Os 2 Elefantes na sala que o atletismo finge não existir

No final de semana que Rafael Nadal ganhou seu 11º título em Roland Garros, ganhou destaque uma frase sua dizendo que não é justo querer comparar ou igualar na marra o faturamento diferenciado entre homens e mulheres no tênis. Bom, o prêmio aos campeões do torneio em si, é algo que já vem há cerca de 10 anos. A diferença fica mesmo pelos bônus e patrocínios.

No final de semana outro evento trouxe debate. Duas atletas trans, biologicamente nascidas homens, ganharam (ouro e prata, com direito a recorde) a prova dos 100m e dos 200m em um meeting colegial nos EUA. É justo?

A resposta é simples, mas não é politicamente correta a ponto de não encontrar muitos envolvidos que tragam o debate à tona. No caso brasileiro, atualmente há um debate no esporte de alto nível se a jogadora de vôlei Tiffany Abreu poderia competir ou mesmo servir a seleção brasileira (feminina).

Na essência do esporte está a competição sob as mesmas regras, em igualdade de condições e regras em que se respeitem a diversidade biológica entre os competidores, sem igualá-los à força. Ou seja, no basquete você compete contra homens mais altos que você e na natação nada contra atletas que, como Michael Phelps, parece terem nascidos dentro da água. Porém, em algumas modalidades as regras criam classificações para proteger o atleta. Seja no judô, ou no boxe, um atleta de 120kg não luta contra alguém de 60kg. em outros, é por uma mera viabilidade competitiva. No halterofilismo você compete por faixa de peso, por exemplo, ainda que não haja contato físico entre competidores.

As regras que diferenciam homens de mulheres servem para: possibilitar a competição (do contrário seria inviável haver mulheres atletas competindo contra homens, pois elas perderiam na imensa maioria das vezes) ou para… protegê-las. Permitir que essas duas atletas trans compitam contra e prejudicando diretamente garotas é de uma covardia sem precedente no atletismo moderno.

É de certa forma um avanço na sociedade que uma pessoa nascida biologicamente homem possa se identificar socialmente como mulher. Porém, negar a biologia só poderia ser considerado sem impeditivos quando essa alteração não gerasse prejuízo a terceiros. Se eu, um homem, me identifico como sendo uma torradeira, isso é algo que diz respeito tão somente a mim. Mas se eu me identifico como um rei supremo e exijo ser tratado assim por todos vocês, meus súditos, há complicações claras.

O esporte tem regras claras definida pela biologia. Do contrário eu posso alegar que me identifico como sendo das Ilhas Samoa, estando apto a disputar pela primeira vez os Jogos Olímpicos como atleta. Deu para entender? Não é uma questão de preconceito, argumento imbecil de quem não quer enxergar o problema que surgiu no vôlei e periga se estender ao atletismo.

Anos atrás o atletismo foi salvo pelo gongo. O sul-africano Oscar Pistorius vinha obtendo bons resultados claramente beneficiado pelas suas próteses nas pernas. Sua história de vida era incrível (um bi-amputado correndo lado a lado com os melhores do mundo). Pena que era algo artificial. Quis tragicamente o destino que o assassinato de sua então namorada, o impedisse de seguir sua carreira. O atletismo-avestruz podia assim tirar sua cabeça de dentro do buraco.

Cerca de 90% dos saltadores amputados usam a prótese como perna de salto. Não pode ser coincidência. Não é, todos sabemos. O padrão de corrida nos 400m desses atletas é completamente alienígena. Não é coincidência.

Dias atrás outro amputado quebrou a barreira dos 45 segundos nos 400m, mas parece não “oferecer perigo” aos melhores do mundo, a ponto de se iniciar um debate. Mas pode ser que a sorte que a modalidade teve anos atrás dessa vez não se repita caso floresçam mais casos bisonhos de homens biológicos competindo contra mulheres. E a modalidade fica bancando o avestruz fingindo não ver esses 2 elefantes andando dentro da loja de cristais.

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28 pensamentos sobre “Os 2 Elefantes na sala que o atletismo finge não existir

  1. otahir borges de macedo junior disse:

    Balu, bom dia.

    Sendo tudo possível hoje em dia, sugiro não haver exame antidoping.
    Até com o Esporte estão conseguindo acabar.

    att,

    Otahir Borges

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  2. Leo Oliveira disse:

    Balu, Tudo Bem

    O que é correto ou não, está, e vai, continuar a ficar cada vez mais ao desejo de cada usuário.
    Mês passado Chris Froome ganhou o Giro D`Itália sob a proteção dos organizadores, já que não poderia participar porque está sob investigação pelo uso de salbutamol (aerolin), eu me senti cínico ao torcer para que ele não seja pego e manche o Ciclismo novamente ???!!!;

    Eu, tenho 44 anos, como vc sabe entre idas e vinhas, a 29 na Corrida, não uso suplemento nenhum, nada, zero, nem bcaa, nem gel de corrida, nada, nem o gatorade no dia da prova eu uso, e vou para as corridas com os caras que gastam mais com “suplementos” do que com os tênis ?!?!?!? Está correto utilizar suplemento ??? Não é natural ?? E aí ??;

    Há um tempo atrás, ainda esse ano, fui comprar pneu para bicicleta do meu filho, e conversa vai no loja, o cara me ofereceu, e vende Eritropoetina em um loja de bicicleta ???!!!, eu fiquei me perguntando qual a diferença de vender maconha ou cocaína.

    Por outro lado, tenho tanta paciência para blá blá blá, que me pergunto que o cara que corre uma Maratona em 5 horas, e ainda tenta incentivar as outras pessoas a correr, se não era melhor ele “usar drogas” para ser um bom influencer do que falar e fazer um monte de bobagem.

    Um coisa que já me toquei é que querendo ou não, vamos ter que viver e aceitar a vida de forma geral, da mesma forma que tratamos os nossos vizinhos, da porta para dentro é problema de cada um, aí vc perguntar sobre os trapaceiros, vou te responder que sempre existiram, ou trapaceiros que entendemos lícitos ou os ilícitos.

    Quando vc puder veja esses números, https://www.youtube.com/watch?v=GrlwUVmTFLc

    Parabéns pelos conteúdos de Sempre.

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    • ciro violin disse:

      Leo…. vou dar minha opinião. Para alguém sair de 5 horas numa maratona e chegar até próximo de 2h48 (correr a 4´por km) não há necessidade nenhuma de doping ou de suplementos como bcaa, creatina, whey, nem drogas lícitas como anti-inflamatórios. Treino, insistência, paciência e um tênis que vc se sinta confortável num preço acessível para seu orçamento, é muito possível. Doping mesmo vai funcionar para baixar de 2h20 ou manter mais de 360 watts por 90min como o Nino no vídeo.

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      • Antal Varga disse:

        Muito bem colocado, Ciro. Vamos cair no tema treinar x comprar. Calçado, gadget, suplemento etc é só uma questão financeira e pouco (ou nada) influenciam em seus resultados.
        Agora, treinar não se compra. Se faz, e isso influencia (e muito) em seus resultados…. ah, doping influencia mas, aí é outra coisa.
        É fato que vivemos num mundo aonde é mais importante ter do que ser ou fazer.

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    • Danilo Balu disse:

      Léo, o ciclismo, assim como o atletismo, o futebol, o tênis, o COI e outros decidiram não ir atrás do doping. No amador há 2 considerações. 1. Se eu tomo doping e testosterona e tenho benefícios (melhores tempos) sem prejudicar ninguém e corro risco (câncer), não há problemas. Qdo vc decide não tomar suplementos ou não comprar um tênis de R$1.000, isso não muda nada. Tem que ser mto Mané pra gastar dinheiro suplementando, por exemplo. Pangaré é burro fazem isso. Só. A diferença está na genética ou na sua renda (que te faz mudar perto de um parque ou ter tempo livre, por exemplo). Não é o qto vc investe em $, mas o qto vc já tem. O fato de ter influencer mulher com mais testosterona que homem não prejudica ninguém. Agora um homem ganhar de mulher tem prejudicados bem claros.

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  3. Antal Varga disse:

    Balu, vamos exercer a visão pelo outro lado para testar o raciocínio.
    Imagine uma mulher biológica que por sua orientação identifica-se como homem e decide competir em esportes aonde é muito clara a diferença de desempenho por conta da biologia.
    Como deveriam ser as regras ? Haveria alguma ajuda para nivelar as diferenças ? Seria isso justo ?
    E como seria interpretada a questão do aporte hormonal para esta mulher biológica que se identifica como homem ? Não seria doping ?
    Enfim, acho que a resposta para mim está clara assim como no seu texto. Agora, é evidente que a diferença de salários, prêmios, bônus, patrocínios etc não é aceitável.

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    • Danilo Balu disse:

      Eu me identifico como sueco e compito contra brasileiros… Por que complicar? Ela quer tomar estrógeno? Ok! Pode tomar! Não temos que mudar todo o restante. Vcs complicam demais… E se alguém acha injusto o Federer ganhar mais patrocínio que a Serena, é só ir lá patrocinar.

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      • Antal Varga disse:

        Sim sim ! Talvez não me fiz claro, concordo plenamente que permitir que atletas trans compitam contra garotas é injusto. Por isso lancei aquele exemplo.

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  4. Luis Oliveira disse:

    Era tudo mais simples antes? Simples, mas não necessariamente correto. Longe de justificar o caso da Tiffani, que parece razoavelmente claro, mas a linha divisória biológica entre homem e mulher simplesmente não existe. Biologicamente, temos um contínuo, genética e morfologicamente, e os individuos vão ocupando lugares ao longo desta linha. E ainda vem a identidade de gênero para complicar tudo.

    Para ficar na analogia das faixas de peso, Balu, quem sabe não se deveria usar faixas de testosterona?

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    • Danilo Balu disse:

      Mas o limite é e tem que ser arbitrário… Não é um problema em si.

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      • Luis Oliveira disse:

        Bom, aparentemente este limite arbitrário (gênero) era mais facilmente aplicado antes, quando tanto a ciência como a sociedade estavam em outro estágio.

        Veja que a gente reclama do COI fazer de conta que não vê o doping, um outro problema tornado intratável pelo avanço científico. Ou seja, fingir que o problema não existe (ou pelo menos, que o problema mudou) é insatisfatório. Voce pode ser contra e reclamar da Tiffani (pra ficar em um caso clássico), mas isso não vai fazer ela desaparecer do esporte. Pelo contrário.

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      • Danilo Balu disse:

        Mas eu não quero que ela desapareça… NADA contra ela. O gênero continua sendo facilmente identificável na régua biológica… É mto fácil. Os ativistas que querem impor outras réguas.

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      • Luis Oliveira disse:

        Já falamos disso antes, mas gênero é cada vez menos facilmente identificável pela definição tradicional usada pelos orgãos internacionais. A Caster Semenya perdeu anos da carreira até que deixaram ela competir entre as mulheres. Mas há 30 anos ela não teria competido de jeito nenhum. Há outros tantos casos, todos exceções e todos testando a definição genética de gênero, por onde entram os ativistas (e os oportunistas).

        Não acho que seja (só) um problema de ativismo.

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      • Danilo Balu disse:

        Não tem que ser binário… Nunca vai ser… O caso Semenya é um erro, é outro caso da IAAF se fingir de cega.

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      • Danilo Balu disse:

        Além disso, ela é biologicamente e socialmente mulher. Trans não são os 2.

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      • Luis Oliveira disse:

        Socialmente ela é (ou vive como) uma mulher. Tanto que joga volei feminino. O viver socialmente como mulher é o âmago da questã, já que biologicamente ela é homem (até onde eu sei, não conheço o caso em detalhes).

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    • Antal Varga disse:

      Luis, apenas para enriquecer o debate: os jovens a mais tempo lembrarão das nadadoras da antiga Alemanha Oriental.
      Eram mulheres biológicas mas, com corpo de homens competindo contra mulheres biológicas com corpo de mulheres.

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      • Luis Oliveira disse:

        Bem lembrado, Antal. Não só as nadadoras, diga-se. Tem recorde mundial do atletismo que até hoje pertence à alemãs que tinham muito mais T do que todos nós nesta discussão. Somados.

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  5. William disse:

    Não saber diferenciar um homem de uma mulher não é um avanço social, de nenhum ângulo. Mas isso não foi criado pelo COI ou por qualquer esportista, isso é uma questão de engenharia social que envolve globalismo e questões políticas complexas.

    Curtido por 1 pessoa

    • Danilo Balu disse:

      O COI pode aceitar ou não…. Qdo eu me julgo o vencedor e perco, pra quem vai a medalha?

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      • William disse:

        Concordo, mas a ideia de tratar isso como natural e de perseguir qualquer pessoa que ouse dizer que um homem é um homem e que uma mulher é uma mulher acabam por emburrecer toda a sociedade, os reflexos estão aparecendo em todas as áreas, o esporte é apenas mais uma. As pessoa que dirigem as organizações do esporte estão sujeitas as mesmas situação das demais. Acho que esse é apenas um dos sintomas da doença que está na sociedade.

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  6. adrianapiza disse:

    No meu entender vejo 2 pontos….um é uma questão psicológica ou social…a pessoa se sente mulher ou homem, mesmo tendo sua definição biológica muito clara. Outra coisa é analisar a Caster Semenya, ou que dizer da Stela Walsh, lembra? Que só descobriram depois de sua morte que ela tinha características biológicas masculinas e femininas, e depois de ter competido e ganhado por anos como mulher. O segundo caso sim, é complicado e se discute há anos sem um consenso. No primeiro caso acho que o que você escreveu aqui deixou bem claro…
    Já no caso de atletas dopados da Alemanha oriental, lembro também de um artigo aqui que você colocou sobre uma ex atleta que de tanto hormônio acabou se assumindo homem. O problema já é outro…um terceiro ponto.

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    • Danilo Balu disse:

      Semenya é mulher, com taxas de testosterona que estão sendo discutidas… É a parte cinzenta da questão. Stela Walsh (não achei o livro dela em Londres) só sobreviveu à época porque bastava ela se vestir e somente na autópsia tudo veio à tona. É como a Edinanci (judô)… Mulher, mas com os 2 órgãos. Já as nadadoras foram trapaceiras que se deram bem. Dar negativo no exame não significa que não trapacearam. Tiffany e essas trans prejudicam 3as por uma escolha pessoal à custa de sonhos de outros.

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      • adrianapiza disse:

        A Semenya é mulher, mas tem também um cromossomo Y, por isso disse, tem características genéticas masculinas e femininas e como você disse, são esses casos a parte cinzenta e complicada… Trapaça, se tenta combater, trans, por escolha pessoal…ok, fez uma opção, mas quer competir? Vai continuar competindo onde estava…

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    • Luis Oliveira disse:

      Mas ai é que está, Adriana, a definição biológica muito clara pode ser enganosa, como fica claro nos casos da Stela Walsh e Edinanci. Por isso os métodos avançaram para testes que vão além da aparência física e… As coisas ficaram ainda mais complicadas.

      No final das contas, a decisão “deixa competir ou não deixa?” não é científica ou biológica, mas social. Tiffani joga na Liga Nacional porque esta é a solução de compromisso atual, embora não esteja atendendo todos os gostos. Vai ter que evoluir. Mas simplesmente impedir Edinanci, Semenya, Wash ou mesmo Tiffani de competir não parece ser mais possível.

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      • adrianapiza disse:

        Sim, a definição é muito complicada em casos como Stella Walsh ou Semenya, que possuem uma genética com características marcantes de ambos os sexos. Possuem células com cromossomos X e Y. Tiffani e transexuais, já é uma questão social. Consigo enxergar que hoje temos esse problema, mas não consigo colocar tudo no mesmo saco. São coisas diferentes..sim tenho uma visão (até exageradamente) biológica das coisas.

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