Na Corrida, Dado não é Informação. Ou ainda: Corrida não é Matemática.

Semanas atrás participei do programa do Corrida no Ar que falava sobre “liberte-se do GPS. Basicamente discutíamos a enorme dependência que corredores atuais têm do aparelho. Algumas das coisas que mais me fascinam na corrida têm menos a ver com Fisiologia e mais com Psicologia. Damos um peso enorme, absurdamente desproporcional à importância do tênis nesse esporte, passamos a achar que provas com mais quilômetros são melhores, banalizamos tudo em uma “guerreirização” de qualquer pessoa, trapaceamos cortando caminho e consumindo substâncias ilícitas para melhorar o desempenho, mas principalmente buscando aprovação social nas redes sociais. Como vira e mexe escrevem aqui no blog: cada um tem sua relação com a corrida, não cabe a nós julgar. Então eu reforço: não quero julgar, apenas me intrigam DEMAIS esses comportamentos.

Um dos argumentos mais usados de quem defende corrermos com GPS (e frequencímetro e cronômetro) é que isso gera informação que é útil ao treinador e ao atleta. Isso é uma bobagem quase que em sua essência. E vou explicar o porquê.

informacao e dados 2Neste domingo, assisti no cinema ao filme Vingadores 2. Quase na cena final, Ultron, o vilão que dá nome ao filme, diz: humanos são estranhos, eles acreditam que ordem e caos são de alguma forma coisas opostas e eles tentam controlar o que eles não conseguem. Mas há certa graça em seus erros.1

Esse é meu primeiro ponto, nós temos uma mania fixa (para não dizer irracional ou burra) de que podemos controlar mais do que realmente conseguimos. O erro não é querer controlar, mas achar que conseguimos isso. Ou como diz Nassim Taleb: nós não somos capazes de realmente planejar as coisas (para serem do jeito que queremos), porque não compreendemos o futuro. Mas isso não é necessariamente algo ruim. Nós podemos planejar enquanto tivermos claro em nossa cabeça as nossas limitações. E isso exige coragem.2

O ponto não é só que somos incapazes de prever o futuro com os dados que temos, mas como também que confundimos gravemente dados com informação. Você saber os batimentos cardíacos durante um treino ou o ritmo de um longo, não é informação! Não podemos JAMAIS confundir dados com informação! Esses números falam somente e tão somente do presente, NUNCA, JAMAIS do futuro com precisão. E o que fazemos? Buscamos ainda mais dados! Só que quanto mais dados tivermos, maior é nossa chance de nos afogarmos neles3. Se você quiser confundir um tolo, basta dar informação a ele. Isso aumenta sua confiança e sua chance de errar (por causa desse otimismo!) ao achar que com eles poderá prever com precisão o que está por vir.

Estou escrevendo esse texto basicamente por 2 motivos. Primeiro porque há quem confunda corrida com matemática. Não, não é. Ela tem de simples o que ela tem de imprevisível quando falamos de determinar desempenho com precisão. Por alguma razão, os melhores pensadores e estatísticos não se arriscam a dizer que podemos prever terremotos, bolhas econômicas ou a temperatura na prova daqui a 2 domingos, mas por alguma razão, há gente séria que acredita que ter posse do que se passou no âmbito fisiológico dos treinos (que ocupam uma parte ínfima de nossa rotina), vá dizer com confiança o que esperar de um atleta. Você precisa ter SEMPRE em mente: somos péssimos em prever o futuro, não importa quanto haja de informação. E quanto mais informação, mais crasso ou grave será nosso erro. Ignorar isso é ser confiante e ingênuo. E são os tolos que erram ainda mais feio porque não sabem aquilo que não sabem.

Outro ponto importantíssimo: jamais caia no equívoco de achar que a imensidão dos dados dos seus treinos poderá ensinar ou explicar muita coisa no futuro. Quando olhamos para o passado sabendo do resultado, isso é apenas um exercício de narrativa. Sendo assim, QUALQUER coisa com posse do resultado cabe em QUALQUER explicação. Resumindo: se você me der os arquivos do seu GPS dos últimos meses (ou anos), eu posso encontrar relação até com o homem pisando na Lua JUSTAMENTE porque estou de posse do resultado final. Quem faz isso sem abrir o jogo com você, é um ingênuo (o mais provável) ou um picareta (nunca abro mão dessa possibilidade). Ter os dados do seu GPS me permite formular uma explicação ~racional~ para o seu recorde pessoal e para sua lesão na semana seguinte. E tudo isso sem jamais estar certo! Apenas vou satisfazer nossa fome por ter algum controle ou explicação, ainda que não tenhamos nenhum dos 2.

informacao e dadosA segunda razão pela qual escrevo é porque mais uma vez alguns daqueles que acham ser possível adivinhar quando será quebra da barreira das 2h00 na Maratona, também dizem que a entrada da ciência no ambiente rústico do Quênia e Etiópia trará grande melhora nas marcas. E aí pode ser o maior dos erros! Para combater essa ingenuidade de que mais tecnologia se resume necessariamente em avanço, vou usar a explicação de Steve Magness: os africanos, sem nenhuma tecnologia, aprendem a correr naturalmente, aprendem a sentir e escutar seus corpos. Os africanos encaram a corrida sem obsessão com a informação, e pode ser justamente entre outras coisas a ausência desse estresse por informação que os façam tão melhores que nós.

Minha dica? Menos também pode ser mais. A corrida é imprevisível, mas simples. Correr também sem GPS te ensina muita coisa. E ter controle obcecado dos segundos (ou dos batimentos cardíacos) pode fazer você abrir mão de muita informação decisiva para sua melhora. Bons treinos!

1Humans are strange, they believe that the order and chaos are somehow opposed and try to control what you can not, but there is grace in their failures.

2We cannot truly plan, because we do not understand the future–but this is not necessarily a bad news. We could plan while bearing in mind such limitations. It just takes guts. (Nassim Taleb)

3The more data we have, the more likely we are to drown in it. (Nassim Taleb)

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18 pensamentos sobre “Na Corrida, Dado não é Informação. Ou ainda: Corrida não é Matemática.

  1. Daniel disse:

    Interessante!!! Tb acho que mt informação desnecessária costuma confundir…

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  2. anaminarelli disse:

    Ahahahahahah… adorei!!!

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  3. martinhovneto disse:

    Eu acho que os dados de meu treino me servem para registrar desempenho. Acredito que registos desta natureza realmente não servem para prever futuro (tenho horror a historicismo) mas servem para ver se estou melhorando meu tempo, piorando ou na mesma.

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  4. Francisco Ottoni disse:

    O argumento mais óbvio que o GPS é dispensável é que há 10 anos atrás ele não existia e os atletas corriam, treinavam, evoluíam e batiam seus recordes (pessoais/mundiais). Mas acho que a corrida é bastante previsível. Vamos fazer uma brincadeira? peça os dados de 10 corredores que vão participar de uma mesma prova (pode ser a maratona de São Paulo ou o 10k da Tribuna). Faça uma analise dos seus treinos e os coloque em ordem de chegada. Qual vc acha que será seu índice de acerto?

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    • martinhovneto disse:

      Acho que você pode verificar tendencias com esse experimento. Mas nada determinante. Com esse argumento eu seria rico apostando em cavalos :)!

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    • Danilo Balu disse:

      Será que se eu te der o GPS dos quenianos que vão pra Chicago HOJE vc descobre quem leva em outubro? DUVIDO. Será que se eu der os dados de 5 anos de treino vc descobre qual será o tempo deles em outubro? DUVIDO. Se estamos falando de amadores de níveis diferentes, me leve sem cronômetro em 3 treinos deles que tb acerto quem leva.

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  5. Jeferson disse:

    Os meu recordes pessoais todos são da época que não tinha um GPS somente um cronômetro, será que eu corria mais e a ausência do GPS me fazia “bem”, ou as corridas não estavam aferidas de forma certa?…eu acredito que a corrida do amador é totalmente previsível, eu sei exatamente qual será o meu tempo final de uma corrida na passagem do 1KM.

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  6. adrianapiza disse:

    De todas essas novas tecnologias, o GPS foi a que mais me “estragou”. Antes da existência do GPS para correr, eu sabia exatamente o ritmo que estava correndo. Ia para um tiro, sabia exatamente o ritmo que estava! Quando comecei a correr com GPS, perdi totalmente a noção, como se agora eu não precisasse mais saber, pois o relógio diz. Terrível! Não uso os dados pra nada, só tenho mania de saber todos os número quando corro, só para saber, mania, mais nada. Agora estou tentando reverter e reaprender o que perdi….
    Engraçado foi o Mauricio que na 1/2 da Corpore perdeu o GPS (quebrou a pulseira e caiu do pulso) e ele NÃO percebeu!!!! Um tempo depois um cara veio atrás com o relógio na mão para entregar a ele! Eu perceberia na hora!!!!!

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  7. Luis Oliveira disse:

    Balu, estás a confundir coisas bem diferentes, carregando nas cores para reforçar o argumento.

    Primeiro, “é possível ficar maluco com o excesso de informações que a tecnologia disponibiliza hoje em dia?” Claro. Já era possível antes, mas ficou muito mais fácil e acessível. Isso que dizer que tem mais gente usando e, por decorrencia, abusando.

    Segundo, “todo o uso de tecnologia é disponsável e todo dado é ruído sem sinal?” Lógico que não. Dados sobre FC, velocidade média, cadencia, etc. permitem prever desempenho pontual? Claro que não. Mas tomados em conjunto, com a devida “dose de sal” e o reconhecimento das limitações, permitem aferir a evolução ou sua falta.

    Qual a saida? Fácil. A tecnologia é fácil, barata, disponível e não interfere com a sua forma/desempenho (por exemplo, tenis maximalistas não se enquadram)? Use sem problemas, sabendo das limitações. A tecnologia é difícl, cara, inconveniente e intefere com o que seria sua forma / desempenho? Evite.

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    • Danilo Balu disse:

      Mania que têm de achar que sou contra a tecnologia rsrs são ferramentas EXCELENTES! E ainda motivam mto! Só acho que elas dizem MUITO sobre o presente, quase nada sobre o futuro e andam causando mto ruído em quem confia demasiadamente. É só uma questão de sobrevalorização.

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  8. Fabio disse:

    minha sugestão de titulo:
    Ta cansado de errar? Pq não para de tentar acertar?

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  9. Mario Mello disse:

    Se tudo que se fala em aprimoramento e embasamento se necessita de dados para comprovação, assim como nas pesquisas, ora, o GPS fornece todas estas informações daquele praticante que esta utilizando esta ferramenta, como por exemplo velocidade média, distancia, frequencia cardiaca etc etc etc e muito mais. Basta estar na mão de uma pessoa que saiba analisar e pronto, temos informações suficientes para realizar diversas analises. Isto deveria ser visto como algo bom e não ruim. Acredito mais é que as pessoas possuem o equipamento por posuirem simplesmente e não sabem fazer uso de suas informações. Agora que existem muitas informações, há sim, elas existem aos montes!
    Para mim que utilizo o gps, o que mais gosto é saber a distancia final corrida sem me apegar a um percurso pré estabelecido, só isto já me é muito util. Mas ainda faço uso de muitas outras informações e me ajudam muito no treinamento. Mas se estiver sem o GPS corro da mesma forma, apenas tenho de estar em percursos marcados para saber minhas passagens, sem isso fica dificil, seria pura adivinhação

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  10. Enio Augusto disse:

    Gosto de anotar tudo por mania. Para prever o futuro não serve. E o passado já foi. Mas gosto de ver quantos km rodei em um mês ou ano. Manias.

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