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Treinamento às vezes é mais sobre não perder do que ganhar

Uma vez o Léo Moratta enfatizou que a questão do Cócoras e do Agachamento é sobre RECUPERARMOS uma capacidade perdida ao longo de décadas de conforto e modernidade. Ele sempre fala que o agachamento é um movimento que não é “da musculação” (ou de qualquer outra atividade!), mas sim um gesto, uma capacidade, que pertence ao ser humano!

Em ANOS orientando eu NUNCA encontrei alguém que não pudesse correr ou fazer agachamento. FUJA do profissional que diz isso! Talvez você não possa (ou não deva!) correr Maratona ou já no dia 1 “agachar total”, mas não correr e nunca agachar? FUJA dele!

Uma das coisas mais irônicas de quem bate na tecla do educativo a um padrão básico como a corrida de longa distância é se enrolar diante das evidências mais explícitas. Roubei a foto do post. É MUITO fácil em qualquer parquinho encontrar crianças que repetem o gesto NATURAL da nossa corrida sem NUNCA terem feito educativos ou terem treinadores. Mas você NÃO encontrará uma criança fazendo um gesto esportivo complexo porque ele PRECISA SER ENSINADO.

O complexo você adquire. O fundamental você refina (treino) ou PERDE (sedentarismo). No fundo você JÁ O TEM, ele vem de fábrica! “NÃO SE ENSINA PÁSSAROS A VOAR”.

A um adulto que resolve ser corredor migrando de outro esporte você não perde tempo falando que correr é um pé na frente do outro. A um sedentário tampouco! Porém, este está destreinado. O treino não é TRAZER esse algo, APRESSANDO ou querendo acelerar o processo. Tolos fazem isso! O treinamento é CRIAR CONDIÇÕES pra que algo intrínseco POSSA voltar à tona.

O que não treinamos, perdemos. Exemplo? Velocidade. O correr PERTENCE à espécie! Essa bobagem de ficar olhando cadência e amplitude em amador ou iniciante… Boa amplitude é resultado de pernas fortes, não de VONTADE, de ESPERANÇA ou informação! Deixe acontecer! Foco nisso é coisa de quem estudou e não entendeu nada!

Essa obsessão com ensinar a correr é porque gostamos de justificar resultados, queremos dar explicações pra tudo. É a ilusão do controle! “Faça skipping e correrá com joelho elevado”. É o jeito de enganar o cliente. E a si mesmo.

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Pliometria: sim ou não?

Outro tema sempre recorrente nas perguntas do meu Instagram é a utilização de exercícios de pliometria na corrida (de longa distância). Me intrigam algumas obsessões (que eu chamo de tara) entre os amadores. O interesse pela pliometria meio que se explica… na cabeça do amador ela é quase como ser promovido! Quando um treinador aplica pliometria em um atleta é como se esse corredor tivesse atingido um outro nível, avançado, ele seria especial.

E se os atletas de alto nível usam, é porque deve ser eficiente. E se é eficiente, por que não aplicar também no amador?

Porcamente resumindo, pliometria são exercícios de potência usando saltos (com ou sem barreiras e/ou caixas) e medicine balls, por exemplo.

Querem saber se eu uso? NÃO se a pessoa corre provas maiores que 400m. Uso nada! São alguns os motivos. O mais simples é de ordem prática (ou lógica). Se o corredor é muito avançado (com alto volume) por que vou sobrecarregá-lo com a carga mecânica do salto que é TÃO agressiva? E se o corredor não é avançado (volume baixo) por que diabos vou colocar uma pessoa fragilizada pra ficar saltando (com ENORME carga de impacto)?

Há outros motivos, de caráter mais conceitual. Pliometria parece ser um exercício muito mais efetivo em DEMONSTRAR a potência de alguém do que DESENVOLVÊ-LA. Muita carga mecânica, pouco retorno, muito risco. Por que fazer no corredor amador de longa distância?

Tem mais! Sabe qual o melhor exercício de potência ESPECÍFICA a um corredor? Tiros, sprints (a 100%!). E por algum delírio coletivo corredores NÃO querem fazer isso, mas… querem fazer pliometria! É surreal! Querem correr rápido, SEM correr rápido e fazendo um gesto que mais DEMONSTRA o resultado do treino, mas pouco o promove.

Velocidade possui um alto componente de força. E força a gente trabalha fazendo altas cargas, poucas repetições com um bom descanso entre séries.

Deixe pliometria aos velocistas, foco no que te entrega mais. Quer saber mais? Dia 12 de maio (3a feira) eu e o Léo Moratta começaremos uma turma especial de 7 dias falando de Força e Mobilidade na corrida e abordaremos pliometria. Link de inscrição aqui.

 

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Cerutty e a “Dança do Pato”

Uma coisa sempre me irritou tremendamente quando estudo Esporte: é o mundo de arco-íris na qual desenham diretrizes. Sempre que falo que ignoro periodização, treinadores mais acadêmicos me espinafram. Papel aceita tudo! Na faculdade MUITO do que estudamos sobre Força vem baseado no que fazem fisiculturistas, o grupo esportivo mais obcecado e disciplinado que existe. MUITO do que fazemos no atletismo vem baseado em atletas que treinam 12x por semana, MUITOS consumindo aditivos proibidos, jogando fumaça se o que funciona é o método, o talento ou a recuperação anabolizada.

Minha ignorância só recentemente me apresentou à “Dança do Pato” (Duck Walk) de Chuck Berry. A foto do post é de um não-atleta assumindo uma posição de força que conheço poucos auto-denominados “atletas-run-maratonistas” que conseguem sustentar. Falo por experiência prática! Na base peço aos fundistas na pista sustentar caminhada assim por 1 minuto. Eu sei que eles devem xingar em pensamento até minha terceira geração.

Como alguém pode se assumir corredor se não consegue 1 MINUTO andando assim? Ou ainda dando tiros de 40m a 100%. Como alguém pensa ser capaz de correr rápido se NÃO corre rápido às vezes, se NÃO tem níveis BÁSICOS de força??

Essa semana revia um filme clássico de Percy Cerutti, um dos maiores da história aos 50 e tantos anos puxando Herb Elliot, um dos maiores atletas da história, numa SUBIDA em duna! É inacreditável!

Isso me remete a outro treinador! Wynn Gmitroski falou talvez antes de mim uma frase que SEMPRE defendi e repeti: “Tente em você primeiro tudo antes de sujeitar seus atletas a ele.”

você abre o Instagram e vê um monte de papagaiada… educativos, exercícios bizarros (no lugar, com pouca carga…)… Sabe como eu sei que tudo isso NÃO funciona? Porque a pessoa não faz aquilo NELA! Ela pede pra OUTROS fazerem porque lá no FUNDO ela SABE que NÃO funciona. Cerutty pedia aos seus atletas fazerem MUITA força porque acreditava nisso. Mas MUITO mais importante: ele ia lá e fazia!

Se a pessoa que pede pra você fazer algo não fez MUITO daquilo ou não faria MUITO disso hoje, fuja que é roubada! Saia de fininho… pequenino… igual o Chuck Berry!

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O que nunca te contaram sobre CADÊNCIA

Tenho dificuldade de entender a importância e a necessidade que muitos insistem em dar a um marcador pobre como a CADÊNCIA. Na minha experiência nunca estive próximo de treinador que sequer tentava controlar essa variável. Talvez como eu, eles achavam que ela é mto mais CONSEQUÊNCIA do que CAUSA, mais marcador do que meta.

O que essas pessoas que olham cadência dão sinais claros de não conseguir entender é que comprimento de passada é uma REAÇÃO à FORÇA do impulso. O corredor amador adora ficar teorizando sobre pisada. Mal entende ele que o contato (que vai ditar o TIPO de pisada) é MUITO menos importante que TODA a fase de empurre. É do IMPULSO que sai o trabalho mecânico (ativo) enquanto o contato é PASSIVO. Talvez POR ISSO não encontramos correlação significativa de desempenho e TIPO de pisada, porque a pisada seria de muito MENOR importância.

Quem pede cadência de 180ppm ou não entendeu absolutamente NADA ou não leu o estudo original de DANIELS. Não faz sentido NENHUM pedir 180 qdo se debruça sobre o que temos de dados!

Vamos lá, nosso objetivo MAIOR é bem simples: completar uma distância no menor tempo possível. É MUITA ingenuidade achar que vamos correr quilômetros em parciais iguais. Nem os prós conseguem! O papel do treinador não é criar um “corredor-metrônomo”, mas desenvolver nossa capacidade de RESPONDER a várias situações de prova.

Nossa velocidade é resultado da passada e frequência (cadência). Temos uma miríade de possibilidades. Se mesmo os MELHORES DO MUNDO mudam essa “relação de marchas”, como então o amador conseguiria manter uma mesma?

O cansaço pode diminuir nossa força, fazendo necessária a redução da cadência pra compensar isso (você tem mais tempo “empurrando”, pra aumentar a amplitude). Nesse caso, a queda da cadência é algo indiretamente BOM, desejável! Por exemplo, o tempo de contato ao cair (e cai!) 5 centésimos por passo, mudaria a cadência em 5% (180 viraria 170). É ruim? Não mesmo! Pois permite músculos se revezarem no trabalho ao mudar o padrão motor. E isso é melhor feito quando o atleta TREINA em DIFERENTES velocidades e DISTINTAS cadências. Buscar uma cadência, por exemplo de 180, torna o atleta PIOR.

 

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Corrida estacionária, corrida parado, corrida no lugar.

A quarentena pra mim compartilha com as redes sociais uma importante característica: evidencia a nós doenças que nem sabíamos das quais as pessoas sofriam. Semana passada no podcast discutimos um pouco dessas corridas em ambientes domiciliares fechados que acontecem 99% das vezes com a pessoa TENDO QUE exteriorizar o feito, numa clara evidência de motivação extrínseca.

Estão agora sugerindo ainda corrida parado (ou corrida estacionária), sei lá o nome que dar… É uma espécie de delírio induzido porque correr IMPLICA movimento horizontal, é como nadar no seco, como na foto.

 

Neste final de semana que passou enviei as planilhas de treinos aos meus alunos. Seria uma estupidez da minha parte sugerir ou sequer mesmo orientar correr parado. Se ele quiser correr parado, que faça! Só não pergunte a mim como fazer. Procure outra pessoa!

A história da corrida serve para mostrar o que os gdes fizeram. Aquilo que pareceu oferecer resultados é assimilado, o inútil ou contraproducente é abandonado. É assim que o esporte progride, não é com estudo randomizado como muitos pensam. Impossível estudar tudo, mas conheço apenas 2 famosos exemplos de grandes nomes que fizeram uso da corrida estacionária: Emil Zatopek e Percy Cerutti.

Zatopek, um obcecado nato, usava desse recurso quando estava preso a um quarto minúsculo no rigoroso inverno tcheco que enchia as ruas de neve. Zatopek fazia ainda treinos intervalados DIARIAMENTE.

Cerutti sugeria aos seus atletas fazer de 10 a 15 minutos diários de corrida estacionária APÓS 3 tipos de treino: 1h00 de “levantamento de peso intenso” ou após 45 minutos de tiros em subida ou após um fartlek de 29-32km.

Percebo que um dos maiores diferenciais entre os mais rápidos e os mais lentos é SABER o que faz a diferença. O amador parece querer roubar a cereja de bolo, a parte fácil, a parte que pode ser postada nas redes sociais, não a parte que historicamente funciona. Correr parado funcionasse bem, Cerutti e Zatopek não seriam a EXCEÇÃO, seriam a NORMA desta ferramenta.

Boa sorte tentando!

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O Trials (EUA) e o mercado dos rápidos

Gosto de olhar para a seletiva americana na Maratona (Trials) nos EUA como um espelho do mercado dentre os que gostam de correr rápido por alguns motivos. Pela característica dele, juntando cerca de 700 corredores, em vez de olhar para o pódio de majors, diluímos assim o efeito dos atletas patrocinados no perfil dos tênis mais escolhidos. Por exemplo, dentre os 6 que se classificaram pros Jogos, temos 2 que não tinham contrato com marcas! Na turma que vem atrás, temos ainda centenas de outros que têm que arcar ($) com o próprio tênis.

Vamos à imagem 1, tirada do Twitter. Um perfil fez uma contagem por equipe similar à que se usa no cross-country, somando a posição dos 3 melhores de cada “equipe” (marca esportiva) e o menor número assim ganha. No masculino nenhuma surpresa na liderança, Nike. Mas em 2o? Aquela marca que mais rápido lançou seu modelo com placa de carbono, a Hoka.

Quais outros destaques? adidas lá atrás (4o). ASICS? UM único atleta resolveu correr de ASICS, marca que já foi líder anos atrás no maior mercado do mundo, o americano. Brooks? Saucony? New Balance? Marcas MUITO fortes nos EUA não emplacam por aqui. Eu tenho minha explicação-chute, o Rodrigo Carneiro da Velocità sempre discorda dela.

No feminino fica interessante! Hoka à frente da Nike! Ex-líder ASICS? Gigante adidas? Lá atrás (5o e 7o, respectivamente).

Na imagem 2 desse post (que não sei a origem, por isso vai sem créditos, mas peguei foi com o Rodrigo Roehniss) temos os tênis por MODELO. Lembro que a Nike ofereceu gratuitamente o Alphafly, então é natural que houvesse tantos na prova, POR ISSO que acho a combinação desses levantamentos relevante… ele agrega um conjunto de quase 700 atletas MUITO rápido, MUITOS deles SEM patrocínio levando ainda em consideração a classificação final (ranking por “equipes”).

Não me espantou Nike como líder. Me espantou a Hoka (ágil na resposta ao mercado) e como marcas antes tão usadas ficaram TÃO pra trás tão rapidamente.

Por último, mas não menos importante, antes de você sair correndo pra imitar o tênis que as mulheres usam pra ver se corre mais rápido, talvez valha dar uma passada na imagem 3 e ver o volume SEMANAL de treino delas! Essa parece ser a real explicação, mas duvido que os amadores tirarão essa conclusão. Até porque os amadores não querem enxergar isso!

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Sevilha e Lodz, duas desconhecidas….

Faz tempo que não tento entender pra onde caminha o mercado… a Maratona de NY sempre foi desejada, ok, mas até tempo atrás ninguém ligava muito para Chicago… De repente virou uma obsessão entre amadores correrem as majors… outras gigantes como Honolulu ou a Marine Corps parecem seguir sendo coisa de americano. Esse domingo rolou a de Sevilha que, assim como a vizinha Valencia, parece que ganhará adeptos.

O que atrai exatamente multidões? A fórmula ninguém sabe a certo, mas exige muito dinheiro. Fosse apenas um percurso plano, Sevilha deveria faz tempo estar entre as maiores, mas é hoje apenas a 3a do país (atrás da líder Valencia e da vice Barcelona com Madri em 4o).

E por que Sevilha deveria receber mais atenção? Ontem 11 corredores fizeram abaixo de 2h08, um recorde que apenas Dubai já conseguiu (2020). Bom, mas dinheiro distorce um pouco a “velocidade” de uma prova quando se paga para profissionais correrem forte… Porém, quando falamos de percursos planos e rápidos (devemos aliar a temperatura e umidade média), Sevilha possui o percurso mais plano da Europa, só que não consegue comunicar isso!

Não é só ela! Um levantamento anos atrás chegou que a prova de LODZ na Polônia é uma das 3 melhores para uma amador correr rápido no velho continente (altimetria no pé da imagem), mas essa é uma grande desconhecida de nós. Planejei ir até lá anos atrás, mas o calendário não deixou.

Enfim….. fica a dica! Se você busca correr rápido, tem preguiça como eu tenho de se inscrever com 1 ano de antecedência em sorteio e tem um orçamento mais limitado (são 2 países BEM mais baratos), Sevilha (Espanha) e Lodz (Polônia) talvez mereçam sua atenção.

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CHEATFLY modelo 1957. Ou ainda: os Magic Shoes russos.

O MONSTRO treinador PJ Vazel nos trouxe a história dos primeiros CheatFLys do atletismo. Vou recapitular resumidamente… o saltador em altura Yuri Stepanov (ex-URSS) passou a usar por conta em seus últimos saltos nas competições um tênis que teria entressola de 4-5cm, ou seja, igual a aberração usada em Viena ano passado.

Resultado? Stepanov era agora capaz de bater o recorde mundial (WR) e quebrar a hegemonia americana de quase meio século (!!) na prova. Obviamente não foi só isso (SEMPRE que se toca no assunto asnos correm nos comentários escrevendo ainda em 4 apoios: “bate lá então vc o recorde do Kipchoge“).

Os soviéticos haviam mudado a ABORDAGEM da prova. Passaram acelerar na aproximação ao sarrafo (americanos aceleravam apenas nos 3 passos finais, soviéticos passaram a fazer toda a corrida em sprint). Tem mais, a ex-URSS fazia seus atletas fazerem então MUITO treino de força (acredite, saltadores fazem MUITO treino de força, eles não saltam daquele jeito porque fazem educativos…).

A imagem do post não é de Stepanov, mas de seu adversário Ernie Shelton (EUA) que criou uma sapatilha “armadilha de urso” para poder competir em pés de igualdade. O resultado? Americanos e agora alemães começaram a usar tamancos cada vez maiores. Com o WR quebrado e humilhado a IAAF teve que se mexer (novamente lenta). MANTEVE o WR com auxílio de tênis e estabeleceu que não mais que 13mm (meia polegada) eram permitido entre os pés e a pista. Pronto! Simples, não?!

Mais duas consequências. Stepanov CONTINUOU a competir e a ganhar, mas sem as mesmas marcas e acabou tragicamente cometendo suicídio aos 31 anos em 1963.

O WR do salto e altura CONTINUOU a subir MESMO sem os CheatFlys! Mas a IAAF viu que precisava proteger seu próprio esporte porque NADA impedia alguém de saltar com perna de pau assim como não há atualmente NADA que impeça você de usar rodinhas ou patins.

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