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Força vs Instabilidade

Foi vendo a foto (abaixo) do meu amigo Eric em um de seus posts que lembrei que precisava falar de algo faz um tempão! Depois volto a esse monstro!

Não deve haver UM termo muito mais banalizado no treinamento do que CORE e FUNCIONAL. Quase TUDO cabe dentro do guarda-chuva deles. Não passa UMA rodada de stories sem me perguntarem da isometria pra trabalhar Core. Ou ainda os Funcionais CHEIOS de instabilidade querendo ganhar força.

Vou te falar DE GRAÇA na lata algo que demorou MUITO pra eu aprender na marra (fora da faculdade, lógico): Força e Estabilidade estão em pólos OPOSTOS da execução. Quando você foca em instabilidade, você PERDE o peso da força na execução e SEM treinar força – sem mistérios aqui – você NÃO a desenvolve!!

Li um treinador velocista MUITO bom dizendo algo mais ou menos assim: quer trabalhar CORE? Dê tiros de velocidade (100%). Agache com MUITO peso. NADA trabalha mais Core do que isso!

Experimente fazer 5×4 agachamentos livres com a barra à frente! E me fale do seu Core. Eu posso fazer 15 minutos de prancha e ok. Agachar com barra à frente? Preciso de DIAS pra me recuperar na região. Dias.

O Eric é um monstro. O conheci e ele era ainda menino. Tenho vergonha de falar quantos anos já fazem. Segundo ele, “seguindo suas dicas, comendo bem, mudei algumas coisas e passei de 85kg pra 81,5kg”! Quando ele me chamou dizendo que queria orientação não pensei 2x! Quem não gosta de trabalhar com atleta de Verdade? (com V maiúsculo)

Vivo dizendo que corrida é no plano sagital. Majoritariamente. A cada passo, o nosso e o corpo do Eric querem desmontar, se contorcem no plano transverso. Quem não deixa “quebrar a forma”? Os estabilizadores. Só que ele corre rápido igual um demônio! Quem você acha que tem que segurar a bronca? Os estabilizadores!

Só que não há como dar FORÇA a eles com estabilidade, carga baixa e estática (isometria)! Veja bem, ele PRECISA da resistência da força específica! Como ele dá tiros pra baixo de 11 segundos e agacha com um geladeira nas costas o resultado é esse aí.

Resumo: a instabilidade NÃO pode ser um fim que SACRIFIQUE o que vc MAIS quer, FORÇA específica!

📸 Fractal

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Força!

SEMPRE que vc tiver alguma dúvida da importância da força em se correr bem, repare nesta foto da venezuelana Yulimar Rojas, que bateu essa semana o recorde mundial indoor do salto triplo, metendo 15,43m em Madri.

Acho que é BEM claro até intuitivamente pra todo mundo que quanto mais colocamos força fazendo em um gesto, MENOR é nossa acurácia, precisão, controle deste mesmo gesto motor. A meta da triplista é ir o mais longe possível, mas empurrando seu corpo na reta que é permitido pela regra ela faz muita força e se desloca um pouco lateralmente involuntariamente (lembre-se que ela quer ir para frente, não pros lados!) e ela faz isso mesmo SABENDO que pode lhe custar alguns centímetros. Mas ao “empurrar” perde um pouco da precisão, mas ganha velocidade! E ela só consegue isso fazendo força!Dia desses alguém escreveu “ah, mas os africanos não parecem fortes”… 2 pontos aqui!

No esporte a força funcional leva em conta o tanto de peso que carregamos (o corporal). Quantitativamente os africanos realmente não são fortes, pesam menos de 60kg… Eles precisam fazer quantitativamente bem menos força que um amador de 88kg, por exemplo. A força é assim proporcional!

Dia desses postei na turma dos meus workshops o treino de força de um dos maratonistas mais conhecidos da atualidade… 4 a 5 séries de 5 agachamentos totais com 80kg, algo como 1,3x seu peso corporal… voltando ao corredor de 88kg: você acha que ele consegue fazer com 115kg? Aliás, VOCÊ consegue??

Por fim, o segundo ponto… não confundir força com tamanho… Rojas é longilínea, assim como os saltadores em altura… e eles são ambos EXTREMAMENTE fortes. Duvida? Vá um dia acompanhar um treino desses atletas. Hipertrofia é UMA coisa (estética porque privilegia o volume sobre a força), já FORÇA é funcional! É outra coisa MUITO diferente!

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“Smoothness”

Ultimamente não tem se passado um dia sem que eu pense que a melhora na corrida de um amador deveria vir baseada em ganhos de força acima de qualquer coisa. Lembro que quando ainda trabalhava com velocistas, no universitário feminino eu dizia que o melhor revezamento não se ganhava treinando na pista, mas na musculação. No feminino com uma barra e muitas anilhas e você mal precisava levá-las à pista correr!

Dia atrás vi a imagem de uma corredora descalça correndo. Foi angustiante. O pé, nossa ligação primária com o ambiente, era tão fragilizado que você mal enxergava seu arco. Essa pessoa, tenho CERTEZA, se preocupa com tênis, pisada, volume de treino, ritmos e tem um pé que tem menos músculo que um pastel de carne.

Seus joelhos voltados pra dentro, sinalizando pernas e quadris que não suportam sequer seu peso, o que dizer de UMA perna sozinha por vez suportando TODO o peso somado ao impacto?

Todos enxergamos correr como nossa capacidade de GERAR um trabalho, mas ela é ANTES disso derivada de nossa capacidade de ABSORVER a carga INTRÍNSECA da modalidade. É como achar que podemos atacar sem defender! Ou seja, o corredor se preocupa com a chuteira, com caneleira, a tática do adversário, mas não repara que seu time entrou sem goleiro e zagueiros.

CRAIG PICKERING é um ex-velocista que escreve brilhantemente. Ele resolveu se debruçar sobre a suavidade e a fluidez (“smoothness”) na corrida. E a capacidade de ABSORVER IMPACTOS parece ser decisivo nessa história! Uma corrida passiva (que joga ao tênis esse trabalho) é ineficiente. E a fragilidade traz movimentos descoordenados (por trabalhar sempre no limite da exaustão).

Muitos dos corredores (amadores!) que mais admiro têm essa leveza! Parece que suas articulações são mais lubrificadas que a média, mas na verdade olhando a fundo vemos que são pessoas fortes, que faz a corrida parecer fácil, natural, fluida!

Os educativos “quebram” a fluidez da corrida (porque encara tudo em separado) e a fragilidade do conjunto nos impede de qualquer coisa. Pense nisso!

p.s.: não foi à toa que escolhi para este tema foto do velocista de corrida mais linda da história, Tyson Gay.

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CHEATFLY modelo 1957. Ou ainda: os Magic Shoes russos.

O MONSTRO treinador PJ Vazel nos trouxe a história dos primeiros CheatFLys do atletismo. Vou recapitular resumidamente… o saltador em altura Yuri Stepanov (ex-URSS) passou a usar por conta em seus últimos saltos nas competições um tênis que teria entressola de 4-5cm, ou seja, igual a aberração usada em Viena ano passado.

Resultado? Stepanov era agora capaz de bater o recorde mundial (WR) e quebrar a hegemonia americana de quase meio século (!!) na prova. Obviamente não foi só isso (SEMPRE que se toca no assunto asnos correm nos comentários escrevendo ainda em 4 apoios: “bate lá então vc o recorde do Kipchoge“).

Os soviéticos haviam mudado a ABORDAGEM da prova. Passaram acelerar na aproximação ao sarrafo (americanos aceleravam apenas nos 3 passos finais, soviéticos passaram a fazer toda a corrida em sprint). Tem mais, a ex-URSS fazia seus atletas fazerem então MUITO treino de força (acredite, saltadores fazem MUITO treino de força, eles não saltam daquele jeito porque fazem educativos…).

A imagem do post não é de Stepanov, mas de seu adversário Ernie Shelton (EUA) que criou uma sapatilha “armadilha de urso” para poder competir em pés de igualdade. O resultado? Americanos e agora alemães começaram a usar tamancos cada vez maiores. Com o WR quebrado e humilhado a IAAF teve que se mexer (novamente lenta). MANTEVE o WR com auxílio de tênis e estabeleceu que não mais que 13mm (meia polegada) eram permitido entre os pés e a pista. Pronto! Simples, não?!

Mais duas consequências. Stepanov CONTINUOU a competir e a ganhar, mas sem as mesmas marcas e acabou tragicamente cometendo suicídio aos 31 anos em 1963.

O WR do salto e altura CONTINUOU a subir MESMO sem os CheatFlys! Mas a IAAF viu que precisava proteger seu próprio esporte porque NADA impedia alguém de saltar com perna de pau assim como não há atualmente NADA que impeça você de usar rodinhas ou patins.

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O Esporte sempre ensinou à Nutrição

Estou lendo a biografia da velocista Betty Robinson (EUA). O livro “Fire on the Track” conta o triunfo das primeiras velocistas olímpicas da história. Na viagem transatlântica da delegação americana até Amsterdã, sede dos Jogos Olímpicos de 1928, aconteceu um equívoco que se repetiria em 1936 na viagem até Berlim. Para oferecer o máximo de conforto aos seus atletas, os dirigentes resolveram oferecer um conforto que nunca serviu para construir excelência atlética.

A bordo do S.S. Roosevelt os atletas tinham à sua disposição acesso livre a: biscoito com molho de carne, galinha frita, panquecas com cobertura, tortas, cookies, licor, chocolate e sorvete. Para surpresa dos dirigentes, e acho que somente deles, os atletas chegaram à Europa muito acima do peso.

Um jornal inglês fez piada com o ocorrido, isso porque à bordo do navio britânico os atletas tinham: chá, salada, galinha, carne bovina e vegetais cozidos. E o que aconteceu com a delegação da rainha? Mantiveram a forma.

De um lado por décadas a Nutrição Esportiva tenta nos convencer que um praticante qualquer de atividade física não só pode como até mesmo “deve” comer alimentos ricos em carboidratos refinados (farinhas). Isso seria essencial ao desempenho.

E de outro lado a Nutrição insiste com sua teoria nunca testada de que a causa do ganho de peso é o balanço calórico positivo (consumo maior que gasto).

A Nutrição vive de teorias, o Esporte de prática. Para manter a forma de seus atletas, o comitê britânico manteve longe do navio alimentos “engordativos”. Já os atletas americanos mesmo treinando diariamente e incessantemente pelo cais e academias da embarcação só viu seu peso subir.

Um dos maiores delírios das diretrizes atuais à sociedade é ficar repetindo o mantra ineficaz de que para manter a forma ou perder a obesidade que assola o planeta deveríamos nos mexer mais. Isso não serviu para manter a silhueta dos melhores e mais dedicados atletas do planeta um SÉCULO atrás. Mas a Nutrição insistentemente ignora um célebre ditado: é BURRICE esperar resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa.

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O dilema do atletismo e os tênis com placas…

REGRA 143.2 do atletismo: (…) sapatos, no entanto, não devem ser construídos de modo a dar aos atletas qualquer assistência injusta ou vantagem. Qualquer tipo de sapato usado deve ser razoavelmente disponível para todos no espírito da universalidade do atletismo.

Tivemos na Maratona de Chicago um recorde mundial dito “inquebrável” sendo destruído. Vimos um dia antes um circo derrubar a barreira das 2h00. Algo precisa ser feito pela “universalidade do atletismo”. O homem mais poderoso da modalidade, Sebastian Coe, é patrocinado (U$100.000/ano) pela marca fabricante e acredito que por isso, não toca no assunto. É nojento.

Eliud Kipchoge corria antes de ter tênis customizado 42km em 2h03. Com eles correu 2h01. Kenenisa Bekele? 2h03. Com eles? 2h01. As melhores marcas da história têm TODAS menos de 18 meses. Há um padrão. Todas com o mesmo modelo. Mas muita gente finge não ver.

A discussão sobre ser contra tecnologia é TOSCA. A F-1 tem em sua ESSÊNCIA o embate tecnológico e percebeu ainda em 1993 (!) que isso MATARIA o esporte e proibiu N recursos tecnológicos. Hoje apenas estrelas patrocinadas pela Nike correm com o produto mais recente. Ou seja…

NÃO

UNIVERSALIDADE

“Ah, você é contra a tecnologia…

Pistas sintéticas são para TODOS os competidores. Os tênis não. Sapatilhas NÃO conferem a mesma vantagem (em desempenho), além de serem universais. Você NÃO TEM no atletismo QUALQUER coisa semelhante.

Coe foi GIGANTE como atleta. Como cartola é medíocre.

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A corrida como uma sucessão de saltos…

Correr é tão simples – você nasce, anda e corre. Não complique!

Se Herb Elliott, um dos maiores corredores da história, disse isso quem sou eu pra discutir??

Gosto de ver a corrida como sendo aquilo que ela é: o gesto atlético mais simples que existe. Tenho pavor quando dizem que “cada um tem um jeito“… NÃO! Você olha e SABE que alguém corre. Você nunca confunde alguém correndo com alguém dando cambalhotas. Há um padrão COMUM ao movimento.

Gosto de ver também a corrida como uma série de saltos horizontais. Os melhores, mais eficientes, vão mais à frente e menos ao alto. Por ISSO também que o fortalecimento da corrida simula este gesto.

Sabe aquele exercício esdrúxulo de força que pediram que você faça na academia? Pense: ele te fará saltar mais? Se não, por que faria você CORRER mais?

Outra coisa, quando você salta você cai com o calcanhar? Dói, né?! Será que não há uma lógica nisso tudo?

A imagem que separei abaixo neste post é uma das fotos mais incríveis do atletismo em 2019. Se você ainda tem certa dificuldade de entender a corrida como sendo uma série de saltos horizontais, espero que ela te ajude algo que também não também vi de cara…

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A Supinação como doença…

Após tocarmos o solo o pé faz um pequeno rolamento medial (girando “para dentro”). Porém, algumas pessoas acabam não fazendo esse rolamento, gerando maior solicitação da região lateral (“de fora”) do pé. E esse movimento é chamado de “supinação”. Sabe como se chama em inglês? Underpronation.

Pronação é algo completamente normal, em maior ou menor grau, TODOS pronamos nosso pé. Em inglês a palavra mais apropriada para pronação é pronation. Quem “prona” é pronador, já em inglês é OVERpronator.

Em português pode ter ficado um pouco confuso, como se pronar (muito ou pouco) fosse algo a ser erradicado do padrão motor.

Mas nem sempre a pronação (e o controle de movimento) teve papel central na escolha de calçados. Na década de 70, entretanto, a indústria de tênis resolveu criar uma espécie de doença – a pronação – para a qual ela mesma inventou um remédio. Nada mais apropriado a quem vende do que criar doentes e vender-lhes não uma cura, mas uma remissão, um tratamento contínuo e a longo prazo.

Por anos o marketing das fabricantes separou propositadamente os corredores basicamente em 3 tipos (com subcategorias): pronadores, supinadores e neutros. Ela criou remédios específicos e doutrinou a todos, até os profissionais da área de Educação Física, Fisioterapia e Medicina, que nunca questionaram a fundo a questão.

Quando apenas o discurso sem estudos e comprovações não era suficiente, partiram patrocinando institutos, associações, conselhos de categoria, revistas e formadores de opinião que reproduziam, e reproduzem até hoje o mesmo discurso em troca de material ou de pagamento.

Isso bastou para criar uma leva de corredores receosos de que correr com um tênis fora de sua categoria de pisada fosse machucá-los seriamente. Os corredores, aliás, estão na última linha de quem se deve culpar pelo costume de, ainda hoje, depositarem no tipo do tênis, sua estabilidade, o amortecimento e o controle de movimento a responsabilidade para protegê-los de lesões. O fascínio por tênis não é atual, mas quando foi atribuído um poder de nos proteger, essa fixação só se acentuou.

*Trecho de O Treinador Clandestino

Fotos: Revista Beat

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