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Um pouco mais sobre receita de bolo, splits, maratona…

Ainda sobre o texto que falo que treinamento de corrida é receita de bolo, ouvi algo que me faz voltar ao assunto. Disseram que meu texto estaria errado porque os corredores antigos corriam mais lento que os de hoje, se recuperavam mais lentamente. Que a melhora atual seria da Ciência do Treinamento Esportivo.

Há duas inverdades. A primeira é que os atletas de antigamente, ao menos os amadores (ou seja, todos) eram mais rápidos que os atuais. Qualquer levantamento minimamente cuidadoso vai mostrar que a média dos corredores E os amadores mais velozes estão mais lentos que o passado. Não vou dar a resposta. Quem quiser, dessa vez vai ter que procurar (risos).

Se hoje os recordes e os vencedores correm mais rápidos, a razão é principalmente por causa da entrada de quenianos, etíopes e demais africanos no cenário. E por causa da profissionalização e em menor grau do doping. Quem acha que a explicação é a ciência, não sabe do que está falando.

É como você ver tantas pessoas vivendo até os 85 anos e achar que o mérito é da Medicina e ver que ela pouco fez. Que hoje vivemos mais por não ter guerra, por lavarmos as mãos e por termos rede de esgoto. Quando você isola as causas vê que a Medicina pouco fez, assim como provavelmente a Ciência do Treinamento poucos segundos tirou das marcas.

 

Voltando…

 

Dia desses cheguei a um blog incrível do irlandês Barry Smith que é corredor e, mais importante, professor de Ciências da Computação. Com números da Maratona de Dublin, a 4ª maior prova da Europa na distância, ele consegue jogar luz em coisas MUITO interessantes sobre peculiaridades que apenas temos desconfianças e poucas certezas. Por exemplo, na parte final desta longa análise sobre essa prova, ele consegue mostrar que os maratonistas mais experientes, não pela idade, mas pelo número de provas de 42km já feitas, conseguem manter um ritmo mais uniforme e, mais importante ao atleta, melhores tempos finais! Ele encontrou os mesmos resultados analisando os dados da Maratona de Chicago! Por sua vez, sabe aqueles corredores que a organização coloca com bexigas, os marcadores de ritmo? Segui-los pode ser de um belo auxílio! Para ser mais exato, 5 vezes mais chance de você manter um ritmo constante! Em outra análise MUITO bacana, ele mostra que os corredores mais velozes fazem a melhor parcial (em Dublin) no 30km. Não é só isso! Os mais lentos fazem as parciais mais rápidas nos 10km E nos 42km. Ou seja, se sair forte é ruim, chegar forte TAMBÉM pode ser ruim. E em outra análise ele explica como exagerar nos primeiros 5km (!!!) de uma Maratona pode ter consequências MUITO sérias! Incrível! Aqui você tem uma lista de dicas que ele tira analisando mais de meio milhão de resultados. Vale a pena dar atenção ao seu blog!

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Um pouco mais de ritmo na Maratona, split positivo e trapaceiros…

Tempinho atrás escrevi 2 posts sobre split na Maratona e do porquê um amador NÃO deveria mirar em tentar um split negativo nos 42km, ou seja, correr a segunda metade mais rápido que os primeiros 21km. Aqui e aqui eu explico melhor, mas basicamente o ponto é: split em uma prova tem uma forte ligação com o TEMPO de duração do esforço, não necessariamente com a DISTÂNCIA. Como os amadores correm em sua absoluta maioria acima dos 2h55, o que parece ideal é que o split seja LEVEMENTE POSITIVO e não constante ou levemente negativo.

A fisiologia e os números NÃO dão suporte à recomendação comum de que você deveria acelerar na 2a parte da prova. Lembre-se SEMPRE: o conhecimento é subtrativo, sendo assim, é sempre MUITO mais fácil a gente saber o que NÃO funciona do que aquilo que funciona. E correr a 2a metade mais veloz não se mostra melhor nem mesmo entre os melhores do mundo em esforços por aproximadamente 3 horas ou mais. Mas lógico que você pode continuar tentando! Conheço muita gente que ainda alonga antes de correr, por exemplo!

Um dos argumentos usados ao defender o split negativo é que os mais rápidos (forte correlação com mais experientes) saberiam dosar o ritmo melhor. Pois abaixo você tem os ritmos das Maratonas de Buenos Aires de 2011 e 2012 (são as únicas da história dessa prova que oferecem parciais a cada 5km). Se fosse assim, veríamos uma discrepância no padrão. Repare nas ondas que eu volto depois.

ritms-bsas-2011-2012

Parece haver um padrão, os corredores atingem sua maior velocidade em média por volta de 15km e vão em uma constante perda de velocidade para depois tentar acelerar na parte final SEM ultrapassar o pico de velocidade, o que seria muito improdutivo, vale dizer, pois seria sinal de que você não deixou tudo na pista.

Já um recente levantamento interessante tentava provar que mulheres seriam melhores maratonistas que os homens. A ideia é que elas seriam mais prudentes, arriscam menos, tese bem aceita que você encontra suporte em qualquer livro vagabundo de Psicologia. Vejamos a diferença do padrão delas correndo com o dos homens. Repare que é o comportamento da Fisiologia não o da Teoria quem determina nosso comportamento na pista em uma distância.

homens-vcs-mulheres-bsas-2011-e-2012

Homens parecem de fato sair proporcionalmente mais rápidos, tanto é que no 30-35km ainda desaceleram enquanto elas já aceleram. Perto do final da prova elas aceleram mais que homens, mas ainda assim, estão mais lentas que elas mesmas no início. Quem está certo? Isso é chute puro, mas acho que esse padrão masculino é melhor porque o feminino está muito “acelerando” ao final, sinal de que sobrou muito no tanque.

Há ainda um dado que eu voltarei um dia mais pra frente. Abaixo você tem a dispersão de todos os corredores entre 2006 e 2016 (são mais de 55.000). As pessoas “abaixo” da linha preta correram split negativo e os “acima” dela correram positivo. Repare que a tendência (linha pontilhada em vermelho) não é o de quanto mais rápido, “mais negativo” seria. *Quanto mais próximo do canto inferior esquerdo, mais  rápido é o corredor.

tendencia-splits-bsas

Sim, todos esses dados são associativos, ou seja, NÃO apontam causa, podem apenas ser casualidade. Mas o segredo é: é a ausência de ASSOCIAÇÃO (negativo ser melhor em levantamento associativo) que tira a sua suposta vantagem ou força.  Mas eu quero que você veja ainda uma outra imagem…. o padrão de quem justamente correu split negativo:

positivo-bsas-2011-e-2012

Parece normal para você? Para mim não… a pessoa acelerando ao final desse jeito parece que ele está… roubando! Então veja a imagem abaixo feita com casos grosseiros de trapaceiros. Fiz uma fórmula no Excel para capturar quem estranhamente acelerava ao final da prova. Para vocês terem ideia, filtrei apenas quem fez split negativo, que acelerou demais e é impossível no Excel colocar NEM DE LONGE todos os os trapaceiros correndo! É muito triste! Imagine as provas brasileiras que às vezes têm UM único tapete intermediário… só imagine quantos escapam ilesos… *15km/h = 4´00″/km

trapaceiros-em-bsas

E se tirarmos justamente os que roubam fazendo split negativo, a curva fica ainda mais positiva. Eu não quero convencer ninguém! Eu queria era encontrar algum raciocínio que explique que negativo é melhor que não se baseie na boa vontade ou na teoria, mas no observado na prática. Reforço: não consigo provar que o levemente positivo seja melhor, ainda que eu acredite nisso. Mas consigo ver que pelo que temos, que negativo não o é!

Outro dia eu preciso voltar com os gráficos com a distribuição por sexo em POA e BsAs. Prometo para breve!

Era isso!

*eu sei que há uma “armadilha” na chegada dessa prova em especial, mas o padrão de corte de caminho é MUITO maior ao longo de TODO o trajeto do que nos meus dias de maior pessimismo na humanidade eu poderia imaginar.

 

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Maratonistas brasileiras seriam mais conservadoras que os homens?

Uma das conclusões que observei quando saí pesquisando o padrão dos resultados nas Maratonas de Porto Alegre de 2012 a 2015 é que não só o split negativo não se mostra melhor, como há uma clara diferença entre homens e mulheres quando o assunto é ritmo.

Em 2014 (caraca, como o tempo voa!), um estudo ganhou fama porque suas conclusões diriam que mulheres são melhores que homens para determinar ritmo na maratona. Bobagem! Ele não fala nada disso! É impossível deduzir isso com esses números! Apenas podemos dizer que mulheres parecem ser mais conservadoras na largada dos 42km e quebram menos. E aí vai uma dose de macho-man entre os homens que acham que são super-homem, saem super otimistas e exibidos e quebram durante a prova. Além disso, há a questão da temperatura corporal: homens são maiores e pagam esse preço com o superaquecimento da “máquina”.

Pois uma nuvem com os dados brasileiros mostra homens quebrando mais (mais esparsos, ângulo maior no vértice) e mulheres com uma nuvem mais concentrada (ângulo mais fechado), que significaria menos quebras e uma saída mais conservadora. Mas atenção: mulheres são cerca de apenas 20% dos concluintes, então a curva poderia ainda enganar.

Mas aqui vai meu palpite: mulheres brasileiras parecem ser mais conservadoras (realistas??) que os corredores brasileiros homens e quebram menos, o que parece ser similar ao estudo original.

Para mim isso é puramente comportamental (são menos competitivas e menos agressivas). Você arrisca algo?

Splits POA

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Quais os maiores eventos de Corrida do Brasil?

Semanas atrás alguém me perguntou quais eram as maiores corridas do país. Eu já fiz por 2 anos o levantamento das 50 maiores provas do Brasil (você encontra aqui), mas me bateu uma curiosidade de quais eram os maiores eventos de corrida daqui, aqueles que seriam os maiores somados os concluintes em todas as distâncias, já que é comum haver distâncias diferentes a se correr.

Deu que temos apenas 9 eventos que quebram a barreira de 10.000 concluintes, que foi meu filtro. Apenas 4 são distâncias únicas (justamente as 2 maiores e as 2 “menores”), 4 nunca tiveram TV envolvida, apenas 2 não são em SP ou Rio de Janeiro, 2 são noturnas e apenas uma tem maioria feminina (35,9% de mulheres é a média descontada a prova exclusivamente feminina).

Abaixo um pequeno gráfico para mostrar quais são as nove!

foto eventos-page-001

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Mais pitacos ou: mulher gosta de prova grande ou faz a prova grande?

Estava para escrever comentários sobre os dados que postei aqui no Recorrido referente às Meias Maratonas brasileiras, das Maratonas nacionais e das 50 maiores corridas de rua do país. Faltava tempo, mas consegui!

Minha primeira surpresa foi ver que alguns sites, veículos, e outros me escreveram pedindo para usar e divulgar os dados. Me achei menos estranho porque ficava pensando se não havia interesse em dados que acho importantes para entender melhor o mercado.

Olhando como um todo, a Maratona é bem aquilo que eu esperava, um crescimento tímido, carregado pela Maratona do Rio. Cada vez mais provas (19 ou 36% a mais), mas apenas 4 grandes. Muito mais mulheres correndo, mas ainda pequena minoria. E o exterior ainda atrai bem, mas com a dificuldade de uma crise acentuada.

Na Meia Maratona vem o espanto. Aquela que seria talvez a nova queridinha do brasileiro, patina. Mais provas, mas menos homens correndo, mais mulheres, empate no geral. 2016? Acredito em um cenário parecido…

Em as 50 maiores provas do Brasil por sua vez mostram como a TV tem peso fundamental. A distância também parece ser importante porque a maioria das provas ainda são as de 5km e 10km. Mas algo que pode passar despercebido é como a atenção com as mulheres é fundamental. A prova para crescer e estar entre as maiores precisa atrair muita mulher! Se falhar nesse ponto, acende-se a luz amarela. Mas até onde?

E aí cheguei a um dado. Em conversa informal com o pessoal do Corrida no Ar eu dizia que brasileira gosta mesmo é de prova grande. Então fiz um gráfico cruzando tamanho da prova e a participação feminina. O resultado quando você olha nas Meias Maratonas é que quanto mais concluintes, mais mulheres, em um efeito que não sei se é causa ou consequência (arrisco dizer que é consequência).

Quanto mais concluintes em uma Meia Maratona brasileira (2015), maior a porcentagem de mulheres

Quanto mais concluintes em uma Meia Maratona brasileira (2015), maior a porcentagem de mulheres

Porém, quando você faz o mesmo trabalho usando somente as 50 maiores provas do país, a resultante é invertida, ou seja, mais concluintes, menos mulheres. Explicações eu não tenho. Vocês têm?

Quanto maior o número de concluintes das 50 maiores provas brasileiras (2015), menor a porcentagem de mulheres

Quanto maior o número de concluintes das 50 maiores provas brasileiras (2015), menor a porcentagem de mulheres

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