Sobre Nutrição e Falácias – parte 1

OU SOBRE A FALÁCIA DA CAUSA DO SOBREPESO

Dias atrás eu resolvi explicar o porquê ir a um Nutricionista Esportivo (excluindo-se assim todos os casos de patologias e/ou necessidades especiais como queimados, gestantes, hipertensos…) NÃO é um bom investimento (ou aposta) na sua saúde. Como ele chegou a quem não me lê nem conhece o que penso, vou aqui explicar os pontos e mostrar o embasamento que me cobram.

Mas antes de qualquer coisa, aos que ficaram incomodados ou ofendidos, peço as mais sinceras desculpas porque nunca foi essa a intenção. Repare que eu JAMAIS disse que sejam todos eles ruins (ou incompetentes). Não só eu não acho isso como acho que o grande problema em procurar um é JUSTAMENTE ele ser tão bom que ele necessariamente vai aplicar aquilo que lhe foi ensinado. Porém, o problema é que a Nutrição como a conhecemos, não é ciência. É em boa parte um arremedo de bom senso, achismo e adivinhação (pseudociência).

Além disso, aos ofendidos, quem sou para julgar a índole ou a intenção de alguém ao tratar seu cliente? Só que a boa (ou a má) vontade não dá (nem tira) recursos técnicos a nenhum profissional. Querer o bem não implica necessariamente em fazê-lo, ainda que o mal venha sem querer.

Confesso que eu não queria pedir desculpas porque nunca quis ofender. Mas ofendendo, não me custa. Só que “quando se ofender rende poder às pessoas, as pessoas se ofendem mais facilmente”. E é por isso que não só não volto atrás em meu ponto como reforço: do ponto de vista do Risco, ir a um nutricionista esportivo é um péssimo negócio. Mais do que isso, é perigoso porque independente de qualquer coisa, o resultado será provavelmente ruim ou pior à saúde. Então a minha dica aos corredores se mantem.

A culpa é de taubes. Se fosse mais lido na graduação, não ficariam bravos comigo...

A culpa é de Taubes. Se fosse mais lido na graduação, não ficariam bravos comigo…

A Nutrição no século passado muitas vezes fez a teoria antes da prática torcendo para que ela dê certo. Um exemplo bem claro é o da base para o emagrecimento. Ou melhor, o que nos levou a engordar num primeiro momento.

Está lá no site da Organização Mundial da Saúde (OMS) a definição: a causa fundamental da obesidade e do sobrepeso é o desbalanço entre as calorias consumidas e as calorias gastas. Ou seja, para a OMS, é uma questão de balanço calórico. Mas voltamos ao ponto, é mais do que provável que por décadas de confusão invertemos causa e consequência. Isso porque a Lei de Termodinâmica diz que alguém que engordou 1kg acabou consumindo calorias a mais do que gastou. Ela explicou a consequência do acúmulo, mas não a causa do consumo excessivo. Ela apenas relata o fato (engorda) sem jamais explicá-lo em sua origem.

Quando vamos para o campo do peso corporal, isso significa que as calorias ingeridas menos as gastas resultam nas que serão depositadas na forma de gordura quando este balanço for positivo. Ou seja, se a pessoa precisa de 2.000 calorias e ingeriu 2.500, estas 500 calorias do balanço positivo são um excesso que seria convertido em gordura.

Podemos tentar explicar por diversas analogias. Uma delas é fazer um paralelo de uma pessoa com edema (“inchaço”). Nessas condições médicas, um indivíduo assim acaba perdendo muito líquido das veias para o tecido com edema. Não importa o quanto ele beba de água, a sensação de sede não passa porque o líquido não fica no sangue, onde teria fim essa sensação.

Um outro exemplo ainda para explicar a questão de como a Nutrição (e a maioria de nós) encara de modo equivocado o ganho de peso no obeso seria através de um indivíduo diabético ainda não devidamente tratado. Essa pessoa produz uma grande quantidade de urina e tem muita sede. Você poderia argumentar que ele urina muito porque bebe muita água. A melhor explicação, porém, sabemos ser outra: urinando tanto, ele precisará beber muita água. Sabendo que ele é diabético, conseguimos explicar que o motivo, a causa, a explicação do enorme volume de urina é a doença (diabetes), não o fato de beber muita água. Não seria bem aceito tentar explicar que no caso dessa pessoa a razão de tanta urina seja beber muito, pois sabemos que ele urina assim porque é um diabético mal tratado. Essa analogia tenta explicar que urinar e beber muita água são consequências de uma doença, no caso, a diabetes.

A bioquímica comanda e regula nosso comportamento, não o contrário. Se você tem um paciente bebendo 15 litros de água por dia e urinando 15 litros de água por dia, pode ser que seja o caso de uma desordem comportamental. Mas é mais provável que ele tenha diabetes. Pedir que ele se controle, tenha força de vontade, “não seja preguiçoso”, “não tenha tamanha gula” por líquidos e “pare de beber tanta águanão o curará da diabetes. Mas por uma crença de lógica similar estamos seguros e acreditamos que pedir que alguém pare de comer muito resolve a obesidade de alguém com sobrepeso.

6387471Talvez valha questionarmos: será que ao tentarmos reduzir a ingestão calórica de um indivíduo com sobrepeso não estamos tentando resolver o grave problema da obesidade como alguém que fosse tentar curar um diabético apenas cortando a ingestão de água dele? Fazendo outra analogia, explicar o excesso de peso tão somente por uma ingestão exagerada de comida é como tentar explicar o alcoolismo pelo consumo de álcool esquecendo e ignorando toda a questão por trás da doença alcoolismo.

A febre é ainda outra boa analogia para explicar a obesidade, suas causas e consequências. Se dermos um banho de água gelada em alguém febril, conseguiremos baixar um pouco a temperatura do indivíduo que estará levemente elevada por causa da enfermidade. Porém, sabemos que o banho por si só não irá curá-lo. Mais do que isso, para restabelecer a condição, seu corpo irá disparar algumas reações como tremer para gerar calor e contrair alguns vasos sanguíneos para perder menos calor pela pele. Ou seja, tratar um obeso oferecendo menos comida não deixa de ser como tratar alguém com febre, dando banhos de água gelada. Estamos provavelmente combatendo algo sem saber sua causa e, mais importante, ainda gerando reações. No nosso corpo essa reação é o das células adiposas terem muito combustível (via consumo exagerado de alimentos) e acabam por produzir ainda mais gordura em vez de utilizar essa energia para as outras funções de manutenção do organismo.

Pode parecer repetitivo listar analogias que nunca serão perfeitas, mas é quase central, é extremamente importante que tenhamos bem fixo esse problema fundamental de não confundir causa e consequência no debate sobre obesidade. Imagine que por décadas a Nutrição tem ido dormir de sapatos como resultado de uma enorme bebedeira e no dia seguinte acorda quase sempre com uma forte dor de cabeça (ressaca). Porém, a solução escolhida pela Nutrição é recomendar que, ainda que cambaleante, tentemos todos tirar os sapatos antes de dormir porque, afinal, sempre que ela dormiu de sapatos, acordou de ressaca. Pois por décadas ainda que seguindo as orientações dela de tirar os sapatos antes de dormir bêbados, a enxaqueca no dia seguinte vem sempre igual. Precisamos lembrar que o culpado é o uísque, não o dormir calçado.

A Nutrição ainda acredita neste conto de fadas. Pois amanhã vou explicar o porquê a ideia do balanço calórico (e MUITOS nutricionistas têm uma tara por calcular nosso gasto e consumo) é falho em sua totalidade… seja no consumo, seja no gasto, ela não sabe o que fazer e nem tem como fazê-lo. A fé, a boa vontade, boa índole ou querer, lembremos, não é o suficiente. Amanhã continuo!

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90 pensamentos sobre “Sobre Nutrição e Falácias – parte 1

  1. […] NÃO está bem estabelecido como ele acredita (para não repetir tudo, explico em ordem aqui, aqui e aqui as falácias). Homer Simpson diz que você prova qualquer coisa com números, que 45% […]

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  2. Dayane disse:

    Muito bom! Parabéns!

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