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Os números e a força da Maratona da Disney entre os brasileiros

mickey runDificilmente falo de alguma prova em especial. Mas não dá para ignorar uma prova que leva mais de 800 brasileiros a correr tão longe e por tantos quilômetros. Seus números colocam a Maratona da Disney como a 5ª maior em número de brasileiros, não é pouca coisa! E vou provar que ela tem um peso ainda maior.

No gráfico abaixo faço um paralelo dela e de Buenos Aires (em vermelho), uma prova tecnicamente ótima e a preços honestos. Ano passado ela foi a maratona internacional com mais brasileiros na história, roubando um recorde da própria Disney de meses antes. Se olharmos ano a ano veremos que as duas crescem em uma forma diferente, mas sustentada. A projeção exponencial (linha verde) é que a prova argentina não ultrapasse a americana. Meu chute? Vai passar. Ela precisa crescer metade dos 30% de 2013-2014 para conseguir isso. E aí vem o primeiro de 3 segredos.

Primeiro é que a Disney cresce aos saltos. Ela era a 3ª ou 4ª prova preferida no exterior. Hoje é a líder, ainda que por meses. E ela depende mais do câmbio do dólar (ou da crise, que a Dilma insiste em negar) do que a portenha da paridade Peso-Real. Repare na linha amarela que mostra uma queda no ritmo de crescimento da Disney, sinal claro da atual crise. Não precisa entender muito de logística para saber que correr com o Mickey Mouse envolve mais planejamento.

O segundo segredo é o que os números não dizem. Em 2013 8 brasileiros inscritos não correram a prova. Em 2014 foram 13. E em 2015? TREZENTOS E VINTE brasileiros não foram correr apesar de inscritos. Sinal que – de novo! –  a crise pesou. E muito.

O 3º e último segredo é que a Disney tomou uma proporção tão grande, que esses 320 inscritos poderiam fazê-la páreo às maratonas de Porto Alegre e Curitiba em número de concluintes. Eu não sei vocês, eu acho isso um assombro. Isso mostra que somos um país apaixonado por Orlando e que gosta de correr 42km, desde que seja lá fora.

Comparação entre as maratonas de Buenos Aires e Disney

Por fim, sobre os resultados… vi e soube que vocês andaram batendo boca porque teria havido ufanismo nas vitórias brasileiras na Disney. Sei lá, acho que minha formação em esporte é diferente da maioria… eu gosto de esporte, estou pouco ligando pra nacionalidade de quem ganhou. Não me interessa se é amigo do Fulano, se é bonito ou se é brasileiro ou latino-americano. Não estou nem aí! Não me verão dizendo “orgulho de ser brasileiro” se um ganha ou um “que maravilha de dobradinha”.

O que você não se pode fazer é culpar o(s) vencedor(es) pelos tempos serem tecnicamente “fracos”. Isso é um absurdo! Você tem é que culpar quem acha que uma maratona que não atrai muitos atletas da elite sirva de métrica pra quem pensa que entende do gingado. Deixem os atletas, pô! Por outro lado, parem de encher com essa de “que maravilha, Brasil”, nacionalismo é refúgio de covarde. E isso não é nem nacionalismo, é desconhecimento mesmo. Falo isso porque quando se para pra ver, nem Rio, SP, POA ou Curitiba, que pagam prêmios em dinheiro tiveram dobradinhas brasileiras!

A questão é que todo mundo já sonhou em ganhar uma prova, que fosse uma volta no quarteirão entre amigos. O que dizer então de uma com quase 20.000 concluintes? E o que dizer de uma tão famosa e especial? Vai culpar e criticar o atleta por perseguir esse sonho? Tenha dó, vai! Deixemos de ser implicantes! Todo mundo corre atrás do sonho que quiser.

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A corrida tem cor? Ela é branca?

A única razão do porquê ainda existem maratonas, é porque só assim 20.000 brancos podem perseguir 3 negros pelas ruas de Boston como nos bons velhos tempos(*)“. (Daniel Tosh, comediante)

Um excelente texto em 2011 perguntava: por que a corrida é um esporte tão branco? Eu nunca tinha me dado conta até lê-lo, mas negros (aqui e lá fora) só correm e são porcentualmente expressivos ali na frente, junto da elite. Nos EUA especulam que essa questão parece ser fruto de uma preferência por outros esportes, principalmente pelo futebol americano e o basquete. Mas apontam também a falta de exemplos de inspiração, ou seja, mais negros amadores correndo que não seja um queniano que não tem, assim como não tem com você, identificação alguma com o negro americano.

Outro argumento ainda é o tal “é coisa de (e para) brancos”. Esse outro argumento é delicado, afinal, há teses e teses dizendo que o negro pobre americano não quer se parecer nem agir como um branco de classe média.

E no Brasil? Bom, eu chuto dizer que corrida é esporte e lazer para a classe média. E no caso dos pobres, a corrida é coisa pra fazer dinheiro, ganhar algo em troca, ainda que seja a esperança de um patrocínio no futuro. Na periferia não há grandes parques e os maiores centros de corrida do país são locais de alto poder aquisitivo ou de acesso fácil apenas para carros. Exemplos não faltam: Ibirapuera, Villa Lobos, USP, Lagoa Rodrigo de Freitas, Belvedere (BH), etc. Todos os locais onde eu treino devem ter o PIB per capita da Dinamarca. Definitivamente não é pra qualquer um.

Pois se correr é para a classe média, seja por questões financeiras ou afinidade social, nada mais natural que corredores tenham a cara da classe média. E a classe média daqui é tudo, menos negra. Não é uma questão de racismo, como a pressa pode querer gritar, é uma questão de estereótipos. Se não espanta que no Japão os corredores tenham olhos puxados, nada mais natural que no Brasil os corredores tenham a pele clara como a da classe média.

Quer outro exemplo? A nova vinheta da Rede Globo tem violoncelo, piano e órgão. Mas lá também tem pandeiro, cuíca e bumbo. Qual a cor da criança que você acha que aparece tocando a primeira e a segunda lista de instrumento? Não precisamos fazer muita força.

Estou falando tudo isso porque saiu no USA Today uma matéria questionando se não estaria havendo um boom da corrida agora entre os negros, justamente no mesmo período em que eles se engalfinham discutindo excesso ou não de violência policial baseado na cor do suspeito e do policial que atira sem perguntar. *aliás aqui, um longuíssimo e excelente texto explicando como somos muito mais implicitamente racistas do que pensamos.

Pra mim, esse boom entre negros se parece mais com eles se organizando em grupos de corrida do que qualquer outra coisa. Mas é fato, com mais negros correndo, por lá isso funcionaria sempre como algo que traria outros deles ao esporte.

Os EUA não são a maior potência esportiva mundial por mero acaso, essa frase mostra como pensam: “Ninguém tenta formar negros fundistas nos EUA. Não há nenhum motivo pelos quais não podemos ter negros fundistas na mesma proporção que temos velocistas e saltadores.”

Além da questão competitiva, por outro lado, ter mais negros gera mais provas, mais produtos consumidos, mais empregos e mais tudo. O que acho que nos diferencia completamente de lá é que se lá a questão é racial, aqui é sócio-econômica. Eu não me importaria com a cor do cara que treina na minha turma, mas mesmo sem admitir nós nos sentimos melhor se ele é “dos meus”, frequenta os mesmos lugares, falando em bom português: tem a mesma renda. Mas logicamente ninguém vai admitir essa colocação. O racismo está sempre no outro, nunca em você.

(*) “The only reason marathons are still around is so 20,000 white people can chase three black guys through the streets of Boston like the good old days.”

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Brasileiros nas Maratonas no Exterior

Fiz um pequeno levantamento com as maratonas no exterior com maior número de brasileiros (residentes ou não) concluintes. Cheguei naquelas que seriam as 20 maiores. Basicamente 6 são nos EUA, 3 na América Latina e 11 na Europa. Pra mim, nos EUA a surpresa é Los Angeles, já Miami não. Na América do Sul, além do destaque ser a ótima Buenos Aires, em Punta del Este mais da metade (52,6%) dos concluintes é brasileira! Sugiro ao Itamarati negociar e quem sabe reanexar o Uruguai, aproveitamos assim e até reforçamos a zaga para a Copa de 2018.

Na Europa, apenas Alemanha (Frankfurt, Munique e Berlim) e Espanha (Barcelona e Madri) entram com mais de uma representante. Berlim (-12%) é um caso à parte que discutirei muito em breve no blog: há todo um auê em cima dela, mas ela e Frankfurt (-22%) são as duas únicas que tiveram menos brasileiros em 2014. Enquanto isso, Disney (+55%) e Buenos Aires (+30%) decolaram ainda mais.

MAIORES 42KM COM BRASUCAS 2014

Se por um lado Atenas me surpreende com 26 corajosos, fiquei um pouco surpreso por não termos muito mais gente em provas como Veneza, na dinamarquesa Copenhagen e tantas outras grandes. Se por um lado a distância explica não termos muitos representantes em provas como a gigante Honolulu (EUA) ou nas ótimas canadenses, por outro lado muitas provas ficaram de fora simplesmente porque não possibilitam a busca por nacionalidade, como é na outra gigante Marina Corps (EUA) ou na Du Medoc (França). Ou ainda nas japonesas que têm sites horrorosos que não condizem com a fama hi-tech deles.

De resto, coloquei também um pequeno comparativo com 5 maratonas brasileiras (exclui as 4 grandes: Rio, SP, Porto Alegre e Curitiba) só para dar uma dimensão de como não gostamos de correr 42km aqui no Brasil.

BRASIL X EXTERIOR

Mickey é melhor do que o Beto Carrero… a Champs-Élysées é melhor que o Pelourinho…

Por fim, daqui alguns dias vou postar um retrato dos 42km no Brasil com números bem detalhados. Mas pra que saibam, em 2014 houve um aumento de cerca de 20% nessas 20 provas comparado a 2013. 17 das 20 cresceram. Enquanto pouco mais de 12.000 correm 42km aqui no Brasil, mais de 4.200 correm somente nessas 20 provas! Ou seja, as nossas não viram enormes e não é por oferta interna, é a demanda que é baixa mesmo. O brasileiro quer mesmo é correr prova boa e lá fora!

Perdi alguma coisa, leitor? Comente!

*Frankurt (21a) e Praga (22a) ficaram no limite. Lima, Caracas e Rosário devem ter vários brasileiros, mas não há como saber…

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Mercado de Corrida – EUA e Brasil

Saiu mais um relatório mostrando com números a força da corrida nos EUA. E alguns dados mais do que impressionam!

GÊNERO. Primeiro, por lá as mulheres são maioria (57%)! No Brasil, elas giram em torno de 30%, algo como 23% nas Meias e quase 40% nas distâncias menores. Maratona? São 15%, mas a quantidade é tão baixa que se dilui, mas evidencia uma tendência nossa: quanto maior a distância, menos mulheres. Nossa realidade aqui é o que acontecia bem parecido na metade dos anos 90 nos EUA.

EVENTOS. Lá foram feitos quase 30.000 eventos ano passado. E aqui no Brasil? Fora do estado de SP tudo é uma anarquia, cada um por si só e Deus olhando por todos. Não há dados, números, histórico, mas há sempre a federação e o poder público local cobrando seu pedágio. Uma vergonha.

DISTÂNCIAS. A prova de 5km ainda é a favorita deles. E nossa também! A diferença é que lá os 10km já são só a terceira opção, atrás da Meia Maratona. Basta acompanhar qualquer evento aqui no Brasil pra ver que os 21km ainda engatinham como 3ª opção, muito distante dos 10km.

42KM? Há no Brasil quem ache que a falta de corredores de 21km e 42km seja falta de oferta, então cria provas. Não! O problema é de demanda! E aí aventureiros vão se dar mal. Antes que alguém com problema de leitura funcional leia isso, a série de provas de Mizuno foi tecnicamente até agora um enorme acerto. Mas a proliferação de Maratonas e uns 21km capengas Brasil afora, mostra que nos sobra empreendedorismo, mas nos falta planejamento e corredores fora dos grandes centros.

IDADE. Os números americanos nos reforçam: a corrida é um esporte para pessoas mais velhas (30 a 45 anos) e espero falar mais a respeito, já que uns se sentiram ofendido comigo dias atrás (risos).

DESEMPENHO x PARTICIPAÇÃO. Parte da política esportiva brasileira se baseia no assistencialismo, baseia-se na ideia paternalista de que precisamos fomentar a prática do esporte com incentivos que não se mostram nem capazes de gerar ganhos na Saúde Pública nem ganhos de desempenho. Justamente por isso, bolsa-atleta, patrocínio estatal e desconto pra idoso em provas é um enorme gasto sem que se consiga provar retornos compatíveis ou justificáveis. Bem, alguém deve ganhar bem pra isso continuar, não é? Tenho certeza disso! Participação NÃO gera medalhas. Enfim, tudo isso pra mostrar números interessantes deles que devem ser parecidos ao do brasileiro médio: Distância (tempo médio do homem, tempo médio da corredora); 5km (28´50”, 34´50”), 10km (56´00”, 1h04´50”), 21km (2h01´40”, 2h19´50”), Maratona (4h16´40”, 4´41´50”) *já falei sobre desempenho de maratonistas brasileiros aqui.

FUTURO. Não banco o visionário porque sou ruim como qualquer outro. Apenas reforço, quer olhar o futuro da corrida aqui? Então veja o padrão americano. Mais mulheres (em quantidade e qualidade), aumento no máximo sustentado, sem explosões e uma pirâmide constante, ou seja, mais gente nos 5km e menos nos 42km. Rejuvenescimento do esporte? Improvável. Pode haver mais jovens (18-25 anos) em quantidade, mas não é a praia deles.

E você? O que mais viu? Do que discorda? Seria interessante ouvi-lo…

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Brasileiras vs Americanas nos 42km

Um post ano passado Adolfo Neto me deixou com uma enorme dúvida. Está lá no texto dele: na maratona, o homem brasileiro é ligeiramente mais veloz do que o americano médio (4h06 x 4h16) se compararmos com os dados do relatório da Running USA.

Mas e as brasileiras? Como se sairiam? Fui atrás dos números.

Parte das organizadoras brasileiras sofre com a miopia que ditaria que número de concluintes é métrica de qualidade/sucesso ou de valor de cota de patrocínio, então já de partida, perdemos os resultados das Maratonas de Curitiba (2013) e a Maurício de Nassau (Recife). Ainda assim, sobram 8 provas (tabela abaixo) com dados de mais de 1700 corredoras.

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Olhando os dados, podemos quase afirmar que o calor de Rio de Janeiro e Salvador jogam a média para baixo e que a dificuldade da prova paulista também reduz o ritmo delas. E como a dificílima Curitiba tem tempos relativamente bons? Talvez a premiação por categorias explique.

Por fim. E como as brasileiras se saem frente às americanas? Veja abaixo:

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Palpites…

Sim, nossas brasileiras são melhores. Mas são mesmo melhores? Não sabemos nem se os homens são mesmo melhores. Falta saber a distribuição etária dessa gente toda. Além disso, o histórico mostra que quando a amostragem aumentou nesses casos, tivemos queda de desempenho porque entra mais gente inexperiente e com âmago menos competitivo. Chute puro: as nossas maratonas vão crescer, e esses tempos vão piorar. Quanto? Não faço ideia. Ninguém faz.

*para mais pitacos meus sobre mercado brasileiro e americano de maratonas, clique aqui.

**o post foi editado no começo da tarde de hoje com os dados de Porto Alegre seguindo dica da Adriana Piza.

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