Correndo com os Etíopes – parte 6

Uma das coisas que mais me perguntaram sobre meus treinos na Etiópia foi: como eles medem as cargas? Tempo ou Distância? A intensidade é por ritmo ou FC?

Por muito tempo, após ter já começado a estudar treinamento, eu mantive controle rígido dos meus treinos. Dia, ritmo, distância, volume. Por exemplo: 12km (4´05”/km). Ou então em treino de tiro 3km / 5×1.200 (4´08”) / 3km. Mantive isso quase religiosamente por muito tempo. Nunca revisitei. Nenhum. Se hoje tiver que encontrar, não sei nem onde achar. Está em algum lugar das minhas coisas, só não faço ideia de onde.

Depois de um tempo abandonei a tarefa de escrever meus treinos. Na verdade faço tudo de cabeça, antes e depois. No máximo em 2 treinos na semana corro com cronômetro (um Timex antigo de 100 laps). Sei o treino que fiz 2 semanas atrás e o de daqui 2 semanas. Crio um esqueleto na cabeça e vou polindo.

Eu sequer sei usar um GPS. Usei uma única vez porque na largada da Golden Run Rio o meu Timex apagou sem bateria. Importei um que está na receita faz quase um mês e eu com preguiça de ir buscar. Basicamente escrevi isso para dizer que não sou um parâmetro de comparação. Os corredores hoje acham que se não anotarem absolutamente tudo sobre o treino, ele simplesmente não existiu.

É engraçado porque o leigo confunde dado com informação. Dado não é nada, não é informação! Pior. Quanto mais dado você dá a um leigo, mais ele erra, isso porque ele aumenta sua confiança e tira conclusão de onde não se pode tirar muita coisa. O leigo se confunde com tantos dados, mas acha que o aproveita. Não há nada pior…

 

O corredor que mantem controle rígido do ritmo de treino é como um piloto que dirige freando. Ele acha bom um 5´15”/km da sessão de tiro, ainda que seja ruim. Isso porque ele impede que seu corpo possa correr mais (ex: 5´10”). Mais. Ele não sabe a sensação de correr a 5´15”/km, afinal, ele estava olhando ao relógio, entregou ao GPS a tarefa que deveria ser sua. E no dia que seu corpo quer e precisa de um descanso, ele o nega. Ele se recusa a oferecer aquilo que é algo essencial no treinamento: a recuperação.

Eu sou homem e gosto de competir. É lógico que vou querer ir sempre rápido. Por isso mesmo não controlo a absoluta maioria dos meus treinos. Deixo esse ímpeto para o dia da prova.

 

Pois bem. Voltemos à Etiópia.

 

Eu havia me proposto desde o começo a fazer 100% do que eles faziam, ainda que no máximo de uma arrogância achasse que o meu jeito poderia ser melhor.

Então eu lhes digo: eu não tenho a menor base para dizer o quanto corremos (seja quilômetro ou tempo) nem o ritmo. Eu não faço a menor ideia do volume que fiz na Etiópia nem o ritmo médio. E digo mais: estou certo que os demais atletas (locais) também não fazem.

Nos treinos leves eram claros os volumes propostos (sempre por tempo). Mas ao final da sessão propriamente dita, fazíamos os tais calistênicos (trotando, lembra-se?) sem controle de tempo. E os treinos de tiro eram feitos por estímulos por tempo sem controle do ritmo. Em um pasto pesado a 2.400m de altitude eu duvido que eu tenha corrido muito mais veloz que 4´30”/km. Ainda assim sofri.

Ao meu redor não havia muitos cronômetros (talvez 1 a cada 3 ou mais atletas). Não havia GPS (aqui um adendo, os longos são controlados por um ou outro GPS com atleta e treinador). Não havia controle de FC (o agente local vive lá há 7 anos e jamais viu algum).

Estou querendo dizer que o treino é por sensação de esforço. Não há uma Escala Borg, mas o leve é leve e o tiro de 5 minutos com pausa de 3 minutos é forte a ponto de você repeti-lo na mesma intensidade após os 3 minutos de descanso. É tão simples. Lógico! Corrida é o esporte mais simples que existe!

Por que então complicamos com métricas que têm tão pouca utilidade na prática?

Se saber a velocidade, a FC, o ritmo, o volume (em quilômetros) fosse de fato importante ou fundamental, aqueles que mais dependem da corrida, quem vive dela, faria assim também. Mas talvez estejamos certos e eles errados.

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12 pensamentos sobre “Correndo com os Etíopes – parte 6

  1. Nishi disse:

    Cara, não dá!! Como você responde à pergunta clássica “quantos km vc treina”? Ok, seu mundo é do esporte e talvez você não escute isso com tanta frequência como eu…

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  2. Fausto Flor Carvalho disse:

    Muito bom…e esses exercícios pós corrida não tem regra alguma, vai conforme o treinador pede pra fazer? É isso?

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  3. Rafael disse:

    O treino em grupo ajuda muito, não é?

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  4. “If it is not on Strava it didn’t happen!!!” rsrs

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  5. Rafael disse:

    Balu, os etíopes e kenyanos são os melhores fundidas. Na sua rápida passagem vc se surpreendeu com a metodologia dos treinos que é bem diferente do que já tinha visto. Não sei se os técnicos europeus implementam esse tipo de treinamento. Vc sabe se os europeus seguem um treinamento parecido? Se não, vc saberia por quê? Prepotência? Não acredito que seja desconhecimento. E os brasileiros?

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    • Danilo Balu disse:

      Vcs fazem pergunta difícil… Os técnicos europeus e os americanos copiam mta coisa. Mas eu acho que é mais do que método…. é tb de como vc encara tudo… de como vc vive… mesmo na Europa é difícil vc conseguir fugir do asfalto…. vc fugir da vida simples. Não acho que seja arrogância, prepotência… mas vc viu o norueguês que bateu o recorde europeu esse domingo? Passou 200 ou 300 dias lá vivendo… sem internet, respirando corrida. Corrida é mais do que fisiologia… A nós brasileiros talvez falte um pouco de tudo. Não tem resposta fácil.

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  6. Balu, também estou gostando e procurando aprender com essa sequência de relatos de treinos na Etiópia. Fiquei até com vontade de um dia treinar com eles. Lembro-me que no segundo texto você havia deixado para depois responder a pergunta “por que não ir trotando?”, você já escreveu sobre isso?

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