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Reflexões – ultramaratona, Paris e “desidratação”…

Foram quase 3 semanas na Europa. Como sempre, fiz questão de achar alguma prova para participar. Quase cometi uma loucura. Uma vez que decidi fazer minha primeira ultramaratona, havendo a Maratona de Paris uma semana depois, pensei em fazer o combo ultra (89km) e 42km na França. Não me arrependo de ter sido racional e encostar a ideia.

ULTRAMARATONA

Falei um pouco no Facebook da minha estreia na ultradistância participando de uma Ultramaratona escocesa realizada há apenas 10 anos correndo 89km em asfalto plano entre Glasgow (a SP) até a capital Edimburgo (o Rio de Janeiro deles).

Meus treinos foram simples. Muito (muito) kettlebell para fortalecimento, treinos (de corrida ou não) praticamente quase todos sempre em jejum. Fiz 4 longos: três de 24km (um deles precedido por um treino de 1h00 de kettlebell) e um de 30km. Corri quase sempre com um Hattori da Saucony, um tênis minimalista no último grau. Em minhas conversas com quem já fez tal distância a dica era sempre a mesma: quanto menos tênis, melhor. Deixem os tênis estruturados para quem acredita em unicórnios.

No dia corri com um Saucony Type-A5. Claramente quem o projetou nunca correu na vida. Você não corre 5km sem pedras entrarem no solado. Imagine por 90km. Princípio Skin in the game: só treine para maratonas com quem já correu (forte) uma. Só corra com tênis feito por quem corre.

Desde quando amadureci a ideia de fazer uma ultra eu já sabia: não faria essas loucuras que vejo os amadores brasileiros fazendo pré-Comrades indo na Bandeirantes (famosa rodovia paulista) fazer 50-60km. Eu decidi não passar dos 30km. Fazer muito mais do que isso seria apenas cansaço, correndo o risco de se machucar. Desnecessário.

No dia acordei, comi uma fruta, peguei meus 4 gels, uma salsicha (queria o sabor salgado) e bebi bem pouca água e isotônico nos 5 postos que a organização oferecia. O frio e o vento eram parecidos (porém não tão fortes) como o da Maratona de Boston de dias atrás. Larguei e fiz força para não ultrapassar ninguém até a metade. Era a tática.

Minha agenda de treino era simples. De 2ª a 6ª feira pela manhã kettlebell (em jejum), almoçava e bem de noite de 1h00 a 1h20 de bicicleta ergométrica ou corrida (tiros ou rodagem). Sábado pela manhã o longo. Só.

MARATONA DE PARIS

A cada vez que presencio uma prova grande no exterior vou ficando sempre com a mesma impressão: passou de 5.000 pessoas e as provas ficam cada vez mais com a cara da nossa São Silvestre. Quando leio as críticas dos especialistas fico pensando que provas eles acompanharam.

A Maratona de Paris é uma dessas que fala com sotaque. A largada é muito organizada e linda, mas depois disso é um caos saudável. Em vários trechos se afunilam os corredores em uma procissão por uma única pista de rolagem. Não me levem a mal, a prova é espetacular. Só acho que somos desnecessariamente rigorosos com as provas brasileiras. É algo a se pensar.

A EXPO deles é incrível em variedade e pelo formato de colocar tudo que é concorrente em um balaio só, mas isso não resolve o problema do preço. Não comprei nada. Não valia. O que eu fiz foi experimentar (correndo na Expo com) o Enko (foto). Ele é mais uma prova de que é cada vez mais fácil enganar o corredor médio. Mais de U$350 por um trambolho. Use a palavra tecnologia, performance (em inglês), recuperação e outros truques que as pessoas gastam e rasgam dinheiro felizes da vida te agradecendo. Não consigo ter pena, desculpe.

COMMONWEALTH GAMES

Dias atrás um ciclista profissional morreu vítima de um ataque cardíaco e neste domingo durante a maratona que fecha o Commonweath Games (uma competição importantíssima feita entre os países do antigo Império Britânico) um escocês que liderava no 40km com mais de 2 minutos de vantagem “fuma” o motor, perde os sentidos e abandona a prova. Falaram de tudo… que o ciclista estaria vivo caso fizessem exames periódicos (como se nesse nível não fossem feitos) e que o maratonista chegou àquele ponto por desidratação, e não pelo calor infernal que faz na Austrália.

Todo problema complexo tem solução simples. E errada.

O escocês “superaqueceu” e a organização, que tinha um médico a cada 500m na parte final da prova, foi incompetente em não intervir. Dar copinhos de água não resolveria. Público não têm que fazer nada. Adversário também não. É amador que adora para depois fazer textão. Já sobre o ciclista belga, que os urubus de plantão esperem o corpo esfriar antes de querer vender a solução.

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Quando o Skate sentiu na pele o ativismo da Corrida

Semana passada perdi as contas de quantas vezes vi compartilhada uma foto. Nela os 2 vencedores de um campeonato de skate. Com os cheques simbólicos do prêmio em mãos você tem um atleta que ganhou quase 4 vezes mais que a campeã. Essa discrepância é o ideal? Não precisamos pensar 10 segundos para saber que NÃO. O ideal é que ela seja ZERO um dia. Mas essa discrepância é (atualmente) por si só ruim? A resposta não é assim tão simples quanto parece.

Há algo que incomoda qualquer pessoa: as injustiças e a sociedade mudam em uma velocidade bem menor do que gostaríamos. Porém, na ânsia por corrigir as coisas na base do grito, aumentando uma velocidade que nos incomoda, não dando tempo para que algumas coisas se realoquem, perdendo o foco do que REALMENTE importa, podemos prejudicar justamente aqueles que achamos defender.

A análise do que a foto significa (e não do que ela representa) tem que ser feita com um pouco de calma. Vi muita gente que considero inteligente aos gritos, como se a organização do evento fosse por si só machista ou misógina. Duvido que sejam. Não conheço ninguém ali, mas faço essa aposta (arrisco isso até porque dizer o contrário seria uma injúria irresponsável) porque já participei de dilemas quase parecidos.

O fato é: a boa vontade pode até ser infinita, o dinheiro não.

Sim, o dinheiro.

Chegamos assim à corrida…

Posso dizer que tenho experiência no ramo. Por que a corrida não premia financeiramente as categorias de idade? Por que a corrida não premia os especiais (cadeirantes, por exemplo)? O motivo é simples, se vier uma ordem de cima pra baixo, o mercado se protege. Quando uma lei diz que deve haver premiação igual, você simplesmente foge desse local ou na insistência você extingue a competição ou o benefício de todos. Existem inúmeros exemplos recentes na corrida! Quer alguns?

O jantar de massa é criticado porque é em horário reduzido? Retire porque ampliar custa dinheiro. Tem que premiar por idade porque a lei municipal exige? Mude de cidade. Tem que premiar mulheres e homens iguais mesmo os destaques sendo homens? Dê cachês reservado a alguns homens. Quer pagar mais, mas prêmio acima de R$10.000 exige pagar outros R$15.000 por um exame antidoping? Fique então pagando menos.

Homens e mulheres são iguais, lógico. Merecem prêmios iguais! Devem ser tratados de forma igualitária. A competição de skate que gerou o debate envolvia 25 homens profissionais, 3 mulheres profissionais e outras 7 amadoras. HOJE infelizmente não dá para pagar o mesmo se você quiser viabilizar o torneio. É ruim? MUITO. Agora olhemos por outra ótica: NUNCA um torneio havia pago tamanho valor a uma skatista mulher. E isso é BOM. Muito bem-vindo! Mas a mensagem que ficou é que o torneio era machista e misógino. Não houve elogios de ativistas, apenas críticas.

Semanas atrás fui a um churrasco em que um amigo estava com sua filha pequena andando de skate rosa da Barbie. As meninas da minha geração não PODIAM andar de skate porque isso era “coisa de vagabunda”. Há dois jeitos de você enxergar o que eu vi. Uma é achar que é muito bom ver que a filha deste grande amigo cresceu em outra realidade a ponto de ganhar dos pais um brinquedo antes proibido a meninas. Ou uma visão ativista radical e apressada e dizer que meu amigo é um machista misógino porque deu à filha um skate rosa com a imagem de uma personagem que “oprime há décadas as mulheres mundo afora”. Você entende onde quero chegar?

Falo tudo isso porque obrigar que a organização deste evento em 2019 premie igualmente as categorias abre um precedente simples que eles sabem tão bem quanto eu como “solucionar”. Você “por fora”, mas 100% dentro da lei, paga cachês aos homens mais importantes para que eles compitam. Em um cenário hipotético você iguala a premiação em R$3 mil pagando uns R$10 mil “por fora” (insisto, não há infração nisso!). Você consegue pagar menos, prejudica AS atletas e silencia os ativistas. Entende meu ponto?

Não há solução fácil nem mágica para equalizar os pagamentos. O tênis, por exemplo, oferece pagamentos iguais em torneios (o britânico Wimbledon, ao contrário do que pode parecer, apenas em 2007 igualou as premiações). Mas em patrocínio não há equivalência. Por quê? Pelo mesmo motivo que nos 100m o campeão recebe mais destaque ($) que o maratonista ou vencedor do Lançamento de Dardo. Você consegue reduzir discrepâncias, igualar importância (número de pontos e medalhas, por exemplo), mas não consegue tornar iguais coisas que são intrinsecamente diferentes.

Os ativistas mais apressados têm mesmo que se sentir incomodados, mas na pressa por justiça e pela falta de ver algum lado positivo, os maiores prejudicados podem ser justamente aquelas que eles tentam defender.

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Os Maiores Eventos de Corrida do Brasil (2017)

Para acabar a série dos dados das provas brasileiras em 2017, publico agora os maiores eventos de corrida do país em 2017. Nas últimas semanas publiquei os dados das Maratonas e maratonistas brasileiros, os números das Meias Maratonas do Brasil e quais são as 50 Maiores Corridas de Rua do Brasil.

Não é surpresa a liderança de nossa corrida mais tradicional. A São Silvestre muito provavelmente apenas em 2 dos seus mais de 90 anos de existência perdeu esse título (uma vez para a Maratona Pão de Açúcar de Revezamento e outra pra Nike 10K Human Race nos anos 2000).

Nesta lista vão apenas os eventos que somam mais de 10.000 concluintes somadas todas as distâncias em suas provas paralelas. Em 2015 esses eventos eram 9, em 2016 chegaram a 11 e agora voltam a ser nove.

Diferentemente de 2015 e 2016 não houve eventos exclusivamente para mulheres, mas uma delas é noturna (Corrida de Reis). Apenas 3 têm distâncias únicas (São Silvestre, 10km Tribuna FM e Volta da Pampulha), somente 3 ficam fora do eixo Rio-SP, 6 têm transmissão pela TV e 2 entraram pela primeira vez na lista (Corrida de Reis e Maratona de SP).

Veja a lista completa abaixo!

*A Wrun (SP), as Night Run (SP), a Vênus (SP) e a M5K (SP) são provas que já figuraram na lista.

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As 50 maiores corridas de rua do Brasil (2017)

O Recorrido publica com exclusividade (aqui completo) os dados das 50 Maiores Corridas de Rua do Brasil em 2017. Este é um levantamento único no nosso mercado e busca principalmente dar números, apontar em quais cidades acontecem, as distâncias mais procuradas e de maior sucesso, além de listar quais são as nossas maiores corridas de rua sem depender dos números de pouca credibilidade das organizadoras que quase sempre inflam estes valores.

Comparando com 2016:

– Das 50 provas 14 entram na lista (9 pela primeira vez desde 2014, data do primeiro levantamento);

– O número de concluintes caiu 3,4% (308.000), o pior desde 2014;

– As provas de 5km continuam sendo as mais frequentes na lista;

– Mulheres são maioria em 17 das provas sendo que 6 dessas são exclusivamente femininas.

Já a localização destas provas mostra-se bem concentrada. 28 em São Paulo e 12 no Rio de Janeiro. Apenas essas duas, Brasília (3) e Belo Horizonte (2) são locais de mais de uma prova.

Nenhuma fica na Região Norte, apenas Florianópolis no Sul e somente Santos (SP) fora de capitais.

Outra característica é notar que 3 organizadoras possuem 32 das 50 corridas! E das 6 maiores, todas já foram exibidas ao vivo na TV, mostrando a força desse fator em determinar o sucesso de um evento.

Porém, organizar corrida não é algo fácil nem garantia de muito lucro, vale destacar que mais uma vez 4 das maiores corridas do país em 2016 foram descontinuadas em 2017. Ou seja, é um investimento que está longe de ser garantia de sucesso!

Para ver todos os números, fica aqui o convite para você ver o Infográfico das 50 Maiores Corridas do Brasil em 2017!

 

*aqui você tem ainda o infográfico das Maratonas e aqui o das Meias Maratonas.

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Os números das Meias Maratonas brasileiras em 2017: o perfil do corredor brasileiro

Publico hoje no Recorrido (aqui completo) o relatório das Meias Maratonas Brasileiras. Este é um levantamento único no nosso mercado de corrida e busca dar números a uma das distâncias preferidas pelos corredores brasileiros, os 21km. No ano de 2017 que se passou podemos destacar:

– Um número recorde de concluintes (pouco menos de 140.000, aumento de quase 20%);

– Um número recorde de provas (135);

– A participação feminina que só crescia, se estabilizou.

Se nossas provas ainda não são gigantes como as internacionais, elas estão cada vez maiores e mais femininas. Como tem sido praxe, a Meia Internacional do Rio de Janeiro (Yescom) aproveita a força da TV para ser com folga a maior prova do país.

Das 10 maiores provas, 8 estão no eixo Rio-SP.

A Golden Run Brasília (8ª) é a maior fora do eixo.

A soteropolitana Shopping da Bahia Farol a Farol (10ª) a maior do Nordeste.

A Meia de Floripa (13ª) é a maior da Região Sul.

A Meia Maratona de Manaus é a maior no Norte (32ª).

Já a das Cataratas do Iguaçu (18ª) é a maior fora das capitais.

Para quem acha que é fácil ganhar dinheiro organizando provas de 21km, vale lembrar que nenhuma prova apenas cresceu no período 2011-2017. E das 15 maiores, somente 4 não têm outras distâncias correndo em paralelo, o que mostra como é difícil organizar provas muito rentáveis nessa distância.

Por fim, com a entrada de novos corredores, mais inexperientes, a velocidade mediana do meio maratonista brasileiro cai. E hoje ela está em 2h19 (~6´35″/km) entre as mulheres e 2h04 (~5´50″/km) entre os homens. O que isso significa? Que se você, homem ou mulher, corre ao menos 1 segundo mais rápido que essas marcas, você chega à frente da metade (50%) de todos os demais corredores brasileiros.

Ainda falando em velocidade, se você busca uma boa marca, talvez devesse dar uma chance à Meia Maratona de Florianópolis, à de Porto Alegre e à Run City Brasília, as 3 mais rápidas do país.

Para esses e maiores detalhes, entre e confira o exclusivo infográfico das Meias Maratonas Brasileiras.

 

*aqui você tem o levantamento com as Maratonas brasileiras!

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