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A Cetogênica, o desempenho e a magia…

Eu, como muita gente, gosto DEMAIS de truques de mágica! No filme “Truque de Mestre” (2013) tem uma frase que ensina muito sobre a arte de Houdini: “Quando um mágico acena a mão e diz: ‘Aqui é onde a magia está acontecendo’ é porque o verdadeiro truque está acontecendo em outro lugar”.

O equívoco do preguiçoso é sempre buscar atalhos. O erro do tolo é simplificar o complexo. Tem que ser MUITO ingênuo pra achar que em um mundo que dá literalmente TUDO ao vencedor e é praticamente universal como o esporte, tenha truques simples que somente você e mais ninguém enxergou.

Sou gênio! Vou deixar de comer carne e ganhar tudo porque NINGUÉM pensou nisso antes!

 

Ou ainda… A CETOGÊNICA

Outra frase essencial do mesmo filme: “Sempre há mais do que vemos na superfície“.

Froome carrega incontáveis acusações de doping. Tempinho atrás quando questionado de sua melhora repentina ele atribuiu à dieta cetogênica. Apenas os britânicos e os fãs da dieta acreditam!

Quando você pergunta à Viren sobre seu feito em 72-76 ele atribui a um prato local, mas sempre se cala quando perguntado do doping sanguíneo. Nos anos 90 as chinesas diziam que seus recordes eram frutos de sangue de tartaruga. Quenianos sempre falam do ugali, mas acho que poucos sabem que é o país com o segundo maior número de atletas suspensos por doping (só Rússia à frente).

Há basicamente 3 tipos de pessoas que fazem cetogênica no esporte: os dedicados, os desinformados e os sem talento. Explico.

1. Estar em cetose exige dedicação. MUITA!

2. Quem tem talento (leia-se tolerância ao carboidrato) NÃO precisa da cetogênica para manter o peso baixo! Por que fazer se ela não oferece vantagens competitivas?

3. E por fim, a desinformação. Porque só ela faz o praticante ignorar que não há nem nunca existiu em mais de um século um grupo de atletas cetogênicos com resultados consistentes, expressivos e relevantes fazendo uso dessa estratégia!

Você pode fazer a dieta que quiser, eu não ligo! Ninguém liga! Pode até ser vegetariano! Até tenho amigos que são! Só que tome cuidado quando você acha que é esperto vendo algo que ninguém mais viu.

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Tolerância ao carboidrato

Quantas vezes já escrevi sobre a NÃO-essencialidade do carboidrato?
 
É algo básico, mas você entra e sai da USP, referência acadêmica, sem aprender isso. Basicamente quer dizer que você não precisa de NADA de carboidrato pra ter SAÚDE. E o que pedem? Que ele seja a base da dieta. Delírio? Esquizofrenia? Não sei.
 
Mas por que isso? “Porque Nutrição não é uma ciência, é um sentimento“.
 
Como os professores QUEREM que a base da dieta seja carboidrato, assim o pedem.
 
Vejamos, como pensam por aproximação, acham que ao comer menos gordura, ficamos magros. É como se eu tomando leite virasse caucasiano, ao comer peixe melhoraria meu 200m medley. Ao pedir que se coma mais carboidrato, tratam algo BIOLÓGICO como sendo ARITMÉTICO. Ironia das ironias: você entra e sai do curso sem precisar saber o básico da matemática.
 
E ainda, como não entendem NADA de Esporte acham que o atleta da elite é elite porque come massa e não que ele seja elite porque ele CONSEGUE se entupir de Carboidrato sem os efeitos esperados à maior parte da população. É como se o queniano fosse elite porque corre 200km sem se machucar e não porque CONSEGUE sem se lesionar…
 
Não entendem que o atleta de ponta é a EXCEÇÃO, não a norma. Eles definem o tamanho das nossas calças e tênis assistindo a jogos da NBA. Eu poderia dizer que isso é burrice. Por educação, chamo só de ignorância.
 
O gráfico abaixo é um indivíduo consumindo carboidrato e o excedente – voilà! – vira gordura corporal.
 
Por quê? Porque NÃO temos a tolerância de atletas. Quando o Nutricionista IPI calcula gasto e consumo (spoiler: ele não consegue nem sabe!) ele coloca um estressor na MÉDIA do dia a dia do indivíduo quando sabemos que esporte é sobre tudo ou nada, é sobre… EXTREMOS!
 
O QUE ESTOU QUERENDO DIZER?
 
Esporte NÃO exige carboidrato, ele PERMITE maior consumo (“faça por merecer”) porque ele aumenta UM POUCO nossa tolerância. Já os atletas que estão nos playoffs da NBA podem injetar caramelo na veia porque são geneticamente ESTUPIDAMENTE tolerantes. O IPI acha que é porque eles jogam basquete… acha que é a dieta que deixa alguém com 2,10m de envergadura.
 
Não é sobre DEVER, mas sobre PODER, MERECER e TOLERAR.

Por que corremos – (Why we run)

Corrigi mais uma lacuna de livros de corrida! Em Why we Run o autor e biólogo e (ótimo) corredor Bernd Heinrich faz uma investigação técnica e empírica do que faz homens e animais se deslocarem por longas distâncias.

Fui lendo o livro com uma sensação de alívio. Ele reconta sua aventura para encarar sua primeira ultra (160km). Se passa em 1981, mas eu lia me vendo fazendo as MESMAS coisas que vão ganhando força atualmente!

Há no mercado 2 discursos que tentam te empurrar! O primeiro é de que houve enorme progresso técnico na corrida por ciência e tecnologia. Ambas teorias não se sustentam. O maior avanço do atletismo se deu por causa da profissionalização!

O condicionamento está como em uma gangorra, com os pólos sendo “desgaste” e “recuperação”. O segundo discurso que tentam te vender é que você pode focar em um (recuperação). É a não-compreensão.

Heinrich não é IPI nem nutricionista nem treinador! Ele é 100% pele em jogo (skin in the game). Veja alguns trechos que separei e traduzi:

Eu precisava reduzir meu peso, mas como? Restringir calorias causaria um conflito em meu corpo (…). Meu corpo se defenderia restringindo o gasto (…). A redução calórica pode fazê-lo fraco, letárgico e lento reduzindo pouco o peso.”

Eu não sabia dizer o que meu corpo precisaria, mas estava confiante que meu corpo saberia, do mesmo jeito que o corpo de um animal selvagem sabe(…). Eu decidi que faria como um animal, meu corpo decidiria o alimento e a quantidade, desde que eu optasse por alimentos não-processados ou minimamente processados. Sem pílulas, sem suplementos.”

Normalmente o predador come depois da caça, não antes dela.”

Para aumentar minha zona de tolerância eu treinei para correr sem combustível (on empty), forçando meu corpo a utilizar a gordura como combustível quando meu glicogênio acabasse.”

“Correndo regularmente em estado depletado (sem alimento) eu simulava as condições de prova.”

 

Voltei! O livro é uma bela aula! E talvez a melhor delas seja entendermos que nós não devemos criar teorias por teóricos, mas tentar entender a realidade, pois ela é soberana! Foi isso que ele fez!

Conselhos de Landy ao jovem Clarke

John Landy (E) é um dos maiores atletas da história, ex-recordista mundial, segundo homem a baixar dos 4 minutos na Milha.Quando ainda jovem, Ron Clarke (D) decidiu escrever ao seu conterrâneo Landy pedindo dicas.

Landy é tido como um gentleman singular. E eis que sem esperar Clarke recebe uma resposta escrita a mão. Nela dicas que ele usaria e provavelmente o ajudaria a torná-lo um dos 5 maiores corredores da era amadora.

Landy explica ao jovem que a corrida exige duas coisas: velocidade e resistência. Explica ainda que fazer grandes volumes é necessário para desenvolver resistência, mas que isso NÃO irá melhorar aquilo que ele também muito precisa, a velocidade!

E como ganhar velocidade, um dos 2 componentes? Treinando a velocidade correndo… rápido!

Clarke na carta original destacou que muita gente dizia que sua técnica não era refinada (diziam que seu movimento de braço era estranho). No que Landy respondeu:

Eu não me preocuparia com isso. O mais importante é estar em forma, a técnica e outras características menos importantes cuidarão de si mesmas. À medida que você evolui, o estilo se torna mais importante, mas você não consegue mudar muito o estilo do corredor – apenas modificá-lo – porque cada um tem seu estilo particular de correr”.

Bom, se Landy falou isso e Clarke acatou, quem sou eu para argumentar contra, não?! Mas talvez eles estejam errados, que o melhor jeito de ganhar velocidade seja ficar rodando e rodando sem velocidade nem qualidade ou que antes de treinar bastante a pessoa deva é ficar olhando para a ”entrada do pé” e esses detalhes com os quais os dois não se importavam.

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BIOMECÂNICA vs TREINAMENTO

OU AINDA: é possível “ensinar” um guepardo a correr mais rápido melhorando sua técnica?

Muitos anos atrás me apaixonei pela história do cavalo Seabiscuit. E tempos atrás mergulhei no mundo das corridas de cachorro para escrever meu livro O Veterinário Clandestino. Ambos os mundos conseguem uma proeza: fazer animais incríveis correrem ainda mais rápido.

Como? Treinando suas CAPACIDADES. Cavalos e cães não fazem educativos. O que sobra é melhorar suas valências (níveis de força e resistência, por exemplo). Você nunca verá cavalos na academia nem cães fazendo educativos de corrida. Ok, não são racionais como nós humanos.

Será que poderíamos fazer o guepardo, o animal mais rápido do mundo, correr ainda mais? Sim! Com certeza! E se ele fosse racional como o Haroldo amigo do Calvin? Poderíamos dizer COMO ele deveria correr para ser mais rápido?

Fiz um vídeo dias atrás porque me perguntaram o que achava do enfoque na biomecânica. O que vejo que muito amador não percebe é que o PADRÃO biomecânico de uma pessoa REFLETE, é uma expressão de suas capacidades físicas, enquanto muita gente entende a biomecânica como sendo CAUSA da corrida.

Como “melhorar” alguém tecnicamente/biomecanicamente se à medida que a força, resistência e potência aumentam sua biomecânica TAMBÉM muda, uma vez que ela é a expressão dos anteriores?

Esse é (mais) um dos motivos pelos quais interfiro ZERO na mecânica de meus atletas. Ao treinar suas CAPACIDADES, elas se refletirão no novo padrão de corrida da pessoa. Duvida? Venha em janeiro em um treino meu, filme meus atletas e volte em maio! E verá como mudarão sem fazer UM exercício educativo sequer! Como isso é possível?

Eu tento olhar o padrão de corrida como indicador de CAPACIDADE que faltam ser treinadas. E apenas querer ou falar (faça isso, pise assim) POUCO ou NADA muda. Para você fazer o fadeaway do Jordan ou enterrar como LeBron, não basta educativos. Você precisa ter capacidades físicas mínimas e brutas, além de praticar o gesto POR COMPLETO. Focar primeiro em ângulos não te levará a lugar nenhum. E DENTRO do gesto completo seu corpo encontrará as alternativas mais adequadas de ajuste.

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Comer como atleta vs Comer para ser atleta

Conheço o Ivan Razeira há um tempo, e dias atrás ele se saiu com uma frase incrível: “antes eu comia como um atleta, hoje eu come pra ser um atleta”.

Ele postou uma foto das duas épocas. O que pouca gente sabe é que a foto do “antes” é temporalmente mais próxima de sua fase como atleta profissional de triatlo disputando etapas do circuito mundial. Como isso é possível?

Um dos maiores e mais vergonhosos erros da Nutrição Esportiva é estruturar sua prática observando o que faz a elite para então aplicar em atletas amadores (que é onde está o dinheiro e o grosso do mercado). O atleta da elite é um ET, um fora da curva, um “outlier” com características bem particulares.

Uma delas, e a maioria dos profissionais da área parece não compreender, é que esses atletas possuem uma ENORME tolerância ao carboidrato, o nutriente que oferece a melhor relação energia por consumo de O2. Então não é que os grandes corredores (e triatletas) comem muito carboidrato e isso os faz ser da elite, mas é que eles PODEM, eles TOLERAM consumir tudo isso (assim como toleram cargas incríveis de treino) e POR ISSO podem ser da elite.

Quando o Ivan resolveu mudar radicalmente sua dieta após sua aposentadoria, reduzindo radicalmente os carboidratos, seu corpo mudou. Quando um organismo não mais tolera tanto carboidrato ele aumenta sua resistência à insulina, aumentando o peso, trazendo maior carga mecânica e assim pior desempenho.

Um corpo atlético na longa distância precisa ser ANTES DE TUDO leve. Mas a Nutrição Esportiva decidiu funcionar às avessas, decidiu tentar mudar a realidade que é sempre teimosa. Por isso ela não funciona. Ela decidiu primeiro que você deve encher o rabo de carboidrato (porque não compreende a dinâmica do esporte) e depois sugere saídas ineficientes para você se livrar de um peso que subiu ou que não baixa.

Faz sentido? É lógico que não! Mas com sua incompreensão da dinâmica ela culpa o cliente por estar acima do peso, não o seu não entendimento. A busca deve ser por uma dieta de um corpo magro, não a dieta dos corpos magros!

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E se houvesse um teste-cego de tênis?

Quando escrevi meu primeiro livro sobre corrida, O TREINADOR CLANDESTINO, um dos capítulos tratava sobre tênis e prevenção de lesões e nele apontei 2 levantamentos que mostravam relação de associação de maior satisfação e de menos lesões com tênis mais BARATOS. Você leu certo, quanto mais barato, MELHOR.

Quando ainda trabalhava na adidas eu comentava que o ideal era um teste cego com pessoas correndo com o mesmo modelo (sem que obviamente soubessem disso). 

E não é que o estudo foi feito?? Não por uma marca, lógico! Elas já imaginam o resultado!

Eu falo que as fabricantes imaginam porque não passa um dia sequer sem que eu me reforce da ideia de que entre os inúmeros tipos de clientes, há 2 que acabam sendo atendidos pelo mercado: 

1. OS TOLOS. Mas a marca dificilmente tenta falar com esse. Empresa picareta é que tenta fazer isso. Fabricantes vendem pra esses, mas não tentam conversar muito com ele.

2. OS QUE QUEREM SER ENGANADOS. Esses criam uma demanda enorme no mercado de corrida. São a maioria! 

 

Veja bem, existem outros tipos de clientes, ok?!

O estudo deu aos corredores 2 tênis iguais, pedindo ao “atleta” (corredor gosta de ser chamado de atleta) e pedia para comparar o conforto. Um tênis custava U$50 e outro era um lançamento “desenhado para maximizar o conforto” custando U$150. Qual você acha após o teste drive que era eleito mais confortável? O caro, certo?

O problema era: sem saber o “atleta” havia testado o mesmo tênis! 

A precificação de tênis atende a um desejo do mercado. Você cobra caro porque o atleta QUER pagar caro. Eu falo isso há um bom tempo. Ele reclama em público, mas o tênis é antes de tudo um SINALIZADOR SOCIAL.

 

p.s.: um bom tempo atrás escrevi uma série nesse tema….

p.s.2: Effects of deceptive footwear condition on subjective comfort and running biomechanics (CHAN & CHEUNG et al) 

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Pré-Treino (não aquele que você imagina)

Já que estou em uma fila de uma hora vou tentar explicar duas coisas que sempre perguntam…

“Aos mais lentos não tem como fugir de um teto de ~2h30 nos Longos pra Maratona?”

Vamos lá… Se você chegar HOJE pro Mo Farah e pedir que ele faça um longo de 3h30 ele não aguenta. Se você mandá-lo correr isso no sábado e dizer que 2a feira tem tiro ele não aguenta. Então deixa eu devolver sua pergunta com outra pergunta:

Mo Farah tem mais talento, é melhor, treina mais volume, mais intensidade, mais força, tem mais disciplina, mais tolerância ao desconforto e mais experiência. COMO o corredor amador conseguiria fazer algo que o profissional NÃO conseguiria? Entre os 2 tem alguém treinando MUITO errado. Quem você aposta que é??

“Mas o amador mais lento fica inseguro de chegar em uma maratona fazendo só um longo de 25km. Como resolvo?”

Vou evitar entrar no mérito de que essa pessoa NÃO deveria TREINAR pra maratona, ainda que possa corrê-la.

O corredor TEM QUE acreditar no processo. Quem acha 25km pouco vai achar pouco 30, 32, 34… 8km a um lento é quase uma 1h00!!

Uma solução simples é treinar METABOLICAMENTE (mas não MECANICAMENTE) CANSADO (ou exposto, ou fragilizado, chame como quiser). Como?

A fadiga/estresse mecânico da corrida é o fardo que limita o longo. Você pode andar por horas, pedalar horas, nadar horas. Essas atividades NÃO têm o impacto que bagunçam os treinos Longos do corredor. Há 2 jeitos simples de fugir disso gerando uma fadiga metabólica inicial:

JEJUM. Você começa com um corpo com menos combustível, mas não agredido.

PRÉ-TREINO. Não o que o nutricionista IPI pede porque não entende, mas um treino SEM impacto. Preferência: ciclismo, transport, resistido (musculação, etc…)

Assim você gera volume de TEMPO de treino sem o custo MECÂNICO de uma carga que nem um profissional aguenta.

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