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Não tem preço… não tem preço!

Ano passado quando decidi vir à Etiópia queria confirmar algumas hipóteses, mas não poderia JAMAIS imaginar o que me esperava. Este ano vim achando que era mais um passeio, e esse povo corredor novamente me surpreendeu!

Tem sido dias incríveis! De gratidão, simplicidade, uma sabedoria humilde, ensinamentos, talento… Não poderia ter sido melhor!

O senhor que me recebeu em sua casa usando sua filha como tradutora é um dos maiores atletas de todos os tempos. Ex-recordista mundial, treinador da seleção por N anos. Negash abrir suas portas a um desconhecido, e em sua sala fazer e oferecer café (Etíope! O melhor do mundo!!), mostrar troféus, diplomas, contar histórias, responder todo tipo de pergunta… Não tem preço… Não tem preço…

P.s.: as duras que ele me deu nos treinos ainda estou pensando se revelo…

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Eliud Kipchoge. Mas… Já o melhor a história?

A história é a caixa forte da memória.”

Na aposentadoria de Usain Bolt escrevi que ele momentos antes da sua despedida, na final dos 100m no Mundial em Londres/2017, no qual ele foi bronze, ele já era o maior da história. Sob QUALQUER aspecto ele era já maior que seus maiores rivais anteriores: OwensLewis ou Hayes (*esta é a minha ordem de melhores da história).

O queniano Kipchoge domingo último correu uma Maratona em uma velocidade jamais feita. Alguns fatos chamam ainda mais atenção pelo seu feito. Por exemplo, foi a maior margem de quebra de um recorde mundial em mais de 50 anos (Derek Clayton/1967). Outro dado assustador: suas parciais de 10km foram cada vez mais rápidas. Não é apenas um split negativo (norma desde Ronaldo da Costa/1998). Da largada a chegada, de 10km em 10km ele foi acelerando! Os 10km mais velozes foram do 32km aos 42km! Fantástico!

O MAIOR DA HISTÓRIA?

Não, não é. Kipchoge é fantástico! É bonito e um enorme privilégio poder vê-lo competir. Mas apressadamente passá-lo à frente de outros nomes igualmente fantásticos é quase um desrespeito com ícones desse esporte. O tempo ensina… Ele nos ensina, por exemplo que outros atletas já foram até mais dominantes que Eliud.

O americano Clarence DEMAR, por exemplo, venceu a Maratona de Boston, quase uma espécie de mundial da época, 7 vezes em um intervalo de 19 anos. Tremenda longevidade. Medalhista olímpico (bronze/1924), talvez lhe falte um recorde mundial. O britânico Jim PETERS, outro de enorme domínio em sua época, bateu o WR por 3 vezes em 3 anos!

Em sua busca pelo seu ouro olímpico PETERS em 1952 foi esmagado por outro fora de série. Emil ZATOPEK estreou na distância com ouro e recorde olímpico. Zatopek em suas duas provas não obteve um WR. O australiano Derek Clayton bateu por duas vezes o WR. Ninguém foi mais rápido que ele por 14 anos. É o maior domínio até hoje. Mas antes dele houve aquele que pode não ser o maior da história, mas que também sob qualquer parâmetro analisado não pode nunca ser considerado PIOR que qualquer outro maratonista que já existiu.

Abebe BIKILA, bicampeão olímpico, dois WRs, não pode NUNCA ser colocado atrás em uma lista de os maiores da história. Não pode. Não pode. Ele bateu o WR correndo descalço no verão de Roma correndo em paralelepípedos! E depois o melhorou!

E assim chego ao meu último ponto. O que vimos domingo não podemos SEQUER afirmar que foi o maior desempenho já visto nos 42km! Zatopek em Helsinque/52, Bikila em Roma/60, Salazar em Boston/82, Ronaldo da Costa/1998, Wanjiru em Pequim/2008 ou Meb em Boston/2014… não foram menos espetaculares!

Quando olhamos apenas o cronômetro (um juiz que não envelhece), temos que o WR de Zatopek nos 10.000m é mais LENTO que a média de Kipchoge. Mas a dominância do queniano é de cerca de 1% enquanto ninguém dominou mais a corrida que o tcheco. Não deve existir na história do fundo atleta mais dominante que o tcheco. Até o tempo em Berlim, descontado o quanto ele foi beneficiado no evento #Breaking2 pela barreira de vento, parece mostrar que ele correu o MESMO tempo. Ou seja, no fundo não teria havido uma melhora domingo agora (*e aqui entra que feitos os cálculos, o Vaporfly não daria aquilo que as pessoas acham que dá, mas não quero me estender).

Estou nas páginas finais da leitura de meu 4º livro sobre a trajetória de Lance Armstrong*. Sabe… “A história é a caixa forte da memória”, como disse o poeta. Espanta um pouco que caiamos tão facilmente na pressa de eleger o melhor de todos os tempos. Assim como na Maratona, temos que ir com calma…. O jogo só acaba quando termina. Talvez depois de Tóquio/2020. Até lá Bikila está no topo do pódio. Pode até dividir com Kipchoge, mas não menos que o topo.

p.s.: Nem DE LONGE sugiro que haja desconfiança no que vimos domingo… eu só nunca compro de cara o que tentam me vender…

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Livro novo na área?!? O VETERINÁRIO CLANDESTINO

É com enorme satisfação e alegria que venho até você, que compartilha muitas das minhas ideias, dizer que minha nova obra finalmente ganhou vida! Sou dono (ou como gostam de dizer, tutor) de duas cadelas.

Uma delas ficou obesa enquanto eu morava no exterior. Isso resultou em questionamentos, uma pós-graduação em Nutrição Animal e um livro que questiona tudo – absolutamente TUDO! – o que os especialistas acham que sabem sobre a silenciosa epidemia recente de obesidade em nossos amigos de 4 patas.

Em O Veterinário Clandestino faco questão de trazer estudos esquecidos, alguns escondidos, outros ignorados sobre como combater esse problema tão grave. Você irá se surpreender, eu te GARANTO!

Caso você queira saber mais, basta clicar e entrar no site do livro (e-book)!

http://www.oclandestino.com.br/veterinario

Muito obrigado!

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Os 2 Elefantes na sala que o atletismo finge não existir

No final de semana que Rafael Nadal ganhou seu 11º título em Roland Garros, ganhou destaque uma frase sua dizendo que não é justo querer comparar ou igualar na marra o faturamento diferenciado entre homens e mulheres no tênis. Bom, o prêmio aos campeões do torneio em si, é algo que já vem há cerca de 10 anos. A diferença fica mesmo pelos bônus e patrocínios.

No final de semana outro evento trouxe debate. Duas atletas trans, biologicamente nascidas homens, ganharam (ouro e prata, com direito a recorde) a prova dos 100m e dos 200m em um meeting colegial nos EUA. É justo?

A resposta é simples, mas não é politicamente correta a ponto de não encontrar muitos envolvidos que tragam o debate à tona. No caso brasileiro, atualmente há um debate no esporte de alto nível se a jogadora de vôlei Tiffany Abreu poderia competir ou mesmo servir a seleção brasileira (feminina).

Na essência do esporte está a competição sob as mesmas regras, em igualdade de condições e regras em que se respeitem a diversidade biológica entre os competidores, sem igualá-los à força. Ou seja, no basquete você compete contra homens mais altos que você e na natação nada contra atletas que, como Michael Phelps, parece terem nascidos dentro da água. Porém, em algumas modalidades as regras criam classificações para proteger o atleta. Seja no judô, ou no boxe, um atleta de 120kg não luta contra alguém de 60kg. em outros, é por uma mera viabilidade competitiva. No halterofilismo você compete por faixa de peso, por exemplo, ainda que não haja contato físico entre competidores.

As regras que diferenciam homens de mulheres servem para: possibilitar a competição (do contrário seria inviável haver mulheres atletas competindo contra homens, pois elas perderiam na imensa maioria das vezes) ou para… protegê-las. Permitir que essas duas atletas trans compitam contra e prejudicando diretamente garotas é de uma covardia sem precedente no atletismo moderno.

É de certa forma um avanço na sociedade que uma pessoa nascida biologicamente homem possa se identificar socialmente como mulher. Porém, negar a biologia só poderia ser considerado sem impeditivos quando essa alteração não gerasse prejuízo a terceiros. Se eu, um homem, me identifico como sendo uma torradeira, isso é algo que diz respeito tão somente a mim. Mas se eu me identifico como um rei supremo e exijo ser tratado assim por todos vocês, meus súditos, há complicações claras.

O esporte tem regras claras definida pela biologia. Do contrário eu posso alegar que me identifico como sendo das Ilhas Samoa, estando apto a disputar pela primeira vez os Jogos Olímpicos como atleta. Deu para entender? Não é uma questão de preconceito, argumento imbecil de quem não quer enxergar o problema que surgiu no vôlei e periga se estender ao atletismo.

Anos atrás o atletismo foi salvo pelo gongo. O sul-africano Oscar Pistorius vinha obtendo bons resultados claramente beneficiado pelas suas próteses nas pernas. Sua história de vida era incrível (um bi-amputado correndo lado a lado com os melhores do mundo). Pena que era algo artificial. Quis tragicamente o destino que o assassinato de sua então namorada, o impedisse de seguir sua carreira. O atletismo-avestruz podia assim tirar sua cabeça de dentro do buraco.

Cerca de 90% dos saltadores amputados usam a prótese como perna de salto. Não pode ser coincidência. Não é, todos sabemos. O padrão de corrida nos 400m desses atletas é completamente alienígena. Não é coincidência.

Dias atrás outro amputado quebrou a barreira dos 45 segundos nos 400m, mas parece não “oferecer perigo” aos melhores do mundo, a ponto de se iniciar um debate. Mas pode ser que a sorte que a modalidade teve anos atrás dessa vez não se repita caso floresçam mais casos bisonhos de homens biológicos competindo contra mulheres. E a modalidade fica bancando o avestruz fingindo não ver esses 2 elefantes andando dentro da loja de cristais.

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Reflexões – ultramaratona, Paris e “desidratação”…

Foram quase 3 semanas na Europa. Como sempre, fiz questão de achar alguma prova para participar. Quase cometi uma loucura. Uma vez que decidi fazer minha primeira ultramaratona, havendo a Maratona de Paris uma semana depois, pensei em fazer o combo ultra (89km) e 42km na França. Não me arrependo de ter sido racional e encostar a ideia.

ULTRAMARATONA

Falei um pouco no Facebook da minha estreia na ultradistância participando de uma Ultramaratona escocesa realizada há apenas 10 anos correndo 89km em asfalto plano entre Glasgow (a SP) até a capital Edimburgo (o Rio de Janeiro deles).

Meus treinos foram simples. Muito (muito) kettlebell para fortalecimento, treinos (de corrida ou não) praticamente quase todos sempre em jejum. Fiz 4 longos: três de 24km (um deles precedido por um treino de 1h00 de kettlebell) e um de 30km. Corri quase sempre com um Hattori da Saucony, um tênis minimalista no último grau. Em minhas conversas com quem já fez tal distância a dica era sempre a mesma: quanto menos tênis, melhor. Deixem os tênis estruturados para quem acredita em unicórnios.

No dia corri com um Saucony Type-A5. Claramente quem o projetou nunca correu na vida. Você não corre 5km sem pedras entrarem no solado. Imagine por 90km. Princípio Skin in the game: só treine para maratonas com quem já correu (forte) uma. Só corra com tênis feito por quem corre.

Desde quando amadureci a ideia de fazer uma ultra eu já sabia: não faria essas loucuras que vejo os amadores brasileiros fazendo pré-Comrades indo na Bandeirantes (famosa rodovia paulista) fazer 50-60km. Eu decidi não passar dos 30km. Fazer muito mais do que isso seria apenas cansaço, correndo o risco de se machucar. Desnecessário.

No dia acordei, comi uma fruta, peguei meus 4 gels, uma salsicha (queria o sabor salgado) e bebi bem pouca água e isotônico nos 5 postos que a organização oferecia. O frio e o vento eram parecidos (porém não tão fortes) como o da Maratona de Boston de dias atrás. Larguei e fiz força para não ultrapassar ninguém até a metade. Era a tática.

Minha agenda de treino era simples. De 2ª a 6ª feira pela manhã kettlebell (em jejum), almoçava e bem de noite de 1h00 a 1h20 de bicicleta ergométrica ou corrida (tiros ou rodagem). Sábado pela manhã o longo. Só.

MARATONA DE PARIS

A cada vez que presencio uma prova grande no exterior vou ficando sempre com a mesma impressão: passou de 5.000 pessoas e as provas ficam cada vez mais com a cara da nossa São Silvestre. Quando leio as críticas dos especialistas fico pensando que provas eles acompanharam.

A Maratona de Paris é uma dessas que fala com sotaque. A largada é muito organizada e linda, mas depois disso é um caos saudável. Em vários trechos se afunilam os corredores em uma procissão por uma única pista de rolagem. Não me levem a mal, a prova é espetacular. Só acho que somos desnecessariamente rigorosos com as provas brasileiras. É algo a se pensar.

A EXPO deles é incrível em variedade e pelo formato de colocar tudo que é concorrente em um balaio só, mas isso não resolve o problema do preço. Não comprei nada. Não valia. O que eu fiz foi experimentar (correndo na Expo com) o Enko (foto). Ele é mais uma prova de que é cada vez mais fácil enganar o corredor médio. Mais de U$350 por um trambolho. Use a palavra tecnologia, performance (em inglês), recuperação e outros truques que as pessoas gastam e rasgam dinheiro felizes da vida te agradecendo. Não consigo ter pena, desculpe.

COMMONWEALTH GAMES

Dias atrás um ciclista profissional morreu vítima de um ataque cardíaco e neste domingo durante a maratona que fecha o Commonweath Games (uma competição importantíssima feita entre os países do antigo Império Britânico) um escocês que liderava no 40km com mais de 2 minutos de vantagem “fuma” o motor, perde os sentidos e abandona a prova. Falaram de tudo… que o ciclista estaria vivo caso fizessem exames periódicos (como se nesse nível não fossem feitos) e que o maratonista chegou àquele ponto por desidratação, e não pelo calor infernal que faz na Austrália.

Todo problema complexo tem solução simples. E errada.

O escocês “superaqueceu” e a organização, que tinha um médico a cada 500m na parte final da prova, foi incompetente em não intervir. Dar copinhos de água não resolveria. Público não têm que fazer nada. Adversário também não. É amador que adora para depois fazer textão. Já sobre o ciclista belga, que os urubus de plantão esperem o corpo esfriar antes de querer vender a solução.

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