Sobre Nutrição e Falácias – parte 3

OU SOBRE “QUANTO PESA” 1Kg DE GORDURA

Digamos que ainda que sem ter como, seu nutricionista ignorando evidências, acredite que ele pode fazer cálculos calóricos e ir contra a lógica e visar emagrecimento na base do balanço calórico. Pois se emagrecer é, como ensinado na faculdade, uma questão de nos movimentarmos mais e comermos menos, temos a alternativa de praticar mais com a prática de atividade física. A outra variável da equação é comer menos reduzindo a ingestão.

Várias fontes orientam que quando estamos em dieta, para perdermos 1kg de gordura precisaríamos perder o equivalente a 7.500 calorias, ou seja, ter um déficit calórico dessa magnitude. Esse seria um preceito bem básico, fundamental e presente em livros de Nutrição e em revistas de saúde. Esse dado está inclusive na orientação de órgãos oficiais que têm o dever de nos informar, como na do British Dietetic Association. Para ser tão usado e propagado, imaginamos que esse valor de 7.500 calorias para cada quilo de gordura deva ser verdadeiro e embasado. Mas não é bem assim. Lembre-se: no histórico, a Nutrição cria teorias, se der tempo, ela tenta provar. Bem antes disso, ela cria sua prática torcendo (e cobrando) para dar certo.

Entre Junho e Julho de 2009, a pesquisadora britânica Zoë Harcombe fez algo que todo mundo poderia fazer com os mesmos resultados na próxima visita a um Nutricionista, Educador Físico ou Médico quando ele afirmar as calorias que há em 1kg de gordura: ela perguntou a fonte. Mas ela não questionou qualquer um, não. Ela cuidadosamente escreveu formal e detalhadamente a 7 dos principais órgãos britânicos, um país que trata a Saúde como coisa séria.

Ela escreveu ao National Health Service (NHS), ao National Institute for Clinical Excellence (NICE), ao Department of Health (DoH), ao National Obesity Forum (NOF), ao Association for the Study of Obesity (ASO), ao British Dietetic Association (BDA) e ao Dieticians in Obesity Management (DOM). E as respostas surpreenderam. 5 deles simplesmente não souberam responder. Os 2 que tentaram, variaram enormemente nas respostas. Essa é a “ciência” do emagrecimento aos olhos da Nutrição.

Pesquisando publicações sobre obesidade, você encontrará que os especialistas trabalham com a hipótese de que 1g de gordura tem entre 8,7 e 9,5 calorias. Estamos desde já falando de uma grande diferença quando formos trabalhar na casa dos milhares de unidades. As mesmas publicações também trabalham com a informação que o tecido adiposo humano possa ter entre 72% e 87% de lipídios. Com isso, novamente estamos falando de uma grande variação. Para ser mais preciso, falamos de algo (cálculos meus) entre 6.264 e 8.265 calorias em 1kg. Uma variação tão grande assim torna a montagem de cardápios para perda de peso fundamentada no déficit calórico uma tarefa extremamente imprecisa, porque sequer sabemos quantas calorias exatamente equivalem ao sobrepeso do tecido adiposo da pessoa. A Nutrição para mim, não se ofendam, é uma questão de fé e muita crença, mas não de Ciência. Vejamos o que falei até aqui:

  1. Seu nutricionista muito provavelmente não sabe o porquê você engorda, invertendo gravemente causa e consequência. Não porque ele seja ruim! NÃO! Ele é bom! Mas foi assim que lhe foi ensinado!
  2. Para combater o 1, ele(a) vai se apoiar no balanço calórico, uma estratégia que se prova não provada pelas dificuldades práticas, pela falta de evidências estatísticas e pela falta de qualquer evidência outra;
  3. Como se fosse um robô, o corpo será tratado como uma máquina ignorando efeitos compensatórios que são impossíveis de calcular.
Harcombe fez o que todo aluno e cliente deveria fazer, questionou a origem quando lhe disseram sobre o balanço calórico.

Harcombe fez o que todo aluno e cliente deveria fazer: questionou a origem quando lhe disseram sobre o balanço calórico.

E o que são esses efeitos compensatório tão ignorados? Vejamos…

Em um estudo, liderado por Timothy Church da University of Louisiana, centenas de mulheres com sobrepeso entraram em uma rotina de exercícios físicos por um período de 6 meses. Um grupo treinava 72 minutos por semana, outro 136 minutos, outro 194 minutos e um quarto grupo era o controle, ou seja, sem treino adicional. Pois contra todas as expectativas, não houve diferença de peso significativa entre os grupos que treinavam e o grupo controle (“sedentário”). Pior, algumas inclusive ganharam peso.

Isso aconteceu porque essas mulheres passaram naturalmente a comer mais já que exercício inevitavelmente dá fome por aumentar nossa necessidade energética. Não há como fugir dessa realidade. Pior, essa compensação às vezes ultrapassa o mero ato de repor uma necessidade fisiológica maior por energia, psicologicamente quem treina pode acabar “se premiando” pelo esforço. Em outros casos, se o prêmio não vinha na forma de muito mais comida, vinha na forma de menor atividade física fora do período de treinamento, o indivíduo descansava mais como fruto de mais movimento momentos antes.

Essas conclusões encontram suporte em outros dados. Um estudo publicado em 2008 sobre obesidade infantil por Steven Gortmaker e Kendrin Sonneville encontrou que, num período de observação de 18 meses, 538 crianças que se exercitavam acabavam comendo mais calorias do que as gastas na atividade. Às vezes, esse “desbalanço energético” era de 10 a 20 vezes maiores do que o da atividade. Ou seja, aquele conceito arraigado que temos de que exercício gera um déficit energético não é necessariamente apoiado pelos experimentos práticos. Mas este não é o mais interessante!

Um outro estudo de 11 anos, de Terry Wilkin com 202 crianças desde seus 5 anos de idade, vem dar apoio a essa tese de compensação. Nele, o autor monitora o peso e o nível de atividade física das crianças. O que ele vem descobrindo é revelador: parece não haver diferença entre os pesos e composição corporal delas não importando se são mais ou então menos ativas fisicamente. O estudo ainda está em andamento e pode ser questionado pelo baixo número de indivíduos, mas vem também questionar fortemente a tal “sabedoria popular” que atribui à atividade física uma ferramenta eficiente de controle de peso. Sobre isso, ainda terá um post especial, a melhor conclusão está por vir!

Um achado muito interessante em todos esses estudos é o fato de haver essa capacidade natural de compensarmos os gastos calóricos ao longo do dia. No estudo com as “crianças de Wilkin”, o grupo com mais aulas de educação física (64% mais, para ser mais preciso), ao chegar às suas casas fez o oposto, se movimentou menos. O grupo com menos atividade, se movimentava mais em casa. O resultado foi que ambos os grupos faziam a mesma quantidade de atividade num efeito compensatório.

Isso faz lembrar a atividade de pessoas que treinam assiduamente para provas mais longas. Um maratonista amador pode sair de casa num sábado de manhã para treinar 25km. O seu nutricionista, desconsiderando esse efeito compensatório, adiciona o gasto e a necessidade energética ao de uma pessoa que treinou 25km “a mais”. O problema é que essa pessoa no sábado após o treino acaba dormindo/descansando, pouco se movimentando no restante do dia e evitando até outros compromissos sociais por indisposição física. Ao final do dia podemos arriscar que ele se aproxima aos gastos de uma pessoa que correu pouco mais de 5km, por exemplo. Se estendermos esse comportamento compensatório para os próximos 2 dias (suponhamos que ele volte a treinar somente na 3a Feira à noite), podemos dizer que ele teve um gasto energético praticamente igual ao de quem nunca sequer sonhou em correr uma maratona. Mas já é tarde demais, em sua dieta prescrita estão lá milhares de calorias pensadas para seus 25km ignorando toda uma compensação das demais 72 horas.

Porém, reforço, não podemos confundir o fato de exercícios não serem ferramentas eficientes para controle e perda de peso com o fato de não recomendá-los. Faço questão de reafirmar que os benefícios da atividade física bem feita são inumeráveis; eles apenas parecem não gerar perda de peso substancial diretamente se não vier junto de mudanças nos hábitos alimentares.

Ou seja, a Nutrição não sabe como engordamos, não sabe o quanto gastamos, não sabe o quanto consumimos, não sabe o quanto de energia está armazenada no sobrepeso e não tem como calcular que não somos máquinas, ou seja, nosso gasto tem fortes efeitos compensatórios. Mas ainda assim a atividade física virou um pilar no emagrecimento porque nos faria gastar mais energia abrindo a possibilidade de um déficit calórico. Será? No próximo texto falo sobre a falácia e da ineficiência do exercício físico no emagrecimento.

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41 pensamentos sobre “Sobre Nutrição e Falácias – parte 3

  1. […] ou de estudos sobre o balanço calórico ou da relação das calorias com obesidade. Tentei ainda falar de como ignoramos uma compensação do organismo e de como sequer sabemos quanta energia seria preciso para haver queima de […]

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