Arquivo da tag: Curiosidades

Cerutty e a “Dança do Pato”

Uma coisa sempre me irritou tremendamente quando estudo Esporte: é o mundo de arco-íris na qual desenham diretrizes. Sempre que falo que ignoro periodização, treinadores mais acadêmicos me espinafram. Papel aceita tudo! Na faculdade MUITO do que estudamos sobre Força vem baseado no que fazem fisiculturistas, o grupo esportivo mais obcecado e disciplinado que existe. MUITO do que fazemos no atletismo vem baseado em atletas que treinam 12x por semana, MUITOS consumindo aditivos proibidos, jogando fumaça se o que funciona é o método, o talento ou a recuperação anabolizada.

Minha ignorância só recentemente me apresentou à “Dança do Pato” (Duck Walk) de Chuck Berry. A foto do post é de um não-atleta assumindo uma posição de força que conheço poucos auto-denominados “atletas-run-maratonistas” que conseguem sustentar. Falo por experiência prática! Na base peço aos fundistas na pista sustentar caminhada assim por 1 minuto. Eu sei que eles devem xingar em pensamento até minha terceira geração.

Como alguém pode se assumir corredor se não consegue 1 MINUTO andando assim? Ou ainda dando tiros de 40m a 100%. Como alguém pensa ser capaz de correr rápido se NÃO corre rápido às vezes, se NÃO tem níveis BÁSICOS de força??

Essa semana revia um filme clássico de Percy Cerutti, um dos maiores da história aos 50 e tantos anos puxando Herb Elliot, um dos maiores atletas da história, numa SUBIDA em duna! É inacreditável!

Isso me remete a outro treinador! Wynn Gmitroski falou talvez antes de mim uma frase que SEMPRE defendi e repeti: “Tente em você primeiro tudo antes de sujeitar seus atletas a ele.”

você abre o Instagram e vê um monte de papagaiada… educativos, exercícios bizarros (no lugar, com pouca carga…)… Sabe como eu sei que tudo isso NÃO funciona? Porque a pessoa não faz aquilo NELA! Ela pede pra OUTROS fazerem porque lá no FUNDO ela SABE que NÃO funciona. Cerutty pedia aos seus atletas fazerem MUITA força porque acreditava nisso. Mas MUITO mais importante: ele ia lá e fazia!

Se a pessoa que pede pra você fazer algo não fez MUITO daquilo ou não faria MUITO disso hoje, fuja que é roubada! Saia de fininho… pequenino… igual o Chuck Berry!

Etiquetado , , , ,

O que nunca te contaram sobre CADÊNCIA

Tenho dificuldade de entender a importância e a necessidade que muitos insistem em dar a um marcador pobre como a CADÊNCIA. Na minha experiência nunca estive próximo de treinador que sequer tentava controlar essa variável. Talvez como eu, eles achavam que ela é mto mais CONSEQUÊNCIA do que CAUSA, mais marcador do que meta.

O que essas pessoas que olham cadência dão sinais claros de não conseguir entender é que comprimento de passada é uma REAÇÃO à FORÇA do impulso. O corredor amador adora ficar teorizando sobre pisada. Mal entende ele que o contato (que vai ditar o TIPO de pisada) é MUITO menos importante que TODA a fase de empurre. É do IMPULSO que sai o trabalho mecânico (ativo) enquanto o contato é PASSIVO. Talvez POR ISSO não encontramos correlação significativa de desempenho e TIPO de pisada, porque a pisada seria de muito MENOR importância.

Quem pede cadência de 180ppm ou não entendeu absolutamente NADA ou não leu o estudo original de DANIELS. Não faz sentido NENHUM pedir 180 qdo se debruça sobre o que temos de dados!

Vamos lá, nosso objetivo MAIOR é bem simples: completar uma distância no menor tempo possível. É MUITA ingenuidade achar que vamos correr quilômetros em parciais iguais. Nem os prós conseguem! O papel do treinador não é criar um “corredor-metrônomo”, mas desenvolver nossa capacidade de RESPONDER a várias situações de prova.

Nossa velocidade é resultado da passada e frequência (cadência). Temos uma miríade de possibilidades. Se mesmo os MELHORES DO MUNDO mudam essa “relação de marchas”, como então o amador conseguiria manter uma mesma?

O cansaço pode diminuir nossa força, fazendo necessária a redução da cadência pra compensar isso (você tem mais tempo “empurrando”, pra aumentar a amplitude). Nesse caso, a queda da cadência é algo indiretamente BOM, desejável! Por exemplo, o tempo de contato ao cair (e cai!) 5 centésimos por passo, mudaria a cadência em 5% (180 viraria 170). É ruim? Não mesmo! Pois permite músculos se revezarem no trabalho ao mudar o padrão motor. E isso é melhor feito quando o atleta TREINA em DIFERENTES velocidades e DISTINTAS cadências. Buscar uma cadência, por exemplo de 180, torna o atleta PIOR.

 

Etiquetado , , , ,

Corrida estacionária, corrida parado, corrida no lugar.

A quarentena pra mim compartilha com as redes sociais uma importante característica: evidencia a nós doenças que nem sabíamos das quais as pessoas sofriam. Semana passada no podcast discutimos um pouco dessas corridas em ambientes domiciliares fechados que acontecem 99% das vezes com a pessoa TENDO QUE exteriorizar o feito, numa clara evidência de motivação extrínseca.

Estão agora sugerindo ainda corrida parado (ou corrida estacionária), sei lá o nome que dar… É uma espécie de delírio induzido porque correr IMPLICA movimento horizontal, é como nadar no seco, como na foto.

 

Neste final de semana que passou enviei as planilhas de treinos aos meus alunos. Seria uma estupidez da minha parte sugerir ou sequer mesmo orientar correr parado. Se ele quiser correr parado, que faça! Só não pergunte a mim como fazer. Procure outra pessoa!

A história da corrida serve para mostrar o que os gdes fizeram. Aquilo que pareceu oferecer resultados é assimilado, o inútil ou contraproducente é abandonado. É assim que o esporte progride, não é com estudo randomizado como muitos pensam. Impossível estudar tudo, mas conheço apenas 2 famosos exemplos de grandes nomes que fizeram uso da corrida estacionária: Emil Zatopek e Percy Cerutti.

Zatopek, um obcecado nato, usava desse recurso quando estava preso a um quarto minúsculo no rigoroso inverno tcheco que enchia as ruas de neve. Zatopek fazia ainda treinos intervalados DIARIAMENTE.

Cerutti sugeria aos seus atletas fazer de 10 a 15 minutos diários de corrida estacionária APÓS 3 tipos de treino: 1h00 de “levantamento de peso intenso” ou após 45 minutos de tiros em subida ou após um fartlek de 29-32km.

Percebo que um dos maiores diferenciais entre os mais rápidos e os mais lentos é SABER o que faz a diferença. O amador parece querer roubar a cereja de bolo, a parte fácil, a parte que pode ser postada nas redes sociais, não a parte que historicamente funciona. Correr parado funcionasse bem, Cerutti e Zatopek não seriam a EXCEÇÃO, seriam a NORMA desta ferramenta.

Boa sorte tentando!

Etiquetado , , ,

O Trials (EUA) e o mercado dos rápidos

Gosto de olhar para a seletiva americana na Maratona (Trials) nos EUA como um espelho do mercado dentre os que gostam de correr rápido por alguns motivos. Pela característica dele, juntando cerca de 700 corredores, em vez de olhar para o pódio de majors, diluímos assim o efeito dos atletas patrocinados no perfil dos tênis mais escolhidos. Por exemplo, dentre os 6 que se classificaram pros Jogos, temos 2 que não tinham contrato com marcas! Na turma que vem atrás, temos ainda centenas de outros que têm que arcar ($) com o próprio tênis.

Vamos à imagem 1, tirada do Twitter. Um perfil fez uma contagem por equipe similar à que se usa no cross-country, somando a posição dos 3 melhores de cada “equipe” (marca esportiva) e o menor número assim ganha. No masculino nenhuma surpresa na liderança, Nike. Mas em 2o? Aquela marca que mais rápido lançou seu modelo com placa de carbono, a Hoka.

Quais outros destaques? adidas lá atrás (4o). ASICS? UM único atleta resolveu correr de ASICS, marca que já foi líder anos atrás no maior mercado do mundo, o americano. Brooks? Saucony? New Balance? Marcas MUITO fortes nos EUA não emplacam por aqui. Eu tenho minha explicação-chute, o Rodrigo Carneiro da Velocità sempre discorda dela.

No feminino fica interessante! Hoka à frente da Nike! Ex-líder ASICS? Gigante adidas? Lá atrás (5o e 7o, respectivamente).

Na imagem 2 desse post (que não sei a origem, por isso vai sem créditos, mas peguei foi com o Rodrigo Roehniss) temos os tênis por MODELO. Lembro que a Nike ofereceu gratuitamente o Alphafly, então é natural que houvesse tantos na prova, POR ISSO que acho a combinação desses levantamentos relevante… ele agrega um conjunto de quase 700 atletas MUITO rápido, MUITOS deles SEM patrocínio levando ainda em consideração a classificação final (ranking por “equipes”).

Não me espantou Nike como líder. Me espantou a Hoka (ágil na resposta ao mercado) e como marcas antes tão usadas ficaram TÃO pra trás tão rapidamente.

Por último, mas não menos importante, antes de você sair correndo pra imitar o tênis que as mulheres usam pra ver se corre mais rápido, talvez valha dar uma passada na imagem 3 e ver o volume SEMANAL de treino delas! Essa parece ser a real explicação, mas duvido que os amadores tirarão essa conclusão. Até porque os amadores não querem enxergar isso!

Etiquetado , , , , , , , ,

Sevilha e Lodz, duas desconhecidas….

Faz tempo que não tento entender pra onde caminha o mercado… a Maratona de NY sempre foi desejada, ok, mas até tempo atrás ninguém ligava muito para Chicago… De repente virou uma obsessão entre amadores correrem as majors… outras gigantes como Honolulu ou a Marine Corps parecem seguir sendo coisa de americano. Esse domingo rolou a de Sevilha que, assim como a vizinha Valencia, parece que ganhará adeptos.

O que atrai exatamente multidões? A fórmula ninguém sabe a certo, mas exige muito dinheiro. Fosse apenas um percurso plano, Sevilha deveria faz tempo estar entre as maiores, mas é hoje apenas a 3a do país (atrás da líder Valencia e da vice Barcelona com Madri em 4o).

E por que Sevilha deveria receber mais atenção? Ontem 11 corredores fizeram abaixo de 2h08, um recorde que apenas Dubai já conseguiu (2020). Bom, mas dinheiro distorce um pouco a “velocidade” de uma prova quando se paga para profissionais correrem forte… Porém, quando falamos de percursos planos e rápidos (devemos aliar a temperatura e umidade média), Sevilha possui o percurso mais plano da Europa, só que não consegue comunicar isso!

Não é só ela! Um levantamento anos atrás chegou que a prova de LODZ na Polônia é uma das 3 melhores para uma amador correr rápido no velho continente (altimetria no pé da imagem), mas essa é uma grande desconhecida de nós. Planejei ir até lá anos atrás, mas o calendário não deixou.

Enfim….. fica a dica! Se você busca correr rápido, tem preguiça como eu tenho de se inscrever com 1 ano de antecedência em sorteio e tem um orçamento mais limitado (são 2 países BEM mais baratos), Sevilha (Espanha) e Lodz (Polônia) talvez mereçam sua atenção.

Etiquetado , , , , ,