O melhor método para prevenção e reabilitação de lesões

O Jornal da Band de 6ª feira dia 22 levou ao ar uma matéria sobre o crescimento do mercado de fisioterapia para corredores, uma das áreas mais “engraçadas” de se acompanhar na corrida. A reportagem foi resposta talvez à matéria da Folha de S. Paulo que no mesmo dia falava sobre o crescimento do movimento de corredores em clínicas particulares de fisioterapia.

Na reportagem você encontra de tudo… gente que vai buscar informação em “canais especializados” e “aprende” que tem que alongar bem depois de correr para diminuir as dores, gente que em 15 dias estava recuperado (um milagre tratando-se de algo tendíneo) e, lógico!, os profissionais de sempre oferecendo análise de “posturologia” e vendendo palmilhas individualizadas. Não sei como essa gente consegue não gargalhar. Tenho comigo que eles acreditam muito naquilo que eles dizem… só assim para ignorar o que deveria ser praxe: ser sempre honesto com o cliente.

Naquelas coisas que só o acaso explica, horas antes havia almoçado com dois dos profissionais da corrida que mais respeito. Um é treinador e vive perdendo cliente porque diz “ainda não” ao aluno que quer atropelar as fases e correr muito o quanto antes (nunca rápido, é sempre mais longe). O outro, um fisioterapeuta, que sabe o quanto perde de dinheiro por não fazer o que essa gente faz. Mas…. o que “essa gente” faz!?

Parece haver sempre um método, um jeito de você se valorizar sem se responsabilizar (afinal, corredores em sua maioria se machucam, então você transfere o prejuízo ao cliente enquanto fica com o benefício sem risco, o dinheiro. Ou então tente sugerir ao seu “fisio preventivo” o seguinte contrato de risco: você o paga somente ao final do ano ou temporada SE você não se lesionar). Neste tal método de parte dos profissionais você consegue identificar abaixo alguns padrões na fisioterapia (ou reabilitação com ortopedista):

 

– Você como profissional cria um tratamento complexo. Exercícios e rotinas difíceis, complicadas, com ordem determinada, geralmente envolvendo equipamento. Se o corredor se machucar, é culpa dele que provavelmente não seguiu à risca 100%!

– Você dá nomes pomposos, bonitos, técnicos… tipo POSTUROLOGIA. Assim até parece que funciona! O cliente vai adorar! E até paga mais caro por isso!

Use avental (ainda que não haja chance de haver sangue), use esteiras (ainda que ele só corra na rua, que é na prática um outro esporte), observe e analise sua corrida (ainda que seu olho não seja capaz de ver muitas nuances).

Talvez o mais importante: faça intervenções! Afinal, quem paga quer mudanças, ainda que inúteis ou contraproducentes. Não basta dizer “menos” (via negativa), você tem que intervir, agregar, colocar mais coisas na corrida dele. É na via positiva que a área da Saúde faz seu lucro e o cliente seu prejuízo.

Trate o amador como um profissional, chame-o de atleta, fale em performance, desempenho, (ainda que sejam a mesma coisa), competição e use muitos termos fisiológicos. Não “desça” ao nível do cliente – digo – atleta.

Individualize. Fundamental! A palmilha tem que ser individualizada, igual a calça jeans dele. A rotina dele também. Ele tem que se sentir especial, único, ainda que não haja nada de especial em uma dor comum.

– Por fim, está BEM claro que marketing é mais importante que ciência quando você trabalha com corrida, então não deixe de “tratar” (de graça) algum influencer e peça que ele agradeça nas redes sociais. O influencer vai se sentir um atleta olímpico, vai economizar dinheiro, vai ter o que postar e você vai poder “prevenir lesões” em muito mais gente! Mas essa relação de influencer eu deixo para falar outro dia!

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19 pensamentos sobre “O melhor método para prevenção e reabilitação de lesões

  1. Pedro Ayres disse:

    Fiz fisioterapia uma vez na vida, após quebrar o cotovelo num acidente de moto e fazer cirurgia. Desconheço se era realmente necessário, ou apenas fazia parte do protocolo pós-operatório. Quinze anos atrás eu não questionava esse tipo de coisa, apenas seguia as instruções. Para quem mal tem força para apertar uma bolinha de borracha, parecia a coisa certa a fazer.

    O fato é que depois de pouco tempo a fisioterapeuta foi honesta e disse: aqui não temos mais nada para fazer, daqui em diante, só se quiser fazer musculação. Ou seja, o papel da fisoterapia era recuperar a amplitude do movimento do braço. E só.

    Às vezes acho que as pessoas estão com falta de problemas.

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  2. Phillipe disse:

    Balu, “amarrar” o cliente é o sustento do mercado e essa é uma atitude bem irritante e mesquinha.

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  3. Julio Cesar disse:

    Sim, e o “objetivo” é sempre ir mais longe, nunca mais rápido.

    Nêgo corre prova de 10 km e já fala em meia, daí corre meia e já fala em ultra, “corre” ultra e fala em ultra de montanha… e se já começou trotando na prova de 10 km, o resto vira tudo trotinho e caminhada mesmo.

    Quanta superação. E se tiver um rio pra atravessar, com algum fotógrafo por perto, melhor ainda !

    Quero ver é colocar um cara desse pra tentar baixar tempo nos 1.000 mt, , 800 mt, 5 km…

    Aliás, ano que vem acho que vou “focar” – amador adora falar assim – naquela prova de milha da New Balance (nem sei se vai ter). Quero pegar pódio na faixa etária dos velhinhos.

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  4. Fala Balu.

    Concordo com a maior parte do que você disse. Comentei lá no face.

    Uma coisa interessante sobre os influencers. Estava eu procurando parceria com assessorias esportivas. mandei email para uma das mais conhecidas, perguntando sobre o necessário pra que me colocassem na lista de indicações do site deles. A resposta? Atendimento de cortesia para os profissionais e funcionários da academia. Pode isso?

    Abs.

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  5. Fernando Saldanha disse:

    Ok, não somos profisionais, mas temos um volume que nos causa lesões. E como muitos me pergunto o que posso fazer para prevenir, minimizar ?

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  6. Fernando Saldanha disse:

    Não necessariamente o volume, mas dentro deste volume a técnica, ou a falta dela, desgaste, etc,etc. A pergunta continua, qual caminho para minimizar isto? Em tempo,muito ou pouco é apenas uma questão de referência.

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  7. Ismael disse:

    Vivemos a era da medicina baseada em ” digital influencers”. Na área de nutrologia é um caos, procedimentos e tratamentos sem evidência nenhuma sendo vendidos no poder do “instagram”. Numa época que até editores de revistas sérias estão sendo acusados de vantagens ilícitas o leigo é igual gado indo para o matadouro!

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  8. Daniel Carmona disse:

    Balu, sobre a matéria da Folha de S. Paulo na qual eu fui um dos personagens, gostaria de aproveitar a oportunidade para alguns esclarecimentos.

    Realmente lamento a maneira como a repórter abordou o assunto, totalmente de forma superficial, apontando que “para garantir fortalecimento muscular” eu recorro a nutricionista e fisioterapia. Oras, como que nutricionista vai me dar fortalecimento muscular? Só se for no maxilar.

    Eu contei para a jornalista durante uma conversa de quase 1 HORA (!!!!) que três vezes por semana faço trabalho regular em academia. Musculação, fortalecimento, circuito, etc, tudo isso poderia ser utilizado ou citado de alguma forma. Expliquei que nunca estive em um consultório de nutricionista, mas sim que minha mulher é nutricionista mas que nada disso importava a não ser o fato de que toda vez que vamos buscar um alimento no supermercado ou vamos devorá-lo em nossa mesa, estamos sempre conversando e refletindo sobre prós e contras, sobre o histórico daquele alimento, em quais dietas ele entra ou não, etc…

    Por fim, fisioterapia. Eu nunca fiz e nem acredito em “fisio preventiva” como acaba sendo colocado na matéria. Recorri a fisio sim para tratamento de uma pequena lesão que surgiu às vésperas de minha quinta maratona no ano (que era uma prova-alva) e terceira edição consecutiva em Buenos Aires. Foi sim um ciclo importante de fisio, que me trouxe um novo repertório de exercícios para fazer antes, durante ou no final das sessões de fortalecimento, de forma complementar e proprioceptiva, mas nao que isso seja obrigatoriamente cíclico como parece estar colocado. O último ponto que me incomoda é que, da forma como tudo é colocado, “o preço do passaporte para ser corredor” é de R$ 2 mil, sem especificar absolutamente nada. O que significa os R$ 2 mil? Uma única sessão? Duas? 10, 20, 30 ou 40 sessões? Isso é caro ou barato? Pensando no pobre leitor, ele fica sem compreender ou é induzido a ter uma interpretação distorcida da realidade.

    Tudo isso posto, seguimos em frente. De minha parte, pensarei dez vezes antes de aceitar “colaborar” em um matéria.

    Obs: soma-se a tudo isso o fato de ser bacharel em jornalismo e ter um contato, ainda que distante, da colega autora da matéria.

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  9. Daniel Carmona disse:

    Balu, sobre a matéria da Folha de S. Paulo na qual eu fui um dos personagens, gostaria de aproveitar a oportunidade para alguns esclarecimentos.
    Realmente lamento a maneira como a repórter abordou o assunto, totalmente de forma superficial, apontando que “para garantir fortalecimento muscular” eu recorro a nutricionista e fisioterapia. Oras, como que nutricionista vai me dar fortalecimento muscular? Só se for no maxilar.
    Eu contei para a jornalista durante uma conversa de quase 1 HORA (!!!!) que três vezes por semana faço trabalho regular em academia. Musculação, fortalecimento, circuito, etc, tudo isso poderia ser utilizado ou citado de alguma forma. Expliquei que nunca estive em um consultório de nutricionista, mas sim que minha mulher é nutricionista mas que nada disso importava a não ser o fato de que toda vez que vamos buscar um alimento no supermercado ou vamos devorá-lo em nossa mesa, estamos sempre conversando e refletindo sobre prós e contras, sobre o histórico daquele alimento, em quais dietas ele entra ou não, etc…
    Por fim, fisioterapia. Eu nunca fiz e nem acredito em “fisio preventiva” como acaba sendo colocado na matéria. Recorri a fisio sim para tratamento de uma pequena lesão que surgiu às vésperas de minha quinta maratona no ano (que era uma prova-alva) e terceira edição consecutiva em Buenos Aires. Foi sim um ciclo importante de fisio, que me trouxe um novo repertório de exercícios para fazer antes, durante ou no final das sessões de fortalecimento, de forma complementar e proprioceptiva, mas nao que isso seja obrigatoriamente cíclico como parece estar colocado. O último ponto que me incomoda é que, da forma como tudo é colocado, “o preço do passaporte para ser corredor” é de R$ 2 mil, sem especificar absolutamente nada. O que significa os R$ 2 mil? Uma única sessão? Duas? 10, 20, 30 ou 40 sessões? Isso é caro ou barato? Pensando no pobre leitor, ele fica sem compreender ou é induzido a ter uma interpretação distorcida da realidade.
    Tudo isso posto, seguimos em frente. De minha parte, pensarei dez vezes antes de aceitar “colaborar” em um matéria.
    Obs: soma-se a tudo isso o fato de ser bacharel em jornalismo e ter um contato, ainda que distante, da colega autora da matéria.

    Curtido por 1 pessoa

  10. Excelente texto! Permita-me, por gentileza, um adendo: o que você escreveu em relação ao fisioterapeuta é perfeitamente adaptável para o dentista, o médico, etc… para a área de saúde de forma geral.

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  11. […] final do ano postei um texto sobre qual seria o melhor método para prevenção e reabilitação de lesões. Basicamente falo das armadilhas que fisioterapeutas, médicos (ortopedistas) e treinadores aplicam […]

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