Periodização – parte 2 (final)

PERIODIZAÇÃO (na corrida) É COMO SEXO DE ADOLESCENTE.

OU AINDA: QUEM PERIODIZA NO FUNDO NO FUNDO QUER PREVER TERREMOTOS. (E não há NADA de errado nisso)

Dias atrás escrevi um texto sobre periodização (na corrida de longa distância), um tema do qual sempre quis tratar e do qual sempre me perguntavam. Como disse nele, não foram uma nem duas (nem 5) vezes que tratei disso com treinadores experientes, alguns de atletas profissionais, outros de seleção, olímpicos, etc.

Na totalidade das vezes (e aqui trata-se obviamente de um viés de conviver profissionalmente mais próximo de pessoas que pensam de forma mais semelhante) é que a periodização é daquelas coisas bonitas numa apresentação de PPT a um cliente, mas que na prática se mostra muito mais útil ao mundo acadêmico (que não precisa apresentar resultado algum) do que ao mundo que vive e trabalha com atletas e pessoas de carne e osso, ou seja, o mundo real.

Sem recorrer aos livros defino PERIODIZAÇÃO como sendo o conceito de que controlando a ordem de fatores trabalhados em um processo de treinamento a médio e longo prazo podemos controlar de forma a maximizar o desempenho do(s) atleta(s) treinado(s) ao final de um período.

Sendo assim, o treinador escolhe o que treinar em cada fase empregando determinadas valências e ênfases e o resultado seria maximizado, digamos assim. No conceito por trás da periodização 2 mais 2 não é 4, mas 5.

Faz sentido?

FAZ. MUITO!

Funciona?

Eu acho que não.

 

Na verdade, não disse no texto original, eu acredito que na periodização 2+2 é igual a 4,1. E olhe lá!

Gosto de comparar que a periodização se fundamenta na ideia de que o treinamento seria mais ou menos como um bolo tradicional. Você tem os ingredientes e, IGUALMENTE importante quanto à qualidade deles, você tem uma forma certa e/ou ótima de ir adicionando/introduzindo esses ingredientes.

Da minha parte eu já acredito que quando falamos de amadores, o treinamento está mais para um bolo de liquidificador. Você precisa ter os ingredientes (insisto no igualmente de boa qualidade), mas você tem a opção de misturá-los todos de uma vez e o resultado é… um bolo! Como em uma operação de multiplicação, a ordem dos fatores NÃO importaria no resultado.

*e aqui entra a mandinga, a fé, a crença. Eu gosto de primeiro adicionar 4 ovos, depois 5 copos de farinha, depois duas colheres de fermento e por aí vai… ou seja, eu gosto de usar os ingredientes em BLOCOS, não um a um.

Acredito que a periodização tem uma importância MUITO maior ao treinador do que ao atleta ou ao resultado. Isso porque a periodização serve na pior das hipóteses para o treinador certificar-se de que ele usou todas as suas ferramentas. Sou o único que pensa assim? Ouvi exatamente essa resposta de 2 treinadores de atletas olímpicos. É como se fosse um bloco de notas mental SEM impacto direto no resultado.

A SORTE e o COMPORTAMENTO HUMANO explicam Periodização

Não é nem que a sorte (ou a falta dela ou o simples acaso) que me garante que a periodização NÃO é essencial ao treinamento. Desde antes da formatura eu tinha enorme atração pelo tema. Até hoje invejo como alguns nomes conhecidos dessa área (todos gringos) fizeram carreira e fama nesse tópico sem que em toda sua obra acadêmica tenham citado uma única vez a palavra doping. É mais ou menos como alguém ficar famoso e ser levado a sério por tratar diabetes com homeopatia ou macumba sem citar a palavra “insulina” em todos seus artigos. Invejo a lábia desses caras, de quem fui vítima comprando muitos livros.

Mas por que e como o acaso explica? Fosse a periodização necessária ou essencial ao desempenho eu e muitos dos treinadores com quem converso seríamos algumas das pessoas mais sortudas do mundo. Isso porque os atletas parecem atingir seu ápice físico em uma forma quase randômica ou minimamente estruturada do treino (no que diz respeito à periodização, não às cargas das sessões).

OU SEJA: dar certo SEM a presença de algo que se julga essencial mostra JUSTAMENTE que sua presença NÃO se faz necessária!

Mas este texto não é sobre eles ou sobre minha pessoa. Faça você mesmo o exercício: abra os resultados das competições majors (Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais) e busque a sigla de SB (season best) ao lado do resultado, sinal de que o atleta conquistou sua melhor marca da temporada na competição mais importante.

Você verá que é a EXCEÇÃO o atleta conquistar as melhores marcas na competição mais importante. Um sinal (não prova!) CLARO de que temos POUCO controle de sistemas complexos.

A falta de SBs é um indicador de que se HÁ ou EXISTE uma periodização que DE FATO funcione, ainda não a conhecemos.

Reforço: os melhores treinadores do mundo no alto nível, que ganham ($) justamente com o SB (skin in the game!) NÃO conseguem periodizar de forma MINIMAMENTE eficiente. Por que (e COMO) o amador conseguiria??? Parem de delirar!

E aqui entra a ECONOMIA COMPORTAMENTAL.

Não é somente a sorte que me mostra que a periodização está LONGE de funcionar minimamente bem. Como dito, se quem NÃO a usa obtém os mesmos resultados, ela não é essencial nem eficiente nem de todo necessária. Para mim a insistência com a periodização se explica de outra forma: a obsessão TÃO humana por controle.

Um indivíduo em treinamento é um sistema complexo. Sistemas complexos são de certa forma imprevisíveis (pergunte ao seu treinador em quantos segundos, não minutos, você vai correr o próximo 10km e ele mentirá ou fugirá da resposta). Porém, e isso é intrínseco ao ser humano, queremos ter controle sobre tudo. Sobre TUDO.

Queremos saber se vai chover daqui 5 dias e não acertamos SEQUER se choverá em 12 horas. Achar que controlamos sistemas complexos é algo MUITO humano. Não temos que ter vergonha disso.

Escrevo este texto no trem após ir visitar o Vulcão Vesúvio, ao lado de Nápoles e que destruiu Pompeia. Mais do que controlar, o ser humano adora prever. Muito já se produziu dizendo que poderíamos prever terremotos (não, não podemos), que podemos prever vencedores de eleições até nos EUA, país mais obcecado por estatísticas, e vimos que não temos essa capacidade.

Nate Silver está no olho do furacão de um debate acadêmico porque ele teria sido capaz de prever o resultado das 3 últimas eleições norte-americanas (assim como um indivíduo em treinamento, um sistema complexo). E parece que ele errou miseravelmente, mas contou com sorte.

 

Estou dizendo que para MIM periodizar é mais como prever uma erupção vulcânica. Hoje você possui alarmes em cidades em volta de vulcões dormentes que conseguem em cima da hora minimizar um desastre sem JAMAIS conseguir prever com muito tempo hábil. Ou seja, ao treinador a periodização serve para BEM pouco (*eu mesmo disse que faço um esboço dela. O polimento não deixa de ser isso que se faz com vulcões… você altera cargas buscando controlar algo no curto prazo, não mais que 3 semanas, no caso das maratonas).

Mas quem se apoia em periodização, ao menos para mim, está querendo prever terremotos e o próximo presidente americano. Mas para isso terá que ser ou se considerar mais gênio que Silver, que já aceitou em seu mais famoso livro que isso não é possível no caso dos terremotos. Ou ter a mesma sorte que ele. Mas aí corre-se justamente o risco de ser esculachado quando mostrarem que o resultado foi apenas… SORTE.

P.s.: se algum cliente meu chegou até aqui, no final do texto, saiba que no SEU caso eu periodizo, então descontos estão fora de questão.

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13 pensamentos sobre “Periodização – parte 2 (final)

  1. Balú, esses SB em Majors estão muito mais ligados às medalhas, que realmente importam nessas competições, que periodização errada, não acha?? Pegue um 1.500, 5.000, 10.000 em Mundial ou Olimpíada, muitas provas são lentas, um esperando o outro acelerar até o final da prova e assim não tem como sair SB…

    No outro post vc fala que o treino é “igual” para atletas de 5.000 e 10.000. O treino tbm é “igual” para os que treinam pra Maratona ou 1.500 ?? Se não, isso já não pode ser considerado uma espécie de periodização ?

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    • Danilo Balu disse:

      A medalha importa REALMENTE pra todo mundo ou só aos medalhistas (5 primeiros…)?

      Periodizar é diferente de estrutura de treino (intensidade e volume de carga) em função da modalidade ou especialidade.

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      • Sempre lembro dos 1500, do RIO2016 -> https://www.youtube.com/watch?v=Grf_62s_95w

        São treze caras trotando até faltar 500m. Quem ai tava pensando em SB??

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      • Danilo Balu disse:

        Mas a tese do NÃO fazer SB vale JUSTAMENTE aos atletas mais rápidos. Os mais lentos continuam SEM SBs… =/

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      • Até entendo e concordo em certo ponto sobre a crítica das “planilhas individualizadas” que muitas vezes não são… mas tbm acho que vc ignora a “gray area” que o Steve Magness tanto cita. Pra vc parece que é tudo branco ou tudo preto, não existe meio termo…kkkkkkkkkkkk

        Fala pra algum atleta seu de 5 ou 10.000 mandar um 6-8×1.000/i=2′ em ritmo de 3/5.000 no inicio de temporada. Ele vai conseguir fazer? Colocar esse treino mais pra frente do ciclo tbm não é pensar em periodização???

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      • Danilo Balu disse:

        Esporte não é ciência exata…. sempre vai ter zona cinzenta… quem acha que é exata é JUSTAMENTE quem acha que dá pra periodizar prevendo tudo… Esse seu exemplo… das possibilidades que vc me deu, INDEPENDENTEMENTE da fase eu só consigo imaginar um treino de 6x1km em ritmo de 5km… seja no 1o dia após a base, seja 10 dias antes de uma competição…. isso porque isso não é sobre periodização, isso é sobre estabelecer cargas corretas de treino. E isso calculando a verdadeiro ritmo dele pode ser feito quase sempre! Mas acho que entendo seu ponto. O simples fato de assumir que há base e há polimento acabaria entregando que há um nível mínimo ou básico de periodização… Isso eu não nego… só acho que é MUITO, mas MUITO menos do que propagam por aí.

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  2. Mário Lemos disse:

    Olá, aqui de Portugal. Grato pelos seus post.
    Danilo, fico um pouco confundido porque nunca sei se está a falar para os atletas profissionais da corrida (ou muito próximo disso) ou para o atleta-corredor-amador que apenas quer correr e melhorar um pouco as suas marcas pessoais na corrida (sem objetivo de pódio ou medalha). O discurso tem de ser diferente se está a falar de/para profissional ou de/para amador, como bem diz quando se refere à tentativa dos amadores em imitar os hábitos dos profissionais quenianos.
    Por favor, será que nos seus post poderia especificar quando está a falar de/para corredor profissional e quando está a falar de/para corredor amador?
    Quanto ao seu ponto, se bem que percebi o seu ponto, para um corredor amador, não deve existir periodização, apenas treino? Não deve haver prova-alvo? Não deve haver ponderação e definição de cargas de treino pensadas para melhoria de tempo em uma prova-alvo?
    Por exemplo, na mesma equipa de treino, onde dois indivíduos correm mais ou menos ao mesmo ritmo normalmente, para um cara que quer baixar tempo em meia-maratona daqui a 4 meses e outro que quer baixar tempo em outra meia-maratona daqui a 8 meses os treinos serão os mesmos? Por exemplo, os longos serão feitos pelos dois nas mesmas semanas e nas mesmas distâncias e pace médio de treino?
    Desculpe, tento compreender os seus conceitos e raciocínios mas fico com estas dúvidas sem conseguir bem perceber o seu raciocínio (será que quis dizer que qualquer corredor amador minimamente treinado sem pensar em periodização – por exemplo, os atletas amadores que treinam às suas ordens – consegue correr uma meia sem qualquer necessidade de periodização e com o mesmo resultado de tempo que teria se tivesse feito uma periodização, por exemplo, 4 semanas de base, seguidas de 4 semanas de aumento dos km semanais e de incremento dos treinos de velocidade, seguidas de 2 semanas de diminuição de volume de km semanais com manutenção dos ritmos dos treinos de velocidade?).
    Desculpe o tamanho do texto mas não consegui reduzir sem retirar sentido às minhas dúvidas.
    continue os seus posts e os seus stories.

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  3. Rafael disse:

    não concordo 🙂

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  4. Julio Cesar disse:

    Pensei em uma coisa, meio nada a ver com o tema, mas nem tanto:

    No hemisfério norte temos estações do ano bem definidas, então os praticantes de esportes ao ar livre (sejam profissionais ou amadores) acabam sendo obrigados pelo clima a variar as atividades de acordo com a época do ano, o que não deixa de ser uma periodização.

    Não temos isso em um país tropical como o Brasil.

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    • Varga disse:

      Eu ouvi isso na coluna Bem Estar & Movimento (q é razoável) num dia desses. Uma brasileira que mora em Boston disse que o Brasil é um país privilegiado, pois em toda a sua extensão territorial é possível fazer exercícios ou atividades ao ar livre em qq época do ano.

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      • Danilo Balu disse:

        Minha experiência fora do país me mostra que essa sazonalidade acontece mto mais forte em idades escolares… no adulto os corredores mesmo em países com inverno MUITO rigoroso (Reino Unido, Alemanha…) corriam 12 meses por ano! Os nórdicos sim, parecem correr menos. Já as escolas nos EUA e Europa parecem flutuar mais em fção do clima.

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    • Danilo Balu disse:

      Sim sim! Eles correm… mas acabam variando, passando pelo cross, indoor, etc! Vc está certo! Mas eles correm!

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