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O que faz do Etíope um vencedor na corrida?

Seria a miséria? Outros países também são muito pobres. Seria a altitude de Adis Abebba? Quito e La Paz são capitais ainda mais altas. Seria sua ruralidade? Improvável. A genética? São várias etnias compondo a seleção nacional. A comida? Os métodos de treino?

Qual a resposta, a que explique a superioridade deles e dos quenianos, é uma pergunta que eu não me faço mais. Para mim, apesar de complexa, ela está bem clara aos que querem ver: é seu conjunto quase único, singular de fatores!

O método incrível de treinamento, a pressão social (a corrida como talvez única ferramenta de melhora sócio-econômica), a pobreza como propulsora, a ruralidade (que “protege” o corpo do cidadão-atleta)… A atitude, assim como também a altitude! Sim, uma genética privilegiada, a tradição de gerações…

TUDO tem seu peso. Buscar uma única resposta é coisa de ingênuo ou de quem não entendeu nada ainda.

Hoje quando visitava um cemitério destinado a heróis nacionais me deparei com essa cena. Crianças olhando o túmulo daquele que é provavelmente um dos 4 maiores corredores da história do país, sem dever NADA a Bikila, Haile ou Bekele.

Quando crianças admiram assim alguém como MIRUTS YIFTER, o Yifter “The Shifter”, um quase desconhecido fora da Etiópia, você sabe que há ainda gerações para dar seguimento a toda uma linhagem vencedora.

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Coisas que (parecem) só acontecer na Etiópia…

CAUSO #1

Um grande amigo, corredor dos “bão”, 5km na casa de 17 minutos, sai pra correr pelas ruas de Adis Abebba (coisas que os prós NÃO fazem) e, de repente, num cruzamento um senhor estragado, vestido todo simprão, de sandálias, sem falar inglês, faz gestos de que vai correr com ele. Ele topa. Pergunto como foi. “Balu… Passei um calor com o velhinho”. Reforço: ele tem 17 minutos nos 5.000m. O meu amigo! O velhinho não sei!!

CAUSO #2

Um taxista pergunta se sou atleta. Eu corro. No máaaximo sou corredor. Só conheço pangarés que falam que são atletas. Eu respondo que não, que só corro, e ele pergunta se “sou lento como o Ed (da Run Africa)?” O Ed tem 17 minutos nos 5km, ~36 minutos (10km), 1h24 (21km) e 3h00 na Maratona. Sim, sou lento como ele, respondo.

CAUSO #3

Fui conversar de canto com uma treinadora bem jovem e seu inglês precário. Consegui arrancar que ela gosta de correr 3.000m com obstáculos. Mas descobri que ela já fez duas Meias Maratonas. Uma esse ano! Tempo? 1h13. Na altitude daqui (*hoje treinei a 3.000m, mais alto que o pico da Neblina, o “teto brasileiro”). Apenas 8 brasileiras correram mais rápido que ela na história. Nenhuma em 2018. E não é a especialidade dela.

CAUSO #4

No término do treino vemos uma atleta que parece ser a campeã da Maratona de Londres. Apontamos pedindo a uma local para a chamarem pra tirarmos foto. A etíope chama uma pessoa errada. Explicamos o engano, que queríamos ver se a outra era a que havia ganho a major. Ela nos explica que não, que essa que ela havia trazido ganhou foi é a Maratona de Dubai.

CAUSO #5

O Ed, o lento, pergunta: “Como é mesmo o nome daquela corrida?” Eu respondo que é São Silvestre. Aí ele me explica que bateu papo com um cara essa semana, que o havia adicionado no dia anterior no Facebook e ao entrar no perfil dele descobriu que ele ganhou “essa corrida aí no Brasil”.

CAUSO #6

Perguntamos ao nosso guia se ele corre ou se vai correr a The Great Run nesse domingo agora. Ele diz que nenhum dos dois. Mas diz que se fosse domingo que ganharia de nós. Eu sou mais eu. Mas se me desafiasse a apostar dinheiro eu não seria tonto.

CAUSO #7

Na volta do treino, param pra comprar água e banana, a dieta e suplemento dos verdadeiros campeões. Um cara se aproxima e pede carona em nossa van para o centro da cidade. Ed, o lento, faz um gesto explicando e esperando nossa aprovação. Em tom de brincadeira um brasileiro explica que aquilo ali era uma van de e para corredores. “Qual o seu tempo nos 10km?” 31 minutos. Pode entrar.

Ônibus de “primeira classe” chegando para a primeira sessão de treino do dia na periferia de Adis Abebba. Créditos da foto: Adriana Piza.

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A vida simples do etíope e sua corrida

Nem só de corrida vive o etíope. Na verdade em 2 treinos (em 3 dias) vi MUITO mais locais jogando futebol do que correndo (são bem poucos pela rua… E se treinam em asfalto, já deduz que são amadores… correr é profissão).

Hoje após o treino, na volta, paramos na casa em uma vila bem humilde fora da cidade para tomar café, uma cerveja local (NADA que lembre a cerveja como conhecemos) e gim caseiro (lembra mais uma cachaça). Te recebem como se fosse parte da família… Abrem a porta, fazem tudo na hora.

Eu acredito de verdade que ENORME parte do sucesso dos corredores locais (e também dos quenianos) está na simplicidade da vida que levam. Não há comida processada, pouca coisa industrializada e o corpo está em constante movimento para sobreviver.

Carece de enorme déficit lógico quem explica a magreza local por miséria. Até agora NINGUÉM nos pediu comida nem parece viver com fome. Açúcar branco? Ainda não vi. Mc Donald’s? Não existe. E por aí vai.

Voltar aqui após um ano apenas reforça algumas opiniões…. Se preocupar de mais com tênis é coisa de quem corre de menos… Ter que fazer musculação é coisa de quem no dia a dia fragiliza seu próprio corpo. Nos 2 treinos leves houve um constante trabalho de força de mudança de direção, de velocidade, subida, descida… NADA 100% reproduzível com halteres. MUITO MENOS com aparelhos.

Desde agosto eu não corri (por opção, um calcanhar esquerdo fragilizado) por mais que 5 dias. Aqui foram 2 treinos sem nenhum tipo de dor.

Biomecânica is overrated (sobrevalorizado).
Tênis is overrated.
Nutrição is overrated.

Como corredores amadores somos como aquele bêbado que andando de volta pra casa perde as chaves e fica embaixo do poste a procurá-la porque lá é o único local iluminado.

 

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Logo mais… Etiópia!

Quando vocês lerem esse texto eu provavelmente estarei, se Deus quiser, chegando à Etiópia… ontem completou exatamente 1 ano que pisava na capital Adis Abebba. Por coincidência foi o dia que embarquei também para minha segunda aventura no país que deu um dos melhores corredores da história e da atualidade.

Dessa vez não viajo sozinho! Vieram comigo 5 outros corredores amadores (entre amigos e leitores) que se convenceram que a viagem valia a pena! Espero poder compartilhar com eles aquilo que jamais imaginava aprender em tão pouco tempo novembro passado!

Corrida é um esporte muito simples. Não deve ser apenas por acaso que ela floresceu em países simples e pobres como Quênia e Etiópia. Há uma conjuntura de fatores, lógico!, mas esse modo simples deve ter seu peso, e ele não deve ser pequeno!

Espero nos próximos dias poder compartilhar um pouco do que passaremos aqui, finalizando com nossa participação na maior corrida do continente africano, a The Great Run Ethiopia (10km)! Vou tentar mantê-los entretidos com essa nossa ideia de treinarmos Correndo com os Etíopes!

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Correndo com os Etíopes – parte 9: Nutrição.

Logo que cheguei à Etiópia, ainda no aeroporto, algumas coisas me chamaram a atenção. Uma delas era pessoas em forma, nada de obesos, saudavelmente magros. Além disso, não havia restaurantes fast food no local. Soube ainda depois que o Mc Donald´s não desembarcou no país. Quando fiz uma associação dessa ausência com o baixo índice de obesidade, um desses comentaristas que escrevem em 4 apoios disse:

 

Energúmeno, qual a renda média? Os caras não comem, não comem nem calorias nem proteínas. São magros por desnutrição.

 

Pois o mais legal de jogar com números, algo que eu adoro, é você poder colocar em teste alguns dos conceitos que temos bem arraigados. Um deles é antigo e não sobrevive nem a uma pesquisa preguiçosa. Por exemplo, quando cruzamos a lista de dados dos países organizados pelo ranking de IMC (um índice comparativo este que é pouco confiável quando olhado individualmente, mas que ajuda demais quando trabalhamos com populações heterogêneas) é que colocado lado a lado com o ranking de ingestão calórica você observa que não há um padrão claro. Ou seja, que consumir mais calorias não tem uma correlação positiva com mais obesidade. Ou ainda nas palavras de Nate Silver em sua obra mais famosa, O Sinal e o Ruído: “parece haver indícios restritos para uma associação entre obesidade e consumo calórico; pelos testes padrões, tal relação não seria qualificada como “estatisticamente significativa“.

O que isto quer dizer? Que a magreza etíope não se explica somente pelo baixo consumo calórico (o que é um fato), uma vez que há países que comem menos calorias e têm IMC maior e países bem obesos que consomem menos calorias que outros países magros.

Seria o baixo consumo proteico etíope, então? Hoje há uma espécie de cruzada entre os que acreditam na nunca testada e provada tese da gordura (ou das calorias) como engordativa quando é o carboidrato quem impacta o metabolismo de gordura. Como muita gente que se diz especialista no assunto não aceita quebra de paradigmas, abrem mão até de um dos nutrientes pouco lembrados na questão, a proteína. E, novamente, está acessível para quem gosta do tema: quando colocamos prevalência de obesidade com consumo proteico, voilà, aparecem paradoxos. Paradoxo nada mais é que um jeito chique de você não aceitar algo que vai contra sua teoria. Apesar do baixo IMC da Etiópia, você encontra vários países que consomem muito menos proteína que esses africanos.

Uma passagem muito bem descrita de uma pesquisa americana relatada em “Por que Engordamos“, livro ignorado por quem finge estudar o assunto, fala do trabalho de um pesquisador que ficava perplexo de como havia crianças desnutridas sendo carregadas por mães brasileiras claramente obesas que TAMBÉM não tinham muito o que comer nas favelas.

Obesidade (ou magreza) não se explica por quantas calorias comemos, que é o que diz esses rankings da ONU, mas QUAIS comemos. As mães faveladas brasileiras da pesquisa comiam pouco, mas consumiam muito açúcar. Suas crianças, comiam poucas calorias, pouca proteína e também pouco açúcar.

Cada um acredita no que quiser, até que controle de peso é sobre calorias, não sobre O QUE se come. Porém, para isso deverá ser feito um malabarismo lógico e argumentativo uma vez que dietas hipocalóricas têm um rico histórico de ineficiência.

Propositadamente, ignorei aqui o argumento da questão da (baixa) renda, até porque dentro da mesma sociedade desde sempre é sabido que os mais ricos são mais… magros! Desconsiderados os bolsões de miséria, renda não deveria ser questão central nesse debate.

Pelo que pude ver em minha experiência em Adis Abeba, os corredores sabem de duas coisas que deveriam ser sempre bem lógicas: comer de modo saudável é o mínimo que você deveria fazer se deseja correr bem. Mais: corrida é sobre coRRer, não sobre coMer. Não há debate sobre o que comer ou beber. Não havia suplementos, não há BCAA, não havia gel nem isotônico! Isso é coisa de atleta que corre de menos e de nutricionista que sabe de menos. Após nossas sessões de treino, quem tinha mais fome comia alguma banana, bebia algo e era isso! Os que estavam se sentindo bem, iam embora sem a tarefa de comer na “janela de oportunidade”, falácia essa que deveria já ter morrido na década passada, mas que ainda sobrevive entre alguns “especialistas”.

Enfim, corrida é o esporte mais simples que existe. Para correr bem você precisa rodar muito (volume), estar magro (em forma) e ter paciência e consistência. Os etíopes fazem tudo isso. Eles comem de modo saudável que os deixa magros. Quem quer achar algum atalho que não existe cai no golpe da dieta personalizada, equilibrada, BCAA, Glutamina, etc. Não aprendem nunca.

*durante meu período lá, não vi nem comi açúcar branco (refinado), no máximo vi o do tipo cristal. Não vi fast food, não vi sorvete, não lembro de ter visto muito chocolate. Apesar da fama ofensiva a eles de que passam fome, vi mais banana, laranja, tomates, avocados e iogurtes do que já vi no Brasil. É difícil você engordar quando você não consome justamente aquilo que te faz engordar: açúcar e alimentos processados e/ou ricos em amido.

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