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O delírio do pré-treino

Duas perguntas recebidas no Instagram me reforçam o delírio coletivo de toda uma sociedade (que os autores das perguntas não se ofendam, os exemplos são apenas sintomas sociais). Ei-las:

1. Quanto tempo após comer se pode correr sem perder rendimento?

2. O que comer antes de treinar?

Na minha experiência – vamos lá – eu NUNCA conheci um Nutricionista que entendesse de esporte. Eu não disse que eles não existem! Só disse que não conheço nenhum. NEM. UM.

Certa vez conversava com um cliente acima do peso e ele me dizia que queria perder peso correndo. Expliquei que ele, nordestino, poderia vir caminhando de sua cidade até SP e AINDA ASSIM lhe sobraria gordura corporal de sobra. Aqui 2 pontos:

– Corrida/caminhada gasta poucas calorias;

– O desafio não é gastar, é conseguir ACESSAR sua reserva energética.

Porém, e esses Nutri-Nesfit que recomendam suplemento e pré-treino JAMAIS entendem – até porque não sabem NADA de esporte – , você NÃO TEM acesso à sua reserva pré-alimentado! Por vários motivos. Um fisiológico é que comer eleva os níveis de insulina que INIBEM a queima de gordura. Isso está na aula 2 de Fisiologia (na primeira o professor se apresenta e fala as datas da prova). O nutricionista que prescreve pré-treino em amador deve ter faltado nessa aula.

O motivo conceitual é mais simples! Não faz sentido NENHUM comer antes de atividade física porque em nosso modelo evolutivo os ancestrais quando jejuavam por não TER comida estavam procurando por ela, eram fisicamente ATIVOS. Sendo assim, o padrão é fazer ATIVIDADE FÍSICA enquanto estiver em jejum! Nenhuma criatura selvagem adulta descansa quando não possui calorias!

Tem mais! É JUSTAMENTE quando temos grande fonte de energia endógena (gordura corporal) que nosso cérebro avisa ao corpo de que NÃO precisamos mais ser ativos pra encontrar comida. Já disse aqui: é um ENORME erro interpretativo esperar que alguém com sobrepeso seja MAIS ativo, mais disposto.

Energia endógena –> letargia e sedentarismo.

Energia exógena –> descanso.

A Nutrição como prática VIVE de negar a realidade. Por isso é um fracasso.

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Sobre alocação de recursos na corrida

Dia desses um atleta gringo tuitou como é o ciclo de maratona de um corredor. No começo: “Estou empolgado! Mal posso esperar para treinar!!

No meio do período de treinamento: “Estou tão cansado que mal posso esperar para acabar isso“.

Chegando o dia prova: “Não estou pronto! Precisava de mais umas semanas”.

SEMPRE que vejo profissional de saúde recomendando exercício físico dizendo que isso aumenta a disposição eu tiro UMA conclusão dele: essa pessoa NÃO treina. Não como deveria…

Veja essa frase da graaande Des Linden, olímpica e campeã de Boston quando perguntada qual sessão de treino mais difícil que já teve: “Não tive um treino que se destaque. O mais difícil pra mim é tentar correr rápido durante o treinamento pesado pra maratona.”

Vira e mexe nos stories do meu Instagram as pessoas me perguntam o que TOMAR (?!?) para ganhar disposição em treinos longos. Como é que é?! Seu treinador AINDA não te falou tudo sobre a corrida!? É como querer nadar e pedir conselhos de como não molhar o cabelo.

O treinamento é JUSTAMENTE expor seu corpo a uma condição que ele ainda “não tem”. Em preparação para eventos ou atividades de mais longa duração o estresse é mais extensivo e longo, já o treinamento de força e potência é mais intenso e agudo.

Porém, para gerar sobrecarga você faz com que o corpo COMPITA POR RECURSOS. Energéticos mesmo! Então você NÃO PODE esperar que após um treinamento DECENTE de pernas você vá estar feliz para ajudar um amigo na mudança de casa ou a encher uma laje. É IMPROVÁVEL que após um longo treinando pra Meia do Rio você tenha disposição para ir jogar bola com os sobrinhos. Por quê? Porque ele COMPETE pelos recursos energéticos, ele vai pedir que você fique quietinho.

Por isso é delírio a ideia de fazer mais exercícios pra emagrecer. Isso porque inúmeras análises controladas mostram que a pessoa que faz atividade física é MENOS ativa fora do treino. QUALQUER pessoa que tem/teve cachorro sabe disso… eu passeio com as minhas 2x/dia pra que elas não corram dentro da sala! Elas DORMEM depois dos passeios! Eu COCHILO, fico IMPRESTÁVEL depois dos meus longos de sábado! Eu não faço NADA depois dos treinos de tiro.

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Emagrecimento: Xadrez x Corrida

O ano é 1984, o Campeonato Mundial de Xadrez é temporariamente adiado porque o defensor do título, o russo Anatoly Karpov, havia perdido 10kg por causa das partidas.

Em outra edição, 20 anos depois, era a vez do campeão Rustam Kasimdzhanov sair 8kg mais magro.

Eu sempre falo que a ideia de que nosso peso (para mais ou para menos!) é resultado da teoria nunca antes DEVIDAMENTE testada do “balanço calórico” ainda permanece viva e forte é porque ela é apaixonante! (na verdade ela já foi N vezes refutada)

Ela é tão simples! É só jogar um conceito matemático em algo que SABEMOS ser biológico. Nela você ainda joga a culpa do sobrepeso em um fator meio puritano (a gula e preguiça do obeso!) e tira 100% das costas do especialista o caráter de incompetente por não compreender de conceitos básicos de sua área.

Se um profissional de saúde Marciano chegasse à Terra e fosse a um parque público sairia de lá com a teoria de que correr engorda, tamanha é a quantidade de pessoas acima do peso correndo.

Mentira!

Sabe por quê? Porque depois ele iria à África ver quenianos e etíopes magérrimos também correndo e concluiria que não é que corrida engorda ou emagrece.

É que africanos correm PORQUE são magros (e não para FICAR magros). E que os amadores acima do peso correm porque querem ser magros porque aqueles que são pagos para nos emagrecer ainda não entenderam que é uma questão de biologia… É sobre O QUE se come… E que não é matemático, sobre o QUANTO se come.

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O que o calor de Doha nos ensina?

Por motivos pouco nobre$ a IAAF resolveu fazer o Mundial de Atletismo deste ano em Doha (Qatar). A Maratona foi disputada à meia-noite para diminuir os efeitos do calor. Ainda assim largaram com 35°C, foi a vitória mais lenta da história da competição e teve mais de 40% das corredoras abandonando.

Eu vivo dizendo aqui que o desempenho na Longa distância é dependente de 3 fatores. Um deles é o

Eu vivo dizendo aqui que o desempenho na Longa distância é dependente de 3 fatores. Um deles é o VOLUME DE TREINO (de corrida!). Não importa a escola de treino, a nacionalidade. Você vai encontrar que em média os atletas fazem grande parte (~80%) dos quilômetros mais lento que o ritmo de competição. Não há muito segredo, o restante fica a gosto do treinador.

Os outros 2 são capacidade de DISSIPAÇÃO DE CALOR e (baixo) PESO. Repare ainda que peso tem relação forte e direta com a questão do calor e mesmo com o volume (é mais fácil correr 150km semanais pesando 60kg do que com 120kg).

A PRÁTICA

Semanas atrás, na gravação do podcast 3 Lados da Corrida com o psicólogo Arthur Ferraz, ao final fora do ar batíamos papo. Ele falava que estava prestes a viajar ao seu sexto Ironman no Havaí. Quando falávamos de seus treinos ele que é visivelmente e saudavelmente bem magro disse que precisava ainda perder “alguma coisa”. Por quê? Um cara do nível dele SABE que treino e peso “é tudo” nesse esporte.

A área (de nossa pele) é uma variável bidimensional enquanto nosso peso (ou volume) são tridimensionais. A relação de crescimento em ambas é sempre DESVANTAJOSA à capacidade de dissipação do calor, uma das 3 variáveis fundamentais. Entende meu ponto?

O gráfico abaixo que acompanha o texto é de 2 atletas de mesmo nível, um com 60kg e outro com 70kg. Só que os dois competindo a 26°C, um pode correr em 2h10 e outro “apenas” em 2h18 porque o “carburador esquenta”, o “motor fuma”.

Está treinando?? Tem que fazer mais! Tem que olhar o peso! Esqueeece tipo de pisada, tênis (modelo pesado PIORA um dos marcadores), palatinose (gel em excesso PIORA a questão do peso), meia de compressão (PIORA a dissipação)… Atleta BOM (igual o Arthur) SABE o que importa!

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O que cães podem nos ensinar sobre corrida?

Eu tenho duas… passeio diariamente correndo e andando… as minhas ficam felizes quando saem para correr… acham isso um privilégio! Talvez devêssemos ser um pouco mais gratos pelos nossos treinos…
As minhas saem para correr sem se alongar nem antes nem depois… mas o corredor amador acha que faz algum sentido parar para alongar antes e durante em gestos que nada lembram aquela atividade… nada mais sem sentido!
As duas fazem apenas uma refeição ao dia (jantar)… quando vamos sair elas não me perguntam sobre lanche pré-treino… suplemento durante? Elas não são tontas! Somente alguém que não entende do gingado acha que faz sentido ter que comer antes de fazer atividade…
Elas podem andar o tempo que for, quando tiverem sede, bebem água… e há – acredite! – quem pague um profissional para falar a besteira de que “sede é sinal tardio de desidratação”… bateu sede? Beba água! Sem sede? Segue o jogo!
Falei tudo isso após ler um belo texto da Podium Runner (*dica da Adriana Piza) com mais uma dessas lições… dessa vez é sobre treinamento em calor… os cães do autor correm desde o começo mais lento quando em alta temperaturas… Os escravos dos GPSs e dos relógios ignoram o óbvio (o calor nos faz mais lentos) e fazem força, empurram, querendo repetir o ritmo proposto da planilha cometendo o maior erro de todos: ignorar a realidade.
Sem usar GPS e sem termômetros os cães reduzem o ritmo. Há estudos BEM interessantes evidenciando que nós também saímos mais lentos sob temperaturas mais altas… não vá contra isso… não ignore isso, ignore SIM é a tentação de acelerar para ver um número mágico no visor. O corpo é sábio demais… mesmo um cão tonto como é um labrador parece saber mais que o corredor e o treinador médio… não se esqueça disso!
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