Preço de Tênis é imposto. Mas também muito posicionamento de mercado, social e Fé, muita fé.

3 posts bem atuais falam quase tudo o que um corredor precisa saber para entender melhor o mercado de tênis de corrida no Brasil (e também lá fora). O primeiro deles é da Triathlete e questiona: por que alguns tênis custam tão mais que os outros?

Tem o YouTuber que vai tentar te convencer que existe muita pesquisa e tecnologia em tênis de corrida, o P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), o wannabe influencer que vai correr 15km com um tênis que ganhou e falar que vale pagar R$699 no novo modelo ou o jornalista que se informa lendo release dizendo as bobagens de sempre. Quem trabalha ou trabalhou com isso sabe que o P&D não tem impacto substancial no custo de um tênis. Não precisa acreditar em mim, é só ouvir outros que são ou já foram do mercado.

O texto explica que “muitas vezes, não é questão se pesquisa gera custos, mas se ela sequer foi feita”. Você vê que “muitos produtos usam o mesmo projeto fundamental. Não houve uma verdadeira pesquisa“. É duro quando o mundo de sonho de tanta gente não bate com a realidade.

Não há uma correlação positiva de preço com lesões (ou seja, quanto mais caro o modelo, menos lesões), na verdade há uma associação oposta! Quanto mais barato um tênis, menos lesões (*associação não é garantia de causa).

Preço de tênis não tem nada a ver com qualidade ao que se propõe, ele é um resultado de múltiplas causas. Ele é fruto de posicionamento de mercado, de tributo (impostos) e de demanda. O Brasil, qualquer um sabe, pois sente na pele, tem alguns dos impostos mais caros do mundo. E assim chegamos ao segundo post.

O Eduardo Suzuki fez uma pesquisa para quantificar o que já sabíamos: pagamos os tênis de corrida mais caros do mundo. O imposto responde? Com certeza. Totalmente? Não.

Aqui entra o posicionamento. É uma questão de valor percebido. Como o público brasileiro para muitos mercados atribui preço à qualidade (além de toda uma questão toda antropológica que daria margem para um pergaminho, afinal correr com um tênis que só se compra indo aos EUA ou que custou 4 dígitos te posiciona dentro da hierarquia social) você vai sempre encontrar tênis muito caros. Sim, a indústria trabalha com uma margem menor do que muita gente sonha, mas o ponto é: não há nenhum incentivo para reduzir os preços quando há… demanda.

O corredor quer qualidade (e acha que preço o garante isso), ele quer pagar caro. Por que vender algo igual por – sei lá – R$399 se pagam sorrindo R$799?

E por fim caímos na terceira publicação que cai em outro ponto fundamental do mercado. Os novos solados vieram para ficar. É item fundamental que a (argh!) tecnologia do tênis seja aparente. Elas vêm e vão. Já foi o Air da Nike, o Bounce da adidas… estão aí o Gel da ASICS, a placa da Mizuno. Você TEM que expor a tecnologia. O texto da Business Insider explica como a ideia das solas traz uma vantagem enorme: você pode moldá-la em qualquer produto, inclusive em modelos casuais (assim você pode andar tranquilo no shopping ou na balada combatendo o impacto com aquela entidade que ninguém nunca mostrou: o amortecimento).

Tênis é uma questão de preço de “tecnologia” visível, de posicionamento social e de fé, muita fé. Sem isso, você não pagaria (sorrindo) o que paga hoje.

*agradeço ao Marcel Pracidelle e ao Igor Oliveira pelas dicas!

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9 pensamentos sobre “Preço de Tênis é imposto. Mas também muito posicionamento de mercado, social e Fé, muita fé.

  1. Marcel Pracidelle disse:

    Sabia que você gostaria do texto, que realmente é bem legal.

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  2. Fausto Flor Carvalho disse:

    O preço aqui é absurdo porque o pessoal gosta de ostentar….corro há oito anos com maior frequência, uso tênis de preços médios pra baratos e nunca tive uma lesão importante….conheço gente que compra tênis caríssimos e vivem lesionados.

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    • runrerunre disse:

      Falou tudo. Brasileiro gosta de ostentar. Quantas vezes ja vi gente falando “nao quero esse Skechers nao, nunca ouvi falar! Gosto de Nike, Asics” – ou pior – quando cismam com um modelo e nao querem experimentar “Gosto de Asics, nao adianta… ” _ “Mas voce experimentou outros?” – “Nao, mas eu gosto desse” – Dai o P do Preco faz a festa nessa frase 🙂 🙂

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  3. Luis Oliveira disse:

    Falei pro Edu no dia do video (bem legal), tem uma enrome diferença entre um tenis de US$ 150 nos USA e um de R$ 450 no Brasil (pra usar um cambio simplificado de R$3,00/US$, sem impostos), que é o poder de compra do consumidor. Ou seja, um dispendio de U$ 150 é muito menos significativo para um consumidor médio estados-unidense (haaa) do que os R$ 450 seriam para o Brasileiro. Ou seja, o tenis no Brasil teria que ser MAIS BARATO para ser igual (desconsiderando sempre impostos de importação). Como este NUNCA é o caso e como nem todos os modelos são importados (ou seja, não tem imposto de importação), temos que outros fatores, como posicionamento de marca, baixa escala de produção, etc… explicam a maior parte da diferença.

    Para provar meu ponto é só olhar em calçados para basquete, que não tyem a mesma procura no Brasil que tem nos EUA e são muito mais baratos por Kg/material aqui do que são lá. Em compensação a oferta é muito mais restrita, com dois ou tres modelos e olhe lá.

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  4. Marcelo Amaral disse:

    Danilo, concordo com o tópico sobre a margem. Assim como ocorre com automóveis, algumas marcas abusam. E a galera aceita o abuso em nome do privilégio de poder ter. Quanto aos outros tópicos abordados, tenho duas considerações.

    1. Sim, pagamos caro, mas europeus e americanos também. Ninguém paga barato lançamento de tênis. Diferente daqui, os corredores não aderem rapidamente a um lançamento. Ao contrário, é um esforço bem grande para vender um tênis. Adquiri no ano passado em Paris um tênis da Kalenji, marca própria da Decathlon. Paguei 30 euros. O tênis durou mais de 500 quilometros sem chorar (tenho 1,89 e peso 85KG, o danado sofreu). Comprei depois de uma ver uma galera correndo e caminhando com ele. Ao mesmo tempo, em Londres, visitei uma loja especializada (essa: https://goo.gl/Mrt9p3) e percebi que o esforço deles é muito grande para conseguir tirar umas libras dos bolsos da galera para pagar por marca (no caso, mais de 80 libras). Eles levam as pessoas até para a rua para testar os tênis. Entre os vendedores tem uma queniana. Realizam palestras todas as semanas na loja sobre os mais diversos assuntos. Portanto, fora daqui, marca se vende com experiência. Mesmo em lojas tipo a Centauro, como a Sports Direct de Londres, tentam oferecer uma experiência diferente para vender o valor proposto pela marca. Afinal, estamos falando de uma cidade que tem Nike Town, onde o consumidor paga pelo deslumbre com a experiência proporcionada pela loja. No Brasil, pagamos aquilo que o varejista acorda com o fabricante e fim de papo. Sem palestrinha, vendedor corredor, etc. Talvez em alguma loja de bairro nobre.

    2. A tecnologia aparente é a parte mais cara de um tênis. No caso, a matriz. Não é a toa que Nike e Adidas colocam seus free e boost em tudo quanto é modelo de basquete, corrida, vôlei, etc. Eles otimizam a matrizaria e fazem variações de cabedal, que é a parte mais fácil de transformar e criar novas possibilidades em um tênis. Por isso, voltando ao ponto sobre o preço, não faz sentido a Asics cobrar 999 reais por tênis que está há dez anos com o mesmo solado e o que muda mesmo é o cabedal e alguma combinação de cor. [Nesse caso, estou repassando conhecimento, pois minha esposa é estilista, meu pai trabalha há 30 anos na indústria de calçados, tenho amigos que são gerentes comerciais de marcas esportivas e tudo o que compartilhei sobre isso nesse comentário é o que escuto das conversas deles e com eles. 🙂 ]

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    • Danilo Balu disse:

      Tenho que discordar do 1… Nós pagamos caros, eles nem tanto… Basta ver a conversão. Mas pra mim o mais importante é: eles podem pagar barato qdo querem, nós não.

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      • Marcelo Amaral disse:

        Eu costumo abstrair a conversão por conta da nossa distância do resto do mundo (somos uma das poucas grandes economias situadas no hemisfério sul) o que torna caro o transporte por mais que a Ásia forneça tudo barato. Isso também enfraquece a nossa moeda. Em resumo, deveríamos ter mais marcas nacionais do que de fora.

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      • Danilo Balu disse:

        Mas aí vc vai na Argentina, moeda desvalorizada e eles pagam mais barato…

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      • Marcelo Amaral disse:

        Justamente por isso que eu falei por último: incentivo a produção local. A Argentina tem muitas restrições a importações. Muito do que você compra lá é produzido no país. O grupo Dass, que fabrica Nike, Adidas, Fila e Under Armour no Brasil, tem fábrica na Argentina por conta dessas restrições.

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