Os corredores amadores estão mais lentos

As pessoas gostam de acreditar que as últimas décadas teriam trazido um avanço que seria tão significativo nas tecnologias de equipamento, no treinamento e nutrição esportiva que hoje os atletas teriam um desempenho muito superior aos atletas de gerações passadas. Mas será que essa suposição que até parece plausível sobrevive à verificação?

Pois um levantamento do Run Repeat veio reforçar mais uma vez aquilo que parece fato a quem observa os números dos atletas amadores: o corredor médio está ficando cada vez mais lento. Mais grave do que isso: o corredor amador americano nunca foi tão lento! Para chegar à essa conclusão o site analisou quase 35 milhões de resultados de cerca de 30.000 corridas entre os anos de 1996 e 2016. E o resultado é desanimador aos que argumentam que tecnologia nos faz mais rápidos.

A piora do tempo do americano médio é alto! Em 20 anos ele está 39 minutos mais lento nos 42km e 18 minutos mais lento nos 10km. Ou seja, não é pouca coisa!

A primeira limitação desse tipo de levantamento é argumento que isso era esperado, uma vez que o número de concluintes nas corridas de rua explodiu nas últimas décadas. Não deixa de ser verdade. Mas é ainda uma meia verdade. O site dinamarquês teve esse cuidado ao analisar também a velocidade média do 100º, do 1.000º e do 10.000º corredor! E o que mais espanta é que se por um lado a elite não perdeu velocidade, os corredores amadores mais rápidos e os da rabeira estão mais lentos. E é uma queda de desempenho que atinge mais fortemente os homens, mas também é notado entre as mulheres.

Vale sempre reforçar que quando o assunto é desempenho, os atletas da primeira metade do século passado são tão rápidos quanto os da atualidade. Sim, muito por causa da profissionalização, da entrada dos africanos no cenário competitivo mundial e da disseminação do doping, os vencedores das grandes provas e recordes hoje são mais velozes. Porém, quando olhamos para o número de corredores que baixam de uma hora em um evento quase centenário como o Tely 10 (prova canadense de 10 milhas) vemos que nem a explosão no número de corredores, nem os produtos modernos foram capazes de trazer aumento substancial na quantidade desses atletas.

Ou ainda, em distâncias maiores, quando analisamos as Maratonas de Nova Iorque e a de Boston desde 1977 até hoje, vemos que os tempos do 100º colocado vêm piorando, ainda que o número de participantes aumente na casa das dezenas de milhares de corredores. O mais interessante é que a queda coincide justamente quando as estratégias de hidratação foram se tornando mais rígidas para uma suposta melhoria de desempenho. E foi também bem depois dos anos 70 as maiores intervenções de tecnologia nos calçados.

E isso é um enorme paradoxo. Se a tecnologia de calçados, hidratação e suplementos e os novos métodos de treinamento trouxessem ganhos substanciais no desempenho e menos lesões, nós deveríamos estar mais rápidos. Mas estamos proporcionalmente mais lentos.

BRASIL

No Brasil infelizmente não temos um histórico de desempenho, mas os dados que compilei de 2014 para cá revelam a mesma tendência: estamos (brasileiros e brasileiras) ficando mais lentos (cerca de 2 minutos por ano nos 42km e metade disso na Meia Maratona).

Mas… o que causaria essa perda de desempenho entre amadores?

As teorias são várias. A mais fraca para mim passa pelo aumento a obesidade. O peso é um fator muito determinante no desempenho na corrida de longa distância, e uma vez que a população está mais pesada, mais gorda, ela corre mais lento. Faz sentido, mas não me convence 100%. Outro argumento é que a entrada de novos corredores inexperientes reduz a velocidade média, afinal, inexperientes tendem a ser mais lentos que os treinados experientes.

Esses 2 pontos fariam sentido não fosse o fato que já foi dito de os amadores rápidos também estarem ficando mais lentos. Então temos um problema em aberto.

Um fator que não se pode negar é como a atual sociedade encara a corrida. Se antes ela era um esporte de aficionados que devoravam conteúdo querendo superar marcas e correr se espelhando no que faziam os melhores do mundo, hoje temos uma legião de praticantes que encaram a corrida como uma terapia. O ato de completar, não importa o tempo ou se for andando por boa parte do percurso, é o sinal de vitória. Guerreiro é quem completa. Não é necessário ser (mais) rápido para ganhar a alcunha. Vivemos um mundo imediatista com tanta coisa disputando nossa atenção em nossa rotina que a dedicação, o tempo e a paciência que a corrida exige para se obter os melhores resultados encontra agora muitos concorrentes e pouca motivação. E aí ela perde, ainda que em parte. E a perda de desempenho em amadores é talvez seu maior sintoma.

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19 pensamentos sobre “Os corredores amadores estão mais lentos

  1. Com relação ao trecho abaixo, um fator possível não pode ser justamente a proliferação de maratonas?
    Antigamente os mais rápidos iam mais para essas grandes maratonas. Agora eles podem escolher bem mais para onde querem ir.
    Seria interessante então termos algo parecido como o Ranking de Maratonistas da Contra-Relógio e ver o que aconteceu.
    Ainda assim acho (só chute) que o tempo médio deve ter aumentado pois o peso da população aumentou por conta da má dieta (fator principal) e das facilidades que levam ao sedentarismo (fator secundário).

    “Ou ainda, em distâncias maiores, quando analisamos as Maratonas de Nova Iorque e a de Boston desde 1977 até hoje, vemos que os tempos do 100º colocado vêm piorando, ainda que o número de participantes aumente na casa das dezenas de milhares de corredores. “

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  2. Claudio Lemos disse:

    Mas o fato dos amadores encararem a corrida como terapia não é necessariamente ruim.Ao menos estão fazendo algo pelo próprio bem-estar não? Como você mesmo mencionou no texto, a elite está mais rápida. Sei lá, cobrar performance de amador é meio paradoxal ao meu ver…se o cara quisesse realmente correr rápido ou fazer disso uma missão de vida, ele deveria se profissionalizar e buscar tempos menores. Não parece que isso seja o propósito de quem correr amadoramente. De qualquer forma não deixa de ser interessante ver os numeros
    abs

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  3. Kleber disse:

    Minha observação seria a mesma do Adolfo. Com o aumento no número de provas, a elite se divide muito, há pouquíssimos atletas de 1° nível em cada maratona, o que acaba fazendo com que para alcançar o 100° lugar não seja necessário ser tão rápido assim. Talvez isso influencie bastante.
    Acredito tb que a entrada prematura na maratona seja uma outra causa, tenho visto muita greve que não corre nem 21 e já está querendo fazer 42, e vai lá se arrastar na maratona sem o devido preparo.

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  4. adrianapiza disse:

    O número de corredores aumentou, e como você disse, o objetivo mudou. Agora o objetivo é muito mais completar do que pensar em tempo. Mas para explicar porque os amadores fortes também ficaram mais lentos, concordo que talvez agora tenha muito mais corridas, muito mais opções, e eles se dividiram.
    Lembro acho que após a São Silvestre de 2012, eu peguei alguns números da SS desde 1998, e comparei com outros anos, até 2012 (você chegou até a citar aqui no blog). O número total quase dobrou (homens) e mais que quintuplicou (mulheres), porém o número dos sub 50min ou sub 60min e no caso de mulheres o sub 75min caiu em números absolutos! É uma análise mixuruca…mas já diz alguma coisa nesse sentido também. Imagino que agora isso fique mais gritante, com a SS sendo quase uma procissão.
    Se é bom ou ruim? É ótimo do ponto de vista de saúde, correr nunca esteve tão na moda. Porém desde que não haja modismos exagerados de achar que tem que completar uma maratona a qualquer custo para ser guerreiro.

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    • Ciro disse:

      Me desculpe discordar, mas não acho que seja bom para a saúde pelo simples fato que na população de modo geral, o índice da saúde esta piorando.
      A população esta mais fora de forma, fora do peso (para cima), mais doente, ou menos saudável, e isso implica diretamente sobre o corredor.
      A pessoa que corre faz parte dessa população e muitas vezes esta usando a corrida para tentar chegar numa boa forma desejada ou indicada por um médico.
      Como o Balu diz, a corrida não deve ser usada com o propósito de entrar em forma pois não é o melhor meio para chegar ao fim.

      Quem esta correndo com uma saúde ruim, esta com um estopim de dinamite próximo de um fósforo aceso.

      Quantidade de provas aumentou porque a quantidade de pessoas correndo aumentou, e provavelmente esses números são de países que também tem as maiores taxas de pessoas doentes ou fora do melhor da sua saúde.

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  5. Julio Cesar Kujavski disse:

    Conheço uma moça que começou a correr faz, sei lá, no máximo 2 anos, e este ano pra mostrar que é guerreira e pra receber muitos elogios e likes, correu a maratona de POA gravida de 14 semanas… Se eu fosse o pai simplesmente proibiria.

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  6. Iori Yagami disse:

    É uma vergonha para nossa geração! Parem de postar treinos no instagram e vão sofrer de verdade nos treinos!!!!
    A geração mimimi não sabe o que é uma guerra, não sabe o que é dor, estão fadados a desculpas esfarrapadas!!!

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  7. Iori Yagami disse:

    Complementando:
    “Treinamento não é nada! Vontade é tudo e vontade é agir”
    Ra’s Al Ghul

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  8. Fausto Flor Carvalho disse:

    Brilhante a conclusão do texto, Balu…assino embaixo.
    Estive esse ano nos EUA, fiz duas corridas de 5 km…na primeira fiquei no pelotão intermediário…na segunda fiquei em 9 lugar no geral com 24:15….na maioria das corridas aqui, fico mais no pelotão intermediário…
    Minha impressão é que aqui temos amadores um pouco mais dedicados que lá…no pelotão da frente

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  9. Isabel Lopes disse:

    Acho também que o clima tem piorado muito, muito quente ou muito seco ou muita poluição…isso atrapalha…

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  10. msanches35 disse:

    Putz cara, vc denovo dando Ibope para análise vagabunda. Depois dessa eu só posso concluir uma coisa: vc é igual todo o resto, coloca um headline para atrair click, depois fica patinando prá lá e prá cá sem dizer nada.

    Foi engraçado vc querer usar a queda no tempo dos pangarés como evidência de que a tecnologia não ajudou nada. Fala sério! Como vc faria para tentar mostrar se a tecnologia ajuda ou não? Well, vc teria que fixar as outras coisas, especialmente o nível do corredor, e variar a tecnologia. Como vc fixa o nível do corredor? Pegando o centésimo? Hahaha, eu que sou pangaré já fiquei muitas vezes em posição melhor que essa!!! Eu subi no pódio 3 vezes e sou muito mais lento que vc! Uma das forma de controlar seria seguir o mesmo corredor por alguns anos, mas teria o problema da idade. Outra é pegar a elite da elite, pois é a única forma de garanter que o nível é o mesmo. Engraçado que eles analiza a proporção acima de 8h na maratona, talvez esse grupo também possa ser considerado como mesmo nível assim como a elite da elite e, adivinha, o tempo entre eles não parece piorar!!! Mas obviamente eles não concluem isso porque não faz parte da agenda deles! Finalmente, pode se fazer experimentos, quem diria! Sim, coloca o mesmo corredor para correr com diferentes tecnologia, devem ter feito isso mas vc nem procurou artigos, pois o resultado pode não ser bom para a sua agenda de criticar a tecnologia e avanços!

    E o artigo do RunRepeat, uma pérola estatística! É tão ruim que eu ainda acho que vc tem alguma ligação com esse site para ficar promovendo ele. Se gabam de ter uma amostra nos milhões como se valesse algo. São os experimentos aleatorizados, que geralmente tem poucos indivíduos, que trazem o maior nível de evidência, mas o mundo tem tanto ignorante que vale apena repetir os milhões tanto quanto possível! A definição deles de p-value é uma não definição.

    Qual é a conclusão, sua ou do artigo? Que a galera tá ficando mais lenta. Uau, que novidade! Praticamente todos que comentaram não ficaram surpresos e tem uma explicação para isso!

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  11. Alfredo Madeiro disse:

    Perfeito! Parabéns ! Na minha opinião, corredor de rua há cerca de 10 anos , o problema do corredor Brasileiro, com algumas exceções, é a falta de compromisso, de dedicação aos treinos, a maioria faz a corrida dos 5 ao 21km como diversão, uma oportunidade de encontrar os amigos e postar fotos nas redes sociais.. O.que importa é concluir. Poucos se dedicam diariamente ao treino.

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  12. Rafael disse:

    uma pesquisa interessante seria,
    diferença entre o desempenho de corredores das cidades pequenas
    cidades médias
    e grandes cidades.

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  13. Messias Martins disse:

    Sempre instigante, Balu. Amei a matéria e a informação. Para mim o blog mais completo e mais eclético do universo runner. E de números você entende.
    Eu mesmo me pego pensando que nós temos perdido a simplicidade, a alegria do correr. Com tanta viadagem, GPS, o tênis, o isotônico, o gel… agora tem até a meia, a câmara, o “pau” de self… Resultado? Lentidão e masturbação mental.

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  14. […] Na semana passada escrevi um texto falando de uma longa análise do site dinamarquês Run Repeat (RR) com dados de 35 milhões de resultados de provas americanas que concluía algo que parece já não ser de todo surpreendente: os atuais corredores AMADORES estão cada vez mais lentos. Isso é observável quando olhamos para os anos 70, 80 e mesmo 90. E é um fenômeno não necessariamente americano. De 2014 para cá com meus cálculos das velocidades medianas das provas brasileiras de 21km e também 42km o padrão é similar: o tempo de conclusão sobe cerca de 2 minutos por ano na Maratona e metade disso na Meia Maratona. […]

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