Sobre Nutrição e Falácias – parte 10 (conclusão)

OU SOBRE O QUE ACONTECEU QUANDO SEGUIMOS AS ORIENTAÇÕES

Nesta curta de série de posts falando sobre as falácias que sustentam algumas das principais diretrizes e recomendações da Nutrição, quis listar a fraqueza de embasamento que é ensinada nas faculdades formadoras de nossos nutricionistas. Longe de querer esgotar o assunto, quis mostrar com fatos o quão tênue são algumas das orientações no que diz respeito a evidências, e não apenas bom senso, boa vontade ou achismo.

No primeiro texto quis debater o quão fraca é sequer a explicação para nosso sobrepeso naquela que parece possuir uma grave troca entre causa e consequência na qual se apoia a Nutrição. Depois disso falei da falta de evidências estatísticas ou de estudos sobre o balanço calórico ou da relação das calorias com obesidade. Tentei ainda falar de como ignoramos uma compensação do organismo e de como sequer sabemos quanta energia seria preciso para haver queima de gordura.

No 4º texto falei de como o exercício, alternativa tão recomendada, é ineficiente no controle e perda de peso. E depois de forma mais direta de quão sem evidências de saúde e segurança são as diretrizes para consumo de gordura saturada, sobre a falta de lógica ao vilanizarmos o colesterol e nos apoiarmos num consumo um tanto perigoso do carboidrato. Continuei mostrando a fraqueza de nossa abordagem com o consumo de sal, passando pela construção de caráter completamente político e econômico da pirâmide alimentar terminando com uma lógica torta na abordagem de tratamento de uma das doenças mais sérias que existem (diabetes).

Eu não esperava ser muito bem acolhido entre nutricionistas. Como diz um grande amigo: é impossível convencer alguém cujo ganha-pão dependa do não-convencimento. Mas vamos ver o que aconteceu quando uma população inteira resolveu seguir o que mandam os nutricionistas e geral? Vejamos…

Antes, os números…

Desde os anos 1970, por exemplo, a população nos EUA aumentou o consumo de frutas e vegetais em 17%, o consumo de grãos em 29% e reduziram de 43% para 33% a participação da gordura nas calorias ingeridas. Ainda assim, desde início dos anos 60, a prevalência de obesos nos EUA mais do que dobrou. Saltou de 13,4% para 35,7% nos adultos com mais de 20 anos3, 4. Isto poderia fazer concluir que se trata da consequência de uma dieta melhor, mas seguida por um hábito de menos exercícios. Mas não é o que mostram outros números.

Ao olharmos atentamente as estatísticas, vemos que a população realmente ouviu e seguiu as recomendações dos órgãos de saúde. Nosso tempo gasto fazendo esporte nas escolas aumentou. Analisando o comportamento não somente das crianças, podemos ver que nunca tantas pessoas fizeram tanto exercício, nunca houve uma proliferação tão grande de academias, centros de lazer e esporte ou mesmo explosão dos grupos de corrida em países como EUA e Brasil. Ter seus próprios aparelhos em casa nunca foi tão barato, fácil e nunca tantos deles foram tão vendidos.

De acordo com os dados americanos do National Institutes of Health (NIH)5 de 2001 a 2009, o número de americanos adultos submetidos semanalmente a 150 minutos de exercício moderado (ou 75 minutos de atividade vigorosas) aumentou na maioria dos municípios dos EUA. A variação existe, mas é um fato: estamos mais ativos. Porém, nunca estivemos tão obesos. Em algumas dessas regiões analisadas, por exemplo, a obesidade subiu mais de 15% apenas no período.

Como disse já aqui, o exercício físico parece simplesmente não ser a solução do problema. Figurativamente falando, atividade física não é um remédio que funcione para essa doença. Mas o que fazem com as diretrizes a cada novo questionamento? Em um delírio coletivo da categoria fazem questão de torná-las mais duras (menos calorias e menos gordura). Ignorando evidências e sinais claros de que esse remédio (atuais recomendações) simplesmente não funcionam, não admitem estar errado. Nos chamam de gulosos e preguiçosos. É a tática da avestruz.

Boa vontade definitivamente não falta. Mas quando desde o primeiro texto eu disse que ir ao Nutricionista é um péssimo negócio do ponto de vista do risco não era porque eles seriam ruins, mas porque vão aplicar aquilo que não deu e não dá certo. Ainda que tenha sido ensinado por pessoas de boa vontade. Veja os gráficos abaixo.

(amanhã termino de vez)

grafico conclusao

Veja o que aconteceu co os níveis de obesidade quando ouvimos as recomendações nutricionais...

Veja o que aconteceu coM os níveis de obesidade quando ouvimos as recomendações nutricionais…

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22 pensamentos sobre “Sobre Nutrição e Falácias – parte 10 (conclusão)

  1. Danilo F. disse:

    parabéns pela sequência! Depois dela, qual foi a pergunta que mais te fez (re)pensar a respeito de suas crenças em relação à Nutrição?

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  2. Breno disse:

    Fantástico, Balu! Fez-me repensar vários conceitos sobre alimentação, realmente! Série de postagens para ler e reler com calma, por bastante tempo. Abs

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  3. Julio Cesar Kujavski disse:

    Balu, o que os nutricionistas “tradicionais” têm contra o café ?
    Quando consultei uma nutricionista ela foi enfática dizendo que eu deveria parar com o café, que aliás nunca bebo puro, só com leite.
    E hoje me deparo com esta notícia:
    http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/bbc/2015/03/03/pesquisa-liga-cafe-diario-a-arterias-mais-limpas.htm

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  4. Ângelo Caexeta disse:

    Danilo,

    Pensando um pouco sobre os seus textos e comentários, surgiram as seguintes questões que compartilho com você:

    – Diante da impossibilidade “biológica” (como você mesmo reconhece) de todos os seres humanos passarem a ter uma dieta de pouco carboidrato, essa preconização (que se transformou em política de Estado pós-década de 70) de consumo moderado de carbo + atividade física não lhe parece a única possibilidade de mantermos mais ou menos alimentados esses bilhões de pessoas que vivem neste planeta. Ou seja, não deveríamos colocar nessa discussão a diferenciação entre o que é ideal e o que é possível? E dentro do possível, do ponto de vista de política alimentar, a preconização atual não seria a mais correta, ou pelo menos a mais viável?

    – A explosão de obesidade pós década de 70 não estaria relacionada mais à grande disponibilidade de alimentos sem precedentes na história da humanidade? Por esse ponto de vista, o problema não estaria no excesso de carbo em detrimento dos alimentos ricos em gordura; mas no excesso de alimento em si, ponto.

    Enfim, acho que essa discussão não tem fim.

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    • Danilo Balu disse:

      Sim, hj entupir a população de grãos é a ÚNICA possibilidade a curto prazo de termos 6-7 bilhões de pessoas alimentadas.

      Sim, a disponibilidade de alimento é fator decisivo na questão da obesidade. O jejum é fundamental na saúde e controle de peso, mas passar fome passou a ser uma opção descartável, por melhor que ela seja justamente porque não é lá mto prazerosa.

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    • Danilo Balu disse:

      *estou em viagem com pouca Internet, outra hora com calma…

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    • Adriana Piza disse:

      Esse seu primeiro ponto é exatamente o que eu pensei…se todos fossem no ideal, não teria comida para todos. Dessa maneira que está hoje, é mais viável. É muito mais fácil e barato produzir os grãos do que a proteína e a gordura não é? Claro que não justifica nada…mas é uma boa discussão !

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  5. Gustavo Bianch disse:

    Balu, o grande problema da alimentação do mundo ocidental não é necessariamente o carboidrato, mas a associação de açúcares com gorduras trans e hidrogenadas existentes alimentos processados. Aquele documentário da BBC Sugar v Fat (já assistiu? O que achou?) é bem elucidativo nesse ponto. Ele tenta desmitificar o debate de qual dos dois é pior. Segundo a pesquisa dos médicos gêmeos, o problema maior da alimentação atual é a insistente associação dos açucares com as gorduras, e não a preponderância de um sobre o outro. Abraços.

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    • Danilo Balu disse:

      Sim, mas mesmo que zeremos o consumo da trans, a obesidade não cessa… É meio simplista dizer que o problema é só a combinação porque parte da premissa que os dois sozinhos não causam nada e a gente engorda rebanhos com um.

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  6. wpfigueiredo disse:

    Danilo,

    Sabe se existe algum estudo sobre dietas low carb em maratonistas em relação à performance? Digo isso porque sempre fui adepto ao low carb, li os livros do Gary Taubes e emagreci mais de 30kg… Atualmente sou um corredor assíduo atrás da minha maratona sub 3h que navega entre o low carb e o a pirâmide.. Por vezes, mesmo em cetose, tive problemas durante meus treinos longos e ate rodagens. Sensação de que o corpo sentia falta de combustível.

    Resumindo, para corredores/maratonistas amadores mas que procuram performance, ate que ponto este tipo de dieta pode influenciar? (Não acho a resposta em lugar nenhum)

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  7. Adriana Piza disse:

    Com certeza não se deve pensar se é possível alimentar a humanidade ao estipular a boa dieta….mas pode ser uma boa desculpa para alguns dizer que come grãos por ser a única forma viável hoje de alimentar a humanidade, achando que está fazendo uma coisa positiva, contribuindo com o planeta viável rsrs.

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  8. Bom, tem o seguinte. Se o consumo de frutas , vegetais e grãos aumentou, o consumo de alimentos processados também deu um salto incrível nesse período, assim comi a frequência em cadeias de fast food, etc. Ate que ponto as pessoas realmente seguiram as recomendaões?

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