Correndo com os Etíopes – Parte 3: Meu primeiro treino.

Ontem falei de parte da minha experiência em minha primeira sessão de treino na Etiópia. Nos 45 minutos leves de corrida em uma espécie de pasto bem acidentado a 2.400m de altitude com muitos pinheiros ou eucaliptos, me chamou demais a atenção de como há: mudanças de direção constantes, tempo de contato curto, reativo, mesmo correndo devagar, e como há alternâncias nos ritmos de corrida, ainda que ela seja lenta. Foram 45 minutos leves, mas tudo foi muito heterogêneo, do início ao fim.

 

Porém, antes da primeira sessão não houve um aquecimento ou alongamento propriamente dito. Apenas começamos a sessão correndo mais lentamente por alguns poucos minutos. Mas foi ao final que veio outra aula que descobri depois ser regra nos treinos. O desaquecimento e alongamento dinâmico. E aqui entra (abaixo) um antigo e famoso vídeo do YouTube…

Esse vídeo mostra alguns dos exercícios com os quais terminamos todas as sessões de treinamento. Logo no primeiro dia me disseram que na época das chuvas fica muito difícil correr nos “pastos” e florestas por causa do barro, então os atletas fazem esses exercícios calistênicos por 2 horas ou mais. Vou reforçar: nas semanas fora da temporada quando não correm, eles fazem uma atividade dinâmica técnica, específica, de baixo impacto, de alta demanda energética por até duas horas seguidas.

É espantoso, mas ao ler a descrição do vídeo que coloquei acima (que é de 2013) confirma o que me disseram. Você vê que o piso está molhado por causa chuva e o autor ouviu deles que fazem esse treino por 2 horas, ainda que ele tenha assistido por 40 minutos.

Os exercícios que fizemos eram parecidos, alguns diferentes, mas em amplitudes e intensidades menores porque isso é uma espécie de desaquecimento e alongamento. Porém, ainda que não tenha sido voluntário ou proposital deles, percebi uma espécie de obsessão: o quadril. Tudo, absolutamente tudo tudo, tem um enfoque na mobilidade e flexibilidade do quadril. Tudo funciona em cadeia no treinamento deles. Nada é isolado.

Sabe os dois alongamentos mais conhecidos entre brasileiros? Aquele alongando a panturrilha na guia da calçada? Não vi em nenhum momento. E o outro, aquele alongando a coxa (quadríceps) pegando o peito do pé por trás e em pé? Vi apenas uma vez por alguns poucos segundos.

Tudo (desculpe a insistência) parece envolver cadeias (vários grupos musculares ao mesmo tempo) e um foco grande, obsessivo, na amplitude do quadril. É ele quem define o tamanho da sua passada! Não a panturrilha, não o quadríceps, não o alongamento do posterior da coxa com você deitado parado em um colchonete com alguém empurrando.

 

Alguém mais ranzinza e apressado vai dizer que no meu livro O Treinador Clandestino falo que o alongamento é ineficiente na corrida, contraproducente. Continuo achando isso. Você parado, estático, alongando isoladamente os músculos não é replicado na corrida. Essas atividades dinâmicas “exageram” um movimento, melhorando a flexibilidade, a força específica, a técnica.

É incrível, mas fizemos isso depois de todos os treinos. O alongamento como conhecemos aqui no Brasil relaxa, é gostoso, mas é inútil. Esse alongamento dinâmico – acredite – também relaxa (ainda que menos e de forma diferente), porém é bem útil. Isso porque ele se parece com corrida. Aquilo que se faz deitado não tem nada de corrida.

 

Amanhã falo de outra sessão, que foi leve também, mas ensinou demais. Mas antes, separei abaixo 3 outros vídeos com mais alongamento dinâmicos que achei no YouTube!

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6 pensamentos sobre “Correndo com os Etíopes – Parte 3: Meu primeiro treino.

  1. cadu G. disse:

    Balu, esses alongamentos dinâmicos que você chama são muito parecidos com exercícios educativos de corrida aqui no Brasil, não?

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    • Danilo Balu disse:

      Parecidos, não iguais. Por exemplo, há MUITA coisa feita fora do plano sagital, que é o plano frente-trás, o básico da corrida… há MUITA coisa lateral, tipo o que vc observa em jogadores de futebol aquecendo. Ha muita coisa com enfoque na mobilidade do quadril e algumas coisas com extensão de perna que vc vê muitos saltadores (atletas de pista) fazendo em seus treinos. Notei que há MUITA coisa fora desse plano sagital. Foi meio que um choque. rsrs

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  2. Marcio Manzi disse:

    Comecei no Pilates há 3 meses, a primeira coisa que me perguntaram foi como eu consigo correr se não tenho mobilidade no quadril !!!!!! Olha a diferença o profissional conhecer o que faz.

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  3. adrianapiza disse:

    Agora entendo melhor isso de aterrisar com o calcanhar ou médio pé. Aqui virou uma neura, e o resultado é que tentamos aterrisar com o médio pé a todo custo achando que é o correto, só que fazendo todo o resto errado. Fica forçado! De que adianta aterrisar com o médio pé se esticamos a perna e jogamos ela esticada lá pra frente? A atenção não pode ser na aterrisagem, mas no movimento todo, aterrisar com o médio pé é consequência do movimento e não o objetivo a qualquer custo. E estou vendo a importância desses exercícios de flexibilidade de quadril, levantar joelho, e consequentemente cair lá na frente com o médio pé. Sem essa flexibilidade o calcanhar chega primeiro…não adianta na hora de aterrisar esticar o pé para cair com a ponta ou médio pé…
    Adorei esses exercícios, e o relato.

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  4. […] como falei nos outros textos (aqui, aqui e aqui), a verdade é que eles correm diferente nos treinos leves. Na verdade eles correm, só que leve. […]

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