A fauna dos influencers na corrida

No final do ano passado resolvi mergulhar por alguns dias em um mundo que reluto em acompanhar: o dos corredores que querem ser (wannabe) influenciadores digitais (influencer). É uma turma que por ser corredora (ainda que por poucos quilômetros por semana) é parecida demais para que eu continue a ignorar, mas diferente demais de mim a ponto de eu tolerar. Simplesmente não consigo ficar nesse mundo. Não consigo!

Quando estava trabalhando com marketing nesse mercado eu ganhava ($$) para tolerá-los, agora que não me pagam mais, minha paciência se acaba muito rapidamente. Apesar de não me fazer um influencer, por ter trabalhado diretamente com isso, digo que sei o be-a-bá de como funciona por dentro. Confesso que acho tudo às vezes meio triste, meio bisonho, porém nada que Freud não explique bem. Um amigo costuma chamá-los de pombos, porque basta você jogar qualquer migalha e quase todos se reúnem à sua frente.

E aqui está uma das maiores sacadas! Ofereça algo, mesmo que pouco, ou tão somente uma bandeira, como se fosse um grupo exclusivo para que trabalhem por você, de graça e em grupo. Veja o que algumas marcas esportivas fizeram: um esquadrão, um time… e os escolhidos decidem por conta defender a causa alheia. E sempre fico com pé atrás dessa turma. Esses times estão sempre correndo sorrindo como comercial de margarina ou fazendo cara de mau como se fosse um time de basquete do Bronx. Artificial, como a margarina.

E esse é um dos segredos da perspectiva para esse mercado ser de vida longa; muito longa e promissora. Longa a ponto de um conhecido desses já estar não-sei-em-qual-marca dizendo que dessa vez é o melhor tênis com qual já correu. Soa tão honesto quanto o jogador Magno Alves aos 41 anos beijando o 12o escudo de time. Só o bem iniciante compra a ideia. *Todo mundo começa a carreira de algum jeito, ninguém precisa se ofender!

Mas confesso que acho a fauna toda um show de horrores (no pior sentido). Você encontra de tudo, mas há padrões bem definidos. Você encontra a cocota de 20 e poucos anos com IMC de 20, com cara de Lolita e dezenas de milhares de seguidores. Ela vai tirar fotos sempre com shortinhos de corrida (curtinhos!), top e esconder o namorado. Por quê? Porque o público dela se faz muito de garotas que querem ser magras como ela (e que são as únicas a ler seus textões e interagir) e de maioria masculina, que não vão ler nada daqueles textões chatos e vão deixar de segui-la caso ela poste mais do que 1/3 das fotos com muita roupa, de prato fit ou com o namorado (por isso ela o esconde, repare).

Tem ainda uma versão moderna da Soccer Mom, a mulher que na verdade nem precisa ter filhos, mas tem que estar na casa dos 40 e estar bolada à base de hormônios, cada vez mais assustadoramente frequentes em qualquer academia ou consultório médico, mas nos posts faz parecer que é tudo à base de muito treino, aveia, frutas e peixe.

Ontem mesmo conversava com um grande treinador sobre o problema dessa visão romantizada e deturpada que muita mulher tem sobre preparação física (*homens parecem sofrer muito menos dessa, por assim dizer, ingenuidade… nenhum homem acha, por exemplo, que o quarterback astro da NFL ou o super-herói do blockbuster do verão tem aquele corpo à base de somente treino limpo… homens sabem o que deixam as assistentes de palco e as dançarinas-frutas parecendo nadadoras olímpicas, nossas amigas mulheres parecem mesmo não saber o real preço químico para ter aqueles corpos). Aí você tem a 40tona toda rasgada à base de bola e a menininha sarada à base de juventude e dieta hipocalórica fazendo parecer que todo mundo é assim de forma limpa, basta querer. Tirando as geneticamente privilegiadas, sabemos que não é. Qualquer um que trabalhou com esporte sabe que não é.

Uma constate bem presente é no discurso sempre se levar a sério… falar chavões sobre desempenho, prova-alvo, periodização, treino específico, dieta personalizada, importância da nutrição… sempre me pergunto se acreditam 100% no que escrevem. Bom, outro dia eu conversava ainda com uma psicóloga falando de como deve ser duro a uma atriz de Hollywood encarar o fato de que quando faz 40 anos ela deixa de estrelar filmes como protagonista e passa a ser coadjuvante como a sogra do 60tão que agora está saindo com a filha dela de 25-30 anos. É meio triste para ela, mas ela não pode dizer que não sabia das regras do jogo. Todos sabemos desde sempre. A influencer de 20 e poucos anos tanto sabe as regras que esconde o tal namorado e não posta fotos de moletom. Ela sabe o que um homem procura ver no perfil dela (não é a descrição do treino do dia nem do prato natureba). Já a de 40-e-tanto tenta disfarçar a idade à base de GH e testosterona porque o mundo, afinal, é cruel; e ninguém disse que ele era justo.

O fato é que o Instagram é uma rede social à base de imagem. No Facebook somos todos felizes, no Instagram tudo é belo e interessante, até um prato de salada. Aí o caldo entorna quando essa gente (que geralmente corre pouco) resolve gerar conteúdo escrito, informação.

Aí nãooooo… Aí não, amigo…

Vamos pular a parte da cocota que escreve textão que nenhum homem quer ler. Entremos direto na parte que influencer geralmente não tem muito a ser dito, afinal, influencer de Instagram serve para postar foto legal e motivar, não informar. E quando resolve se aprofundar a coisa degringola. Essa semana um amigo corredor-raiz mandou um vídeo de uma YouTuber iniciante na corrida dando 8 dicas sobre corrida. Fosse uma prova, ela tomava DP direto, tadinha. Mas o mais engraçado é que, como ela, parte dos influencers tem apoio de marcas esportivas. Aqui temos duas observações: marcas não entendem absolutamente nada de corrida do ponto de vista técnico. Absolutamente nada. Um dos maiores YouTubers de corrida do país, coitado, insiste em dizer que marcas são especialistas em corrida e biomecânica, sinal claro que até hoje no mercado e ele ainda não entendeu que a especialidade delas é fazer tênis. Nem vender elas vendem sozinhas! Mas não sou eu quem vai ensiná-lo… afinal, é uma ignorância conveniente quando você ganha materialmente com isso. E aí quando você olha os apoiados você acaba concordando ainda mais comigo.

E a segunda observação é que apoiar alguém de presença forte nas redes sociais é algo não muito exato, mas barato, extremamente barato. É aquele investimento que quando errado o prejuízo se dilui. Os mais conservadores vivem perguntando o porquê de não se apoiar mais atletas de ponta e sim pangarés engajados. Acontece que apoiar um maratonista profissional que treina 200km/semana demanda muito material, sai muito caro e atinge uma pessoa. E esse cara está tão mergulhado no trabalho (correr) que lhe sobra pouco tempo para postar aos seus (poucos) seguidores. É mais fácil você dar 1-2 tênis por ano para alguém que roda 20km/semana e vai te agradecer sem parar (a tese do pombo-migalha!). A fidelidade na categoria é muito barata, eu te garanto.

Como não há matemática ou uma fórmula do que realmente funciona neste modelo (ninguém, absolutamente ninguém sabe o que funciona de verdade) você pulveriza sua verba em material (que custa 30% do que custaria em pagamento em dinheiro) esperando que essa gente trabalhe literalmente de graça. E é o que eles mais fazem! Acredite, trabalhei muito com isso!

E assim, assistir da tela do nosso celular chega a ser até engraçado porque a pessoa precisa fazer valer o “investimento” que foi feito nela. O que poucos, bem poucos influencers já entenderam é que uma vez que você aceitou material de uma empresa, você sem saber já determinou o seu valor máximo à empresa, a marca assim sabe que não precisa pagar um centavo a mais por você. *e de novo, não há crime por parte de quem topa participar!

Assim como ninguém do mercado sabe o que funciona ou não nessa estratégia de dar mimo aos influencers, ninguém sabe onde isso vai parar, mas a chance é que tudo continue como está porque é o jeito mais barato de alguém fazer e trabalhar de graça por algo que um profissional cobra para fazer.

Bom, desculpe a verborragia, mas eu precisava falar dessa fauna cada vez mais rica que são os influencers no mundo da corrida! Ainda que tenha trabalhado bastante com isso confesso que em novembro e dezembro me espantei com a criatividade e o esforço de alguns em fazer parecer que o discurso deles é de graça, espontâneo e natural.

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51 pensamentos sobre “A fauna dos influencers na corrida

  1. Juliana disse:

    Danilo, excelente texto, tudo o que não queremos ver. Pior que não é só no mundo das corridas, qualquer assunto, beleza, maquiagem, comida, papelaria, viagem, modo de viver… está assim. De uma certa maneira, banalização da propaganda. Tudo é bom, maravilhoso e melhor coisa que já usei, hahahaha

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  2. Julio Cesar Kujavski disse:

    Escrevi mais ou menos a mesma coisa no Facebook do Harry.

    É muito mais barato para a marca dar presentinhos viagens e inscrições para um influencer do que apoiar um atleta profissional.

    Até porque o corredor médio não está nem aí para o atletismo o alto desempenho e essas coisas ele quer saber é de caretas sorrisos fotos bonitas e a tão falada superação.

    Aí o “influenciando” trota 7 km e posta no Instagram “treino entregue”.

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  3. Julio Cesar disse:

    Mas nem todos os influencers recebem só migalhas, alguns chegam a rodar o mundo em viagens grátis.

    E nem vamos tocar no assunto compra de seguidores e likes né…

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    • Danilo Balu disse:

      Eu acredito que haja meia dúzia (nem isso) de influencers verdadeiros na corrida, que entregam o investimento qdo ele é alto. Minhas observações em asteriscos não eram ironia, não vejo problema em quem ganha a vida assim.

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  4. Nishi disse:

    Até que os comentários estão calmos por aqui… vai ver é porque não mexeu com uma categoria profissional, onde ser o doutor ou o professor faz parte da identidade da pessoa. Com os influenciars é um pouco diferente: pouca gente assume que é em público mas muita gente assume e quer ser no privado. Assim, ninguém vai aparecer para defesa da classe.

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  5. Leo Oliveira disse:

    Balu, eu muitas vezes fico louco com as opiniões desses caras, e particularmente fico entre a dúvida em pensar se ” O Cara fala e opina com a certeza de que só a ignorância é capaz de proporcionar..”; ou ainda, o cara mal ou bem, está “correndo” atrás do ganha pão dele… o que tenho feito, e indico aos demais, e relaxar e não assistir, é o que posso fazer, sair do canal, não ler o blog, ignorar. No que tange a Maratona diversos indicam e acham normal, um cara novo (menos de 50 anos) fazer em 4 horas, é CORRIDA E NÃO CAMINHADA. Agora Balu, eu não podia deixar essa comparação passar, kkkk, você está se tornando o “Tostão das Corridas”. Paciência, Paciência, e Bom Ano Novo.

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  6. Fernando disse:

    Baita texto. Cada dia que passa, também tenho menos paciência com Instagram. Teve dia de eu fazer 16×400 e terminar o treino morto, e na sequência, tem uma foto de um 6km em 44min com textão motivacional e com título de sempre “Tá entregue” hahahaha

    Boa Balu!

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  7. Marcos Paulo disse:

    Cara, assisto uns videozinhos dessa galera, mais com intuito de me divertir, dar uma risada e tal. Ei, vez por outra, dou atenção a uma recomendação (algumas, são válidas, acredite). No restante, eu não me importo, vou mais pela atração.
    Agora, Balu, velho, uma coisa é certa, as redes sociais são um fenômeno, para o bem ou para o mal (e vice-versa, eheheheh). Os incautos que se cuidem!!!

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  8. Ale R Neves disse:

    Identifiquei a cocota de 20 e poucos anos que esconde o namorado e o cara do melhor tênis que já usou na vida, mas fiquei curioso para saber quem é a quarentona malhada. É o Nish?

    Eu tenho uma visão semelhante a sua, mas não encaro muita gente como “influencer” de fato. Eu sou curioso e assisto tudo, sem exceção, mas pra me convencer que aquele review de tênis não tem “jabá”, vai precisar se esforçar muito.

    Me divirto com alguns canais e lamento (mais assisto) outros, mas pra mim, o grande divisor de águas é quando o cara tem a pretensão de falar sério, tecnicamente sobre um assunto que não domina. Esses eu só realmente sinto vergonha alheia. Tem meta de sub 1h nos 10km mas caga regra sobre drop de tênis ou percurso de corrida.

    Eu particularmente gosto muito daqueles que usam o humor pra falar de corrida, justamente por não me soar serem pretensioso. Se assumem como “pangarés” como eu, mas ainda assim, o jabá é nítido.

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  9. Balu generalizando como sempre e nunca dando nome aos bois! Tá certo precisamos estar atentos a boiada… e quem sabe ao estouro dela! Note que boi é fauna! kkkk

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  10. Daniela Barcelos disse:

    Disse tudo!

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  11. hahaha q texto legal… eu gosto de colocar hashtags aleatórias nas fotos só pra pegar os wannabe compradores de like. Dia desses eu aparei a grama de casa com a tesoura de grama e nos hashtags coloquei #crossfit, aí apareceu aquele comentário de um perfil sei-lá-quem-crossfit com o comentário “muito legal seu treino ! foco !!” kkkkk tá na cara q isso é perfil q compra likes… pq o comentário não tinha nada a ver com a foto…

    essa fauna é mesmo muito divertida kkkkkk

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  12. Balu também é um influencer digital….mas está no lado da Força!

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  13. O textão é super motivador, cheio de chavões, misturando energia, com esporte, com termos corporativos, uma coisa meio Bahia com Egito….

    ou

    O textão é cheio de citações religiosas, católicas, budistas, evangélicas, muçulmanas, um verdadeiro evento ecumênico sobre superação…

    A foto: uma bunda!

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  14. Sebo Bis disse:

    Ai que preguiça que me dá. É assim com tudo, tem até pais e mães pagos por revistas e marcas pra dizer o que devemos fazer com os filhos. No que diz respeito a corrida, me dá efeito contrário. Quanto mais falam, mais nojo me dá. Só me interessei na receita da quarentona kkkkk pq tenho 44 anos to cada dia mais gorda e mais lenta e menos capaz de influenciar alguém com meus tênis furados, meu Garmin velho, minha cara manchada e minha vontade de tomar Todynho.

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  15. Leo Barefoot disse:

    Balu começando o ano como o Taleb! Cada vez mais birrento e obtuso! (Isto é um elogio, continue assim. rsrs)

    PS: Também sou um “influencer”. Bem verdade que tenho minguado seguidores mas são fiéis! rsrs

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  16. Paulo disse:

    Olhaaa… trabalhar de graça pra uma MARCA que tem grana pra pagar, não rola. Realmente não rola.

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  17. Luis Oliveira disse:

    Você está ERRADO. O negócio é grande e tem gente que vive disso. http://braziljournal.com/celebridades-no-instagram-um-negocio-bilionario

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  18. JONAS DIAS DE SOUZA disse:

    Pensei até em começar uma coluna num blog. Mas vou continuar só correndo mesmo.

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  19. Alf disse:

    Cara, você está muito amargurado. Achar que mídia social só vai propagar o que te agrada, ou o que você considera como aceitável, é de uma ingenuidade estranha para alguém como você que tem experiência no ramo. De qualquer forma, concordo que há muitos chatos e chatas disseminando “conhecimento” esportivo. Mas a solução para isso é simples, basta diminuir a quantidade de vezes que se acessa o Facebook ou Instagram. Não precisa fazer textão. Parabéns pela sua opinião Abraços!

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