas não sigo veículo de notícia. Tenho internet, mas não abro NENHUM periódico científico. ZERO. NEM UM. Por que faria??

O que é realmente e DE FATO importante, chega até você. Eu sei o que é síndrome da banda iliotibial, periostite/canelite, fascite plantar… Essas lesões eu NUNCA precisei pesquisar a priori, foi SEMPRE a posteriori, porque de uma forma ou outra “chegaram até mim”. Se o valgo dinâmico não chegou até hoje, se NENHUM dos grandes treinadores que acompanho NUNCA a mencionou, ela nada mais deve ser que um problema “inventado” por quem vive ($) de intervir no indivíduo.

Lembre-se: é intervindo (ainda que SEM necessidade) que o profissional de saúde ganha dinheiro.

 

VOCÊ ACREDITA NA CIÊNCIA?

SIM! Mas o pesquisador está para a ciência assim como a prostituta está para o amor (ou a esteira está para a corrida). Eu não leio artigos porque o pesquisador ganha dinheiro não para fazer pesquisa BOA, mas sim para publicar pesquisa, não importa nem mesmo quão lixo ela seja. Eu não leio ainda porque estudo bom “chega até você”. Foi assim com o estudo que comentei semana passada! Ele se sobressaiu sem eu ter que perder tempo lendo os outros 98% que vão virar forro de gaiola de periquito.

Depois de 20 anos como calouro na EEFE-USP voltei à faculdade tempo atrás e eles AINDA estão pesquisando treinamento de força de 12 semanas em mulheres na pré-menopausa. Por quê? Porque VIVEM de publicar a MESMA coisa, não importando sua qualidade!

Notícia é entretenimento. Por ISSO que eu não leio NADA de quem tem coluna fixa… porque ele não vive de escrever coisas boas, ele vive de escrever 3.000 toques a cada 7 dias, não importando sua qualidade!

Uma heurística é que se alguém que NÃO vive da corrida (como eu vivo) vem e mostra saber mais do que eu de algo que ele julga ser importante, que eu desconheço, é porque isso deve ser COMPLETAMENTE desimportante. É assim que eu sei que o número do drop de um tênis ou o valgo dinâmico são coisas MUITO desimportantes à sua corrida.

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