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Eu sou especial!

O Rodrigo Bomeny (médico) ontem postou a seguinte frase: “Você não é a exceção, você é a regra”. NADA é pior ao marketing do que você NÃO dizer ao seu cliente que ele é especial. Ele quer pagar MAIS para alguém JUSTAMENTE dizer isso a ele!

A Nutrição e o Treinamento recorrem insistentemente em duas falácias: de que todos precisamos de uma dieta individualizada e de um treinamento individualizado. Torne um problema complexo, venda a solução. NUNCA demonstraram estarem certos, mas essa é a base da argumentação.

O tempo nos mostrou (e o tempo é a MELHOR ferramenta e variável de análise de segurança) que população humana INTEIRA sobrevive com saúde se alimentada de uma MESMA dieta base (composta por alimentos naturais à espécie). Não chega a 100% por causa dos intolerantes (ex: glúten ou lactose), de algumas doenças particulares (ex: diabetes 1), etc.

Mas é ruim pro marketing, então grite sem provas: “todos precisam de dietas individualizadas”.

Com Treinamento é igual. TODOS os meus clientes fazem o MESMO treino. Dos 5km à Maratona. Falo isso porque sou bobo? Pode ser, mas é mais honesto. Se eu dissesse que monto treinos individualizados corro o risco de se encontrarem e descobrirem que não são. E se acharem que minto, nunca mais compram minhas ideias.

 

O EFEITO “ACIMA DA MÉDIA

Um estudo clássico encontrou que 88% dos motoristas acham que dirigem acima da média. Mas como pode?! Somente 50% dirigem melhor que a média. De cada 100 que fizer 4 a 5 tiros de 1500m em ritmo de 10km, teremos que 99% desses corredores irão melhorar o desempenho (isso é feito desde os anos 60). De cada 100 pessoas 30kg acima do peso que passar um tempo fazendo Dieta Paleo teremos que 99 perderão um bom peso de forma saudável.

O problema é: nosso ego quer nos fazer acreditar que não somos o 99%. Queremos ouvir que somos o 1%. Eu sou especial e único. Minha mãe sempre me falou isso! O problema é que eu acreditei.

E eu vou literalmente pagar caro por isso, pois não faltará profissional da saúde que pegue na minha mão e diga: vem aqui, que vou fazer um plano individualizado para você. De Treino e de Dieta.

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Treino é hiper-gravidade, quarentena é doença.

Aprendi hoje uma estatística meio assustadora. Segundo a NASA, os astronautas perdem até 20% da massa muscular quando ficam de 5 a 11 dias no espaço. Uma das perguntas mais recorrentes que me chegam em tempos de quarentena é: “quando passamos a perder condicionamento parados??

Simples, na semana seguinte. Sem dó! Eu sinto um pouco de fé das pessoas nessa fase. É como se elas em pensamento QUERENDO manter o condicionamento seria o suficiente. Ou então bastaria fazer meio-agachamentos sem peso naquela aula on-line gratuita que oferece o básico do básico esperando que você compre o produto vendido ali.

Treinamento é hiper-gravidade. Uma corrida despropositada gera cargas, choques um pouco menores que 2x o peso-corporal. O longo de maratona também é por aí. Tiros em ritmo de 3km? Igual. As cargas são bem pouco distintas, mas a diferença está no tempo que nos expomos a cada uma.

A pessoa que vai (ia!) à academia fazer agachamento (terra, avanço, etc) acabava proporcionando ao próprio corpo um efeito de hiper-gravidade. Era como se ela estivesse saindo para dar uma volta em Saturno, que tem uma gravidade cerca de 10% maior que a daqui. Um corpo treinado à base de musculação (cargas altas e agudas) ou à base de corrida (baixas e crônicas) nos torna mais fortes.

Porém, ao retirarmos isso da rotina é como se, de certa forma, nos mandassem ao espaço. Sem estresse perdemos músculo. BEM rapidamente como mostra a NASA. E só quem já decidiu ganhar, por exemplo, 3kg de músculo sabe o CUSTO e dedicação exigidos.

Mas a pessoa acha que pensamento positivo basta. É o pensamento mágico! Que as diretrizes que estavam SEMPRE erradas em TODAS as vezes anteriores estarão certas dessa vez, que ficar em casa custe o que custar, DESSA VEZ será o certo a fazer. Que esse negócio que a sociedade sairá disso mais fraca (no sentido literal da palavra) é coisa do mundo da Lua. É como se pudéssemos deixar astronautas semanas em órbita e achar que eles voltariam iguais… porque foi assim que desejamos.

 

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Quem é o velocista?

Quem você acha que é lo velocista da figura de cima? A ou B? Pense bem…m olhe, repare e pense. Um deles é um velocista e outro um jogador de futebol americano dando um tiro. Abaixo dou a resposta…

Eu coloquei ontem esse teste nos meus stories pra saber quem seria o velocista da foto (sombras reais). As respostas ficaram em mais ou menos 52% pela opção errada. Eu não esperava tantas respostas e explicações que me ajudarão a guiar a ”explicação”. Primeiro, não existe 100% certo ou errado. Não acho difícil errar o teste, mas de certa forma fácil explicar que o atleta de BAIXO é o velocista.

Eu tive um treinador que pedia pra corrermos como se estivéssemos segurando um ovo. Se apertar ele quebra, se abrir a mão (como fazem e PODEM fazer muitos velocistas), ele cai. Então lição número 1: mão aberta na velocidade NÃO é obrigatório.

Escolhi A porque o quadril está projetado pra frente”. Não ganha a prova quem mais projeta o quadril, mas quem corre a distância da prova o mais rápido possível. Não esqueça isso! Ao projetar o quadril o atleta BAIXA o Centro de Gravidade (running tall). Quando a gente quer MUITO uma coisa, a gente pode ir na contramão dela. A maior aula da história foi Usain Bolt ultrapassando Justin Gatlin nos metros finais da final do Mundial de Londres de 2015. Gatlin faz força excessiva (ele queria MUITO correr mais rápido), desce o CG, perde velocidade, perde o ouro. Um exemplo de como buscar o que mais se quer pode ser obstáculo.

 

“Do not show yours spikes to Jesus”

O jogador exagera no braço! Ao projetar o quadril (e não o mantendo alto, na MELHOR prosição possível de se EXPRESSAR a velocidade) o tronco também vai à frente, para compensar a perna lá pra trás cometendo o pecado de mostrar os cravos da sapatilha pra Jesus Cristo, forçando toda a cadeia posterior.

Por fim (somente daquilo que ME fez identificar o B): repare no olhar do velocista…. à frente… é uma posição de força MELHOR do que a cabeça caída pra trás do jogador… Pense: como você faria um agachamento pesado? Olhando pra frente ou pro teto da academia?

Existem outras nuances que não caberiam no espaço… o A parece rodar (o que é causa e o que é consequência? Eu não sei… de verdade não sei… o braço exagerado parece ser consequência dessa cambalhota). O joelho alto pra MIM NÃO me disse nada… o dedão do velocista parece mais pra cima… me disse mais que o joelho.

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O que o Cócoras nos fala sobre o mundo da corrida…

Os amadores migram rotineiramente entre algumas insistências, manias, como se tivessem descoberto o Santo Graal da corrida. Buscam a alquimia que transformaria chumbo em ouro porque garimpar com uma picareta dá trabalho. Dá mesmo! Por isso também encontrar ouro enriquecia!

Palatinose, educativos, suco de beterraba, BCAA… Repare: há SEMPRE alguém VENDENDO a solução. E quando ela não é palpável (ex: educativos), o vendedor a torna complexa pra ser o intermediário que dará o atalho, igual um coiote de fronteira que foge no meio da noite porque NÃO irá entregar a promessa!

O Thadeu Miranda falou um negócio brilhante pra mim: “vivemos tempos estranhos, da complicação e metodolização de coisas que até um cachorro é capaz de fazer sozinho”. SIM, eu não preciso calcular necessidade hídrica de um labrador, por que preciso fazer pra corredor??

Ele segue: “somos ainda muito pautados pelo positivismo, tudo que é natural e funciona parece que acreditamos que se sistematizado será melhor”. Perfeito! Nutricionista ADORA fazer cálculo assim seja porque NÃO entende, seja porque te APRISIONA (sempre recebendo, lógico) seja porque acha que estruturar apresenta vantagens. Não, NÃO apresenta.

 

Andam me perguntando sobre “treinar” cócoras! Isso NÃO existe! Cócoras é sobre CONSEGUIR chegar e sustentar uma posição NATURAL ao ser humano. Você não treina isso, você pratica para RECUPERAR um gesto que é NATURAL e se perde o no mundo moderno. E se você NÃO chega à naturalidade envolvendo duas das três articulações mais importantes na corrida é porque há algo de MUITO errado.

Acabei ontem um desafio proposto pelo Léo Moratta que é ficar 30 minutos seguidos por 30 dias seguidos de cócoras. Sem folga! Dói! Visitar o desconforto o nome já diz… exercício, jejum, restrição de carboidratos… TUDO vem com… desconforto! Sou mais uma vez grato ao Léo porque sem ele “individualizar” (BULSHITAGEM DESGRAÇADA) o resultado foi surreal!

A extensão ótima da passada na corrida não se consegue VENDO imagens, fazendo educativos, mas tendo os RECURSOS (Mobilidade e Força) necessários!

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Volume mata sua Velocidade?

Temos que sempre olhar com um pouco de cautela o que a elite tem a dizer. Primeiro porque precisamos olhar as nuances. É fácil adotar a dieta que a elite consome fingindo não saber que treinam 12 vezes na semana e que são tolerantes, são fora da curva.

Tem mais. Muitos usam substâncias proibidas, que jogam fumaça na compreensão do que é fruto de treino ou do doping. E por fim porque esses caras são – de novo – fora da curva. Eles parecem tolerar e melhorar com qualquer coisa.

Dia desses vi o longevo Nick Willis falando sobre treino de velocidade. Muito me espanta o tão pouco que amadores treinam essa capacidade. Seja por ignorância técnica do treinador, seja porque dá (muito) mais trabalho coordenar uma sessão assim, seja porque exige vivência (olhar crítico) de um profissional que em sua enorme maioria só conheceu corrida pelos livros da faculdade.

O conceito de que volume diminui a velocidade é um ENORME erro interpretativo. Você perde aquilo que você NÃO treina. Quando você sai do curso de francês pra passar a estudar espanhol não é que ler Gabriel García Marquez te faz esquecer a língua da Édith Piaf. Você piorou o francês porque você DEIXOU de praticá-lo.

Willis falou do tanto que faz treinos de velocidade com ADEQUADO descanso (entre os tiros) AINDA QUE possa estimular a velocidade DIARIAMENTE. Falo tranquilamente: mais de 95% das minhas intervenções em treinos é pedindo que o corredor REDUZA a velocidade do tiro. Motivo? É o ácido lático constante que parece “matar” o corredor. Mesmo meio-fundistas o visitam somente 2, 3, 4x na semana.

Dia desses um leitor que corre provas de 5km a 6’00″/km falava que dava tiros de 1km abaixo de 5’00” porque acha que (mais) ritmo é o que determina a evolução. Resultado: treinos com intensidades de meio-fundista e volumes de fundista. ISSO é que mata o corredor.

Lições básicas (não ensinadas na faculdade):

1. A velocidade é o que o corredor MAIS quer. Então ela PODE ser visitada TODO SANTO DIA se feita com estímulos e pausas adequadas.

2. Se você NÃO a estimula, você a perde! Volume NÃO diminui a velocidade. É NÃO treiná-la que te faz perdê-la.

3. É a dose CERTA da carga de treino que gera melhora. Mais não é melhor!

 

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