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Sobre o contato do pé no solo…

Já que vocês gostam dessas coisas, nos próximos e-mails vou aproveitar que achei um monte de fotos lindas que meu amigo Marcelo Nakano tirou nos 3.000m do TUNA pra falar de técnica de corrida.

Infelizmente é MUITO difícil achar material BOM falando sobre técnica de corrida que não fique na pura teoria.

Olhe a entrada (foto abaixo), o contato do pé do Molina (usando New Balance) na pista. Supina? Corre na “ponta do pé”? Repare no atleta descalço ali atrás… Entrada bem semelhante. Faz sentido, sabe por quê?

Os 2 têm pouco suporte (entressola) nos pés, é o jeito natural que o ser humano tem pra “tatear” onde vai pisar. Em um piso irregular isso serve pra fazer TODO o ajuste subsequente. IMPOSSÍVEL fazer isso entrando com o calcanhar sem comprometer os joelhos, uma articulação que NÃO é de estabilidade.

Não é só isso! Repare que o joelho desse pé está flexionado. Isso dá um “grau de liberdade” a mais gerando energia elástica, como se fosse um salto.

Os corredores ineficientes fazem essa entrada, esse contato, com joelho estendido, aumentando o impacto e não aproveitando a energia elástica, pliometria.

Repare ainda onde vão os cravos do calçado e o quão pouco há de entressola. Não há nada a se aprender com os mais rápidos?
*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Treinador Clandestino! (a versão impressa você acha clicando aqui!)

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Corrida e Trapaça

Está circulando o episódio de um corredor brasileiro que, tudo leva a crer, trapaceou cortando caminho na Maratona de Boston desta 2a feira. A prova é especial porque exige índice de qualificação. Como ele nem de longe teria condições, ele teria TAMBÉM trapaceado na Maratona de Chicago onde “correu” a marca exigida. O custo para alguém daqui fazer as duas provas não gira em menos que R$10.000-12.000 entre transporte, hospedagem e inscrição.
É óbvio que a indignação explodiu. “O que leva alguém a trapacear desse jeito?” “Por quê?!” “É injusto com os demais corredores“.
Eu sinceramente não sei o que achar. O que leva alguém a pagar a sair para correr 42km?, pode perguntar quem odeia correr. O que um comportamento que NÃO nos afeta diretamente tem a ver com injustiça? Por que se indignar??
Uns 2 anos atrás eu tentei entrar em contato com um conhecido cortador de caminho em provas. Na casa dos 60 anos eu pude notar que claramente falava com uma pessoa doente, perturbada, que necessitava de tratamento, uma vez que ele insistia ter corrido na 3a idade em ritmo queniano, mandando dados de GPS que revelavam ritmos sobre-humanos.
A coisa andou de um jeito que sua filha interveio, reconhecendo ser doença e pedindo compreensão. E eu me retirei. Igual um jogador profissional que é punido por doping quando cai no vício das drogas, esse corredor brasileiro não merece ser defenestrado em praça pública. Ele precisa, talvez não saiba, de tratamento. Por isso que é em vão querer expô-lo aqui. Pra quê!? Ele já foi punido demais! Não faz mais sentido.
Acabei de ler uma obra prima. “Em Busca de Sentido” é um clássico mundial de Viktor Frankl que fala sobre sentido em viver. Por que VOCÊ corre? Semanas atrás vi uma matéria na TV com uma garota que falhou numa prova de longa distância e estava em lágrimas porque queria que “se orgulhassem” dela. Tive certa pena daquilo tudo… ela fazia tudo aquilo pelos outros, não por ela. Correr já é chato, correr pelos OUTROS?!?
No fundo no fundo, esse brasileiro queria algo parecido. Ele buscava aprovação social que, ainda que você negue, todos buscamos. Nessa mesma semana assisti a Fyre, um documentário na Netflix que fala de um cara que engana milhares de pessoas criando um produto que seria de certa forma uma vida de Instagram só que real. Ele é ao mesmo tempo doente e manipulador (picareta mesmo). Ele só se deu bem por tanto tempo porque é muito fácil enganar as pessoas.
Esse falso maratonista vinha enganando a todos (e a ele mesmo). Mas foi pego. Linchá-lo publicamente não adianta nada. É até desumano. Doentes precisam é de tratamento.
*a foto deste texto é do perfil do maior trapaceador amador que a corrida já conheceu, Marathon Man na New Yorker.
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Periodização – parte 2 (final)

PERIODIZAÇÃO (na corrida) É COMO SEXO DE ADOLESCENTE.

OU AINDA: QUEM PERIODIZA NO FUNDO NO FUNDO QUER PREVER TERREMOTOS. (E não há NADA de errado nisso)

Dias atrás escrevi um texto sobre periodização (na corrida de longa distância), um tema do qual sempre quis tratar e do qual sempre me perguntavam. Como disse nele, não foram uma nem duas (nem 5) vezes que tratei disso com treinadores experientes, alguns de atletas profissionais, outros de seleção, olímpicos, etc.

Na totalidade das vezes (e aqui trata-se obviamente de um viés de conviver profissionalmente mais próximo de pessoas que pensam de forma mais semelhante) é que a periodização é daquelas coisas bonitas numa apresentação de PPT a um cliente, mas que na prática se mostra muito mais útil ao mundo acadêmico (que não precisa apresentar resultado algum) do que ao mundo que vive e trabalha com atletas e pessoas de carne e osso, ou seja, o mundo real.

Sem recorrer aos livros defino PERIODIZAÇÃO como sendo o conceito de que controlando a ordem de fatores trabalhados em um processo de treinamento a médio e longo prazo podemos controlar de forma a maximizar o desempenho do(s) atleta(s) treinado(s) ao final de um período.

Sendo assim, o treinador escolhe o que treinar em cada fase empregando determinadas valências e ênfases e o resultado seria maximizado, digamos assim. No conceito por trás da periodização 2 mais 2 não é 4, mas 5.

Faz sentido?

FAZ. MUITO!

Funciona?

Eu acho que não.

 

Na verdade, não disse no texto original, eu acredito que na periodização 2+2 é igual a 4,1. E olhe lá!

Gosto de comparar que a periodização se fundamenta na ideia de que o treinamento seria mais ou menos como um bolo tradicional. Você tem os ingredientes e, IGUALMENTE importante quanto à qualidade deles, você tem uma forma certa e/ou ótima de ir adicionando/introduzindo esses ingredientes.

Da minha parte eu já acredito que quando falamos de amadores, o treinamento está mais para um bolo de liquidificador. Você precisa ter os ingredientes (insisto no igualmente de boa qualidade), mas você tem a opção de misturá-los todos de uma vez e o resultado é… um bolo! Como em uma operação de multiplicação, a ordem dos fatores NÃO importaria no resultado.

*e aqui entra a mandinga, a fé, a crença. Eu gosto de primeiro adicionar 4 ovos, depois 5 copos de farinha, depois duas colheres de fermento e por aí vai… ou seja, eu gosto de usar os ingredientes em BLOCOS, não um a um.

Acredito que a periodização tem uma importância MUITO maior ao treinador do que ao atleta ou ao resultado. Isso porque a periodização serve na pior das hipóteses para o treinador certificar-se de que ele usou todas as suas ferramentas. Sou o único que pensa assim? Ouvi exatamente essa resposta de 2 treinadores de atletas olímpicos. É como se fosse um bloco de notas mental SEM impacto direto no resultado.

A SORTE e o COMPORTAMENTO HUMANO explicam Periodização

Não é nem que a sorte (ou a falta dela ou o simples acaso) que me garante que a periodização NÃO é essencial ao treinamento. Desde antes da formatura eu tinha enorme atração pelo tema. Até hoje invejo como alguns nomes conhecidos dessa área (todos gringos) fizeram carreira e fama nesse tópico sem que em toda sua obra acadêmica tenham citado uma única vez a palavra doping. É mais ou menos como alguém ficar famoso e ser levado a sério por tratar diabetes com homeopatia ou macumba sem citar a palavra “insulina” em todos seus artigos. Invejo a lábia desses caras, de quem fui vítima comprando muitos livros.

Mas por que e como o acaso explica? Fosse a periodização necessária ou essencial ao desempenho eu e muitos dos treinadores com quem converso seríamos algumas das pessoas mais sortudas do mundo. Isso porque os atletas parecem atingir seu ápice físico em uma forma quase randômica ou minimamente estruturada do treino (no que diz respeito à periodização, não às cargas das sessões).

OU SEJA: dar certo SEM a presença de algo que se julga essencial mostra JUSTAMENTE que sua presença NÃO se faz necessária!

Mas este texto não é sobre eles ou sobre minha pessoa. Faça você mesmo o exercício: abra os resultados das competições majors (Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais) e busque a sigla de SB (season best) ao lado do resultado, sinal de que o atleta conquistou sua melhor marca da temporada na competição mais importante.

Você verá que é a EXCEÇÃO o atleta conquistar as melhores marcas na competição mais importante. Um sinal (não prova!) CLARO de que temos POUCO controle de sistemas complexos.

A falta de SBs é um indicador de que se HÁ ou EXISTE uma periodização que DE FATO funcione, ainda não a conhecemos.

Reforço: os melhores treinadores do mundo no alto nível, que ganham ($) justamente com o SB (skin in the game!) NÃO conseguem periodizar de forma MINIMAMENTE eficiente. Por que (e COMO) o amador conseguiria??? Parem de delirar!

E aqui entra a ECONOMIA COMPORTAMENTAL.

Não é somente a sorte que me mostra que a periodização está LONGE de funcionar minimamente bem. Como dito, se quem NÃO a usa obtém os mesmos resultados, ela não é essencial nem eficiente nem de todo necessária. Para mim a insistência com a periodização se explica de outra forma: a obsessão TÃO humana por controle.

Um indivíduo em treinamento é um sistema complexo. Sistemas complexos são de certa forma imprevisíveis (pergunte ao seu treinador em quantos segundos, não minutos, você vai correr o próximo 10km e ele mentirá ou fugirá da resposta). Porém, e isso é intrínseco ao ser humano, queremos ter controle sobre tudo. Sobre TUDO.

Queremos saber se vai chover daqui 5 dias e não acertamos SEQUER se choverá em 12 horas. Achar que controlamos sistemas complexos é algo MUITO humano. Não temos que ter vergonha disso.

Escrevo este texto no trem após ir visitar o Vulcão Vesúvio, ao lado de Nápoles e que destruiu Pompeia. Mais do que controlar, o ser humano adora prever. Muito já se produziu dizendo que poderíamos prever terremotos (não, não podemos), que podemos prever vencedores de eleições até nos EUA, país mais obcecado por estatísticas, e vimos que não temos essa capacidade.

Nate Silver está no olho do furacão de um debate acadêmico porque ele teria sido capaz de prever o resultado das 3 últimas eleições norte-americanas (assim como um indivíduo em treinamento, um sistema complexo). E parece que ele errou miseravelmente, mas contou com sorte.

 

Estou dizendo que para MIM periodizar é mais como prever uma erupção vulcânica. Hoje você possui alarmes em cidades em volta de vulcões dormentes que conseguem em cima da hora minimizar um desastre sem JAMAIS conseguir prever com muito tempo hábil. Ou seja, ao treinador a periodização serve para BEM pouco (*eu mesmo disse que faço um esboço dela. O polimento não deixa de ser isso que se faz com vulcões… você altera cargas buscando controlar algo no curto prazo, não mais que 3 semanas, no caso das maratonas).

Mas quem se apoia em periodização, ao menos para mim, está querendo prever terremotos e o próximo presidente americano. Mas para isso terá que ser ou se considerar mais gênio que Silver, que já aceitou em seu mais famoso livro que isso não é possível no caso dos terremotos. Ou ter a mesma sorte que ele. Mas aí corre-se justamente o risco de ser esculachado quando mostrarem que o resultado foi apenas… SORTE.

P.s.: se algum cliente meu chegou até aqui, no final do texto, saiba que no SEU caso eu periodizo, então descontos estão fora de questão.

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Periodização

Periodização (de corredor) é como sexo na adolescência:

– Todo mundo fala sobre ela;

– Ninguém na real sabe como fazer;

– Todo mundo pensa que o outro está fazendo;

– Então todos falam que estão fazendo.

 

Tempo atrás 2 treinadores BEM experientes em momentos distintos me perguntaram de canto o que eu achava de PERIODIZAÇÃO. Eu disse que é MUITO sobrevalorizada (overrated). Eu não faço, ao menos não do jeito que os professores fora do mercado, que não dão treino, nos “ensinam” na faculdade.

Quase um ano atrás me contrataram para dar treino a uma equipe de fundistas amadores que curtem competir forte. De certa forma depois de já contratado eles me cercavam porque queriam saber da “periodização”, já que há atletas ali com competições em diferentes datas e distâncias.

Eu falei o que hoje eles já sabem: não há periodização. Todos vão treinar juntos, praticamente o MESMO treino, não importa a prova (se 5.000m ou 10km), não importa a data (se em maio ou em julho). Aliás, se a data mudasse alguma coisa no treino, bastaria eu aparecer 5 semanas antes e pedir meu treino “individualizado e periodizado”, não ficaria treinando igual tonto por 12 meses.

Eu achei que igual treinador de futebol eu fosse cair em 2 semanas. Acho que quase caí, é verdade, mas eles compraram a ideia e aí estamos.

SE periodização DE FATO funcionasse, você não teria TANTOS atletas olímpicos ficando LONGE da melhor marca da temporada quando mais importa. Aliás, um dos termos mais em voga de quem corre pouco é justamente o “prova-alvo”. Tenho úlcera quando ouço.

Da pessoa que fala “prova-alvo” você tira de cara duas informações. Ela corre há muito pouco tempo. Tão pouco que ela ainda não aprendeu o básico desse esporte. O segundo, e talvez nem ela saiba, é que quando ela diz “prova-alvo” no fundo no fundo ela já está te dando desculpas do por que ela vai tão mal nas provas anteriores à tal “prova alvo”. “Prova-alvo” é autossabotagem.

Se nem atleta profissional tem prova-alvo, por que eu ou você teríamos?? Deixe de delirar!

Um dos princípios do Treinamento estabelece definir cargas que gerem estresse num nível adequado (é mais arte do que ciência, para desespero do povo de avental, é muito mais feeling do que cálculo). Aí você vai fazendo indo sessão após sessão ad eternum. Qual valência física deve vir antes (força, resistência, velocidade…) vai do gosto do treinador. O que a gente encontra na literatura (e mesmo na prática) é que ela pouco importa na corrida de longa distância.

A “minha” periodização eu divido em 3 partes. Começo pela base onde trabalho força geral e velocidade “pura” do corredor. E termino com queda de volume (não de intensidade!) de 1 a 3 semanas antes da competição.

E o que eu faço “no miolo”? Qualquer coisa. Literalmente qualquer coisa, NÃO é modo de falar! O treino eu invento quando estou chegando na pista. Eu sei o treino que eu fiz na semana passada, o de “hoje” e o da próxima. E só. Nada mais.

Mas como eu quero cobrar o mais caro possível pelos meus serviços, eu faço o que qualquer assessoria esportiva do mercado faz, eu falo que faço planos personalizados, individualizados e periodizados em função das metas e da “prova-alvo“ que é definida com o cliente. Os clientes, que entendem de corrida menos que eu, gostam disso.

Mas agora contei meu segredo… Periodização é como sexo de adolescente.

 

 

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“-Larry, são apenas tênis.”

Acabei de corrigir outra mácula: terminei de ler uma biografia daquele que é o maior velocista ao lado de Usain BoltJesse Owens. Tudo era precário na época que o velocista americano chegava para realizar sua mais famosa façanha, os 4 ouros olímpicos.

Ao desembarcarem de navio na Alemanha (onde ele evitava consumir pães e massas para não engordar, pois é…) Owens estava ainda sem sua nova sapatilha para competir.

Larry Snyder, seu treinador, estava preocupado, queria que o atleta a experimentasse o quanto antes.

Eu costumo dizer que uma das grandes diferenças entre os amadores médios e os que “chegam lá” é que estes sabem o que DE FATO importa no esporte. Com tão pouca tecnologia disponível seria de se pensar que uma sapatilha feita com couro de canguru (antes de serem proibidas) poderíamos imaginar que ela seria imprescindível para os feitos de Owens.

Mas Jesse sabia o que fazia dele Owens. Vendo a preocupação de seu treinador ele solta a frase:

Larry, são apenas tênis.

Se preocupa de mais com tênis quem sabe de menos desse esporte.

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