Arquivo da categoria: Revistas

Ir ao Nutricionista Esportivo é um bom negócio? Não.

Quando escrevi tempo atrás os meus motivos pelos quais defendo que ir ao nutricionista esportivo é um péssimo negócio, recebi um e-mail torto do sindicato deles pedindo que eu retirasse o texto. Lógico que não retirei. O Corrida no Ar também se recusou atender à patrulha. Tempos depois a Revista O2 me convidou para explicar brevemente meu ponto em sua edição impressa. O texto que deve ter ido na edição de Maio é um pequeno resumo do que vai abaixo. Para assinar a revista, clique aqui.

Se você for corredor amador buscando melhora de desempenho (ainda que rodando alto volume), procurar um Nutricionista Esportivo está longe de ser boa estratégia. Não só pode não servir para nada, como o “intervencionismo ingênuo” pode ser prejudicial. Esse hábito de intervir demais é difundido: leve sua dieta a um nutricionista e ele fará mudanças – ainda que você apresentasse uma dieta hipoteticamente perfeita. E se você levar a nova dieta a outro profissional (tendo o cuidado de omitir algum potencial suplemento receitado) você terá mais e mais mudanças, além de um coquetel de pílulas.

nutri 2Um princípio médico atribuído a Hipócrates diz: primum non nocere (“primeiro, não faça mal”). Porém, num jogo perigoso do comportamento humano, o contratado sente ENORME necessidade e pressão para fazer algo. Só que a Nutrição, como outras áreas da saúde, historicamente tem baixa taxa de eficiência e enorme taxa de intervenção – e toda intervenção desnecessária não é inútil: ela faz mal! Este é o dano causado por aquele que intervém, no caso, o nutricionista.

Ainda que alguns obtenham benefícios na consulta, o prejuízo líquido (com danos ocultos ou retardados) passa sempre despercebido a quem acredita que um nutricionista possa ajudar um corredor apenas por esse querer uma dieta. Além do excesso de intervenção, são incontáveis os casos de nutricionistas que dão cursos de suplementos, são patrocinados ou até mesmo prescrevem e ainda fazem a venda, sem enxergar nisso qualquer conflito de interesse! É “assim que funciona o mercado”, disse-me recentemente um conhecido professor da USP e colunista de revista de corrida que prescreve e vende produtos a rodo.

nutri 3Além do perigoso erro ético, um hábito comum é a prática baseada em diretrizes nutricionais que, em boa parte, carecem de evidências científicas. Essa especialidade recorrentemente define primeiro as recomendações para só então testá-las, em uma frágil inversão entre prática e teoria – justamente de uma área que se define como Ciência sem assumir cuidados básicos. Exemplos: a Nutrição tradicional como ensinada na faculdade não sabe ainda o quanto deveríamos consumir de carboidrato em uma dieta saudável, não entende as verdadeiras causas de ganho/perda de peso, desconhece o caráter fundamental da não-linearidade de fornecimento de energia e substratos energéticos, e ainda trabalha com diretrizes completamente sem embasamento sobre gordura saturada ou sal. Ainda assim, acha que é este o profissional indicado para oferecer sua dieta com porção e horas marcadas (esta outra inversão entre teoria e prática).

Enfim, é a ausência de intervenção que implica ausência de erros cometidos por aquele que quer de boa vontade ajudar (nutricionista). O nutricionista é humano, passível de cometer muitos erros, e ele confunde sua enorme “vontade de fazer o bem” com o de fato conseguir fazê-lo. Nós humanos não somos assim tão necessários para fazer as coisas funcionarem, ainda mais quando estamos de falando de algo tão fundamental, porém básico.

Por fim, que não confunda jamais minha opinião de que esse intervencionismo ingênuo tão comum na Nutrição seja via de mão única. São muitos os benefícios da Nutrição quando tratam os doentes, não os saudáveis! A busca por este profissional, ainda que eu tenha enormes reservas sobre o quanto ele irá usar de evidências, deveria se dar apenas e tão somente na doença – não na saúde ou no esporte amador. Mas isso o Nutricionista se confunde e não enxerga, afinal “é impossível convencer alguém cujo ganha-pão dependa do não-convencimento”.

nutri 1

Etiquetado , , ,

Para que tanto gel, isotônico e carboidrato??

*não confunda o texto abaixo com uma defesa ao low-carb. NÃO! Mas como um questionamento: não estaríamos consumindo muito carboidrato durante após o treino!?

Um hábito MUITO comum entre nutricionistas é o de nos sugerir o consumo de carboidrato (CHO) antes, durante e depois da prática esportiva. Seria certo fazer isso? Se você sair procurando em qualquer veículo corrida, revista ou portal, vai achar orientações como essas que vão abaixo. Peço que leia atentamente este texto que extraí, pois ela é regra nos veículos e praxe de 57 entre 58 nutricionistas.

 

Consuma alimentos fontes de carboidrato (frutas, pão, cereal, etc) antes da corrida para fornecer energia

Para não ficar com fome, faça uma boa refeição pré-corrida e, assim que terminar, faça um lanchinho também

O percurso dura mais que 1 hora? Então pare para um lanchinho durante a corrida! Assim não faltará energia

Isotônicos são indicados para treinos intensos com duração superior a 60 minutos

Se você acha que depois da corrida não precisa comer, errou! A alimentação após corrida é muito importante para a recuperação muscular. Só assim você estará bem disposto para correr novamente no dia seguinte

five-miles-to-empty-im-running-on-low-battery-L-0N3HvoMinha maior crítica à Nutrição é que ela faz uma inversão na ordem entre prática e teoria. Basicamente, a Nutrição faz a sua teoria torcendo para que ela funcione na prática, quando o correto é exatamente o inverso, fazermos nossa teoria após observar a prática. Foi assim que foram feitas as maiores barbaridades da Nutrição, muitas delas ainda como diretrizes. Se o profissional que você conhece tem QUALQUER restrição com manteiga, ovos, gordura saturada e sal com você (supostamente normotenso), fuja dele! Esse profissional criou uma regra (teoria) esperando que ela funcione. Triste.

O mesmo vale para o consumo de carboidratos antes, durante e depois dos treinos. Por que tanto gel aos sábados? Por que tanto isotônico (ok, é gostoso e uma empresa paga o seu treinador para que ele ofereça a você)? Por que lancheiras? Por quê???

Se você olhar as diretrizes da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, por exemplo, verá que ela nos entope de carboidrato. Eles dizem que tem a ver com ciência, não tem. Para mim tem mais a ver com o fato dela ser patrocinada por uma empresa de suplemento esportivo e outra de isotônico, que o órgão nunca deixa às vistas, claro.

Basicamente, a ideia de nos entupir de carboidrato seria porque uma dieta rica assim recuperaria melhor nossas reservas musculares. Fazer isso antes, durante e após a prática tem um efeito que ninguém nega: você utiliza mais carboidrato como substrato energético e usa menos gordura. E isso, quando falamos de saúde, sabemos definitivamente que não é bom.

empty-gas-tankOutra argumentação é que consumir carboidrato poderia produzir treinos mais intensos (velocidade média mais alta). Aqui não há consenso por duas razões simples. A primeira é que correr mais veloz no treino NÃO é garantia de superioridade do método. Se o fosse, correríamos treinos com tênis leves, com pausas mais longas e jamais na subida. Você precisa estar bem na prova, não no treino. A segunda é que submetido a uma adaptação (que pode durar de 4 a 6 semanas, em média) pela dieta rica em gordura e pobre em carboidrato, você pode muito bem atingir as mesmas velocidades. Ou seja, você corre rápido com carboidrato porque não treinou seu corpo a fazer o mesmo sem esse macronutriente. Não espere que quando chegar aquela prova de 21km ou 42km seu corpo aprenda a gastar gordura em um sermão no caminho para a largada…

Mas outro aspecto terrível dessas recomendações que, reforço, você encontra em 99% das publicações de nutrição sobre corrida no Brasil, é que, além de embasado em muita fé, ela é apenas uma transferência torta do que o atleta profissional ou de altíssimo volume e/ou intensidade executa.

Esta semana fui correr no Parque do Ibirapuera acompanhado de 3 amigos. Um deles consumiu em 10 dias o que eu consumi de gel durante 18 meses. Eu não consigo achar isso normal. Basicamente essa pessoa encontra orientação de um profissional que cobra para repetir orientação de rótulo de suplemento travestido de ciência, quando na verdade aquilo é apenas propaganda vendedora.

Uma das pessoas mais interessantes de se acompanhar recentemente é Bill Lagakos. Ele não é nutricionista, não paga anuidade ao CFN ou ao sindicato, então não teria muito crédito aqui no Brasil. Em seu excelente livro The Poor, Misunderstood Calorie, completamente ignorado nas faculdades brasileiras, ele disseca como é tola e carente de ciência a ideia de que o consumo de carboidrato durante e após o treino é essencial. Não, não é. Se o seu ou sua nutricionista defende você consumir carboirato durante e depois dos treinos, tal qual o texto do começo do post, é porque ela é uma incompetente que parou em 1967.

*Lagakos é um geniozinho que hoje se concentra mais falando de cetose, depleção de glicogênio e porcionamento das refeições e nutrientes. O assunto é complexo, impossível de ser tratado em apenas um texto curto de blog. Se você se interessa pelo tema, deixo este texto dele que dá a dimensão do tamanho do erro de quem se apoia em carboidrato para corredor amador.

**E se você acha que a musculação, sim, exige muito carboidrato depois (o maldito lanchinho com carboidrato), recomendo este excelente texto questionando a teoria que foi montada com muita fé, mas sem evidências pela Nutrição.

***No texto preferi não entrar no mérito de que comendo menos carboidrato, a pessoa perde peso sem precisar correr 1km a mais e, com mais baixo peso, ela melhora o desempenho, além da saúde

****A imagem abaixo você pode ler também como Low Gel Zone.

Low-Carb-Diets-and-Running

Etiquetado , , ,

Sobre Nutrição, low-carb e recomendações dos veículos de corrida

Cerca de duas semanas atrás, um cardiologista britânico, que é um dos caras mais pertinentes na Nutrição atual, divulgou artigo escrito com colaboradores (entre eles uma excelente nutricionista) que dizia o que muitos nutricionistas não sabem e o que muito treinador não sabe ou não quer que você saiba: atividade física é MUITO ineficiente na promoção do emagrecimento. Já falei muito sobre essa ineficiência, vocês já sabem o que acho.

Good Calories, Bad Calories - fats, carbs, and the controversial science of diet and health, Gary TAUBESMas timing é tudo nessa vida, né? Na mesma semana, o quadro “Medida Certa” no Fantástico da TV Globo batia equivocadamente na tecla de nos mexer mais para evitar obesidade. Uma pena, já que nenhum canal de qualquer mídia do país tem peso igual no comportamento do brasileiro. Mas nosso azar não parou por aí. A maior revista de corrida do país, a Runner´s World, veio com uma chamada (e uma matéria) medonha na capa que ia na exata contramão da ciência dizendo: o segredo está no treino, não no cardápio.

Sempre que vejo essas coisas, faço mais força para não ficar repetindo insistentemente: leia o que dizem sobre Nutrição nos veículos de corrida, depois faça o contrário, é mais seguro. Por que fazer o oposto? Basicamente porque são muito ruins quando falam de Nutrição. Veja por exemplo dois outros textos no vácuo do artigo do ótimo médico Aseem Malhotra. Em um há uma repetição medonha de equívocos e mais equívocos sobre o papel do exercício na obesidade enquanto em outro uma nutricionista fala sobre nos entupir com carboidrato. Sério, não preciso pagar alguém titulado para fazer e falar tanta barbeiragem. Posso fazer isso sozinho, bem melhor e de graça.

Salt Sugar Fat - how the food giants hooked usA Nutrição é cheia de nuances como a individualidade biológica e dificuldades como a de se executar pesquisas a longo prazo anulando o placebo mantendo tantas variáveis. Mas não é mais possível, não com tamanha oferta de informação, que a Nutrição convencional pregue tanta irresponsabilidade. Abra qualquer veículo e estarão lá “dicas” de hidratação com isotônicos, suplementação de micronutrientes e recomendações de carboidrato sem muito fundamento. E se você se apoiar em órgãos que deveriam ser sérios, corre risco igual. Quer exemplos?

Recentemente falei dos absurdos que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Diabetes Brasil e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) pregam em suas diretrizes para diabéticos. Basicamente eu diria que no caso de alguém adquirir diabetes entre os seus, não corra na direção dessas associações. Fuja delas! Elas são um risco!

 

Depois41dqtLJwO3L._SY344_BO1,204,203,200_ fui ler as diretrizes nutricionais da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. Suas recomendações sobre carboidrato e hidratação beiram a irresponsabilidade. Mas não é só isso. Já estou meio que acostumado com a triste ideia de que quando falam de carboidrato, esses profissionais apenas repetem o que aprenderam e culpam o cliente quando ele não emagrece. O ponto é que quando você olha as diretrizes de hidratação, você vê que o documento é patrocinado por uma empresa de… isotônico! Será que os que assinam o documento deixam claro quem paga a conta? Duvido! A máxima “follow the money” realmente NUNCA falha na Nutrição. Como eu disse certa vez ao meu ex-professor: “você é tão livre quanto um taxista”. Isso porque ele prescreve suplemento e ganha participação nos lucros. E acha tudo normal! TODOS os profissionais que assinaram esse documento da SBME não fazem muito diferente, não! São livres, como um taxista!

Por fim, estou escrevendo este texto porque há alento, há vida inteligente na Nutrição. Soube que a Academia Americana de Nutrição (Academy of Nutrition and Dietetics) dos EUA veio dar um tapa na cara de toda essa gente. Em carta aberta ao comitê que prepara as diretrizes nutricionais de 2015 ela vem falar o que dificilmente você ouvirá de um nutricionista convencional, ou seja, ela afirma o oposto do que eles recomendam.

Leiam abaixo ATENTAMENTE, por favor, os trechos principais retirados da carta aberta que roubei traduzida do resumo do blog Dr. Souto.

  1. Deve-se notar que NENHUM estudo incluído na revisão sobre doença cardiovascular identificou a gordura saturada como tendo associação desfavorável com doença cardiovascular
  2. Nós sugerimos que as próximas diretrizes ajudem as pessoas a adotar dietas que não são as recomendadas até hoje, tais como uma dieta de baixo carboidrato, para ajudá-las as fazer escolhas mais saudáveis dentro deste tipo de dieta.”
  3. O consumo de carboidratos leva a um maior risco cardiovascular do que o consumo de gordura saturada. (…) As evidências de múltiplos estudos estimaram o impacto da gordura saturada [no risco cardiovascular] como sendo próximo de ZERO.”
  4. A Academia apoia a decisão de não mais limitar o consumo máximo de colesterol a 300mg por dia, visto que as evidências disponíveis mostram que não a relação significativa entre o consumo de colesterol na dieta e o colesterol sérico
  5. No mesmo espírito de não mais limitar o colesterol diário, a Academia sugere que haja uma revisão semelhante no que diz respeito à gordura saturada, tirando a ênfase da mesma como nutriente digno de preocupação. Embora haja vários estudos ligando a ingestão de gordura saturada e níveis de LDL, isso é IRRELEVANTE para a questão da relação entre dieta e risco cardiovascular
  6. Há um consenso crescente de que uma recomendação única de consumo de sódio para todos os americanos é inadequada, devido ao crescente corpo de literatura sugerindo que os baixos valores de sódio atualmente recomendados estão na verdade associados a um AUMENTO DA MORTALIDADE para indivíduos saudáveis.”

death food pyramidSabe, vou ser sincero… eu ensaiei criar aqui no Recorrido uma seção semanal de Nutrição. O Sergio Rocha também queria uma no Corrida no Ar. Mas nunca tive a disciplina de produzir. No fundo no fundo, não tenho é muito mais paciência. Quando falo dando os nomes, falam que sou raivoso. Odeio quem escreva querendo aplausos e fique nervosinho com críticas.

Hoje fiz questão de não dar nomes, mas poderia reproduzir aqui citando nome e sobrenome dos que escrevem bobagens sobre Nutrição travestindo isso de ciência. E não são poucos! Vou fazer uma afirmação sem nem me dar ao trabalho de verificar porque eu sei que estou certo. O Dr. Souto escreveu os 6 pontos acima e eu não conheço NENHUM que escreva de acordo com eles. NENHUM. Em outras palavras: não há UM que escreva nesses veículos que valha a confiança da leitura de tudo o que escrevem. NENHUM. E isso é muito grave! Muito!

waterloggedA Nutrição padece de um mal terrível: a gordurafobia. Mas há um mal ainda pior: eles não se reciclam e se prendem nesse medo de gordura saturada e sal. E se você diz o óbvio, que ir ao Nutricionista é de um risco enorme, ainda tem que ouvir dizer que a pelegada do CFN não gostou do que você disse.

Essa carta aberta da AND dá uma paz que vocês não imaginam… agora vou poder encher o peito ainda mais para falar mal de quem escreve tanta porcaria.

*ilustrando o texto, coloquei as capas de livros essenciais na Nutrição que passam TODOS despercebidos nas nossas faculdades.

Etiquetado , , ,

De cadarços e de pisada. E também de bobagens ditas.

Eu já escrevi aqui que não leio muito o que sai nas especializadas brasileiras. O motivo é simples: a maioria dos textos ou é conceitualmente ruim de doer ou parecem ter sido escritos com uma preguiça desanimadora. Mas eu também já disse aos meus: a Contra Relógio (CR) é a melhor revista de corrida que temos. Não que eu a leia regularmente, eu só tento acompanhar mesmo a Runner´s World americana. Só. Mas aí recebi um texto bisonho da CR, justo nela… Poxa, Tomaz Lourenço… mas para ser justo com o Lourenço, comprei a edição para ler enquanto a namorada agonizava na cadeira do dentista.

Como dizia um grande professor, "papel aceita qualquer coisa"...

Como dizia um grande professor, “papel aceita qualquer coisa”…

Tem uma máxima que eu sigo que diz que quando alguém vem a você e diz gratuitamente “sou médico”, isso indica que há ENORMES chances de que ele não tenha a menor ideia do assunto do qual ele vai falar. Diz mais sobre o quanto ELE domina (pouco) do tema do que sobre você. Se ele assina “médico” em assuntos que não sejam sua especialidade, então já sei que é um Tudólogo, ou seja, especialista em tudo falando sem o menor domínio ou pudor do assunto e corre para trás de alguma credencial outra qualquer. É assim com o texto atual do Josivan Lima. Não o conheço, mas as duas vezes que li coisas dele, vi que foi ruim de doer. Reforço: não é nada pessoal, é a mensagem que é horrível mesmo. E tenho o defeito de sempre achar que a pessoa que escreve algo raso e cheio de buracos assim, deve pensar que entendemos pouco do assunto como ele mostra dominar.

Tempinho atrás eu escrevi um texto explicando o porquê eu não lia nada de Nutrição. E caí num trecho medonho falando sobre glicogênio, maratona, gordura… e vi que a pessoa destacava que era médico. Ser médico falando aquilo só tornava o erro ainda mais grotesco. É como escrever cheio de erros e assinar “professor de português” achando que isso mudaria a aplicação das regras da gramática, quando no fundo só mostra o quanto você desconhece o básico. Mas sejamos justos, o que ele disse não é lá muito pior do que você vai achar em outras publicações sobre nutrição na corrida.

Veja bem, o trecho dele eu achei procurando por uns 10 minutos em revistas antigas diversas. Eu sei que ele não gosta de mim. Eu não “não gosto” dele. Só não gosto das bobagens que ele e tantos outros escrevem. Ele simplificou a Nutrição de uma forma como nunca devemos fazer com o complexo, porque estaremos como o texto do Josivan Lima, toscamente equivocados. É de doer. Assinar médico e maratonista não garante acerto na mesma intensidade que não evita errar feio, errar rude. Foi só mais um belo exemplo dos equívocos ditos e repetidos sobre nutrição justamente aos que buscam justamente informação!

keep-calm-pois-o-papel-aceita-tudoNa edição de Maio o seu texto fala – segurem-se nas cadeiras! – que a amarração do tênis “pode interferir no nosso tipo de pisada”. Bêbado eu jamais teria coragem de sugerir algo do tipo. Assinar “médico” não faz do erro menos pior, como na verdade só o agrava. Essa é minha maior birra com conselhos de profissão, eles acham que um título dá imunidade ou nos salva dessas bobagens escritas. Na verdade eles apenas querem o monopólio de falar asneiras como essa ou como a de que “a gordura usualmente não tem muita utilidade como fonte de energia ao músculo”.

Minha outra bronca é que dá para ver por textos como esse que essa gente só use bom senso equivocado para falar, ou rótulo de suplemento e release de tênis para se embasar. A pessoa confunde ciência, com Medicina e com religião. Felicidade começa com FÉ, para ele basta amarração ou um pedaço de borracha para mudar nossa pisada que nos livrará de todo o mal, amém.

Enfim, certeza que vai aparecer gente dizendo que estou indo para o lado pessoal. Ele não gosta de mim e eu nem sei quem ele é, mas o que ele disse sobre nutrição eu achei tão tosco que corri aos meus arquivos ver se tratava da mesma pessoa. Assinou “médico” e falou bobagem, bingo!, eu ligo meu detector de “especialista de tudo” ou de bobagens. Falha muito pouco! Meu problema, vocês sabem, é sempre com ideias. E, confesso, um pouco também com a mania de algumas pessoas têm de assinar com títulos achando que isso faria de suas barbeiragens ditas menos piores. Para mim, só pioram.

Etiquetado , , , , , ,

A outra Bolha da Corrida

Quando um grupo de “jornalistas e blogueiros corredores” resolveu assinar e apoiar a Black Run, ato para homenagear o corredor assassinado por um motorista bêbado aqui em SP, a primeira coisa que pensei além de certa vergonha alheia foi: agora vou poder chegar no escritório e provar meu ponto, junte todos eles e você não vence sequer votação de um condomínio qualquer. Esse é o peso dos “formadores de opinião” que escrevem no segmento.

Respeitar o luto alheio é uma convenção social, é o que se espera. Não sei se conhecia o atleta em questão, o que não muda nada. Deixei para alguns outros que mal o conheciam fazerem a disputa via Facebook pra saber quem era o mais amigo, ou quem sabia melhor seu currículo esportivo, como se isso diminuísse a dor dos parentes ou a dos verdadeiros amigos. Mas respeito o luto…

Porém, se o grupo de jornalistas ainda assim vem e assina um texto todo atrapalhado, é porque não entendeu muita coisa. Nem entro na questão do ego pesar uma enormidade nessas horas, repare que não deixaram de citar os veículos para os quais trabalham, citação sem a qual não saberíamos jamais saber quem é quem. Diria eu até que faltou foto e CV na corrida, mas duvido que tenha faltado vontade.

Eu tenho uma máxima: se qualquer categoria artística ou da escrita brasileira se dá ao trabalho de se reunir para assinar algo em conjunto, eu já de partida sou contra. Nem paro pra analisar porque fazendo isso ganho tempo e a minha chance de acerto ao ficar do outro lado é exponencialmente maior.

Será que corredor não usa celular ao volante??

Será que corredor não usa celular ao volante??

As bobagens escritas no texto mostra que quem “escreve sobre corrida no país” vive numa bolha, não entende que a corrida não cabe nem se limita dentro da USP nem debaixo da Marquise do Ibirapuera. Eles acham que foi acidente, e essa é a bolha. Não precisamos saber a opinião deles porque já vemos que disso não entendem nada, pois no Brasil matar ao volante é um direito, não acidente.

Se jornalistas corredores gostassem ou tivessem familiaridade com números, veriam que morte no trânsito é rotina. Quando a vista fecha e você usa a corrida como régua moral, você não enxerga o problema. O senhor em questão não morreu porque era corredor, então pedir “respeito ao corredor” é miopia, ele não foi atropelado por correr, assim como as ciclistas não foram atingidas por serem mulheres. É como a ideia imensamente tola dita na Runner´s World de que foi a “Boston brasileira”, é um atestado assinado de quem não entendeu nada do que se passou nos EUA nem o que se passa diariamente no Brasil. Cada país tem a revista de corrida que merece, e nem falo pelo enorme desrespeito.

Toda causa justa pertence à humanidade” e quem traça gestos para adesão não quer vitória da causa, quer território. Um texto desses, avisando que são a favor da vida é da profundidade de um discurso de concurso de Miss, faltou apenas citar alguma passagem do Pequeno Príncipe. Mais do que constrangedor porque mostra que não entendem o momento, reafirma que acreditam num mundo onde irresponsabilidade, imprudência e desrespeito às leis se combatem com #, mas isso só funciona quando # significa prisão.

Adaptando o que diz um brilhante amigo, vou perseguir como projeto de longo prazo virar um profissional assim, que tem licença para escrever essas bobagens e seguir tendo plateia.

*pra quem ainda acha que o que houve em SP tem a ver com respeito ao corredor, sugiro ler o texto do Rodolfo Lucena, quem melhor escreve sobre corrida no país, sobre a idiota ideia de superioridade moral de quem acorda cedo pra perder o fôlego.

Etiquetado ,