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Esteira vs Rua: Quais as diferenças?

Nos stories do meu Instagram perguntaram se treinar apenas em pista diariamente seria um problema… SIM. Isso porque o treinamento todo feito num mesmo piso não-natural, criado pelo homem, com uma uniformidade artificial está LONGE de ser ótimo. Com esteira é assim, mas por outro motivo.

A Economia de Corrida de quem treina em esteira é piorada (na rua, que é onde importa). O tempo de contato do corredor na esteira é prolongado, MAIOR do que no piso duro da rua. Quem treina em esteira fica bom de correr em… esteiras! Quantas provas são em esteira? Quando você vai pra rua você aplica então o mesmo tempo de contato (prolongado) no asfalto, uma menor cadência, uma maior amplitude, PORÉM com MENOR agressividade (menor resultante do movimento horizontal, uma vez que não é você quem corre na esteira, mas ela quem corre, você deixa que ela vá pra trás em vez de você ir à frente).

SIM, esteira é conveniente, pode ser uma mão na roda em chuvas torrenciais, ambientes perigosos, horários inoportunos… NÃO, ela não simula adequadamente a corrida. Além disso, 1km é 1km ainda que na esteira. Melhor do que nada, eu sei!

Um problema grande da transferência da esteira é que ainda que você coloque 1% na inclinação, ela exige até 7% menos do que correr na rua. Aqui ela se assemelha ao mesmo pensamento torto e sem lógica corrente na Nutrição Esportiva: facilitar a vida do corredor no TREINO quando o que o treinamento pretende fazer é JUSTAMENTE exigir algo a mais (é burrice da Nutrição, eu sei).

Tenho calafrios quando vejo treinador defender a esteira porque ela dá controle. O ambiente competitivo é NÃO-controlado! Por que automatizar um padrão de corrida que NÃO é aquele que será usado no dia? Não faz sentido algum…

Treinar em esteira vai na contramão do treino em pisos irregulares. A esteira facilita sua vida, dá um padrão facilitado e tem uma estabilidade irreal, não-natural no ambiente competitivo.

Esteira? Só em último caso.

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Corrida e Protetor Solar

Quando postei semanas atrás que não usava nem recomendava protetor solar na corrida começaram os comentários: como assim?!?

Esqueçamos um pouco o desempenho (se muito da elite não usa, deve ter motivo, não queiramos ensinar padre a rezar), já que é uma barreira física à sudorese, um enorme controlador de temperatura corporal.

Eu não uso protetor há MUITOS anos. Se as diretrizes erraram em TUDO o que diz respeito à saúde, meu palpite de cara é que devem estar errados nisso também. A Academia Americana de Dermatologia tem tolerância zero à exposição solar. Está lá no site deles: “Você precisa proteger sua pele do sol todos os dias, mesmo quando está nublado”.

Para mim não faz muito sentido… Nossa espécie é diurna e tem vivido assim e sem cremes com sucesso por milhões de anos. Parece-me ilógico dermatologista dizer que se sairmos sem estar besuntado de creme, morreremos. Olhando pra trás, minha família foi paupérrima a ponto de não ter dinheiro pra cremes. Vou contabilizar aqui os casos de melanomas e/ou câncer na família, relativos e vizinhos igualmente pobres… Zero.

Não pode ser… como dermatologistas poderiam estar errados? (leia em tom de ironia)

As atuais diretrizes americanas de exposição foram escritas às pessoas mais brancas do mundo. Porém, por que pedir que TODOS a sigam? É como determinar consumo de sal usando hipertensos ou carga de treino no agachamento usando pessoas com perna quebrada.

Quando olhamos escandinavos temos um estudo BEM interessante e revelador. Os MAIS EXPOSTOS ao sol tinham MAIS melanoma, PORÉM, eram oito vezes MENOS propensos a morrer com isso. Eu gosto de enxergar o sol também como um estressor, como exercício ou o jejum. Em excesso, faz mal, na medida natural é ESSENCIAL à boa saúde!

Nos 20 anos do tal estudo, os que EVITAVAM o sol tinham duas vezes MAIS chances de morrer.

Nós vivemos em um mundo esquizofrênico que pede que FUJAMOS do sol. Mas estamos deficientes em Vitamina D, que é sintetizada – voilà – com ajuda da luz solar! O que fazemos então? Suplementamos. Loucura, não?!

 

Baixa vitamina D no sangue tem relação com inúmeras graves doenças, distúrbios, problemas cardíacos, etc. E ela é ainda essencial à saúde óssea. Só que sua suplementação falha miseravelmente nos estudos. Os níveis sobem, mas os desfechos (o MAIS importante) NÃO são positivos. Essa vitamina seria assim um marcador, não um fim! (*SIM, você já ouviu essa história antes, só que com colesterol!)

Eu não tenho histórico familiar de melanoma ou câncer de pele. Eu sou ainda privilegiado por correr em horários de príncipes e herdeiros, às vezes pela manhã, às vezes após o almoço e corro sem NADA. Quando faz muito calor, vou pela sombra. Em treino longo? Você tem viseiras, bonés, óculos escuros…

Tal como exercício e jejum, errado não é pegar sol no verão por 3 horas ao meio-dia sem protetor nos 15 dias de férias. O errado é pegar esse sol nessa carga!

Eu arrisco dizer que corro mais ao sol do que uns 90% dos corredores de assessorias, que muitas vezes tem o sol do sábado como ÚNICO dia correndo ao sol. E o que se recomenda a eles? Usarem protetor! A diretriz de fugir do sol é pra mim tão NONSENSE que me faltam palavras.

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Escolha: Kipchoge é excepcional ou o tênis dá 4%. Os 2 não dá.

Ontem eu falei sobre como 2,9% impactam a corrida de um corredor de longa distância. Essa margem serve para colocar 2 pessoas em gavetas diferentes. Um tênis de R$1.500 poderia dar 4% de vantagem? Eu jamais teria coragem de afirmar isso. São várias as razões.

Primeiro vamos a um dos apelos mercadológicos. O apelo é que o modelo melhoraria em 4% a economia de corrida. Mas a literatura nos indica que uma melhora de 4% nesse marcador traz ganho não de 4%, mas de 1% no tempo da prova. Imagine o seguinte, que um equipamento garante que você melhore 35% da sua força máxima no agachamento ao usá-lo. Você pode dizer que sua maratona ficará 35% mais rápida? NÃO. A força máxima, assim como a economia de corrida, é “só” UM componente dentre tantas valências.

Outro apelo. Engana-se quem pensa que uma empresa que promete algo no tênis precisa entregá-lo. Nesse mercado a empresa precisa não entregar, mas apenas que o comprador ACREDITE que irá receber esse algo. Já se eu vendo um celular com 64Gb de memória, eu PRECISO entregar esses 64Gb. Com tênis NÃO é assim.

Não há nas promessas do setor NENHUMA evidência que entregam NADA do que vendem. Conforto? Subjetivo e pessoal. Amortecimento? Nada. Controle de movimento? Redução de lesões? Idem… nada! Eu preciso, e aqui está a pegadinha, é que eu entregue (sem evidências!) a UMA pessoa e ter o trabalho (bem feito por sinal!) de convencer a TODOS os demais compradores de que eles TAMBÉM terão os mesmos benefícios.

E se AINDA ASSIM eu não entregar? Tudo bem! O ser humano morre de vergonha de admitir que foi de certa forma ludibriado. Você nunca verá alguém que gastou R$1.500 em um modelo falar publicamente que ele é ruim. E quem ganha (jabá) TERÁ que falar que ele é bom, afinal, essa é uma regra IMPLÍCITA desse jogo de relações.

De um ponto de vista mais técnico, essa indústria tenta pelo menos desde os anos 80 inventar uma tecnologia quer amorteça e impulsione todos os corredores. O ENORME desafio é que as individualidades tornam isso quase impossível de ser alcançado “universalmente”. Cadência, peso do atleta, tipo de pisada, ritmo, tempo de contato com o solo, amplitude de passada… você teria que ter um tênis inteligente.

A F-1 e a corrida

Nos anos de 92 e 93 Ayrton Senna tomava uma surra nas pistas por causa da revolucionária tecnologia de suspensão ativa que somente a Williams dominava. Em 93 sua McLaren passou a ter, mas sem a mesma “leitura” de pista (além de todo o conjunto). Uma década depois a adidas lançava o seu adidas 1, um trambolho que prometia ler a pisada do atleta pelo preço de R$1.000 (isso em 2006!).

Ele era pesado e foi esquecido. Como “ler” pisadas tão diferentes?? Para isso o modelo tinha um processador, que invariavelmente aumenta o peso do calçado. Mas sabemos que 100g a mais nos pés piora em 1% a eficiência do corredor. Entende o tamanho do desafio?

NÃO, eu NÃO estou nem de longe afirmando que um tênis não possa nos dar benefícios… mas 4%?! A todos? Isso eu afirmo com certa tranquilidade que não acho ser possível ainda por causas das particularidades, pois você tem que “sincronizar” o trabalho da tecnologia para padrões muito particulares. Mas como disse, um fabricante precisa apenas convencer o consumidor que ele pode ser UM DOS a ter benefícios.

Por fim, entre achar que o tênis dá 4% de melhora e que Eliud Kipchoge é um atleta excepcional, você só pode escolher uma das opções. As duas está fora de questão, porque sem 4% ele é apenas um atleta muito bom.

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Um pouco mais sobre correr na grama – parte 2

Continuando raciocínio do último post... Em toda Adis Abeba, capital da Etiópia, acredito haver 3 pistas sintéticas de atletismo. Todas elas de acesso restrito. Em uma apenas atletas profissionais podem treinar, em outra ninguém entra e em outra, a do atleta Kenenisa Bekele, você precisa pagar U$15 (30% do salário médio etíope) por dia para treinar.

No Quênia, as pistas mostradas nos diversos documentários são sempre de carvão (ou terra batida, como preferir chamar). Há um conceito, totalmente equivocado a meu ver, que lamenta o fato de esses locais não contarem com melhor estrutura de treino. Por “melhor estrutura” leia-se pistas sintéticas. Isso é verdade? NÃO!

O aparelho locomotor dos seres humanos se desenvolveu com a espécie se deslocando em terrenos irregulares. Uma coisa é COMPETIR em piso duro e estável, a outra MUITO DIFERENTE é passar a maior parte do tempo (treinando ou não) nele!

Eu acho que o ônus da prova de que é melhor ter pistas sintéticas está com a turma que acredita na tecnologia que insiste em afirmar e propagar promessas antes nunca cumpridas.

Estou falando isso porque recebi da mesma pessoa a leitura de seu GPS em um treino feito em uma pista de carvão, mais barata, mais comum em países mais pobres. Veja como ela se aproxima mais da leitura feita em um piso irregular (grama). Veja ainda como esse tipo de piso, MESMO QUE seja uma pista de atletismo, é irregular.

Não é que quenianos e etíopes são melhores AINDA QUE treinando em pista de carvão. Para mim, eles são melhores TAMBÉM porque fazem isso!

 

 

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Treino ou malabarismo?

Tempo atrás quando lia um artigo sobre como melhorar seu condicionamento, um dos mandamentos era: se você precisa escrever o treino (como se fosse uma cola para poder executá-lo), ele é complicado demais para que valha a pena ser feito.

A corrida ela é linda por inúmeros motivos, mas 2 deles especialmente me encantam:

1. Ela te devolve o tanto quanto você dedica a ela. Ela é talvez o esporte mais justo que existe;

2. Ela é simples demais. Você não precisa de NADA, nem mesmo tênis especiais para praticá-la.

 

Todo mundo que a complica em sua teoria parece apenas querer criar uma dificuldade para depois vender-lhe a facilidade. Então eu sempre tenho comigo que meu atleta ele tem que ser capaz de decorar o treino do dia sem fazer muita força! Eu me dou o direito de apenas eventualmente prescrever uma sessão que seja um pouco mais difícil de decorar. E ainda assim TODOS os atletas do grupo fazem o MESMO treino (cada um em seu ritmo individual).

 

E veja bem, eu vou à pista carregando absolutamente NADA! Treinadores de velocistas e saltadores precisam de cones, paraquedas, blocos de saída, trenas… eu não! Nem cronômetro de punho eu levo!

Mas quando seu chefe, seu patrão, aquele que lhe paga o salário é o próprio atleta, temos aí um problema. Para ganhar mais ($) você precisa não fazer o melhor a ele, você precisa fazer parecer que aquilo ali é o melhor a ele.

Como você teoricamente instrui um leigo nesse assunto, você precisa de certa forma ou ludibriá-lo ou encantá-lo. A eficiência fica em segundo plano. Nasceu assim ao longo dos tempos uma tendência crescente nesse campo: o de tornar tudo complexo. Por quê? Porque assim é um jeito de se esconder a incompetência técnica fazendo malabarismos. E você encanta e pode cobrar mais caro.

Houve uma época que aos sábados na USP (local com maior número de corredores e assessorias nesse dia em SP) você encontrava pranchas, bosu, “gaiola” de abdominal, extensores, fit ball

Muitos dos equipamentos eram para apenas enganar (no sentido de esconder um desconhecimento técnico), entreter e encantar o corredor. Nunca serviram para muita coisa! Servia sim porque da noite para o dia espalhou-se a ideia de que fazer exercícios em bases instáveis (sobre o bosu ou sobre uma fit ball) era uma descoberta das melhores!

 

Como disse um grande especialista em treino de força, convenhamos: agachar-se na bola suíça é completamente idiota. É um truque de circo.

Não que elas não sirvam para nada! Elas servem para quase nada, é diferente! Elas podem servir a um surfista que compete em uma base instável, mas não a um corredor! Ela pode servir àquele cliente sedentário de 45 anos que desde os 20 faz nada, mas não a alguém condicionado ou minimamente fortalecido!

Se um treinador tem que carregar pra lá e pra cá um monte de equipamento é porque ou isso faz bem ao marketing (concordo!), ou para entreter um cliente que não gosta de correr ou porque ainda não entendeu direito para o que aquilo tudo serve.

Sempre (sempre!) que você quiser saber se algum equipamento é MESMO necessário para melhorar sua corrida, basta se perguntar: como as pessoas faziam antes SEM ele? Pois é…

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