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“Por que quase tudo que você pensou sobre correr está errado”.

OU AINDA: Causa vs Consequência

É incrível o poder do apelo visual nas pessoas (homens que o digam). Tempo atrás um infográfico tentava explicar a superioridade de Usain Bolt. Milhares de compartilhamentos, pena que não havia lá NADA de muito esclarecedor.

Está rodando uma matéria interessante da ABC.net que leva o título do post. Ela fala de um equivocado excesso de foco nos pés. Conversei brevemente com o treinador Fabio Pierry sobre a matéria. Os 2 acho que concordam: é BEM-VINDO esse aviso da sobrevalorização nos pés, mas o autor confunde algumas vezes causa com consequência.

“FULANA É MELHOR PORQUE FAZ X…”

NÃO! PORQUE a Fulana é melhor ela faz X! É como dizer que como LeBron OPTA por enterrar ele é melhor que meu vizinho basqueteiro. NÃO! Como ele é melhor atleta ele PODE enterrar!

Recebo mensagens: “estou tentando acertar a entrada do meu pé”… PARA!! Ninguém enterra QUERENDO, mas TENDO condições. No pé há músculos e ENQUANTO ELES OU SE NÃO FOREM treinados o suficiente, você NÃO conseguirá sustentar a entrada com médiopé! Nem mesmo a ELITE consegue sustentar entrada assim por provas longas! “Querer é PODER” apenas em filmes! Causa é diferente de consequência! Por DÉCADAS treinando eu não consigo sustentar por 21km, por que vc acha que apenas porque vc QUER vc conseguirá?

 

Por ser melhor/superior esse alguém CONSEGUE sustentar assim por mais tempo, não é que ele é melhor por QUERER. Um corolário que amador e quem quer trabalhar em esporte não entende é: NÃO é o esporte que faz um atleta potente! É o atleta potente que faz esse esporte! Não é você que escolhe a especialidade, é a especialidade que te escolhe!

Está lá na matéria, “Fulana tem tempo de contato mais rápido” como se por fazer isso ela seria melhor. NÃO! Ela é tão melhor (atleta olímpica) que CONSEGUE fazer isso! O esporte escolhe seus melhores indivíduos!

Do ponto de vista técnico DE LONGE a melhor parte da matéria é o foco na ENORME importância do quadril, nosso REAL músculo de força! O “Running tall”, ou “grandão” no coloquial de pista, é SUBVALORIZADO. Treinadores de fundo aprenderiam MUITO se como os velocistas olhassem MUITO mais para o quadril.

 

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O corredor quer antes de tudo ser enganado

Ainda sobre o “Future Babble” de Dan Gardner eu conversava com um treinador. Será que as picaretagens são fruto de mau caratismo ou de ignorância? Como tudo na vida, a resposta parece residir em um ponto entre os 2. Eu oriento um corredor que caiu no conto desses centros pra fizer avaliação biomecânica. Foi uma piada de mau gosto. A pessoa que avalia sabia tanto de corrida quanto eu de saltos ornamentais. Sou Bacharel em Esporte, sou HABILITADO a dar treinos de saltos, mas só um imbecil me daria emprego técnico relevante na área.

Nem sei se quem avaliou era educador físico ou fisioterapeuta, mas sei que entendo tanto de hipismo quanto ele de corrida. Eu adiantei a ele o passo-a-passo do circo: feito em esteira, elegantemente vestido, protocolo nonsense

Gardner defende que esses profissionais REALMENTE acreditam no que falam. Eles REALMENTE acham que têm controle. É a ILUSÃO do controle, é o equívoco de tomar um sistema complexo por suas partes.

Há ainda um motivo menos nobre. “É difícil fazer um homem compreender algo quando seu salário depende, acima de tudo, que não o compreenda” (Upton Sinclair). Quando um leitor disse que fez sessões de Treinamento de Biomecânica de Corrida (novamente peço que ele não se ofenda, já me ENGANARAM de jeito pior) nem acho que a pessoa o “treinava” de má fé. Era um VENDEDOR que acredita naquilo. Como ele NUNCA deu treino, vende baseado na FÉ.

O mesmo treinador me listou outras picaretagens… boné com condicionador de ar , palmilha com fibra de carbono, máscara que simula altitude. Tem mais! Tem ainda suco de beterraba, whey protein isolado. Tem a palatinose, a Coenzima Q10 e o colágeno. Só quem é VENDEDOR ou nunca estudou bioquímica na vida pra defender esses 3.

Para haver o esperto, tem que antes haver o tolo (e eu já fui várias vezes, não se ofenda! Tive aula por ANOS com vários!). Correr é duro, dói, cansa, machuca e é aborrecido. Então SEMPRE haverá os que vendem atalhos e SEMPRE haverá quem QUER PAGAR por atalhos. É um terreno fértil a vendedores. E quem não gosta de dinheiro? Até eu que sou mais bobo, gosto!

E quem comprar fará o Chaves gritar: MAIS UMA PESSOA ENGANADA!

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“Input”, “Output”, Calorias, Cadência & McNamara

Num treino um atleta me mostrava os recursos do GPS novo. Outro atleta comentou: as pessoas não entendem que esses números são legais, mas eles são apenas “output” (saída), não “input” (entrada).

NUNCA tinha pensado nisso, ainda que viva explicando que Cadência é CONSEQUÊNCIA de fatores da corrida, não causa! O mesmo vale às calorias. Elas valem TÃO POUCO no emagrecimento que não surpreende que Nutrição seja um enorme fracasso ao assumir consumo calórico como causa e não consequência da dieta.

Acabei dia desses um livro recomendado por um grande amigo. Em “Future Babble” o autor Dan Gardner nos mostra como “especialistas” tentam usar todo tipo de dados pra prever desfechos. É ÓBVIO que erram com enorme talento.

Isso porque confundem DADOS com INFORMAÇÃO. Robert McNamara era um dos homens mais importantes dos EUA nos anos 60. Era um gênio, mas talvez JUSTAMENTE sua genialidade tenha dado seu nome a um termo nada lisonjeador. A Falácia de McNamara se refere ao equívoco de se tomar decisões baseadas apenas em observações (ou métricas) quantitativas, ignorando outras mais importantes.

Sempre que ouço as pessoas falando de valores de cadência, oscilação vertical, VO2máx, FC, acho que estou ficando louco. Corolário #1: DADO NÃO É INFORMAÇÃO.

“EU RECONHEÇO UM GORDO QUANDO EU VEJO”

Um dos caras que mais gosto soltou essa frase qdo questionado sobre o que define alguém com sobrepeso. Ele não precisa de IMC (lixo), dobras cutâneas (menos lixo) ou bioimpedância (um circo). Quando uma pessoa passa à minha frente correndo EU SEI QUE ELA ESTÁ CORRENDO. E assim chegamos ao Corolário #2: se seu treinador precisa de dados de cadência, oscilação vertical, etc., tenha cuidado! Ele te enxerga como um agregado de coxa, quadril, pés. Ele te divide! Porém, corrida é JUSTAMENTE uma junção HARMONIOSA de tudo isso de forma que varia individualmente.

Eu NÃO tenho aversão a dados (ainda que não faça IDEIA da cadência, oscilação e FC de NENHUM dos meus atletas)! Sou meio obcecado é com controle de ritmo, por exemplo. A diferença é que ninguém em sã consciência pede que alguém faça um ritmo X na prova, isso porque você apenas SABE que isso é CONSEQUÊNCIA.

 

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Quanto correr antes dos 42km? – parte 2

*obs: se você não leu o texto anterior (parte 1), vá lá antes.

Eu disse tempo atrás (stories) que tem corredor (rápido) meu que sugiro o maior longo a uma Meia como sendo 24km e praticamente os mesmos 24km pra quem quer correr uma Maratona (lento). Faz sentido?

Um dos maiores erros interpretativos até mesmo pra treinadores (!) é ignorar algo FUNDAMENTAL no treino esportivo: as cargas de treino são NÃO-lineares. O que isso quer dizer? Porcamente explicando, um exemplo. Um atleta pode fazer 100 saltos verticais caindo de uma altura de 40cm (pliometria). Porém, ele NÃO pode fazer 10 saltos de 4m (400cm), AINDA QUE a carga seja a MESMA. Ou, pior ainda, 1 salto de 40m!

A resposta de sistemas biológicos é do tipo NÃO-linear. POR ISSO que quando você faz um longo de 30km e um temporal com raios o interrompe quando você estava no 18km, fazer 12km de tarde NÃO fará que a sessão seja igual! (*aqui já pode parar com um tipo comum de pergunta… se “quebrar” treino em 2 dá no mesmo… não, NÃO dá!)

UMA das explicações (ao menos na resistência aeróbia) é que existem “janelas” que a classificam. A do tipo 3 (segundo VALDIVIELSO) vai de 1h30 a 6h00. Para treiná-la você precisa correr nessa margem, INDEPENDENTEMENTE do seu ritmo nos 42km (se 2h45 ou 4h45).

Agora voltemos ao exemplo dos saltos. Dar 100 saltos (40cm) você tem um treino, dar 10 saltos (4m) você tem lesão e 1 salto de 40m você tem óbito! O que SMITH e colaboradores (2019) encontraram foi que quem corre 42km em ~4h00 pode “ficar” nos longos de ~23km porque ele fica DENTRO da janela metabólica sem “se machucar”. Por quê? Porque o treinamento é NÃO-linear!

Agora voltemos ao exemplo dos saltos. Dar 100 saltos (40cm) você tem um treino, dar 10 saltos (4m) você tem lesão e 1 salto de 40m você tem óbito! O que SMITH e colaboradores (2019) encontraram foi que quem corre 42km em ~4h00 pode “ficar” nos longos de ~23km porque ele fica DENTRO da janela metabólica sem “se machucar”. Por quê? Porque o treinamento é NÃO-linear!

TODO MARATONISTA DEVE CORRER “SÓ” 23Km?

NÃO!!! Lembre-se (outro aspecto MUITO negligenciado por treinador): nosso corpo responde às leis fisiológicas do TEMPO, NÃO da distância. Quanto mais rápido um atleta, maior “PODE” ser seu maior longo! Expor atletas lentos a longos exagerados é como pedir pra alguém ficar saltando de 1m! Muito risco, POUCO retorno, MAIOR chance de lesão e MENOS treinos.

*Jack DANIELS sugere uma métrica ótima! Que o longo de um atleta nunca deveria superar 33% do seu volume semanal.

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Quanto correr antes dos 42km?

VOLUME é talvez a variável de cálculo de treino mais central no debate do treinamento de corrida. Faz sentido. 1km é 1km em qualquer “idioma”. Temos essa mania humana de querer simplificar o complexo. Não à toa das perguntas que mais recebo nos meus stories diz respeito sobre o volume a se usar nos longos pra uma maratona pra um determinado tempo desejado. Existiria esse valor?

Temos sempre que lembrar que esporte é sobre prática! Primeiro se observa o que fazem os melhores, sem nenhuma vergonha assumimos que copiamos e depois tentamos criar as teorias que expliquem o ocorrido. (obs: a Nutrição funciona às avessas, primeiro cria diretrizes e depois reza pra dar certo, por isso ela é um fracasso, ao contrário do Esporte)

Por muito tempo aceitei que TODO corredor deveria correr 30-36km antes de encarar uma maratona, afinal, só assim ele estaria preparado para encarar 42km. Porém, uma das obras mais fundamentais na minha formação é o livro LA RESISTENCIA do espanhol Valdivielso. E lá temos que a resistência aeróbia do tipo 3 é aquela que vai de 1h30 de esforço até ~6h00.

OU SEJA, tudo DENTRO desta janela fisiológica seria um treino ESPECÍFICO a esses corredores que fazem uma Maratona em 4h30, por exemplo. Então, TEORICAMENTE, não haveria porque se prender na distância (26km, 30km…), bastaria o corredor algumas vezes correr mais de 2h00 e o estímulo estaria dado.

VAMOS À PRÁTICA…

E aqui entra Barry Smith, um irlandês (país louco por atletismo) que trabalha como poucos no mundo das estatísticas na maratonas. Um estudo publicado por ele este ano fazendo uma regressão de cerca de 9.000 corredores encontrou algo que me deu ENORME alívio. SIM! A ideia de que TODO futuro maratonista deve encarar >30km não se sustenta na prática. O achado de Smith, aliás, é INCRÍVEL! Resumidamente, alguém que corre 4h00 precisaria correr em seu maior longo apenas 23km!! MUITO bom!

Na prática isso tira ENORME sobrecarga desses treinos muito longos abrindo possibilidade do treinador focar em treinos mais curtos e mais intensos que são MUITO mais efetivos na melhora de sua velocidade de prova!

Obrigado, Smith!

 

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