De homeopáticos e por que também não recomendo tênis

Soubemos dias atrás que remédios homeopáticos vendidos sem necessidade de prescrição nos EUA agora terão que conter um aviso dizendo que são baseados em teorias antiquadas “não aceitas pela maior parte dos médicos” e que “não existe evidência científica de que o produto funcione”. Outra particularidade que poucos sabem é que para você vender um suplemento nutricional você NÃO precisa demonstrar que ele serve para algo. Você precisa apenas demonstrar que ele é seguro no CURTO prazo! Nem sua composição é controlada devidamente. Ambos, homeopatia e suplementos, têm um mercado que ultrapassa a casa da centena de bilhões de dólares.

Faz um tempo que eu me pergunto o que aconteceria se do dia para a noite fosse exigido das fabricantes de tênis de corrida para que colocassem nas caixas dos tênis um aviso explicando que os alegados benefícios com controle de pisada, redução de impacto, de capacidade de amortecimento e redução de lesões são promessas baseadas em teorias antiquadas “não aceitas pela maior parte dos especialistas” e que “não existe evidência científica de que o produto funcione”.

tipos-de-pisadasAssim como aconteceu com o cigarro, ainda acho que um dia a indústria de refrigerante e açúcar vai começar a lidar com problemas judiciais de consumidores que não foram devidamente alertados do custo fisiológico de consumir seus produtos, já que são piores do que apenas calorias vazias.

Pois será que um dia a indústria de tênis também terá algo semelhante, uma vez que alega proporcionar benefícios que quase 40 anos de pesquisas ainda não econtraram resultados consistentes?

Essas eram ideias que compartilhava em conversas com o Alexandre Lopes, a quem convidei para escrever comigo um capítulo em meu livro explicando que redução de lesões, controle de pisada, amortecimento, arco do pé, drop… que tudo, absolutamente tudo o que a indústria promete e propagandeia, ela não entrega evidências mínimas de que sirva para algo em NOSSO benefício.

Pois ontem publiquei um vídeo postado pelo Sergio Rocha do Corrida no Ar no qual ele explica o porquê ele não indica tênis algum. Sem calcular comentei que concordava com 99,6% do conteúdo. E motoboys de treta me perguntam onde exatamente eu discordo. Se ainda não viu, antes de continuar você terá que ver o ponto de vista dele aqui.

Em grau bem menor eu também ficava recebendo muitas dessas perguntas. Acho que de tanto explicar meus pontos, hoje ninguém perde seu tempo me questionando. Tal qual o Sergio, gosto de tênis baixo, flexível, drop pequeno, leve e, principalmente, barato. Me distancio dele apenas quanto à questão do amortecimento. Ele gosta de pouco. Eu já vi cabeça de bacalhau, mas amortecimento e tipo de pisada ainda não. Então nem entra como quesito de compra para mim. Seguindo. Tal qual ele, não acredito na bobagem de tênis de acordo com prova e peso do corredor ou de quilometragem antes de trocar (estou atualmente correndo com um que está comigo desde 2011)… Essas teorias são de dar risada…

capa_treinador-clandestino_altaUma metáfora que ele usou é dizer que tênis bom é igual árbitro bom, você não o vê, é um mero coadjuvante. Pois meu único adendo é justamente na questão do conforto. Acho que o tênis tem que ser confortável apenas nas costuras e em não apertar seu pé. SÓ. Os corredores buscam tênis com solas macias e protetoras que atrapalham a técnica de corrida porque tiram um feedback sensorial fundamental. Correr é desconfortável. Fazer força na academia é desconfortável. Jejuar é desconfortável. Mas um desconforto assimilável é FUNDAMENTAL. É após o estresse que o corpo assimila a carga e se adapta. É com o estresse e o desconforto em NÃO ter muito suporte durante a pisada que o corpo encontra o melhor jeito para correr. Treinador ajuda, lógico. Mas ele NÃO compensa NUNCA um pé escondido em cima de um bloco de borracha porque seu treinador não dará o feedback sensorial ao qual você abriu mão. Era só isso.

Este post é uma explicação sucinta, eu sei. Se você se interessa no tema, me orgulho demais de ter escrito ao lado do Alê Lopes, o cara que para mim mais entende desse assunto no Brasil, um capítulo inteiro mostrando estudos nunca antes listados em uma publicação brasileira. Em O Treinador Clandestino está tudo lá! Era isso!

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13 pensamentos sobre “De homeopáticos e por que também não recomendo tênis

  1. Julio Cesar Kujavski disse:

    Por essas e outras meu tênis pra prova ainda é o Adizero Adios 2, acho que está comigo a uns 5 anos ou mais.

    Pra treinar tenho três no momento, um Asics Noosa Tri com uns dois anos de uso, um Under Armou com três anos, e acabei de comprar um adidas Zero Bounce por R$ 230,00, mais por olho grande mesmo, porque não estava precisando.

    Toda hora fico olhando tênis na internet, mas nunca compro.

    Queria um Adidas Takumi, mas por R$ 700,00 não vai rolar. Queria também um New balance modelo 1400 ou 1600, mas tb estão na faixa de R$ 600,00, então deixa pra lá.

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    • Pedro Ayres disse:

      O curioso é que aparentemente passaram a achar barato tênis custar 200 reais. Claro, a culpa é da crise. Lembrando que em época de vendaval há quem aumente o preço da lona para quem perdeu telhado… Eu não compro essa versão-crise.

      A corrida pode ser o esporte mais democrático do mundo, mas o universo que a cerca não é esse conto de fadas. Assessorias, provas, equipamentos… Treine na pista, com tênis surrado, sem assessoria, sem ser algum figurão conhecido e veja. Nas provas é a mesma coisa. Se começar a aparecer muito “feio” de boné aba reta, não vai faltar gente desconfortável, talvez surja até um movimento de levar provas de corrida para a comunidade (a.k.a. gueto).

      E lembrando que gostamos de pagar caro por distinção social, mais ou menos como discute esse artigo:

      http://www.outsideonline.com/2038026/why-your-gear-so-expensive

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      • Julio Cesar Kujavski disse:

        Pois é, os tênis ficaram tão caros que eu já acho barato um de R$ 230,00. Eu achava o ciclismo um esporte caro e elitista, mas hoje em dia, desconsiderando apenas o custo da bicicleta, a corrida tornou-se tão cara e elitista quanto o ciclismo.

        Tem corrida de montanha, aventura, sei lá como chamar, que a inscrição custa mais de R$ 300,00, já vi acima de R$ 500,00.

        corridas de asfalto também estão com preço inflacionado, eu mesmo outro dia paguei R$ 95,00 pra correr uma prova de 5 km. É caríssimo.

        Junte preço de inscrição, tênis, assessoria, roupas e penduricalhos e vamos ver que a corrida tornou-se um esporte bem caro.

        É muita frescura, hoje em dia a pessoa não quer nem ir pegar o kit, a assessoria pega.
        O corredor chega na hora da prova e vai pra barraca da assessoria, lá tem tudo, o seu kit esperando, gatorade, café da manhã, massagem, se bobear tem até uma cervejinha e logo vão instalar chuveiros para o banho antes de voltar pra casa.

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      • Danilo Balu disse:

        As ultimas 2 corridas que fui tinha cerveja na dispersão…. chuveiro seria engraçado! hahahaha

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  2. adrianapiza disse:

    A natureza é perfeita, construiu o pé cheio de músculos, a sola do pé cheia de receptores que levam a informação ao cérebro para que possamos ficar em pé, andar, correr… aí a gente desde que nasce já coloca aqueles sapatinhos de sola dura onde nem sentimos o chão. E assim crescemos, mal sentindo o chão e querendo cada vez mais conforto (tanto nos pés como em todas as atividades que fazemos no dia a dia). Sempre tratamos os pés como se fossem apenas apêndices para apoio, esquecemos que tem inúmeros músculos, receptores, que foram feitos para funcionar, usando esses músculos, usando esses receptores, e não apertando dentro de sapatos duros. Aí tem as palmilhas, algumas que até “simulam” os pontos a serem ativados na sola do pé, querendo consertar o que já é perfeito, quando na verdade bastaria tirar a sola alta, dura, o bloco de borracha, e não colocar mais uma coisa!
    Mas o grande problema que vejo é que depois de 20, 30 anos com sapatos duros, tênis altos, com amortecimento, confortáveis…o pé já era, não adianta agora jogar tudo fora e começar a usar tênis flexível, baixo, minimalista. É dar um tiro no pé! Precisa ser aos poucos, fazer muito exercício, reaprender como se usa a musculatura e sola do pé, porque colocar o pé que temos hoje pra correr num desses minimalistas de uma vez só, um pé bobo, sem sensibilidade, sem músculo, sem saber usar os músculos que existem nele, aí sim penso que virá lesão! Precisa de uma adaptação que será desconfortável, mas faz parte do processo.
    Por isso, já sugeri uma vez (acho que o Sérgio fazia alguma coisa assim)….sugiro de novo: que tal uma clínica com você, Raquel, Sérgio, sobre pés? Desde como funciona, ou deveria funcionar, teoria e prática!!!

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    • Carlos Tomita disse:

      Nossa Adriana Piza, disse tudo! Só para dar um pouco de humor e reforçar a sua colocação: porque as mamães e papais tão zelosos não colocam luvas nas crianças o tempo todo? Qual o sentido de “proteger” tantos os pés e as mãos não? Tenho uma filha de 6 anos e incentivo ela a andar descalça a maior parte do tempo… o pior de tudo é essa moda de tênis com rodinhas no calcanhar que a criançada está usando agora…

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    • Ricardo Neto disse:

      Olá Adriana. Excelente seu comentário. Penso, também, que seria muito bom um debate/clinica com Sérgio, Balu, Raquel e Alê Lopes, mas sem o Nishi. Nada contra ele, mas tumultua e tira sarro demais e não deixa ninguém falar.

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  3. Balu, muito bom. Respondido o 0,06%. No final, talvez seja até menos! Parabéns pelo trabalho!
    Já corri com alguns tênis que tiveram seus “sistemas de amortecimento” vencido pelo uso/tempo, tornando-se, inclusive, desconfortável para o uso. Nesse aspecto os Mizuno, que fazem “amortecimento” por placa, talvez, sejam os piores na deterioração tempo/uso, pois as placas relaxam e a estrutura da espuma nas partes anterior e posterior do pé acabam causando desconforto no pé médio, inclusive no arco-plantar. Ou seja, pode ser que os “sistemas de amortecimento” resultem na influência da vida útil do próprio tênis. Pois, se não fossem os “sistemas”, o cabedal, solado e outras estruturas, os tênis pudessem ser utilizados por mais tempo. Se for assim mesmo, a questão da propaganda sobre os tênis fica ainda pior: pois, num momento, eles vendem a necessidade do “sistema de amortecimento”/pisada/peso-prova, num outro momento, fica a duração do tênis com esses “sistemas”, pois essas estruturas se deterioram e podem até machucar o usuário… Círculo vicioso de dependência formado! Negócio super garantido!…. Em breve, vão lançar um leesing para tênis de corrida… Para comprar o Mizuno Prophecy (juro que não é implicância!!!) em seus 1500 dinheiros…

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    • Danilo Balu disse:

      Leonardo, o que gera MTA confusão é o term amortecimento…. cushioning em inglês é “acolchoamento” não amortecimento. Essas espumas (ou gel) geram conforto, não redução de carga, é diferente do amortecimento de um carro, por exemplo… o cushioning do tênis está mais para a poltrona em que vc senta! O problema do uso excessivo é que o tênis se distorce (seja placa ou espuma), esse é o problema, não ele não mais amortecer, já que ele de cara já NÃO amortecia! A vantagem de tênis minimalistas é que eles pouco mudam estruturalmente por terem menos entressola.

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  4. Também sou da linha do pouco peso, pouco drop. Pra que correr com um colchão ou um tijolo no pé?

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  5. Estou chegando atrasado e vou postar um link de uma matéria sobre uma nova pesquisa relacionada a caminhar/correr descalço (e que tem a ver com seu texto):

    http://g1.globo.com/bemestar/noticia/andar-e-correr-descalco-faz-bem-a-saude-estudo-nao-encontra-riscos-nem-beneficios.ghtml

    O texto é bom. Diz que não há nada de mágico em correr e caminhar descalço e eu concordo. E continuarei correndo e andando descalço ou com miminalistas. Já que não é pior, não há razão para evitar.

    Mas o vídeo que complementa o texto é muito ruim!

    O ortopedista brasileiro sugere “absorção de impacto”,”arco do pé elevando”, “impacto sobre o calcanhar menor”, “pisada constante” como razões para usar tênis. Mas não há evidência de que isto ajude! E você acabou de listar as razões acima (e parece que tem mais no livro, certo?).

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