Um pouco da Boston que muita gente não vê nem viu.

Uma das análises mais certeiras e sensatas feitas antes da última Maratona de Boston foi feita por Steve Magness: o clima adverso é o maior equalizador de desempenho em uma prova. Todos ficam assim mais parecidos, desaparecem os recordes pessoais e os season best. Aí a disputa é para ver quem tem mais garra.

Muito se falou que a vitória INCRÍVEL (mas não 100% inesperada) de Yuki Kawauchi seria algo como uma redenção, que ele seria um representante amador dentre tantos profissionais bem pagos. Essa leitura é algo que fica entre a pressa e uma leitura incompleta do cenário. Como muitíssimo bem disse o escritor Adharanand Finno japonês é o último e o maior dos guerreiros, sua vitória veio coroar sua vitoriosa carreira.

Kawauchi, diferentemente de um Galen Rupp, por exemplo, não vive “da” corrida (e essa ênfase se faz necessária), mas ele vive “para” a corrida. Mas de amador no sentido da palavra ele não tem muito mais. Ele não é tão amador sequer quanto o eram os atletas das décadas de 60 e 70 que ganhavam dinheiro por debaixo dos panos, equipamento e apoio. Isso porque o japonês recebe prêmios em dinheiro e material, muito material. Ele é praticamente um atleta profissional que complementa sua renda com outro emprego. A decisão de não ter um clube pagando seus salários é uma escolha que traz alguns grandes benefícios ao atleta (ele precisa competir “apenas” as provas que escolhe). Ele está para o amadorismo tanto quanto aquele conhecido que ganha R$300 de vez em quando para correr por um supermercado em provas pelo interior está para o profissionalismo. Yuki não é um amador. O tal Fulano não é profissional.

Vale aqui ainda ressaltar que a enorme maioria dos atletas ao longo dos tempos, e a regra vigente na modalidade na absoluta maior parte da história do atletismo, exigia que os atletas fossem amadores. Kawauchi é um caso raro que segue cumprindo algumas das finadas “obrigações”, mas ele NÃO seria considerado amador JUSTAMENTE quando essa definição mais era decisiva, essencial para a elegibilidade de um corredor.

NÃO, quando analisado, Yuki Kawauchi não é amador.

 

Agora vamos à parte de que ele “seria um de nós”.

Sinto-lhes informar, o japonês está mais próximo de Abebe Bikila e Eliud Kipchoge, os 2 maiores maratonistas da história, do que qualquer amador que você conheça. Ele não é um de nós. Há duas coisas que podemos falar de atletas que disputam de forma protagonista um evento major (Mundial, Jogos Olímpicos, por exemplo):

 

  1. Eles são outliers, fora da curva, são “especiais”.

Kawauchi aguenta cargas competitivas e mesmo de treinos que estão absolutamente fora do comum. Um fora do comum não pode ser um de nós. Neste domingo ele correu uma Meia Maratona em 1h04. Na 5ª feira, 6ª feira e sábado imediatamente antes da Maratona de Boston (que é realizada sempre em uma 2a feira) ele correu diariamente 20km, em ritmo progressivo cada treino. Isso não tem nada de comum!

 

  1. A maioria dos atletas de ponta do atletismo, a elite, se dopa.

Isso, infelizmente, é algo que não podemos ignorar. Eu não quero entrar na questão se ele se dopa ou não. É irrelevante (ainda que eu acredite, ou espero acreditar, que não). A maioria dos amadores não faz isso, não treina 60km em 3 dias antes de uma prova importante nem treina 160km de forma rotineira semanalmente.

 

Não, Kawauchi não tem nada de normal, não tem tudo que caracteriza um amador.

 

Eu escrevi tudo isso não para diminuir Kawauchi. Se você entendeu assim, recomendo que releia o que escrevi. Estou aqui porque acredito que a melhor de todas as histórias de Boston vai passar despercebida por mais de 90% do público.

A vitória japonesa foi emocionante. A vitória da que seja talvez a atleta mais consistente em maratonas, a de Des Linden, que quebrou um jejum de décadas sem vitória de uma mulher local também foi igualmente emocionante. Principalmente quando você descobre que ela pensou em não largar, quando no 5km comentou com Shalane Flanagan que estava prestes a abandonar a prova.

 

Mas a melhor história para mim é de uma amadora: Sarah Sellers. A americana surpreendeu a todos (e a ela mesma). Como ela nunca havia corrido uma maratona, correu uma prova para obter o índice (correu em 2h44) para poder se juntar ao seu irmão que pretendia correr em Boston. Sellers é Amadora (com “A” maiúsculo). Sellers, uma enfermeira em tempo integral, é mais próxima daquele seu conhecido(a) amador que treina todos os dias, tira dinheiro do bolso, paga a própria inscrição, compra seu próprio equipamento, corre como um “comum”, tem um passado atlético.

Sarah Sellers é para mim uma prova de que, com os astros devidamente alinhados, com um “espírito guerreiro”, com um clima “equalizando” os atletas e com muita dedicação de quem corre humanamente, nada outlier, 100km semanais mesmo ao final de um dia de trabalho, você pode SIM entrar e mais do que não fazer feio, fazer bonito mesmo entre alguns dos melhores do mundo.

Sim, Sarah foi um de nós no maior palco da maratona amadora!

 

*Jessica Chichester é outra que “nos” representa, inclusive largando atrás da elite

 

**se você gosta de histórias especiais, talvez goste desta recente: um goleiro amador de hóquei sobre o gelo foi chamado para ficar emergencialmente no banco de reservas de seu time de coração em uma partida da NHL (a NBA desse esporte). O improvável acontece. O goleiro titular se machuca e ele tem que entrar em quadra. Mais. Ele faz 7 defesas e é o MVP da noite. Uma noite para não se esquecer jamais. Goste ou não de hóquei.

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18 pensamentos sobre “Um pouco da Boston que muita gente não vê nem viu.

  1. Antal Varga disse:

    Balu, achei bem interessante a sua análise. Daí vem uma pergunta em relação à essa questão amador/profissional: vc acredita então, que existe a categoria semi-profissional / semi-amadora ?
    Minha opinião e somente uma opinião, é que assim como não existe a semi-grávida a diferenciação vem do que vc muito bem apontou: a questão “viver de” vs. “viver para”, ainda que os resultados obtidos nos levem para uma zona cinzenta.
    Então, vou dar exemplos extremos para tentar sustentar meu argumento: se o Yuki Kawauchi não fosse bem nesta e outras corridas o que aconteceria ? Ele seria o seu pior crítico, talvez diminuíssem os convites para provas mas, no geral, a vida seguiria “business as usual”.
    Agora, imagine se o Wilson Kipsang ficar mais um tempo nessa fase não muito positiva o que vai acontecer ? Ele pode até ser “demitido” pelo seu patrocinador. Ok, exagerei para ilustrar que as consequências são bem diferentes. Outro exemplo é o do atual recordista mundial, Denis Kimetto que anda meio sumido das provas mais chamativas, não sei se por causa dos resultados que (não) vem obtendo ou para esquivar-se de “queimar o filme”, tanto que no dia da Maratona de Londres, ele estava disputando a de Viena.
    De toda forma, Yuki Kawauchi deixou de ser um de nós (que pena) pois, pelo que consta, se profissionalizou após Boston 2018.

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  2. Nishi disse:

    Num Jogos Jurídicos nacionais em Rezende a gente foi ver o atletismo, de ressaca. Só pra tirar onda, enqto o pessoal aquecia no salto em distância, o meu amigo Gabola foi lá dar um pulo. Pá, 6m30, recorde da faculdade!! Ele nunca tinha saltado nada na vida. Inscreveram o cara na hora e ele levou prata, repetindo o salto e ficando atrás de um cara da Ulbra que saltava na casa dos 7m… Isso é amador!!!

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  3. Andre Berlesi disse:

    Para mim a questão é bem simples: Se tem dinheiro envolvido não é amador. Ele recebia valores para correr? Levantava as premiações? Escolhia as provas em que iria competir em razão das premiações e etc? Tinha benefícios pecuniários, materiais e etc em razão do esporte? Se sim, ele não é amador. Não interessa se ele tem treinador ou não, se tem outro emprego ou ainda se treina somente em um período. Na verdade essa discussão é o que menos importa. O mais legal da maratona de Boston foi ver que nem só o “modelo” africano de treinamento pode dar resultado.

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  4. Fausto Flor Carvalho disse:

    Interessante sua análise….mesmo concordando com tudo o que disse, ainda assim acho que o amador comum fica entusiasmado com o resultado do Japa. Linda a história do goleiro amador, sonho de qualquer mero mortal.

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  5. Marcelo Mar disse:

    Ele por enquanto é corredor amador sim, não vive de corrida e nem de patrocinio, trabalha em tempo integral na escola de Saitama…corrida é a paixão dele, como o japa é fora de série bom para ele, pega uns podiuns em algumas maratonas internacionais!

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    • Danilo Balu disse:

      Ele não pode ter competido (por inegibilidade) em nenhum dos Jogos Olímpicos pré 88, qdo era exigido amadorismo….

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      • Marcelo Mar disse:

        Mas essa historia está para mudar, como o Yuki viu a evolução do irmão mais novo quando largou o trabalho para se dedicar integralmente a corrida e ele(Yuki) não evolui mais o seu record pessoal(2h08`14 – Seul 2013) ele está praticamente decidido a partir de 2019 se não me engano a se profissionalizar e se dedicar integralmente a corrida(maratona) visando a olimpíada 2020 Tokyo…vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos!

        obs. informações diretamente do Japão, entrevista de Yuki a uma rede TV japonesa…espero que essa informação se concretize, ele tem muito potencial mesmo não sendo africano.

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      • Danilo Balu disse:

        Parece que ele já decidiu não correr os JOs em casa…

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  6. Luis Oliveira disse:

    Balu, em qual outro esporte coletivo profissional seria possível um expectador sair da plateia e ter um desempenho razoável (não passar vergonha). Pense na NBA. Pense na NFL. Pense na Premier League. F1. Não da. Isso é uma história muito mal contada.

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    • neltonaraujo disse:

      A história de goleiros, como Scott Foster, não é tão raro na NHL. Eles tem como padrão ter três goleiros, sendo que o terceiro um das ligas menores ou amadoras da cidade onde estão. Fazem isso por logística e por ter um terceiro goleiro profissional, que só entra a cada retorno de saturno, é muito dispendioso.

      Foster vive como contador em Chicago e treina numa liga amadora. Foi escolhido pelo Blackhawks, então não é taooo desconhecido assim.

      Na NBA é possível algo “semelhante”, pois as franquias tem Times B, em uma. Liga de dssenvolvimento, formada por pessoas não draftadas, ou jogadores que perderam espaço entre os 15 titulares (o Bruno Caboclo foi um caso), ou jogadores profissionais voltando pegar ritmo depois de uma lesão. Há 3 semanas, houve a história de André Ingram, que joga no time B do Los Angeles, que esperou uma chance na NBA durante 10 anos, foi chamado, e em seus dois jogos que participou foi o MVP e ganhou equivalente a um ano na G League.

      Voltando a história do goleiro, a história é essa mesma. Vai por mim.

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    • Rafael disse:

      Auckland City, que disputou o mundial de clubes.
      Semi amador

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  7. Essa questão de amador de elite vs profissional me lembrou também o caso do Jared Ward, que foi maratonista olímpico pelos EUA no Rio 2016 (inclusive ficando em 6° fazendo 2h11) e é professor em tempo integral. Pra mim pelo menos a questão que mais impacta é o fato de conseguirem ter tempo pra treinar, se alimentar e descansar de uma maneira correta. Falo isso até por minha experiência pessoal, porque trabalho 40 horas semanais em escritório, crio três filhos e acabo treinando basicamente só no horário de almoço durante semana (nos fins de semana acabo me dedicando integralmente às crianças).

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  8. Julio Cesar disse:

    Amador ou profissional, o japonês não vai melhorar o tempo dele de 2:08 nem com reza braba.

    É o limite dele.

    Se ele se “profissionalizar” e passar a querer entrar nas majors como competidor forte, vai se desiludir rapidinho.

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  9. renataster disse:

    Eu tenho uma duvida. Eu achava que a elite tinha nome de peito e os amadores numero de peito. Eu vi que a Sarah Sellers tinha “nome” no peito. Como funciona?

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